Skip to main content

Full text of "Banaco, R. A. ( Org.). ( 1999). Sobre Comportamento E Cognição ( Vol. 1)"

See other formats


Sabre, Comportamento 

e Cognição 

Aspectos teóricos, metodoloqlcos e de jor mação em 
Análise do Comportamento e Terapia Coqnítivista 

Orqantzada par: Uoberta *4tves lUtnuco 



Ana Teresa de Abreu Ramos-Cerquoira • André Luiz Jonas • Bornard Pimontol Rangò • Doisy das Graças de 
Souza • Donis Roberto Zamignani • Éríca Maria Machado Santarém • Emmanuel Zagury Tourinho • Edwiges 
Forroira do Mattos Silvares • Fani Eta Kõm Maiorbi • Holene de Oliveira Shinohara • Hélio José Guilhardi • Jair 
Lopes Júnior • Júlio César Coolho de Rose • Lincoln da Silva Gimones • Lorismário Ernosto Simonassi • 
Luc Vandonborghe • Luiz Fernando do Lara Campos • Maria Amália Pie Abib Andery • Maria Amélia Matos • 
Maria Holona Loito Hünzikor • Maria Luisa Guedes • Maria Martha Costa Hübnor • Maura Alvos Gongora • 
Nilza Michelotto • Rachel Rodriguos Korbauy • Roberta Kovac • Roberto Alves Banaco • Sérgio Vasconcelos 
de Luna • forosa Maria do Azevedo Pires Sério • Verônica Bendor Haydu • Wagnor Pores • Wilton do Oliveira 


Sobre 

Comportamento 
e Cognição 

Volume 1 

Aspectos teóricos, metodológicos c de formação em análise do 
comportamento e terapia cognitivista 


Ortfiinizudo por; Roberto Alves Banaco 


Ano: 1999 
2* edição 



Santo André, 1999 




Copyright © 1999 da: 

ARBytes Editora Etda., Santo André. 1999. 
Todos os direitos reservados 


Ramos-Cerqueira, Ana Teresa de Abreu, et al 

R142sSobro Comportamento e Cognição: aspectos toóricos, 
metodológicos e de formação em análise do comportamonto o terapia 
cognitivista. - Org. Roberto Alves Banaco. 2* od. Santo André, SP: 
ARBytes, 1999. 

555p. 24cm 

1. Psicologia do Comportamento e Cognição 

2. Behaviorismo 

3. Psicologia Individual 

CDD 155.2 

CDU 159.9.019,4 _ 

ISBN 85-86990-04-3 


Gerente Editorial: Teresa Cristina Cume Grassi-Leonardi 
Gerente Comercial: João Carlos Lopes Fernandes 
Capa: Marcos Paulo Cappelli 

Editoração Eletrônica: Maria Claudia Brigagão e Solange Torres Tsuchiya 
Ficha Catalográfica: Margarida Gervásio Coelho 

Revisão Ortográfica: Alessandra Biral, lolanda Maria do Nascimento e Juliana A. Diragitch 


Todo» os direito» reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer melo ou processo, ospeclalrnente 
por sistemas gráficos, microfllmlcos, fotográficos, reprográflcos, (ortográficos, vldeográficos Vedada a memorização 
e/ou recuperação total ou parcial em qualquer sistema de processamento de dados e a inclusão de qualquer parlo da 
obra em qualquer programa juscibemético. Essas proibições aplicam-se também às características gráficas da obra e 
à sua editoração. A violação dos direitos autorais é punível como crime (art 184 e parágrafos, do Código Pnnal, cl Loi 
n» 0 895, de 17.12.80) com pena de prisão e multa, confuntamente com busca e apreensão e Indenizações diversas 
(arilooa 122 123. ma. aaa de^4. 12.73 Lei dos Direitos Autorais) 



RRBU* 

i ni I r,i *Ã 


Solicitação de exemplares poderá ser feita á 
ARBytes Editora Etda. - Av. Padre Anchicta, 372 - Bairro Jardim - Santo André 
SP - Cl iP 09090-710-Tcl/Eax: (Oxxl I )4979-4h(W 
Internet: www.arhytes.com.hr 


Eotolito: Color Graphics Bureau 
Gráfica: MHW Gráfica c Editora Etda. 






"o aquilo quo nosso momento se revelará aos povos 
surpreenderá a todos, nào por ser exótico 
mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto 
quando terá sido 

o óbvio..." 

Caetano Vcloso 
(Um incito) 


Este livro é dedicado a todos os autores que 
contribuiram com seus trabalhos para que a coleçáo 
Sobre Comportamento o Cognição se tornasse 

realidade 


Roberto Alves Danaco 



Apresentação 


Organizar estes livros foi um desafio e uma alegria. Reunir textos de diferentes 
autores é sempre uma tarefa complicada. Alinhavar várias exposições feitas em sessões 
de palestras, conferências e mesas redondas realizadas em datas e lugares diferentes, 
por diversos profissionais de todo o Brasil, é ainda mais difícil. No início, parecia que o 
único ponto em comum entre os vários trabalhos é que tinham sido apresentados nos 
encontros da ABPMC nos anos de 1993 a 1996. Depois, percebemos que poderíamos 
fazer uma organização mais detalhada, e o resultado foram três volumes de uma mesma 
coleção: 

Sobre Comportamento e Cognição 

Vol. I: Aspectos teóricos, metodológicos e de formação em análise do 
comportamento e terapia cognitivista. 

Vol. II: A prática da análise comportamental e cognitiva. 

Vol. III: A aplicação da análise comportamental e cognitiva no hospital geral e nos 
transtornos psiquiátricos. 

Enquanto organizadores, agradecemos a oportunidade de ter tido em mãos, 
previamente, este material rico em informações, as quais tanto esperamos para solucionar 
nossas dúvidas, orientar nosso trabalho clínico e usarmos com nossos alunos como ma¬ 
terial didático. Este é mais um esforço da comunidade de psicoterapeutas cognitivos, 
terapeutas comportamentais, analistas do comportamento, médicos psiquiatras, 
professores universitários e pesquisadores coroados de êxito por seu alto nível filosófico, 
científico e tecnológico. A ABPMC merece os parabéns. E a comunidade pode agora 
festejar e usufruir desta obra. 

Em nome da ABPMC e dos organizadores dos três volumes, eu gostaria de 
agradecer algumas contribuições inestimáveis para que fosse possível realizá-los: 

Aos ex-presidentes da ABPMC, Hélio José Guilhardi e Bernard Pimentel Rangé e 
suas diretorias, por terem criado as oportunidades, nos Encontros Anuais que suas gestões 
organizaram, para que os profissionais pudessem produzir este material; 

À Prof® Dr* Maria do Carmo Guedes, pelas orientações e estudos iniciais que visavam 
a estas edições; 

Às prefaciadoras, Prof - Dr® Maria Amélia Matos, Prof* Dr 4 * Rachel Rodrigues Kerbauy 
e Maria Luisa Guedes, pelo carinho e pelas palavras elogiosas quo dispensaram ao nosso 
trabalho; à Maria Amélia, em especial, pela "enxiridisse costumeira" (como ela mesma se 
referiu), com a qual sempre acaba fazendo com que nosso trabalho melhore: obrigado 
pelas “dicas" em torno do nome dos livros; 


i 



Às (sempre presentes) grandes amigas, Prof a Dr 4 Maria Amália Pie Abib Andery e 
Prof J Dr* Toreza Maria de Azevedo Pires Sério, pelas colaborações e sugestões na ordenação 
e nomeação dos capítulos. 

Aos meus colegas de organização, Maly Delitti e Denis Roberto Zamignam, pela 
satisfação de poder trabalhar (mais uma vez) com eles. 

A Teca (editora), pela simpatia, paciência e boa vontade com a qual acolheu nosso 
projeto e "salvou-nos" do desespero: devo-lhe a vida. 

À Sandra, que com sua revisão simpática e rigorosa, fez com que os erros não 
parecessem nossos. 

À Maria Claudia, que conseguiu, através de sua diagramação mais do que artística, 
dar uma ordem bonita e inteligível ao caleidoscópio de formatações que lhe entregamos, 
dando, como resultado final, a impressão de que somos todos “afinados". 

A Fran, por suas idéias sensacionais e que fizeram com que nossa obra não fosse 
bonita apenas por dentro: suas capas são verdadeiras obras-de-arte. 

Por fim, aos autores... vocês são a "alma" disso tudo. 


Roberto Alves Ba naco 



Prhácio 


Esto primeiro volume da coleção Sobro Comportamento o Cognição, lançada pei? 
Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental (ABPMCj, 
inaugura urna serie do publicações instigantes e competentes sobre o estudo e a pratica 
da Análise Comportamental no Brasil. 

A coleção reúno trabalhos apresentados durante os Encontros da ABPMC nos 
anos de 1993, 1994, 1995 e 1996, e resulta de um trabalho imenso a partir de um esforço 
bem-sucedido, por parte da atual diretoria da ABPMC. no sentido de divulgar a proouçao 
cientifica de pesquisadores, clínicos e educadores que trabalham com (e que, por isso, se 
ueneficiam da) ciência do comportamento exposta nesta serie, 

A obra e extensa e ambiciosa, refletindo a produtividade e o alto padrao ao exigência 
da comunidade. A serie cobre uma diversidade de temas, desde sofisticadas analises 
conceituais ate delicadas questões do aplicaçao, passando pelo escrutínio ua 
experimentação. A atuação profissional tem um volume especial dedicacfo a sua análise e 
a busca de solução para seus problemas, Aspectos da formação profissional sao também 
abordados, bem como sua relaçao com o "fazer ciência", O ultimo volume da série trata 
das interações com outros profissionais, interações essas que resultam da prática tanto 
em hospitais gerais como em clínicas psiquiátricas. 

Neste primeiro volume. Sobre Comportamento e Cognição: Aspectos tooricos. 
mctodologicos e de formação, a análise dos aspectos conceituais do Behaviorismo Radi¬ 
cal e privilegiada, bem como a de suas relações com a Terapia Cogmtivo-Comportamental, 
conceitos fundamentais, como contingência e comportamento, são retomados, assim 
como conceitos ainda em evolução, como o do metacontingència. Eventos encobertos o 
sua possível maneira de acesso são extensamente discutidos. 

Na segunda parte deste volume, a preocupação maior é com a aplicação, e dentro 
desta, a maior é com a prática clinica As responsabilidades do terapeuta com o "fazer 
ciência"; as dificuldades de conduzir seu trabalho como uma pesquisa, não só para suas 
decisões clinicas, mas também para sua discussão com a comunidade; e o uso de diferentes 
modelos e técnicas são alguns dos temas abordados aqui Outras aplicações cia Analise 
ao Comportamento, possíveis a partir de alguns dados o desenvolvimentos mais recentes, 
sao também discutidas. Dentre estas, algumas se voltam para problemas que podemos 
considerar como habituais, como ler ou adiar tarefas, enquanto outras, para questões 
mais complexas, como a violência, o preconceito, o futuro aa nossa sociedade. A ultima 
secção (foste volume é especialmente dirigida ás questões do formação do profissional 


ui 



que deverá ser capaz de lidar com, polo menos, algumas das questões ató aqui abordadas. 

O atual presidente da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina 
Comportamental, professor Dr. Roberto Alves Banaco, encerra este volume com algumas 
reflexões sobre como, e se, o profissional em Psicologia poderia se beneficiar dos conceitos, 
dos procedimentos e dos dados que constituem a ciôncia do comportamento descrita e 
discutida nos capítulos anteriores. Os volumes subsequentes da coleção completam e 
referendam suas conclusões. 

Maria Amélia Matos 


w 



Sumário 


Apresentação 
Prefácio . 


PARTE ) - Questões teóricas e conceitos básicos 


Seção I: Abordagem Cognitivo-Comportamental 


Capítulo 1 - Conceituação da Terapia Cognitivo-Comportamental 

Helene de Oliveira Shinohara (PUC/RJ). 1 

Capítulo 2 - Cognitivismo ou Construtivismo? 

Helene de Oliveira Shinohara (PUC/RJ). 6 

Capítulo 3 - Terapia Racional-Emotiva Comportamental 

Luiz Fernando de Lara Campos (Universidade São Francisco 
e PUCCamp). 11 

Capítulo 4 - Por que sou Terapeuta Cognitivo-Comportamental? 

Dernard Pimentel Rangò (UFRJ)... 17 

Seção II - Abordagem Behaviorista Radica! 

Capítulos - Bases Filosóficas do Behaviorismo Radical 

Nilza Micholetto (PUC/SP). 29 

Capítulo 6 - Com o que o Behaviorismo Radical trabalha? 

Maria Amélia Matos (USP). 45 

Capitulo 7-0 Behaviorismo Metodológico e suas relações com o 
Mentalismo e o Behaviorismo Radical 

Maria Amélia Matos (USP). 54 












Capítulo 8 - Por que sou behaviorista radical? 

Teresa Maria de Azevedo Pires Sério (PUC/SP). 68 

Seção III - Definições e evoluções de conceitos 

Capítulo 9-0 que é comportamento? ^ 

Júlio César Coelho de Rose (UFSCar). 79 

Capítulo 10 - O que é contingência? 

Deisy das Graças de Souza (UFSCar). 82 

Capítulo 11 - A evolução do conceito de contingência 

Deisy das Graças de Souza (UFSCar). 88 

Capitulo 12-0 conceito de metacontingèncias: afinal, a velha 
contingência de reforçamento é insuficiente? 

Mana Amélia Pie Abib Andery e Teresa Maria de 

Azevedo Pires Sé no (PUC SP). 106 

Capitulo 13 - Variação e seleção: as novas possibilidades de compreensão 
do comportamento humano 

Nilza Micheletto (PUC/SP). 117 

Seção IV - Comportamento verbnl e relato verbal 

X; 

Capítulo 14-0 que é comportamento verbal? ^ 

Maria Martha Costa Hübner (Universidade Mackenzie). 135 

Capítulo 15-0 comportamento governado por regras na prática 
clínica: um inicio de reflexão 

Maria Luisa Guedes (PUC/SP). 138 

Capítulo 16-0 que é auto-regra? 

André Luiz Jonas (USP/IACCamp). 144 

Capítulo 17-0 relato verbal segundo a perspectiva da análise do 
comportamento: contribuições conceituais e 
experimentais 

Júlio César Coelho de Rose (UFSCar). 148 

Seção V - O mundo dentro da pele 

Capítulo 18 - Sobre a incidência do operacionismo na Psicologia 

Jair Lopes Junior (Unesp/ Campus Bauru). 167 

Capitulo 19 - Eventos privados em uma ciência do comportamento 

Emmanuel Zagury Tourinho (UFPA). 174 


VI 















Capítulo 20 - Introspccção: método ou objeto de estudo para a 
análise do comportamento? 

Maria Amélia Matos (USP). 188 

Capítulo 21 - O modelo de seleção por consequências e a 
subjetividade 

Maria Amália Pie Abib Andery (PUC/SP). 199 

Capítulo 22 - A concepção de homem e a busca de 

autoconhecimento: onde está o problema? 

Teresa Maria de Azevedo Pires Sério (PUC/SP). 209 

Capítulo 23 - Privacidade, comportamento e o conceito de 
ambiente interno 

Emmanuel Zagury Tourinho (UFPA). 217 

Capítulo 24 - Eventos privados: o sujeito faz parte de seu próprio 
ambiente? 

Maria Amélia Matos (USP) . 230 

Capítulo 25 - Eventos privados: o sujeito faz parte de seu ambiente? 

Fani Eta Kòrn Malerbi (PUC/SP). 243 

Capítulo 26 - Há um lugar para o ambiente? 

Nilza Micheletto. 257 

Capítulo 27-0 conceito de comportamento encoberto no 
Behaviorismo Radical de B.F. Skinner 

Emmanuel Zagury Tourinho. 267 

PARTE II - Questões metodológicas e de aplicação 
Seção VI - "Consciência”e terapeutas 

Capítulo 28 - Conceituação do comportamento verbal e seu papel 
na terapia 

Maria Martha Costa Hübner (USP/Umversidado Mackenzie). 277 

Capítulo 29 - Aquisição de consciência como condição para 
a melhora do desempenho 

Lorismário Ernesto Simonassi. 282 

Capítulo 30-0 estudo de eventos privados através de relatos verbais 
de terapeutas 

Roberto Alves Banaco, Denis Roberto Zamignani e Roberta 

Kovac . 289 


VII 














Seção VII - A prática clínica e a produção científica 


Capítulo 31-0 terapeuta é um cientista? 

Sérgio Vasconcelos de Luna (PUC/SP). 305 

Capítulo 32-0 mundo dentro e fora do laboratório: duas faces de 
uma mesma realidade 

Maria Helena Leite Hünziker (USP). 314 

Capítulo 33 - Com que contingências o terapeuta trabalha em sua 
atuação clínica? 

Hélio José Guilhardi (PUCCamp o lACCamp)... 322 

Capítulo 34 - Como fazer pesquisa em clínica? 

Rachel Rodrigues Kerbauy (USP) . 338 


Capítulo 35 - Linha de base múltipla: possibilidades e limites deste 


modelo de controle de variáveis em situação clínica 

Hélio José Guilhardi (PUCCamp e lACCamp) 

e Wilton de Oliveira (lACCamp). 348 

Capítulo 36 - Comportamento verbal e prática clínica 

Maria Martha Costa Hübner (Universidade Mackenzie). 385 

Capítulo 37 - Comportamento adjuntivo: um possível modelo para 
análise e intervenção em problemas de saúde 
Lincoln da Silva Gimenes. 395 


Capitulo 38-0 que os estudos sobre comportamento adjuntivo em 


animais podem nos ensinar a respeito de distúrbios 
do comportamento? 

Érica Maria Machado Santarém (Univ. São Francisco). 404 

Capítulo 39 - Comportamento adjuntivo em humanos: uma análise 
crítica dos estudos de laboratório 

Verônica Bander Haydu (UEL) . 414 


Capítulo 40 - O paradigma de equivalência e suas implicações 
para a compreensão e emergência de repertórios 
complexos 

Maria Martha Costa Hübner (Universidade Mackenzie). 423 

Seção VIII - Aplicações às análises da cultura e do cotidiano 

Capítulo 41 - A violência urbana: aplica-se à análise da coerção? 

Maria Amália Pie Abib Andery o Teresa Maria de Azevedo 
Pires Sério (PUC/SP) 


viii 


433 














Capítulo 42 - Procrastinação: adiamento de tarefas 

Rachel Rodrigues Kerbauy (USP) . 445 

Capítulo 43 - The Bell Curve: que música este sino toca? 

Maria Amália Pie Abib Andery e Teresa Maria de Azevedo 

Pires Sório (PUC/SP). 452 

Capítulo 44 - Leitura generalizada: procedimentos e resultados? 

Maria Amélia Matos (USP), Maria Martha Costa Hübner 
(Universidade Mackenzie) e Wagner Peres (USP). 470 

Capítulo 45 - Algumas notas sobre a contribuição do Behaviorismo 
Radical para uma sociedade voltada para o futuro 

Maria Amália Pie Abib Andery (PUC/SP). 488 

Seção IX - A formação do analista do comportamento em clínica e saúde 

Capítulo 46 - Dificuldades, na graduação e pós-graduação, com a 
prática clínica comportamenta! 

Edwiges Ferreira de Mattos Silvares (USP). 503 

Capítulo 47 - Uma abordagem contextuai da supervisão clínica 

Luc Vandenberghe. 510 

Capítulo 48 - Aprendendo entrevista clínica inicial: contribuições para 
a formação do terapeuta 

Maura Alves Gongora (UEL). 516 

Capítulo 49 - A sucursal da clínica-escola 

Edwiges Ferreira de Mattos Silvares (USP). 525 

Capítulo 50 - Formação Saúde - o psicólogo na área de saúde: a 
formação necessária 

Ana Teresa de Abreu Ramos-Cerqueira (Unesp/Botucatu). 532 

Posfácio - Podemos nos beneficiar das descobertas da Ciência do 
Comportamento? 

Roberto Alves Banaco (PUC/SP). 543 













Parte I 

Questões teóricas 
conceitos básicos 


V 


Seção I 


Abordagem Cognitivo- 
Comportamental 



Capítulo 1 


Conceituação da Terapia Cognitivo- 
Comportamental 

I Iclcnc de Ohvcir,i Shinoh.mi 

n/c/Rj 


A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma combinação de muitos anos 
de pesquisa e prática clínica. 

Durante a década de 60, psicólogos e psiquiatras insatisfeitos com os métodos 
tradicionais, tanto dos modelos não mediacionais quanto das alternativas psicodinâmicas, 
começaram a delinear a Terapia Cognitiva. 

Desde então, vários centros de pesquisa têm se dedicado ao refinamento e avali¬ 
ação da TC, e a publicação de resultados que comprovam sua eficácia tem colaborado 
para o aumento do número de teóricos e terapeutas que se identificam com esta aborda¬ 
gem. 

Com um crescimento rápido nos últimos 20 anos, a TC é uma das primeiras 
formas de psicoterapia que tem demonstrado eficácia em pesquisas científicas rigorosas, 
e também uma das primeiras a dar atenção ao impacto do pensamento sobre o afeto, o 
comportamento, a biologia e o ambiente. Atualmente, é amplamente utilizada no trata¬ 
mento da depressão, dos transtornos de ansiedade, dos transtornos psicossomáticos e 
alimentares. Mais recentemente, estratégias para lidar com problemas conjugais e trans¬ 
tornos de personalidade foram incluídas. 


Sobrf comport.imenfo t coflniç.lo 1 



Cronologia 


1962 

Terapia Racional-Emotiva 

Ellis 

1963 

Terapia Cognitiva 

Beck 

1971 

Treino de Auto-Instrução 

Meichenbaum 

1971 

Terapia de Solução de Problemas 

D’Zurillae Goldfried 

1973 

Treino de Inoculação do Stress 

Meichenbaum 

1974 

Reestruturação Racionai Sistemática 

Goldfried 

1974 

Ciência Pessoal 

Mahoney 

1977 

Terapia de Autocontrole 

Rehm 

1983 

Psicoterapia Estrutural 

Guidanoe Liotti 


A TCC abrange diferentes classes de terapias, tais como Terapia Racional Emotiva, 
Terapia de Solução de Problemas, Terapia Cognitiva de Beck, Terapia Construtivista, etc., 
que se orientam para diferentes graus de mudanças comportamentais e/ou cognitivas, 
influenciadas pelo background de cada teórico. Existe uma diversidade de modelos e 
técnicas desenvolvidas pelos terapeutas cognitivo-comportamentais e, talvez, seja neces¬ 
sária, no futuro, uma definição maior das especificidades das várias abordagens. No en¬ 
tanto, todas partilham da posição mediacional, acreditam que mudanças terapêuticas 
podem ser alcançadas através da alteração dos modos disfuncionais de pensamento e, 
pela herança comportamental, muitos de seus métodos se baseiam em princípios e técni¬ 
cas comportamentais e usam, de alguma forma, dados comportamentais como índices de 
progresso terapêutico. 

Evidências esmagadoras de que a avaliação cognitiva dos eventos afeta as res¬ 
postas a estes eventos levaram ao desenvolvimento de técnicas que pudessem monitorar, 
tornar acessível e alterar esta atividade cognitiva. Uma das proposições fundamentais da 
TCC é de que, com este conhecimento, as mudanças desejadas podem ser obtidas por 
um método alternativo que focalize e priorize as mudanças cognitivas. 

Modelos Cognitivos 



Mundo: uma 
série de eventos 
positivos, 
neutros e 
negativos 


Pensamentos 




Sentimentos e 
comportamentos 


2 \ Ifknf de Oliveira Shinohara 








Aqui, podemos entender a relação entre o mundo e o modo como as pessoas 
sentem. Não são os eventos realmente, mas as percepções que se têm deles que resul¬ 
tam em mudanças emocionais. É preciso que se dê um significado ao evento antes de se 
experienciar uma reação emocional. 

A TCC, portanto, tem o pensamento como ponto-chave para intervenção e con¬ 
trasta com a Terapia Comportamental pela grande ênfase nas experiências internas do 
cliente. O comportamento e o afeto do indivíduo são largamente determinados pelo modo 
como ele estrutura o mundo, como olha para as coisas e como interpreta essas coisas. 

Para a solução dos problemas atuais, é preciso que se trabalhe com as fontes de 
sofrimento do cliente, isto é, com as possíveis distorções que estejam ocorrendo nesta 
sua forma de avaliar a si mesmo e ao mundo. Os esquemas constituem a base para a 
codificação, categorização e avaliação das experiências ao longo da vida. Essas são 
crenças básicas, inflexíveis e incondicionais que os indivíduos abstraem das especificidades 
de suas experiências. 


1. Níveis cognitivos 



As estruturas cognitivas possuem níveis de organização, em que, na superfície, 
com acesso mais imediato, se encontram os pensamentos automáticos. Os pensamen¬ 
tos automáticos são idéias, crenças e imaaens específicas à situação. Eles percorrem a 
mente sem o mínimo esforço de sua parte. E um diálogo interno que parece óbvio e natural 


Sobrf comport.imenlo e cojjnlçio 3 






para cada pessoa. É importante o conhecimento dos conteúdos deste nível porque permi¬ 
tem descobrir, então, as suposições transitacionais subjacentes (2“ nível) e os respecti¬ 
vos esquemas que se encontram no núcleo. 

Uma das formas para ajudar o cliente a se tornar consciente dos seus esquemas 
básicos é trabalhar do específico e explícito para o geral e inferido. Num primeiro momen¬ 
to, o cliente reconhece e relata seus pensamentos automáticos. O próximo passo envolve 
a identificação dos temas gerais abstraídos dos pensamentos automáticos, para que, a 
seguir, possamos delinear ou formular as regras centrais do cliente para a sua vida. A seta 
descendente é uma técnica usada para esboçar o resultado esperado dos pensamentos 
automáticos, de modo que se possa determinar tanto as suposições subjacentes quanto 
a probabilidade de ocorrência da catástrofe esperada. 

O terapeuta usa técnicas de questionamento em forma de perguntas que guiam e 
exploram os conteúdos dos pensamentos automáticos, para esclarecer cada um dos 
sistemas de crença do cliente. Uma variedade de argumentos e exercícios são propostos 
para testar a validade de suas crenças, e alternativas para elas são discutidas. 

As TCC têm como objetivo aliviar a sintomatologia do cliente através do desenvol¬ 
vimento de técnicas para corrigir as distorções cognitivas e ajudá-lo a desenvolver meios 
mais equilibrados de avaliar suas experiências. Este processo é também cnamado de 
empirismo colaborativo, já que terapeuta e cliente se engajam no processo de coleta de 
dados que determinem evidências a favor e contra as crenças atuais e as crenças alterna¬ 
tivas. 


2. Objetivos das técnicas 


•Cognitivas: 

- Identificar os pensamentos automáticos. 

- Reconhecer conexões entre estes pensamentos, afetos e comportamentos. 
-Testá-los na realidade. 

- Substituir as distorções cognitivas e esquemas disfuncionais. 

• Comportamentais: 

- Observar e experimentar. 

- Modificar os sintomas comportamentais. 

- Eliciar cognições associadas a comportamentos específicos. 


O arsenal terapêutico inclui tanto estratégias cognitivas quanto comportamontais. 
As técnicas cognitivas são usadas para identificar os pensamentos automáticos, reco¬ 
nhecer conexões entre estes pensamentos, afetos e comportamentos, testá-los na reali¬ 
dade e substituir as distorções cognitivas e esquemas disfuncionais por interpretações 
mais realistas. Aprendendo a identificar e alterar essas crenças disfuncionais que o pre¬ 
dispõem a distorcer suas experiências, o cliente poderá realizar mudanças profundas 
generalizáveis a outros objetivos não tratados especificamente. 


4 I Iclfiir de Olivcir .1 Shmoh.ir.i 



Também é necessário ao terapeuta conhecimentos dos padrões de comporta¬ 
mento e métodos comportamentais de mudança. Parte da terapia envolve tarefas de apren¬ 
dizagem e prática em casa. Em geral, as pessoas aprendem melhor fazendo. O que se 
observa ó que as tarefas facilitam pequenas mudanças, em uma ou mais áreas, que irão 
rosultar em grandes mudanças em outras áreas também. Existem tarefas do observação 
e de experimentação. Essas técnicas serão usadas para modificação de sintomas 
comportamentais e também para eliciar cognições associadas a comportamentos espe¬ 
cíficos. No entanto, o objetivo final do uso dessas técnicas comportamentais na TCC 
continuará sendo o de produzir mudanças nas atitudes do cliente e o de testar a validade 
do suas idéias de competência ou adequação, por exemplo. 

Para que os objetivos terapêuticos sejam alcançados, não somente é necessário 
o conhecimento da teoria e das técnicas que serão usadas, como principalmente envol¬ 
ver-se no estabelecimento de uma relação terapêutica satisfatória. Submeter-so ao méto¬ 
do ou usá-lo inconstantemente, exagerar no didatismo ou se perder em persuasão, es¬ 
quecer a empatia ou o calor pessoal são erros facilmente cometidos por terapeutas inse¬ 
guros ou inexperientes. 

A relação terapêutica envolve, sim, dar instruções técnicas e guiar o cliente no 
processo terapêutico, mas também precisa se constituir num contexto intenso, seguro e 
afetivo no qual o cliente possa explorar e desenvolver novas formas de lidar consigo mes¬ 
mo e com o mundo. 


Bibliografia 


BECK, A.T., RUSH, A.J., SHAW, B.F. & EMERY, G.(1979) Cognitive Therapy of 
Depression. N.Y.: Guilford Press. 

BURNS, D.D.(1980) Feeling Good The NewMood Therapy. N.Y.: Avon Books. 

DATTILIO, F.M.& PADESKY, C.A.(1995) Terapia Cognitiva com Casais. Porto Alegre: 
Artes Módicas. 

MAHONEY, M.J.& LYDDON, WJ.(1988) Recent Developments in Cognitive Approaches 
to Counseling and Psychotherapy. The Counseling Psychologist, Vol. 16, N fl 2. 

RANGÈ, B. (Org.) (1995) Psicoterapia Comportamentale Cognitiva. Campinas: Editorial 
Psy. 


Sobrr comport.imcnto e coflniç.lo 5 



Capítulo 2 


Cognitivismo ou Construtivismo l 

Hclcnc dc Olivcihi Shinolumi 

rur/Ki 


1. Introdução 

(-/ostaria de, em primeiro lugar, transformar o tema central cognitivismo ou 
construtivismo. A partícula ou sugere posições antagônicas, o que, na minha opinião, ó 
inadequado. Acredito que cognitivismo e construtivismo são posições não excludentes, 
mas complementares. A pluralidade de conhecimentos enriquece o nosso arsenal 
terapêutico, e são as diferentes correntes de pensamento que propiciam um caminhar na 
direção de compreender o homem, suas dificuldades, suas representações e suas con¬ 
quistas. O nosso século pretendeu abandonar posições maniqueístas, nas quais o meu é 
melhor do que o seu, para incorporar novas idéias, realizar revoluções, questionar 
paradigmas. Nós, terapeutas, não podemos acompanhar nossos clientes em suas própri¬ 
as reformulações se não estivermos dispostos a, também, ouvir e refletir sobre a nossa 
prática. 

Portanto, estarei falando muito mais sobre o que uma posição tem a ganhar 
com a outra, de como podemos nos aproximar e trocar experiências, do que de divergên¬ 
cias, de exclusões, de radicalismos. Parafraseando Arnkoff, diferentes tipos de psicoterapia 


ó I Iclfne dr Ollvelrd Shinohdr.i 



podem ter sucesso porque provocam o mesmo efeito sobre estruturas profundas, mesmo 
que lidem de forma diferente com as estruturas superficiais. 


2. A revolução cognitiva 


No final da década de 60, principalmente, vários fatores contribuíram para o apare¬ 
cimento de estudos na área cognitiva. Algumas razões citadas são: o modelo não 
mediacional ser insuficiente para abranger todos os aspectos do comportamento humano; 
a necessidade de expandir a prática psicoterápica para dar conta dos comportamentos 
encobertos; as pesquisas sobre a cognição se encontravam em franco desenvolvimento e 
forçavam os limites dos modelos comportamentais; e a atmosfera entre os cientistas 
cognitivistas facilitou publicações e mais pesquisas com resultados encorajadores. 

Aconteceu, então, a reermergência da cognição como um domínio legítimo e 
formativo da investigação científica. Promoveu-se a incursão na caixa preta com novas 
ferramentas para estudar seu conteúdo, organização e processos. Esta revolução cognitiva 
tem resultado numa proliferação e diversidade de teorias e práticas psicoterápicas. 


3. Algumas diferenças entre os cognitivistas e construtivistas 


Se formos nos remeter aos escritos de autores de ambas posições, encontrare¬ 
mos citadas algumas diferenças nos pressupostos teóricos e nas práticas. 

Os cognitivistas parecem presumir uma realidade externa, singular e estável que 
pode ser acuradamente revelada pelos sentidos. Os construtivistas acreditam que realida¬ 
des são construções coletivas e individuais de ordenação da experiência. Os cognitivistas 
tôm o pensamento como superior aos sentidos e mais poderoso em determinar as expe¬ 
riências. Os construtivistas questionam a superioridade do pensar sobre o sentire o agir. 

Quanto à prática psicoterápica, os cognitivistas se concentram no controle dos 
problemas atuais e sintomatologia, acreditam que os problemas possam ser entendidos 
em função de crenças irrealistas e irracionais, e que a correção destas são necessárias 
e suficientes para as mudanças desejadas. Os construtivistas, por sua vez, focalizam a 
história do desenvolvimento e desafios atuais do cliente, acreditam que os problemas 
reflitam discrepâncias entre as demandas do ambiente sobre o indivíduo e sua capacidade 
adaptativa, e objetivam modificações das crenças profundamente estruturadas. 

Não acredito, sinceramente, que essas diferenças, as quais determinaram inicial¬ 
mente as duas posições, possam afastá-las mais do que propiciar uma interlocução. 
Artigos mais recentes esclarecem pontos que favorecem esta aproximação. 


Sobrf comport.imcnto r cojjnlção 



4. 


Desenvolvimentos recentes na Terapia Cognitiva 


Ao longo destes últimos 30 anos, muito se tem documentado sobre a eficácia da 
TC. Cada vez mais estudos controlados reafirmam sua recomendação como tratamento 
indicado para uma grande variedade de problemas humanos. Apesar da comprovação de 
sua eficácia terapêutica, a TC não permaneceu um sistema fechado. A mesma flexibilida¬ 
de que se prega aos clientes em relação aos seus sistemas de crença pode nos ajudar a 
avaliar, incluir, substituir e ampliar o nosso próprio sistema teórico. Conceitos e técnicas 
de outras abordagens têm sido incorporadas para atender às demandas do trabalho clíni¬ 
co e aos desafios teóricos e empíricos. A TC tem se expandido para o âmago das disfunções 
interpessoais e transtornos de personalidade, bem como dado mais atenção a temas que 
imcialmente haviam somente sido assinalados por Beck. 

Os recentes desenvolvimentos na TC podem ser entendidos como uma evolução 
na sofisticação do modelo cognitivo, mesmo que a ênfase de seu trabalho continue no 
papel dos esquemas disfuncionais, Embora muitos desses temas tenham sido esboça¬ 
dos por Beck, desde os seus primeiros trabalhos, eles passaram a ser enfatizados pro¬ 
gressivamente ao longo de sua trajetória. E mesmo que essas modificações ainda care¬ 
çam, por enquanto, de demonstrações empíricas, e provável que desempenhem papel 
importante no futuro da prática da TC. 

A questão de esquemas periféricos e esquemas centrais organizados hierar¬ 
quicamente passa a fazer parte do arcabouço teórico dos terapeutas cognitivos. Beck já 
mencionava pensamentos automáticos (mais acessíveis) e crenças subjacentes (mais 
abrangentes, mais resistentes à mudança). Esses esquemas centrais tendem a aparecer 
em cognições auto-referentes, manifestam-se em diversos tipos de situação devido ao 
caráter transituacional, apresentam temas comuns recorrentes e, em geral, provocam alto 
nível de emocionalidade quando ativados. 

Alguns teóricos cognitivistas sugerem que a consciência ou expressão das cren¬ 
ças centrais disfuncionais geram ansiedade e, consequentemente, os indivíduos se prote¬ 
gem desenvolvendo set de crenças opostas em conteúdo. Ao invés de desafiar estes 
processos defensivos, que são ameaçadores para os clientes, os autores recomendam 
que os terapeutas gerem hipóteses sobre as crenças e seus afetos associados que estão 
sendo evitados e, gradualmente, ajudem os clientes a se tornarem mais atentos a eles. 

Os esquemas mais importantes que precisam ser trabalhados na terapia, 
freqüentemente, são esquemas interpessoais. Estes modelos internos de relacionamen¬ 
tos são desenvolvidos ao longo dos anos de eventos relacionais específicos, mas são 
particularmente influenciados pelos relacionamentos primários. A relação terapêutica 
oferece oportunidade para entender e modificar esquemas e comportamentos interpessoais. 
Ao prestar atenção ao seu próprio comportamento e sentimento, o terapeuta pode perce¬ 
ber a demanda de relacionamento do cliente, e se desvincular deste tipo de relação para 
não perpetuar o ciclo. 

Beck, há muito tempo, já sinalizava que, quando pensamentos específicos e ati¬ 
tudes são testados em contexto de apropriada ativação afetiva, mudanças fundamentais 
acontecem. Técnicas têm sido incorporadas com esse propósito desde o começo da 
terapia, mesmo que os esquemas que surjam só possam ser trabalhados mais tarde. O 


8 I Iflcne ilc Olivrir.1 Slimoh.ir.i 



papel do afeto na mudança terapêutica tem sido largamente discutido, recentemente, 
por diversos autores cognitivistas. 

Apesar de o foco principal ser no presente, muitos terapeutas cognitivos têm 
demonstrado interesse em discutir com seus clientes as raizes históricas de suas cren¬ 
ças desadaptativas. Questões de desenvolvimento do cliente são abordadas e, mesmo 
que não haja valor na simples expressão de memórias para mudança de esquemas, elas 
provam oportunidade para avaliar as crenças implícitas aprendidas com aquelas experiên¬ 
cias. 


Esses pontos mencionados sugerem que revisões e complementações têm ocor¬ 
rido e que, pelo visto, permanecem abertos. 


5. Conclusões 


Acredito que, para a maioria dos terapeutas cognitivo-comportamontais, as frases 
ás quais vou me referir expressam suas próprias compreensões do trabalho terapêutico. 
Talvez seja muito difícil identificar quem é o autor cognitivista ou construtivista de cada 
uma delas. E justamente esta a minha intenção. Cogmtivistas e construtivístas não são 
tão diferentes assim! 


“Quanto mais terapeuta e paciente trabalharem juntos, tanto maior será a ex¬ 
periência de aprendizagem para ambos. O esforço conjunto nào apenas gera um 
espírito cooperativo, mas também um senso de exploração e descoberta. Apesar 
de ser empregada numa seqüência de passos distintos e rapidamente compreensí¬ 
veis, a terapia cognitiva é uma abordagem hôlistica."(Beck) 

“Vemos o trabalho terapêutico como um trabalho colaborativo, sendo o terapeuta 
um co-investigador que ajuda o cliente a construir uma compreensão mais coeren¬ 
te de si mesmo, o um co-autor que auxilia o cliente na identificação e revisão dos 
temas centrais nas suas narrativas pessoais." (Niemeyer) 

“Embora a correção dos pensamentos irrealistas automáticos seja um ele¬ 
mento importante no tratamento de um paciente, a totalidade do significado da sua 
experiência ó crucial." (Beck) 

“Procuramos nos comportamentos verbais dos clientes e auto-relatos revi¬ 
sões dos auto-esquemas, como resultado dos esforços terapêuticos." (Guidano & 
Liotti) 


“Diferentes autores cognitivos ou construtivístas concordam que sem mudan¬ 
ças estruturais profundas e de filosofia de vida, progressos terapêuticos não serão 
duráveis." (Sweet, Giles& Young) 


Sobrr comport.imenlo r coflniçdo 


9 



E para concluir: 


“Na observação do trabalho clínico, percebemos mais similaridades entre clí¬ 
nicos experientes do que entre os não-experientes . Existem regras implícitas no 
trabalho terapêutico que se encontram entre a teoria e a técnica, e que guiam a 
terapia." 


Bibliografia 

EMERY, G. & TRACY, N. L Theoreticat Issues in the Cognitive-Behavioral 
Treatment of Anxiety Disorders. In: MICHELSON, L & ASCHER. L. (eds.) 
Anxiety and Stress Disorders. New York: The Guilford Press, 1987. 

GUIDANO, V. F. & LIOTTI, G. Cognitive Processes and Emotional Disorders. New 
York: The Guilford Press, 1983. 

MAHONEY, M. J. (ed.) Cognitive and Constructive Psychotherapies. New York: 
Springer Publishing Company, 1995. 

MAHONEY, M. J. & LYDDON, W. J. Recent Developments in Cognitive Approaches 
to Counseling and Psychotherapy. The Counseling Psychologist, Vol. 16 
No. 2,1988. 

SAFRAN, J.D. & SEGAL, Z.V. Interpersonal Process in Cognitive Therapy. New 
York: Basic Books, Inc., 1990. 

ROBINS, C.J. & HAYES, A.M. An Appraisal of Cognitive Therapy. In: MAHONEY, 
M.J. Cognitive and Constructive Psychotherapies. New York: Springer 
Publishing Company, 1995. 


10 I Mrm* iJr OhveÍM SJh/joJj.im 



Capítulo 3 


Terapia Racional-Emotiva Comportamental 

I ui/ hcniiVuio (/f / </m C 'timpos ' 
l/nivcrsiduic S.lo fntncisco c l\/CC,imp 


1. Introdução 

A Terapia Racional-Emotiva Comportamental 7 é considerada a primeira pro¬ 
posta de terapia cognitiva criada (Rangó, 1992; Foa e Steketee, 1987). 

A REBT está incluída na Terapia Comportamental Cognitiva pela sua objetividade 
na modificação de padrões de comportamentos desadaptados (Ellis, 1993, Freemam e 
cols., 1990; Ellis, 1973), e por seu caráter empírico de investigação clínica, além da utili¬ 
zação do técnicas puramente comportamentais como a dessensibilização sistemática. 

A Terapia Racional-Emotiva Comportamental foi proposta em 1955, por um então 
psicanalista norte-americano chamado Albert Ellis, após a realização de uma pesquisa 
intitulada O caso de Liberação Sexual (Ellis e Dryden, 1987), que partiu então para a 


1 Departamento do Psicologia da Untversidndo Sâo Francisco e Departamento de Pôs-Graduaçáo ern Psico¬ 
logia da PUCCamp 

Nosto trabalho, será utilizada a sigla em inglês REBT, proposta por Ellis om 1993 


Sobro comportamento o cotfmç.lo 




criação de uma nova forma de atuação terapêutica baseando-se em sua experiência com 
casais e distúrbios sexuais. 

Para Ellis, a origem do mundo psicológico se baseia na influência do moio ambi¬ 
ente na formação e manutenção deste mundo, que para ele é basicamente cognitivo. Ao 
mesmo tempo, Ellis corrobora com a visão filosófica/motodológica behaviorista skinneriana 
de que a psique ó fruto de um processo de aprendizagem (Ellis, 1962) e as cognições, 
regras que os indivíduos abstraem de suas próprias vivências. 

O nome original da linha proposta por Albert Ellis foi Terapia Racional-Emotiva até 
1993, quando seu criado alterou o nome da abordagem para Terapia Racional-Emotiva 
Comportamental em razão do forte caráter comportamentalista do processo terapêutico 
na REBT. 


2. Conceitos teóricos 


A REBT pressupõe que a causa dos problemas humanos está nas crenças/idéias 
irracionais que levam o ser humano a um estado de desadaptação de seu meio ambiente 
(Gorayeb e Rangé, 1988). Crença é uma regra para a ação, seja cognitiva, motora ou 
emocional. 


2.1. O ABC da REBT 

O ABC na REBT (Ellis, 1962)é a compreensão sobre a base do funcionamento 
cognitivo do ser humano, e representa uma das primeiras tentativas de compreensão do 
funcionamento cognitivo do ser humano. 

•A - Eventos ativadore s 

A experiência ativante A é caracterizada por algum evento externo real ao qual o 
indivíduo foi exposto, e que ativa pensamentos específicos sobre o próprio evento. 

Os eventos se tornam ativadores por se basearem em nossos sentimentos, pen¬ 
samentos ou comportamentos ocorridos em eventos passados ou atuais para ativarem 
cadeias de pensamentos específicos. 

• B - Pensamentos, cognições ou idéias 

O B, originário de belief (crença em inglês), são cadeias de pensamentos e auto- 
verbalizações que são ativadas pelos eventos ocorridos em A. 

Este componente possui várias formas diferentes de se estruturar, já que os seres 
humanos possuem tipos e forma de pensar igualmente diferentes. Na REBT, os compo- 


12 l.ul/ tem.mdo de Lirj C.impo* 



nentes cognitivos são divididos em termos da sua racionalidade ou irracionalidade. 

Ellis (1973) acredita que, de algum modo, os seres humanos possuem uma ten¬ 
dência natural à irracionalidade, fato este que acaba por limitar a possibilidade de o ho¬ 
mem ser naturalmente feliz. A irracionalidade ocorre em função de o homem não ter a 
tendência natural de confirmar empiricamente suas percepções, idéias ou crenças. 

O aparelho cognitivo é composto por crenças (regras para ação) e demonstram os 
gostos e/ou não gostos do indivíduo. As crenças irracionais identificadas por Ellis (1973) 
são: 

1. Uma pessoa deve ser estimada ou aprovada por todas as pessoas virtualmente im¬ 
portantes em sua vida. 

2. Uma pessoa devo ser plenamente competente, adequada e realizada sob todos os 
aspectos possíveis, para que se possa considerar digna de valor. 

3. Certas pessoas são más, perigosas ou desprezíveis, e deveriam ser censuradas e 
punidas por suas maldades. 

4. É horrível e catastrófico quando as coisas não acontecem exatamente do modo como 
a pessoa gostaria muito que acontecesse. 

5. A infelicidade humana é causada por razões externas, e as pessoas têm pouca ou ne¬ 
nhuma capacidade de controlar seus sofrimentos e preocupações. 

6. Se alguma coisa é, ou poderá vir a ser perigosa ou apavorante, o indivíduo deve ficar 
tremendamente preocupado e pensar persistentemente na possibilidade desta coisa 
acontecer. 

7. É mais fácil evitar do que enfrentar certas dificuldades e responsabilidades pessoais 
na vida. 

8. Uma pessoa é dependente das outras e precisa de alguém mais forte do que ela para 
poder confiar e se apoiar. 

9. O passado de uma pessoa ó o determinante pessoal de seu comportamento atual, e 
pelo fato de alguma coisa haver afetado seriamente a vida da pessoa, deverá influenciar 
indefinidamente sobre ela. 

10. Uma pessoa deve ficar extremamente preocupada com os problemas de outras pes¬ 
soas. # 

11. Existe sempre uma solução correta, precisa e perfeita para os problemas humanos, 
e ó uma catástrofe quando a solução exata não ó encontrada. 

É importante lembrar que o número de crenças irracionais ó limitado (Ellis, 1978), 
tendo sido identificadas as 11 acima a partir de um rol inicial de mais de 40 crenças 
irracionais prováveis. 

• C - Consequência aos eventos ativadores A e pensamento B 

As conseqüôncias cognitivas, afetivas e comportamentais seguem as interações 
entre A e B, podendo-se afirmar que, matematicamente, A versus B =* C . Entretanto, 
essa relação não é tão simples como parece. 


Sobre comporl.imcnfo e cofjniçdo 13 



As consequências C, sejam afetivas, motoras ou emocionais, são elos funda¬ 
mentais para o cliente. Quando C consiste em distúrbios afetivo-emocionais 
(ansiedade, depressão, etc.), B pode ser QUASE sempre o causador destes distúrbios, 
pois ó a interpretação de A (B) que é o gerador de C. 


Exemplo; 

Um operário, ao sair do seu emprego, é avisado para comparecer ao departamen¬ 
to pessoal no dia seguinte pela manhã (A - evento ativador). Imediatamente, ele pensa: 
“ Será que vou ser demitido? O que vou fazer? Devo tentar evitar a demissão!" (B - pensa¬ 
mento pessoal ou interpretação sobre o evento ativador); e sente muita ansiedade (C - 
conseqüência demonstrada pelo sentimento pessoal e comportamento). Imediatamente, 
o empregado se despede e vai para casa, onde não consegue dormir, ficando irritadiço o 
agressivo. 

Neste caso, as crenças que sustentam este exemplo são as de números 6e 11. 
Entretanto, o aviso dado ao operário não indica o que realmente irá acontecer. Ele pode 
estar sendo chamado para participar de um processo seletivo para um cargo de chefia, 
mas seu estado de ansiedade e medo no dia seguinte poderá contribuir para o seu fracas¬ 
so. 


As distorções cognitivas levam os indivíduos a apresentar distúrbios psicológicos, 
que podem aparecer da seguinte forma: 

• racionalização na busca de explicações sobre o nosso fracasso; 

• conclusões apressadas sobre os eventos; 

• crenças na fortuna como realização de todos os objetivos e metas; 

• enfoque apenas do lado negativo dos eventos; 

• desqualificação do lado positivo quando este é contrário às nossas expectativas; 

• desejo de atingir tudo ou nào ter nada; 

• minimização dos eventos contrários às nossas expectativas; 

• ressonância emocional; 

• redução e super-generalização; 

• personalização; 

• consumo; 

• perfeccionismo. 


3. O processo terapêutico 

O esquema básico de funcionamento da REBT ocorre em dois momentos que 
caracterizam a própria intervenção racional-emotiva. 


14 I ui/ I orn.mtlo ilir Lira Campos 



O primeiro momento D, no qual as intervenções do terapeuta são iniciadas, é 
caracterizado pelo debate e pelo esforço que o terapeuta faz para que o cliente avalie de 
forma crítica e científica suas crenças racionais e irracionais. É a etapa em que o cliente 
passa a perceber seu funcionamento cognitivo e detecta as bases de sua irracionalidade. 

O estágio seguinte, E, é caracterizado pela alteração das crenças do cliente e as 
conseqüentes mudanças de seus pensamentos irracionais para racionais. 

Assim, o cliente está habilitado a experimentar novos padrões cognitivos e 
comportamentais mais adequados ao meio ambiente. O conceito fundamental ó o de 
racionalidade e irracionalidade, no qual o primeiro só pode ser delmido a partir dos 
parâmetros de adequação ao meio ambiente. 


4. A prática básica da REBT 


A REBT é uma forma ativa e direta de terapia na qual os terapeutas são ativos 
para direcionar seus clientes durante a identificação de seus conceitos filosóficos (cren¬ 
ças), que constituem a base para seus problemas, em um modelo educacional de atuação, 
em que o terapeuta ensina o cliente a se compreender melhor e a modificar seu próprio 
comportamento (Ellis, 1978). É uma abordagem diretiva, na qual a base fundamental é a 
empatia e a aceitação incondicional do cliente por parte do terapeuta. 

O terapeuta é definido, antes de mais nada, como um ser humano, sujeito às 
mesmas vicissitudes dos demais, possuindo, apenas, treinamento específico para auxili¬ 
ar outros indivíduos. 


5. Indicações terapêuticas 


A REBT é um tipo de psicoterapia indicada para os clientes que desejam uma 
mudança rápida e eficaz, não apresentando contra-indicações. 

Apresenta eficácia em relação a inúmeros problemas humanos como crises do 
raiva e cólera, amor, casamento, divórcio e separação, tratamento de problemas femini¬ 
nos, sexualidade, homossexualidade, abuso de drogas e tratamento de fobias e obses¬ 
sões-compulsões. Existem na literatura indicações claras de estratégias para pacientes 
com problemas de alcoolismo, fobias, psicose, transtornos do tipo borderline. Entretanto, 
Gossette e 0'Brien (1993) indicam uma baixa validade da REBT com crianças. 


6. Indicações para leitura 


O número de material específico sobre a REBT traduzido ó pouco e insuficiente, 
destacando-se o trabalho de Ellis (1978) e Rimm e Master (1983), sendo que recentemen- 


Sobre comport.imenfo c ronniçfio 15 



te o capítulo de Campos (1995) sintetiza a proposta da REBT. 

Ao terapeuta iniciante na REBT e que possa trabalhar com material bibliográfico 
em inglês, recomenda-se a procura de textos gerais, que possam fornecer uma base para 
a atuação correta, como os livros de Ellis e Dryden (1987) e Dryden (1990). 


Bibliografia 


CAMPOS, L.F.L. (1995) Terapia Racional-Emotiva-Comportamental. In: Rangè, B. 
Psicoterapia Comportamental e Cognitiva. Campinas: Editorial Psy, 
cap. 7:79-88. 

DRYDEN, W. (1990) Dealing With Anger Problems: A fíational-Emotive Therapeutic 
Interventions. Sarasota, Florida : Professional Resource Exchange. 

ELLIS, A.(1962) Reason and Emotion in Psychotherapy. Lyle Stuart: New York. 

_(1973) Humanistic Psychotherapy. New York: McGraw-Hill Books Co., 273 pg. 

_(1978) Teoria Racional Emotiva. In: BURTON, A. Teorias Operacionais da 

Personalidade, tradução do original em inglês de 1974 por Carlos Alberto 
Pavanelli, Rio de Janeiro: Imago. 

_(1993) Changing Rational-Emotive Therapy (RET) to Rational Emotive Behavior 

Therapy (REBT). The Behavioral Therapist, 16(10):257-258. 

ELLIS, A. & DRYDEN, W. (1987) The Practice of Rational-Emotive Therapy. New York: 
The Guilford Press. 

FOA, B.E. & STEKEE, R.D. (1987) Behavioral Treatments of Phobias and Obsessive- 
Compulsive. In: Jacobson, N. - Psychotherapists in Clinicai Practice. New York: 
Guilford Press. 

FREEMAN, A.M.; PRETZEL, J.; FLEMING, B. & SIMON, K.M. (1990) Clinicai 
Applications of Cognitive Therapy. New York: Plenun Press. 

GORAYEB, R. & RANGÈ, B. (1988) Metodologia Clínica: Técnicas Comportamentais. In: 
Lettner, H. & Rangè, B. - Manual de Psicoterapia Comportamental, S. Paulo, Ed. 
Manole. 

GOSSETTE, R.L. & 0'BRIEN, R.M. (1993) Efficacy of Rational-Emotive Therapy (RET) 
With Children: A Criticai Re-Appraisal. Journal of Behavior Therapy & 
Expehmental Psychiatry, 24(1 ):1 5-25. 

RANGÈ, B.P. (1992) Psicoterapia Cognitiva. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 41 
(2):81-85. 

RIMM, D.C. & MASTER, J.C. (1983) Manual de Terapia Comportamental. Tradução do 
original em inglês de Ana F. Rodrigues Alves. S.Paulo: Manole. 


16 l.ulz Fernando de Lara Campot 



Capítulo 4 


Por que sou Terapeuta 
Cognitivo-Comportamental? 

fícnumi Plmcntcl &/m?ò 
1///n7 


^Tarefa difícil a que me foi proposta. A pergunta pressupõe que eu seja um 
terapeuta cognitivo, o que, para mim, não é uma definição clara da minha identidade 
profissional. Tenho atuado como terapeuta comportamental há cerca de 25 anos e, no 
mínimo, me acostumei a me ver assim. Acho que também sou visto dessa forma na 
comunidade científica, e especialmente na comunidade psi, tanto que ó dentro desta 
identidade que tenho sido convidado a participar de inúmeras atividades científicas. Tenho 
publicado trabalhos que se identificam comocomportamentais ao longo de toda a minha 
vida, como o próprio Manual de Psicoterapia Comportamental, do qual fui, juntamente com 
Harald Lettner, um dos organizadores. Fui recentomente aprovado em concurso público 
para a Universidade Federal do Rio de Janeiro para a disciplina Terapia Comportamental. 
Ora, por que então estou eu, aqui, neste momento, ocupando este lugar e respondendo a 
esta pergunta? Serei, apesar do que disse acima, percebido como cognitivista? Em que 
minha prática ou minha produção literária contribui para estabelecer esta identidade? Será, 
talvez, que o problema não seja da minha identidade mas sim da identidade dessas abor¬ 
dagens? O que ó ser comportamental? O que ó ser cognitivo? 

Historicamente, a revolução comportamental iniciou-se como uma reação ao 


Sobrr comporl.imrnfo c coftitlç.lo 


17 



introspeccionismo wundtiano e titcheneriano. Watson mostrava-se insatisfeito com a im¬ 
possibilidade de verificação objetiva que a psicologia introspeccionista exibia. Daí ter pas¬ 
sado a questionar o objeto e os métodos de investigação da psicologia tradicional. Sentia- 
se insatisfeito também - e não poderia ser de outro modo, dadas as características cultu¬ 
rais norte-americanas que o moldaram - com as dificuldades de uso prático do conheci¬ 
mento assim adquirido. Depois de negar legitimidade científica àquela psicologia, o que 
lhe foi relativamente fácil, surgiu o problema de afirmar uma alternativa. Concebeu, dentro 
do modelo biológico que lhe formara como psicólogo animal, uma psicologia que tivesse 
por objetivo estudar as relações do organismo com o ambiente, dentro de uma perspectiva 
estritamente objetiva que permitisse a utilização do modelo experimental como instru¬ 
mento de validação de hipóteses. Se esta atitude era positiva no domínio animal por que 
não tentá-la também no nível humano? Por que não utilizar os métodos da psicologia 
animal à psicologia humana se estes se mostraram tão frutíferos na primeira e os outros 
tão improdutivos na segunda? Estas foram as indagações de Watson que o conduziram 
ao seu clássico artigo-manifesto e ao surgimento do behaviorismo. E a psicologia 
comportamental nasceu naturalista, determinista e experimental. 

Restava, entretanto, encontrar um destino para a noção de consciência. Talvez 
por ter tido contato apenas com a psicologia wundtiana, via Titchener, Watson concebia a 
consciência como coisa que contém, como um continente imaterial de conteúdos tam¬ 
bém imateriais. Watson não teve contato, aparentemente, com Brentano e seu discípulo 
Edmund Husserl que concebiam a consciência como modo de relação com objetos. A 
perspectiva wundtiana mantinha-se numa longa tradição que evidencia o problema do 
dualismo metafísico; há que se supor duas ordens de acontecimentos, a dos fenômenos 
materiais e a dos fenômenos espirituais ou anímicos. A solução de Watson foi a de negar 
legitimidade científica à consciência, tal como assim concebida. Isto significava que, para 
ele, era impossível o estudo científico da consciência e que, portanto, o melhor era pura e 
simplesmente não estudá-la. Até aqui, Watson, não quis correr o risco de afirmar ou negar 
a existência da consciência como ser. Escapou assim de sair do domínio da ciência e 
ingressar na esfera da filosofia, da ontofogia, da metafísica. Empirista e positivista como 
era, quis lidar apenas com os chamados fatos positivos: as relações de causa-efeito na 
dimensão comportamento-ambiente. Isso era possível. Pavlov já o havia demonstrado. 
Outros psicólogos animais também. Para ele, portanto, era viável uma psicologia objetiva 
e experimental cujo conhecimento poderia ser negado ou acumulado sem haver necessi¬ 
dade de qualquer referência à noção de consciência. Com a negação apenas metodológica 
da consciência e das experiências internas, nascia o behaviorismo metodológico. Mas 
continuava o problema de como lidar com aquelas experiências subjetivas. 

Em Watson, houve uma preocupação de não se afastar do empírico, de se esta¬ 
belecer hipóteses cujos conceitos eram apenas descritivos dos fenômenos envolvidos. 
Com o tempo, foram surgindo outras vertentes dentro do behaviorismo, que defendiam 
construções teóricas mais elaboradas, numa tentativa de dar conta de problemas como a 
determinação do comportamento instrumental, que a abordagem de Watson, em parte 
baseada nos paradigmas pavlovianos, não conseguia resolver satisfatoriamente. Além de 
utilizar conceitos descritivos, estas vertentes passaram a utilizar conceitos explicativos, 
ou constructos hipotéticos. Hull e Tolman foram os representantes mais marcantes, um, 
procurando manter-se dentro dé um modelo S-R, e o outro, reutilizando conceitos 
mentalistas como intenção e cognição submetidos a novas definições. O fato ó que o 


18 Bemurd Kdngt 



velho S-R transformou-se em um S-O-R, sendo que o “O" referia-se a uma infinidade de 
variáveis intervenientes hípotetizadas. O behaviorísmo continuava metodológico, apesar 
dos problemas de definição conceituai que a referência àquelas variáveis envolvia. Este 
"O", como entidade hipotética, substitui o “espaço" ocupado pela consciência e adquiriu 
ares de maior respeitabilidade científica. No entanto, estas variáveis nâo representavam 
descritivamente os eventos subjetivos que continuavam negados metodologicamente. 

Com o advento do pensamento skinneriano, este problema começou a ser tratado 
de forma diferente. Radical em seu empirismo, Skinner procurou fazer descrições preci¬ 
sas das relações funcionais entre o organismo e o ambiente. Evitou apelar para constru¬ 
ções teóricas e manteve-se no domínio da descrição. Uma vez definidas as relações 
funcionais fundamentais, não hesitou em fazer filosofia. Não negou metodologicamente a 
consciência: negou-a ontologicamente. Argumentou contra a necessidade de se supor 
duas realidades, uma material e outra imaterial, como a cultura ocidental se acostumou a 
supor durante milênios. Para ele, somente lidamos com o mundo físico, material. A seriação 
física continua no interior do organismo e produz eventos que são discriminados tal como 
os eventos externos. Trata-se, em ambos os domínios, de comportamento discriminativo. 
Essas discriminações externas ou internas sofrem, eventualmente, uma modelagem ver¬ 
bal que permite que sejam descritas verbalmente, com mais ou menos precisão, pelo 
próprio indivíduo, no futuro. A consciência nada mais é do que isso: discriminação e 
descrição verbal de eventos externos ou internos. As condições de manutenção dos com¬ 
portamentos são idênticas, tanto para os comportamentos explícitos quanto para os en¬ 
cobertos. 

Onde se via, até então, percepção, agora se vê comportamento discriminativo. 
Onde se via pensamento, agora se vê comportamento verbal encoberto. Onde se via ima¬ 
ginação, agora se vê comportamento discriminativo na ausência do estímulo discriminativo. 
A formulação de Skinner é brilhante, inovadora, originalíssima, instigante. 

O repertório verbal disponível, entretanto, que levou milênios para ser elaborado, 
continua mentalista. O próprio Skinner, ao escrever suas obras, não deixa de utilizar os 
termos disponíveis porque são os disponíveis. Em muitos trabalhos, ele procura mostrar 
equivalências entre a conceituação mentalista e a sua, desenvolvendo novas e interessan¬ 
tes descrições para fenômenos anteriormente descritos apenas com linguagem mentalista. 
Mas não se muda a cultura com alguns artigos. (O jargão freudiano já está bastante 
difundido mas, apesar de ter trazido algumas inovações quanto à visão anterior sobre 
alguns aspectos do comportamento, não quebrou o modo de pensar dualista - corpo- 
psique, manifesto-subjacente - já em vigor em sua época. Hoje em dia, ó até mesmo 
difícil, ao se fazer atendimentos, não se ter que enfrentar com clientes noções como a de 
que seu comportamento não esteja sendo comandado pelo "inconsciente".) Mas o pensa¬ 
mento e o jargão skinneriano ainda estão menos difundidos e são mais chocantes com a 
visão cultural tradicional sobre os eventos internos. Por isso, ó mais difícil e demorado de 
serem absorvidos. 

Na década de 50, ao lado do grande desenvolvimento da análise experimental do 
comportamento, testemunhou-se o nascimento da terapia comportamental. Wolpe, o seu 
iniciador, aproveitou-se dos princípios do comportamento oriundos do behaviorísmo 


Sobrr comportdrrifnío f cognlçJo 19 



metodológico (fundamentados em Hull e Guthrie), de uma inclinação metodológica expe¬ 
rimental e propôs procedimentos que vieram se mostrar extremamente eficientes na mu¬ 
dança de alguns quadros ansiosos. Durante décadas, dessensibilização sistemática per¬ 
maneceu como sinônimo de terapia comportamental. Imagino que muitos aqui tenham se 
utilizado desse procedimento sem grandes preocupações de se era baseado no 
behaviorismo metodológico ou no behaviorismo radical. E atentem para o fato de que a 
técnica consistia em três componentes principais: construção de hierarquias de ansieda¬ 
de, relaxamento e apresentação sistemática dos itens da hierarquia para serem imagina¬ 
dos durante relaxamento. Eventualmente, a exposição era ao vivo. Mas estava presente a 
idéia que uma imagem gera ansiedade tanto quanto a exposição aos estímulos ‘‘reais". 
Duvido que alguém possa qualificar Wolpe como cognitivista, mas a idéia básica da abor¬ 
dagem cognitiva está aí. Quem se incomodou muito com isso, na época? 

A análise experimental do comportamento gerou sua própria visão de psicoterapia: 
inicialmente denominada modificação de comportamento, posteriormente foi descrita como 
análise aplicada do comportamento. A análise experimental do comportamento, apesar 
de enfatizar mais os aspectos operantes, não-verbais e verbais, das relações organismo- 
ambiente, também inclui processos respondentes. Na década de 60, a equação básica 
para análise do comportamento era a seguinte: 



• S diz respeito aos eventos antecedentes (estímulos incondicionados, condicionados ou 
discriminativos); 

• O diz respeito aos esquemas de manutenção do organismo (privação, saciação, etc.); 

• R diz respeito às respostas do organismo; 

• C diz respeito às conseqüências do comportamento operante (positivas, negativas, nu¬ 
las); 

• K diz respeito aos esquemas de reforçamento em vigor para aquele comportamento 
(contínuo, intermitente de razão fixa ou variável, intermitente do intervalo fixo ou variável, o 
assim por diante). 

Pergunto: essa equação violenta fundamentalmente princípios de uma análise 
aplicada do comportamento? Omito algo? Talvez o componente dos processos verbais e/ 
ou encobertos. 

A evolução do conhecimento dentro do behaviorismo manteve as distinções (filo¬ 
sóficas) entre o behaviorismo metodológico e o behaviorismo radical. No primeiro, houve 
uma tendência de valorização das chamadas variáveis cognitivas. No segundo, houve a 
exploração sistemática do comportamento verbal e dos eventos encobertos. 

Numa equação metodológica, as variáveis cognitivas ocupam uma posição (e só 
a posição) semelhante à dos eventos encobertos na equação radical. A diferença está no 


20 Itcrn.ird 



modelo. Para o modelo cognitivo, há uma seqüôncia - cautal - entre S e os diferentes 
tipos de R: Os eventos antecedentes ativam cognições que evocam emoções (os 
respondentes) e que, por sua vez, influenciam as próprias cognições (os operantes). Para 
o modelo radical, os eventos antecedentes aumentam a probabilidade de ocorrência de 
determinados eventos internos e de operantes e elicíam respondentes. 

Será que são tão diferentes e incompatíveis que necessariamente conduzam a 
conflitos e antagonismos, como os que observamos entre as duas correntes, quase como 
se fosse entre a corrente behaviorista e a psicanalítica? Será que a prática deles decorren¬ 
te ó tão diferente? Será que os resultados dessa prática são piores, um em relação ao 
outro? O que importa mais: o modelo que descreve o comportamento ou o próprio compor¬ 
tamento? Se o comportamento de terapeutas frente a seus clientes são semelhantes e 
conduzem a resultados semelhantes, que diferença faz, na prática, que o modelo que o 
descreva para terapeutas de orientações filosóficas diferentes sejam diversos? Pode fa¬ 
zer muita diferença no nível filosófico, epistemológico, teórico, e isso é importante para o 
progresso do conhecimento. Mas aqui estamos lidando com práticas terapêuticas, bene¬ 
fícios de pessoas e a difusão de procedimentos que beneficiem mais pessoas. 

Esse aspecto prático é muito importante. Os pacientes entendem muito clara¬ 
mente o modelo cognitivo, o aceitam como válido e se dispõem com relativa facilidade a 
operar sob sua ótica para alcançar as mudanças que pretendem. As mudanças são 
alcançadas e isso reforça os comportamentos clínicos e as convicções dos terapeutas. A 
comunidade psi não-comportamental também entende e aceita esta ótica. Despertamos 
mais respeito, admiração, convites para debates, encaminhamento de pacientes, etc., 
pela aceitação do modelo, pela força dos dados e, conseqüentemente, pela crença na 
efetividade das práticas decorrentes. No meio psiquiátrico, por exemplo, cada vez mais se 
aceita, considerados os resultados das pesquisas realizadas nos quatro cantos do mun¬ 
do, é que a terapia cognitivo-comportamental é, hoje, o casamento mais adequado para a 
intervenção psiquiátrica. O reconhecimento mundial chegou ao ponto de o Food and Drug 
Administration, do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, determinar que só exis¬ 
tem dois trâtamentos eficazes para o Transtorno do Pânico: medicação antidepressiva e 
terapia cognitivo-comportamental, e que o uso de outras abordagens será considerado 
imperícia. 

Cansei de ser tratado como um ser exótico com idéias bizarras por aqueles que, 
baseados em filosofias, mais do que em fatos, viam minha prática como ingenuidade. 
Acostumei-me a valorizar mais os dados do que a retórica, pois são o único fundamento 
confiável para a nossa prática, e sempre acabam se impondo inevitavelmente. E eles têm 
demonstrado inequivocamente a efetividade da terapia cognitivo-comportamental. Não pre¬ 
tendo, pois, negar a força destes dados em defesa de uma filosofia, por mais adequada 
que pareça. 

É curioso que, depois de muitos anos de dificuldades, de vermos nosso trabalho 
aceito e valorizado, agora que conquistamos esse reconhecimento, passemos a ter, den¬ 
tro de nosso movimento, divisões e antagonismos internos. Talvez isso se deva à força da 
brilhante argumentação skinneriana, mas também a algum desconhecimento do modelo 
cognitivista e dos seus efeitos amplamente verificados. 


Sobre comportamento e cognição 21 



1 . 


Qual é o modelo cognitivo? 


O modelo cognitivo entende que afeto e comportamento são determinados pelo 
modo como o indivíduo estrutura o mundo. Suas cognições (eventos verbais ou pictóricos 
do sistema consciente) medeiam as reações (sentimentos e comportamentos). O modelo 
esquemático é o seguinte: 


Afeto 

Mundo Externo -> Interpretações -> 

Comportamento 


Distingue-se da psicanálise e da psiquiatria biológica, na medida em que estes 
entendem que a ação de um indivíduo está baseada em um determinismo, seja externo, 
seja fora do seu controle, enquanto o modelo cognitivo supõe que a origem da ação se 
encontra na sua consciência (entendida como se quiser), logo sob seu poder. 

Historicamente, a Terapia Cognitiva (TC) teve como precursora a Terapia Racio¬ 
nal-Emotiva de Albert Ellis, mas foi Aaron T. Beck quem lhe deu os contornos atuais. 
Beck, originalmente um psicanalista, percebeu, em seus atendimentos, certas caracte¬ 
rísticas no processamento cognitivo de seus pacientes deprimidos e a relação destas 
com sintomas por eles apresentados. Pouco a pouco foi desenvolvendo sua teoria e uma 
prática correspondente e submetendo-as a verificações experimentais que as validaram. 

Na mesma época, algumas variantes da Terapia Comportamental também come¬ 
çaram a valorizar progressivamente os aspectos cognitivos, como as de Bandura, Mahoney 
e outros, com o conseqüente desenvolvimento de uma abordagem cognitivo-comportamental. 

Tentamos compreender um pouco melhor seus fundamentos, seus princípios e 
seus processos. 

As interpretações que um indivíduo faz do mundo se estruturam progressivamente 
durante seu desenvolvimento, formando regras ou esquemas. Estes orientam, organi¬ 
zam, selecionam suas novas interpretações e ajudam a estabelecer critérios de avaliação 
de eficácia ou adequação de sua ação no mundo. Numa analogia, pode-se dizer que 
funcionam tal como as regras gramaticais na regulação do comportamento verbal. 

Esquemas são espécies de "fórmulas" que uma pessoa tem a seu dispor para 
lidar com situações regulares, de maneira a evitar todo o complexo processamento que 
existe quando uma situação é nova. Orientam e ajudam uma pessoa a selecionar os 
detalhes relevantes do ambiente e a evocar dados armazenados na memória também 
relevantes para a sua interpretação. Os esquemas podem se organizar em compostos 
mais complexos chamados constelações cognitivas, que se manifestam através de 
prontidões {sets) cognitivas, entendidas como estados de ativação cognitiva, que preparam 
um indivíduo para um certo tipo de atividade cognitiva específica (detecção de perigo, 
apreciação estética, etc.). Todos esses fatores determinam a espécie e amplitude das 
reações emocionais e comportamentais. 


22 Beniiirii R.mgè 



Em condições normais, um estado de prontidão cognitiva varia de acordo com 
mudanças na estimulação. Se houver uma persistência, através de diversas situações, o 
“set" está evidenciando uma tendenciosidade que denuncia a ativação de um modo. A 
noção de modo corresponde ao conceito utilizado em eletrônica que define modos de 
funcionamento de equipamentos (por exemplo: modo rádio FM, modo rádio AM, modo 
gravador, modo CD, em equipamento de som). Um modo ativado significa que o indivíduo 
fica funcionando mais regularmente naquela função (em looping). Há modos negativistas, 
narcisistas, vulneráveis, eróticos, etc. 

A ativação de um modo estimula a ativação de esquemas correspondentes e de 
determinados sets cognitivos; estes, por sua vez, irão disparar pensamentos automáti¬ 
cos, que são verbalizações (ou imagens) encobertas específicas, discretas, telegráficas, 
reflexas, autônomas e idiossincráticas sentidas como plausíveis e razoáveis. Os pensa¬ 
mentos automáticos vão gerar as emoções correspondentes, e através deles pode-se 
descobrir os esquemas que os geram. Isso tornará possível descobrir os tipos de distorções 
cognitivas que sustentam as patologias com que nos defrontamos, de maneira a poderem 
ser tratadas. Cada patologia tende a funcionar com tipos específicos de distorções cognitivas. 

Resumidamente, pode-se dizer que qualquer emoção depende da avaliação que 
um indivíduo faz de uma situação. A percepção de um copo de água envolve uma avalia¬ 
ção positiva ou neutra, conforme a sede, ou de perigo se houver possibilidade de que ela 
possa estar contaminada; uma emoção de alegria, indiferença ou medo corresponderá 
àquela percepção. A idéia de contaminação pode ocorrer em função de evidências sobre 
a qualidade da água ou da ativação de pensamentos automáticos relacionados a perigo 
que denunciam a existência de determinados esquemas idiossincráticos de um indivíduo 
e a ativação de um modo de invulnerabilidade. A reação de medo conseqüente a um 
evento sobre o qual não há evidências de perigo sugere a existência de distorções no 
processamento cognitivo que podem requerer uma intervenção reparadora. 

Um dos esquemas mais fundamentais de um indivíduo é o de domínio pessoal. 
É constituído pelo conjunto de objetos tangíveis ou não que são relevantes para uma 
pessoa. No centro do domínio está seu conceito de si mesma, seus atributos físicos e 
características pessoais, suas metas e valores. Aninhados, em torno do centro, há objetos 
animados ou inanimados nos quais há investimentos, e incluem, tipicamente, sua família, 
amigos, bens materiais e posses. Os outros componentes de seu domínio variam em grau 
de abstração: escola, trabalho, grupo social, nacionalidade e valores intangíveis como 
liberdade, justiça ou moralidade. A natureza da resposta emocional - perturbada ou não - 
depende de a pessoa perceber os eventos como adicionando (alegria/euforia), subtraindo 
(tristeza/depressão), ameaçando (medo/pânico) ou invadindo/coagindo (raiva/hostilidade) 
seu domínio. 

A concepção desse modelo que envolve, como vimos, as noções de esquemas, 
modos e pensamentos automáticos gerou o desenvolvimento de uma prática terapêutica 
específica. A TCC ó uma integração dos princípios e práticas das terapias comportamental 
e cognitiva. É abordagem ativa, diretiva e estruturada usada no tratamento de uma varieda¬ 
de de problemas psiquiátricos, fundamentada nos modelos cognitivo e comportamental e 
caracterizada pela aplicação de uma variedade de procedimentos clínicos como 
introspecção, teste de realidade, insighte inúmeros procedimentos comportamentais que 
conduzem a aprendizagens, visando aperfeiçoar discriminações e corrigir concepções 


Sobrr comporl.imcnto e cotfuíç.lo 23 



equivocadas, modificar estados emocionais e mudar comportamentos julgados inadequa¬ 
dos. 


Uma sólida relação terapêutica é uma condição necessária para uma TCC efetiva. 
Atributos, como empatia, interesse genuíno, calor humano, autenticidade, devem estar 
presentes em todo terapeuta cognitivo. A relação é vista como um esforço colaborativo 
entre terapeuta e paciente. Juntos estabelecem os objetivos da terapia e de cada sessão, 
prazo e duração do contrato terapêutico, os “sintomas-alvo", as tarefas, etc. Assim, fica 
clara a participação ativa do paciente em seu processo de mudança. 

A TCC usa primarlamente, no trabalho cognitivo, o método socrático. De forma 
alguma ela pode ser persuasiva. Transcorre, fundamentalmente, em torno de perguntas 
que o terapeuta faz para o paciente questionar os fundamentos de suas crenças e, na 
ausência destes, poder modificá-las. Os questionamentos que motivam as reestruturações 
giram em torno fundamentalmente de evidências que sustentam as crenças e pensamen¬ 
tos automáticos e de outras alternativas possíveis de se interpretar a situação. A falta de 
evidências e a descoberta de outras interpretações abalam a confiança na crença, tornan¬ 
do-a uma hipótese entre outras sujeita à verificação. Assim, o trabalho cognitivo visa 
ajudar o paciente a processar as informações de um modo semelhante ao que um cientis¬ 
ta usa em seu trabalho e que o próprio paciente também usa quando envolvido em situa¬ 
ções não prejudicadas por um processo falho, como, por exemplo, quando investiga as 
razões de um vazamento de água, ou de uma falha elétrica, ou ainda de um tremor na 
direção de um veículo. 

A TCC ó orientada para o problema, não para a personalidade. É estruturada e 
diretiva para atingir seus objetivos de mudança da situação problemática específica. Para 
isso, baseia-se em um modelo educacional em que se objetiva ensinar ao paciente recur¬ 
sos para lidar sozinho com novas situações com as quais se defronte no futuro. Daqui se 
depreende que a TCC também se utiliza de um método indutivo na medida em que toma 
as evidências dos dados como instrumento de avaliação da credibilidade das hipóteses. 

O trabalho de casa é considerado um aspecto central da TCC, uma vez que o 
trabalho desenvolvido nas sessões é limitado no tempo e que o tempo fora das sessões 
pode ser utilizado para novas experiências e exercícios corretivos de suas crenças 
disfuncionais. A resistência em realizá-los deve ser examinada nas sessões, de modo a 
detectar possíveis fatores que estimulem a evitação. 

Parte da sintomatologia de um paciente pode ser atribuída à incompreensão do 
que lhe acontece. É fundamental - seja como elemento de aliança terapêutica, seja por 
respeito a seus direitos como paciente, seja como já parte do processo de mudança - 
uma explicação detalhada da base lógica da TCC, de sua compreensão dos problemas e 
da compreensão possível, até o momento, da problemática trazida pelo paciente. Esse 
passo inicial ó fundamental para um certo alívio do sofrimento do paciente, pela possibili¬ 
dade de sentir-se compreendido com o correspondente aumento de esperança de resolu¬ 
ção; para o estabelecimento de uma aliança terapêutica produtiva; para o comprometi¬ 
mento com um contrato de trabalho firmado em bases de cooperação mútua; e para o 
entendimento do que se pretende fazer, do que se espera do paciente e como isso se 
insere no processo e resultado. 

Já se viu que o enfoque da TCC se baseia na idéia de que, entre outras variáveis, 


24 Bfrn<mJ K*ingi 



os pensamentos podem gerar os afetos e os comportamentos que constituem a queixa do 
paciente. A detecção desses pensamentos durante a sessão, quando estão "quentes” e 
“vivos", ó crucial para uma adequada demonstração das distorções cognitivas em ocorrên¬ 
cia. Mas ó importante que, dessa experiência, o paciente aprenda a detectar por si mes¬ 
mo os pensamentos disfuncionais como um primeiro passo para aprender a manejá-los. 
Para isso, usam-se os Registros Diários de Pensamentos Disfuncionais (RDPD), nos 
quais, tomando-se os afetos como marcadores, são registrados os eventos situacionais 
(dia, hora, situação), emocionais (sentimentos, reações corporais) e cognitivos (pensa¬ 
mentos e imagens) relevantes. As sessões seguintes envolverão, com certeza, uma anᬠ
lise e discussão detalhada dos RDPD. 

A análise dos RDPD permitirá o estabelecimento em conjunto dos sintomas-alvo 
(desânimo, tristeza, ansiedade, falta de concentração, evitações, ideações suicidas, etc.), 
dependendo do quadro apresentado pelo paciente e de suas necessidades mais imedia¬ 
tas. A alteração das cognições, que sustentam esses sintomas-alvo, é passo seguinte 
logicamente necessário dentro do modelo. 

Uma vez que o paciente tenha adquirido uma compreensão da lógica do processo 
aprendido a detectar os pensamentos disfuncionais, é chegado o momento de generalizar 
o tratamento para fora do contexto terapêutico. A aprendizagem realizada pelo paciente 
de como questionar suas crenças disfuncionais poderá ser executada por ele próprio em 
seu dia-a-dia e registrada nos RDPD para posterior análise. 

Como afirmei acima, em grande parte, o tratamento faz uso de muitos procedi¬ 
mentos comportamentais. O Plano de Atividades Diárias (PAD) e a prescrição de tarefas 
graduadas para pacientes deprimidos, a auto-exposição a determinadas situações para 
pacientes com distúrbios de ansiedade, a prevenção de respostas para o tratamento de 
compulsões, por exemplo, podem ser recomendadas como técnicas auxiliares para com¬ 
bate de determinados sintomas-alvo e para testes da realidade imprescindíveis à modifica¬ 
ção de crenças distorcidas. 

As técnicas terapêuticas destinam-se a identificar, testar na realidade e corrigir 
concepções errôneas e, com isso, ajudar o paciente a pensar mais objetiva e realistica¬ 
mente. Envolvem ensinar ao paciente a observar e controlar seus pensamentos automáti¬ 
cos depois de ele reconhecer os vínculos entre cognições, afetos e comportamento; exa¬ 
minar evidências pró e contra seus pensamentos automáticos; substituir as cognições 
automáticas tendenciosas por outras mais orientadas para a realidade; e aprender a iden¬ 
tificar e alterar as crenças (esquemas) disfuncionais que sustentam e geram os pensa¬ 
mentos automáticos. 

Nào há obstáculos definitivos para o uso complementar de medicamentos apesar 
de que este uso tende a facilitar atribuições externas (aos medicamentos) em detrimento 
de atribuições internas (à aquisição de recursos pessoais) que tendem a vulnerabilizar os 
pacientes a recidivas. 

Uma relação terapêutica distingue-se de outras relações interpessoais. O estabe¬ 
lecimento de uma boa relação terapêutica e de trabalho é fundamental para o sucesso de 
qualquer intervenção terapêutica, inclusive, como se viu, na TCC. Uma exagerada submis¬ 
são ao método, uma inconstância no seu uso, uma excessiva cautela prejudicam a rela¬ 
ção terapêutica e a evolução satisfatória da terapia. Igualmente, qualquer aspecto de 


Sobre comportimenfo e cotfnlç.lo 25 



didatismo exagerado ou persuasão serão contraproducentes. Deprimidos e ansiosos, por 
exemplo, tendem a estabelecer relações dependentes, o que descaracteriza o processo e 
a estrutura da TCC. Uma superficialidade no exame de significados de uma experiência 
precisa ser substituída por uma ênfase contínua em auto-exploração. A TCC maximiza 
seus resultados quanto mais os problemas são trabalhados enquanto estão "fervendo", 
isto é, quando ocorrem na próxima sessão; donde a necessidade de recriá-los ou até 
mesmo provocá-los nas sessões. 

Para encerrar, precisamos lembrar que cada vez mais tomamos consciência da 
complexidade do objeto de nosso interesse. Isso conduz a uma posição de certa humilda¬ 
de que reconhece os limites da abrangência de cada perspectiva. Precisamos nos aproxi¬ 
mar dos campos da psicobiologia, da psicofarmacologia, da psiquiatria, da sociologia, da 
antropologia e muitos outros, não só para conhecer melhor a contribuição de cada uma 
mas também para dar a conhecer a nossa, se quisermos progredir na direção de formas 
mais efetivas de tratamento e mudança. Temos, em nosso poder, um instrumento podero¬ 
so e valioso para o bem-estar de uma boa parcela da humanidade. Precisamos compartilhá- 
lo mais e mais para difundi-lo e torná-lo mais útil socialmente. Daí, precisamos de lingua¬ 
gens que sejam adequadamente decodificáveis. 

A TCC é UM caminho. Certamente não é o único. Tem uma filosofia questionável 
mas uma história que a justifica. Tem uma linguagem compreensível e uma efetividade 
comprovada. Fui treinado profissionalmente nesta perspectiva. Além de tudo, me satisfaz 
e reforça meus comportamentos clínicos. Sinto eco em meu diálogo com colegas cognitivos 
e comportamentais, psiquiatras e até psicanalíticos. Por que não seria eu um terapeuta 
cognitivo-comportamental? 


26 Bern<ird R.mgè 



Seção II 


Abordagem 
Behaviorista Radical 



Capítulo 5 


Bases filosóficas do Behaviorismo Radical 

Nil/ii Michclctto* 

i\/cvsr 


5uo freqüentes as referências à obra madura de Marx, distinguindo-a das pro¬ 
postas do jovem Marx; ou diferenciações entre o que é chamado o primeiro Wittgenstein 
e sua obra posterior, que parece receber maior reconhecimento; ou, ainda, aos textos pré- 
críticos de Kant, apontando-os como pouco significativos para compreensão de seu em¬ 
preendimento voltado para o estabelecimento dos limites da razão. Não são incomuns 
referências a diferentes momentos que marcam a produção da obra de muitos pensado¬ 
res, evidenciando que ela foi sendo construída através de adoção de certos conceitos e 
métodos, mas também de certos abandonos e reformulações. 

Acredito que uma análise das bases filosóficas do behaviorismo radical não pode 
ser diferente. Ao analisar o Behaviorismo Radical, a partir da obra de Skinner, ó preciso 


' Palestra apresontada no III Encontro Brasileiro de Psicoterapia e Medicina Comportamental. em setombro de 
1994 

> Profossora do Departamento do Métodos o Técnicas de Psicologia da Pontilldn Unlvorsidado Católica de 
Séo Paulo 

Endereço para correspondência; Rua Pelotas. 541 apto. 101 Sáo Paulo. SP - CEP 04012-002 
E-mail nmicheletto4iu-netsys.com br 


Sobrv comportamento e cognição 29 




distinguir os escritos iniciais dos produzidos no momento em que as características fun¬ 
damentais do seu pensamento estão propostas. Talvez muitas das criticas ao pensamen¬ 
to de Skinner devam-se ao fato de elas se aterem às suas propostas bastante iniciais, não 
atentando para as alterações que marcam o desenvolvimento de seu pensamento. Para 
falar das bases do pensamento de Skinner, é necessário destacar transformações que se 
operam no desenvolvimento deste pensamento. Do meu ponto de vista, deve-se delimitar 
as contribuições mais significativas de sua obra e elas não podem ser detectadas no 
jovem Skinner, que, como ele próprio reconheceu (1988a/1989, p.131) estava demasiado 
comprometido com algumas noções fundadas nas bases filosóficas do conceito de reflexo, 
o que contribuiu para algumas das críticas a sua psicologia. 

Uma dificuldade se coloca para a consideração das bases filosóficas do pensa¬ 
mento de Skinner: o fato de encontrarmos no seu pensamento algumas marcas que, 
consideradas de uma forma geral, aparentemente se mantêm inalteradas do início ao final 
de sua obra, cuja recorrência, em sua forma gerai, camufla as transformações: 

• o estabelecimento do objeto de estudo - o comportamento; 

• a suposição do comportamento como determinado; 

• a pretensão de fazer uma análise científica do comportamento, a partir da noção de 
ciência proposta pela ciência natural 

• o estudo realizado a partir do dado empírico; 

• o afastamento de toda metafísica do saber científico; 

• a proposta de previsão e controle. 

Mas essas marcas adquirem diferentes significados no decorrer de sua obra, o 
que torna necessário remeter seu pensamento de cada momento a ênfases e origens 
diferentes, apesar de relacionadas. 

Se, por exemplo, tomássemos como característica de seu pensamento sim¬ 
plesmente a ênfase no dado empírico, esta característica várias vezes foi razão de aproxi¬ 
mação de Skinner de uma visão empírísta; já a suposição do determinismo levou alguns a 
vinculá-lo ao mecanicismo; e o combate à metafísica e a pretensão de prever e controlar 
levou muitos a inseri-lo dentro do positivismo. Mas estas são características bastante 
gerais e podem ser encontradas em propostas metodológicas muito diferentes. 

Quem pensa assim dentro das propostas para a filosofia da ciência? 

A ênfase no dado, no empírico, é defendida pelos empiristas ingleses, ao basear 
o conhecimento nas sensações - empiristas que apresentam características muito dife¬ 
rentes entre si, desde o empirismo de Hobbes, que pode ser caracterizado como extrema¬ 
mente materialista e mecanicista, considerando a própria mente como fruto da associa¬ 
ção de idéias que se originam de sensações que propagam seus efeitos mecanicamente 
pelo corpo e cérebro, até o empirismo de Berkeley, que é caracterizado como idealista, 
supondo que o mundo ê um conjunto de sensações. O positivismo de Comte também 
defende as bases empíricas. Segundo ele, a observação ê a “única base possível de 
conhecimento verdadeiramente acessível", "toda proposição que não seja estritamente 
redutível ao simples enunciado de fatos, particular ou geral, não pode oferecer nenhum 
sentido real ou inteligível" (1844/1978, p.48). Mais contemporaneamente, podemos apon- 


30 Nil/«i Micheletlo 



tar dentro da filosofia da ciência os empiristas lógicos, o empirocriticistas, os verificacionistas 
e os refutacionistas propondo a ênfase no empírico como base para a produção de conhe¬ 
cimento, mas apontando maneiras muito diferentes de se operar sobre ele e o considerar. 

A defesa do determinismo e o combate à metafísica são características que ori¬ 
entaram o positivismo de Comte, mas também o materialismo dialético de Marx. Em 
Comte, pode-se dizer que este determinismo refletiria as relações imutáveis da realidade, 
descritas em leis invariáveis. Marx também enfatiza os “fenômenos externos” no conheci¬ 
mento. Nega, entretanto, que as leis que os descrevam sejam absolutas e imutáveis. Elas 
são leis da transformação que descrevem determinações múltiplas de uma realidade pro¬ 
cessual e contraditória. 

Esses exemplos evidenciam como os mesmos aspectos estão presentes em 
várias propostas metodológicas e que, caracterizados de forma geral, não podem levar a 
uma análise das bases corretas ou significativas do pensamento de Skinner. 

É importante compreender como os supostos relativos à ciência e ao objeto apa¬ 
recem na obra de Skinner e as transformações que sofrem, para compreendermos os 
autores aos quais seu pensamento pode ser relacionado sem incorrermos em simplifica¬ 
ções preconceituosas. 

Pode-se dizer que as bases fundamentais que norteiam a obra de Skinner estão 
vinculadas a sua pretensão de fazer da Psicologia uma ciência e, para compreender estas 
bases filosóficas, precisamos identificar os modelos de ciência que ele adota. Faço refe¬ 
rência a modelos de ciência porque não é apenas um modelo de ciência que pode ser 
identificado no desenrolar de sua obra. Num primeiro momento, Skinner toma como mo¬ 
delo as ciências físicas e as transformações que ela enfrentava. Em sua obra mais madu¬ 
ra, ele passa a operar com o modelo biológico, mais especificamente o fornecido pela 
teoria da evolução por seleção natural. Skinner, em 1938, defende que seu livro Behavior 
of Organísm está voltado para um análise do comportamento orientada por um sistema do 
qual a físico-química é um exemplo (Skinner, 1938/1966, pp. 434-435). Na década de 70, 
insere sua ciência no ramo da Biologia (Skinner, 1973a/1978; 1974). 


1. 1930-1938: a influência da metodologia proposta pelas ciências 

físicas na obra de Skinner 


O que estou chamando de momento inicial do pensamento de Skinner é o período 
1931-1938. Nesse período, sua pretensão é fazer uma ciência do comportamento e o 
modelo de ciência que adota está norteado pelas transformações que se operam nas 
ciências físicas e, conseqüentemente, nas propostas da filosofia da ciência associadas a 
estas transformações. Uma afirmação de Skinner de 1945 se refere à semelhança entre 
as transformações que ocorrem na física e o processo de constituição do behaviorismo: 


Sobre comport.imento c co#nlç.lo 31 



"A psicologia, e somente ela entre as ciências biológicas e sociais, atraves¬ 
sou uma revolução em muitos aspectos comparável àquela que estava tendo lugar 
na física. Esta era, é claro, o behaviorismo. "(Skinner, 1945/1984, p. 551) 

Qual é a revolução que ocorreu nas ciências físicas? 

Ela caracteriza-se pela crítica ao modelo mecanicista fundado na física nowtoniana 
que, no final do século XIX, vinha apresentando dificuldades ao ser estendido para várias 
áreas do conhecimento físico e para outras ciências. 

A visão mecanicista de mundo enfatiza sua materialidade: “o mundo consistiria 
de coisas distribuídas no espaço e no tempo, as coisas consistindo de matéria e sua 
matéria podendo dar lugar a forças e também sofrer sua açáo. Os fenômenos decorreriam 
da interação entro matéria e força, cada ocorrência sendo resultado e causa de outros 
eventos” (Heisenberg, 1987, p. 148). A mente, caberia unicamente descrever o mundo 
material. A própria natureza pode revelar o que nela ocorre, cabendo a verdade final a 
própria natureza e não a qualquer critério de autoridade humano. O mecanicismo envolvia 
não só a suposição da realidade existente independentemente do sujeito, como colocava 
também a necessidade de se buscar sempre um mecanismo que a explicasse. Uma 
realidade que se forma por uma sucessão de interações mecânicas faz supor a necessi¬ 
dade constante de uma matéria através da qual o efeito pudesse se propagar e a necessi¬ 
dade de um princípio de explicação sempre baseado em um mecanismo. Para eventos 
em que não se podia observar uma relação causal espacial ou temporal imediata, muitas 
vezes se tornava necessária a elaboração de conceitos baseados em interpretações ou 
especulações para garantir a conexão do sistema de causas. 

Foi este caráter interpretativo e especulativo da ciência física que foi criticado por 
alguns epistemólogos, por gerar conceitos definidos em termos de propriedades das quais 
não temos nenhuma segurança de sua existência, conceitos estes formulados com baso 
em interpretações inseguras e muitas vezes metafísicas. 

Ernst Mach (1838-1916), físico e epistemólogo, considerava que muito da crise 
da Física se devia à presença nos conceitos físicos de idéias metafísicas pressupostas 
pelos próprios cientistas, idéias por eles incorporadas aos conceitos mecânicos por influ¬ 
ências da época em que se originaram. Os conceitos mecânicos, segundo Mach. como, 
por exemplo, espaço e tempo absoluto, obstruíam o desenvolvimento do conhecimento 
por substituírem posições animistas das antigas religiões por uma mitologia mecânica. 
Para Mach, o avanço da Física depende de uma investigação rigorosa que afaste tais 
mitologias, investigação possível apenas quando o conhecimento tiver uma base 
observacional, quando for construído com base na "análise das sensações” (Mach, 1883/ 
1949, p.386). Mach torna sem significado tudo o que não produza resultado que possa se 
referir à sensibilidade. Para ele "coisas, corpo, matéria não são nada à parte da combina¬ 
ção de elementos” (1885/1959, p. 6). "O mundo consiste só de nossas sensações." Se 
"temos conhecimento só de sensações", "a concepção de um núcleo referido (...) do qual 
a sensação procede torna-se inútil e supérflua" (1885/1959, p. 12). Ele nega também a 
suposição de que os corpos são constituídos de matéria com existência própria, cuja 
interação com outras matérias produz as sensações. Para Mach, a questão da existência 
real não tem significado. Com esta forma de conceber os fenômenos, Mach nega a supo¬ 
sição da existência de substâncias materiais, fundamental para as noções mecânicas. A 
suposição de que tudo que é objeto de conhecimento é combinação de elementos, de 


32 Nil/.i Michelctlo 



sensações, leva à adoção de uma nova noção de explicação. Ela abandona a noção de 
causalidade mecânica e se reduz à descrição de relações funcionais entre sensações. 
Explicar ó descrever relações ordenadas entre fatos observados. Estas relações funcio¬ 
nais adotadas como explicação substituem, com o desenvolvimento da ciência, as no- 
çõos tradicionais de causa o efeito. Tais relações não determinam causas de eteitos, mas 
determinam funções entre os fatos. Estas críticas de Mach aos conceitos mecânicos 
serão condição importante para que Einstein proponha o conceito de relatividade. 

Bridgman critica também as visões de realidade e causalidade trazidas pelo 
mecanicismo — uma realidade independente do sujeito, que coloca a necessidade de 
buscar um mecanismo que a explique, e uma causalidade composta de elementos 
animistas (1927/1951, p. 80). Segundo Bridgman, "se uma questão tem significado, pode- 
se encontrar operações pelas quais uma resposta pode ser dada a ela" (1927/1951, p. 28). 
Um conceito deveria ser "sinônimo de um conjunto de operações correspondentes" à sua 
investigação (1927/1951, p. 5). Bridgman chama isso de uma atitude de puro empirismo 
(1927/1951, p. 3). 

Em 1931, Skinner se propõe a fazer uma análise científica do comportamento a 
partir do conceito de reflexo. Um conceito que permitia estudar o comportamento a partir 
de uma determinação observável no ambiente e que permitia previsão e controle. O con¬ 
ceito de reflexo, depois de ter se desenvolvido associado a muitos supostos metafísicos 
— que, segundo Skinner, conduziam a interpretações supérfluas e a inferências que difi¬ 
cultavam seu desenvolvimento — vinha sendo estudado cientificamente pela fisiologia, 
mas segundo critérios bastante diferentes do modelo que Skinner adota para sua ciência. 

Os critérios dos quais Skinner parte para estabelecer esta ciência são semelhan¬ 
tes aos que norteiam muitas das reformulações que se operam nas ciências físicas do 
início deste século. 

A partir de uma revisão histórica do conceito de reflexo, Skinner estabelece o 
conceito como correlação observada entre estímulo e resposta. Trabalhar com eventos 
observáveis diretamente em organismos intactos afastou-o não só de visões metafísicas, 
mas também de supostos sobre o comportamento e procedimentos de investigação vin¬ 
culados à fisiologia reflexa. 

A preocupação básica de sua ciência é o estudo do comportamento a partir do 
próprio comportamento, compreendido a partir da sua relação com o ambiente, sem que a 
investigação se dirija à identificação de estruturas mediadoras entre estes eventos. Essa 
delimitação da correlação a eventos observados nos extremos da série estímulo e respos¬ 
ta afasta a análise do comportamento do interesse pela mediação de estruturas localiza¬ 
das no sistema nervoso. A crítica de Mach e Bridgman aos supostos mecanicistas de um 
meio necessário à propagação ou condução de efeitos causais pode ser relacionada à 
não-consideração de estruturas mediadoras na análise do comportamento. Na história 
que faz do conceito de reflexo, Skinner se refere à fisiologia como tendo suposto um 
conjunto de "inferências" e "estruturas" para que a "condução" dos efeitos do estímulo se 
propagassem. Eventos intervenientes, como o arco reflexo, são propostos pela fisiologia 
reflexa como mediadores, como aqueles que realizam a condução entre o estímulo e a 
resposta. Para Skinner, estes mediadores são "suposições", "inferências" “evitáveis" do 
ponto de vista do comportamento. 


Sobre comportamento e cogníçAo 33 



Tomados de forma geral, são positivistas os critérios que Skinner adota para de¬ 
fender o estudo do comportamento a partir de dados observados, afastando-se de noções 
metafísicas, mas a eles devem ser adicionados critérios que podem ser relacionados aos 
critérios adotados por propostas críticas ao mecanicismo. 

O comportamento para Skinner ó o fazer do organismo. Em 1931, o interesse de 
Skinner ó investigar o que o organismo faz, os movimentos que o organismo realiza, sem 
considerar como uma questão da ciência a existência reat do reflexo, independentemente 
das operações usadas para investigá-lo (1931/1972, p. 448). Para Skinner, como para 
Bridgman, tem significado, e portanto cabe ser discutido pela ciência, "aquilo que não 
está além da imediata demonstração experimental" (Skinner, 1931/1972, p. 441), aquilo 
que pode ser “expresso em termos de operações experimentais" (Skinner, 1931/1972, p. 
453). Do ponto de vista operacional, a definição deveria estabelecer a operação através da 
qual ela ó conhecida. Essa posição, que o aproxima de Bridgman e de Mach, o afasta de 
Comte, para quem ó preciso transformar o cérebro em reflexo fiel da ordem exterior. 

Há ainda mais uma aproximação com Mach: a noção de explicação. Para Skinner, 
o conhecimento suficiente para uma ciência não pode ser a descrição de “um evento em 
si mesmo" (1931/1972, p. 448). Deve-se relacionar o evento a outros eventos. O compor¬ 
tamento só pode ser compreendido a partir do intercâmbio do organismo com o ambiente. 
Uma relação que não expresse uma causa, e sim que descreva uma função. Para Skinner, 
como para Mach, a explicação é uma atividade idêntica à descrição. 

Apesar disso tudo, Skinner, neste momento, ainda tem uma suposição associa¬ 
da ao mecanicismo, decorrente de ter mantido características originais da noção de refle¬ 
xo: apesar de operar com a noção de relação funcional e não com uma causalidade 
mecânica, busca um evento no ambiente relacionado com o que organismo faz, mas 
considera que este evento deve ser um estímulo antecedente que provoca a ocorrência da 
resposta — “a descrição completa de um evento incluirá a descrição da relação funcional 
com o evento anterior". “O comportamento é uma exata função de forças agindo sobre o 
organismo" (1931/1972, p. 449). 

Se esta análise está correta, pode-se concluir que, no texto de 1931, Skinner 
adota critérios que estabelecem limites e possibilidades ao seu pensamento. O limite 
está em ter se mantido ainda preso ao suposto mecânico trazido das origens da noção de 
reflexo: a resposta ó determinada por um estímulo antecedente que a provoca. A adoção 
da idéia de relação funcional, abandonando um modelo de causalidade mecânica, parece 
ter sido condição que torna possível futuramente propor a noção de operante, na qual o 
modelo causal expressa um relação funcional mas não mais com um estímulo anteceden¬ 
te eliciador e sim com um evento conseqüente, em que o comportamento não só é deter¬ 
minado pelo meio, mas também produz este meio. 

Skinner supõe, neste período inicial, que o comportamento ó constituído de par¬ 
tes que devem ser detectadas e compreendidas e que se deve propor leis que descrevam 
a combinação destas partes. O comportamento do organismo total ó estudado a partir de 
unidades que se unem e interagem, e o reflexo é essa unidade. Skinner apresenta uma 
visão molecular do comportamento que se propõe a provar experimentalmente (1938/ p. 
55). Mas essa proposta de submeter o comportamento à análise não se viabiliza sem 
dificuldades e pode-se dizer que talvez não se viabilize completamente — “ó difícil subme¬ 
ter o comportamento à análise". Apesar de estabelecer uma unidade e tratá-la como se 


34 Nil/d Michelrtto 



fosse possível falar em interação de reflexo apenas como a combinação de efeitos sepa¬ 
rados, esta separação de efeitos parece não ocorrer, uma vez que afirma que "uma opera¬ 
ção não é única em seus efeitos" (1938/1966, p. 24). Skinner, ao discutir a indução, 
aponta que o isolamento da unidade para o trabalho experimental não é total. Ela se 
mantém relacionada com o resto do organismo e uma operação que é realizada sobre um 
reflexo afeta outros. Apesar dessas dificuldades, Skinner decide trabalhar experimental¬ 
mente com a unidade isolada. 

Seu suposto atomizador traz limites por, no mínimo, postergar a investigação de 
processos complexos que ocorrem com o comportamento ou minimizar sua importância. 
A simplificação que este processo atomizador traz pode estar Impedindo que os dados 
evidenciem que o todo não possa ser construído de suas partes, na medida em que não ó 
a interação que ó investigada, mas os processos isolados. Investigando-se só processos 
isolados é mais fácil mostrar que uma explicação em tais termos está correta. 

No decorrer deste período 1931-1938, houve um afastamento gradual dos princí¬ 
pios que nortearam suas propostas de 1931. Skinner abandonou a suposição de que a 
relação do conhecimento com o real é uma questão sem significado. Em 1935, afirma que 
os procedimentos analíticos que propõem como os orientadores de sua ciência devem 
respeitar as fraturas naturais em que o ambiente e o comportamento se quebram (1935/ 
1972, p. 458). Tais afirmações diferenciam-se das visões de Bridgman e Mach. Para Skinner, 
o processo de conhecimento não seria fruto da imposição do sujeito, nem representação 
de uma realidade, mas sim fruto de uma relação entre uma realidade que existe índepen- 
dentemente do sujeito que conhece e um sujeito ativo que opera sobre ela a partir dos 
limites o possibilidades dos seus procedimentos de investigação. 

Neste período, mais especificamente em 1937, Skinner propõe uma nova espécie 
de comportamento — o operante — que irá romper com a noção de determinação que 
implica identificar para qualquer ação um estímulo que a provocou. O organismo “age" 
sobre o ambiento sem que se identifique um estímulo eliciador. E esta operação "produz" 
consequências para o próprio organismo, ou seja, ele “produz o reforçamento”, o organis¬ 
mo "seleciona" reflexos que são importantes e "descarta" os não-importantes. Tais ca¬ 
racterísticas não implicam a negação de determinação ou a impossibilidade de abordá-la 
numa ciência descritiva. 

Com o operante, uma nova espécie de comportamento ó proposta e a previsão se 
dará por novas vias. A relação não ó com o estímulo eliciador, mas o comportamento ó 
entendido por relações estabelecidas previamente entre a resposta e o estímulo reforçador 
que a segue. A resposta não ó, como no respondente, "resultado de algo prévio que ó feito 
ao organismo" (1938/1966, p. 22), independentemente do que o organismo faz. Com o 
conceito de operante, Skinner propõe que este tipo de comportamento, apesar de ser 
espontâneo, agente, produtor e variável, ó submissível à lei e à previsão e, portanto, pode 
ser estudado pela ciência. 

Resta analisar como, ao incorporar a noção de espontaneidade e ação em função 
de efeitos, que coloca o organismo como produtor, não insere sua explicação no modelo 
finalista e mantém sua proposta de fazer da análise do comportamento uma ciência, uma 
proposta que incorpora a compreensão da especificidade da ação humana sem que seja 
necessário sair dos domínios da ciência, o que discutirei brevemente. 


Sobrr comportjmfnto e cognlçAo 35 



Pode-se afirmar que a possibilidade de o operante ter sido proposto por Skinner 
dentro de um modelo científico está relacionada com a adoção da idéia machiana de 
explicação como descrição de relações funcionais entre eventos, que substitui, como 
vimos, a noção de causalidade mecânica. A adoção desta noção de causalidade foi con¬ 
dição necessária para quo Skinnor pudosso propor a forma do causalidade presente no 
operante. A esta noção de causalidade pode ser relacionada a recusa a uma substância 
material e a um meio propagador dos efeitos do estímulo até a reposta. Foi a noção de 
relação funcional que tornou possível a inversão da relação da resposta com o estímulo 
reforçador presente no conceito de operante. Permitiu, também, compreender processos 
em que existem múltiplas variáveis integrando-se ou inter-relacionando-se. Isso parece 
possibilitar que o comportamento não seja explicado como mero produto passivo do am¬ 
biente, mas seja visto como um processo de relações recíprocas, em que o homem ó 
produtor do meio que o determina. 

A nova forma de explicação, como se evidenciará em textos futuros, está fundada 
na noção de evolução por seleção natural. Apesar de o pensamento de Mach estar relaci¬ 
onado às noções da teoria da evolução por seleção natural, Skinner inicialmente não 
destaca este traço de seu pensamento. Nenhuma referência à seleção natural ó feita por 
Skinner até que o operante seja proposto. Só a partir da proposição do conceito de operante 
é que referências a esta teoria começam a ocorrer no trabalho de Skinner. Mas tais refe¬ 
rências são poucas e não completamente explícitas. Pode-se dizer que, neste momento, 
só aparecem indícios do que será discutido como marcas do próximo momento de análise 
— a relação do conceito com a teoria da evolução por seleção natural. O modelo que 
predominantemente guia as afirmações de Skinner, neste momento, é o físico-químico, 
que lhe permite descrição dos movimentos reais dos organismos e a previsão do que o 
organismo fará futuramente (1938/1966, p. 440). Mas a Física a que Skinner se refere não 
é a newtoniana, e sim um modelo físico gestado a partir da oposição ao mecanicismo 
newtoniano. Segundo Skinner, a especificidade de seu objeto afasta-o do modelo 
mecanícista. 

“A ciência do comportamento não pode simplesmente copiar a geometria ou a 
mecânica newtoniana, porque seus problemas não são necessariamente da mesma es¬ 
pécie" (1938/1966, p. 437). 

Em síntese, pode-se dizer que, 1931 a 1938 foi um período em que, no processo 
de estabelecimento de seu sistema de comportamento, Skinner gradativamente se afasta 
de supostos mecânicos. Inicialmente, separando-se da suposição de processos interme¬ 
diários entre o estímulo e a resposta, para a propagação de efeitos causais. A seguir, 
deixando de lado a suposição de que o organismo se comporta apenas em função da 
provocação do meio. Apesar de o afastamento de supostos mecanicistas não ter sido até 
este momento completo, pode-se dizer que Skinner, já desde muito cedo, em sua obra, 
não apresenta noções que a ele são atribuídas e pela quais ele ó criticado. Muitas das 
críticas ao pensamento de Skinner que o apontam como mecanicista, como redutor do 
homem a um ser autômato, como elaborador de uma psicologia estímulo-resposta, 
desconsideram que as origens de seu pensamento e o desenvolvimento inicial de seu 
sistema se relacionam a propostas que visam se afastar de supostos mecanicistas, que 
surgem já nos primeiros artigos de sua obra, e desconsideram a proposição do conceito 
de operante que o afasta, já em 1937, da psicologia estímulo-resposta e que enfatiza uma 
espécie de fazer do organismo que produz o meio que o determina. 


36 Nil/.i Michcldlo 



2. 1980-1990: a influência da metodologia proposta pelas ciências 

biológicas 


O foco do interesso no fazer do organismo, agora especificamente no fazer huma¬ 
no, se mantém, mas adquire um novo sentido e toma amplas dimensões no decorrer de 
sua obra, devido ao significado dado a este fazer pelo operante. Há uma ampliação de seu 
objeto de estudo. 

O critério que parece guiar aqui a delimitação do fazer não se refere só a um 
critério vinculado ao pesquisador, que lhe dê possibilidade de observar, mas se refere à 
própria relação do comportamento com o mundo e com o outro. Como Skinner afirma: 

... "a observação direta, não importa quão prolongada, diz-lhe [ao pesquisador] 
muito pouco do que está ocorrendo" (1968/1969, p. 9). 

A operação sobre o mundo, que o operante destaca, e o papel do outro nesta 
relação, ou como parte desta relação, tomam dimensões cada vez mais significativas em 
sua obra. O comportamento será analisado não só como produto do ambiente, mas prin¬ 
cipalmente como produto do ambiente social. Em nível humano, esta relação com o outro 
tem uma especificidade, o comportamento verbal. 

Na medida em que o comportamento verbal começa a ser estudado, amplia-se a 
abrangência deste fazer, de forma a incorporar todos os níveis da ação humana: os even¬ 
tos privados, a moral, o pensamento, a consciência, a alienação e a própria ciência, que 
é compreendida como uma forma de comportamento. 

Com o comportamento verbal o “homem age indiretamente sobre o meio do qual 
emergem as conseqüências últimas de seu comportamento. Seu primeiro efeito é sobre 
os outros homens” (Skinner, 1957/1978, p. 15);... “o comportamento é modelado e man¬ 
tido pelas conseqüências mediatas" (...); "um comportamento reforçado pela mediação de 
outras pessoas"... (p. 16). 

O estudo do comportamento verbal permite propor eventos privados como perten¬ 
centes ao seu objeto de estudo, o que afasta Skinner de posturas metodológicas que 
defendem a necessidade de observação direta como condição de tomar um objeto como 
passível de ser estudado pela ciência, uma vez que ela permitiria um consenso público. 
Como afirma em 1945: 

“O critério nâo ó se as pessoas concordam ou não, mas se o cientista que o 
usa pode operar com êxito sobre o material" (...) "estar de acordo ó muito pouco" 
(...) "O consenso estará sempre a beira de ser rompido"... (1945/1984, p. 552). 

As determinações do comportamento não são todas diretamente observáveis. 
Múltiplas dimensões estão envolvidas no que é chamado de determinação ambiental. 
Essas determinações, no transcorrer de sua obra, vão se ampliando. Skinner propõe a 
determinação conjugada do ambiente em três níveis: o ambiente da espécie, o ambiente 
que opera na vida individual e o ambiente social. 

Além de haver uma interação destas várias determinações, elas agem no trans¬ 
correr da história de,cada um, transformando-se. Portanto, uma observação direta do 


Sobre cornporl.tmcnto c co#nlç.1o 37 



comportamento não fornece todos os elementos necessários à compreensão, uma vez 
que ela não evidenciaria, de forma completa, os reais determinantes do comportamento. 

Este novo significado dado ao fazer se vincula às influências das ciências biológi¬ 
cas, especificamente a teoria da evolução por seleção natural, que trazem para o compor¬ 
tamento um novo conjunto de pressupostos. As referências aos supostos da teoria da 
evplução por seleção natural começam a aparecer a partir da distinção entre reflexos 
respondentes e operantes. A vinculação com a seleção natural vai ficando cada vez mais 
explícita e abrangente. Se de início Skinner busca na seleção natural os princípios que 
orientam sua concepção de objeto, gradualmente estes princípios se estendem à própria 
noção de causalidade. 

No que se refere ao seu objeto de estudo, o paralelo com os princípios da seleção 
natural é proposto pelo próprio Skinner. Não só o reflexo tem papel de sobrevivência para 
o organismo, mas também o operante. 

4 Vimos que em certo aspecto o reforço operante se assemelha à seleção 
natural da teoria da evolução. Assim como as características genéticas que sur¬ 
gem como mutações são selecionadas ou rejeitadas por suas conseqüências, tam¬ 
bém novas formas de comportamento são selecionadas ou rejeitadas pelo refor¬ 
ço(Skinner, 1953/1976, p. 241). 

Vou fazer uma pequena síntese dos princípios propostos por Darwin para com¬ 
preensão das espécies que estão norteando sua visão de objeto e de causalidade. 

Darwin (1809 -1882) explica as espécies atuais e sua adaptação ao meio em que 
vivem através do mecanismo da seleção natural. As espécies não se criam independente¬ 
mente umas das outras. A Origem das Espécies (1859) refere-se à transformação de uma 
espécie em outra. Essas espécies teriam evoluído por um processo de seleção no interior 
de uma variação biológica abundante. O número de descendentes é muito grande em 
relação aos que os geram, apesar de cada espécie manter um número estável de indivídu¬ 
os. A competição das espécies umas corrf as outras submete os descendentes que 
possuem diferentes condições de sobrevivência, sob dadas condições ambientais, a um 
processo de seleção natural. A diversidade e variação orgânicas nos seres de uma espé¬ 
cie são aspectos marcantes da mudança evolucionária. Segundo Darwin, a seleção ó um 
processo em que há “preservação de variações favoráveis e rejeição de variações prejudi¬ 
ciais". Esse processo faz com que os seres mais aptos — aqueles que em determinado 
meio agiram mais eficazmente para alimentar-se ou defender-se do inimigo — sobrevivam, 
adaptem-se ao meio, tendo assim melhor possibilidade de reproduzir-se. A sobrevivência 
é a do mais apto para um meio particular. Os seres que sofrem mutações orgânicas 
vantajosas têm mais chance de sobreviver e, pela hereditariedade, deixar para seus des¬ 
cendentes os caracteres acidentalmente adquiridos. 

Algumas características decorrem desta forma de ver as espécies: 

• não podemos supô-las imutáveis, ela só podem ser entendidas como produto de um 
processo constante de transformação gradual de uma forma a outra, um processo de que 
resultou a forma atual, mas que será substituído por outras formas futuras; 

• estas modificações se operam de forma variada dentro da espécie, sendo a diversidade 
condição fundamental para que uma espécie sobreviva, pois, se suas características fos- 


38 Nilzd Michelftto 



sem homogêneas, uma transformação ambiental poderia extinguir todos os seus mem¬ 
bros. Assim, aqueles que agem sobre o mundo de forma mais efetiva, mais adequada ao 
mundo transformado, sobrevivem; 

• a ação que garante a sobrevivência ocorre de forma casual, ela é selecionada a partir de 
sua utilidade, de sua eficiência sobre o mundo; 

• o organismo não pode ser entendido isoladamente, mas em sua relação com o ambiente 
em que vive, do qual fazem parte os outros membros da espécie e as outras espécies. 

São estes princípios que passam a operar na forma que Skinner concebe seu 
objeto de estudo, o comportamento. O homem que se comporta — que ó o seu interesse 
fundamental — é um ser em processo, em constante transformação. Nenhuma noção de 
imutabilidade pode orientar sua compreensão. Sua ação se origina a partir da relação com 
o ambiente em que ele vive e com o outro. E é fundamental que, desta relação, sejam 
gestadas formas variadas de ação. Devem ser destacadas a multiplicidade, a diversidade 
e a emergência de variações. A variabilidade é condição fundamental para a existência do 
homem — um ser suscetível a produzir múltiplas e variáveis formas de ação, um ser 
criativo, e suscetível a mudanças. 

“Pela ênfase na açâo seletiva das conseqüências" (...) “a análise experimental 
do comportamento lida com a criação do comportamento, precisamente como Darwin 
lidou com a criação das espécies" ( Skinner, 1984/1987, p. 123). 

Portanto, diferentemente de algumas características que lhe são atribuídas por 
alguns críticos, Skinner valoriza, na compreensão de seu objeto, a multiplicidade de ca¬ 
racterísticas, a variabilidade, a diferença e a transformação. 

‘Tanto na seleção natural como no condicionamento operante, o aparecimento 
de ‘mutações’ ó essencial" (1974, p. 247). 

Numa visão assim processual, o homem não pode ser entendido fora de sua 
história. E sua história não pode ser entendida isoladamente. Ela está inserida, ó produto 
da história de sua espécie e de sua cultura, cultura que, ao mesmo tempo, o próprio 
homem cria. É a história passada que determina sua vida atual. 

... "o comportamento é evanescente. Aquilo que os homens fazem e dizem 
são coisas momentâneas. Nada resta depois de uma resposta realizada, exceto o 
organismo respondente. O próprio comportamento transformou-se em história" (1966/ 
1969, p. 86). 

Estas inigualáveis histórias de vida produzem indivíduos muitos variados, únicos, 
mas ao mesmo tempo múltiplos, uma multiplicidade que constitui sua identidade. 

“Vocô ó um membro da espécie humana, absolutamente único geneticamen¬ 
te, a menos que tenha um gêmeo idêntico. Você também tem uma história pessoal 
que ô absolutamente única. Sua identidade depende da coerência desta história. 
Mais de uma história de vida conduz a múltiplos eus, nenhum dos quais pode ser 
dito o real eu" (1981/1987, p. 136). 

As características expostas são válidas para o organismo, para o indivíduo, para 


Sobre comportamento e cognição 39 



a cultura e também — deve-se destacar — para um produto fundamental, que é o conhe¬ 
cimento. Referindo-se às várias ciências do comportamento, Skinner afirma: 

‘Talvez esta diversidade seja salutar: diferentes abordagens poderiam ser en¬ 
caradas como mutações, das quais uma ciência do comportamento verdadeira- 
mente eficaz será selecionada" (1974, p. 274). 

Em síntese, entender o comportamento implica entendê-lo a partir de uma tríplice 
determinação ambiental indissociável: a espécie, a vida do indivíduo e a cultura. Esta 
forma de conceber o comportamento ó bastante diferente do princípio molecular que Skinner 
afirma nortear sua ciência em 1938. Qualquer procedimento de fragmentação e isolamen¬ 
to e qualquer suposição de que a compreensão do comportamento ocorre inteiramente a 
partir de sua manifestação, da simples observação direta, não permitiria entender dimen¬ 
sões tão complexas e múltiplas que o comportamento agora assume. 

Não é só a forma como concebe seu objeto de estudo que se altera com os 
princípios da seleção natural. A influência destes princípios se estenderá para a noção de 
causalidade. Em 1961, ao discutir o comportamento criativo, Skinner apresenta a seleção 
por conseqüência como um novo tipo de causalidade, proposta por Darwin. 

"A seleçào ó um tipo especial de causalidade, muito menos visível que a cau¬ 
salidade empurra-puxa da Física do século XIX, e a descoberta de Darwin pode ter 
aparecido muito tarde na história do pensamento humano por esta razào" (1961/ 

1972, p. 353). 

Apesar de podermos dizer que a seleção por conseqüência implica uma relação 
funcional, como Mach propunha, ela não pode ser reduzida à relação funcional. A seleção 
opera por seus efeitos. O comportamento é selecionado porque ele permitiu a sobrevivên¬ 
cia. Mas ...a sobrevivência é apenas uma das formas de conseqüência seletiva" (1988b/ 
1989, p. 114). Skinner estende esta noção à compreensão do operante e da cultura. 

Esta forma de causalidade que explica uma ação que leva à sobrevivência exclui 
qualquer suposição de que o comportamento possa ocorrer a partir de um projeto futuro, 
elaborado por uma mente criadora. Só conseqüências passadas figuram na seleção. 

Antes de Darwin, segundo Skinner, o propósito de algum fator humano parecia 
estar ligado a um planejamento prévio voltado para o futuro. A teoria da seleçào natural 
moveu o significado para o passado (1973b/1978, p. 19). Os acontecimentos futuros não 
têm lugar na análise causal (1957/1978, p. 179). São as conseqüências ocorridas no 
passado que determinam a probabilidade de ocorrência do comportamento em uma situ¬ 
ação futura semelhante. Não porque estas conseqüências são acumuladas ou memoriza¬ 
das pelo homem ou organismo para que, em uma situação futura, sejam recuperadas e 
orientem uma ação planejada que possa gerar maior adaptação. Mas porque as ocorrên¬ 
cias passadas modificam o organismo, alteram sua forma de se relacionar com o mundo. 

Skinner, com esta noção de causalidade, combate a noção de um agente inicia¬ 
dor que orientou a mecânica clássica e também orientou concepções mentalistas de uma 
mente criadora. O homem não ó visto segundo o modelo mecânico que necessita de um 
criador, nem que seja ele mesmo o criador. Para ele, o ambiente ó o agente causal, não os 
agentes internos, as causas se situam fora do indivíduo. Segundo Skinner, "A autonomia 


40 Nil/.i Miclicldto 



é o não causado, e o não causado ó milagre e o milagre é Deus. Pela segunda vez, em 
pouco mais de um século, uma teoria da seleção porconseqüência está ameaçando uma 
fé tradicional em uma mente criadora" (1961/1969,354). 

Pode-se dizer que, com tal postura, Skinner combate a metafísica de um agente 
iniciador, como Darwin teve que combater a metafísica de um agente criador. Pode-se 
dizer que com esta noção de causalidade Skinner completa seu afastamento ou combate 
ao mecanicismo e às concepções metafísicas que o acompanham. 

Tendo discutido a forma como Skinner concebe seu objeto e a noção de causali¬ 
dade, cabe ainda — em uma análise das bases filosóficas — discutir sua visão de ciên¬ 
cia. 

A ciência ó uma forma de comportamento que deve ser entendida como qualquer 
comportamento — ó construída a partir de determinações ambientais e deve ser avaliada 
e selecionada pela sua efetividade. É uma forma de comportamento verbal e, como tal, 
origina-se do reforço social da comunidade científica. A comunidade científica desenvol¬ 
veu um conjunto de técnicas para gerar comportamento eficaz, enfatizando suas conse- 
qüências práticas. 

"A ciência é uma análise dos sistemas de reforçamento encontrados na natu¬ 
reza, preocupa-se em facilitar o comportamento que é reforçado por eles" (1966/ 
1969, p, 143). 

Sendo gerado por uma comunidade que apresenta práticas específicas e situa¬ 
das, a ciência não pode ser suposta neutra. Ela não está mais próxima do que "realmente 
existe" do que qualquer outra prática cultural. 

"É um engano (...) dizer que o mundo descrito pela ciência está de um modo 
ou de outro mais próximo daquilo ‘que realmente existe’, mas é também um engano 
dizer que a experiência do artista, compositor ou poeta está mais próxima daquilo 
‘que realmente existe'. Todo comportamento ô determinado, direta ou indiretamente, 
pelas conseqüências, e o comportamento de ambos cientistas e não cientistas 
são modelados pelo que realmente existe mas de modos diferentes" (1974, pp. 140- 
141). 

A ciência é gerada pelo que existe, mas não é reflexo do que existe. O conheci¬ 
mento não ó visto como algo que representa o mundo. 

"Não faz parte de uma tal investigação tentar traçar o mundo real no organis¬ 
mo e observar ele tornar-se uma cópia" (Skinner, 1963/1969, p. 249). 

... "o conhecimento não é uma percepção elaborada do mundo externo na mente do 
cientista, mas, ao contrário, o que os cientistas fazem a respeito do mundo" (Skinner, 
1963/1969, p. 254). 

O homem não possui conhecimento, ele se comporta por se expor a uma comple¬ 
xa e sutil história ambiental e genética (1976/1978, p. 125). 


Sobrr compor!«imfnto t cojjnlç.lo 41 



Com esta noção de ciência, SKinner afasta*se dos empiristas, para quem o co¬ 
nhecimento se constituía a partir de sensações que geravam idéias, que se associavam 
para formar o pensamento. Para eles, o conhecimento era, em última instância, represen¬ 
tação das coisas. As idéias que formavam na mente eram determinadas pelo ambiente. E 
a mente era uma tábula rasa na qual as experiências iam deixando suas marcas. 

Para Skinner, a percepção não é controlada apenas pelo momento atual ou o 
estímulo presente, ela é fruto de uma história de reforçamento (1985/1987, p. 95), depen¬ 
de da emoção da motivação do condicionamento. O homem não é uma tábula rasa, e 
conhecer é muito mais que responder a estímulos. Nossa percepção do mundo ó nosso 
comportamento com relação a ele, e não pode ser confundida com o mundo propriamente 
dito (1953/1976, p. 86). 

Pode-se dizer que o empírico é ímporlante para Skinner, mas isto não o insere 
nas concepções empiristas do conhecimento. Não só porque ele se diferencia na forma 
como explica a percepção, mas também porque o conhecimento não pode ser compreen¬ 
dido como representação do mundo, como supõem os empiristas, e sim como uma forma 
de ação sobre o mundo. Uma forma de ação que, segundo Skinner, ó fundamental, pois 
ela daria condições para o indivíduo agir com maior eficácia sobre o mundo. E à ciência, 
por suas características, Skinner atribuí uma função fundamental, nas sociedades atuais. 

O conhecimento fornecido pela ciência permite compreender as contingências 
que operam nas práticas atuais e planejar formas de transformação. A ciência atuaria 
sobre a falha do terceiro nível de determinação do comportamento — a cultura. Uma 
cultura prepara seus membros para uma cultura semelhante àquela em que se desenvol¬ 
veu. É necessário gerar um novo conjunto de práticas sociais que contribuam para a 
sobrevivência do grupo. Em seus últimos textos, com frequência Skinner aponta os limi¬ 
tes das práticas culturais das sociedades contemporâneas, práticas que favorecem o ter 
mais do que o fazer, práticas alienantes, práticas de controle exercidas pelas instâncias 
de poder geralmente punitivas e voltadas para a manutenção deste poder, não para a 
garantia de sobrevivência do grupo e da espécie. 

Para Skinner, os cientistas, que estariam sob o controle de práticas efetivas, 
teriam condições de planejar práticas culturais alternativas, que tivessem como critério a 
sobrevivência. E aqui se coloca a questão da previsão e do controle com novo significado. 
A ciência, na medida em que pode planejar novas práticas sociais,... "acelera ‘a prática 
de alterar a prática’" (Skinner, 1953/1976, p. 243). Quando planejamos uma cultura estamos 
gerando "mutações” (1953/1976, p. 243) e é pela eficácia dessas mudanças que a ciência 
será avaliada. 

Como afirma Skinner, “se queremos que a espécie sobreviva, ô o mundo que 
fizemos que temos que mudar" (1987b/1989, p. 70). Um mundo que, tendo sido produzido, 
existe independentemente de nós e nos contém. Sobre ele, poetas e cientistas, com 
suas diversas maneiras de agir, devem criar condições para um novo mundo, produzindo 
variações. Mas estas alternativas planejadas se colocam entre as práticas culturais para 
serem selecionadas, caso o planejamento seja efetivo. O controle deve gerar variação e 
favorecer a criação e gerar, se houver, a própria liberdade: 

‘‘Se há liberdade, ela poderá ser encontrada na casualidade da variação. Se 


42 Nil/.i Mieheldto 



novas formas de comportamento são criadas, elas o são pela seleção. As falhas 
na variação e seleção são problemas fascinantes. Nós devemos nos adaptar a 
novas situações, resolver conflitos, encontrar soluções rapidamente."(...) 

"As coisa interessantes da vida vôm do capricho da variação e seleção na 
construção da máquina <o corpo que se comporta>" (Skinner, 1990, p. 1208). 

Se retomarmos o sentido que as propostas de observação, de combate à suposi¬ 
ção metafísica de um agente iniciador, de controle e de determinação que se apresentam 
em textos marcados por uma vinculação com as ciências biológicas, e se retomarmos a 
forma como Skinner concebo seu objeto - múltiplo, processual, variável - e sua ciência; e 
a partir desta retomada formos buscar quem na filosofia da ciência pensa assim, não 
encontraremos nada mais distante que o positivismo, especialmente o positivismo de 
Comte, para quem qualquer idéia de transformação é uma anomalia a ser evitada. Segun¬ 
do essa análise, o pensamento de Skinner se afasta dos idealistas, se afasta do empirismo 
e do positivismo. Incorpora influências de Darwin, mas não se limita a elas, estendendo a 
amplas dimensões um princípio causal que dela retira. 

Talvez Skinner esteja criando algo novo, esteja produzindo uma mutação. 


Bibliografia 


BRIDGMAN, Percy W. (1927) The Logic of Modem Physics. New York: The Macmillan 
Company, 1951. 

COMTE, A. (1844) Discurso sobre o espírito positivo. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Os 
Pensadores). 

HEISENBERG, Werner. Física e Filosofia. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. 
1897. 

MACH, E. (1883) Desarrollo Histórico-Crítico de la Mecânica. Buenos Aires: Escapa-Calpe 
Argentina S.A., 1949. 

_(1885) The Analysis of Sensations. New York: Dover D. Publications Inc., 1959. 

SKINNER, B.F. (1931) The concept of reflex in the description of behavior. In: Cumulative 
Record. New York: Appleton-Century-Crofts Inc., 1972. 

_(1935) The generic nature of the concepts of stimulus and response. In: 

Cumulative Record. New York: Appleton-Century-Crofts Inc., 1972. 

(1937) Two types of conditioned reflex: a reply to Konorski and Miller. In: Cumulative 
Record. New York: Appleton-Century-Crofts Inc., 1972. 

_(1938) Behavior of Organism. New York: Appleton-Century-Crofts, 1966. 

_(1945) The operational analysis of psychological terms. The Behavioraland Brain 

Sciences. 1984, 7: 547-581. 

_(1953) CiÔncia do Comportamento Humano. São Paulo: Edart /EDUSP, 1976. 


Sobre romportiimrnto e cognif<1o 43 



_<1957) Comportamento Verbal. São Paulo: EDUSP/CULTRIX, 1978. 

(1961) A lecture on "having" a poem. In: Cumulative Record. New York: Appleton- 
Century-Crofts lnc.,1972. 

(1963) Operant behavior. In: Contingencies of Reinforcement: a theoretical analysis. 
New Jersey: Prentice-Hall Inc., 1969. 

(1966) An operant analysis of problem solving. In: Contingencies of Reinforcement: 
a theoretical analysis. New Jersey: Prentice-Hall Inc., 1969. 

_(1968) The role of the environment. In: Contingencies of Reinforcement: a theoretical 
analysis. New Jersey: Prentice-Hall Inc., 1969. 

_(1973a) The steep and thorny way to a Science of behavior. In: Reflections on 
Behaviorism and society. New Jersey: Prentice-Hall. Inc., 1978. 

J173b) Are we free to have a future. In: Reflections on Behaviorism and society. 
New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1978. 

_(1974) About Behaviorism. New York: Vintage Books. 

(1976) The experimental analysis of behavior (a history) In: Reflections on 
Behaviorism and Society. New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1978. 

_(1981) How to discover what you have to say: a talk to student. In: Upon further 
reflection. New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1987. 

_(1984) The shame of american education. In: Upon further reflection. New 
Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1987. 

_(1985) Cognitive Science and behaviorism. In: Upon further reflection. New 
Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1987. 

_(1988a) The Behavior of Organism at fifty. In: Recent Issues in the Analysis of 
Behavior. Ohio: Merrill Publishing Company, 1989. 

(1988b) A new preface to Beyond Freedom and Dignity. In: Recent Issues in the 
Analysis of Behavior. Ohio: Merrill Publishing Company, 1989. 

_(1990) Can psychology be a Science of mind ? American Psychologist, 45( 11): 
"l 206-1210. 


44 MtclieleMo 



Capítulo ó 


Com o que o Behaviorismo Radical 

trabalha 

M.iriii Améliti M,itos y 
l W 


O título deste capítulo pode criar uma expectativa de que ele trate dos méto¬ 
dos e estratégias com que a análise experimental do comportamento ó feita. Para quem 
tiver essa expectativa eu recomendo a obra canônica do Prof. Murray Sidman Tactics of 
Scientific Research, e para aqueles mais interessados em pesquisa aplicada eu reco¬ 
mendaria a obra de Johnston e Pennypacker, Strategies and Tactics ofhiuman Behavioraí 
Research. 

Aceitei escrevê-lo porque realmente a questão da definição (definição como ques¬ 
tão de escolha) de um assunto para estudo é fundamental na elaboração de uma ciência. 
Somente após responder a esta questão, pode o cientista passar para as questões se¬ 
guintes, que dão início a seu programa de trabalho propriamente dito: “Dada a natureza de 
meu objeto de estudo, quais as variáveis de interesse?", e "Com que métodos de investi¬ 
gação devo estudar essas variáveis?". 


' Versão modificada de conferência apresentada no III Encontro Brasileiro de Psicoterapia e Medicina 
Comportamental. Campinas, outubro de 1994 
1 Pesquisadora do CNPq 


Sobrv comport.imcnto c cofjniç<lo 45 




A Psicologia não possui uma unidade conceituai (e, conseqüentemente, não pos¬ 
sui também uma unidade metodológica), não porque os psicólogos sejam neuróticos, 
competitivos ou inseguros, mas porque basicamente ainda não chegaram a um consenso 
sobre qual seja seu objeto de estudo (ou seja, não é uma questão de personalidade, e sim 
de comportamento). So esta minha fala ajudar a clarificar, para os estudantes aqui presen¬ 
tes. qual ó a escolha do Behaviorismo Radical no que diz respeito a um objeto legitimo e 
viável de estudo, me dou por satisfeita. Só temo que esteja repetindo muito do que foi dito 
na Mesa Redonda de ontem sobre "contingências", porque, ao final das contas, o behaviorista 
radical não trabalha propriamente com o comportamento, ele estuda e trabalha com con¬ 
tingências comportamentais, isto ó, com o comportar-se dentro de contextos. 

Vejamos qual a definição de comportamento para o behaviorista radical. 


Em sua obra clássica publicada em 1938, The Behavior of Orgamsms, Skinner, 
sob o subtítulo "Uma definição de Comportamento”, diz: "Comportamento e apenas parte 
da atividade total de um organismo .... e prossegue distinguindo comportamento de outras 
atividades do organismo,"... é aquilo que um organismo está fazendo (grifo dele)... é 
aquela parte do funcionamento de um organismo envolvido em agir sobre, ou em interação 
com o mundo externo." E finaliza ," Por comportamento, então, eu me refiro simplesmente 
ao movimento de um organismo, ou de suas partes, num quadro de referência fornecido 
pelo organismo ele próprio, ou por vários objetos ou campos de força externos. É conve¬ 
niente falar disto como a ação do organismo sobre o mundo externo, e é frequentemente 
desejável lidar com um efeito mais do que com o movimento em si mesmo ..." (B.F.Skinner, 
The Behavior of Organisms, 1938, p. 6). 

Vamos analisar essa citação mais abaixo, comentando-a passo a passo (nessa 
análise, algumas palavras ou trechos estarão grifados. Os sublinhados são meus, os 
grifos em negrito são do próprio Skinner). 


Uma definição de comportamento 


“Comportamento ó apenas parte da atividade total de um organismo ..." 

"Comportamento ó aquilo que um organismo está fazendo..." 

"Comportamento é aquela parte do funcionamento de um organismo envolvido 
em agir sobre, ou em interação com o mundo externo." 

"Por comportamento, então, eu me refiro simplesmente ao movimento de um 
organismo, ou de suas partes, num quadro de referência fornecido pelo organismo 
ele próprio, ou por vários objetos ou campos de força externos. É conveniente falar 
disto como a ação do organismo sobre o mundo externo, e é freqüentemente dese- 
jávej lidar com um efeito mais do que com o movimento em si mesmo...” 

(SKINNER, B.F. The Behavior of Organisms, 1938, p. 6). 


46 A Uru Améh.i M,ilos 



.. é ... parte da atividade total de um organismo... 
... é ... parte do funcionamento do organismo ... 


Comportar-se é uma função biológica do organismo, como respirar, digerir, cres¬ 
cer. É parte do funcionamento deste organismo, constitui parte do seu estar vivo. Mas é 
uma função a ser distinguida das demais funções, pois é 


... ó ... aquilo que um organismo está fazendo (doing)... 
... é... parte da atividade total ... 

... se refere ao movimento de um organismo ... 


O negrito da palavra" fazendo " é do próprio Skinner, para enfatizar que comporta¬ 
mento é ação. 


... é ... parte do funcionamento de um organismo envolvido em agir so¬ 
bre, ou em interação com o mundo externo. 


Ou seja, ó o desempenho do organismo no seu processo de ajustamento/adapta¬ 
ção ao ambiente. Retomaremos este ponto mais além, por ora, apenas dois comentários. 

Primeiro: 

A expressão “agir sobre o ambiente" , a meu ver, é fruto do contexto histórico da 
época. Skinner possivelmente estava querendo enfatizar sua posição como um psicólogo 
R-S em oposição à posição S-R então vigente. Logo a seguir, contudo, completa e escla¬ 
rece sua colocação inicial, “ou em interação com o mundo externo". A primeira colocação 
é inadequada porque unilateral, não dá conta dos efeitos recíprocos do ambiente sobre o 
organismo. Na verdade o que caracteriza o comportamento, sobretudo o comportamento 
operante particularmente de interesse para Skinner, é a sensibilidade desse comporta¬ 
mento aos efeitos que produz no ambiente. 

Segundo: 

A expressão “mundo externd' não se refere ao que reside fora da pele do organis¬ 
mo, e sim (por necessidade conceituai de uma postura analítica), ao que não ó a própria 
ação. Para o behaviorista radical “ambiente” é o conjunto de condições ou circunstâncias 
que afetam o comportar-se, não importando se estas condições estão dentro ou fora da 
pele (Smith, 1983). É importante entender que, para Skinner, o ambiente é externo á ação, 
não ao organismo. É exatamente para evitar essas ambigüidades que Lee (1988),propõe 
a substituição da expressão “ambiente" por "contexto". 


Sobre comportamento e co(jniçào 47 





... me refiro ... ao movimento de um organismo, ou de suas partes, num quadro 
de referência fornecido pelo organismo ele próprio, ou por vários objetos 
ou campos de força externos. 


A palavra “ movimento" aqui usada, e que poderia levar a pensar-se em Skinner 
como um psicólogo do muscle-lwitch (contração muscular), não deve assustar ninguém, 
primeiro pela expressão que se segue, “ num quadro de referência", e segundo, pela ma¬ 
neira especial com que a palavra é usada. 

A expressão “ movimento num quadro de referência" não se refere a uma proposta 
de análise topográfica, e sim funcional. A ação-comportamento deve ser entendida num 
contexto fornecido: 

(a) pelo “ organismo ele próprio", isto é, pelo repertório comportamental do indivíduo, aí 
incluindo-se sua história passada, e 

(b) por “ objetos ou campos de força", isto é, pelo ambiente aqui e agora. Skinner não 
elabora qual o uso que dá à expressão “ campos de força", mas dada sua convivência, na 
época, com Kantor, na Universidade de Indiana onde eram colegas de departamento, 
provavelmente ele está aí incluindo outros organismos e outros eventos comportamentais. 

Além de mudanças de postura, ou de posição do corpo, ou de suas partes, que é 
o uso mais comum da palavra “movimento", este termo também é usado quando alguém 
se refere a uma série de atividades organizadas em relação a um objetivo, isto ó, a 
atividades funcionais para um determinado fim, e portanto, para um efeito. De fato, os 
movimentos que constituem um comportamento de um organismo são movimentos orga¬ 
nizados para um fim, estruturados para um efeito. 


... ó ... desejável lidar com um efeito mais do que com o movimento em si mesmo... 


Voltaremos mais tarde a essa sugestão de finalidade, como elemento definidor 
de "ação como comportamento”. Por ora, é importante chamar a atenção para a posição 
de que comportamento como interação, como ajustamento ou adaptação, não ó um dado 
de observação, e sim uma inferência feita pelo cientista. Isso explica porque para Skinner, 
assim como para Wittgenstein, é extremamenle importante estudar o próprio comporta¬ 
mento do cientista enquanto constrói sua ciência. 


1. A questão da interação 


Uma questão que os alunos frequentemente me colocam è: "Mas, afinal, a interação 
é entre comportamento e ambiente ou entre organismo e ambiente?" 


48 M.ir/.í Améli.i M.ilos 



Keller e Schoeníeld, em seu clássico Princípios de Psicologia { 1950/1966), co¬ 
locam como objeto da Psicologia o estudo do comportamento "em suas relações com o 
ambiente " ("behavior in its relation to environment”, página 3), e elaboram afirmando 
quo “ o comportamento sozinho, dificilmente poderia ser considerado como um objeto do 
estudo para uma ciôncia " (idern, página 3). Assim, ao mesmo tempo quo roconhocom que 
o comportamento não pode ser estudado isoladamente, o quo portanto o objeto do estudo 
da Psicologia deve ser a interação, afirmam, nào obstante, que existe comportamento e 
existe interação. 

Contrasto-se essa afirmação com a anterior, do Skinner, ‘ behavior is that part 
of the functioning of an organism which is engaged in acting upon or having 
commerce with the outside world". Comportamento ó uma maneira de funcionar do 
organismo, uma maneira interativa de ser. Comportamento ó interação, comportamento 
não "mantém" uma relação de interaçao. E essa interação ó entro Organismo o Ambiente. 

Contudo, como na verdade os organismos vivos estão em constanto processo do 
adaptação e interação com sou ambiente, falar em comportamento dos organismos ó um 
pleonasmo. Só o aceitamos porque permite distinguir a Psicologia de outras ciências, as 
quais estudam o comportamento de coisas como átomos, substâncias químicas, células, 
vigas de aço, bolsa de valores, etc. Assim, podemos encontrar na literatura autores quo 
usam indiferentemente ou a expressão "interação comportamento-ambiente" ou a expres¬ 
são "interação organismo-ambiente", referindo-se quer a comportamento, quer a osso or¬ 
ganismo que não pode ser outra coisa senão um "organismo comportante". 

Apenas para completar a questão da especificidade do termo "comportamento", 
tal como o psicólogo o usa, um adendo: o organismo não é inerte nem estável, seu 
processo de adaptação ó contínuo, e portanto sua interação nunca é constante e, apenas 
em termos conceituais, é reproduzível. As mudanças no organismo, decorrentes desses 
contatos com o ambiente, raramente são, em termos de energia, iguais às mudanças de 
energia que ocorrem no ambiente. Células e órgãos também estão em processo contínuo 
de interação. A diferença é que essa interação se dá num nível de trocas de substâncias 
e matérias, trocas essas que resultam em transformações e incorporações, principalmen¬ 
te estruturais. O comportamento, objeto de estudo da Psicologia (ou pelo menos do ana¬ 
lista de comportamento), pode incluir troca de energia e substâncias, mas as transforma¬ 
ções de interesso não são estruturais, e sim de modos de funcionamento. Em Fisiolo¬ 
gia, quando mudanças funcionais ocorrem, em geral, são decorrentes do transformações 
estruturais. As trocas que interessam ao psicólogo são trocas de eventos, são trocas de 
ocorrências (não de coisas), são trocas no campo histórico. Em outras palavras (embora 
talvez menos precisas), as trocas comportamentais são mais variáveis, em termos da 
diversidade dos fenômenos de interesse; elas podem se modificar com a repetição; ao 
serem incorporadas ao repertório do organismo, alteram futuros modos de interação; e, 
principalmente, essas trocas ou ajustamentos podem ocorrer a grande distância, espacial 
e temporal, dos eventos e objetos com os quais se relacionam. 


V)l>re comporf.imrnto »• cotfmç.lo 49 



2. A questão da objetividade do comportamento e de sua fina¬ 
lidade 

Dissemos acima que o fenômeno que o cientista/filósofo comportamental estuda/ 
pondera sào classes de eventos. Como um evento, o comportamento não tem uma di¬ 
mensão espacial, nào se localiza no tempo e no espaço, é um fenômeno apenas históri¬ 
co. Como classe, é uma construção teórica. Considerando que descrições de classes de 
eventos comportamentais são afirmativas sobre populações de organismos e sobro clas¬ 
ses de ações, conclui-se que essas descrições não dizem coisa alguma sobre um indiví¬ 
duo especifico ou suas ações particulares. Explicando através de um exemplo: 

Quando minha vizinha, que trabalha fora, diz que “não sabe mais o que fazer, 
porque sempre que a empregada leva seu filho ao supermercado, este chora que quer 
doce e ela acaba comprando um bocado de porcaria", e pede minha ajuda, eu só posso 
responder a ela em termos genéricos e abstratos. “Que crianças em geral choram", "Que 
pessoas dão doces para acabar com o choro e/ou com o embaraço que ele causa em 
publico", “Que a relação de autoridade dela para com a empregada provavelmente permeia 
a relação do filho dela com a empregada", etc. Ou seja, falo do papel do reforçamento, das 
variáveis que controlam o comportamento de esquiva, da importância do estabelecer con¬ 
tingências, etc. Contudo, para dar uma solução ao problema específico de D. Maria, mi¬ 
nha vizinha, eu preciso identificar os parâmetros específicos das variáveis que atuam no 
problema de D. Maria. Preciso observar o Joãozinho, a D. Maria, e a de sua empregada, 
em diferentes contexto s, e inserir essas observações em minhas classes conceituais. O 
"choro-do-Joàozinho-no-supermercado-pedindo-doces" é um evento particular e concreto, 
que deve ser observado particular o concretamente (por isso é que se diz que a resposta 
é urna unidade de análise empírica, e é também por isso que ela é frequentemente 
equacionada com movimentos do corpo). O problema é que eu náo posso fazer coisa 
alguma com essas observações concretas e particulares, se eu não as conceituar! Elas 
nao me serão úteis a menos que eu consiga equacioná-las a uma classe do eventos 
teóricos. “Chorar" é essa classe de eventos comportamentais teóricos, e, como tal, "cho¬ 
rar" é uma abstração, "chorar" são os choros particulares conceituados pelo observador. 

Atenção! Isso não tem nada a ver com a natureza molar ou molecular de um 
evento (fíaehlin, 1985). O choro do Joãozinho é um evento molecular, tem começo o fim, 
ó um evento discreto e pontual, que ocupa todo o intervalo entre seu começo o seu fim, e 
o ocupa sem interrupção. Dizer que uma criança é chorona, jã ó colocar o fenômeno num 
nível molar. Isto é, de um fenômeno que se estende no tempo, onde o começo e o fim 
(cspecialmentc o fim do choro de Joãozinho, como diria a empregada) estão a perder de 
vista. È um fenômeno que pode sofrer interrupções pela ocorrência de eventos de outras 
categorias, mas que 6 recorrente, que e rctomãvel e, frequentemente, ó do fato retomado. 

"Chorar", ou dizia, é uma classe de eventos; posso chorar derramando lágrimas 
ou com os olhos secos, posso soluçar, gritar, ou ficar muda, etc.: o choro pode ser meu, 
de Joãozinho, da empregada ou até de D. Mana. Se “chorar" é analisado dentro de um 


50 M.iti.1 Amch.i M.itoi 



conjunto de circunstâncias, como um evento interativo (isto é, como um movimento 
adaptativo do organismo), então “chorar" é uma classe de comportamentos ou, melhor 
ainda (e dessa vez sem redundâncias), é um comportamento. É nesse sentido que a 
medida da íreqüência de ocorrência do comportamento é um dado fundamental para o 
bohaviorista radical. É a historicidade do comportamento que dá a esse behaviorista o 
contexto necossário para identificar as consequências cJo ato o, portanto, para conceituá-lo. 

Um outro exemplo que podemos analisar, e que é bastanto fácil de acompanhar, 
e o comportamento de “abrir a porta". O movimento de "abrir” ó um ato, um gesto, em que 
o importante ó o tipo de movimento ou de movimentos que executo. Porém o “abrir a porta" 
ó um comportamento. E uma classe de eventos (posso abrir a porta com a mão, com 
o ombro, dando um chute nela, ou solicitando a ajuda de Ah Babá, etc ). E uma classe de 
eventos interativos(ocorrem em determinadas circunstâncias como porta destravada, 
porta trancada numa situação de emergência, passeio nas Arábias, etc.). É uma classe 
de eventos interativos e que produzem mudanças nas circunstâncias em que ocorrem 
Aliás, para o bohaviorista radical, são definidos como classe exatamento pela natureza 
da mudança que produzem, por aquilo que caracteriza o seu tórmino, o seu fim, isto ó, 
a porta aberta. So executo os assim chamados movimentos de abrir uma porta, mas esta 
náo se abre, isso nào é considerado "abrir a porta", é um outro comportamento, talvez 
“tentar abrir a porta", ou outra coisa. Para classificar um evento, um movimento, como 
comportamento de "abrir a porta" é preciso o efeito, "porta aberta". Pressionar a barra 
implica barra deslocada para baixo, embora mais tarde outros efeitos também possam se 
agregar a este (falamos em efeitos naturais e arbitrários; "barra pressionada" é um efeito 
natural, "água contingente a barra pressionada" é efeito arbitrário, e como tal, depende de 
uma história passada, em que pressionar a barra foi seguido de água). Falamos 
anteriormente efeito ou finalidade da açào. Este efeito é final, no sentido de último (isto é, 
aquilo que encerra ou define o encerramento da ação), náo no sentido do fim a ser atingi¬ 
do. 


Comportamento pois, é uma classe de eventos/ações definidos polo sou efeito 
comum no ambiento. Portanto, por necessidade: 

(a) representam interações Orgamsmo-Ambiente; 

(b) são categorias funcionais de análise. 


Repetindo: 

Evento/açáo = comportamento é funcionamento do organismo. 

Efeito no ambiente = comportamento é interação organismo-ambiente. 
Efeito comum = comportamento é uma classe funcional. 


"Abrir" é o ato do Ali Babá tal como eu o vejo, tal como me parece como observa¬ 
dor externo que sou. Isso pode interessar ao bohaviorista metodológico, mas nào ao 
radical. 


“Abrir a porta" ó o ato de Ali Babá pelo que ele - ato de Ali Babá - realiza, pelo que 
elo produz. 


compoft.imonlo »• cognição 



Para completar: "Pedir que Ali Babá abra a porta" é um ato verbal meu, definido 
pelo que esse ato produz, a saber, o comportamento do Ali Baba. A finalidade de meu 
comportamento verbal é o comportamento motor de Ali Babá (finalidade no sentido do 
"conclusividade"; pois ó o comportamento de Ali Babá quo completa minha fala tornando- 
a comportamonto. Contudo, o comportamento do Ali Babá nào ó causa do meu comporta¬ 
mento, não dosencadeia minha ação, embora sua presença possa ser um discriminativo 
para meu agir). Em suma, é o comportamento de Alt Babá que dá contexto ao meu 
comportamento, e é por isso que se diz que o comportamento verbal ó prototípico do 
comportamento operante. 

Para enfatizar que o conceito de comportamento só se completa com referência a 
seu fim, Lee (1988) (quo prefero o termo "açào” ao termo "comportamento"), define com¬ 
portamento como uma unidade meio-fim, isto é, uma unidade movimento-efeito. Esta 
unidade meio-fim ó a nossa conhecida contingência “se ... então ...", onde "se", e o 
movimento e "então", é o efeito. Veja-se a respeito a afirmativa de Skinner do que "...a 
interação entre organismo e ambiento (é) representada pelo conceito do contingências..." 
(Contmgencies of Rcinforcement, 1969, página 97). 

É exatamonto por isso que se tem dito, meio ironicamente, que a prática do 
psicólogo operante se restringe à análise do operante, isto é, de relações "se ... então 
...”. De fato, se "comportamento" é uma categoria funcional de análise, so ó um termo 
teórico, uma concepção do behaviorista radical, "contingência" é a operação empírica 
equivalente usada pelo analista de comportamento. Acontece que, sendo o organismo o 
local, o ponto de confluência desses movimentos-e-efeitos, ele também ó parte das con¬ 
tingências, o, assim, na verdade (se assumirmos o que tem sido dito acerca de nós), seria 
melhor completarmos, que "a prática do analista de comportamento é estudar con¬ 
tingências em seu efeito cumulativo sobre o desempenho dos organismos". 


Bibliografia 


JOHNSTON, J. M. & PENNYPACKER, H. S. (1980) Strategies and Tactics of Human 
BchavioralResearch. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum. 

KELLER, F. S. e SCHOENFELD, W. N. (1950) Principies of Psychology. New York: 
Appleton-Century-Crofts (traduzido para o português em 1966, EPU/HERDER 
Editora). 

LEE. V. L. (1988) DeyondBehaviorism. Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum. 

RACHLIN, H. (1985) Pain and behavior. The Behavioral and Brain Sciences, 8. pp. 43-83. 
SIDMAN, M. (1960) Tactics of Scientific Research New York: Basic Books Inc. 


52 A Uru Amcli.i M.itos 



SKINNER, B. F. (1938) The Behaviorof Organisms. New York: Appleton-Century-Crofts. 

_ (1957) VerbalBehavior. New York: Appleton-Century-Crofts. 

_(1969) Contingencies of fíeinforcement. New York: Appleton-Century-Crofts. 

SMITH, T. L. (1983) Skinner’s environmentalism: the analogy with natural selection. 
Behaviorism, 11, pp. 133-153. 


Sobrt comport.tmenlo r cojjniç.lo 53 




Capítulo 7 


O Behaviorismo Metodológico e suas relações 
com o Mentalismo e o Behaviorismo Radical 

Maria Amélia Matosf 
IA7> 


O Behaviorismo surgiu, no começo deste século, como uma proposta para a 
Psicologia tomar como seu objeto de estudo o comportamento ele próprio, e não como 
indicador de alguma outra coisa, ou seja, como indício da existência de um fenômeno que 
se expressaria através do comportamento. Surgiu como reação às posições, então domi¬ 
nantes, de que a Psicologia deveria estudar a mente ou a consciência dos homens. 

Na Idade Média, a Igreja explicava a ação do Homem, o seu comportar-se, pela 
posse de uma alma. No início deste século, os cientistas o faziam pela existência da 
mente. As faculdades ou capacidades da alma agiriam como pulsões sobre o homem, e 
assim, impulsionando-o à ação, explicariam seu comportamento. Objetos e eventos cria¬ 
riam idéias nas mentes dos homens e essas impressões mentais controlariam suas ações, 
organizando-as ou gerando-as. Na verdade, ambas são posições essencialmente si¬ 
milares, por dualistas e causais: o homem ó concebido como tendo duas naturezas, 


1 Versôo modificada de conferência apresentada no II Encontro Brasileiro de Pslcoterapia e Medicina 
Comportamental, Campinas, outubro de 1993. 

1 Pesquisadora do CNPq. 


54 MdrU Amélia Matos 



uma divina e uma material, ou uma mental e uma tísica, e a divina (ou mental, dependendo 
do século em que situemos nossa análise) determina o modo de ação da material e física. 

Contudo, essa é uma posição difícil, conflitante mesmo, porque necessita que se 
demonstre como essas naturezas contatuam, já que estão em planos diferentes. Note- 
se, além disso, a circularidade do argumento: ao mesmo tempo em que essa alma, mente 
ou idéias causavam e explicavam o comportamento, esse comportamento era a única 
evidência da existência dessa alma e do conteúdo dessa mente. 

Aceitando essa posição mentalista, o acesso às idéias ou imagens mentais se 
faria somente através da introspeção, que seria então revelada através de uma ação, 
gesto ou, mais freqüentemente, da palavra. Temos aqui um modelo estritamente causal e 
mecanicista de comportamento humano: 

• (a) o indivíduo, passivo, recebe impressões do mundo; 

• (b) estas impressões são estampadas em sua mente constituindo sua consciência; 

• (c) que ó, entào, a entidade ou agente responsável pelas ações desse indivíduo (em 
outras versões, a consciência seria o local onde ocorreriam determinados processos 
que, por sua vez, seriam os responsáveis por essas ações). 

Como se vê, os processos cognitivos, tão falados hoje em dia, são, em suas 
origens, uma forma de Animismo ou Mentalismo. Nosso comportamento seria fomentado 
em nossa cultura por circunstâncias do dia-a-dia; mas só ocorreria de fato mediante a 
açào de processos subjacentes de natureza neural, mental, e, por que não, conceituai. A 
cognição é algo a que não tenho acesso direto, mas que fica evidente no comportamento 
linguístico das pessoas, no seu resolver problemas, no seu lembrar, etc. Esquecem-se, 
os cognitivistas, que "linguagem" é produto de comportamento verbal; que “solução de 
problemas" é produto de contingências alternativas, e que lembrar" ò produto de manipu¬ 
lações de estímulos discriminativos (Skinner, 1953 e 1974). 

O cognitivista recupera o conceito de consciência quando afirma estados 
disposicionais e/ou motivacionais que poderiam ser modificados de fora (via “instruções" 
ou “informações") ou de dentro (via decisões, organizações ou até mesmo via “autocontrole"), 
como produto de reestruturações cognitivas alcançadas por trocas verbais. Em outras 
palavras, o comportamento verbal do outro é decodificado e reorganizado por mim, seu 
ouvinte, modificando minha maneira de ver um fenômeno ou avaliar uma pessoa. Esses 
estados disposicionais, assim modificados, agiriam então afetando e modificando com¬ 
portamentos expressos de minha parte em relação a esses eventos pessoais. Por outro 
lado, através de meu relato verbal, versão moderna da introspeção, o outro pode ter aces¬ 
so a essas decodificações e reestruturações, isto ó, acesso às minhas cognições. 

De fato, sugestões, crenças, lembranças, disposições são importantes formas 
de se comportar, são classes de respostas; não eventos mediacionais, não causas do 
comportamento. Até posso aceitar o termo consciência como uma metáfora, como um 
conceito equivalente a repertório comportamental. Mas rejeito consciência como se/f, 
como agente decisor, causador ou mediador do comportamento; e rejeito também mente 
e consciência como espectadoras do mundo e como representações desse mundo. 


Sobrr comportamento e cognlçJo 55 


Dizíamos que o Behaviorísmo surgiu em oposição ao Mentalismo e ao 
Introspeccionismo, mas, de (ato, isso só é verdade na obra de behavioristas clássicos 
como Watson e Guthrie, Em fins do século passado, a ciência de modo geral começou a 
colocar uma forte ênfase na obtenção de dados ditos objetivos, em medidas e definições 
claras, em demonstração e experimentação. Essa influência se fez sentir na Psicologia, 
no começo deste século, com a proposta de J. B. Watson: "Por que nào fazemos 
daquilo que podemos observar, o corpo de estudo da Psicologia?" (ó curioso notar 
que esta proposta ó geralmente atribuída a uma obra que se denominaria "O Manifesto 
Behaviorista", como se este fosse um único documento; na verdade, o Manifesto 
corresponde a várias publicações, das quais se destacam o artigo de 1913 e o livro de 
1924). 

A proposta de Watson incluía: 

• estudar o comportamento por si mesmo; 

• opor-se ao Mentalismo e ignorar fenômenos, como consciência, sentimentos e estados 
mentais; 

• aderir ao evolucionismo biológico e estudar tanto o comportamento humano quanto o 
animal, considerando este último mais fundamental; 

• adotar o determinismo materialístico; 

• usar procedimentos objetivos na coleta de dados, rejeitando a introspecção; 

• realizar experimentação controlada; 

• realizar testes de hipótese, de preferência com grupo controle; 

• observar consensualmente; 

• evitar a tentação de recorrer ao sistema nervoso para explicar o comportamento, mas 
estudar atentamente a ação dos órgãos periféricos, dos órgãos sensoriais, dos músculos 
e das glândulas. 

Além disso, para Watson, todo o comportamento de interesse é comportamento 
aprendido e as causas do comportamento devem ser buscadas em seus antecedentes 
imediatos (exigindo portanto uma contiguidade espaço-temporal entre esses anteceden¬ 
tes e o comportamento). 

Notem que estamos aqui diante de duas vertentes: uma filosófica (expressa nas 
quatro primeiras frases) e uma metodológica (expressa nas demais), que, por sua vez 
refletem a influência de várias tendências sobre o pensamento científico geral da época, 
influência essa que se iniciou no final do século passado estendendo-se até o começo 
deste. Dentro destas tendências, destacam-se: 


5ó M.iri.i Amélia Matos 



1. O Positivismo Social, de Auguste Comte 


Considerando que a ciência ó uma atividade do homem, e o homem um ser soci¬ 
al, o Positivismo comteano postula a natureza social do conhecimento cientifico. Nesse 
sentido, rejeita a introspeção por íntima e não-acessível; e estabelece como critério de 
verdade o observável consensual, isto é, o observável partilhado e sancionado pelo outro. 


2. O Positivismo Lógico do Círculo de Viena 


Considerando que eu só tenho acesso às informações que meus sentidos me 
trazem, o positivista lógico conclui que não posso ter informações sobre minha consciên¬ 
cia, cuja natureza difere da de meu corpo. Note-se que ele não nega essa consciência, 
apenas afirma a impossibilidade de estudá-la. (É interessante que essa influência tam¬ 
bém levou ao idealismo e ao subjetivismo. Ao afirmar que não tenho acesso a coisa 
alguma senão minhas sensações, permite a negação do mundo: o mundo não existe, 
somente minhas impressões dele; portanto só minhas idéias são reais). 


3. O Operacionismo 


É um resultado direto da influência do Positivismo Lógico sobre a Física. Afirma 
que, se somente tenho acesso às informações que meus sentidos trazem, então a lingua¬ 
gem pela qual expresso e estruturo essas informações ê o elemento mais importante na 
construção do conhecimento e da ciência. Assim, a definição dos conceitos é fundamen¬ 
tal na construção de um sistema de conhecimento, e definir é descrever as operações 
envolvidas no processo de medir o conceito. Essa descrição deve ser objetiva e referir-se 
a termos diretamente observáveis ou deve ser redutível - através de operações lógicas - a 
tais termos. [Em contraste, note-se a posição de Sfrinner (1945), para quem uma defini¬ 
ção operacional resume-se a uma análise funcional do comportamento verbal envolvido 
nos termos a serem definidos (Day, 1980, 1983)]. 

Observação pois, tornou-se um termo e uma operação fundamentais para o 
Behaviorismo watsoniano: ela define a categoria “comportamento", seu objeto de estu¬ 
do. Comportamento é o observável, mas, o observável pelo outro, isto é, o externamente 
observável. Comportamento, para ser objeto de estudo do behaviorista, deve ocorrer afetando 
os sentidos do outro, deve poder ser contado e medido pelo outro. 

Daí dizer-se que, em observação, o que importa é a concordância de observado¬ 
res (e, portanto, a grande ênfase em um treino rigoroso nos procedimentos de registros 
observacionais e, sobretudo, o desenvolvimento de toda uma metodologia de cálculo do 
acordo entre observadores). Essa ênfase no procedimento de medida, na operação de 
acessamento, levou mais tarde a que se denominasse a aderência às características que 
acabamos de descrever de BEHAVIORISMO METODOLÓGICO. 

Mas o que é comportamento? E é aqui que as coisas começam a apresentar problemas. 


Sobre comportamento e cognição 57 



Comportamento não era visto, no século passado, como mais uma função bioló¬ 
gica, isto é, própria do organismo vivo, e que se realiza em seu contato com o ambiente 
em que vive, como o respirar, o digerir. 

Dentro de uma Fisica newtoniana mecanicista da época, todo fenômeno deveria 
ter uma causa (uma concepção funcionalista falaria em condições), e como Watson rejei¬ 
tava a mente como causa, se a causa do comportamento não poderia ser a mente, então 
esta deveria ser algo externo ao organismo, a saber, o Ambiente. Na verdade, Watson 
não se libertou da concepção dualista de homem. Se para a Escolástica o corpo precisa 
ser animado pela alma, e para o Mentalismo o comportamento ó expressão da mente, 
para Watson ele ó produto da instigação do estímulo. 

A palavra “estímulo" veio de Pavlov (outra influência sofrida por Watson e os 
behavioristas que o sucederam) e referia-se tanto à ação de uma fonte de energia sobre o 
organismo, quanto à operação realizada pelo experimentador em seu laboratório. "Uma 
parte ou mudança em parte do mundo físico que causava uma mudança no organismo ou 
parte do organismo, a resposta.", como diriam mais tarde Keller e Schoenfeld (1950). 
Essa mudança observável no organismo biológico (especialmente no seu sistema muscu¬ 
lar e/ou glandular) seria para o behaviorista o comportamento. A manipulação experimen¬ 
tal por excelência seria a reprodução desse modelo: a operação S-»R (onde S 
operacionaliza o Ambiente: R, o Comportamento: e a flecha, a Ação Desencadeante, ou 
Causa). Essa sequência experimental a tal ponto marcou esta posição que o Behaviorismo 
Metodológico ficou sendo conhecido como "a Psicologia S-R", ou, de modo mais caricato, 
e referindo-se àquilo que mediam e observavam, "a Psicologia da contração muscular e da 
secreção glandular". 

O modelo causal e a posição dualista do Behaviorismo Metodológico foi retido por 
alguns behavioristas que, não obstante, rejeitaram o Ambiente como o locus da ação 
causal, colocando esta causa de novo no próprio organismo. Para esses autores o mode¬ 
lo S->R do Behaviorismo clássico parecia inadequado, pois os estímulos e as respostas 
nem sempre ocorriam de maneira tão mecânica e preditiva. Certamente que variáveis do 
organismo, como sua fisiologia, sua neurologia e a própria percepção desses estímulos, 
eram importantes. Entre esses autores, destacaram-se Hull, Mowrer, Spence, Woodworth, 
e Tolman. Eles representam uma tentativa de incluir na proposta behaviorista variáveis 
organísmicas que mediariam a relação S->R, isto é, variáveis que não seriam diretamente 
observáveis mas que eram postuladas como necessárias para garantir uma explicação 
mais abrangente do comportamento. Enquanto Hull se apoiava fortemente na motivação e 
em termos como “força do hábito" e "mecanismo de intensidade do estímulo", Tolman foi 
mais além formalizando o uso de variáveis intervenientes e usando expressões como 
“mapa cognitivo", etc. Aos poucos, estes e outros behavioristas foram adotando posturas 
mais e mais mediacionistas, usando termos teóricos e recorrendo a construções como 
fatores de oscilação, interações neurais aferentes, ansiedade, predição, etc. Para esses 
estudiosos do comportamento, o comportamento se explicaria e se estudaria através de 
uma cadeia causal de processos encadeados: eventos antecedentes, provavelmente no 
ambiente externo ao organismo, que desencadeiam processos medíacionais centrados 
no organismo, que por sua vez controlam o comportamento: por essa razão, são também 
denominados behavioristas metodológicos mediacionistas ou, mais modernamente, 
behavioristas cognitivistas. 


58 M.iriii AmHí.i M.itos 



Na verdade, já em suas raízes, o Behaviorismo Metodológico era mediacionista. 
Quando Watson propôs uma Psicologia S->R, ele estava se apoiando no modelo do arco 
reflexo de Lashley e Pavlov para explicar a relação observada S-R. Ele estava manifestan¬ 
do sua adesão a um modelo de causação antecedente exclusiva (R causada ou 
desencadeada por S) mediada pelo SNC (Sistema Nervoso Central, ou, como alguns 
críticos preferiam, dado o modo laxo com que o termo era empregado, Sistema Nervoso 
Conceituai). Assim, podemos dizer que o Behaviorismo Metodológico, clássico ou 
mediacionista, ao tomar estados ou processos psicológicos e/ou neurais, hipotéticos ou 
inferidos, como supostas causas do comportamento, ironicamente, se posicionava como 
um legítimo defensor do Mentalismo (e, nesse sentido, Skinner fez a si um desfavor ao 
usar a expressão behaviorista, ao identificar-se como um behaviorista radical). 

O conhecimento psicológico pois, consistiria em uma elaborada construção teó¬ 
rica, inferencial, sobre a natureza desses processos mediadores a partir de dados 
comportamentais. O problema ó que em geral esses processos inferidos, esses termos 
teóricos eram depois utilizados para explicar o comportamento (ou eram considerados 
seus determinantes). Esses autores adotam uma postura conhecida como organocôntrica, 
pois residindo no organismo as chamadas "forças causais” do comportamento, ó ele, o 
organismo (ou mais propriamente, o Homem) o seu centro de atenções e origem de expli¬ 
cações. "O comportamento ó tão somente uma manifestação da ação do Sistema Nervo¬ 
so Central"; "O comportamento é tão somente uma indicação da ação das Emoções e/ou 
do Pensamento e/ou da Memória e/ou da Motivação"; "O comportamento tem bases ins¬ 
tintivas", ou finalmente, "O comportamento ó uma expressão do Self', estas são frases 
comuns hoje em dia entre cientistas do comportamento que se identificam com o 
Behaviorismo Metodológico, em qualquer de suas versões, sejam psicofisiólogos, 
neurólogos, etólogos, ou os chamados “behavioristas cognitivistas". Na verdade, são auto¬ 
res que, recusando o nome de behavioristas metodológicos (com o que certamente Watson 
concordaria!), não obstante partilham com eles o que de menos avançado eles apresen¬ 
tam: um modelo causal do comportamento, uma posição dualista, mecanicista, e de 
dependência unidirecional. Como vemos, iniciaram com uma prática de usar inferências 
como explicações (justificativa era que tais termos inferenciais poderiam ser reduzidos a 
eventos observáveis, como as operações de privação, repetição de tarefa, exposição pré- 
experimental à tarefa, etc.); aos poucos, se deslocaram para interpretações baseadas em 
variáveis intervenientes, e terminaram com constructos hipotéticos. 

Um parênteses. É importante lembrar que o behaviorista radical, posteriormente, 
recuperará o ambiente, como instância privilegiada em que o cientista busca variáveis e 
condições das quais o comportamento ô função (vide Skinner, 1969, 1974, 1966, 1981; 
Matos, Machado, Ferrara, Silva, Hunziker, Andery, Sério e Figueiredo, 1989). Assim como 
Darwin se afasta de uma explicação causal e creacionista sobre a origem do homem, 
adotando uma visão selecionista na qual o ambiente tem papel fundamental; assim o 
modelo de seleção pelas conseqüôncias de Skinner dispensa causas e agentes causais. 
A seleção natural, em nível filogenótico, responde pelos reflexos e padrões típicos de 
espécies, bem como pela sensibilidade a contingências; a seleção natural, em nível 
ontogenótico, e a cultural, em nível de práticas sociais, respondem por operantes e 
respondentes modificados. A cadeia causal, unidirecional e mecanicista, ó substituída 
por uma malha de relações de caráter interacionista e histórico. 


Sobrr comport.imfnto r cognição 59 



A título de exemplificação e exercício do que dissemos anteriormente, analise¬ 
mos cinco descrições de meu comportamento, contidas nas frases a seguir: 

Frase 1. "Eu estou falando". 

Frase 2. "Eu escrevi este texto”. 

Frase 3. "Eu vejo vocês”. 

Frase 4. "Eu estou com sede”. 

Frase 5. "Eu estou com dor de dente”. 


Enquanto falo, vocês podem ver uma série de mudanças que ocorrem em meu 
organismo (mudanças em minha expressão facial, meus gestos e posturas, etc.) e ouvir o 
produto destas e de outras mudanças, algumas não diretamente observáveis (a passa¬ 
gem de ar pelas minhas cordas vocais, a movimentação destas, etc.), isto é, vocês po¬ 
dem ouvir os sons da minha fala. 

Vocês não viram meu comportamento de escrever este texto, mas se concordar¬ 
mos sobre um tipo de operação que define o escrever ("deslocamento de minha mão 
segurando um objeto por sobre uma superfície deixando nela inscrições”), vocês também 
concordarão que este produto do "meu escrever” (ou seja, as inscrições neste papel) é 
sua evidência. 

Contudo, qual é a evidência consensual da frase 3? Ninguém vê ou ouve o meu 
comportamento de “ver” senão eu mesma; e o meu ver só tem produtos para mim, isto é, 
e esses produtos são aquilo que vejo (Skinner, 1945 e 1957). Alguém poderia alegar que 
um fisiólogo poderia invadir meu organismo e registrar mudanças químicas na minha reti¬ 
na, e mudanças eletroquímicas no meu sistema nervoso central, paralelamente à minha 
fala da frase 3. Mas isso não ó "ver'’! Isso são registros paralelos em outros níveis de 
funcionamento do meu organismo. 

No entanto, o behaviorista metodológico (clássico ou mediacionista) aceitaria essa 
frase como um bom exemplo de descrição do comportamento de ver, tanto quanto aceita¬ 
ria meu registro de observação da salivação de um cão como evidência desta salivação. 
Meu registro equivaleria a duas evidências: que vi o cão salivar, e, mais ainda, que o cão 
salivou! Esse registro seria aceito porque outras pessoas também poderiam relatar ter 
visto o cão salivar, isto ó, a salivação de um cão é observável consensualmente, assim 
como também aceitariam que vejo vocês aqui se outras pessoas relatassem o mesmo 
fato. Mas o que está em pauta aqui não é o "salivar do cão", e sim o "meu ver" essa 
salivação; não é a presença de vocês e sim aquilo que tomo como evidência dessa pre¬ 
sença, o meu ver. Esse é um ponto difícil, já que somente eu posso ter acesso a meu ato 
de ver (dito em outras palavras, quando eu vejo um cão salivando, eu vejo o cão salivando, 
eeu me vejo vendo). 

Esta contradição não foi resolvida pelo Behaviorismo Metodológico: um comporta¬ 
mento que, em si, não é observável direta e consensualmente e, portanto, não poderia ser 
objeto de estudo do behaviorista metodológico, torna-se, não obstante, fonte de dados 


60 Mdrij Amélia Mdtos 


para a construção da ciência deste behaviorista! 

Quanto à frase 4, ela não se refere a qualquer evidência observável externamente, 
não implica produtos ou referenciais externos acessíveis ao outro. Neste momento, nova¬ 
mente, o Behaviorismo Metodológico so deixa contaminar pela Fisiologia (versão que 
subsiste até hoje, ospocialmento nos estudos em Psicofarmacologia e Psicobiologia). A 
teorização agora se dá num outro nível de observação que nào o do comportamento, e 
inferências são feitas sobre eventos que estariam ocorrendo nesse outro nível, usando o 
comportamento como evidência para apoiar estas inferências. "Eu posso invadir o organis¬ 
mo e medir o equilíbrio hídrico dos tecidos, esta medida é um indicador da minha sede". 
De novo insisto, ossa medida ó um indicador do equilíbrio hídrico dos tecidos do meu 
corpo, não da minha sensação! Não do meu comportamento de sentir! (Alguns leitores 
poderão estranhar minha expressão "comportamento de sentir". Mas, ocorre que nossa 
linguagem ó vastamente enviesada! Eu deveria dizer simplesmente “do meu sentir"; mas o 
termo "sentir" está culturalmente tào subordinado a estados afetivos e/ou a conteúdos 
mentais - como sentir emoção, sentir dor, sentir alguma coisa -, que tenho a necessida¬ 
de de clarificar dizendo "comportamento de sentir”. Mas isso não quer dizer que há um 
comportamento e um sentir, ou que comportamento e sentir são fenômenos diversos. 
Sentir ê um comportamento, uma maneira do organismo funcionar em determinadas con¬ 
dições, assim como correr é uma outra maneira dele funcionar, em outras condições). 

A propósito do que acabamos de dizer, um novo parêntese: Diante de um verbo 
de ação nossa tendência é perguntar pelo agente "Quem corre?", e a resposta ô sempre 
um nome ou pronome "Eu corroI". Isto não produz reações contrárias nos ouvintes, embo¬ 
ra alguém possa resmungar sobre o fato que "correr" seja um subproduto da movimenta¬ 
ção das pernas sobre um substrato físico. Se pergunto quem lava o carro ou vê o por-de- 
sol, também não há dúvidas quanto às formas possíveis de resposta, e para cada uma 
delas a língua portuguesa tem uma expressão própria e exclusiva. Igualmente se pergun¬ 
tarmos a alguém "Quem respira?", a resposta será um nome ou pronome, embora médi¬ 
cos e fisiólogos rejeitem a pergunta como sem sentido cientificamente "Não há um 'quem' 
que respira! Respirar é uma função do organismo vivo!". Do mesmo modo, para o digerir 
não há um "quem", e só de uma forma muito restrita pode-se dizer que o estômago digere. 
Este ó um processo que envolve todo o organismo. Mas pensemos agora nas perguntas 
"Quem sente dor?", "Quem está alegre?". Jamais as respostas poderiam ser "Eu alegreio!", 
ou "Eu doreio 1 ". Os verbos a serem conjugados - por imposição cultural - nesses casos 
é "sentir" ou "estar"! Assim como existe um carro para ser lavado e um alimento para ser 
digerido, eu respondo a estas últimas perguntas çomo se existisse uma dor para ser 
sentida, ou uma alegria para ser "estada". Mas isso é apenas uma dificuldade linguística 
- que nào obstante cerceia enormemente minha maneira de pensar-, pois deixa implícito 
que há alguma coisa para ser sentida, isto é, um estado de minha alma ou o conteúdo de 
minha mente. Dor o alegria são falsos substantivos, na verdade eles só existem enquanto 
verbos, eu doreio c eu alegreio, sim! Dor e alegria não são coisas do ambiente, são 
formas de me comportar, são exemplos do meu comportamento. Nào há uma caixa cheia 
de dor, a qual eu abro para contemplar ou sentir; nem um guarda-roupa do qual eu retire 
uma blusa de alegria e com a qual visto meu estar. Mas nossas práticas culturais insis¬ 
tem que a alegria está lá, que eu a experimento como a um pedaço de bolo, que ela toma 
conta de mim como um vendaval, 


Solirc (omport.imn)lo o cofloiç.lo Ó1 



que ela não è uma forma particular de interação com o ambientei Com verbos que deno¬ 
tam funções fisiológicas básicas, meu corpo é considerado o agente, ou, para uma audi¬ 
ência mais sofisticada, é o palco onde essas funções ocorrem. Com verbos que denotam 
funções motoras ou sensoriais, oeuéo agente. Mas, com relação a verbos que denotam 
funções emocionais ou perceptuais a linguagem me impede do interagir com o ambiento; 
no máximo, eu interajo com a dor, com a alegria, com minha memória, com o conteúdo 
dos meus pensamentos, com minhas idéias, cognições, etc., etc.] 

Notem como o behaviorisfa metodológico começa a escorregar nas frases 3 e 4, 
o a apresentar rachaduras em seu modelo. Ele não tem dúvidas quanto a seu critério de 
objetividade nas frases 1 e 2; os observadores referem-se a mudanças no organismo e/ou 
ao produto dessas mudanças. Na terceira frase ele titubeia e acaba dizendo que a referên¬ 
cia é o objeto sobre o qual incide o comportamento ("aquilo que ó visto", no caso). Na 
quarta frase ele muda seu objeto de estudo, deixando a Psicologia, mas não muda sua 
insistência num critério social de verdade. Finalmente, quando chega na última frase ("Eu 
estou com dor de dente"), seu veredicto é "Análise impossível. Referencial não-acessível. 
Fenômeno recusado". 

Mas, assim como eu vejo vocês - e este é um comportamento meu que não e 
observável por vocês -, também é verdade que eu sinto sede e sinto dor de dente! Assim 
como vocês não podem observar "meu ver vocês", vocês não podem observar "meu sentir 
sede", e também não podem observar "meu sentir dor de dente". Isso, contudo, não torna 
estas sensações menos reais para mim. E é aqui que começa a ficar evidente uma primei¬ 
ra e fundamental diferença entre o Behaviorismo Radical, proposto por Skinner, e aquele 
praticado pelos behavioristas metodológicos: o eu, não o outro, é quem constrói o conhe¬ 
cimento (embora a linguagem com que o faz, Skinner reconhece, seja social e histórica). 

Influenciado pelo Positivismo Lógico, Skinner aceita que o que existe para um 
indivíduo, existe; daí, ele aceitar e defender uma metodologia do N=1. Mas, para não 
cairmos no subjetivismo ou no idealismo, é importante analisarmos as evidências desta 
existência. E aqui estamos diante de um ponto muito importante (e difícil): a evidência da 
existência do mundo (ou de um evento) é a experiência do observador e a tarefa da ciência 
é analisar esta experiência. Skinner inclui, como essencial ao processo de construção do 
conhecimento científico à análise da experiência do cientista. Essa aliás é uma das ra¬ 
zões porque Skinner atribui tamanha importância do estudo do comportamento verbal: a 
análise do comportamento verbal permitiria o estudo das circunstâncias em que a experi¬ 
ência, isto é, o trabalho do cientista se dá, e assim, permitiria seu entendimento e eventu¬ 
al controle. 

Ora, ocorre que a experiência que alguém tem de uma situação é um evento 
privado. E ó assim que Skinner aceita estudar a experiência, como um evento 
comportamental privado. Para Skinner, os estudos de eventos encobertos inclui legitima¬ 
mente dentro do campo de estudos da Psicologia como uma ciência do comportamento 
(Skinner, 1945 e 1963). Assim ele é radical em dois sentidos: por negar radicalmente (i.e., 
negar absolutamente) a existência de algo que escapa ao mundo físico, isto e, que não 
tenha uma existência identificável no espaço e no tempo (como a mente, a consciência e 
a cognição): e por radicalmente aceitar (i.e., aceitar integralmente) todos os fenômenos 
comportamentais. 


62 M.irí.i Amdi.i M,itos 



O behaviorista metodológico clássico não nega a existência da mente, mas nega- 
lhe status científico ao afirmar que não podemos estudá-la pela sua inacessibilidade (pelo 
mesmo argumento, elo nega status científico às emoções, sensações, pensamento, e 
domais eventos privados, som negá-los). O behaviorista metodológico mediacionista ex¬ 
plica o comportamonto pela mente, e apresenta aquele como evidência desta; pensamen¬ 
tos e emoções coincidentes são inferências sobro eventos centrais que ajudam a explicar 
o comportamento. 

Jà o behaviorista radical nega a existência da mente e assemelhados, mas aceita 
estudar eventos internos! Essa posição de Skinner se insere dentro da tradição do 
Positivismo Lógico, mas, ao mesmo tempo, se constitui num desvio desta forma de 
positivismo, talvez por ter sido Skinner mais influenciado por Mach do que por Bridgman, 
e mais por Wittgenstein que por Carnap (Smith, 1986). Já que só temos informação do 
mundo polos nossos sentidos, por que excluir as sensações do mundo interno e privilegiar 
as do mundo externo? Por que o critério de objeto da ciência deveria ser dado pela natu¬ 
reza do sistema sensorial envolvido? (Note-se que aqui Skinner quebra a equação Even¬ 
tos Internos = Eventos Mentais, típica da Escolástica, do Mentalismo, do Behaviorismo 
Metodológico, do Cognitivismo, e do, assim chamado, "Behaviorismo Cognitivo"). 

Nesse sentido, Skinner (embora reconhecendo a dificuldade de se ter acesso ao 
primeiro) não separa mundo interno de mundo externo. E ó por essa razão que, para ele 
comportamento não são movimentos do corpo, e sim interações Organismo-Ambiente 
[náo esquecendo que Ambiente é tudo aquilo que é externo ao Comportamento, não 
importando se é um piscar de luz, um desequilíbrio hídrico, um derrame de adrenalina, ou 
um objeto ausente associado a um evento presente; não importando se sua relação com 
o comportamento é de contiguidade espaço/temporal (o que, não obstante, é exigido pelo 
mecanicismo do behaviorista metodológico para explicar a troca de energias), ou não]. É 
por isso que para Skinner não existe Comportamento (não existe no sentido de "não 
podemos entender") sem as circunstâncias em que ocorre; assim como não tem sentido 
falarmos em "Circunstâncias", sem a especificação do comportamento que elas 
circunstanciam. 

Mas por que afinal o behaviorista metodológico rejeita estudar eventos privados se 
reconhece sua existência'? Porque dá importância filosófica à diferença na localização - 
interna vs. externa - de um evento; porque praticamente equaciona eventos internos com 
eventos mentais; mas, principalmente, porque rejeita a introspeção (Lelgland, 1992). A 
introspecçáo é rejeitada por Watson pelo obscurecimento que produz na distinção entre 
objeto e método da Psicologia. Como estudar a consciência enquanto objeto, se o único 
modo de fazê-lo é pelo exercício dessa própria consciência enquanto método? Já Skinner 
aceita a introspecção, mas rejeita a consciência! Porém, note-se que ele aceita a 
introspecção, não como método, e sim como objeto de estudo: a introspecção seria um 
comportamento verbal emitido sob controle de eventos internos, porém instalado pela 
comunidade verbal sob controle de eventos externos. E rejeita a consciência por uma 
razão de consciência: por sor um evolucionista, Skinner não aceita a limitação, imposta 
pela introspecção como método, ao estudo do comportamento animal. 

Para o behaviorista metodológico, a evidência de que vejo vocês é que outros os 
vôem; a evidência do que vocês existem é que outros vêem vocês; e a possibilidade de 


Sobre comport.imnito e co^nivão 



ver vocês é que vocês estejam presentes no momento de meu ver. A evidência da existên¬ 
cia do comportamento e do mundo, e a própria natureza do conhecimento que tenho 
deles, é a experiência partilhada. 

Para o behavíorista radical a ovidència do quo vojo vocês é meu comportamento 
diante da circunstância "vocês” Do mesmo modo, a evidência quo vocês existem também 
é meu comportamento. E nem é preciso que vocês esteiam presentes para que eu reaia 
ou "veja" vocês, na verdade nem ó preciso quo vocês existam (ver Skinner, 1945, o ospe- 
cialmente a belíssima análise da metáfora do escorpião negro no segundo epílogo de "Two 
Personal Epilogues", em Verbal Bohavior). 

Para o behavíorista metodológico, o louco e o mentiroso são não-sociais, por não 
partilharem das experiências do outro. Para o behavíorista radical, o louco se comporta na 
ausência da coisa vista, tal como eu faço em sonhos, ou nas minhas rememorações o 
fantasias. Talvez ele o faça com maior frequência do que cu, mas ambos o fazemos do 
acordo com as mesmas leis. Estamos ambos sob o controle de outras contingências que 
não exclusivamente as do aqui o agora. Mutatis mutant/s, o mesmo se aplica ao mentiro¬ 
so. 


Mas atenção!! Dizer que estou observando eventos internos não equivale a dizer 
que estou observando minha mente ou minha consciência. Equivale a dizer que estou 
observando meu próprio corpo e seu funcionamento. Ao observar meus comportamentos 
encobertos, utilizo os mesmos recursos que utilizo ao observar meus comportamentos 
manifestos, ou os comportamentos manifestos de outrem, ou a tela de vídeo do meu 
computador, etc. 

Dizer que tenho dor de dente não é evidência da existência de uma dor do dente; 
nem é relato da dor de dente; ó um comportamento verbal que precisa ser analisado e 
interpretado à luz das circunstâncias em que ocorro. É uma verbalização que emito na 
primeira pessoa do singular na presença de determinadas sensações internas; que meu 
dentista gaúcho emite na segunda pessoa na presença de determinadas condições da 
minha gengiva e/ou de meu dente; mas que eu também posso emitir na presença de uma 
tarefa aborrecida que não desejo executar. Analisar estas verbalizações e as condições 
(antecedentes e consequentes) em que elas ocorrem pode ser considerado um modo de 
começar a estudar minhas sensações, isto é, meus comportamentos encobertos. Mas, 
dada a natureza - verbal - desse comportamento, e dadas as condições de sua aquisi¬ 
ção, a tarefa não será fácil (Malerbi e Matos, 1992). 

Estudar eventos privados é uma tarefa que o behaviorista radical considera requi¬ 
sito essencial para entender o comportamento humano. A análise desses eventos não 
precisa ser colocada sob critérios sociais; para o behaviorista radical basta um observa¬ 
dor, o próprio sujeito. Mas os dados dessa observação procisam ser replicáveis, e os 
conceitos que são utilizados ao lidar com esses dados devem se ajustar ao mesmo 
conjunto de leis e princípios utilizados na análise do comportamento em geral (Matos, 
1990). 


Acredito que a concepção de comportamento encoberto, assim como a de com¬ 
portamento verbal, seja prototípica da posição skinneriana sobre comportamento como 
uma unidade interativa. Nessas duas concepções, mais que em qualquer outro exemplo, 
defimtivamente não posso separar Condições Antecedentes - Ações - Condições 


64 A tiri.i Aim l li.i M.ilos 



Consequentes. Evento interno pode ser uma mudança no ambiente interno, produzida 
quer por outras mudanças no ambiente interno ou externo ou em ambos, ou pode ser uma 
reação a essas mudanças. Algumas vezes posso identificar seu antecedente remoto 
externo, mas seu antecedente imediato e interno se mescla, irremediavelmente, com o 
evento comportamontal ele próprio. 

O Behaviorismo Radical exercita-se através de uma interpretação de dados obti¬ 
dos através da investigação sistemática do comportamento (o corpo dessa investigação 
propriamente dita ó a Análise Experimental do Comportamento). Essa interpretação volta- 
se para a descrição de relações funcionais entre Comportamento e Ambiento (isto ó, 
relações entre descrições de ações dos organismos e descrições das condições em que 
essas ações se dão). Não busca explicações realistas ou de causa-efeito, e sim relações 
funcionais ou leis que expressem seqüências regulares de eventos, e que eventualmente 
poderão ser descritas por funções matemáticas. 

O behaviorista radical rejeita o Mentalismo porque ó materialista e evolucionista; 
em seu naturalismo, não há espaço para o dualismo por acreditar que o comportamento é 
uma função biológica inerente ao organismo vivo, não necessitando de justificativas ulteri¬ 
ores. Acredita que, assim como não invoco a mente para explicar o respirar; assim como 
não explico a digestão por processos cognitivos; assim como não explico trocas de oxigênio/ 
gás carbônico no sangue pela consciência, por que explicaria o correr, ver, sentir, etc. pela 
mente, consciência ou cognição? 

O behaviorista radical propõe que existam dois tipos de transações entre o Orga¬ 
nismo e o Ambiente: 

a) conseqüências seletivas, que ocorrem após um comportamento e que modificam a 
probabilidade futura de ocorrerem comportamentos equivalentes, isto é, da mesma classe; 

b) contextos que estabelecem a ocasião para o comportamento ser afetado por essas 
conseqüências (e que portanto ocorreriam antes do comportamento) e que igualmente 
afetariam a probabilidade futura de ocorrência de comportamentos equivalentes. 

Essas duas classes possíveis do interações são denominadas “contingências" e 
constituem as duas classes conceituais fundamentais para o trabalho de descrição e 
análise do comportamento para o behaviorista radical. Relações funcionais são 
estabelocidas na medida em que registramos mudanças na probabilidade de ocorrência 
dos comportamentos que procuramos entender, em relação a mudanças quer nas conse- 
qüôncias, quer nos contextos, quer em ambos. 

Por lidarmos com explicações funcionais e não-causais, o importante ó coletar 
informações ao longo do tempo, isto é, informações repetidas do mesmo evento e com as 
mesmas personagens (O behaviorista metodológico, tanto na versão clássica como 
mediacional, prefere observações pontuais em diferentes sujeitos, ou seja, o estudo em 
grupo, o que leva à estatística para descrever e/ou anular a variabilidade. Para o behaviorista 
radical, isto é uma heresia do vez que estou tentando estudar a experiência daquele 
particular sujeito). Ao coletarmos registros ao longo do tempo, devemos comparar o de¬ 
sempenho do sujeito consigo mesmo, sua história passada ó sua linha de base. A 
interpretação do behaviorista radical é sempre histórica. 

Contudo, para certas variáveis, em determinados contextos, é possível descrever 


^obro comportamento e cognição Ó5 



funções semelhantes para diferentes indivíduos. Isso ocorre, já que indivíduos de uma 
mesma espécie partilham de um mesmo conjunto de contingências filogenéticas, e indiví¬ 
duos com histórias passadas semelhantes podem estar partilhando de contingências 
ontogenétícas semelhantes, assim como membros de uma mesma comunidade parti¬ 
lham das mesmas contingências culturais. 

Para o behaviorista radical, a mente, as emoções e o sistema nervoso não seriam 
os organizadores ou iniciadores do comportar-se. Em vez de recorrer a mecanismos ou 
entidades subjacentes ao comportamento (as emoções de Aristóteles, as faculdades da 
alma Escolástica, a agressão ou a territorialidade da Etologia, os mapas de Tolman, o 
hábito de Hull, a memória dos neurólogos, a reestruturação cognitiva de Mahoney, o self 
de Deese, Bandura e tantos outros), o behaviorista radical pergunta-se muito simplesmen¬ 
te: “Como esse organismo existe em seu ambiente?”. 


Bibliografia 


DAY, W. F. (1980) The historical antecedents of contemporary behaviorism. In: R.W. 
Rieber & K. Salzinger (Orgs.), Psychology: Theoretical-historical perspectives, 
New York: Academic Press, pp. 203-262. 

(1983) On the difference between radical and methodological behaviorism. 
Behaviorism, 11, pp. 89-102. 

KELLER, F. S. e SCHOENFELD, W. N. (1950). Principies of Psychology. New York: 
Appleton-Century-Crofts (traduzido para o português em 1966, EPU/HERDER 
Editora). 

LELGLAND S. (Organizador) (1992). Radical Behaviorism: Willard Day on Psychology and 
Philosophy. Reno, Ne: Context Press. 

MALERBI, F. E. K. E MATOS, M. A. (1992). A análise do comportamento verbal e a 
aquisição de repertórios autodescritivos de eventos privados. Psicologia: Teoria e 
Pesquisa, 8(3), pp. 407-421. 

MATOS, M. A. (1990). Controle experimental e controle estatístico: a filosofia do caso 
único na pesquisa comportamental. Ciência e Cultura, 42(8), pp. 585-592. 

MATOS, M. A.; MACHADO, L. M. C. M.; FERRARA, M. L. D.; SILVA, M. T. A.; HUNZIKER, 
M. H. L; ANDERY, M. A. P. A.; SÉRIO, T. M. A. R; e FIGUEIREDO, L. C. M. 
(1989). O modelo de conseqüenciação de B. F. Skinner. Psicologia: Teoria o 
Pesquisa, 5(2), pp. 137-158. 

SKINNER, B. F. (1945). The operational analysis of psychological terms. Psychological 
Review, 52, pp. 270-277 [publicado também em Behavior and Brain Sciences, 
1984,7(4), pp. 547-553]. . 

(1953). Science andHuman Behavior. New York: Macmillan. 


66 M.iii.i Amiliti M.ilos 



_(1957). VerbalBehavior. New York: Appleton-Century-Crofts, 

__(1963). Behaviorism at fifty. Science, 140, pp. 951*958 [publicado 

também em Behavior and Brain Sciences, 1984, 7(4), pp. 615-621}. 

_(1966). Phylogeny and ontogeny of behavior. Science, 153, pp. 1205-1213 [publicado 

também em Behavior and Brain Sciences, 1984,7 (4), pp. 669-711]. 

_(1969). Contingencies of Reintorcement: a theoreticalanalysis. Englewood Cliffs, 

N.J.: Prentice Hall. 

_(1974). About Behaviorism. New York: A. Knopf. 

_(1981). Seleclion by consequences. Science, 213, pp. 501 -504 [publicado também 

em Behavior and Brain Sciences, 1984,7(4), pp. 477-510]. 

SMITH, L. S. (1986). Behaviorism and Lógica! Positivism. Stanford, Cal.: Stanford Univer- 
sity Press. 

WATSON, J. B. (1913). Psychology as the behaviorist sees it. Psychologicalfíeview, 20, 
pp. 158-177 [publicado também na obra organizada por RJ. Herrstein e E.G. 
Boring Textos Básicos de História da Psicologia. São Paulo: Herder/EDUSP, 1971, 
pp. 626-636 ). 

_(1924). Behaviorism. New York: Norton. 


Sobrf comporl.imrnlo r cogniçdo 67 



Capítulo 8 


Por que sou behaviorista radical! 

Teres,! Miiriii de Azevedo rires Sério 

ix/c/sr 


N ão sabia que seria tão difícil responder privadamente (para mim mesma) e 
depois publicamente à pergunta: por que sou behaviorista radical? 

O caminho que acabei encontrando começa com dois alertas. Gostaria de deixá- 
los bem claros. 

O primoiro alerta. Skinner, nas primeiras páginas de About Dehaviorism (1974), 
por duas vezes (p.8 e p.20), afirma que não está falando como o behaviorista. Na primeira 
destas passagens, ele diz: 

O leiior deve saber que nem todos os behavioristas concordarão com tudo que 
eu diga. Watson falou como "o behaviorista ", e em seu tempo ele era o behaviorista, 
mas ninguém pode assumir este lugar hoje. (1974, p. 8) 

A afirmação ó clara. Ninguém pode falar como o (ou a) behaviorista, ou, o que dá 
no mesmo, em nome do behaviorismo. 

O segundo alerta está relacionado ao primeiro. Continuando a citação acima, 
Skinner diz: 


68 


leret.1 M.iri.i de A/e vedo Pires Stio 



"O que se segue ó reconhecidamente - e, como behaviorista, devo dizer ne¬ 
cessariamente - uma visão pessoal” (...) "reflete minha própria história ambiental”. 
(1974, pp. 8, 20) 

Resumindo os alertas, agora com minhas próprias palavras. O que vou dizer não 
tem a pretensão de legislar sobre o que ó o Behaviorismo Radical. Sem ser um relato de 
história de vida (entre outras razões porque minha história nada tem de tão interessante 
assim), o que vou dizer é muito mais um depoimento. Um depoimento sobre aquilo que 
me atraiu e continua me atraindo no/para o Behaviorismo Radical. Tanto quanto as fontes 
de atração, a seqüôncia na qual os diferentes aspectos são abordados reflete apenas meu 
jeito pessoal de organizá-los. 

Só mais um 'porém'. Apesar do primeiro alerta de Skinner, os aspectos que iden¬ 
tificarei como pertencentes ao Behaviorismo Radical são retirados dos textos escritos por 
ele. 


1. Processo de produção de conhecimento científico 


Um primeiro conjunto de aspectos que gostaria de abordar se refere a como o 
Behaviorismo Radical entende o processo de produção de conhecimento científico. 

Acredito que duas suposições básicas sustentam a concepção behaviorista radi¬ 
cal de conhecimento científico: a crença na existência do mundo (About Behaviorism, 
1974, pp. 108-109, pp. 158-159) e a crença de que os fenômenos são determinados 
{About Behaviorism, 1974, p. 208; Ciência e Comportamento Humano, 1989, p. 29, p. 32). 
Como uma das maneiras de conhecer o mundo, de conhecer a realidade, o conhecimento 
científico deveria estar desvendando exatamente tais relações de determinação. Creio que 
foi com esta formulação simples que estas crenças se constituíram no impulso inicial 
para a produção de conhecimento que acabou configurando o Behaviorismo Radical. 

Entretanto, diferentemente do que foi muito tempo divulgado (e talvez ainda hoje o 
seja), tais crenças não tornam aquele que produz conhecimento - no caso, o cientista - 
um ser passivo, a quem só cabe reconhecer neutralmente, e sem outra alternativa, os 
estímulos vindos deste mundo e decodificá-los em leis que expressariam nada mais, nada 
menos, que a ordem imanente a tais estímulos (About Behaviorism, 1974, pp. 82-83, pp. 
86-88, p. 153). Ao contrário, desde o momento da percepção, este sujeito ó ativo: sua 
percepção ó determinada por suas interações, passadas e atuais, com a situação que se 
coloca como objeto de conhecimento. Ao se afirmar que "conhecimento ó ação, ou pelo 
menos regras para a ação” ( About Behaviorism, 1974, p.154), supõe-se que conhecimen¬ 
to implica sempre interação com o objeto a ser conhecido, e se falamos em interação, 
falamos em modificação do objeto e do sujeito que conhece. 

Também diferente do que ó mais frequentemente divulgado, a concepção behaviorista 
radical não reduz a ciência à coleta e organização de dados; muito ao contrário (e a 
trajetória de Skinner como produtor de conhecimento é um exemplo disso). O cientista 
persegue idéias, suposições, hipóteses; interpreta seus resultados, busca constructos 


Sobre comportdmfnto e cognição Ó9 



hipotéticos ou teóricos que lhe tragam significado; constrói sistemas teóricos. Nesse 
processo, nem a especulação está de fora; como diz Skinner: 

Todo campo científico tem uma fronteira além da qual a discussão, embora 
necessária, não pode ser tão precisa quanto se poderia desejar (...) se fosse verda¬ 
de (que a especulação não faz parte da ciência), grande parte da astronomia ou da 
física atômica, por exemplo, não seria ciência. De fato, a especulação ô necessᬠ
ria para delinear métodos que colocarão o objeto de estudo sob melhor controle. 
(1974, p. 21) 

Talvez, as únicas coisas interditadas sejam o ecletismo e o dogmatismo cego. 
Explicando: o cientista só produzirá conhecimento comprometer-se com alguma ‘idéia’; ó 
na busca de evidências que sustentem esta tal 'idéia' que o conhecimento será produzido 
e essa busca, por vezes, deve ser feita contra tudo e contra todos; ele não poderá desistir 
diante das primeiras ou das grandes adversidades - assim, um certo tanto de dogmatismo 
parece necessário e, com certeza, o ecletismo estará eliminado. Agora, ele deve buscar 
evidências, deve verificar a força de tal ‘idéia’, sua amplitude, sua abrangência e, nesse 
percurso, deve descobrir seus limites. Para isso, ele deve estar atento ao diferente, ao 
novo, ao não previsto inicialmente; deve estar pronto, inclusive, para reformar ou negar sua 
‘idéia’ inicial - assim, não cabe um dogmatismo cego. Não fosse um certo tanto de 
dogmatismo, não teríamos descoberto nenhuma regularidade nas relações comportamen- 
to-ambiente, nenhuma relação de determinação; continuaríamos no reino absoluto da 
vontade, ou do destino, ou de poderosas forças não-materiais, ou, no melhor dos casos, 
de uma natureza caprichosa, tão caprichosa que não se submete ao conhecimento. Fos¬ 
se cego esse dogmatismo, continuaríamos buscando explicar todo e qualquer comporta¬ 
mento através dos conceitos de reflexo e de reflexo condicionado. 

Finalmente, o caminho que o cientista percorre ao produzir conhecimento deve 
ser submetido a uma única norma: deve ser público. Não cabe restringi-lo por nenhum 
outro tipo de padronização (por exemplo, uso de instrumentos precisos, de medidas exatas, 
de cálculos matemáticos) e por nenhum tipo de formalização (por exemplo, dedução de 
hipóteses de tal ou qual forma). A esse modo de olhar o método científico, costumamos 
chamar de teórico informal. Claro que pagamos um certo preço por essa opção. Entre 
outras coisas, a sistematização do conhecimento é muito mais lenta, corre-se o risco da 
dispersão, questões teóricas importantes podem ficar encobertas por muito tempo. Por 
outro lado, nos libertamos de amarras que podem retardar (frear, conduzir para uma só 
direção) a produção de conhecimento, já que a postura teórico-informal parece aumentar 
a possibilidade da variabilidade, da novidade. Quase arriscaria dizer que a concepção 
behaviorista radical do processo de produção de conhecimento científico prioriza o contro¬ 
le por contingências e não o controle por regras. Se é assim, por que a norma - a regra - 
de ser público? 

Uma primeira e mais conhecida razão é a de propiciar possibilidades de avaliação 
peia comunidade científica: tornar público o conhecimento produzido e o processo que 
conduziu a ele é condição para submeter a variação à seleção; neste caso, através das 
contingências de reforçamento da comunidade científica. Uma segunda razão, menos 
difundida e talvez mais importante, é que tornar público o conhecimento possibilita a ação 
da comunidade em geral. Como diz Skinner: 


70 íerew M.iri.t de Azevedo Pire* Sírio 


O ‘sistema científico', como a lei, tem por finalidade capacitar-nos a mane¬ 
jar um assunto do modo mais eficiente. O que chamamos de concepção cientí¬ 
fica de determinada coisa não é conhecimento passivo. A ciência não se preo¬ 
cupa com contemplação. (1989, p. 26) 

Nesse caso, estaremos submetendo também a variação à seleção, só que o 
critério agora ó uma prática mais efetiva no mundo. Um critério, portanto, que vai além 
dos controles explícitos estabelecidos pela comunidade científica. O conhecimento, que 
é ação, tem por objetivo básico propiciar novas e mais efetivas ações e nestas ações 
está o critério fundamental de sua validação. 


2. Psicologia como ciência do comportamento 


O que acontece quando esta concepção de ciência se encontra com a Psicolo¬ 
gia? O segundo conjunto de aspectos que eu gostaria de abordar se refere à proposta 
behaviorista radical para a Psicologia. 

Com certeza, a proposta behaviorista radical tem como marca a construção da 
Psicologia como ciência. Para muitos, isso significou, e significa ainda, empobrecer ou 
reduzir o objeto da Psicologia. 

Empobrecer porque fazer ciência pareceria implicar o lidar só com fenômenos 
diretamente observáveis, o que, no âmbito da Psicologia, significaria lidar apenas com o 
comportamento manifesto, ou seja, com comportamentos aos quais qualquer observador 
independente pudesse ter acesso diretamente. E todos nós sabemos que uma parte 
bastante significativa de nós não é/não está (na maioria das vezes, felizmente) acessível 
a outras pessoas. 

Reduzir porque, na tentativa de garantir tal critério, mesmo que como algo a ser 
atingido a longo prazo, fazer ciência poderia significar descrever os fenômenos psicoló¬ 
gicos em outro nível - através das transformações neurológicas e/ou fisiológicas. Nesse 
caso, a Psicologia perderia sua especificidade, já que se diluiria entre as ciências ditas 
biológicas. 

Entretanto, a proposta behaviorista radical de construir uma psicologia científi¬ 
ca, uma Psicologia como uma ciência do comportamento, não opta por nenhum destes 
dois caminhos: não empobrece nem reduz os fenômenos psicológicos. 

Desde seus primeiros textos, Skinner (1931, por exemplo) enfaticamente procura 
mostrar a diferença entre a Fisiologia/Neurologia e a Ciência do Comportamento e, 
desde seu famoso texto de 1945 (A Análise Operacional de Termos Psicológicos), 
procura convencer os próprios behavioristas de que não há razão alguma que justifique 
retirar da ciência do comportamento aqueles fenômenos que não podem ser diretamente 
observados. Do ponto de vista do Behaviorismo Radical, cada um de nós é um organis¬ 
mo, isto é, membro da espécie humana com sua história de evolução: mas é um organis¬ 
mo que, interagindo com o ambiente durante sua vida, adquire um repertório de compor¬ 
tamentos: torna-se uma pessoa. Uma pessoa que, interagindo com o ambiente, estabele- 


Sobrc comport<imenlo t* cogni(<lo 71 



ce relações especiais: relações com outros seres humanos que lhe possibilitam desen¬ 
volver um repertório também especial que podemos chamar de autoconhecimento; uma 
pessoa que pode conhecer seus comportamentos, públicos ou não, e os estados corpo¬ 
rais (sentimentos, emoções) que acompanham tais comportamentos e que, assim, se 
torna um self. Para as Ciências Biológicas, esta pessoa pode continuar apenas um 
organismo, para a ciência do comportamento não: seu foco de análise está exatamente 
nas outras duas 'dimensões' (About Behaviorism, 1974, p. 145), e a última delas (a que 
chamamos self ) nos coloca frente a frente com os fenômenos que não são passíveis de 
observação direta por um observador independente. 

Isso, porém, não elimina todos os problemas decorrentes da proposta de se construir 
uma psicologia científica. A ciência, segundo supõe-se, lida com leis ou afirmações ge¬ 
rais, o que poderia destruir a individualidade, a singularidade das pessoas e dos selvese, 
de novo, a Psicologia perderia sua graça. Afinal, nós nos percebemos como diferentes 
dos outros: reagimos de formas diferentes diante de uma mesma situação, valorizamos 
diferentemente as coisas ao nosso redor, temos estilos de vida diferentes e assim por 
diante. E tudo isso é verdade para o Behaviorismo Radical. As regularidades que tais 
afirmações gerais descrevem se referem aos processos de interação que mantemos com 
nosso ambiente e a descrição detalhada destes processos e das interações entre eles 
possibilita explicar, e não acabar com, a variabilidade. A ciência do comportamento não 
destrói a individualidade, a singularidade e Skinner é claríssimo quanto a isto: 

Uma pessoa não é um agente originador; é um locus, um ponto no qual muitas 
condições genéticas e ambientais se reúnem em um efeito conjunto. Como tal, ela per¬ 
manece inquestionavelmente única. Ninguém mais (a menos que ela tenha um gêmeo 
idêntico) tem sua dotação genética e, sem exceção, ninguém mais tem sua história pessoal. 
Assim, ninguém mais se comportará precisamente da mesma maneira. Nós nos referi¬ 
mos ao fato de que não há ninguém como ela enquanto uma pessoa, quando falamos de 
sua identidade. (1974, p. 185) 

O início dessa citação revela mais dois aspectos que podem ser apontados como 
restrições para a construção da Psicologia como ciência. Esses aspectos estão intima¬ 
mente relacionados e podem ser assim descritos: tudo bem, somos indivíduos, mas so¬ 
mos determinados: nossa própria individualidade é determinada, causada, ou, em outras 
palavras, sujeita a controle. E uma determinação, uma causa, um controle que não vem 
de mim mesmo: sou indivíduo, mas não sou livre, não sou sujeito. Para o Behaviorismo 
Radical, o indivíduo é sim determinado, e, neste sentido, não há livre arbítrio, não há 
liberdade como sinônimo de indeterminação. É condição básica do ser humano que ele 
interaja com a natureza, com outros homens, o que significa dizer que ele aja sobre a 
natureza, sobre os outros homens e sofra os efeitos dessa sua ação: isto ó determinação, 
isto é controle. E como diz Skinner: 

Controle não é uma fase passageira (...) Nós não podemos escolher uma 
maneira de vida na qual não haja controle. Nós podemos apenas escolher as 
condições controladoras. (1974, p. 209) 

Entretanto, é exatamente essa condição que pode transformar o indivíduo em 
sujeito. Em primeiro lugar, porque ele age sobre, e, ao fazê-lo, produz mudanças. É 


72 Tema Maria de A/evedo Pirei Sírio 



Skinner quem diz: 


O comportamento operante é essencialmente o exercício de poder: ele tem 
um efeito sobre o ambiente. (1974, p. 154) 

Em segundo lugar, porque a esperança do Behaviorismo Radical é que, através 
da descrição desses processos de interação, através da produção de conhecimento 
científico, nós possamos criteriosamente escolher e produzir as condições que nos 
controlarão: o homem pode se tornar sujeito de seu próprio destino ( About Behaviorism, 
1974, p. 277). E fará isso agindo sobre o mundo, produzindo o mundo que o produzirá 
enquanto organismo, enquanto pessoa e enquanto self. 

Fundamentalmente, ó por causa dessa esperança que o Behaviorismo Radical 
tem feito críticas sistemáticas à prática de se buscar as causas do comportamento no 
interior do indivíduo. Procurar os determinantes dentro do homem, buscar explicações 
mentalistas, contentar-se com a indicação das chamadas causas internas nos afasta de 
atuar sobre o mundo. 

Recebam os chamados fenômenos internos o nome que receberem (estruturas 
cognitivas, traços de personalidade, dinamismos psíquicos, vontades, sentimentos, de¬ 
sejos, objetivos, metas, etc.), quando atribuímos a eles o papel de causa, não reconhe¬ 
cemos que eles são ou condições corporais, orgânicas para comportamentos, ou com¬ 
portamentos encobertos ou estados corporais, e que, como tais, são produtos da história 
da espécie e da história do indivíduo dentro de uma cultura, também com sua história 
particular; e, assim, não temos porque nos preocuparmos com essas histórias. 

Ao fazermos isso, aceitamos como explicação aquilo que precisa ser explicado 
(de onde vem a vontade? por que é este o objetivo? como surgiu aquele sentimento? 
quais as condições que favorecem o desenvolvimento de determinadas estruturas 
perceptuais, ou de pensamento, ou de personalidade?, e assim por diante). Além disso, 
podemos estar, sem o sabermos, carregando junto com tais conceitos outros conceitos 
ou suposições por eles implicados. Como, por exemplo, uma concepção de causalidade 
finalista, derivada de uma visão de mundo pronto, acabado e hierarquizado, ou uma 
concepção mecanicista de causalidade, derivada de uma visão de mundo não mais 
hierarquizado, mas com certeza pronto, funcionando como um mecanismo, cheio de 
relações lineares, unidirecionais e repetitivas. E, finalmente, satisfeitos em ter uma expli¬ 
cação, paramos de procurar por ela. 

Agindo assim, podemos até preservar nossa imagem de ‘agentes iniciadores’, 
mas, por preservá-la, estamos nos distanciando de identificar os reais determinantes de 
nossos comportamentos e estados corporais e, com isto, perdendo a possibilidade de 
atuar sobre eles. 

Aqui está, talvez, a marca fundamental da proposta bohaviorista radical para a 
Psicologia e, em minha opinião, a principal fonte de resistência a esta proposta. Atuar 
sobre os determinantes significa atuar sobre essas inter-relações e não sobre os indiví¬ 
duos que, como um todo, já são produto delas ( Questões Recentes na Análise do 
Comportamento, 19, p. 30, p. 90). Isso retira a Psicologia, e mais concretamente os 
psicólogos, de seu lugar tradicional e razoavelmente confortável. Deveríamos ter algo a 
dizer sobre as relações dos homens com a natureza e sobre as relações dos homens 


Sobre comportamento e cognição 73 



entre si; mais do que isto, deveríamos ter algo a fazer sobre as diversas relações que 
constituem a vida dos homens. O ‘lugar’ de atuação da Psicologia é aquele no qual tais 
relações ocorrem, é aquele no qual estão sendo geradas as condições que propiciam 
tais relações e, se concordamos que nossa preocupação central é o homem e não ratos 
o pombos, este lugar ó a sociedade. Não podemos fazer nada a respeito da história já 
vivida por este homem, esta história já agiu sobre ele, alterando-o; isso nós não podemos 
mais alterar. Só nos resta interferir na sua história atual: interferir nas condições de vida 
concreta deste homem e, assim, em sua história futura. 


3. Os behavioristas radicais 


Como afirmei no início, para dizer porque sou behaviorista radical pretendia desta¬ 
car aspectos que me atraíam no e para o Behaviorismo Radical. E os aspectos são esses 
que citei. Ao abordá-los, não respeitei sua historicidade; isto é, não disse como surgiram, 
e como se transformaram, misturei aspectos de longa data com aspectos mais recentes. 
Mais do que isso, não abordei nenhum aspecto considerado por mim como problemático, 
não abordei falhas, lacunas, contradições. E há muito disso também no Behaviorismo 
Radical; em seu processo de construção, muitos problemas já foram resolvidos, 
contradições superadas. Mas, ainda há muito por dizer. Acho que não poderia ser diferente. 
Nas palavras de Skinner: 

Como a filosofia de uma ciência do comportamento, o Behaviorismo Radical 
exige, provavelmente, a mais dramática mudança jamais proposta em nossa forma 
de pensar acerca do homem. É quase literalmente uma questão de virar pelo avesso 
a explicação do comportamento. (1974, p. 274) 

Com certeza, isso não será feito rapidamente, não será feito por uma só pessoa, 
não será feito tranquilamente: sem enfrentar críticas justas e injustas, sem cometer er¬ 
ros, sem realizar correções, sem criar e resolver contradições. Pelo menos, foi isso que 
aprendi com os behavioristas radicais. Lendo seus textos, por exemplo os de Skinner, de 
Sidman. E, por sorte, sendo ensinada diretamente por outros (não tão famosos, mas 
bastante radicais) que foram sempre sensíveis às minhas dúvidas, pacientes com meus 
erros, críticos ao mais leve sinal de dogmatismo cego ou ecletismo fácil e com os quais 
posso, nem sempre tranqüilamente e quase sempre prazerosamente, com certeza parti¬ 
lhar meus anseios e expectativas. 


Bibliografia 


SKINNER, B.F. (1945) An Operational Analysis of Psychological Terms. Em Skinner, B.F. 
(1972) Cumulative Record. New York: Appleton-Century-Crofts, 


74 Teres,) M<irt<i dr Azevedo Pirei Sério 



(1974) About Behaviorism. New York: Vintage Books Edition 

(1989) Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes 

(1991) Questões Recentes na Análise do Comportamento. Campinas: Papirus 


Sobrr comport<imfnto t cofjniçAo 



Seção III 


Definições e evoluções 
de conceitos 



Capítulo 9 


O que é comportamento? 

Júlio César Coelho ilc Rose 
U/SCiir 


De modo genérico, o termo comportamento refere-se à atividade dos orga¬ 
nismos (animais, incluindo o homem), que mantêm intercâmbio com o ambiente. Essa 
atividade inclui os movimentos dos músculos estriados e dos músculos lisos, e a secre¬ 
ção de glândulas. Na linguagem cotidiana, frequentemente nos referimos aos comporta¬ 
mentos que envolvem a musculatura estriada como comportamentos voluntários, en¬ 
quanto denominamos involuntários aqueles que envolvem a musculatura lisa o as glându¬ 
las. Numa linguagem mais rigorosa, esses termos são evitados, e falamos de comporta¬ 
mentos operantes e respondentes (ou reflexos). Nos comportamentos respondentes, 
uma resposta ó eliciada, provocada, por um estímulo antecedente: a comida na boca 
(estímulo antecedente) elida salivação (resposta), um toque na pálpebra (estímulo ante¬ 
cedente) elicia fechamento da pálpebra (resposta), um barulho forte e súbito (estímulo 
antecedente) elicia um conjunto de respostas, incluindo aceleração da taxa cardíaca, 
aumento de pressão arterial, queda da resistência elétrica da pele provocada pela atividade 
das glândulas sudoríparas, etc. A eliciação desse conjunto de respostas está envolvida 
na emoção que denominamos medo. A ocorrência dessas respostas em presença desses 
estímulos é importante para o funcionamento e sobrevivência do organismo, e constitui 
parte de suas capacidades "inatas": quando a propensão para um estímulo eliciar uma 


Sobre comporl.imenfo e cotfinç.lo 79 



resposta é inata, denominados a relaçào entre estímulo e resposta como um reflexo 
incondicionado, e denominamos tanto o estímulo quanto a resposta como incondicionados. 
Essas respostas podem ser condicionadas, passando a ocorrer em presença de estí¬ 
mulos associados com os estímulos incondicionados. Assim, o cheiro do limão, ou a 

pnlnvrn limAo, poln sun nsfiocinçAo com o biico do limfto, pnRRam n olicinr n rnRpoRta do 

salivação. Um grito de um adulto é, para um bebê, um estímulo incondicionado para 
respostas de medo; a simples presença de uma pessoa que grita frequentemente com 
ele se torna capaz de eliciar as respostas de medo. O processo de condicionamento é 
muito importante na determinação de nossas emoções. 

Uma parte significativa do comportamento humano (e de outros animais) não é 
eliciada por estímulos antecedentes. Esses comportamentos, como diz B. F. Skinner, 
modificam o ambiente e essas modificações no ambiente levam, por sua vez, a modifica¬ 
ções no comportamento subsequente. Denominamos esses comportamentos de 
operantes, para enfatizar que eles operam sobre o ambiente. Dirigir um carro, pregar 
um prego, falar, fazer contas, são exemplos de comportamentos operantes. Comporta¬ 
mentos operantes constituem a maior parte das atividades visíveis dos seres humanos, 
mas ató mesmo aquela atividade freqüentemente invisível que nós denominamos pensa¬ 
mento envolve comportamentos operantes, reduzidos em sua magnitude ao ponto do 
tornarem-se invisíveis para os demais, como quando uma pessoa fala “para si própria". 
Nesse caso, o comportamento operante de falar está ocorrendo, mas tão reduzido em 
sua escala que não é visível para os demais. A capacidade para comportamentos enco¬ 
bertos ó resultado de aprendizagem: um músico aprende a ler uma partitura, tocando as 
notas em um instrumento ou cantando. Com a prática, ele torna-se capaz de cantar as 
notas de modo inaudível para os demais, mas audível para ele mesmo. O mesmo ocorre 
quando uma criança aprende a ler em silêncio. Esses comportamentos invisíveis são 
denominados de comportamentos encobertos. Infelizmente, em nossa cultura, inven¬ 
tou-se, para explicar a ocorrência de comportamentos encobertos, uma entidade imaterial 
denominada mente. Essa noção nos levou a perder de vista o fato de que comportamen¬ 
tos encobertos são operante s, do mesmo modo que os comportamentos visíveis. Pior, 
essa entidade inventada, que denominamos mente, passou a ser tomada como explica¬ 
ção dos comportamentos visíveis e, deste modo, as causas reais desses comportamen¬ 
tos têm passado despercebidas. 


O comportamento de qualquer organismo é contínuo, um fluxo de atividade que 
nunca cessa. Nesse "comportamento", tomado em sentido genérico, distinguimos "com¬ 
portamentos" específicos, isto é, procuramos encontrar unidades que se repetem. As¬ 
sim, falamos dos comportamentos de acender a luz, contar uma piada, dirigir um carro, 
etc. Mas, como dissemos anteriormente, a atividade de um indivíduo e contínua e somos 
nós que arbitrariamente a dividimos em unidades. Estamos supondo que esses “compor¬ 
tamentos" específicos podem ocorrer repetidas vezes ao longo da vida de um indivíduo. 
Mas, se fizermos uma observação rigorosa, veremos que não há nada na atividade de 
um organismo que se repita de modo rigorosamente igual. Tomemos como exemplo o 
comportamento operante de contar uma piada, desempenhado por um humorista. Ele 
conta muitas piadas ao longo de sua vida, e nunca conta a mesma piada de modo 
rigorosamente igual. Podemos dizer que o operante de "contar piadas" é na verdade 


80 lúlio Ciitir Coelho de Rose 


urna filasse que engloba muitas respostas’ diferentes: contar diferentes piadas, e contar 
cada piada particular de muitos modos diferentes. Por que consideramos que todas essas 
respostas pertencem a mesma ciasse 7 Porque todas elas têm, tipicamente, uma conse¬ 
quência importante em comum: a consequência é produzir risos na audiência (note que s 
conseqüéncia não precisa ocorrer todas as vezes que o comportamento ocorre: ãs vozes, 
a pessoa conta uma piada o ninguém ri). Quando a resposta do contar uma piada tem, 
como consequência, risos da audiência, a ocorrência de respostas da mesma classe no 
futuro torna-se mais provável. Dizemos que as risadas da audiência reforçam o operante 
de contar piadas. Se nós observarmos que as risadas que ocorrem como consequência 
de uma resposta do contar uma piada tornam mais provável a repetição da mesma piada , 
nos poderemos considerar que as respostas de contar aquela determinada piada constituem 
uma classe de respostas que são reforçadas por uma consequência comum, risadas da 
audiência. No entanto, para a maioria das pessoas, nôs podemos observar que as risadas 
da audiência após uma piada aumentam a probabilidade subsequente de contar não apenas 
a mesma piada, mas várias outras piadas. Por esse motivo, consideramos que a classe 
de respostas engloba contar piadas, em geral, e não apenas contar a mesma piada. De 
modo semelhante, acender a luz é uma classe de respostas. Esta classe inclui várias 
formas de resposta: com a mão direita, com a mão esquerda, com o indicador, com o 
dedo médio, com o braço completamente esticado ou com ele parcialmente flexionado, 
etc. Todas essas respostas têm, como consequência, iluminar o ambiente, e esta 
consequência torna mais provável, no futuro, a ocorrência de respostas desta classe. É 
essa relação de uma classe de respostas com uma consequência comum, e o fato de 
esta consequência levar, no futuro, a um aumento na probabilidade de respostas dessa 
classe, que nos permite identificar o que constitui uma unidade de comportamento, um 
operante. Unidades de comportamento respondente também são identificadas em termos 
de classes de resposta, mas as classes são relacionadas com os estímulos antecedentes, 
o não com a conseqüência. 

Como você pode ver, explicar o que é comportamento não é tão simples como 
parece. Se você quiser saber mais a respeito, estude os livros de D. F. Skinner, princi- 
paimente Ciência e Comportamento Humano e Contingências de Reforço (este último 
disponível em tradução parcial na coleção Os Pensadores, da Editora Abril Cultural). 


A espiessdo resposta (lesiona aqui uma ni.oii0m.ia espoei lua de um compoitamento opeiante Iiaia-se, na 
widade, de um icimu tomado de empréstimo do compoiiamento- lespondenie I emhre se que uma ocorrência 
especilica de um compoitamento lespondenie é eheiada por um estimulo, ou sc|a. é uma resposta a um estimulo 
(> empréstimo desse teimo paia desipnai uma ocoircncin de um opeiante é, na widade. muito mapiopiiado, 
poupie o operante nSo é uma resposta a um estímulo Inlelt/mente. este empresttmo consolidou se no uso dos 
pesquisadores, e causa bastante conlus.lo 


Sobre comportamento e co^mplo 



Capítulo 10 


O que é contingência? 

Dcisy d,is C//iiç,is (/c Souaí' 
UiSCar 


- " C ^uem fez a lição de casa, pode sair para o recreio agora." 

- “A lista de espera será aberta uma hora antes do horário do vôo," 

- “Horário de funcionamento: das 9 às 16 horas." 

- "A companhia telefônica está instalando linhas para quem se inscreveu há 
pelo menos dois anos..." 


' Trabalho aprosontado na Mosa Rodonda Primoiros Pnssos Aprenda o Rdsico. durante o IV Encontro 
Brasiloiro do Terapia o Medicina Comporlamental, promovido pola AssociaçAo Brasileira do Terapia o Modicma 
Comportamontal - Campinas (SP), 22 a 24 do setembro do 1995 Agradeço a Antomo Bonto Alves do Moraes 
o Móriica Lucia Fonseca pela leitura cuidadosa o pelas sugostóos 

1 Bolsista do Posquisa do CNPq 

Dopartamonto do Psicologia, Umvorsidade Fedoral de SAo Carlos 
Caixa Postal 676, CEP 13565-905 • SAo Carlos, SP. 

E •mail üaqsapower ulscnr.br 


82 I >oisy (l,i$ O/r.iç.is dc Sou/.i 



Estes são alguns exemplos de situações quotidianas que envolvem contingênci¬ 
as. Náo se pode dizer o mesmo destes outros exemplos: 

- "Relampejou quando abri a janela." 

- "O ônibus parou no ponto assim que cheguei ." 

- “Sempre que aperto o botão com a mão direita, o elevador chega logo " 

- Paulo usa sempre a mesma lapiseira para fazer provas; diz que isso faz com 
que ele escreva respostas corretas... 

Em sentido geral, contingência pode significar qualquer relação de dependência 
entre eventos ambientais ou entre eventos comportamentais e ambientais (Catania, 1993; 
Skmner, 1953; 1969; Todorov, 1985). Embora possa ser encontrado nos dicionários com 
diferentes significados, esse termo ó empregado, na análise do comportamento, como 
termo técnico para onfatizar como a probabilidade de um evento pode ser afetada 
ou causada por outros eventos (Catania, 1993, P. 368). 

O enunciado de uma contingência ó feito em forma de afirmações do tipo se,.., 
entào... A clausula “se” podo especificar algum aspecto do comportamento ou do ambi¬ 
ento e a cláusula “então" especifica o evento ambiental consequente (Todorov, 1989, p. 
354). Assim, os enunciados apresentam-se como “regras" que especificam essas rela¬ 
ções entre eventos. 

Os exemplos anteriores poderiam ser reescritos para especificar melhor as rela¬ 
ções que, na fala quotidiana, muitas vezes estão apenas implícitas: 

Se você fez a tarefa de casa (comportamento), então pode sair para o recreio 
(mudar de ambiente e ter acesso a lanche, companhia, brincadeiras, etc.); se não, fica 
em sala... 

Se você fez reserva para o vôo das 15 horas (comportamento 1) e se apresentar - 
se para embarque até as 14 horas (comportamento 2), entào seu lugar estará assegurado 
(o quo, com certeza, alterara seu ambiente, tanto imediato como nas horas subseqüentes); 
caso contrário, outro passageiro poderá ocupar sua reserva. 

Mas se você é o passageiro da lista de espera, então terá que esperar o horário- 
limito para saber so poderá ou não embarcar (não adianta perguntar antes do referido 
horário). 

Você poderá ter sou telefone instalado (conseqüência) se tiver se inscrito (com¬ 
portamento) há mais de dois anos (intervalo entre a açào e a consequência): algo que você 
fez fia muito tempo está gerando consequências hoje... 

No exemplo “Horário de funcionamento: das 9 às 12 horas", pode-se considerar 
que a frase não indica qualquer comportamento. Ela foi incluída de propósito, para eviden¬ 
ciar o quanto relações de contingências podem estar "embutidas" no ambiente ou nas 
regras que as especificam. 

Esse exemplo requer dos usuários do agente que estabeleceu as contingências 
várias discriminações condicionais. Quando precisa da agência, terá que consultar o relógio: 

Se estiver dentro do horário de funcionamento (qualquer hora entre 9 e 12), então 


Sobre compoiiimenlo e cognição 


83 



será atendido (se for até lá, obviamente). 

Se o horário for qualquer outro, então terá que esperar. Haverá horários-limite em 
que outros aspectos terão que ser considerados (outras discriminações condicionais te¬ 
rão que ser feitas). Por exemplo, se são 11 h55 e o usuário está a dois minutos de cami¬ 
nhada do locej, ainda há possibilidade do que seja atondido, mas se estiver a uma 
grande distância, sera melhor desistir e esperar pelo dia seguinte... 

Uma relaçáo de dependência nào existe quando alguém abre a janela e um relâm¬ 
pago corta o espaço. Os dois eventos podem ocorrer temporalmente próximos, mas de 
modo totalmente independente: o relâmpago teria ocorrido quer eu abrisse ou nao a 
lanela... 

No comportamento operante, por meio do qual o organismo modifica o ambiente, 
contingência se refere “às condições sob as quais uma consequência e produzida por 
uma resposta, isto ô, a ocorrência da consequência depende da ocorrência da resposta" 
(Catania, 1993, p. 368). No exemplo do relâmpago, abrir a janela pode produzir uma con¬ 
sequência: não a ocorrência do relâmpago, mas a oportunidade de vê-lo... 

Um esquema de reforço contínuo é uma instância de dependência absoluta: toda 
vez que a resposta ocorre, ela produz a consequência (se a resposta ocorrer, então a 
consequência também ocorrerá...). Já em um esquema de razáo fixa, FR 5, por exemplo, 
a consequência só seguirá uma resposta se ela for a quinta em uma série, na qual nenhu¬ 
ma das outras quatro respostas precedentes foi seguida pela consequência. 

O operante discriminado, por sua vez, requer a especificação da contingência 
de três termos ou contingência tríplice (Skinner, 1938; 1953): 

“Uma formulação adequada da interação entre um organismo e seu ambiente 
deve sempre especificar três coisas: (1) a ocasião em que a resposta ocorre, (2) a 
própria resposta, e (3) as consequências reforçadoras. As inter-rclaçòes entre elas 
sao as contingências de reforço". (Skinner, 1953, p.5). 

Se o estímulo discriminativo estiver presente e se a resposta ocorrer, (então) ela 
produzirá a consequência; se a resposta náo ocorrer, ou se ocorrer na ausência do estí¬ 
mulo, a consequência nào ocorrerá. 

Na análise de contingências, é importante considerar as probabilidades condicio¬ 
nais que relacionam um evento a outro, ou seja, qual a probabilidade de um evento na 

presença e na ausência do outro. 

No caso do operante, a relação contingente que existe quando respostas produ¬ 
zem reforçadores é definida por duas probabilidades condicionais: a probabilidade do um 
reforçador dada a ocorrência da resposta e sua probabilidade na ausência da resposta 
(Catania, 1973; 1993), 

No esquema de reforço contínuo, em que, como já vimos, uma conseqüência é 
apresentada sempre que uma resposta ocorrer, a probabilidade do estímulo, dada a ocor¬ 
rência da resposta é um (1, 0), mas na sua ausência, é zero. Dito de outra forma, a 
resposta aumenta a probabilidade de ocorrência da conseqüência de zero para 1,0. * 

A ocorrência da resposta pode, ainda, reduzir a probabilidade do estímulo: se a 


84 IVisy tl.is c)i,iv<is tio Sou/.i 



A ocorrência da resposta pode, ainda, reduzir a probabilidade do estímulo: se a 
resposta ocorrer, o estímulo não ocorrerá, como é o caso do comportamento de esquiva, 
em que a resposta elimina ou adia a apresentação de um evento aversivo (Keller & 
Schoeníeld, 1950; Sidman, 1953). Então, a probabilidade do estímulo na ausência da 
resposta ó 1,0, mas, se a resposta ocorrer, sua probabilidade cai para zero. 

A extinção é um caso em que a ocorrência da resposta não afeta a probabilidade 
do estímulo, que é zero, quer na presença, quer na ausência da resposta. 

Esses são casos extremos e fáceis de se examinar, mas a mesma análise pode 
ser aplicada a casos muito mais complexos e que envolvem mudanças nas probabilida¬ 
des condicionais ao longo de um contínuo, como, por exemplo, a produção intermitente 
de estímulos por respostas, nos esquemas em que apenas algumas respostas produzem 
o reforço (as probabilidades variam de acordo com especificações de requisitos de res¬ 
postas ou de tempo); se a probabilidade do evento reforçador for diferente na presença e 
na ausência da resposta, podemos dizer que há uma relação de contingência resposta- 
reforço. Embora não se trate de uma mudança "tudo ou nada”, a resposta aumenta ou 
reduz, em algum grau, a probabilidade de ocorrência da conseqüência. 

A importância de se fazer uma análise de contingências reside exatamente na 
possibilidade de se identificar os elementos envolvidos em uma dada situação, e verificar 
se há ou não uma relação de dependência entre eles. Se houver, o segundo passo é 
identificar qual é o tipo de relação, uma vez que diferentes relações de contingência dão 
origem a diferentes processos e padrões de comportamento. 

Relações de contingência fazem parte do ambiente natural, e são também 
estabelecidas no ambiente humano construído, físico e social. Quando se estabelece 
uma relação do contingência, isso não significa necessariamente que algum comporta¬ 
mento fará contato com a contingência; mas se fizer, o que vai ocorrer com esse compor¬ 
tamento daí por diante depende do tipo de contingência... 

"O experimentador manipula contingências em busca de relações funcionais e 
das condições (variáveis de contexto) nas quais podem ser observadas" (Todorov, 
1989, p 355). 

Um analista do comportamento tem como tarefas identificar contingências que 
estão operando (ou inferir quais as que podem ou devem ter operado), quando se depara 
com determinados comportamentos ou processos comportamentais em andamento, bem 
como propor, criar ou estabelecer relações de contingência para o desenvolvimento de 
certos processos comportamentais. É através da manipulação de contingências que se 
podo estabelecer ou instalar comportamentos, alterar padrões (como taxa, ritmo, seqüência, 
espaçamento), assim como reduzir, enfraquecer ou eliminar comportamentos dos repertó¬ 
rios dos organismos. 

Parte considerável dos artigos de pesquisa em análise do comportamento é 
dedicada a descrever e demonstrar relações funcionais - os efeitos de diferentes relações 
de contingência sobre o comportamento. O conhecimento de relações funcionais já bem 
estabelecidas é crucial para quem quer aprender a lidar com o comportamento. 

Para entender o conceito de contingência, é preciso distinguir contingência de 


Sobrr comport.»mcnlo c cognição 85 



não-contingência (quando um evento pode ocorrer, quer o outro tenha ocorrido ou não) 3 e, 
também, de contiguidade... 

"Contigüidade implica simplesmente a justaposição de eventos - no espaço 
ou no tempo, independente de causaçâo". (Catania, 1993, p.61) 

Um exemplo claro de contingência que não envolve contigüidade é o de atraso de 
reforço. Nesse caso, a relação entre os eventos comportamentais e ambientais é descrita 
da seguinte maneira: a conseqüência só ocorrerá se: 

1) a resposta especificada ocorrer; 

2) um intervalo especificado de tempo tiver transcorrido após a resposta. 

Portanto, há uma relação de dependência entre a conseqüência e a resposta: a 
probabilidade condicional da conseqüência é zero na ausência da resposta e 1,0 quando 
ela ocorre, mas estes dois eventos - resposta e conseqüência, estão separados no tem¬ 
po. 

Ainda assim, uma relação de contingência pode envolver, como um importante 
parâmetro, a contigüidade entre dois ou mais dos elementos relacionados. Os resultados 
de pesquisa evidenciam com muita clareza e regularidade que relações de contingência 
que envolvem contigüidade - estreita relação temporal entre eventos ambientais e 
comportamentais são mais efetivas no estabelecimento de processos comportamentais 
do que as que envolvem atrasos entre os eventos interdependentes (Catania & Keller, 
1981; Donahoe & Palmer, 1994, p. 44; Sizemore e Lattal, 1977). Esta é a razão pela qual 
manuais de análise comportamental aplicada enfatizam tanto a importância da 
imediaticidade da conseqüência reforçadora em procedimentos de ensino: contingências 
que envolvem contigüidade são mais efetivas que contingências que envolvem atrasos. 


Bibliografia 


BAUM, W.M. (1994). Understanding behaviorism: Science, behavior and culture. New 
York: HarperCoIlins Publisher. 

CATANIA, A.C. (1973). The concept of the operant in the analysis of behavior. Behavior¬ 
ism, 1,103-116. 

_(1993). Learning. Englewood Cliffs, NJ.: Prentice-Hall (3*. edição). 

CATANIA, A.C, & KELLER, K.J. (1981). Contingency, contiguity, correlation, and the con¬ 
cept of causation. In: P. Harzem, & M.D. Zeiler, (Orgs.), Predictability, correlation, 
and contiguity. New York: Wiley. 


3 lsto ó diferente de dizer que se um ocorre, o outro nâo ocorre - neste caso. trata-se de uma relação de 
contingência; a ocorrência de um evento reduz a probabilidade de o outro ocorrer. 


8Ó Pcliy d.is 1/niç.is de Souza 



DONAHOE, J.W., & PALMER, D.C. (1994). Learning and complex behavior. Boston: 
Allyn & Bacon, 1994. 

KELLER. F.S., & SCHOENFELD, W.N. (1950/1970). Princípios de Psicologia. Sâo Paulo: 
Horder. 

SIDMAN. M. (1953). Two temporal parameters in the maintenance of avoidance behavior 
by the white rat. Journal of Comparativo and Physiological Psychology, 46,253- 
261. 

(1986). Functional analysis of emergent verbal classes. In: T.Thompson & M.D.Zeiler 
(Orgs.), Analysis andintegration ofbehavioral units. (Pp. 213-245). Hillsdale, NJ: 
Lawrence Erlbaum. 

SIZEMORE, O.J., & LATTAL. K.A. (1977). Dependency, temporal contiguity, and response- 
independent reintorcement. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 27, 
119-125. 

SKINNER, B.F. (1938). The behavior of organisms: An experimental analysis. Copley 
Publishing Group (1991). 

_(1953). Science and Human Behavior. New York: Macmillan. 

_ (1969). Contingencies of reintorcement: A theoretical analysis. New York: Appleton- 

Century-Crofts. 

TODOROV, J.C. (1985). O conceito de contingência tríplice na análise do comportamento 
humano. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 1,75-88. 

_(1989). A Psicologia como o estudo de interações. Psicologia: Teoria e Pesqui¬ 
sa, 5, 347*356. 

WEINGARTEN, K., & Mechner, F. (1966). The contingency as an independent variable of 
social interaction. Em T.Verhave (Org.), The experimental analysis of behavior. 
(Pp. 447-459). New York: Appleton-Century-Crofts. 


Sobre comporl.imenlo e coflniçilo 87 



Capítulo 11 


A evolução do conceito de contingência’ 

Pcisy dis C/raças </c Sou/S 
UFSCar 


A característica central da análise experimental do comportamento é a anᬠ
lise funcional, a identificação e o controle de variáveis das quais o comportamento é a 
função. Um poderoso instrumento de análise ó o conceito de contingência, especialmente 
o de contingência tríplice (Todorov, 1985). 

O conceito de contingência tem, na sua origem, uma longa história (Lattal, 1995). 
Na própria análise do comportamento, o conceito evoluiu enquanto formulação verbal que 
descreve relações entre eventos e passou da descrição de justaposição temporal para a 


’ Trabnlho aprosontado na Mesa Redonda Primeiros Passos: Aprenda o Básico, durante o IV Encontro 
Brasileiro de Terapia e Medicina Comportamental, promovido pela Associação Brasileira de Terapia e Medicina 
Comportamental-Campinas (SP), 22 a 24 de setembro de 1995. Agradeço a Antonio Bento Alves de Moraos 
e Mônica Lúcia Fonseca pela leitura cuidadosa e pelas sugestões. 

1 Bolsista de Pesquisa do CNPq. 

Departamento de Psicologia, Universidade Federal de Sâo Carlos. 

Caixa Postal 676, CEP 13565-905 • Sôo Carlos, SP. 

E-mall: ddgsapower.ufscar.br 


88 Drisy (Lis Qraças dc Sou/a 




de relações de dependência estímulo-estímulo e resposta-estímulo, de diferentes graus 
de complexidade. Talvez o aspecto mais importante da evolução, no entanto, seja o da 
complexidade dos fenômenos comportamentais, que vêm sendo descritos e produzidos 
graças ao emprego desse instrumento conceituai e que, ao mesmo tempo, têm permitido 
refinar o próprio conceito. Assim, o que parece ter evoluído substancialmente ó o compor¬ 
tamento dos analistas do comportamento. A análise de contingências ó, certamente, 
muito mais sofisticada hoje do que foi no passado. 

Embora o termo contingência (derivado do latim contingere, tocar por todos os 
lados) possa assumir diferentes significados, ele é empregado, como termo técnico na 
análise do comportamento, para enfatizar “como a probabilidade de um evento pode ser 
afetada ou causada por outros eventos" (Catania, 1993, p. 368). 

No caso do comportamento operante, contingência se refere “às condições sob 
as quais uma conseqüência ó produzida por uma resposta, isto ó, depende da ocorrência 
de uma resposta" (Catania, 1993, p. 368). Nosso ambiente natural, e também o ambiente 
construído, estão repletos de contingências desse tipo: o ambiente está organizado de tal 
modo que certas mudanças ambientais só ocorrerão se alguém se comportar de determi¬ 
nada maneira. 

Em sentido mais geral, contingência poderia significar qualquer relação de depen¬ 
dência entre eventos ambientais ou entre eventos comportamentais e ambientais (Skinner, 
1953; 1969; Todorov, 1989). O enunciado de uma contingência, como regras que especi¬ 
ficam essas relações entre eventos, é feito em forma de afirmações do tipo “se..., en¬ 
tão....". Relações de dependência muitas vezes incluem seqüências ou proximidade tem¬ 
poral entre eventos. Essa talvez seja a razão pela qual é comum uma certa confusão entre 
contingência e contigüidade. Ambos os termos partilham o prefixo con, têm uma raiz 
comum que significa tocar ou estar em contato e foram, por algum tempo, tratados como 
sinônimos. No entanto, dada a evolução do uso dos conceitos na análise do comporta¬ 
mento, os dois termos passaram a ser tratados de maneira distinta. Assim, enquanto 
contingência ó empregada para enfatizar uma relação de dependência entre eventos, 
“contiguidade implica simplesmente a justaposição de eventos, - no espaço ou no tempo 
- independente de causação" (Catania, 1993, p.61). Ainda assim, uma relação de contin¬ 
gência pode envolver contigüidade, especiaimente contiguidade temporal. Nesse caso, a 
contigüidade é apenas um dos parâmetros de uma relação de dependência ou relação 
condicional entre eventos. 

Um exemplo claro de contingência que envolve dependência entre eventos, mas 
não a contigüidade, é o de atraso de reforço. A relação entre os eventos comportamentais 
e ambientais é descrita da seguinte maneira: quando o atraso de reforço está envolvido: a 
conseqüência só ocorrerá se: 

• a resposta especificada ocorrer; 

• um intervalo especificado de tempo tiver transcorrido após a resposta. 

Talvez a confusão entre contigüidade e contingência seja ocasionada também 
pela ênfase na importância da imediaticidade do reforço, para a aquisição e a manutenção 
do comportamento. A pesquisa tem demonstrado exaustivamente que a imediaticidade é, 
de fato, fundamental na determinação dos efeitos de uma contingência de reforço. Mas 
imediaticidade, neste caso, não é mera justaposição temporal: é propriedade de uma 


Sobnr comport.imfnto c cognlç<lo 89 



relação de dependência: se a resposta ocorrer, então a consequência ocorrerá e sua 
ocorrência será imediata. 

Segundo Donahoe e Palmer (1994), a contiguidade temporal é um parâmetro fun¬ 
damental para a seleção bem-sucedida de interações organismo-ambiente, tanto do tipo 
respondente quanto do tipo operante (p.44). Mas contiguidade estrita só ó possível em 
uma relação entre eventos com probabilidade 1,0 (sempre que um dos eventos ocorre, o 
outro também ocorre), o que caracteriza relações contingentes e não relações acidentais. 
Portanto, contigüidade é relevante como um dos parâmetros de relações de contingência 
e não como oposição à contingência. 

Essas sutilezas conceituais na distinção das relações refletem algum efeito sig¬ 
nificativo sobre o comportamento resultante? Skinner já apontava, em 1938, que o com¬ 
portamento deveria ser diferentemente afetado por contiguidades temporais causais - 
termo que depois evoluiu para contingências - e contiguidades temporais acidentais entre 
respostas e reforços. A acumulação de um conjunto sistemático de dados tem evidenci¬ 
ado claramente diferenças entre contingência e não-contingência (Catania & Keller, 1981; 
Lattal & Maxey, 1971; Redd and Brinbauer (1969); Sizemore e Lattal, 1977). Dados de 
Si zemore e Lattal (1977), obtidos com pombos, ilustram os efeitos de três diferentes 
relações resposta-reforço, obtidas por meio de um esquema de reforço contingente (inter¬ 
valo variável ou VI), um esquema de reforço contingente com atraso de reforço (VI com 
atraso) e um esquema de reforço independente de resposta (esquema de tempo variável 
ou VT). Esses esquemas, que foram planejados com parâmetros temporais comparáveis, 
apresentavam diferenças quanto à imediaticidade ou não de uma conseqüência para a 
resposta (VI versus VI com atraso), ou quanto às relações de dependência entre respos¬ 
tas e consequências (Vis - dependência versus VT - independência). As taxas de respostas 
foram sempre mais elevadas nos esquemas que incluíam uma relação de dependência 
entre respostas e conseqüências (VI e Vf com atraso) do que no esquema sem a relação 
de dependência (VT). Entre os dois esquemas com relação de dependência, o esquema 
com reforço imediato manteve taxas muito maiores do que o esquema com atraso de 
reforço. A diferença eníre as taxas, porém, foi bem mais acentuada quando a relação de 
contingência foi suspensa; com a mesma frequência de reforços 3 que vigorava para os 
esquemas de intervalo, mas apresentados independentemente do comportamento, as 
taxas de respostas foram muito reduzidas e passaram a ocorrer com muita variabilidade. 
Por que a diferença, se os esquemas tinham os mesmos parâmetros? Esta questão ainda 
está aberta à análise experimental, mas o dado tem sido suficientemente replicado, seja 
com humanos (Redd & Brinbauer, 1969), seja com infra-humanos (Lattal & Maxey, 1971; 
Catania & Keller, 1981), para ser considerado como um fenômeno legitimo: contingências 
que envolvem contigüidade são mais efetivas que contingências que envolvem atrasos; e 
contigüidade em relações de contingência é mais efetiva que contigüidade em relações 
acidentais entre comportamento e ambiente. 


3 Emprega-se o termo retorço por conveniência de expressão, para indicar que se refere à mesma variável 
dos esquemas de intervalo variável - a apresentação de alimento para um pombo com privação do alimento, 
mas neste caso este é um evento independente e não atende aos requisitos para uma definição técnica de 
reforço. 


90 brisy das C/raças dc Souza 




A análise de contingências requer a consideração das probabilidades condicio¬ 
nais que relacionam um evento a outro, sejam respostas a estímulos, ou estímulos a 
estímulos (Catania, 1975; 1993). No caso do operante, a relação contingente que existe 
quando as respostas produzem reforçadores ó definida por duas probabilidades condicio¬ 
nais: a probabilidade de um reforçador quando a resposta ocorre e sua probabilidade 
quando a resposta não ocorre. 

Em um esquema de reforço contínuo, em que uma conseqüência ó apresentada 
se e somente se uma resposta ocorrer, a probabilidade do estímulo, dada a ocorrência da 
resposta, ó 1,0; na ausência da resposta, porém, a probabilidade de a conseqüência 
ocorrer é zero. Dito de outra forma, a resposta aumenta a probabilidade de ocorrência da 
conseqüência de zero para 1,0. O inverso ocorre nos esquemas de esquiva, em que a 
ocorrência da resposta reduz a probabilidade do estímulo de 1,0 para zero (se a resposta 
ocorrer, o estímulo não ocorrerá). Já nos esquemas de tempo variável, as probabilidades 
condicionais são iguais, quer na presença quer na ausência da resposta: o estímulo 
considerado reforçador ocorre independentemente da resposta e ela não afeta a probabili¬ 
dade desse evento. A extinção é outro caso em que a ocorrência da resposta não afeta a 
probabilidade do estímulo, que é zero, quer na sua presença quer na sua ausência. Estes 
são casos extremos, em que é fácil identificar as probabilidades condicionais, mas a 
mesma análise pode ser aplicada a casos muito mais complexos, que envolvem mudan¬ 
ças nas probabilidades condicionais ao longo de um contínuo. É o que ocorre nos esque¬ 
mas intermitentes, em que apenas algumas respostas produzem os estímulos (as proba¬ 
bilidades condicionais variam de acordo com especificações de requisitos de respostas 
ou de tempo, nos esquemas de razão e de intervalo, respectivamente). 

"Quando são expressas dessa forma (como probabilidades condicionais), as 
contingências resposta-estímulo reforçador especificam as condições de uma 
maneira muito mais completa do que meras descrições em termos de pareamentos 
ou de contigüidades temporais. Elas permitem distinguir casos em que resposta e 
estímulo sempre ocorrem juntos, daqueles em que eles são freqüentemente empa¬ 
relhados, mas em que o chamado reforço também ocorre independentemente da 
resposta (e isto ô diferente de dizer que a resposta nem sempre ô seguida por 
reforço). Se não especificamos as duas probabilidades, relações contingentes 
resposta-reforço não podem ser distinguidas de contigüidades temporais incidentais 
que podem resultar quando respostas e reforçadores ocorrem independentemente 
ao longo do tempo." (Catania, 1993, p.369) 

Sumariando o que foi considerado até agora, podemos dizer que o termo contin¬ 
gência de reforço ó corretamente empregado se for possível identificar os componentes de 
uma relação se, então... entre eventos envolvidos em interações organismo-ambiente; e 
se for possível especificar as probabilidades condicionais de ocorrência de um evento na 
presença e na ausência do outro. 

Skinner afirmou, em 1969, que o desenvolvimento dos equipamentos para o arran¬ 
jo experimental de contingências era um bom testemunho da complexidade crescente 
das contingências que vinham sendo submetidas à análise experimental. Essa perspec¬ 
tiva foi reiterada em 1974: 


Sobre comportamento e cognição 91 



“A complexidade do ambiente experimental cresceu gradualmente até aproxi¬ 
mar-se agora da complexidade da vida diária - na qual, por conseguinte, as 
extrapolações do laboratório tornam-se cada vez mais úteis". (Skinner, 1974, p.210) 

A complexidade dos ambientes experimentais e das relações submetidas a aná- 
lise tem gerado dados igualmente complexos, cuja compreensão e sistematização reque¬ 
rem um sólido suporte conceituai (Catania, 1983; Harzem & Miles, 1978; Sidman, 1986). 

A relação resposta-reforçador, que define um operante, envolve dois termos ou as 
chamadas contingências de dois termos, como mostra o Quadro 1 (Sidman, 1886). Esta 
relação resposta-reforço, modulada por uma série de parâmetros (como o esquema de 
reforço, o atraso, a privação, etc.), determinará a probabilidade futura desse operante. No 
entanto, se essa fosse a única fonte de determinação, o comportamento seria caótico; 
porque qualquer operante fortalecido tenderia a ocorrer o tempo todo, sob qualquer cir¬ 
cunstância. A relação resposta-reforço pode ser correlacionada com estímulos ambientais 
discriminativos (não nos comportamos o tempo todo da mesma maneira em qualquer 
situação), quando então temos uma contingência tríplice, que descreve melhor a riqueza 
das interações organismo-ambiente. 

"Uma conexão entre um operante e um estimulo reforçador pode ser 
estabelecida independentemente de qualquer estimulação específica atuando an¬ 
tes da resposta. Em uma determinada ocasião de reforçamento, forças estimuladoras 
certamente estarão em ação, mas com atenção constante é possível reforçar uma 
resposta (digamos, um movimento da perna) sob muitos conjuntos diferentes de 
forças estimuladoras e independente de qualquer conjunto particular. Na natureza, 
no entanto, a contingência de reforço sobre uma resposta não é mágica; o operante 
deve operar sobre a natureza para produzir seu reforço. Embora a resposta seja 
livre para ocorrerem um grande número de situações estimuladoras, ela será efetiva 
para produzir o reforço apenas em uma pequena parte delas. Num mundo em que 
o organismo é um ser destacado e em movimento, as necessidades mecânicas do 
reforçamento requerem, além da correlação da resposta e do reforço, estas outras 
correlações com a estimulação precedente. ... Três termos devem então ser 
considerados: um estímulo discriminativo prévio (Sd), a resposta (R°) e o estímulo 
reforçador (S1). A relação entre eles pode ser descrita como; somente na presença 
do Sd a R°é seguida por S1" (Skinner, 1938, p. 178). 

A mesma formulação se repete em 1953 e 1969; 


"Uma formulação adequada das interações entre um organismo e o seu meio 
ambiente deve especificar três coisas: (1) a ocasião na qual a resposta ocorre: (2) 
a própria resposta; e (3) as consequências relorçadoras. As relações entre elas 
constituem as contingências de reforço.... As inter-relações são muito mais com¬ 
plexas do que as que ocorrem entre um estímulo e uma resposta \ e são muito 
mais produtivas tanto nas análises teóricas, quanto nas experimentais." (Skinner, 
1969, pp. 7-8) 


* Referência ao comportamento respondente... 


92 Dcisy diit C/r.içjt de Sou/d 




Nesse ponto, é importante distinguir as contingências enquanto descrições de 
relações já estabelecidas (por exemplo, as envolvidas em um operante discriminado em 
estado estável, cujos componentes podem ser identificados, como quando se faz uma 
análise de um comportamento ocorrendo em situação natural), das contingências operan¬ 
do para o estabelecimento das relações, durante a aquisição e a manutenção do compor¬ 
tamento (proposições empíricas associadas às contingências, segundo Wemgarten e 
Mechner. 1966 e Todorov, 1989). 

Para descrever relações já estabelecidas, o uso da contingência tríplice como 
instrumento de análise nos levaria a uma doscriçáo do seguinte tipo: 

"A resposta produz o reforço somente quando o Sd está presente; se a resposta 
não ocorre, ou se ocorre na ausência do estímulo, o reforço não ocorre". 

Como esta relação se estabelece como um comportamento de um organismo? A 
exposição a reforço diferencial é uma condição fundamental para o estabelecimento do 
controle discriminativo: oportunidades em que o estímulo antecedente está presente são 
confrontadas com situações em que ele está ausente. O treino discriminativo, represen¬ 
tado no Quadro 1, inclui as condições minimamente necessárias para o desenvolvimento 
da discriminação, que são as oportunidades diferentes (pelo menos duas) em que a res¬ 
posta será submetida a reforçamento diferencial: uma resposta de uma classe produz o 
reforço na situação 1, mas não produz na situação 2 (nem em qualquer outra situação). 
Dados do dezenas de pesquisas mostram que, durante o desenvolvimento de uma discri¬ 
minação, o comportamento passa de um estágio inicial indiscriminado e vai se tornando 
cada vez mais “discriminado", isto é, a resposta passa a ocorrer cada vez mais na presen¬ 
ça do estímulo que condiciona a relação resposta-reforço e vai deixando de ocorrer na 
situação de estímulo não correlacionado com reforço (cf. Skinner, 1938; 1953; Keller e 
Schoenfeld, 1950; Pessotti. 1971). A conseqüência tem, assim, um papel seletivo não 
apenas sobre a resposta, mas sobre a relação antecedente-resposta. O estágio final da 
aquisição, que transforma um oporante em um operante discriminado, corresponde ao 
desempenho descrito por uma contingência do três termos. Eis como a formulação apare¬ 
ce no texto original de 1938: 

"Embora uma resposta seia livre para ocorrerem uma variedade de situações 
estimuladoras, ela será efetiva em produzir o reforço apenas em algumas delas. A 
situação favorável é geralmente sinalizada de algum modo e o organismo faz uma 
discriminação de um tipo que agora passa a predominar. Ele começa a responder 
sempre que esteja presente um estímulo que também estava presente por ocasião 
do reforço anterior, e a não responder se o estímulo não estiver presente. O estimu¬ 
lo antecedente não elicia a resposta: ele apenas estabelece a ocasião na qual a 
resposta será reforçada."(Skinner, 1938, p. 178) 

Um outro aspecto importante do processo discriminativo é a sua reversibilidade: 
invertendo-se as contingências, o comportamento também muda gradualmente (ocorre 
nova aprendizagem). Se a resposta passar a ser reforçada na presença de S2. mas não 


Sobre compoil.tmenlo e coguifilo 93 



na presença de Si, estabelece-se uma nova discriminação, tão ou mais precisa 5 que a 
anterior (Pessotti, 1971). A contingência de três termos é. assim, a unidade básica da 
cognição - aquilo que aprendemos sobre o mundo (Sidman, 1986; de Rose, 1993). 

A complexidade das relações de contingência e das classes operantes que delas 
resultam pode ser examinada do ponto de vista das relações resposta-reforço (com ante¬ 
cedentes mantidos constantes) - como no estudo dos esquemas de reforço, e do ponto 
de vista das relações antecedentes-resposta (com as conseqüências mantidas constan¬ 
tes), quando os fenômenos estudados são categorizados sob o rótulo geral de controle de 
estímulos. 


1. Relações resposta-reforço 


As relações resposta-reforço determinam muito do que em geral está incluído sob 
o tópico motivação e ajudam a entender a força do comportamento ou a predisposição do 
organismo para se comportar de determinadas maneiras, em determinadas situações 
(Catania, 1993; de Rose, 1994). Os esquemas de reforçamento, tanto os simples como 
os complexos, são instrumentos poderosos para estabelecer, alterar e/ou manter padrões 
variados e complexos de comportamento. Muito da análise experimentai de esquemas de 
reforçamento tem sido conduzida em laboratório animal (Ferster & Skinner, 1957; Zeiler, 
1977) e a investigação representa bem mais do que um mero exercício de alteração de 
contingências, como às vezes é sugerido. O conhecimento sobre os efeitos das contin¬ 
gências de reforço sobre diferentes dimensões do responder 0 foi sendo sedimentado como 
base para estudos de contingências mais complexas e tem possibilitado a síntese expe¬ 
rimental (Catania, 1981) de processos do maior interesse para a compreensão do compor¬ 
tamento humano. Entre estes encontram-se os modelos animais de autocontrole (Rachlm 
& Green, 1972), de escolha e preferência (Skinner, 1950; Herrstein. 1961), de “liberdade 
de oscolha” (Catania, 1975), de comportamento econômico (Hursh, 1980), entre outros. 

Vou destacar para análise, pola importância que podem ter, tanto para a interpre¬ 
tação como para o manejo de contingências para alterar o comportamento, as chamadas 
contingências de escolha e preferência. No célebre artigo de 1950 7 , Skinner delineou o 
que seria um análogo de laboratório para investigar o efeito de variáveis cruciais para o 
que costumamos chamar de escolha e decisão: a presença de pelo menos duas 
alternativas simultâneas, nas quais o responder pode produzir conseqüências. O que é 
que o organismo faz quando está diante de duas ou mais alternativas, nas quais pode 
produzir conseqüências relevantes? O senso comum nos leva a responder rapidamente 


5 Um índice de precisão ou acurácia da discriminação ó n freqüôncia relativa de respostas na presença do 
Sd respostas na presença de Sd dividas polo lotai de respostas. Quanto maior a frequência relativa (que se 
distribui entre zero e 1,0), maior a precisão da discriminação 

"A froqüôncia ó tomada como um dado básico, mas os osquomas também atolam o padrão rio responder, isto 
ó, sua distribuição ao longo do tempo, a duração das respostas, a topografia, o riirno. otc 
7 São as teorias <1n aprendizagem necessárias? 


94 I>olsy (l.it t/r.iç.n de Sou/.i 




que ele escolhe uma das alternativas ou decide investir em uma delas. Mesmo que assim 
fosse, quais seriam as condições responsáveis pela escolha de uma ou de outra alternativa? 
Tecnicamente, as contingências de escolha são estudadas experimentalmente por meio 
de esquemas concorrentes de reforço. Estes esquemas incluem pelo menos dois 
operantes discriminados simultaneamente disponíveis, ou seja, pelo menos duas 
contingências tríplices" atuando ao mesmo tempo, concorrentemente, como mostra o 
Quadro 2. Quer no laboratório, quer em situações naturais, os esquemas concorrentes 
incorporam propriedades significativas do comportamento de escolha: o organismo fica 
livre para distribuir suas respostas entro as alternativas ou para não responder a nenhuma 
delas. 

O uso desse sistema complexo de contingências deu origem - pelo tipo e volume 
de dados que gerou - a formulação teórica da chamada Lei do Efeito (Herrnstein, 1961; 
1970) e da Lei Generalizada da Igualação (Baum , 1974; 1979), 

Foge aos propósitos deste texto explorar os detalhes teóricos, bem como os 
difeiontes modelos que têm sido desenvolvidos para sistematizar e explicar os dados 
produzidos por um extenso programa de investigação, produtivo há quase 50 anos, cujas 
bases conceituais e metodológicas foram estabelecidas por Skinner (1950), Findley (1958) 
e Herrnstein (1961). Uma descrição sucinta, porém, pode apontaras implicações desse 
tipo de analise para a construção de uma teoria geral do comportamento e para a sua 
interpretação (Todorov. 1978; McDowelI, 1988; 1989). 

As bases empíricas da Lei do Efeito evidenciam que o comportamento é distribu¬ 
ído entre alternativas concorrentes na mesma proporção em que os reforços são distribu¬ 
ídos entre estas alternativas, o que ó descrito como o princípio da igualação. De acordo 
com este referencial, a efetividade de qualquer contingência particular (singular) resposta- 
reforço é vista como dependente do valor relativo das contingências alternativas simultane¬ 
amente disponíveis. Dito de outra maneira, a taxa de ocorrência de um comportamento 
depende não apenas da taxa de reforço contingente àquele comportamento, mas também 
da taxa adicional de reforços fornecidos globalmente pelo ambiente (ou pelo "contexto" de 
reforço), seja para outras respostas, seja independente de respostas (Herrnstein, 1970). 
Essa maneira de conceber a lei do efeito permite analisar qualquer comportamento singu¬ 
lar como um comportamento de escolha (mesmo que as fontes alternativas de reforço não 
estejam especificadas ou sejam difíceis de identificar e descrever). Uma implicação muito 
importante para a aplicação tecnológica é que o valor de um reforçador, além de ser modulado 
por variáveis como privação e saciação, também é um valor relativo, dependendo sempre de 
quais são os outros reforçadores simultaneamente disponíveis. As análises quantitativas 
entre distribuição de respostas e distribuição de reforços refinam enormemente a noção de 
que o comportamento é função de suas consequências: a equação da lei generalizada da 
igualação incorpora parâmetros que permitem descrever como a regulação de um 
comportamento específico envolve mais do que apenas o reforço que é contingente a ele - 
ou seja, considera que os efeitos desse reforço também dependem do contexto total de 
reforços supridos por fontes alternativas, Assim, uma taxa particular de reforço contingente 
pode produzir tanto uma baixa taxa de respostas como uma taxa alta, dependendo de 
quanto reforço adicional o ambiente fornece ao organismo (McDowelI, 1988, p. 101). 


H O numoro do componentes de um esquema concorrente pode ser multo maior, mas dois representa o 
modelo mais simples para a análise exporimontal 


Sobre comport.imenlo r cortitiç.lo 95 




Os resultados de uma intervenção em que as consequências de um comporta¬ 
mento sâo manipuladas podem ser muito diferentes e até opostos ao que seria esperado, 
se aquela contingência particular operasse sozinha - o que deve ser raramente o caso em 
situações naturais. Nesse sentido, um analista do comportamento tem que estar ciente 
de que urna análise funcional requeria identificação não só das consequências de um 
comportamento de interesse, mas também de outras fontes de retorço que possam estar 
em vigor, concorrentemente, com aquelas que ele focaliza para análise e intervenção. 

Embora sejam poucos os estudos de contingências concorrentes em situações 
naturais, há indicadores da validade da formulação geral da igualação com humanos, 
tanto em laboratório como em ambientes naturais (Conger e Killeon. 1974; McDowelI, 
1981,1988,1989; Mace. 1994). 

McDowelI (1988) demonstrou como dados de observação do comportamentos 
auto-lesivos de um garoto de 10 anos se conformaram claramente à função teórica que 
provê a forma da distribuição de respostas e reforços. Os dados foram obtidos em ses¬ 
sões óe observação realizadas na sala de estar da casa do garoto, enquanto ele e os pais 
assistiam televisão, durante uma fase de linha de base, à qual se seguiu um programa de 
intervenção. Quando as taxas de comportamentos auto-lesivos durante a linha de base 
foram distribuídas em gráfico, como função da taxa de reprimendas ou de repreensões 
apresentadas pelos pais, observou-se uma estreita correspondência entre as duas variᬠ
veis, isto é, quanto maior a taxa de reprimendas, maior a taxa de comportamentos auto- 
lesivos. O interessante é que esta análise da distribuição de respostas e de reprimendas 
só foi feita depois da intervenção. A análise da linha de base sugeriu que as reprimendas 
podiam estar funcionando como reforço. Um delineamento ABA, com suspensão das 
reprimendas na fase B, demonstrou que elas estavam de fato reforçando os comporta¬ 
mentos auto-lesivos. Diante disso, decidiu-se verificar se havia alguma relação quantitati¬ 
va entre esta variável de reforço e a distribuição de respostas e, de fato, quanto maior a 
taxa de reprimendas, maior a taxa de respostas. Esses dados são particularmente inte¬ 
ressantes porque ambos os eventos, as respostas e as consequências, estavam ocorren¬ 
do naturalmente, sem nenhum controle experimental, em um ambiente onde outros even¬ 
tos que poderiam afetar o comportamento tinham amplas oportunidades de ocorrer 
(McDowelI, 1988, p. 103). 

Essa interpretação dos efeitos de fontes desconhecidas de reforço permite a 
reanálise de uma variedade de dados relatados na literatura, ospecialmente em situações 
de aplicação, que foram considerados como efeitos estranhos ou como efeitos colaterais 
inexplicáveis de procedimentos de reforço ou de extinção. Tais efeitos podem bem ser 
resultados de mudanças no contexto total de reforço no ambiente. Com base nesse tipo 
de análise, McDowelI (1988) propôs quatro estratégias de intervenção que não lidam 
diretamente com o comportamento-alvo, mas que podem mudar sua probabilidade de 
ocorrência pela simples alteração no contexto total de reforço: 

Para reduzir a probabilidade de uma resposta: 

1) Aumentar a taxa de reforços para uma resposta alternativa, disponível concorrentemonte 
(o que é diferente de DRO, em que há suspensão da conseqüência para o comportamento 
alvo). Nesta alternativa, o reforço pode até continuar ocorrendo para a resposta-alvo - e 


9Ó iVisy il.is C/mv.is ilo Sou/, 



isto é especialmente importante quando as conseqüências de um comportamento não 
estão acessíveis à intervenção; o que se garante é o aumento no total de reforços no 
contexto e, com isto, uma redução do valor relativo da conseqüência específica do 
comportamento alvo. 

2) Aumentar a taxa de reforços não contingentes. 

Para aumentar a probabilidade de uma resposta: 

1) Reduzir a taxa de reforços para uma resposta concorrente (sem aumentar o reforço 
para o comportamento-alvo). 

2) Reduzir a taxa de reforços livres ou não contingentes. 


É possível que, na maioria das situações naturais, variáveis como essas interajam 
na determinação das escolhas que as pessoas fazem, tanto em situações de operante 
livre, quanto em situações que envolvem escolha em tentativas discretas. Considerando 
que muitas intervenções são concebidas como o manejo de condições para encorajar a 
escolha de alternativas adaptativas, e, simultaneamente desencorajar a escolha de alter¬ 
nativas menos adaptativas, o conhecimento básico sobre como essas variáveis influenci¬ 
am a escolha pode permitir o planejamento de intervenções mais efetivas. 

Este é apenas um exemplo de como o conhecimento resultante da análise de 
contingências pode e precisa ser incorporado à prática, iavorecendo discriminações rele¬ 
vantes por parte do analista e do planejador de contingências. 

Os desenvolvimentos descritos demonstram como passamos, na análise das 
contingências tríplices, que dão conta do comportamento discriminado, de um nível nomi¬ 
nal de medida, em que apenas se aponta os elementos da contingência - o antecedente, 
a resposta e a conseqüência, para um nível muito mais exigente, de quantificação precisa 
das relações resposta-reforço. O instrumental metodológico está desenvolvido e coloça à 
disposição do analista do comportamento possibilidades muito amplas e sólidas para um 
efetivo trabalho de análise e intervenção. 


2. Relações antecedente-resposta (conseqüente) 


A análise da relação entre os antecedentes e as contingências de dois termos 
que eles selecionam (controle de estímulos) também tem se desenvolvido aceleradamen¬ 
te, gerando novos dados que sustentam evolução e revisão conceituai na área (Matos, 
1981; Sidman, 1971; 1986) 8 . 


“ Revisões detalhadas sobre os desenvolvimentos nessa área podem ser encontradas em de Rose (1993) 
e em Lopes e Matos (1995) 


Sobrf comporliimenfo c coflnlç.1o 97 




Uma dessas revisões consistiu na proposição da expansão das unidades de anᬠ
lise de contingências de reforço (Sidman, 1986), de três para quatro e cinco termos. Por 
quê? Pela dificuldade de se analisar, com a contingência de três termos, uma série de 
relações organismo-ambiente. Quando se tem uma discriminação condicional, por exem¬ 
plo, como tratar os dois estímulos "antecedentes"? Como um composto? Segundo Sidman, 
os estímulos têm funções diferentes: enquanto o Sd seleciona um operante, o estímulo 
condicional seleciona um operante discriminado (não a resposta diretamente, nem a rela¬ 
ção resposta-reforço, mas a relação antecedente-resposta-conseqüência). Em uma dis¬ 
criminação condicional, o antecedente em uma contingência tríplice só funciona como 
discriminativo, dependendo (condicionalmente a) da presença de um outro estímulo: "se 
o estímulo X e se o estímulo Y, então a resposta R produzirá a consequência C"; se X não 
estiver presente, mesmo que Y esteja, a resposta não produzirá a conseqüência. Nesse 
caso, a função discriminativa de Y depende da presença de X. Alterando-se o estímulo 
condicional, altera-se a função do estímulo da contingência tríplice. Assim, a própria con¬ 
tingência de três termos também pode estar sujeita a controle de estímulos: o controle 
condicional (Cumming & Berryman, 1965; Sidman, 1986). Por isso, a expansão da unida¬ 
de de análise de três para quatro termos, seria necessária para dar conta "da seleção que 
o ambiente faz de nossos repertórios discriminados" (Sidman, 1986, p. 225). Enquanto na 
contingência de três termos o estímulo discriminativo seleciona um operante, na contin¬ 
gência de quatro termos um estímulo condicional seleciona uma discriminação (um operante 
discriminado), entre outras discriminações estabelecidas no repertório do organismo (Lopes 
e Matos, 1995). 

“Aqui a relação estímulo-resposta abre oportunidade para uma relação estímu¬ 
lo-estímulo: os estímulos condicionais não controlam as respostas diretamente, 
mas determinam o controle que outros estímulos exercem sobre a resposta". 
(Sidman, 1986, p. 225) 

Um aspecto fundamental dessas diferentes relações de contingência e da ampli¬ 
ação nas unidades de análise reside não no fato de elas serem unidades comportamentais 
maiores ou menores, mas nos processos comportamentais que se desenvolvem quando 
elas operam. Assim, contingências de três termos tornam possível o reforço condiciona¬ 
do e o reforço generalizado, o que amplia enormemente as fontes de reforçamento para o 
comportamento. Do mesmo modo, o acréscimo de um novo termo à contingência de três 
termos gera um novo processo, a formação de relações de equivalência (Sidman, 1971; 
1986, p. 226; de Rose, 1993). Apesar do aumento crescente nas evidências de que rela¬ 
ções de equivalência podem emergir de contingências de três termos (de Rose e colab., 
1988; Sidman, 1994), parece inconteste que contingências de quatro termos favoreçam 
tal emergência. 

Quando classes de equivalência se formam, várias relações condicionais, que 
não foram diretamente ensinadas, emergem; assim, classes de equivalência podem ser 
concebidas como uma rede de relações, originadas com diferentes histórias de exposição 
ao ambiente. De acordo com Sidman e colaboradores (e.g., Sidman, 1986; 1994; Sidman 
& Tailby, 1982), uma relação entre estímulos é uma relação de equivalência se apresentar 
as propriedades de reflexividade, simetria e transitividade. As relações entre estímulos 
estudadas em investigações sobre equivalência geralmente são relações condicionais 
entre um conjunto de estímulos modelo (representados por uma letra maiuscula, como A) 


98 Dfisy d.u C/MÇds de Soum 



e um conjunto de estímulos de comparação (também representados por uma letra mai¬ 
uscula, como B). Assim, o estabelecimento de uma relação condicional AB implica que 
cada modelo no conjunto de estímulos A (Al, A2, An) controla a seleção de um estímulo 
de comparação correspondente do conjunto B (BI, B2 ou Bn, respectivamente) quando 
nprosontado simultaneamente aos demais do mesmo conjunto, como um dos estímulos 
de escolha. Uma relação condicional AB possui a propriedade de simetria se, na ausôncia 
de ensino direto, o indivíduo apresenta a relação condicional BA, isto é, se na presença de 
cada estímulo do conjunto B, previamente apresentado como estímulo de comparação e 
agora apresentado como modelo, ele seleciona o estímulo correspondente do conjunto A, 
apresontado como estímulo de comparação, entre outros do mesmo conjunto A. Para 
demonstrar transitividade da relação condicional, é necessário ensinar uma nova relação 
condicional, BC. Depois de ensinadas as relações condicionais AB e BC, a transitividade 
é demonstrada se o indivíduo apresenta, sem treino adicional, a relação condicional AC. A 
propriedade de reflexividade ó demonstrada se, para cada membro dos conjuntos de estí¬ 
mulo A, B e C apresentados como modelo, o sujeito for capaz de selecionar, sem treino 
específico, um estímulo idêntico, apresentado, entre outros, como um estímulo de com¬ 
paração. A demonstração destas três propriedades documenta a formação de n classes 
de estímulos equivalentes, cada uma formada por An, Bn e Cn (onde An, Bn e Cn repre¬ 
sentam estímulos individuais nos conjuntos A, B e C). A relação entre estímulos em cada 
classe é considerada como uma relação de equivalência (de Rose, 1993). 

A demonstração da emergência de comportamentos não explicitamente ensina¬ 
dos amplia enormemente as possibilidades de análise e de compreensão da origem de 
comportamentos novos, para muito além dos processos de generalização e indução, des¬ 
fazendo o mito de que a análise do comportamento não tem o que dizer sobre a ocorrência 
de comportamentos que nunca foram diretamente reforçados. Quando os estímulos for¬ 
mam uma classe de equivalência, eles se tornam substituíveis uns pelos outros, em 
contextos particulares (Bush, Sidman & de Rose, 1989; de Rose, 1993; de Rose e col., 
1988; Mcllvane, 1990; Spradlin, Cotter, & Baxter, 1973). Portanto, se um comportamento 
está sob controle de um dos estímulos da classe de equivalência, qualquer um dos outros 
estímulos pode exercer o mesmo tipo de controle sobre o comportamento, sem uma 
história prévia de reforçamento 10 

Estudos sobre equivalência de estímulos têm atraído um interesse considerável, 
por suas importantes implicações teóricas, para uma análise comportamental de diver¬ 
sos fenômenos, especialmente os linguísticos, e também por suas implicações para a 
aplicação a situações clínicas e educacionais (de Rose, 1993; Mace, 1994). Esses estudos 
têm fornecido critérios para avaliar significado e compreensão e demonstrado que o ensi¬ 
no de alguns desempenhos resulta em outros desempenhos emergentes. Isto pode levar 
a uma maior eficiência e economia no ensino de repertórios complexos como, por exem¬ 
plo, os de leitura e escrita (de Rose e colab., 1989; 1992; Matos & D'Oliveira, 1992). 

Uma outra implicação destes estudos éade que as classes, uma vez formadas, 
tendem a ser muito estáveis (tanto permanecem por longo tempo, quanto há uma certa 


10 A idontificaçáo de quais sâo os estímulos na classe ó sempre uma questão Importante. O lato de verbalizarmos 
com treqüôncia que tratamos nâo com elementos individuais, mas com classes - de antecedentes, de respos¬ 
tas, de reforços, ainda nâo tem encontrado suficiente correspondência na análise e na aplicação 


Sobre comportamento e co(jnlç<lo 99 


resistência à mudança). Se novas relações condicionais sâo estabelecidas entre os mem¬ 
bros das relações iniciais, seria de se esperar que novas classes fossem estabelecidas, 
mas os dados mostram que as classes originalmente formadas tendem a prevalecer so¬ 
bre o treino incompatível fornecido posteriormente (de Rose, 1993, p.296; mas ver Pilgrim 
e Galizio, 1995). Se, por um lado, como afirma de Rose (1993), a "formação de redes de 
relações entre estímulos que sejam ao mesmo tempo complexas e estáveis parece ser 
um dos fatores que possibilitam a extraordinária riqueza do pensamento humano", por 
outro lado, esta pode ser a fonte de vários problemas clínicos importantes como fobias, 
pânico e dependência de drogas. Como não há mecanismos seletivos sobre o que ó ou 
não é adaptativo, os comportamentos que caracterizam tais tipos de problemas podem 
estar sob controle de redes de relações envolvendo estímulos de vários tipos, tanto 
interoceptivos como exteroceptivos, relacionados por equivalência. Nestes casos, 

Pode-se prever que procedimentos terapêuticos só terào resultados duradou¬ 
ros se destruírem totalmente a rede de relações que constituem o problema... Se 
um número suficiente de relações permanecerem intactas, as relações isoladas 
suprimidas através de procedimentos terapêuticos podem emergir novamente. Isto 
pode acontecer, por exemplo, quando o cliente retorna ao ambiente no qual o pro¬ 
blema costumava se manifestar. Caso as relações envolvendo estímulos presen¬ 
tes neste ambiente nào tenham sido afetadas pela terapia, elas podem ser sufici¬ 
entes para restabelecer totalmente a rede original, resultando em reincidência do 
problema, (de Rose, 1993, pp.297-298) 

A proposta de Sidman de expansão da unidade de análise incluiu ainda a contin¬ 
gência de cinco termos para permitir a análise do papel do contexto na seleção de 
discriminações condicionais (Sidman, 1986; Bush, Sidman & de Rose, 1989; Lopes & 
Matos, 1995). 

Do mesmo modo que o acréscimo de um novo termo à contingência de três 
termos gera a emergência de relações de equivalência, o que "possibilitou à Análise do 
Comportamento investigar o estabelecimento de correspondências semânticas... sem a 
necessidade de se postular uma história de reforçamento direto para cada relação" (Lopes 
& Matos, 1995), a contingência de cinco termos, como unidade básica de análise do 
controle contextuai ou controle condicional de segunda ordem, seleciona correspondênci¬ 
as semânticas, evitando a fusão entre membros de classes diferentes (Sidman, 1996). 
Segundo Sidman, uma formulação do comportamento que não leve em conta o controle 
contextuai estará deixando de considerar um aspecto fundamental do comportamento 
complexo. 

Como proposto no início deste texto, ele focalizou a evolução do conceito de 
contingência através das próprias contingências estudadas - ou seja, a evolução no uso 
do instrumento conceituai para fazer a análise e a análise experimental do comportamen¬ 
to. O corpo de conhecimentos que tem sido gerado e está disponível tem sido uma boa 
base para novas análises e, sobretudo, para sínteses comportamentais (Catania, 1983; 
1993) - para a produção de comportamentos novos e significativos na escola, na clínica, 
na sociedade... 


100 Dfisy d dl Qrdfds dc Sou/d 



A necessidade de interação entre os programas de pesquisa básica e a agenda 
para a solução de problemas humanos pela análise aplicada do comportamento (Mace, 
1994), porém, é uma questão permanentemente em aberto: 

"O trabalho do psicólogo clínico será grandemente facilitado pelo domínio da 
linguagem teórica, que necessariamente usará na análise do problema que lho e 
trazido. Nesse sentido, os resultados de pesquisa serão úteis não por sua aplica¬ 
ção direta a casos particulares; ajudam na medida em que aperfeiçoam o sistema 
teórico no qual o psicólogo busca o apoio indispensável para as análises que orien¬ 
tarão seu trabalho. Se uma contingência tríplice ó inferida como explicação de um 
comportamento relatado pelo cliente, o sistema teórico está sendo usado para a 
compreensão do problema. Inferências, entretanto, podem ser injustificadas, e nem 
sempre por falha do sistema teórico. O que caracteriza o trabaího do clínico é o 
teste contínuo de suas inferências a partir de novas informações que colhe. Este 
trabalho autocorretivo será facilitado tanto pelo domínio da linguagem teórica quan¬ 
to pela habilidade do profissional na coleta de novas informações pertinentes. Assim, 
os trabalhos de pesquisa básica, voltados primariamente para o desenvolvimento 
teórico, serão tão úteis quanto os estudos de casos clínicos." (Todorov, 1985, p. 76) 


Operante 

Operante discriminado 

R-> C 

S, => (R, => C,) 

R,-> c, 

Treino discriminativo 

Rj -/-> c, 

S, => (R, ==> C,) 

R, -/-> C 2 

S 2 => (R, =/*> C,) 

Rj - > c, 

s n => (R, =/=> c,) 


Quadro 1 Contingências de dois e de três termos A contingência de três termos ó a unidade 
básica de controle de estímulos; o estímulo antecedente nâo olicla a resposta: ele ativa a 
contíngôncia do dois termos (Sklnner, 1938; Sidman. 1986). O treino discriminativo requer reforço 
diferencial da rosposta em função da condição de estímulo (reforço na presença e extinção na 
ausência do estímulo discriminativo) 


Esquemas concorrentes (escolha) 

S, ==> (R, ==> C,) 

S 2 ==> (R 2 ==> C 2 ) 

Quadro 2 Contingências simultâneas de reforço: dois operantes discriminados podem ocorrer 
simultânea e indopendentemente. Por mais simples que pareça, a situação envolve no mínimo 
quatro operantes: os dois mantidos diretamente pelas contingências de reforço e o alternar do 
operante 1 para o 2 e vice-versa (Todorov, 1978; Souza, 1981); a consequência da alternação 
ó o acesso à outra alternativa de reforço. 


Sobrr comportamento r coflnlçdo 101 







Bibliografia 


BAUM, W.M. (1974). On two types of deviation from the matching law: Bias and 
undermatching. Journal of the Experimental Analysis ofBehavior, 22, 231 -242. 

_(1979). Matching, overmatchíng and undermatching in studies of choice. Journal of 

the Experimental Analysis ofBehavior, 32, 269-281. 

(1994). Understanding behaviorism: Science, behavior and culture. New York: 
HarperCoIlins Publishers. 

BUSH, K.M., SIDMAN, M., DE ROSE, T. (1989). Contextuai controlofemergentequivalence 
relations. Journal of the Experimental Analysis ofBehavior, 51, 29-45. 

.CATANIA, A. C. (1973). Theconceptof the operantin the analysis of behavior. Behaviorism, 1, 
103-116. 

_(1975). Freedom and knowledge: An experimental analysis of preference in pigeons. 

Journal of the Experimental Analysis ofBehavior, 24, 89-106. 

_(1983). Behavior analysis and behavior synthesis in the extrapolation from 

animal to human behavior. Em G. Davey (Org.) Animal models of human 
behavior. Chichester: Wiley. 

_(1993). Learning. Englewood Cliffs, NJ.: Prentíce-Hall (3 a . edição). 

CATANIA, A.C, & KELLER, K.J. (1981). Contingency, contiguity, correlation, and the 
concept of causation. In: P. Harzem, & M.D.Zeiler, (Orgs ), Predictability, correlation, 
and contiguity. New York: Wiley. 

CONGER, R., & KILLEEN, P. (1974). Use ofconcurrent operants in small group research: 
A demonstration. Pacific Sociological fíeview, 17, 399-416. 

CUMMING, W.W., & BERRYMAN, R. Some data on matching behavior in the pigeon. 
Journal of the Experimental Analysis ofBehavior, 4, 281-284. 

DE ROSE, J. C. C. (1993). Classes de estímulos: implicações para uma análise compor- 
tamental da cognição. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 9, 283-303. 

DE ROSE, J. C., DE SOUZA, D. G., ROSSITO, A. L, & DE ROSE, T. M. S. (1989). 
Aquisição de leitura após história de fracasso escolar; Equivalência de estímulos 
e generalização. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 5, 325-346. 

_(1992)Stimulus equivalence and generalization in reading after matching-to- 

sample by exclusion. In S. C. Hayes, & L. J. Hayes (Eds.), Understanding verbal 
relations (pp. 69-82), Reno, NV: Context Press. 

DONAHOE, J. W., & PALMER, D. C. (1994). Learning andcomplexbehavior. Boston: 
Allyn & Bacon. 

FERSTER, C. B., & SKINNER, B. F. (1957). Schedules of reinforcement. New York: 
Appleton-Century-Crofts. 


102 Prisy d.is Qr.iç.u de Soum 



HERRSNTEIN, R. J. (1961). Relative and absolute response strength of response as a 
function of frequency of reinforcement. Journal of the Experimental Analysis of 
Behavior, 4, 267-272. 

_(1966). Superstition: a corollary of the principies of operant conditioning. Em W. K. 

Honig (Org.) Operant behavior; Areas of research and application. New York: 
Appleton-Century-Crofts. 

(1970). On the law of effect. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 13, 
243-266. 

HURSH, S. R. (1980). Economic concepts for the analysis of behavior. Journal of the 
Experimental Analysis of Behavior, 34, 219-238. 

GATCH, M. B., & OSBORNE, J. G. (1989). Transfer of contextuai stimulus function via 
equivalence class development. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 
51, 369-378. 

KELLER. F. S., & SCHOENFELD, W. N. (1950). Principies of Psychology: A systematic 
text in the Science of behavior. New York: Appleton- Century-Crofts. 

KÕHLENBERG, B. S„ HAYES, S. C., & HAYES, L. J. (1991). The transfer of contextuai 
control over equivalence classes through equivalence classes: A possible model of 
social stereotyping. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 56, 
505-518. 

LATTAL, K. A., & MAXEY, G.C.(1971). Some effects of response-independent reinforcers 
in multiple schedules. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 16, 225-231. 

LOPES Jr., J... & MATOS, M. A. (1995). Controle pelo estímulo: aspectos conceituais e 
metodológicos acerca do controle contextuai. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 11, 
33-39. 

LYNCH , D. C,, & GREEN, G. (1991). Development and crossmodal transfer of contextuai 
control of emergent stimulus relations. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 
56,139-154. 

MACE, F. C. (1994). Basic research needed for stimulating the development of behavíoral 
technologies. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 61, 529-550. 

MATOS, M. A. (1981). O controle de estímulo sobre o comportamento. Psicologia, 7(2), 1 -15. 

MATOS, M. A., & D’OUVEIRA, M. M. H. (1992). Equivalence relations and reading. In S. 
C. Hayes, & L. J. Hayes (Eds.), Understanding verbal relations (pp. 83-94). Reno, 
NV: Context Press. 

MCDOWELL , J.J. (1981). On the validity and utility of Herrnstein’s hyperbola in applied 
behavior analysis. In: C. M.Bradshaw, E. Szabadi, & C. F. Lowe. Quantification 
of steady-state operantbehaviour (pp.311-324). Amsterdam: Elsevier/North-Holland. 

_(1982). The importance of Herrnstein’s mathematical statement of the law of effect 

for behavior therapy. American Psychologist, 37, 771-779. 


Sobre comportamento e cognição 103 



_(1988). Matching theory in natural human environments. The BehaviorAnalyst, 11, 

095-109. 

_(1989). Two modem developments in matching theory. The Behavior Analyst, 12, 

153-166. 

PESSOTTI, I. (1971). Come apprendono le api. Le Scienze (edição italiana de Scientific 
American), 33, 11-21 

PILGRIM, C.. & GALIZIO, M. (1995). Reversalof baselinerelationsandstimulusequivalence: 
I. Adults. Journalofthe Experimental Analysis of Behavior, 63, 225-238. 

RACHLIN, H., & GREEN, L. (1972). Commitment, choice and self-control. Journal of the 
Experimental Analysis of Behavior, 17, 15-22. 

REDD, W. H., & BIRNBRAUER, J. S. (1969). Adults as discriminativo stimuli for different 
reinforcement contingencies with retarded children. Journal of Experimental Child 
Psychology 7, 440-447. 

RESCORLA, R.A. (1967). Pavlovian conditioning and its proper control procedures. 
Psychological Review, 74, 71-80. 

SIDMAN, M. (1986). Functional analysis of emergent verbal classes. Em T. Thompson & 
M. D. Zeiler (Orgs.), Analysis andintegration of behavioral units. (Pp.213- 245). 
Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum. 

SIDMAN, M. (1994). Equivalence relations and behavior: A research history. Boston: 
Authors Cooperativo. 

SIZEMORE, O. J., & LATTAL, A. (1977). Dependency, temporal contiguity, and response 
independent reinforcement. Journal ofthe Experimental Analysis of Behavior, 27, 119-125. 

SKINNER, B. F, (1938). The behavior of organisms: An experimental analysis. Copley 
Publishíng Group (1991). 

_(1953). Science and Human Behavior. New York: Macmillan. 

_ (1969). Contingencies of reinforcement: A theoretical analysis. New York: Appleton- 

Century-Crofts. 

_(1974). About behaviorism. New York: Alfred A. Knopf. 

SOUZA, D. G. (1981). Intervalo mínimo entre respostas de mudança em esquemas concor¬ 
rentes de reforçamento. Tese de doutorado. São Paulo: Universidade de São Paulo. 

SPRADLIN, J.E., Cotter, V.M., & Baxley, N. (1973). Establishing aconditional discrimination 
without direct training: A study of transfer. American Journal of MentalDeficiency, 
77, 556-566. 

TODOROV, J. C. (1985). O conceito de contingência tríplice na análise do comportamento 
humano. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 1 , 75-88. 

_(1978). La sistematización de datos empíricos sin (o casi sin) el auxílio de una teoria. 

Em P.Speller (Org.). Análisis de la conducta. Trabajos de investigación in 
Latinoamérica. (Pp. 107-121). México: Trillas. 


104 Peisy d,is QraÇfif de Sou/.i 



_(1989). A Psicologia como o estudo de interações. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 

5,347-356. 

WEINGARTEN, K., & Mechner, F. (1966). The contingency as an independent variable of 
social interaction. Em T.Verhave (Org.). The experimental analysis of hehavior. 
(Pp.447-459). New York: Appleton-Century-Crofts. 

WULFERT, E., GREENWAV, D.E., & Dougher, M. J. (1994). Third-order equivalence 
classes. The Psychological fíecord, 44, 411 -439. 


Sobrp comport.imcnto e cognição 105 



Capítulo 12 


O conceito de metacontingências: afinal, a 
velha contingência de reforçamento é 

suficiente? 

Morto Anuí/úi Pie Abib Amicry c Tereso Morio dc A/evedo Pires Sério’ 

IX/C/SP 


E studando parte da literatura behaviorista radical mais recente sobre ques¬ 
tões sociais (por exemplo, Lamal, 1991 eRakos, 1991) - questões relativas a organiza¬ 
ções, sistemas penitenciários, à questão da informação, à apatia social -, encontramos 
repetidas vézes o termo metacontingências. Os autores desses textos utilizam o termo 
quando analisam seu fenômeno de interesse. 

Ao buscar os artigos indicados como referência da noção de metacontingências, 
a primeira coisa que descobrimos é que estamos atrasados perto de 10 anos. Os primei¬ 
ros artigos datam de 1985 e 1986.0 termo foi cunhado por Sigrid Glenn, em 1986, e um 
pequeno conjunto de autores parece ter relações diretas com a emergência, difusão e 
discussão dos temas relacionados à noção de metacontingências: destacam-se Vargas, 
Malagodi, B ranch, Lloyd e Glenn. 

O que vamos apresentar tem como base alguns artigos desses autores, escritos 
entre 1985 e 1990, e é resultado de um primeiro momento de estudo, mais ou menos 


1 A ordem dos autores ó moramonte alfabética 


106 Morio Amólio !\ A. Antiery t Tereso M. de A. P. Sério 




sistemático, não sendo um estudo exaustivo da literatura a respeito. 
Para tratar da noção de metacontingências, abordaremos: 

• o modelo de seleção por consequências; 

• o materialismo cultural; 

• a noção de metacontingências; 

• algumas implicações. 


1. O modelo de seleção por conseqüências 


A noção de metacontingências deve muito à noção de seleção por conseqüências 
de D. F. Skinner. É significativo que ao tratar das relações entre behaviorismo e cultura os 
autores lidos referem-se invariavelmente ao modelo de seleção por conseqüências. 

Como tem sido extensamente indicado, o modelo de seleção por conseqüências, 
como proposto por Skinner, obriga-nos a olhar para três dimensões da relação organis- 
mo-ambiente, se quisermos explicar qualquer comportamento humano: a história da es- 
pecie, a história particular do indivíduo e a história das práticas culturais. Os processos de 
variação e seleção são básicos para se compreender o desenvolvimento destas histórias 
e são comuns a todas elas. Variações aleatórias - nos genes, nas respostas dos 
organismos, nas práticas culturais - são selecionadas pelo ambiente em cada um des¬ 
ses três níveis. 

Este modo causal, se assumido, implica a necessidade de ampliarmos o escopo 
de nossas investigações em direção das interfaces entre a análise do comportamento e 
a biologia e entre a análise do comportamento e as Ciências Sociais (Antropologia, 
Sociologia, Economia, História). 

O próprio Skinner, no desenvolvimento do modelo de seleção por conseqüênci¬ 
as, afirma que não é possível simplesmente reduzir as práticas culturais ao conceito de 
contingências de reforçamento (1987), tornando necessário, assim, para os analistas do 
comportamento, dirigir sua atenção para essa interface, se quiserem discutir/abordar/ 
explicar o comportamento humano, ainda que singular e de um indivíduo particular. 

O desafio lançado pelo modelo de seleção por conseqüências parece ter impulsi¬ 
onado alguns analistas do comportamento a buscar aproximações com cientistas da área 
de Ciências Sociais. Assim, por exemplo, Glenn (1985) discute Veblen e Ayres, dois 
economistas, buscando relações com a análise do comportamento. Malagodi e Jackson 
(1989) utilizam noções de Wright Mills, um sociólogo, para discutir aspectos relacionados 
ao desenvolvimento da análise do comportamento. 


Entretanto, a relação mais explorada entre a análise do comportamento e as 
ciências sociais, na tentativa de analisar, ou de incluir na análise, a cultura, tem sido a 
relação possível com o materialismo cultural. 


Sobre comportamento e cogniçdo 107 



2 . 


Materialismo cultural 


Materialismo cultural é o nome que Marvin Harris - um antropólogo americano - 
dá a sua abordagem da antropologia cultural. Publicando desde a década de 50, Harris 
tem um grande número de livros. Vários deles têm sido citados (e alguns ató mesmo 
revistos) por analistas do comportamento. Destacam-se as referências a: Cows, Pigs, 
Wars, and Witches (1974), Cannibals and Kings (1977), Cultural Materialism (1979), 
Why Nothing Works (1981), Our Kind ( 1989). 

Analistas do comportamento, ao tratar do materialismo cultural, apresentam e 
discutem um conjunto de aspectos que caracterizariam tal abordagem. Dentre esses 
merecem destaque, em nossa opiniào, os seguintes: 

a) Materialismo - o compromisso de Harris com a suposição que comportamentos hu¬ 
manos são ‘‘moldados" por variáveis ambientais. E que pensamentos, processos men¬ 
tais, são conseqüências e não causa dessas interações. 

b) Recusa da dialética - a rejeição de Harris da dialética hegeliana que ele considera 
como a defesa da inevitabilidade de mudanças. 

c) Papel das conseqüências - a suposição de que as conseqüências ambientais deter¬ 
minam a ação individual e determinam as práticas culturais. 

d) Estruturas da cultura - a afirmação de que uma cultura envolve relações entre infra- 
estrutura - as técnicas e práticas de produção e reprodução -, estrutura - as 
práticas políticas, educacionais, de estrutura familiar etc., que sustentam a infra- 
estrutura-ea superestrutura - que envolve as artes, a literatura, a música, o lazer etc.. 

e) Determinismo infra-estrutural - o princípio básico de que a infra-estrutura determina 
as demais. 

f) Ciclos de intensificação/depleçáo - a descrição das mudanças nas práticas infra-es- 
truturais como envolvendo ciclos de depleção do ambiente e intensificação da produ 
ção, tendo em vista pressões reprodutivas e/ou mudanças ambientais. Os ciclos de 
intensificação são impulsionadores de e impulsionados por novas tecnologias. 

A retomada desses aspectos que caracterizariam o materialismo cultural, pelos 
analistas do comportamento, de um modo geral ó marcada pela tentativa de identificar 
similaridades e diferenças com relação à análise do comportamento. Ressaltam como se¬ 
melhanças: (a) a rejeição de explicações mentalistas; (b) a recusa de visões tradicionais da 
natureza humana; (c) a ênfase dada ao papel selecionador do ambiente, e (d) o compromisso 
com a mudança social, característico dos dois autores mais representativos das duas 
abordagens. Ressaltam como diferenças: (a) o tratamento dado por Harris à linguagem, 
que ele interpreta como independente da infra-estrutura e que interpreta segundo uma 
abordagem pelo menos em parte formalista e (b) a suposição de Harris de livre arbítrio do 
homem, considerado individualmente. Finalmente, vale lembrar que as unidades de análise 
em torno das quais a análise do comportamento e o materialismo cultural se erigem diferem: 
o comportamento do indivíduo, em um caso, e o comportamento do grupo social, no outro. 


108 Anuilid r. A. Andery e Tcres,i M. de A. P Séno 


3.0 conceito de metacontíngências 


Tendo destacado alguns aspectos do modelo de seleção por consequências e do 
materialismo cultural, podemos discutir a noção de metacontíngências. O caminho que 
seguimos aqui foi o mesmo utilizado por Glenn para apresentar o conceito, tanto em 1988 
quanto em 1990. 

Glenn, em 1988, define metacontíngências: 

"... metacontíngências descrevem relações funcionais no nivel cultural. Essas 
relações envolvem práticas culturais e seus produtos. As próprias práticas culturais 
sào compostas de contingências comportamentais entrelaçadas, "(p.171) 

A definição, de início, delimita o campo em que Glenn está trabalhando: trata-se 
de descrever relações culturais, trata-se de compreender o que ocorre na cultura. O que 
significa falar em relações funcionais no nível cultural? As relações descritas por contin¬ 
gências de reforçamento não fornecem já tal descrição? Glenn explicita claramente: 

"Metacontíngências ... é um termo que identifica processo - especialmente 
processo no nível de análise cultural. ... contingências no nível cultural não sào 
contingências comportamentais alargadas, no sentido de mais inclusivas ou mais 
extensas no tempo ... ; elas envolvem unidades cuja existência só pode ser 
explicada em um nivel de análise diferente do nível no qual relações 
omportamentais sào compreendidas." (p.62, 1991) 

O primeiro aspecto que destacamos da definição de metacontíngências funciona 
mais como um alerta: trata-se de discutir, de descrever, um fenômeno em um nível de 
análise distinto daquele com o qual, enquanto analistas do comportamento, estamos 
acostumados a trabalhar. 

"A metacontingência é a unidade de análise que abarca uma prática cultural, 
em todas as suas variações e o produto agregado de todas as variações existentes." 

(p. 168, 1988) 

Precisamos tentar compreender, então, a própria definição de metacontíngências. 
Isso envolve compreender o que são (a) contingências comportamentais entrelaçadas 
(interlocking) e (b) práticas culturais e seus produfos. 

"... metacontíngências descrevem relações funcionais no nível cultural. Essas 
relações envolvem práticas culturais e seus produtos. As próprias práticas culturais 
são compostas de contingências comportamentais entrelaçadas.”(p. 171, 1988, 
grifo nosso) 

Falamos em contingências comportamentais entrelaçadas quando o comporta¬ 
mento de um indivíduo tem um duplo papel: "o papel de ação e o papel de ambiente 
comportamental para a ação de outros" (p. 56,1990). Este duplo papel do comportamento 


Sobre comportamento e cogníçAo 109 



- típico do comportamento social - que à primeira vista pode parecer simples, torna pos¬ 
sível a emergência de algo completamente diferente. Não se trata de simples encadea¬ 
mento de respostas, mas do fato de que uma contingência de reforçamento se insere em 
algo que vai além dela mesma e torna-se necessariamente articulada a outras contingên¬ 
cias. Segundo Glenn: 

"Processos comporíamentais produziram ordem em outro nível: o comporta¬ 
mento de humanos individuais tornou-se integrado em unidades que transcendem 
a vida dos indivíduos. Os mesmos processos comporíamentais que levam a tantas 
unidades comporíamentais quantos são os indivíduos que se comportam tambôm 
resultam em vastas redes de inter-relações entre os repertórios de humanos 
individuais. Essas [redes] são os elementos de unidades culturais. Elas foram 
intituladas 'contingências entrelaçadas'... para chamar a atenção para o duplo 
papel que cada comportamento das pessoas desempenha nos processos sociais 
- o papel de ação e o papel de ambiente comportamental para a ação de outros." 
(p.56, 1991) 

A aparente simplicidade do comportamento social, ou das contingências 
entrelaçadas, se dilui ainda mais se reconhecermos que uma parle do ambiente se 
destaca, passa a ter papel diferenciado de outras partes do ambiente: exatamente o 
comportamento do outro. 

"A seleção natural equipou nossos ancestrais com o equipamento biológico 
que permite que eventos ambientais moldem os repertórios comporíamentais 
funcionais a partir de movimentos indiferenciados, nâo funcionais. Mas para que 
o processo ocorra de novo a cada recém-nascido, certos eventos ambientais 
criticos (alimento, gritos, talvez contato visual, a voz humana e o toque) devem 
ter funções comporíamentais poderosas. Esses são alguns dos materiais bru¬ 
tos a partir dos quais os repertórios humanos emergem. Por sua natureza, eles 
marcam o jogo (especialmente dado o longo período de desamparo nos huma¬ 
nos) de modo que muito do ambiente que adquire função comportamental é 
composto do comportamento de outros. Assim, o ecossistema comportamental de 
cada humano individual é integrado desde sua primeira inserção em um sistema 
maior, algumas vezes chamado de um 'sistema social', que é composto de 
contingências comporíamentais entrelaçadas, ou contingências sociais." (pp. 57, 

58, 1991) 

O reconhecimento de que partes do ambiente se destacam como significativas 
para o comportamento humano, por sua vez, nos leva a perguntar: como tais partes do 
ambiente passam a ter poder, como podem passar a existir? Isso exige que suponhamos 
não apenas a sensibilidade ao ambiente e às conseqüências ambientais - típico do com¬ 
portamento operante em geral - mas também uma sensibilidade a uma parte especial do 
ambiente: vale dizer, uma sensibilidade aos outros membros da espécie. (E não viriam 
daí, da percepção deste fenômeno, tão importante para a espécie humana, as muitas 
crenças sobre a “natureza" social/política do homem.) 

Duas histórias, a filogenética e a ontogenótica, constroem a sensibilidade 
ao ambiente. No caso humano, a segunda história tem uma importância maior e é 


110 M.iri.i AnuUi .1 P. A. Andery r Tem.i M. </<• A. P. Sério 



fundamental, o que não significa que todos os eventos ambientais possam adquirir, com 
igual probabilidade, função comportamental tendo em vista a interação das duas históri¬ 
as. Para se referir aos efeitos diferenciados de partes do ambiente sobre o comporta¬ 
mento, Glenn utiliza a expressão “ambiente comportamental" (1990) e sugere que é o 
cuidado extenso exigido pelo bebô humano que torna o comportamento de outros seres 
humanos um aspecto tão proeminente do ambiente. Tal cuidado: 

“envolve a aquisição de repertórios comportamentais específicos para a 
sobrevivência, contribui para as práticas sociais da comunidade e integra o 
comportamento dos jovens nessas práticas. Isso virtualmente assegura que o 
ambiente social (comportamento de outros humanos) será proeminente entre 
aqueles aspectos do ambiente que tomam parte de contingências 
comportamentais. (pp. 56, 57, 1991) 


Talvez mais importante do que discutir questões de origem das contingências 
entrelaçadas, seja discutir o que elas afinal possibilitam de tão especial para o ser huma¬ 
no. Por que elas marcam a emergência de um outro nível de análise para explicar o 
comportamento humano? São as contingências entrelaçadas, ou os comportamentos 
sociais, que permitem aos indivíduos humanos agir sobre o ambiente e serem afetados 
por ele de forma que não seriam possíveis de outro modo. São as contingências sociais 
que favorecerão o comportamento cooperativo e, mais tarde, levarão à emergência do 
comportamento verbal, no caso da história humana. As contingências entrelaçadas são 
mais do que a soma de contingências individuais por permitirem resultados que não 
seriam possíveis de serem obtidos por indivíduos isolados. É essa nova relação entre o 
comportamento - de mais de um - e resultados que não poderiam ser obtidos de outro 
modo que indica que estamos diante de um fenômeno que não se reduz à soma de 
contingências comportamentais, tomadas uma a uma. 

"A importância de contingências entrelaçadas para a emergência de um 
novo nível de ordem baseia-se no fato de que quatro mãos são melhores do que 
duas. Elas são mais do que duas vezes melhor do que dois. O comportamento 
coordenado de duas pessoas pode produzir resultados que nunca seriam com 
seguidos por uma, ou mesmo por duas agindo independentemente. Quando cada 
uma das duas pessoas ó ao mesmo tempo um falante e um ouvinte, esse com¬ 
portamento pode ser coordenado ainda mais eficientemente ." (pp. 56, 59, 1991) 


A noção de contingências entrelaçadas é ponto de partida para entendermos o 
outro conceito - de prática cultural - envolvido na noção de metacontingências. 

"... uma prática cultural ó um subconjunto de contingências entrelaçadas de 
reforçamento e uma cultura ô feita de muitos subconjuntos desse tipo. ... 

Em resumo, uma prática cultural ó um conjunto de contingências entrelaçadas 
de reforçamento, no qual o comportamento e os produtos comportamentais de 
cada participante funcionam como eventos ambientais com os quais o compor¬ 
tamento de outros indivíduos interagem."(p. 167, 1988) 


Sobre comportamento e cognlçJo 111 



Glenn (1991) destaca quatro elementos importantes na caracterização de uma 
prática cultural: 

(1) conteúdo comportamental adquirido durante a vida de cada participante; 

(2) ambientes comportamentais de um ou mais participantes que incluem (mas 
não se limitam a) o comportamento de outros membros da mesma espécie; 

(3) aquisição repetida do comportamento dentro e entre gerações. Entretanto, a 
maioria das práticas culturais tôm um elemento adicional: elas envolvem dois ou 
mais indivíduos cujas interações produzem conseqüências para cada um deles 
individualmente e cujo comportamento conjunto, além disso, produz um produto 
agregado que pode ou não ter um efeito comportamental. (...) A cola que foi 
necessária para manter tais relações entrelaçadas foi o comportamento verbal. 
(p.60, 1991) 

Esses aspectos, além de sintetizarem muito do que já foi dito. explicitam que as 
práticas culturais, sejam elas quais forem, têm uma origem ontogenética e mais do que 
envolver a interação entre indivíduos, envolvem produtos que não são aqueles que ne¬ 
cessariamente mantêm o comportamento individual de cada participante. Isso nos faz 
olhar para o comportamento de cada participante de dois pontos de vista. Primeiro, 
como provendo conseqüências para o comportamento de outro e, portanto, mantendo 
comportamentos individuais, o que nos remete às contingências de reforçamento que 
descrevem o comportamento individual: na linguagem de Glenn, contingências 
comportamentais. Em segundo lugar, como participando da elaboração de algo que é 
um produto conjunto dos comportamentos de todos os indivíduos envolvidos, o que nos 
remete a contingências culturais, ou, na linguagem de Glenn, metacontingências. Ou 
seja, o mesmo comportamento, deve ser descrito por dois níveis de análise diferentes 
que precisam ser considerados se se quiser compreender tal comportamento. 

Um exemplo utilizado por Glenn (1988) pode ilustrar melhor esta inter-relação. 
Glenn supõe a prática de produção de um grupo que tem uma cultura pró-agrícola. 
Nesse grupo, alguns tecem cestos utilizados para carregar água e outros carregam a 
água do rio para utilizar nas tarefas do dia. Se um dos fazedores de cesto começar a 
fazer cestos que não vazam nenhuma água, provavelmente obterá reforçamento materi- 
aí, na forma de sua partilha de água, e reforçamento social, que o manterão fazendo os 
cestos deste modo. Além disso, essa técnica tenderá a ser observada e imitada pelos 
outros fazedores de cestos, generalizando-se por todo o grupo. As conseqüências que 
mantêm o comportamento de cada um dos cesteiros são contingências de reforçamento 
individual. A utilização generalizada dos cestos, que não deixam vazar água, produz 
ainda a possibilidade para o grupo de armazenar água (o que até então não era possí¬ 
vel). A armazenagem de água ó o que Glenn chama de um produto cultural. É a relação 
entre a prática cultural - muitos indivíduos fazendo cestos de um certo modo e sendo 
reforçados por isto de várias maneiras - e o produto que a generalização desta prática 
permite - armazenar água - que Glenn chama de metacontingência. Se o grupo, então, 
for atingido por uma mudança ambiental, como uma seca, a variação - aleatória - que 
permitiu a emergência da prática de armazenar água, será selecionada. O produto cultu¬ 
ral, desta forma, seleciona a prática cultural e não os comportamentos dos indivíduos 
que compõem a prática, que são mantidos por contingências de reforçamento. 


112 Miiríj AnuilLi P. A. Andery e Tereu M. de A. P. Sério 



As variações no comportamento individual - uma característica que Glenn cha¬ 
ma de endógena - são selecionadas pelo ambiente quando produzem certas conseqüên- 
cias para o sujeito que se comporta. Essas variações, por sua vez, produzem também 
alterações nas práticas culturais. Práticas culturais são selecionadas, via ambiente, pelo 
seu produto. 

"O que explica a origem de tal unidade (da prática cultural), sua extensa 
sobrevivência, ou seu desaparecimento ...ou sua evolução? Variação e seleção. 
Como sempre, a variação é endógena (embora possa ser selecionada como 
uma característica) e a seleção exógena. No caso das práticas culturais, o 
agente de seleção è o produto (efeitos agregados) produzido pela prática (as 
contingências de comportamento entrelaçadas). A variação è promovida por 
permutações no comportamento de indivíduos que participam na prática." (p.63, 
1991) 

E difícil, á primeira vista, entender a distinção feita entre conseqüências que 
mantêm o comportamento individual e os produtos de práticas culturais, que sáo compos¬ 
tas, ern última instância, dos comportamentos individuais. Entretanto, esta pode ser, na 
nossa opinião, uma distinção fundamental, não apenas porque permite entrever como 
diferentes níveis de determinação interagem com as ações dos indivíduos, mas também 
porque no tipo de distinção que se estabelece pode estar um veio de análise importante 
para se compreender como evoluíram as culturas e para se entender, talvez, alguns dos 
problemas que marcam nossas práticas sociais hoje e os problemas comportamentais 
individuais que trazem tantos desafios para a análise do comportamento. 

A análise apresentada por Glenn (1988) sugere que a separaçáo entre as conse¬ 
quências que mantêm o comportamento individual e os produtos que levam à seleção das 
práticas culturais foi sendo historicamente construída: de práticas culturais que envolviam 
um pequeno número de contingências entrelaçadas, nas quais os comportamentos de 
cada indivíduo participante eram mantidos pelas mesmas conseqüências que se 
constituíam em produto da prática cultural (produto cultural e consequência comportamental 
quase que coincidiam) a práticas culturais nas quais a separaçáo entre o produto cultural 
e as consequências que mantêm o comportamento individual sáo completamente distintas. 
Entre esses dois pólos, podem ser identificados pelo menos três momentos na história 
humana; (1) a separaçao entre contingências comportamentais e produtos culturais, 
mantendo-se recíprocas (não há diferenciação no acesso aos produtos que mantêm as 
práticas culturais) as contingências comportamentais; (2) a diferenciação entre 
conseqüências comportamentais e produtos culturais e contingências comportamentais 
não recíprocas (o acesso aos produtos culturais torna-se diferenciado para distintos 
participantes); (3) a não-reciprocidade das contingências comportamentais inclui o poder 
de coerção institucionalizado para alguns dos participantes das práticas culturais, cujos 
produtos tornam-se inacessíveis para uma parte dos sujeitos que participam das 
contingências entrelaçadas. 

A explicitação deste último aspecto - das características da interação entre 
contingências e metacontingências - permite concretizar, ainda que, de maneira inicial, o 
que significa falar da multideterminaçáo do comportamento humano, segundo um modelo 


**obie compotliimcnlo i* coRiiifilo 


113 



de seleção por conseqüôncias. A noção de metacontingências permite descrever a 
história cultural e, em certo sentido, a história das contingências, revelando as várias 
dimensões envolvidas na ação humana. Seria possível entender o comportamento do 
cesteiro considerando apenas as contingências individuais de sua ação? Desde o mo¬ 
mento em que Skinner tornou explícito o modelo de seleção por consequências, pelo 
menos, teremos que responder não. A noção de metacontingências abre uma possibili¬ 
dade de darmos uma certa concretude a este não. 

Se isto está claro, podemos nos remeter mais uma vez a Glenn, que sintetiza, no 
trecho a seguir, todos os aspectos até aqui destacados: 

"Contingências comportamentais explicam a evolução e a manutenção de 
unidades comportamentais, metacontingências explicam a evolução e a manu¬ 
tenção de unidades culturais que evoluem .... Metacontingências são relações 
contingentes entre práticas culturais e resultados dessas práticas. O termo 
'metacontingências'... foi cunhado para chamar a atenção para as maneiras pe¬ 
las quais estas contingências no nível cultural são relacionadas a contingências 
comportamentais. Primeiro, elas são conceitualmente relacionadas por envol¬ 
verem processos análogos de seleção. Assim, cada uma delas envolve contin¬ 
gências de seleção. Segundo, o prefixo 'meta' implica uma relação substantiva e 
hierárquica e de fato metacontingências emergem na evolução das culturas 
formando-se a partir de contingências comportamentais. Assim, 
metacontingências são relações funcionais no nível cultural de análise cuja exis¬ 
tência deriva de, mas não é equivalente a, contingências comportamentais." 
(p.62, 1991) 


4. Algumas implicações 


Do nosso ponto de vista, este artigo possibilitará, no melhor dos casos, uma 
compreensão textual da noção de metacontingências. A compreensão em toda sua ex¬ 
tensão da noção de metacontingências exigirá que se considere pelo menos quatro 
aspectos. 

Em primeiro lugar, a implicação óbvia da noção de metacontingências, que não 
ó por isso menos importante. O impulso que a noção traz para que analistas do compor¬ 
tamento assumam o compromisso do Behaviorismo Radical de voltar seu olhar e suas 
energias para os problemas sociais, como caminho para compreender o indivíduo, e 
que, neste percurso conheçam e reconheçam a necessidade de contato com outras 
áreas do conhecimento. 

Em segundo lugar, o cuidado para, ao ampliarmos o nosso olhar, não cometer¬ 
mos o erro do reducionismo. Neste sentido, a nossa própria história - a do Behaviorismo 
Radical - pode nos auxiliar. Skinner, ató chegar ao modelo de seleção por conseqüênci- 
as, trabalhou com diferentes unidades de análise: o reflexo, o operante e a tríplice 
contingência. Em todos esses momentos, enfatizou a peculiaridade e especificidade da 
unidade de análise em questão, evitando sempre uma visão reducionista, para isso, 


114 M.iri.i Amáli.i P. A. Andery e Tcrvs,i M. de A. P. Sério 



distinguiu o nível de análise exigido por seu objeto de estudo, rejeitou analogias e a 
transposição de conceitos que implicavam níveis de análise distintos. Nosso problema 
hoje é estarmos atentos para os perigos de buscar uma analogia ponto a ponto entre os 
três níveis de seleção, de utilizar conceitos cunhados em um nível para descrever rela- 
ções em outros. 

Em terceiro lugar, a necessidade de estudo do comportamento verbal e do reco¬ 
nhecimento de que este estudo terá que ser realizado na amplitude do programa propos¬ 
to por Skinnerem Verbal Behavior (1957). O que significa dizer que é preciso arrega¬ 
çar as mangas e estudar o comportamento verbal, a despeito das dificuldades e precari¬ 
edades de nosso instrumental - conceituai e metodológico. E que desde já temos que 
saber que mais do que descrever as unidades que compõem o comportamento verbal e 
explicar sua ocorrência, será preciso estender esta análise até dar conta dos fenômenos 
do "pensamento" e do conhecimento. 

Finalmente, a ampliação da análise contida na proposição da noção de 
metacontingèncias deve ser avaliada no contexto das diferentes críticas à insuficiência 
e abrangência do conceito de tríplice contingência para explicar o comportamento. Ten¬ 
tativas de responder a estas críticas, feitas por analistas do comportamento, originaram, 
por exemplo, a proposta de ampliação da tríplice contingência (por exemplo, para contin¬ 
gências de quatro ou mais termos) e originaram a busca de outros controles para o 
comportamento (por exemplo, o controle pela regra). Não cabe aqui discutir a validade 
ou não de todas essas tentativas, sua exclusividade ou prioridade, mas sim de reconhe¬ 
cer que foram, ou sâo, tentativas de resolver de maneiras diferentes problemas gerados 
na análise do comportamento e que possivelmente produzem implicações conceituais e 
metodológicas distintas. A compreensão do conceito de metacontingèncias envolve, desta 
forma, a discussão das possíveis implicações conceituais e metodológicas que esta 
tentativa particular de ampliação envolve. 


Bibliografia 


GLENN, S. (1985) Some Reciprocai Roles between Behavior Analysis and Institutional 
Economics in Post-Darwinian Science. The Behavior Analyst, 8, 15-27. 

(1988) Contingencies and Metacontingencies: Toward a Synthesis of Behavior 
Analysis and Cultural Materialism. The Behavior Analyst, 11,161-179. 

(1991) Contingencies and Metacontingencies: Relations Among Behavioral, Cul¬ 
tural, and Biological Evolution. In: Lamal, P.A. (ed.) Behavioral Analysis ofSocieties 
and Cultural Practices. New York: Hemisphere Publishing Co. 

GLENN, S. and MALAGODI, E.F. (1991) Process and Content in Behavioral and Cultural 
Phenomena. Behavior and Social Issues, 1,2, 1-14. 

HARRIS, M. (1974) Cows, Pigs, Wars, and Witches. New York: Random Flouse. 

_(1979) Cultural Materialism: The Struggle for a Science of Culture. New York: 

Random Flouse. 


Sobrr comport.imrnlo c coflniçAo 115 



_(1981) WhyNothing Works. New York: Simon & Shuster, Inc. 

_(1989) OurKind. New York: HarperCoIlins Publishers. 

LAMAL, P.A. (ed.) (1991) Behavioral Analysis of Societies and Cultural Practices. New 
York: Hemisphere Publishing Co. 

LLOYD, K. (1985) Behavioral Anthropology: A Review of Marvin Harris’ Cultural Materialism. 
Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 43,279-285. 

MALAGODI, E.F. (1986) On Radicalizing Behaviorism: A Call for Cultural Analysis. The 
Behavior Analyst, 9, 1-17. 

MALAGODI, E.F. and JACKSON, K. (1989) Behavior Analysis and Cultural Analysis: 
Troublesand Issues. The Behavior Analyst, 12, 17-33. 

RAKOS, R. (1989) Behavioral Analysis of Socialism in Eastern Europe: A Framework for 
Understanding the Revolutions of 1989. Lamal, P.A. (ed.) (1991) Behavioral 
Analysis of Societies and Cultural Practices. New York: Hemisphere Publishing 
Co. 

SKINNER, B.F. (1957) Verbal Behavior. Englewood Cliffs: Prentice Hall. 

_(1987) What is Wrong with Daily Life in the Western World. In Skinner, B.F. (1987) 

Upon Further fíeflection. Englewood Cliffs: Prentice Hall. 

VARGAS, E.A. (1985) Cultural Contingencies: A Review of Marvin Harris’s Cannibals and 
Kings. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 43,419-428. 


*116 Miirt.i Am.iliii P. A. Ainlery e Terv/.i M, de A. P. Sério 



Capítulo 13 


Variação e seleção: as novas possibilidades 
de compreensão do comportamento humano' 

NilZii Michclctto* 

ix/c/sr 


A 


seleção por conseqüências como um novo modelo que permite com¬ 
preender a determinação do comportamento não ó adotada por Skinner desde o início 
de sua obra. Skinner a apresenta explicitamente apenas em 1953, ao comparar o operante 
e as práticas culturais à seleção e mutação da teoria da evolução e, em 1961, retira 
desta teoria uma nova noção de causalidade. 


Mas a elaboração desta noção de determinação parece só ter sido possível 
devido às bases metodológicas adotadas por Skinner no início de sua obra. Ao estabele¬ 
cer seu programa de pesquisa para a análise do comportamento, em 1931, Skinner 


' Palestra apresentada no IV Encontro Brasileiro de Pslcoterapia e Medicina Comportamental, em setembro de 
1995. 

1 Professora do Departamento de Métodos e Técnicas da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade 
Católica de Sflo Paulo. 

Enderoço para correspondência: Rua Pelotas 541- ap. 101, Sôo Paulo, SP CEP 04012-002. 

Ernall: nmlcheletto©u-netsys.com.br 


Sobre comportamento e cognição 




adota metodologias vinculadas às ciências naturais físicas que descartam do campo da 
ciência noções finalistas e metafísicas e que se opõem ao mecanicismo. Skinner adota, 
neste momento, critérios de cientificidade e de causalidade propostos por Mach e 
Dridgman, físicos críticos do mecanicismo. Mach e Bridgman rejeitam o suposto 
mecanicista de um meio necessário à propagação ou condução de efeitos causais, para 
explicar os eventos físicos. Mach propõe, em substituição a causalidade mocânica, a 
noção de relação funcional entre sensações. Tais critérios norteiam a redefinição de 
Skinner do reflexo. Entendendo-o como observada entre estímulo e resposta, Skinner 
afasta da análise do comportamento o interesse pelas estruturas mediadoras localizadas 
no sistema nervoso que eram adotadas pela fisiologia reflexa. 

Cabe, porém, ressaltar que o afastamento em relação ao mecanicismo não ocorreu 
de forma completa no início de sua obra. Apesar de operar com a noção de relação 
funcional, Skinner busca, em 1931, um estímulo antecedente que provoca a ocorrência 
da resposta, um suposto mecânico trazido pela noção de reflexo. Quando Mach propôs 
seu conceito de explicação como relação funcional, visava abandonar o que ele consi¬ 
derava uma noção metafísica presente na noção de causalidade mecânica — o concei¬ 
to de força — que era considerada como a causa da alteração do movimento. 

A noção de relação funcional, abandonando a causalidade mecânica, parece, 
entretanto, ter sido condição de possibilidade para Skinner propor a noção de operante, 
na qual a noção de relação funcional não se dá com um estímulo eliciador, uma força 
que provoca a resposta, e sim com um evento conseqüente. 

É a partir da proposição do conceito de operante (1935) que Skinner começa a 
apresentar relações entre a ciência do comportamento e a teoria da evolução por seleção 
natural, relações que se ampliam, no decorrer de sua obra e que substituirão os critérios 
adotados das ciências físicas que orientam sua produção inicial. 

Podem ser destacados alguns supostos implicados na compreensão do compor¬ 
tamento relacionados à noção de seleção porconseqüências. 

A seleção por conseqüências considera o fazer condição essencial da existên¬ 
cia. A possibilidade de o organismo sobreviver, segundo Skinner, está vinculada à sua 
ação. A ação precisa existir para que a seleção ocorra tanto no nível filogenótico como 
no ontogenético. 

Ser reforçado pelo sucesso da nossa ação torna-se especialmente vantajoso na 
medida em que nos faz essencialmente seres agentes em relação ao meio, agentes 
controlados pelo efeito de nossa própria ação. No homem, este agir gerou novas formas 
de relação com o mundo, que no processo de seleção permitiram que ele adquirisse 
características humanas. 

Este fazer é tão fundamental para o homem que, na análise das relações que se 
estabelecem entre ele e o meio na sociedade contemporânea, Skinner não cansa de 
alertar para os perigos de uma sociedade que, ao desenvolver práticas que desvalorizam 
ou minimizam este fazer, destrói as possibilidades de sobrevivência de seus membros. 

"Os homens sâo felizes em um ambiente em que o comportamento ativo, 
criativo e produtivo é reforçado de maneira efetiva. O problema das sociedades 
afluentes e prósperas é que os reforçamentos não sâo contingentes ao compor- 


118 Nil/.i Michelrtfo 



tamento. Homens que não são reforçados por fazer alguma coisa fazem muito 
pouco ou nada." (1966a/1969, p. 64) 

Skinner considera como parte do fazer o que as pessoas pensam e sentem. 
Como ole afirma, "sentir é tanto um produto da evolução como o fazer. Ele ó parte do 
fazer” (1990, p. 1207). Como os sentimentos, "a mente ó o que o corpo faz. É o que a 
pessoa faz. Em outras palavras ó comportamento". (1987b/1989, p. 67) 

Os eventos privados não só são parte da ação humana, mas fazem parte dos 
eventos do universo que afetam o organismo. Como Skinner afirma, "o termo ambiente 
significa qualquer evento do universo que afeta nosso comportamento" e "parte do uni¬ 
verso está dentro de nossa pele" (1953/1965, p, 257) e como tal faz parte da determina¬ 
ção; "... partes do corpo entram no controle sensório do que fazemos ..." (1985/1987, p. 
105). Sendo assim, para Skinner, "como as pessoas se sentem ó freqüentemente tão 
importante quanto o que elas fazem" (1987a/1989, p. 3). 

Durante toda sua obra, Skinner trabalha com o comportamento como objeto de 
estudo, mas a abrangência do que pode ser entendido como comportamento se estende 
no desenvolvimento de sua ciência. A noção de comportamento de Skinner abarca a 
ação humana em toda sua complexidade: os eventos privados, a moral, o pensamento, a 
consciência, a alienação e a própria ciência. 

Skinner mantém a suposição, do primeiro momento de sua obra. de que o com¬ 
portamento é determinado, mas, orientadas pela noção de seleção por conseqüências, as 
determinações se ampliam, se tornam múltiplas e variáveis. 

O fazer humano se constituiu no desenvolvimento da espécie como um produto 
de uma série de pequenas variações e seleções. Os organismos fazem o que fazem por 
causa da maneira como evoluíram. Assim, Skinner não adota a suposição de que o homem, 
ou qualquer animal de uma espécie, seja uma tábula rasa (1966b/1969, p. 173) que só se 
constituiria a partir da experiência por ele vivida no espaço de sua vida. Mas também não 
supõe o oposto, que ele possa ser reduzido a sua dimensão biológica — ... “o eu é 
múltiplo e portanto não pode ser identificado com o organismo biológico" (1953/1965, p. 
229). 

Já em 1947, Skinner referia-se à determinação do comportamento a partir de um 
conjunto do várias determinações — a genética, a história individual e o ambiente social, 
destacando que o ambiente social é um feito humano e que consequentemente grande 
parte do comportamento humano deriva gestos humanos. 

“A constituição genética do indivíduo e sua história pessoal passada desem¬ 
penham papel nesta determinação. Além disso, o controle repousa no ambiente. 

As mais importantes forças, além disso, estão no ambiente social, que é produto 
humano. O comportamento humano está portanto grandemente sob o controle 
humano. "(1947/1972, p. 299) 

Nenhum destes níveis existe por si mesmo. Além da interação destes vários 
níveis de determinação, eles se transformam constantemente, neles estão presentes 
variações produzidas por mutações sendo selecionadas. O homem e o ambiente são 
considerados, por Skinner, como processos em constante transformação. 


Sobrr compotltimrnto t co^niçdo 119 



A seleção produziu uma "natureza humana", que nunca chega a existir como tal 
de fato, uma vez que "a dotação genética nada ó até ter sido exposta ao meio ambiente e 
a exposição a modifica imediatamente” (1974, p. 165). A seleção produziu uma natureza 
obsoleta. Ela prepara a espécie para um ambiente muito próximo daquele em que a 
espécie foi selecionada. Num meio que muda constantemente, a bagagem genética não 
acompanha o ambiente e o organismo apresenta então susceptibilidades que são pouco 
úteis, ou até ameaçadoras no mundo transformado. Skinner apresenta isso como uma 
falha do processo de seleção. 

O próprio processo de seleção corrigiu a falha, produziu o condicionamento 
operante, o segundo nível de determinação. O condicionamento operante seleciona, da 
grande variedade de susceptibilidades produzidas em nível genético, aquelas que são 
adequadas ao meio transformado e que permitem que uma espécie adquira rapidamente 
tais comportamentos. Ele modifica o organismo e constrói a pessoa. 

Mas o condicionamento operante também apresenta falhas. Apesar de ampliar 
enormemente o âmbito do comportamento, prepara apenas para um futuro semelhante 
ao passado selecionado (1988b/1989, p. 114). E, diferentemente da seleção natural, o 
tempo de uma vida, muito pequeno para que o indivíduo adquira um grande repertório, 
restringindo sua ação, uma vez que o comportamento precisa ocorrer para ser reforça¬ 
do. Corrigindo essa falha, evoluíram ambientes sociais e culturais, terceiro nível de 
determinação, através de processos a partir dos quais o organismo aprende com a 
experiência do outro; este nível opera junto com os dois níveis anteriores. Nesse nível, a 
partir das contingências fornecidas pela comunidade verbal em suas práticas culturais, 
se desenvolve o eu-"o que a pessoa sente a respeito de si mesma" (1989b/1989, p. 28). 
O terceiro nível também apresenta falhas como os outros processos de variação e seleção: 

"O fato de que uma cultura prepara um grupo só para um mundo que se 
parece com o mundo no qual a cultura evoluiu ó uma fonte de nossas preocupa¬ 
ções atuais com o futuro de um mundo habitável." (1990, p. 1207) 

Estas determinações se inter-relacionam, agindo juntas ou às vezes de forma 
conllitante e produzindo também efeitos múltiplos. 

"O operante pode ser afetado por mais de uma espécie de reforço, e uma 
determinada forma de comportamento pode estar correlacionada a mais de uma 
vantagem para o indivíduo ou para a espécie. As duas conseqüèncias filogenótica 
e ontogenética podem trabalhar juntas ou opor-se uma à outra no desenvolvi¬ 
mento de dada resposta "... (1966b/1969, p. 179) 

Cada nível de determinação apresenta grande diversidade, que se potencializa 
ao se conjugarem os vários níveis, tornando pouco provável semelhanças nas condições 
de determinação. O homem, produto da conjugação de três dimensões de determinações 
históricas passadas, absolutamente único. 

"O que evolui nâo é uma única espécie desenvolvendo-se lentamente, mas 
milhões de diferentes espécies competindo umas com as outras por um lugar no 
mundo. O produto do condicionamento operante nâo é um único repertório coe¬ 
rente mas milhares de repertórios menores, conflitos que devem ser resolvidos 


120 Nilz.i Michcldlo 



de algum modo. A evolução dos ambientes sociais não produziu uma única cultura, 
mas muitas, freqüentemente conflitando-se entre si. 0 (1990, p. 1207) 

Para Skinner, a ausência de diversidade aumenta a possibilidade de extinção 
diante de qualquer mudança social. A variabilidade ó, assim, condição para a existência 
do homem. 

A seleção por conseqüência envolve ambientes selecionadores e um organismo 
que age. A determinação do ambiente não é mecânica, e o organismo que age não é o 
iniciador. Skinner, com essa noção de causalidade, afasta-se de todas as tentativas de 
buscar um agente iniciador, próprias à causalidade mecânica: desde aquelas que, como a 
noção estímulo-resposta, tentam dar ao ambiente um papel iniciador, ató aquelas que, 
talvez mais arraigadas em nossa cultura, orientam concepções mentalistas, para as quais 
este papel é atribuído à mente criadora. Segundo Skinner, a noção de seleção abalou a 
crença num Criador, na medida em que dispensava a necessidade de uma causa primeira. 
Mas se os homens puderam dispensar a origem em um Criador, preservaram a noção de 
que eles próprios seriam os criadores. A noção de seleção por consequências derruba a 
crença no homem como um agente criador. Para ele, o ambiente é o agente causal, não 
no sentido de iniciar ou eliciar comportamentos, mas no de selecioná-los. 

A suposição dos mentalistas é de que o ser humano é livre, por se diferenciar dos 
seres não-humanos, na medida em que é um ser pensante, que pode se guiar por fins que 
estabelece para o futuro, produzindo efeitos desejados através de projetos, propósitos ou 
intenções. De forma diferente, os fenômenos naturais são determinados por uma causa 
anterior que os provocou. O modelo causal da seleção por conseqüências supõe que a 
determinação está no passado e produz um efeito futuro. Características que se opunham 
estão unidas neste novo modelo causal. Apesar de acontecimentos futuros não orientarem 
a determinação — nem as mutações genéticas, nem as mudanças de probabilidade do 
comportamento, nem a seleção das práticas culturais ocorrerem por causa da sobrevivência 
da espécie, ou das conseqüências que serão obtidas — à ação segue-se uma 
conseqüência que produz efeitos sobre o ambiente e sobre o próprio organismo — elas 
promovem a sobrevivência, elas mudam a pessoa no sentido de seus comportamentos 
selecionados a tornarem, ou não, mais capaz de se adaptar a um novo meio. 

'Todo comportamento operante 'estende-se para' < ‘stretches towards '> o futuro, 
mesmo que as únicas conseqüências responsáveis por sua força já tenham 
ocorrido." (1975b/1978, p. 103) 

Essa conseqüência seleciona a partir dos efeitos que a ação produz. Os efeitos 
determinam a probabilidade de ação futura, na medida em que um organismo modificado 
é selecionado, mas a compreensão deste processo deve analisar a história passada de 
contingências. Na ação humana, se, de alguma forma, os pensamentos, planos, projetos 
"... podem interferir na ação, deve-se compreender como o próprio pensamento se originou 
para sermos capazes de compreendê-lo completamente e, para isto, temos que olhar 
para a história passada de contingências. Sendo assim, as contingências não estão agindo 
quando seus efeitos são observados, pode-se dizer que elas têm efeitos prolongados". 
(1953/1965, p. 71) 


Sobre comporf.imento e coflniÇiio 121 



Não se deve supor um processo de armazenamento ou memorização que permita 
no futuro a evocação de experiências ou contingências vividas — as células não consultam 
informações armazenadas nem as pessoas consultam cópias de contingências anteriores. 
Estas já não existem no momento em que o comportamento ocorre, mas sim o organismo 
modificado. 

Apesar de a seleção por consequências ter um efeito que se estende para além 
do momento em que o comportamento que o produziu ocorre, ela se estabelece por uma 
relação temporal imediata. 

No operante, a conseqüência que se segue imediatamente ao comportamento é a 
que é efetiva, mesmo que ela não tenha sido produzida por este comportamento. A 
imediaticidade da conseqüência, segundo Skinner, presumivelmente foi selecionada no 
operante por uma vantagem que ela deve ter trazido para a espécie. Se a imediaticidade 
possivelmente beneficiou a espécie, ela não produziu apenas efeitos benéficos para a 
espécie. O poderoso efeito reforçador das drogas ó um acidente provavelmente decorrente 
desta imediaticidade (1973/1978, p. 32). 

O comportamento supersticioso, em que uma resposta é fortalecida porque foi 
associada acidentalmente a uma conseqüência, é, segundo Skinner, um resultado desta 
relação efetiva com a conseqüência imediata. Segundo Skinner, no comportamento su¬ 
persticioso o “condicionamento malogrou" (1953/1965, p. 86). Nem todas as característi¬ 
cas selecionadas contribuem para a sobrevivência. 

Apesar de a noção de seleção por conseqüências recusar explicações mentalistas, 
Skinner explica, a partir da forma como a seleção por conseqüências opera temporal¬ 
mente, o fato de terem se desenvolvido explicações mentalistas através de um agente 
interior que determinaria o comportamento a partir de fins que estabelece. 

Skinner atribui a suposição dos mentalistas de que um agente causal seja o eu 
interior aos dois tipos de efeitos — um de prazer e um de força — do reforçamento. 

"Eles ocorrem em diferentes momentos e são sentidos como coisas dife¬ 
rentes. Quando nós sentimos prazer nus não estamos necessariamente sentin¬ 
do maior inclinação para agir da mesma forma "... "Por outro lado, quando nós 
repetimos o comportamento que foi reformado, nus não sentimos o efeito de 
prazer que nós tínhamos sentido no momento em que o reforçamento ocorreu ." 
(1986a, p. 569) 

O sentimento ocorre no momento exato em que o comportamento ó executado 
(1973/1978, p. 13; 1974, p. 53) e o efeito não. A sensação é mais imediata, mais evidente, 
o efeito de fortalecimento é menos claro. Diferentemente do reflexo em que a causa prévia 
ó visível, no operante as contingências que o mantêm estão na história passada. Além 
disso, não precisamos conhecer as histórias de variação e seleção, para que elas tenham 
efeito. Não podemos ver o processo de condicionamento. Só podemos observar imediata 
e introspectivamente nosso corpos enquanto nos comportamos. 

O comportamento, portanto, parece começar de repente, espontaneamente, pa¬ 
rece não ser causado, parece que o homem, livre para agir, age em função de um propósito, 
uma idéia. 


122 Nilz.i Michrletto 



..."a seleção é um modo causal não facilmente observado. Porque as circuns- 
tâncias controladoras que existem <lie in> na historia de reiorçamento do organismo 
são obscuras, o substituto mental tem a sua chance." (1975b/1978, p. 102) 

E novamente o fator de imediaticidade intervém. O que se observa imediata e 
diretamente quando o comportamento ocorre são os estados da mento, os sentimentos, 
os estados físicos provocados pelo reforço. Por fazerem parte da situação imediata e 
poderem ser observados introspectivamente, é que aparecem como controladores do 
comportamento. 

“Mas por que nós atribuímos importância tao maior para os sentimentos e 
estados da mente e abandonamos o ambiente? A resposta parece estar na 
imediaticidade, na saliência do estímulo. Muitos eventos relevantes em nossa 
história pessoal passaram sem ser notados ."... "E se nós o notamos, nós pode¬ 
mos rapidamente esquecer. Mas os sentimentos, 'idéias', 'intenções sentidas' etc., 
frequentemente se sobrepõem ao comportamento ao qual eles parecem 
relacionados e eles ocorrem exatamente no exato lugar que seria ocupado pela 
causa." (1972a/197fí, p. 51) 

As características do condicionamento operante — a imediaticidade, seus dois 
efeitos — podem levar a que se estabeleçam causas "aparentes" para o comportamento e 
que parecem ter dominado as práticas explicativas mentalistas. Estas características 
também geram práticas sociais ameaçadoras. 

Skinner constantemente destaca o perigo de práticas culturais que se guiam pelo 
imediato e desconsideram ou anulam o controle que visa conseqüêncías remotas. O efeito 
imediato do condicionamento operante é o que é sentido. O problema da busca exclusiva 
do prazer, por exemplo, é que ele ocorre quando pouca coisa é feita e um comportamento 
muito simples é reforçado. O fato de culturas ocidentais criarem oportunidade para que o 
efeito de prazer seja privilegiado nas práticas culturais em detrimento do efeito de força 
tem levado á “corrosão das contingências de reforçamento” (1986a, p. 569), uma vez que 
as pessoas perdem a inclinação para agir. Uma perda altamente ameaçadora para a 
espécie humana que, basicamente, se construiu a partir de seu fazer. 

Skinner, em função dessas considerações, critica os utilitaristas, que analisam o 
comportamento basicamente em função dos sentimentos de prazer e dor (1974, p. 57; 
1986b/1987, p. 199). Segundo Skinner, a quantidade de prazer é insignificante na deter¬ 
minação do comportamento quando comparada ás contingências de reforçamento. Os 
utílitaristas negligenciaram o efeito de fortalecimento do comportamento e as consequên¬ 
cias reforçadoras que constroem as condições que descrevemos como ser feliz (1975a/ 
1978, p. 46). 

Defendemos aqui que Skinner propôs uma nova possibilidade de compreensão do 
comportamento humano que não se identifica com explicações mecanicistas, finalistas 
ou utílitaristas. Se diferencia de outras alternativas de compreender o comportamento 
que se originam dos princípios darwimanos como o positivismo evoluciomsta e o social 
darwimsmo. O comprometimento inicial com a metodologia positivista, afirmado por Skinner 
em 1938, e a incorporação de critérios darwinianos poderiam levar incorretamente a colocar 


Sobro fompoiliimeolo o cugnifilo 



Skinner entre as propostas do positivismo evoíucionista. Mesmo dentre as alternativas de 
explicação que se originam dos princípios darwinianos, Skinner propõe algo novo, que não 
deve ser confundido com explicações que reduzem o humano ao biológico, como as 
propostas por Spencer ou pelo social darwinismo. 

Spencer (1820-1903), o mais destacado representante do positivismo 
evoíucionista, supõe a evolução como um progresso necessário, contínuo e otimista. 
Todas as formas homogêneas e instáveis, por um processo de diferenciação, evoluiriam 
para formas heterogêneas e equilibradas. Este processo se aplicaria desde o nível mais 
elementar da matéria inorgânica até às práticas sociais. 

Este processo de evolução seria devido a uma força espontânea que impulsiona o 
progresso, um processo evolutivo que levaria necessariamente a um aprimoramento e a 
uma crescente harmonia entre sua natureza espiritual e as condições de vida; um processo 
único, contínuo e necessário pertencente ao universo, do qual o processo natural, ó apenas 
uma manifestação. Sendo assim, a diversidade seria a manifestação de algo único e 
invariável. 

Na espécie humana, este processo de diferenciação resulta na divisão de raças, 
na divisão das comunidades em governantes e governados, em autoridades religiosas e 
profanas, em castas e em classes. Daí, supor-se que tais formas de organização social 
são produto da natureza e, portanto, favoráveis à vida humana. Para Spencer, a lei biológi¬ 
ca da 'supremacia dos mais adaptados', é o único fundamento possível da vida moral. A 
luta pela existência e sua conseqüência — a eliminação dos indivíduos mais débeis — 
são leis reais e devem ser aceitas. 

Assim, todas as propostas de intervenção no sentido de alterar qualquer uma das 
manifestações desta força são consideradas inúteis e perturbadoras ou obstáculo para 
este desenvolvimento que segue o processo natural. A sociedade é um organismo em que 
todos os seus órgãos são interdependentes e a idéia de destruição de qualquer deles para 
reconstruí-la, inadequada, uma vez que haja a mudança, o desenvolvimento deste órgão 
natural. 


Skinner, a partir dos princípios da seleção natural, constrói uma proposta total¬ 
mente diversa. 

Skinner retira da teoria da evolução por seleção natural não a noção de evolução, 
e sim a seleção por conseqüências. Skinner critica a visão de evolução: 

"Evoluir primeiro significa desenrolar, como se desenrola um pergaminho; 
desenvolver antigamente significava abrir, como se abre uma carta. Ambos sig¬ 
nificam revelar alguma coisa que já estava lá . ... Estas são todas essencial¬ 
mente visões criacionistas." (1988b/1989, p. 54) 

A seleção por conseqüências não resulta, segundo Skinner, em um processo que 
se dirija para algo melhor e mais desenvolvido. Ela pode produzir processos e produtos 
nefastos à espécie e ao próprio homem, como o comportamento supersticioso, ou práticas 
sociais que poderão significar a destruição da espécie humana. Como aponta Skinner, 
todos os níveis de variação e seleção têm uma falha. Para Skinner, a evolução não tem um 
sentido de perfeição, não é necessariamente benéfica, pode ser letal. 


124 Nilza Micheirtto 



“Todas as culturas atuais obviamente sobreviveram, muitas das quais sem 
grandes mudanças por centenas de anos, mas isto pode não significar que elas 
são melhores culturas que outras que pereceram ou sofreram drásticas modifica¬ 
ções sob circunstâncias mais competitivas. O principio da sobrevivência não nos 
permite afirmar que o status quo deve ser bom porque ele está aqui agora." (1953/ 

1965, p. 432) 

Para Skinner, o sentido da evolução deve ser corrigido e isto cabe à ciência fazer. 

Segundo ele, não existe uma força inexorável que impulsionaria a evolução. A 
noção de força para Skinner significa a manutenção de supostos mecânicos, a necessi¬ 
dade de um originador. 

"Comete-se o mais sério erro ao converter o instinto em força.”... "A ‘força vital’ de 
Herbert Spencer, a ‘vontade cega de existir’ de Schopenhauer e o 'ólan vital’ de Bergson 
são os primeiros exemplos da conversão de processos biológicos em formas energéticas 
ou substâncias." (1974, pp. 39-40) 

A noção de transformação não tem um rumo predeterminado ou harmônico que 
expresse uma força da natureza. Nos três níveis de seleção, por conseqüências, ocor¬ 
rem múltiplas variações confhtando entre si, com a possibilidade de destruição de cultu¬ 
ras estabelecidas. 

Skinner denuncia as práticas sociais que garantem a supremacia dos podero¬ 
sos à custa de muitas pessoas. Recusa a noção de que é inevitável a luta entre os 
homens e as estruturas de dominação (1972b/1978, p. 197). A evidência de que tais 
práticas não são inexoráveis pode ser notada na necessidade de desenvolvimento, pelas 
instituições dominantes, de mecanismos de manutenção através da força, da alienação e 
explicações enganosas, para justificar tal domínio. Os trechos a seguir ilustram suas 
críticas a estas práticas. 

"Aqueles que se encontram em posição de poder administrativo nunca pu¬ 
deram resistir a usá-lo para o seu próprio engrandecimento. Para justificar-se 
eles inventaram mitos — como o direito divino de reis, padres ou possuidores de 
riqueza. O efeito foi exploração por atacado." (1985/1987, p. 37) 

"Governo, religião e capital nunca podem relaxar. Eles não só modelam o 
comportamento. Eles devem manter as contingências à força." (1985/1987, p. 

43) 

Para Skinner, as práticas atuais são 

... "mantidas não só por conseqüências imediatas e por isso mais poderosas, 
mas por uma moral obsoleta e por princípios óticos que foram inventados para 
justificá-la." (1982/1989, p. 14) 

Para Skinner, as práticas sociais vigentes devem ser alteradas; e é função da 
ciência fazê-lo. Ela pode intervir no processo de seleção. Pela análise das contingências 


Sobre comportamento e cognição 125 



presentes no mundo atual, a ciência pode prever possíveis conseqüências de tais práti¬ 
cas, pode planejar novas práticas, e assim aumentar a variabilidade, produzir mutações 
(1953/1965, p. 434) para serem selecionadas, caso o planejamento seja efetivo (1982/ 
1987, p. 11). 

A ciência, segundo Skinner, leva a agir fora dos limites da experiência imediata, 
do tempo de vida (1973,/1978, p. 29), das amostras do mundo real com que entramos 
em contato. Nisso, o Behaviorismo Radical difere de práticas filosóficas correntes, que 
ou não tomam o futuro em consideração ou se atêm à topografia, negligenciando os 
fatores determinantes do comportamento. Skinner diferencia o Behaviorismo Radical: 

... "do existencialismo, com sua rejeiçào do passado e do futuro, da 
fenomenologia, com sua concentração nas experiências do momento, e do es - 
truturalismo de antropólogos e lingüistas, com sua negligência de fatores que se 
encontram fora da topografia do comportamento ele mesmo." (1973/1978, p. 26) 

A perspectiva de conhecimento de Skinner não ó contemplativa, ó transformadora. 
Essa concepção de ciência diferencia-se das teorias sobre o conhecimento que o con¬ 
sideram uma representação do mundo na mente do cientista, ou um conjunto de informa¬ 
ções sobre o mundo nela armazenadas, e que seriam cópias do mundo, evocadas no 
momento em que se age. 

"Um homem não precisa copiar o ambiente estimulador para percebê-lo, e 
ele não precisa fazer uma cópia para percebê-lo no futuro. Quando o organismo 
se expõe a um conjunto de contingências de reforçamento, ó modificado por 
elas e como resultado se comporta de um modo diferente no futuro, não preci¬ 
samos dizer que ele armazena contingências. O que ô \armazenado' é o organis¬ 
mo modificado, não um registro de variáveis modificadas." (1969/1969, p. 274) 

Segundo Skinner, copiar é mostrar o estímulo e a resposta e não as conseqüên¬ 
cias: "... conhecer é mais que responder a estímulos" (1972a/1978, p. 50). Conheci¬ 
mento é comportamento operante e como tal distinto de concepções mecanicistas, que 
supõem um iniciador da ação — quer um estímulo como o reflexo, quer um pensamento. 

"O reflexo foi um exemplo notável <de que a ação inicial é empreendida pelo 
ambiente>, e uma versão estímulo-resposta do behaviorismo mantém o mesmo 
padrão, como a teoria da informação e alguns modelos de computador. Uma parte 
do ambiente entrou no corpo, ali foi transformada, talvez tenha sido armazenada, e 
eventualmente emergiu como resposta. De forma bastante curiosa, isto diferiu do 
quadro mentalista só com respeito ao iniciador da ação. Em ambas as teorias o 
ambiente penetrou o corpo: na visão mentalista isto foi recebido pelo percipiente; 
na visão estímulo-resposta ele abriu seu caminho. As duas formulações poderiam 
ser combinadas - ‘uma imagem do mundo exterior, atingindo a retina do olho, ativa 
um processo muito intrincado que resulta na visão: a transformação da imagem da 
retina em percepção'. As duas formulações dirigiam a atenção para a representação 
interna da realidade em suas várias transformações. Uma questão básica poderia 
ser colocada deste modo: o que acontece com o estimulo? 


12Ó Nlilííi Micliflctto 



"Em uma análise operante, e no Behaviorismo Radical, construído sobre 
ela, o ambiente permanece onde está e onde sempre esteve — fora do corpo." 
(1974, p. 81) 

Com tais proposições, torna-se bastante problemático aproximar o pensamento 
de Skinner de propostas empiristas de conhecimento. Para Skinner, a percepção não é 
uma “absorção" do mundo (1989a/1989, p. 16) e o homem não ó, uma "tábula rasa" 
(1974, pp. 82-83). A percepção é determinada pela história de reforçamento daquele 
que percebe (1990, p. 1208). Segundo Skinner, a visão empirista do mundo está funda¬ 
da em processos interiores, mesmo sendo a percepção provocada inicialmente pelo 
ambiente. 

As formulações empiristas, que baseiam no hábito gerado por acontecimentos 
passados as associações que ocorrem no mundo mental, são muito diferentes da com¬ 
preensão de ciôncia como comportamento operante, proposta por Skinner. Segundo 
ele, a noção de hábito enfatiza processos interiores (1987b/1989, p. 61), o que leva a 
negligenciar as contingências ambientais responsáveis pelo comportamento — "a asso¬ 
ciação cognitiva é uma invenção", ela não é feita pelo sujeito, ela está no "mundo 
exterior" (1974, p. 43). Tanto os empiristas com sua noção de hábito como Skinner com 
sua noção de ciência como uma forma de comportamento operante consideram a inter¬ 
ferência da história pessoal no processo de produção de conhecimento, mas o fazem de 
forma muito diversa — as percepções, para Skinner, não são armazenadas durante a 
história pessoal e unidas, a partir do hábito, a uma percepção atual. A história de 
reforçamento é que determina os efeitos de um evento atual, as conseqüências recebi¬ 
das no passado alteraram o organismo de forma a ele agir de uma dada maneira diante 
de um evento. 

"Vimos... que alguns dos sucessores de Locke introduziram um elemento de 
crença ou vontade na posição empirista, mas o conhecimento do mundo se 
deve a algo mais que ao contato com determinado cenário; deve-se a contingên¬ 
cias de reforço das quais esse cenário faz parte. As ' experiências' de que o 
conhecimento deriva consistem nas contingências completas." (1974, p. 153) 

A análise da ciência como comportamento operante, que distingue Skinner do 
empirismo, distingue-o, neste momento, também da visão de Ernst Mach que utilizava 
noções como memória, representação e associação. Segundo Mach, que reconhecia a 
influência de Hume em suas proposições, as representações armazenadas se associam 
a sensações que recorrem. 

As inovações que a noção de seleção por conseqüências traz para a concep¬ 
ção de objeto e de conhecimento colocam novas exigências para os processos de inves¬ 
tigação. A seleção por conseqüências como um modelo causal destaca o caráter proces¬ 
sual e histórico do comportamento, um processo com longas e diferentes extensões 
temporais — da espécie, da vida do indivíduo e das práticas culturais — que envolve uma 
análise histórica integrada dos três níveis em que a seleção opera sobre o comportamen¬ 
to, tornando-o um objeto que se transforma como fruto de várias determinações ambientais 
inter-relacionadas. Segundo Skinner,... "a análise do comportamento”..., "necessariamente 
‘histórica"’... (1974, p. 236) o que impossibilita restringir a compreensão ao "cenário atual”. 


Sobre comportamento r coflniçdo 



"O comportamento nào ó controlado pelo cenário atual, como parece ser na 
psicologia estímulo-resposta; ele nào é limitado pelo estímulo. Entretanto, é a história 
ambiental que mantém o controle: a dotação genética da especie mais as 
contingências a que o indivíduo foi exposto ainda determinam o que ele irá perceber." 
(1974, p. 82) 

Apesar de recorrentemente destacar a dimensão histórica do comportamento, 
não há indicações na obra de Skinner de como investigar as dimensões históricas envol¬ 
vidas na seleção por conseqüôncias, a não ser aquelas realizadas em laboratório, onde 
pode-se questionar a possibilidade de operar com o comportamento resultante da conju¬ 
gação de três níveis de determinações. Parece que se pretendermos, enquanto 
behavioristas radicais, adotar as propostas de Skinner de análise do comportamento e 
se concordamos que à ciência cabe importante papel na transformação das práticas 
sociais injustas e ameaçadoras, cabe a nós desenvolver procedimentos que permitam 
investigar suas dimensões históricas, que permitam analisar o comportamento em sua 
totalidade. Parece, portanto, que a nova possibilidade de compreensão da análise do 
comportamento está ainda em construção. Uma construção fundamental para que o que 
ó possibilidade favoreça uma nova realidade. 

Nessa nova possibilidade de compreensão aberta pela noção de seleção por 
consequências, a determinação não se dá por um estreitamento, como no mecanicismo, 
para o qual a realidade fixa e estabelecida se reproduz indefinidamente, e para o qual o 
conhecimento não passa de uma destas cópias esmaecidas. A seleção por consequên¬ 
cias substitui a reprodução implicada no mecanicismo pela pluralidade. Formas diversas 
de vida, de organização social, de conhecimento precisam existir para que a seleção 
ocorra num ambiente múltiplo, repleto de possibilidades, permitindo a permanência de 
formas efetivas a determinadas circunstâncias e alternativas inovadoras de ação diante 
de mudanças de uma realidade em constante transformação. Em lugar de homogeneizar, 
é preciso produzir variações, segundo os princípios da seleção por conseqüências. 

Ação, variação e seleção e, conseqüentemente, transformação são constitutivas 
dessa noção de determinação. Não basta conhecer o mundo. É preciso transformá-lo, 
afirma Skinner. Uma transformação que se dará caso se produzam variações. E isso 
depende de um homem que age sobre o mundo, que o produz. Nas palavras de Skinner, 
um homem que controla e ó controlado pelos efeitos desta ação. Um controle que não ó 
total, uma vez que as ações controladoras são selecionadas por suas conseqüências. O 
que, ao mesmo tempo que exigp uma ação do homem, não o torna todo-poderoso. Essa 
ação que nos seus níveis mais singulares se origina e só é significativa na relação com 
o outro e com o mundo. 

Esta noção de causalidade, na conjunção dos três níveis, impede que a compre¬ 
ensão se volte para uma interioridade desligada do mundo que a produz, impede que as 
várias dimensões humanas sejam reduzidas a um determinismo genético, ou a uma 
determinação mecânica. Para ela, os homens são, ao mesmo tempo, seres únicos, em¬ 
bora só possam realizar sua individualidade na convivência com o outro. Sua visão de 
causalidade impede que se volte exclusivamente para os sentimentos individuais, para o 
interior, pois o que se sente é resultado de uma alteridade. Além disso, há um mundo a 
ser transformado para que, entre outras coisas, alguns sentimentos possam ocorrer. 


128 Nilz«i Miehflíllo 



Os sentimentos não podem ser desprezados, pois eles acompanham a ação. Mas sua 
imediaticidade pode falsear a compreensão de si próprio e do mundo. Ao voltar-se exclu- 
sivamente para si, para os próprios sentimentos e desejos, pode-se deixar de lado o 
mundo em que vivemos, que seleciona práticas a partir das conseqüências da ação. A 
seleção por conseqüências exige ação, que não pode ser substituída por idéias ou 
intenções projetadas sem necessidade ou urgência de serem viabilizadas, sob pena de 
extinção. Com esta valorização da ação de cada um e de todos — para que as condi¬ 
ções da existência possam ser chamadas realmente humanas, porque variadas, criativas 
— tem-se a possibilidade de minimizar a submissão, a tutela, a espera contemplativa. A 
seleção por conseqüências opera através da própria prática e não segundo intenções e 
desejos. Ela exige um comprometimento com o outro e com o mundo, mas exige também 
a tolerância do diverso, do diferente, do novo. 

Boa parte das críticas a Skinner centram-se na reiteração. Acusam seu pensa¬ 
mento de autoritário, voltado para a afirmação do status quo. A seleção por conseqüênci¬ 
as resulta, em Skinner, numa visão em que a ação humana indispensável â sobrevivência 
deve ser não só produtora de variabilidade, mas precisa desta variabilidade para continuar 
a existir. As espécies, os homens que se comportam e as culturas são históricos. Surgiram, 
podem ser extintos. A possibilidade de existência não está numa ação reiteradora e 
controladora no sentido de armar todas as possibilidades dentro de perspectivas previsíveis 
e sobre as quais se tem total domínio, e que se mantêm pela exclusão do que é discrepante. 
Tais práticas são, segundo Skinner, fragilizadoras. A ação e o controle implicados nas 
contingência de seleção e variação devem resultar e dependem da variabilidade de suas 
formas — "milhões de espécies", “milhares de repertórios", "muitas culturas" —, devem 
apontar para a ampliação destas dimensões sobre as quais ele opera. Quanto mais 
complexos os ambientes, maior possibilidade de criação, e, portanto, maior a possibilidade 
de escolha e de existência. Quanto mais variados agentes sociais — cientistas, artistas, 
pensadores... —, com suas diversas formas de agir sobre a realidade, criarem condições 
para um mundo novo, produzindo variações — não a serem impostas mas selecionadas 
por suas conseqüências —, mais fortalecida estará a espécie humana. 

Se para o mecanicismo a diversidade ó vista como algo anômalo, para Skinner, a 
seleção e a variação são a base da produção da criatividade. Com isso. ele se opõe à 
divinização da vontade humana livre, sem vínculos, que tem origem em si mesma. Uma 
vontade aparentemente fundante, dirigida por sentimentos, desejos e fins idealizados, 
mas que, ao fim e ao cabo, supõe um agente iniciador mecanicista que converte em 
arrogância o que era petição de liberdade. 


Bibliografia 


SKINNER, B.F. (1931) The concept of reflex in the description of behavior. In: Cumulativo 
Record: a selection ofpapers. New York: Appleton-Century-Crofts Inc., 1972, pp. 
429-457. 


Sobre comporUimenlo e cognição 



(1935) Two types of conditioned reflex and pseudo type. In: Cumulative Record: a 
selection of papers. New York: Appleton-Century-Crofts Inc., 1972, pp. 479-488. 

_(1938) Behavior of Organism. New York: Appleton-Century-Crofts, 1966. 

(1947) Current trends in experimental psychology. In: Cumulative Record: a 
selection of papers. New York: Appleton-Century-Crotts Inc., 1972, pp. 
295-313. 

(1953) Science andHuman Behavior. New York: The Free Press, 1965. 

(1961) A lecture on "having" a poem. In: Cumulative Record: a selection of papers. 
New York: Appleton-Century-Crofts Inc., 1972, pp. 345-358. 

(1966a) The environmental solution. !n: Contingencies of Reinforcement: a theoretical 
analysis. New York: Appleton-Century-Crofts, 1969, pp. 3-28. 

(1966b) The phylogeny and ontogeny of behavior. In: Contingencies of Reinforcement: 
a theoretical analysis. New York: Appleton-Century-Crofts, 1969, pp. 172-220. 

(1969) The inside story. In: Contingencies of Reinforcement: a theoretical analysis. 
New York: Appleton-Century-Crofts, 1969, pp. 269-297. 

(1972a) Humanism and behaviorism. In: Reflections on Behaviorism andsociety. 
New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1978, pp. 48-55. 

_ (1972b) Freedom and dignity revisited. In: Reflections on Behaviorism and 
society. New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1978, pp. 195-198. 

(1973) Are we free to have a future? In: Reflections on Behaviorism andsociety. 
New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1978, pp. 16-32. 

_(1974) About Behaviorism. New York: Alfred A Knopf, 1974. 

_(1975a) The ethics of helping people. In: Reflections on Behaviorism andsociety. 
New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1978, pp. 48-55. 

_(1975b) Why I am not a cognitive psychologist. In: Reflections on Behaviorism and 
society. New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1978, pp. 97-112. 

_(1982) Why we are not acting to save the word. In: ilpon Further Reflection. New 
Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1987, pp. 1-14. 

(1985) Cognitive Science and behaviorism. In: Upon Further Reflection. New Jersey: 
Prentice-Hall, Inc., 1987, pp. 93-111. 

(1986a) What is wrong with daily life in the Western word? American Psychologist, 
41:568-574. 

(1986b) Somethoughts about the future. In: Upon Further Reflection. New Jersey: 
Prentice-Hall, Inc., 1987, pp. 193-206. 

. (1987a) The place of feeling in the analysis of behavior. In: Recent Issues in the 
Analysis of Behavior. Ohio: Merrill Publishing Company, 1989, pp.3-12. 


130 Nil/ii Mlchelctto 



(1987b) Whatever happened to psychology as the Science of behavior? In: Recent 
Issues in the Analysis of Behavior. Ohio: Merrill Publishing Company, 1989, pp. 
59-72. 

(1988a) Genes and behavior. In: Recent Issues in the Analysis of Behavior. Ohio: 
Merrill Publishing Company, 1989, pp. 49-56. 

(1988b) A new preface to Beyond Freedomand Dignity. In: Recent Issues in the 
Analysis of Behavior. Ohio: Merrill Publishing Company, 1989, pp. 113-120. 

(1989a) The origins of cognitive thought. In: Recent Issues in the Analysis of 
Behavior. Ohio: Merrill Publishing Company, 1989, pp. 13-26. 

(1989b) The initiating self. In: Recent Issues in the Analysis of Behavior. Ohio: 
Merrill Publishing Company, 1989, pp. 27-34. 

(1990) Can psychology be a Science of mind? American Psychologist, 45(11): 1206- 
1210. 


Sobre comportamento c copnlç^o 



Seção IV 


Comportamento verbal 
e relato verbal 



Capítulo 14 


O que é comportamento verbal? 

Miirflht Costü I lübncr 
UnivcrsiiLuic M<ickenzie 


O 


termo “comportamento verbal” foi introduzido por B.F. Skinner, em 1957, 
quando da publicação de seu livro Verbal Behavior. Para os analistas de comportamen¬ 
to, o termo veio como substituição à palavra "linguagem", pelas várias interpretações que 
esse último termo possui. 


Foi proposto "comportamento verbal" para enfatizar que “linguagem é um com¬ 
portamento modelado" e mantido por conseqüências e não é algo ou uma propriedade 
que alguém possua ou, muito menos, uma entidade interna. 

A característica definidora do comportamento verbal ó a de que ele é estabeleci¬ 
do e mantido por reforçamento mediado por outra pessoa. 

O reforçamento mediado resulta da ação de um outro indivíduo. Requer-se, 
portanto, para que haja comportamento verbal, um falante e um ouvinte, conjunto que é 
denominado "episódio verbal". 

Mas para que o ouvinte possa mediar o reforçamento do comportamento verbal 
do falante, ó preciso que o ouvinte seja especificamente treinado para tal. Significa dizer 
que o comportamento verbal de alguém depende de uma dada cultura para ser reforçado. 


Sobre comportamento e cojjnlç.lo 135 



Assim, se um japonês, que não entende português, ouvir um brasileiro falar ou 
ler um texto em português, provavelmente ele não reforçará o comportamento verbal 
desse brasileiro. A mera presença física de uma outra pessoa não é suficiente para 
haver reforçamento do comportamento verbal do falante. Para reforçar um comporta¬ 
mento verbal, aumentando a probabilidade de que ele ocorra novamente numa próxima 
vez, é preciso que o ouvinte se comporte, reagindo ao comportamento do falante. Uma 
reação possível é demonstrar entendimento. 

Muitas vezes, o ouvinte de um comportamento verbal é o próprio falante: quando 
falamos para nós mesmos, ou quando pensamos. O falar para nós mesmos ocorre, 
freqüentemente, em uma situação de difícil aprendizado. É comum, por exemplo, ouvir¬ 
mos dançarinos principiantes contarem para si os números dos passos enquanto ensai¬ 
am. 


Na maioria do tempo, o ser humano está se comportando verbalmente. Diz-se, 
por isso, que o ser humano age apenas indiretamente sobre o ambiente. Seu primeiro 
efeito ó sobre os homens. Assim, no exemplo clássico de Skinner, um homem sedento, 
ao invés de se dirigir a uma fonte de água diretamente, pode simplesmente pedir um 
copo d’água. De fato, diz Skinner, a característica desse comportamento é o de ser 
impotente em relação ao mundo físico. Palavras não quebram ossos nem removem 
montanhas. Por outro lado, como já foi apontado, é eficaz sobre outras pessoas. 

Há vários tipos de comportamentos verbais, classificados pelas relações 
estabelecidas entre respostas e os estímulos controladores. 


1. O ecóico (ou imitação) 

A resposta é vocal e é controlada por um estímulo verbal auditivo. 

Exemplo: uma criança dizer “mamãe" após o pai dizer “mamãe". 

2. O tato (ou nomeação) 

A resposta é verbal (vocal ou gestual) e o estímulo controlador ó um estímulo não- 
verbal (físico). 

Exemplo: uma criança apontar para a figura de um cachorro e dizer “au au". 


3. O textual (ou ler em voz alta) 

A resposta é vocal e é controlada por um estímulo anterior, que é o produto do 
comportamento de escrever (é um texto, por exemplo). Há uma relação de correspon¬ 
dência ponto a ponto entre o estímulo e a resposta. 


O pensar, o imaginar, o lembrar são também exemplos de comportamento verbal, 


> 


13Ó Mtiriti M.irlhd C. Hübntr 



porém mais complexos de serem analisados, nem por isso assumem uma natureza dife¬ 
rente que os classifiquem como outra coisa que nâo comportamento verbal. Podem ter 
como estímulos controladores privados ou ambientais, mas são mantidos ou não pelos 
efeitos que provocam na comunidade verbal. 

Em suma, qualquer tipo de comportamento verbal, numa análise funcional, ó 
verificar o quanto conseguimos produzir ou controlar tais comportamentos, alterando as 
condições nas quais eles ocorrem. 


Bibliografia 

SKINNER, B.F.(1957). Verbalbehavior. New York: Appleton. 


Sobre comportamento e cognlçJo 137 



Capítulo 15 


O comportamento governado por regras 
na prática clínica: um início de reflexão 

Miiriii Lufai Quedes 


Q uando nos comportamos de maneira que atrapalhe ou machuque seria¬ 
mente os outros ou a nós mesmos, estes outros se encarregam de nos “tirar" de perto. 

Os critérios para afastamento são, em geral, ditados pelo quanto de estrago que 
fazemos aos outros e pelo tanto de que necessitamos destes outros. 

A comunidade considera então que “temos" um problema que ó nosso, particular, 
e precisamos nos retirar do convívio para nos recuperar. Esta retirada pode ir desde uma 
escola nova, viagem, umas férias para descanso até uma retirada mais radical para uma 
instituição, não sem antes ter passado pelo recurso de um consultório de psiquiatra e/ou 
psicólogo. 

Uma solução deste tipo - retirar para "tratar", retirar para mudar - ignora, ou 
melhor dizendo, parece incompatível com o pressuposto de que só contingências são 
causas de comportamentos. A primeira implicação deste suposto é que uma mudança de 
comportamentos só será possível com mudanças de contingências, ou seja, só se forem 
produzidas e mantidas (pelo próprio indivíduo ou pelas outras pessoas) interações novas 
de estímulo antecedente / resposta /conseqüência. Isso implica também chances mínimas 
de que esta pessoa que, na retirada, comportou-se e sentiu-se bem (ou, pelo menos, sem 


138 M.irl.i LuiSii C/ucde* 


i 



os comportamentos-problema), ao voltar mantenha-se assim. Sidman (1989) disse que 
melhor taríamos se assumíssemos que isolamos esta pessoa porque nào sabemos o que 
fazer com ela, nem por ela. 

Por outro lado, quando nossos comportamentos não são nem tão perigosos nem 
tão perturbadores da ordem aparente; quando “funcionamos" bem, ou pelo menos, 
razoavelmente no mundo, e apenas sofremos, não são os outros que nos fazem convites 
mais ou menos sutis para retiradas estratégicas. Somos nós mesmos que, doce e 
humildemente, procuramos a figura onipotente de um terapeuta. Podemos estar também 
orgulhosos e nos sentindo privilegiados por poder usufruir de tal atenção especial. 

E, voluntariamente, nos rechamos com ele em uma sala - está constituído o 
espaço terapêutico. Vamos, eu e ele, "conversar”, "falar” sobre meu sofrimento. 

É uma interação verbal em que terapeuta e cliente funcionam ambos como falante 
e ouvinte. No contexto terapêutico, a resposta verbal de um está sob controle da resposta 
verbal do outro. Poderíamos falar de tatos, mandos, autoclíticos, intraverbais, ecólcos 
e assim por diante.(Skinner 1957) 

Tudo ficaria muito bem para esta díade se o conhecimento do cliente a respeito de 
si próprio fosse o grande evento reforçador esperado. Não importa se este autoconhecimento 
seja estabelecido por critérios de relações de causalidade mentalista ou por relações de 
causalidade ambiente/indivíduo - relações de causalidade de contingências, diríamos nós. 
Em qualquer caso, não será difícil saírem ambos poderosamente reforçados. 

Porém, a questão se complica porque o que esperamos ó que a resposta verbal 
do terapeuta tenha a função não só de estímulo discriminativo e estímulo reforçador para 
a resposta verbal de auto-observação do cliente durante a interação terapêutica. Queremos 
muito mais. Queremos: 

a) que a resposta verbal do terapeuta controle a resposta verbal na vida cotidiana do 
cliente: que suas palavras, sua consciência, seu conhecimento sobre eventos do 
mundo externo (físico e social) e sobre eventos do seu mundo interno tenham uma re¬ 
lação de correspondência precisa, singular, particular entre estímulo discriminativo e 
resposta verbal. Dizendo de outra forma, sua leitura do mundo e de si sejam tatos os 
mais puros possíveis, livres da interferência de outras variáveis que não a presença de 
estímulos antecedentes. Vejamos alguns exemplos simples: 

• na presença de um objeto cadeira, a resposta verbal deve ser "cadeira" e não "estou 
cansado". 

• na presença de um sentimento de mágoa, a resposta verbal deve ser "estou magoado" 
enão "não quero mais ver você". 

• diante de mãe dizendo “Tire o pé do sofá porque não estamos em casa", a resposta 
verbal deve ser "minha mãe acha errado colocar o pé no sofá dos outros" e não 
"minha mãe se preocupa mais com os outros do que comigo". 

• diante de pai e mãe conversando sobre questões financeiras e param quando filho se 
aproxima, a resposta verbal deve ser "meus pais preferem não conversar sobre este 
problema perto de mim" e nào "meus pais não confiam em mim, acham que sou criança 
e não me respeitam”. 

• diante de marido dizendo que gosta de trabalhar se fechando no escritório sábado à 
tarde, a resposta verbal deve ser "meu marido gosta de trabalhar" enão "meu marido 


Sobrr comport.imnilo e cognição 139 



gosta mais do trabalho do que de nós; não se importa com a gente". 

Várias e complexas podem ser as análises destas verbalizações, sejam elas 
abertas ou encobertas. No caso, estamos enfatizando relações genuínas de controle de 
estímulos. As verbalizações alternativas ató podem ser verdadeiras, mas com certeza sob 
controle de outros estímulos antecedentes - privação e esquiva de estimulação aversiva 
nos dois primeiros exemplos - ou de outros conjuntos de contingências passadas, como 
nos exemplos seguintes. E é claro, na busca de autoconhecimento, estes controles 
também precisarão ser identificados. 

b) Queremos também que o comportamento verbal do terapeuta passe a controlar outras 
respostas do cliente: que suas respostas (verbais ou não) no cotidiano - na vida real 
- produzam reforçamento positivo e/ou evitem estímulos aversivos. 

Se esperamos que a fala do terapeuta controle comportamentos do cliente, estamos 
entrando no domínio do comportamento governado por regras. 

A literatura de Skinner (1969), Catania (1993), Malott (1988) e Richelle (1981) tem 
nos ajudado a entender que existem duas possibilidades para adquirir e manter 
comportamentos: 

1) Emitindo a resposta e sofrendo as consequências na própria pele. Uma criança que se 
machuca dirige-se à mãe porque no passado, nas vezes em que se machucou, teve sua 
dor amenizada pelos cuidados da mãe (foi portanto negatívamente reforçada). 

Não sem razão é este o tipo de comportamento que, em geral, ó chamado de 
intuitivo / pessoal / natural / afetivo e ligado ao princípio do prazer. (Skinner, 1969) 

Da mesma forma, se acidentalmente tomei um copo de vodka (pensando que era 
água, por exemplo) e volto a fazê-lo outras vezes, é porque a sensação de bem-estar ou 
de alívio de alguma ansiedade, tensão, inibição ou mau humor funcionaram como 
reforçado res. 

2) Às vezes, não vivenciamos a contingência no passado. Não tinha a menor idéia de que 
tomar uma vodka poderia ser tão bom. Mas alguém me diz: "se você tomar uma dose de 
vodka, este desconforto passa". 

Existe uma boa probabilidade de que eu siga o conselho do meu amigo e tome a 

vodka. 

A resposta de beber a vodka está agora sob controle dos estímulos verbais 
antecedentes que explicitam / descrevem a contingência pela qual vou passar. Estes 
estímulos verbais funcionam como um Sd: se seguida a instrução contida na fala do 
amigo, produzirei o reforçador esperado. - Diz-se deste comportamento que ele é governado 
por regra. 

Apesar do conteúdo duvidoso desta regra, arriscar-me-ia a dizer que ela ó uma 
boa regra para o seu seguidor porque o reforçador (apesar de negativo) foi produzido 
diretamente pela própria emissão da resposta (e não pela pessoa que descreveu a 
contingência). 

Diferentemente do outro tipo de comportamento, este aqui será chamado de 
racional / intelectual / lógico / artificial, ligado ao princípio da realidade. (Skinner 1969) 


140 M.irl.i Luliti Quede* 



Steven Hayes (1987) chama este tipo de regra de TRACK. E neste caso a regra é 
um Sd para a resposta nela descrita. 

O detalhe é que só ficamos sob controle deste tipo de antecedente verbal porque 
anteriormente na história pessoal de interação social, inevitavelmente, passamos pela 
contingência arbitrária de seguir regra. Arbitrária porque o reforçador (fosse negativo ou 
positivo) estava nas mãos do falante que ditava a regra, podendo ou não ocorrer-algum 
reforçador intrínseco, diretamente ligado ao comportamento emitido. 

• comportamento de seguir regra precisa ser instalado pela comunidade verbal para ga¬ 
rantir a emissão de comportamentos que provavelmente não ocorreriam, caso alguém 
não estivesse dizendo para ou mais precisamente mandando fazer. Na verdade, exigindo, 
porque as conseqüências para o não seguimento precisam ser efetivas e contingentes. 
Caso contrário: 

a) nunca emitiríamos respostas cujas conseqüências reforçadoras são atrasadas. Ex.: 
tomar remédio. 

b) nunca pararíamos de emitir respostas cujas conseqüências aversivas são atrasadas. 
Ex.: criança rodando em círculo, brincando na água, comendo chocolate. 

c) não teríamos respostas de esquiva eficazes para conseqüências imediatas perigosas 
e de risco e não passíveis de serem detectadas antes que se passe (direta ou indire¬ 
tamente) pela contingência. Ex. colocar mão na tomada, debruçar-se no parapeito de 
uma janela alta, brincar com fósforo, aproximar-se de forno quente. Se não fosse um 
sábio adulto a nosso lado, quando crianças, provavelmente não passaríamos da primeira 
infância. 

d) seríamos muito lerdos e devagar na vida. Não estaríamos usufruindo dos conhecimentos, 
das contingências vividas pelos outros. Não teríamos conhecimento acumulado. Tudo 
seria sempre redescoberto por cada um. Não leríamos cultura. (Skinner, 1969) 

Também não é sem razão que comportamento governado por regras ó chamado 
de deliberado, cultural, consciente.(Skinner 1969) 

Pois ó. Vantagens não faltam para explicar a inclusão desse comportamento no 
nosso repertório e até mesmo justificar a arbitrariedade das conseqüências sociais durante 
o processo de aquisição. Não podemos esquecer que regras só são necessárias por 
conta de uma característica do condicionamento operante (chamada de "falha" por Skinner, 
em 1989) que ó a contigüidade temporal resposta-reforçador. É como se estivéssemos 
programados para o tempo todo fugir / esquivar de estímulos aversivos imediatos e buscar 
estímuloá reforçadores positivos imediatos. Os homens têm conseguido brilhantemente 
driblar esta "falha" e cá estamos nós donos e senhores da natureza física e humana e 
alguns homens donos e senhores de outros homens. Sim, porque também não podemos 
esquecer que alguém só segue uma regra porque existe um outro alguém detentor do 
evento reforçador positivo ou do estímulo aversivo. Só falamos em comportamento governado 
por regra quando existe alguém que manda e alguém que obedece: independente das 
boas ou más intenções do administrador das conseqüências sociais arbitrárias. 

Este é o tipo de regra chamado por Hayes (1987) de PLY: a descrição verbal da 
contingência funciona também como Sd para a resposta do ouvinte. A diferença é que 


Sobre comportamento e cofiniç.lo 141 



neste caso o evento reforçador tem relação extrínseca (artificial, arbitrária) com a respos¬ 
ta. 


Isto. por definição, faz deste tipo de comportamento governado por regra um com¬ 
portamento alienado (Skinner, 1969), o que quer dizer que na nossa vida muitos 
comportamentos nossos são reforçadores para os outros e não produzem reforço, imediato 
ou perceptível, para nós. Isso vale, por exemplo, para: manter objetos sujos longe da 
boca, vestir casaco, tomar remédio, soltar tesoura da mão, descer de lugares altos, proteger- 
se da chuva, dar a mão para atravessar a rua. 

Nesses casos, não hesitaríamos um segundo em aprovar esse desequilíbrio de 
poder na interação. O parâmetro de sobrevivência física não nos deixa dúvidas. 

Dizemos que é para o bem da criança e ainda cobramos por isso agradecimento 

eterno. 


Há outros casos em que as conseqüências (distantes e fracas) das quais fomos/ 
somos protegidos por seguir regra com conseqüências imediatas arbitrárias já são mais 
duvidosas. Por exemplo, nos casos de: diga obrigado / diga bom-dia / fique quieto / sente 
direito / vista esta roupa / brinquem de porta aberta / fique perto de mim / sobremesa só 
depois do jantar / pare de chorar / limpe de novo / guarde tudo / não leia esta revista. 

Mesmo que sejam regras com os devidos autoclíticos e com conseqüências 
arbitrárias positivas, nem sempre é fácil defendê-las como necessárias para a felicidade 
futura da criança. 

Falta ainda um ponto importante a ser considerado. Se controle por regra significa 
emissão do comportamento na presença da regra, podemos concluir que regias não 
ensinam para a vida, ou seja, se em algum momento conseqüências naturais para tais 
comportamentos não aparecerem, eles deixarão de ser emitidos tão logo se retirem as 
conseqüências arbitrárias. 

Mas se, contrariando estas previsões, tais comportamentos continuarem a ser 
emitidos, podem estar certos de que estamos com problemas. Se o comportamento sob 
controle da descrição verbal da contingência permanece é por conta de conseqüências 
aversivas excessivas. Aí então não é mais só questão de seguir uma regra sem sentido. 
Haverá, provavelmente, todos os efeitos colaterais deste tipo de controle. 

Parece então que a possibilidade de ser controlado por descrição de contingência 
foi, para o homem, a contingência salvadora de sua espécie e criadora de sua cultura. Só 
que agora/qual será a nova contingência que virá reparar os estragos por ela produzidos? 

E se regras na vida são perigosas, como entender que criamos mais uma 
contingência especial (a relação terapêutica) para estabelecer controle de comportamento? 
Vale lembrar os problemas que temos com contingências na escola; outra instância em 
que quase todo o controle se dá por regras. Aliás, a regra “a vida é a melhor escola", já diz 
tudo. 


E aqui ficam duas questões finais para nossa reflexão: 


142 Miirl.i Luím C/uedf* 



a) Será que a regra que, nós terapeutas, tentamos ensinar para o cliente: "experiencie as 
contingências” ó uma regra inquestionável como aquela de sobrevivência física e isto 
justificaria a criação desta instância especial cliente-terapeuta? 

b) Se sim, qual a eficácia deste espaço terapêutico para a instalação desta regra? Alguém 
já disse (e todos sabemos que foi Skinner.l 989) que nesta interação face a face - "só 
conselhos". Isso quer dizer que a resposta verbal do terapeuta com chance de controle 
sobre o cliente é a descrição de contingências positivas do próprio comportamento. Só 
que nos temos também uma "máxima" (descrição de uma contingência duradoura) que 
nos diz: "se conselho fosse bom a gente não dava, vendia". 

Por que será que nós, terapeutas, ousamos vendê-los? Contrariamos a máxima 
por que nossos conselhos de fato são bons ou por que nossos clientes são seguidores 
cegos de regras ou, ainda, por que já sabemos que, ao se proporem esta sutil retirada 
para nossos consultórios, eles já vêm doces e humildes? 


Bibliografia 


CATANIA, A.C. (1993). Learning. Englewood Cliffs, NJ.: Prentice-Hall (3 a edição). 

HAYES, S.C. (1987) A contextuai approach to therapeutic change. In N. Jacobson (Ed.) 
Psychotherapists in clinicaipractice cognitive and behavioralperspectives. New 
York: Guilford. 

MALOTT, R. (1988) Rule Governed Behaviorand Behavioral Antropology. The Behavior 
Analist, 11, 181-203. 

RICHELLE, M. (1981) Skinner, o eipeligro behaviorista. Barcelona: Editorial Herder. 

SKINNER, B.F. (1957) Verbal Behavior. Englewood Cliffs: Prentice Hall 

(1969). Contingencies of reinforcement: A theoreticalanalysis. Englewood Cliffs, 
NJ: Prentice-Hall. 

_(1987) Upon Further Reflection. Englewood Cliffs: Prentice Hall 

_ (1991) Questões Recentes na Análise Comportamental. Campinas: Papirus. 

Publicação original de 1988. 

SIDMAN, M. (1989) Coercion and Its Fallout. Boston: Authors Cooperativo, Inc. 


Sobre comport.imcnto c tognlç.lo 143 



Capítulo 16 


O que é auto-regra?’ 

Amlró l .uiz lonas 1 ' 
USP -1AC-CAMP 


S egundo Skinner, todo comportamento é modelado pelas contingências 
ambientais (Skinner, 1966,1969). 

Em Ciência e Comportamento Humano, Skinner diz que, ao darmos ênfase ao 
poder controlador das variáveis ambientais, deixamos o organismo em uma posição 
peculiarmente desamparada. Seu comportamento parece ser apenas e tão-somente um 
"repertório”, um vocabulário de ações em que cada item se torna mais ou menos provável, 
à medida que o ambiente se altera. É certo que as variáveis podem se dispor em padrões 
complexos; mas este fato não muda muito a situação de desamparo, pois a ênfase ainda 
está no comportamento, não em quem se comporta. (1953, p. 133) 

Os seres humanos, ao contrário de organismos não-verbais, são suscetíveis a 
uma importante parte do ambiente denominada "regras”. Os seres humanos apresentam 
um subconjunto da classe mais geral de comportamento modelado pelas contingências, 


1 O autor agradece á ProfV Dra. Maria Amélia Matos pela revisão deste texto. 
3 Doutorando em Psicologia Experimental - USP - Bolsista CNPq. 


144 André Luiz Jon.is 



que é controlado por contingências especiais denominadas regras. A este subconjunto 
damos o nome de "comportamento controlado por regras". O comportamento verbal através 
do qual a regra é expressa e a consciência (discriminação de contingências) necessários 
à formulação e ao seguimento de regras são. ambos, modelados através de contingências 
mediadas pela comunidade verbal (Skinner, 1957,1969). Na verdade, Hayes (1987) sugere 
que regras poderiam ser vistas como estímulos verbais especificadores de contingências. 
Regras, como estímulos verbais, são o resultado do comportamento verbal de alguém e, 
portanto, são eventos ambientais independentes dos comportamentos aos quais elas 
controlam (Glenn, 1987); isto ó, de comportamento de seguir a regra. 

Exemplos de comportamento controlado por regras envolvem o seguir conselhos, 
instruções, ordens, ou qualquer outra forma de comportamento verbal que descreva 
contingências, isto ó, que prescreva a relação entre condições, ação e consequências. 
Contudo, é preciso lembrar que os tipos de contingências responsáveis pelo estabelecimento 
e manutenção do comportamento de seguir regras já foram colocados pelo ambiente não- 
verbal. 


De interesse neste momento, é a relevância do papel que as regras podem terem 
controlar o comportamento, e as instâncias nas quais os seres humanos aparentemente 
formulam e seguem suas próprias regras. 

Se agimos de acordo com contingências, por que regras controlam o 
comportamento? Porque através das regras podemos reagir mais efetivamente tanto agora 
quanto mais tarde, quando o comportamento modelado por contingências estiver 
enfraquecido. As regras são formuladas debaixo do controle de contingências sociais 
planejadas para induzir uma pessoa a relatar o que faz e por que o faz, isto é, em que 
condições o faz. Segundo Skinner, a comunidade verbal gera "consciência" quando ensina 
um indivíduo a descrever seu comportamento (passado, presente e ou futuro), e a identificar 
as variáveis das quais este comportamento é função (foi, é e será). A descrição assim 
gerada ainda não é uma regra, mas tanto a pessoa que realiza a descrição, como seu 
interlocutor, que a ouve, podem usar a descrição para ordenar seu próprio comportamento, 
tomar decisões, formular planos, estabelecer propósitos e metas e, assim fazendo, estarão 
construindo regras. 

Quando, pois, estas descrições controlam outros comportamentos do "descritor” 
(aquele que descreve) ou do ouvinte, elas deixam de ser meras descrições e se tornam 
regras. Quando elas são formuladas ou reformuladas pelos indivíduos cujo comportamento 
passam a controlar, dizemos que são auto-regras. 

As auto-regras podem ser vistas como estímulos verbais especificadores de 
contingências que são produzidos pelo comportamento verbal do próprio indivíduo a quem 
estas contingências se aplicam. Neste sentido, auto-regras exemplificam o caso em que 
uma parte do meu repertório (no caso, verbal) comportamental afeta outra parte de meu 
repertório (verbal e não-verbal). Auto-regras podem ser explícitas (públicas) ou encobertas 
( pensamentos ). 

Ocasionalmente, a comunidade verbal também pode estabelecer contingências 
planejadas para modelar estas descrições verbais do comportamento feitas pelo e para o 
próprio indivíduo. Por exemplo, contingências para treinar correspondências mais precisas 
entre o dizer e o fazer. 


Sobre rompori.imrnto e cognlçüo 145 



Uma vez que a formulação de regras tenha sido adquirida, um outro conjunto 
adicional de contingências pode auxiliar a manutenção e/ou fortalecimento de tal 
comportamento. Como foi sugerido por Skinner (1969), um indivíduo cujo comportamento 
é suscetível a um conjunto de contingências pode formular auto*regras a respeito dessas 
contingências porque “ele próprio pode então reagir mais eficazmente quando o controle 
por essas contingências estiver enfraquecido". 

Contingências de reforçamento, quer naturais quer arbitrárias, também podem 
fortalecer a relação de controle entre auto*regras, quer como comportamentos encobertos 
(ou pensamentos) quer como comportamentos manifestos e outros comportamentos 
manifestos. 

Desta forma, não é somente o comportamento produzido pelo seguir a regra que 
é reforçado, mas também o próprio comportamento de seguimento de regras, (como uma 
outra classe de respostas funcionais) e nesse sentido ambos são fortalecidos. Colocado 
de outra maneira, uma contingência suporta uma relação de controle entre uma situação 
que leva à formulação de regras (comportamento RI), por um lado, e o produto dessa 
formulação (a própria regra) e o seguir regras (comportamento R2), por outro lado; colocando 
numa mesma classe o pensar sobre o problema (formular regra) e o resolver o problema 
(agir). 

O primeiro comportamento é reforçado arbitrariamente pela comunidade que modela 
autoconsciência (formulação de regras) e o segundo é reforçado por contingências naturais 
relacionadas à própria solução do problema, ou como dizem Zettle e Hayes (1983) um 
poderoso conjunto de contingências relacionado ao seguimento de regras, seria o 
reforçamento arbitrário mediado pela comunidade verbal. A comunidade verbal, 
retrospectivamente, pode questionar os indivíduos sobre quais auto-regras eles utilizaram 
para controlar outros comportamentos e reforçá-los pela correspondência entre esses 
outros comportamentos e seus relatos acerca deles. Do mesmo modo, a comunidade 
verbal pode solicitar aos indivíduos que estabeleçam planos que serão utilizados no futuro 
para orientar seu comportamento em uma determinada situação e reforçar esta verbalização 
e posteriormente reforçar também uma correspondência entre o comportamento verbal e o 
não-verbal (ação). É preciso lembrar que estamos usando a palavra "ação", aqui, em seu 
sentido estrito, pois verbalizar também é uma ação. 

Nos exemplos que acabamos de ver, estamos diante de duas relações de controle: 
ação motora (R) - ação verbal (falamos de regra por relato retrospectivo) e ação verbal 
(formulação de regra no plano prospectivo) - (R) ação motora, ambas sob interferência da 
comunidade verbal. 

Conseqüentemente, mesmo que seguir a regra (ação motora) não resulte em 
conseqüências naturais que mantenham este comportamento, o comportamento de formular 
regras (ação verbal) ainda poderá ocorrer devido às conseqüências sociais. O grande 
debate é se basta formular regras para que estas controlem outros comportamentos? 
Evidentemente que não. Sem o controle das contingências naturais temos a fala 
esquizofrênica, megalomaníaca e a do mentiroso patológico. 

Muitas das regras que guiam nosso comportamento são aprendidas de outros. 
Da mesma maneira que a formulação de uma auto-regra pode ser um problema, problemas 
podem ocorrer nas práticas de formulação de regras por uma comunidade verbal. Culturas 


146 Amlré Luiz Jon.is 



e subculturas podem descrever regras ambíguas, inexatas e até mesmo inadequadas 
para a sobrevivência deste grupo. Por exemplo, um grupo religioso pode desenvolver regras 
sobre a cura pela fé que proíba seus praticantes de procurar auxílio médico no tratamento 
de suas doenças. Similarmente, os representantes de um órgão do governo podem falhar 
em dar uma orientação adequada para evitar a AIDS. Outro exemplo: pessoas com 
problemas de conduta, geralmente, possuem auto-regras que os distanciam de uma 
interação adequada com a realidade, e até mesmo impedindo de reformular suas auto- 
regras. Estas pessoas precisam de auxííío de um segmento da comunidade verbal, 
especialmente treinados, para lidar com estas questões: o terapeuta. 


Bibliografia 


GLENN, S. S. (1987). Rules as environmental events. The analysis of Verbal Behavior. 5, 
29-32. 

HAYES, S. C. (1987). A contextuai approach to therapeutic change. In N. S. Jacobson 
(Ed.), Psychotherapists in clinicaipractice: Cognitive and behavioralperspectives. 
New York: Guifford, (pp. 327-387). 

SKINNER, B. F. (1953). Science and human behavior. New York: Macmillan. 

_(1978). O Comportamento Verbal. Tradução de Maria da Penha Villalobos. 

São Paulo: Cultrix: Ed. da USP. Trabalho publicado originalmente em 1957. 

(1966). An operant analysis of problem solving. In: B. Kleinmuntz (Ed.), 
Problem-solving: Research, method, andtheory. New York : Wiley, (pp. 225-257). 

(1969). Contingencies of reinforcement: A theoreticalanalysis. Englewood 
Cliffs, NJ: Prentice-Hall. 

ZETTLE, R. D., & HAYES, S. C. (1983). Effects of social context on the impact of coping 
self-statements. Psychological Repotls, 52,391-401. 

ZETTLE, R. D. (1990). Rule-governed behavior: A radical answer to the cognitive challenge. 
The Psychological Record, 40, 41-49. 


Sobre comportamento c cognição 147 



Capítulo 17 


O relato verbal segundo a perspectiva da 
análise do comportamento: contribuições 
conceituais e experimentais 

)úlio César Coelho de Rose' 
UFSCar 


F arber (1965) observa que, de acordo com uma antiga lenda sobre o 
comportamento de psicólogos em congressos, os comportamentos amorosos são 
amplamente superados em freqüência pelo comportamento de beber. Este último, por sua 
vez, embora não seja de se desprezar, fica bastante aquém em relação à tagarelice. 
Farber acrescenta que é possível discordar desta estimativa sobre o comportamento verbal 
dos psicólogos, mas não há qualquer dúvida a respeito do interesse dos psicólogos pelo 
comportamento verbal dos outros. De fato, os psicólogos, além de estarem freqüentemente 
interessados no comportamento verbal per se, também se interessam pelo comportamento 
verbal como um relato de comportamentos, eventos ou estados, aos quais eles não têm 
acesso fácil ou direto. 

Neste sentido, o relato verbal ó uma das fontes de dados mais amplamente 
utilizadas na Psicologia, constituindo a base de entrevistas clínicas, levantamentos, 


1 Bolsista de Pesquisa do CNPq (Processo 300242/87-5). A preparação deste texto contou com auxílio da 
FAPESP (Processo 92/2320-4). A versão final beneflclou-se da revisão cuidadosa e das sugestões do Deisy 
de Souza. 


148 Júlio Owr Coelho de Rose 




avaliações padronizadas, entrevistas pós-experimentais, etc. A utilização do relato verbal 
como fonte de dados não se limita, ó claro, à Psicologia, mas ocorre em praticamente 
todas as ciências que lidam com o homem. Na Medicina, por exemplo, a investigação das 
causas de várias doenças baseia-se, pelo menos em parte, em relatos verbais dos pacientes 
a respeito de comportamentos, ou padrões de comportamento, que podem ter causado a 
doença ou aumentado a sua probabilidade. Para investigar os mecanismos de transmissão 
da AIDS, por exemplo, os pesquisadores dependem de relatos dos pacientes a respeito 
de seu comportamento, principalmente o comportamento sexual e uso de drogas injetáveis. 
A observação direta destes comportamentos, embora seja possível em tese, costuma ser 
impossível na prática. Assim, o pesquisador precisa recorrer a relatos verbais, em geral 
fornecidos pelo próprio paciento. 

Este exemplo sugere porque os relatos verbais são frequentemente recebidos 
com certa suspeição. Nesse caso, eles referem-se a comportamentos que são considerados 
tabus e sujeitos a punições sociais severas. Por este motivo, existe sempre a possibilidade 
de que alguns pacientes não revelem seus comportamentos, mesmo quando os relatos 
verbais são coletados em situações concebidas como não punitivas. Mesmo quando os 
relatos não se refiram a assuntos considerados tabu, eles estarão sujeitos a limitações de 
atenção, memória, acessibilidade, etc. E haverá sempre a possibilidade de distorções 
deliberadas por parte do sujeito. 

Na pesquisa em Análise do Comportamento, o relato verbal é utilizado com bastante 
parcimônia. As principais razões para isto são apontadas por Perone (1988). Ele lembra 
os pareceres recebidos quando submeteu ao Journal of the Experimental Analysis of 
Behavior um artigo (Perone & Baron, 1980) sobre respostas de observação de sujeitos 
humanos adultos. (Não interessa, para os propósitos deste texto, entrar em detalhes 
sobre o procedimento ou os resultados deste experimento.) Um dos revisores mostrou-se 
surpreso com a ausência de relatos verbais "sumarizando o que os sujeitos disseram que 
estavam fazendo e por quê". Dizia o revisor que estes relatos, se disponíveis, deveriam ser 
apresentados e discutidos. Perone observa que achou estranha esta exigência: 

"... Why ask the subjects what they did, when the point of the study was to 
precisely measure what they did? ... The reviewer also suggested that we ask the 
subjects why they did as they did. Answering the question of why an instance of 
behavior occurs is the very business of experimental analysis. To the extent that 
subjects' behavior was under the control of the variables we manipulated, we be- 
lieved that we already knew the answer. 2 " (Perone, 1988, p. 71, grifos do autor) 

Assim, os analistas do comportamento preferem observar diretamente o 
comportamento de interesse, e preferem analisar as causas deste comportamento através 
da manipulação direta de variáveis experimentais. No entanto, até mesmo para os analistas 
do comportamento isto nem sempre é possível. Até mesmo Perone e Baron (1980), na 
pesquisa já mencionada, coletaram relatos verbais dos sujeitos. Estes relatos foram, no 


2 "Para que perguntar aos sujeitos o que eles tinham feito, quando o foco do estudo foi medir precisamente 
o quo eles tinham feito? ... O revisor também sugeriu que perguntássemos aos sujeitos porque eles fizeram 
o que haviam feito. Responder á questão de por que uma instância de comportamento ocorre ó exatamente 
o objetivo da análise experimental Na medida em que o sujeito estava sob controle das variáveis que nós 
manipulamos, nós acreditamos que |á conhecíamos a resposta." 


Sobre comportamento e cognição 149 




entanto, de um tipo diferente do que foi solicitado pelo revisor. A pesquisa foi conduzida 
como parte de um projeto mais amplo sobre análise operante de trabalho industrial e uso 
de drogas por trabalhadores da indústria. Os experimentadores descreveram a pesquisa, 
para os sujeitos, como uma simulação de situação de trabalho. Os sujeitos pensavam, 
portanto, que estavam participando de uma situação de trabalho. Eles receberam, a intervalos 
regulares, testes padronizados para medir o estado emocional e a satisfação com o trabalho, 
e tambóm para monitorar o uso de drogas. O relato verbal foi usado, neste caso, como via 
de acesso dos pesquisadores a comportamentos e estados emocionais que dificilmente 
poderiam ser medidos diretamente. 

É muito provável que pesquisadores, de qualquer orientação teórica, precisem recorrer 
a relatos verbais sempre que precisarem obter informações a respeito dos pontos 
mencionados no Quadro 1. 


1. Comportamentos manifestos 

a) comportamentos ocorridos no passado. 

b) comportamentos pouco acessíveis à observação: 

• comportamento sexual; 

• uso de drogas. 

c) comportamentos cuja probabilidade ó afetada pela presença de observador. 

d) comportamentos cuja observação envolve alto custo material ou humano. 

2. Outros eventos públicos 

a) situações ou condições de estímulo nas quais um comportamento foi emitido 
ou e tipicamente emitido. 

b) conseqüências de um comportamento. 

3. Eventos privados 

a) comportamentos encobertos: 

• pensamentos (ex.: verbalizações encobertas na solução de problemas); 

• imagens. 

b) comportamentos incipientes: tendências ou inclinações para agir. 

c) sensações, sentimentos, estados emocionais. 

d) atribuições de causas a comportamentos, estados emocionais, etc. 

Quadro 1, Temas que comumente precisam ser Investigados através de relatos verbais. 


150 lúlio Céwr Coelho ele Rose 





Todos os tipos de questões listadas no Quadro 1 poderão interessar a analistas do 
comportamento, dependendo da área de investigação ou atuação. A análise do 
comportamento poderá talvez contribuir para o desenvolvimento de métodos de observação 
direta de alguns destes fenômenos, mas é muito provável que a ocorrência cotidiana deles 
permaneça dificilmente acessível à observação direta. A medida que a Análise 
Comportamental lida cada vez mais com o comportamento humano complexo, questões 
como essas serão cada vez mais estudadas. Na verdade, elas já estão sendo bastante 
estudadas, com o resultado de que os analistas do comportamento estão passando a 
utilizar mais o relato verbal. 

Mas o relato verbal é. além de uma fonte de dados, uma forma de comportamento. 
Justamente pela sua importância crucial como fonte de dados, o comportamento de relatar 
tem sido amplamente estudado pelos psicólogos de todas as correntes. A literatura sobre 
o assunto é extensa e obviamente muito além do alcance desta apresentação. Meu propósito 
com esta apresentação ó apenas o de tentar esclarecer a análise conceituai e experimental 
do relato verbal segundo a perspectiva da Análise do Comportamento. 


1. O comportamento de relatar 


De acordo com a concepção da Análise Comportamental, relatar é um 
comportamento verbal. Este comportamento verbal é emitido supostamente sob controle 
de um estado de coisas, que funciona como estímulo discriminativo. Tipicamente o 
pesquisador está interessado em conhecer algo sobre este estado de coisas, mas não 
tem acesso direto a ele. O relato verbal inclui-se, portanto, na categoria de operante verbal 
que Skinner denomina tato. 

"... A tact may be defined as a verbal operant in which a response of a given 
form is evoked (or at least strengthened) by a particular object or event orproperty 
of an object or event. 3 " (Skinner, 1957, pp. 81 - 82) 

A propriedade característica do tato é, portanto, o controle singular que algum aspecto 
do ambiente exerce sobre a forma da resposta. Nesse sentido, o tato é o operante verbal 
que tem uma relação de correspondência (referência) com o mundo externo e, por esta 
razão, "emerge como o mais importante dos operantes verbais” (Skinner, 1957, p.83). A 
correspondência da forma da resposta com o ambiente é uma relação de controle de 
estímulo, e a precisão deste controle é um resultado da maneira pela qual a comunidade 
verbal estabelece em cada indivíduo um repertório de tatos: 

" In the tact ... we weaken the relation to any specific deprivation or aversive 
stimulation and set up a unique relation to a discriminativo stimulus. We do this by 


3 “Um tato pode sor definido como um operante verbal no qual uma resposta de uma dada forma ó evocada 
(ou pelo monos fortalecida) por um objeto ou evento particular, ou por uma propriedade de um objeto ou 
evento." 


Sobrr comportiimfiito f cojjnlçilo 


reinforcing the response as consistently as possible in the presence of one stimulus 
with many different reinforcers or with a generalized reinforcer. The resulting control 
is through the stimulus. A given response "specifies"a given stimulus property. This 
is the 'reference' of semantic lheory.* "(Skinner, 1957, p. 83) 

Por esta razão, o tato permite ao ouvinte"... inferir algo a respeito das circunstân¬ 
cias, independentemente das condições do falante". Poderíamos, portanto, dizer que o 
tato é um operante verbal que "beneficia” o ouvinte, e ó precisamente por esta razão que a 
comunidade verbal estabelece e mantém desempenhos verbais com função do tato. Skinner 
observa que o tato tem particular importância para o ouvinte quando o falante está em 
contato com um estado de coisas que nào é conhecido pelo ouvinte. Nestas condições, 

"... behavior in the form of the tact works for the bcnefit of the listener by 
extending his contact with the environment, and such behavior is set up in the 
verbal community for this reason. 4 5 " (Skinner, 1957, p. 85) 

O pesquisador, quando coleta relatos verbais, encontra-se precisamente na situação 
descrita por Skinner. O falante, ou seja, o sujeito, está (ou esteve) em contato com um 
estado de coisas ao qual o ouvinte, ou seja, o pesquisador, não tem acesso. O relato 
verbal é um tato, sob controle dos aspectos relevantes deste estado de coisas, que permite 
ao pesquisador fazer inferências sobre este estado de coisas ao qual ele não tem acesso 
direto. 


A validade destas inferências dependerá criticamente do grau de controle 
discriminativo exercido sobre o tato pelo estado de coisas em que o pesquisador está 
interessado, ou em outras palavras, da correspondência entre o relato e o estado de 
coisas a que supostamente se refere. Esta correspondência depende basicamente de 
duas categorias de variáveis, que podemos distinguir, um pouco artificialmente, como 
variáveis de controle de estímulo e variáveis de reforço. 


2. Controle de estímulo sobre o relato verbal 


As variáveis de controle de estímulo afetam a precisão do controle exercido pelas 
propriedades dos estímulos, especialmente quando se trata de propriedades complexas 
ou sutis. A precisão do controle dependerá, neste caso, do grau de acesso do sujeito ao 
estímulo discriminativo, do grau de acesso da comunidade verbal aos estímulos quando o 
repertório está sendo estabelecido, e dos procedimentos utilizados pela comunidade para 
estabelecer e manter o repertório. 


4 “No tato ... nós enfraquecemos a relação com qualquer privação ou estimulação aversiva o estabelecemos 
uma relação singular com um estimulo discriminativo. Fazemos isto reforçando a resposta tôo 
conslstentemente quanto possível em presença de um estímulo com muitos reforçadores diferentes ou com 
um reforçador generalizado. O controle resultante é através do estímulo: uma dada resposta ‘especifica’ 
uma dada propriedade do estímulo. Isto é a ‘referência’ da teoria semântica.” 

5 ”... comportamento na forma do tato opera em benefício do ouvinte, estendendo seu contato com o 
ambiento, e tal comportamento ó estabelecido pela comunidade verbal por esta razão ” 


152 lúlio Cés.ir Coelho dc Rose 


Como exemplo, podemos comparar o grau de controle exercido por estímulos ma¬ 
nifestos ou privados. No caso dos estímulos manifestos, tanto o sujeito quanto a 
comunidade têm acesso aos estímulos, e isto facilita a utilização de procedimentos que 
aperfeiçoam o controle discriminativo. Como resultado, a maioria das pessoas (pelo menos 
em nossa cultura) adquiro tatos sob controle razoavelmente preciso de eventos e 
propriedades corriqueiras do ambiente, tais como objetos, cores, formas, etc. O mesmo 
não ocorre no caso de propriedades mais sutis: um número relativamente pequeno de 
indivíduos é capaz de emitir com precisão tatos identificando, por exemplo, uma nota 
musical ou a safra de um vinho. Neste caso, a precisão no controle de estímulo pode 
depender em parte de diferenças individuais no próprio aparelho sensorial, e em parte do 
tipo de procedimento de treino utilizado para estabelecer estes tatos. 

No caso de estímulos privados, no entanto, há tipicamente uma limitação no grau 
de controle que pode ser exercido, uma vez que a comunidade verbal não tem acesso ao 
estímulo (por definição, já que o estímulo é privado). Assim, como observa Skinner (1953), 
a comunidade verbal só pode estabelecer um repertório de tatos sobre eventos privados 
com base em eventos públicos correlacionados com eventos privados, ou em propriedades 
que os eventos privados têm em comum com eventos públicos. Uma dificuldade adicional 
apontada por Skinner é a própria imprecisão dos receptores sensoriais que respondem 
aos estímulos internos (proprioceptivos e interoceptivos). Diante destas duas limitações, 
as discriminações que o indivíduo pode desenvolver a respeito de seu mundo privado são 
tipicamente menos precisas do que as que ele pode desenvolver a respeito do mundo 
externo. Em outras palavras, o conhecimento que a pessoa tem de si mesma tende a ser 
menos preciso do que o conhecimento do mundo externo. 

"... Strangely enough, it is the community which teaches the individual to ‘know 
himself... ‘knowledge ’... isparticularlyidentified with the verbalbehaviorwhicharises 
from social reinforcement. Apparently ; conceptual and abstract behavior are impossible 
without such reinforcement. The kind of self-knowledge represented by discriminative verbal 
behavior- the knowledge which is ‘expnessed’ when we talk about ourown behavior-is strictly 
hmitedbythe contingencies which the verbal community can arrange. 6 "(Skinner, 1953, p. 261) 


Estas contingências são deficientes, justamente porque a comunidade verbal não 
tem acesso ao estado de coisas privado que deveria exercer controle sobre este tipo de 
tato. Não tendo acesso, a comunidade verbal fica limitada nas possibilidades de utilizar 
reforçamento diferencial para estabelecer a correspondência entre o tato e a situação 
estimuladora. A comunidade verbal depende de correlatos do estímulo privado que são 
relativamente pouco fidedignos. 

Exatamente por este motivo, o tato a respeito de eventos privados é muitas vezes 
recebido com desconfiança. Skinner observa, por exemplo, que todo mundo desconfia do 


, ' , ‘Por estranho que pareça, ó a comunidade que ensina o indivíduo a conhecor a si mesmo.... Conhecimento 
« partlcularmente identificado com o comportamento verbal que surge a partir do reforçamento social. 
Aparentemente, o comportamento conceituai e abstrato ê impossível na ausência deste reforçamento. ... O 
tipo de nutoconheclmento representado polo comportamento verbal discriminativo - o conhecimento que e 
'expresso' quando falamos acerca de nosso próprio comportamonto - e estritamente limitado pelas 
contingências quo a comunidade verbal podo arranjar." 


**ol>re comportamento e cogniplo 153 




indivíduo que se esquiva de uma tarefa desagradável alegando uma dor de cabeça. Esta 
deficiência nas contingências, além de levar os ouvintes à desconfiança, tem uma 
conseqüência mais séria para o próprio indivíduo: 


"...The deficiencies which generate public mistrust lead, in the case of the 
individual himself, to simple ignorance. There appears to be no way in which the 
individual may sharpen the reference of his own verbal repertoire in this respect. 
This is particularly unfortunate because he probably has many reasons fordistorting 
his own report to himself J" (Skinner, 1953, p. 261, grifos no original) 


Por este motivo, segundo Skinner (1953), "um dos fatos mais importantes a respeito 
do autoconhecimento ó que ele pode não existir". O autoconhecimento requer, na verdade, 
dois tipos de repertório, que precisam ser estabelecidos socialmente. Um é o repertório 
de auto-observação, ou seja, a observação do próprio comportamento, bem como das 
condições em que o comportamento ocorre e das conseqüências que produz. A auto- 
observação pode ser concebida como uma resposta encoberta que ocorre paralelamente 
ao comportamento que é observado (que pode ser manifesto ou encoberto). A conseqüência 
da auto-observação é a exposição do indivíduo aos estímulos produzidos por seu próprio 
comportamento. A exposição a estes estímulos é indispensável para um repertório de 
tatos a respeito do próprio comportamento. A auto-observação pode ser considerada, ao 
menos em parte, como um comportamento precorrente ao relato verbal a respeito do 
próprio comportamento. Neste caso, ela só poderá ser mantida e reforçada se a comunidade 
estabelecer contingências reforçadoras para o relato verbal sobre o próprio comportamento. 
Como já vimos, estas contingências, mesmo quando estabelecidas pela comunidade verbal, 
podem ser prejudicadas pela dificuldade de acesso da comunidade aos estímulos privados. 
O autoconhecimento é, portanto, problemático, e uma pessoa pode ignorar muitas coisas 
a respeito de si própria. Isto evidentemente comprometerá a precisão de seus relatos 
verbais e, quando os relatos são tomados como dados de pesquisa, as inferências que o 
pesquisador fizer a partir deles precisarão levar em conta estas limitações. 

Entre os aspectos que uma pessoa pode ignorar a respeito de si própria, Skinner 
cita os seguintes: 

a) Uma pessoa pode não saber que fez alguma coisa. Como observamos acima, para ter 
consciência de que fez alguma coisa, a pessoa precisa ter apresentado respostas de 
auto-observação concomitantes. Se um dado comportamento ocorreu sem ter sido 
acompanhado de respostas de auto-observação, o indivíduo não terá depois conhecimento 
do que fez. Os exemplos disto, segundo Skinner, vão desde o lapso verbal despercebido 
até extensas amnésias, em que o indivíduo è incapaz de descrever parte significativa de 
seu comportamento passado. 


' "As deficiências que geram a desconfiança pública levam, no caso do próprio indivíduo, â simples ignorância. 
Parece nâo haver maneira pela qual o indivíduo possa tornar mais precisa a roferôncia de seu próprio 
comportamento verbal a este rospoito. Isto e parlicularmente infeliz, porque o indivíduo tom provavelmente 
muitas razóes para distorcer sou proprio rolato para sl mesmo ” 


154 lúlio CcSiir Coelho ilc Rose 




Às vezes, o comportamento de auto-observação pode ter ocorrido, mas os estímu¬ 
los resultantes exercem controle impreciso sobre o comportamento de relatar. A situação 
de questionário ou entrevista pode, eventualmente, tornecer pistas ou sondas, que podem 
complementar o controle impreciso exercido pelo comportamento passado, vindo a produzir 
um relato mais acurado. Nesse caso, podemos dizer que a situação de entrevista ou 
questionário ajuda o indivíduo a se lembrar de seu comportamento passado. No entanto, é 
possível também que a situação de questionário ou entrevista forneça sondas ou pistas 
que suplantem os estímulos produzidos pelo comportamento no controle sobre o relato 
verbal. Estas pistas podem atuar em conjunto com a história de reforço do indivíduo, de 
tal modo que ele pode vir a dizer "o que o pesquisador quer ouvir". 

Skinner menciona um ponto bastante interessante a respeito desta possibilidade 
de que o indivíduo nào tenha conhecimento de seu proprio comportamento passado. Se o 
indivíduo pode (às vezes) desconhecer seu comportamento manifesto, ó possível que ele 
também desconheça, às vezes, seu comportamento encoberto. Neste caso, como observa 
Skinner, o comportamento encoberto deve ser inferido não apenas pelo próprio pesquisador, 
como pelo próprio indivíduo. Um exemplo dado por Skinner é o de matemáticos que 
freqüentemente não são capazes de descrever o processo de pensamento que levou à 
solução de um problema. Podemos supor que, pelo menos em alguns destes casos, 
alguns comportamentos encobertos mediaram a solução do problema, mas não foram 
acompanhados de respostas de auto-observação. Esta possibilidade tem implicações 
para os métodos de estudo do pensamento e solução de problemas baseados na 
verbalização manifesta do pensamento, como por exemplo o método de análise de protocolo 
proposto por Erikson e Simon (1984). 

b) Uma pessoa pode não saber que está fazendo alguma coisa. Como já vimos, o 
comportamento que ocorre desacompanhado das respostas de auto-observação pode 
permanecer totalmente inconsciente. Exemplos são o comportamento desatento, 
maneirismos inconscientes, e comportamento habitual “automático". Estes 
comportamentos provavelmente também não serão relatados com precisão a posteriori. 

c) Uma pessoa pode não saber que tende a, ou vai fazer algo. Como exemplifica Skinner 
(1953), uma pessoa pode não ter consciência de tendências agressivas, predileções 
incomuns, ou da alta probabilidade de seguir um dado curso de ação. Muitos questionários 
e inventários padronizados baseiam-se no relato, por parte do indivíduo, do que ele faria 
em determinadas circunstâncias. Como a pessoa nem sempre tem consciência de suas 
tendências para agir, as respostas verbais podem não corresponder ao comportamento 
que o indivíduo de fato viria a emitir caso ocorressem as circunstâncias de interesse. 
Como veremos adiante, nesse caso, as contingências de reforço para o comportamento 
verbal podem produzir um viés na direção do relato de ações socialmente valorizadas. Isto 
ó especialmente verdadeiro quando a pessoa é solicitada a relatar o que faria numa condição 
à qual nunca foi exposta. No entanto, mesmo quando a pessoa relata o que faria numa 
situação à qual já foi exposta no passado, seu relato ó problemático, porque ela pode não 
ter consciência do quo fez nesta situação (cf. item a, anterior), ou mesmo que tenha 
consciência do que fez nas ocorrências anteriores desta situaçáo, ela pode não ter 
consciência de variáveis subsequentes que podem ter modificado a probabilidade de suas 
respostas em novas ocorrências desta situação (cf. item d, a seguir). 


Sobre compori.imento e cj>RHiç,lo 155 



d) Uma pessoa pode não reconhecer as variáveis que controlam seu comportamento. 
Skinner (1953; 1957) observa que os testes projetivos são úteis como instrumento de 
diagnóstico justamente porque revelam variáveis que o próprio indivíduo não consegue 
identificar. Como nestes testes o estímulo apresentado ao sujeito é indistinto e não exerce 
controle específico sobre qualquer resposta, o comportamento verbal que o sujeito apresenta 
pode revelar o controle exercido por múltiplas variáveis de sua história passada. Ê importante 
citar, como um parêntese, que o próprio Skinner inventou uma espécie de teste projetivo, 
o "somador verbal”, baseado na apresentação para o sujeito do um padrão auditivo indistinto. 

Skinner observa que o surpreendente não ó que estes eventos, tão importantes e 
conspícuos, sejam freqüentemente ignorados. O surpreendente é que eles sejam 
freqüentemente observados. A sociedade e suas práticas culturais é que estabelecem as 
contingências que levam o indivíduo a se auto-observar e a relatar seu próprio comporta¬ 
mento. 


"The behavior we call knowing is due to a particular kind of differential 
reinforcement. In even the most rudimentary community such questions as 'What 
didyou do?’ or 'What are you doing?' compel the individual to rospond to his own 
overt behavior. Probably no one is completely unselfconscious in this sense. At 
the other extreme an advanced and relatively nonpractical society produces the 
highly introspective or mtroverted individual, whose repertoire of salf-knowledge 
extends to his covert behavior - a repertoire which in some cultures may be 
almost nonexistent. An extensive development of self-knowledge is common in 
certain Eastern cultures and is emphasized trom time to time in those of the 
West... B " (Skinner, 1953, p. 287) 

A psicoterapia pode ser entendida, ao menos em parte, como uma metodologia 
para refinar o autoconhecimento, especialmente no que diz respeito ao controle 
discriminativo exercido pelo mundo privado do indivíduo. Um dos requisitos para isto 
provavelmente é que o terapeuta desenvolva uma sensibilidade para as correlações entre 
eventos privados e comportamentos manifestos. Isso permite ao terapeuta inferir aspectos 
do mundo privado do cliente a partir de manifestações sutis; com base nestas inferências, 
ele pode auxiliar o cliente no treino das discriminações que ajudam a desenvolver o 
autoconhecimento (isto é, evidentemente, complementado por métodos padronizados de 
avaliação e diagnóstico, que o terapeuta também aprende a usar e interpretar). Skinner 
(1953, p. 287) observa que “o paciente sob psicanálise pode tornar-se altamente habilidoso 
na observação de seu próprio comportamento encoberto". 


8 “O comportamento quo denominamos conhecimento é devido a um tipo particular do relorçamento diferencial. 
Mesmo nas comunidades mais rudimentares questões tais como O que vocô foz?' ou ‘O que vocô está 
fazendo?' compelem o Indivíduo a responder a seu próprio comportamento manifesto. Neste sentido 
provavelmente ninguém ó complotamonto inconsciente. No outro extremo, uma sociedade avançada e 
relativamente nâo-prética produz o Indivíduo altamente introspectlvo ou Introvertido, cujo repertório de 
autoconhecimento se ostende ao seu comportamento encoberto - um repertório que em algumas culturas 
pode ser quase Inexistente. Um desenvolvimento extensivo do autoconhecimento é comum em certas 
culturas orientais e ó enfatizado, de tempos em tempos, nas ocidentais..,” 


156 Júlio Céwr Coelho df Rost 




3. Importância do reforço generalizado 


O controle de estímulo só é estabelecido, no entanto, atravós de reforço. No caso 
do tato, a precisão do controle pelo ostímulo discriminativo depende criticamente da 
presença de reforço generalizado no estabelecimento e manutenção deste operante. Como 
foi observado anteriormente, é o reforço generalizado que evita a influência dos estados 
momentâneos de privação do indivíduo, maximizando o controle pelo estímulo discriminativo. 

Skinner observa que um tato estabelecido através de reforço completamente gene¬ 
ralizado pode ser chamado "puro” ou "objetivo". No entanto, ainda de acordo com Skinner, 
"um reforço verdadeiramente generalizado ó, contudo, raro, e pura objetividade neste sen¬ 
tido provavelmente nunca ó alcançada”: 

”... the stimulus control may be distorted by certain special consequences 
which are supplied by a particular listener or by listeners in general underparticular 
circumstances. When the controlling relation is thus warped or distorted, we callthe 
response Subjective,' 'prejudiced,' 'biased,'or ‘wishful. 9 "(Skinner, 1957, p. 147) 

Dentre as fontes de distorção no controle de estímulo exercido sobre o tato, 
apontadas por Skinner (1957), podemos distinguir duas mais importantes, relacionadas a 
dois tipos de reforço para o comportamento de relatar. 

A primeira fonte de distorção ocorre quando o tato é mantido por reforço generaliza¬ 
do, mas este é contingente a propriedades formais da resposta, e não à correspondência 
desta com o estimulo discriminativo. As distorções mais significativas podem ocorrer 
quando o reforço ó contingente ao conteúdo da resposta verbal, independentemente da 
correspondência. Respostas verbais com determinados conteúdos tendem a receber maior 
quantidade de reforço generalizado, produzindo distorções que variam desde o exagero 
até a invenção ou mentira. Por exemplo, o falante exagera o tamanho do peixe que pes¬ 
cou, ou a força do inimigo que enfrentou. Tipicamente, os ouvintes não viram o peixe ou o 
inimigo, de modo que não têm como aferir a correspondência entre a resposta e "os fatos". 
Neste caso, a quantidade de reforço dependerá em parte do conteúdo da resposta, porque 
o relato da pesca de um peixe maior, ou da luta com um inimigo mais poderoso, tenderão 
a atrair maior atenção ou admiração (reforços generalizados). A distorção sistemática ou 
demasiada pode, no entanto, levar á deterioração do sistema social composto por falante 
e ouvinte. O ouvinte pode suspender o reforço ou até mesmo punir o falante. Exageros ou 
mentiras podem muitas vezes suscitar a desconfiança do ouvinte, o que ocorre 
freqüentemente com histórias de pescadores ou relatos de façanhas. O reforço contingen¬ 
te ao conteúdo das respostas verbais pode ser uma das razões pelas quais os sujeitos de 
pesquisas que utilizam relatos verbais tendem a mostrar um viés no sentido de relatar 
características socialmente desejáveis, como veremos adiante. 


8 "... o controlo do estimulo pode ser distorcido por cortns consequências ospocials. supridas por um ouvinte 
particular ou por ouvintes ern gorai em circunstâncias particularos Quando a relação de controle ó assim 
distorcida, nós chamamos a resposta do 'subjetiva’, preconceituosa’, viesada’ ou 'fantasiosa'.’’ 


Sobre comportamento e coflniçito 157 




Skinner observa que o reforço generalizado pode ser mais importante durante a 
aquisição do tato. Posteríormente, a resposta pode ser reforçada pelos efeitos que produz 
no ouvinte. Estes efeitos podem ser comportamentos operantes por parte do ouvinte, ou 
comportamentos emocionais manifestados por ele. Uma segunda fonte de distorção pode 
ocorrer, portanto, quando a ação a ser tomada pelo ouvinte diante de determinado estado 
de coisas tem importância especial para o falante. Determinadas ações do ouvinte podem 
constituir um reforço não generalizado, contingente a respostas com um determinado 
conteúdo. Um exemplo literário citado por Skinner ó o relato distorcido de Julieta ao dizer 
a Romeu: 7/ is the nightingale and not the lark.' Neste caso, a relação de controle de 
estímulo é distorcida porque uma resposta com esta forma pode aumentar a probabilidade 
de um comportamento especifico de Romeu - permanecer por mais tempo junto a Julieta 
- comportamento este que è particularmente reforçador para ela. 


4. Pesquisa experimental sobre relatos verbais 


O relato verbal foi descrito como um operante verbal com propriedades de tato. Isto 
permite caracterizar o tipo de contingência envolvida no estabelecimento e manutenção 
deste operante: o estímulo discriminativo é não-verbal (podendo ser externo ou interno), a 
resposta verbal guarda uma correspondôncia com o estimulo discriminativo e esta 
correspondência ó assegurada pela utilização de reforçadores generalizados. Vimos, no 
entanto, que muitos fatores tendem a produzir distorções nesta correspondência ou mesmo 
eliminá-la completamente. Quando os estímulos discriminativos para o relato são 
comportamentos do próprio indivíduo, ou variáveis de que o comportamento é função, o 
relato acurado requer também um comportamento de auto-observação, que nem sempre 
acompanha a ocorrência do comportamento de interesse. 

Considerando todos estes aspectos, o pesquisador não sabe, a rigor, quando e 
quanto pode confiar em um relato verbal. Uma forma de contribuir para a solução desta 
questão é pesquisar o próprio relato enquanto um comportamento, investigando as variáveis 
que podem afetar sua correspondência com os estímulos discriminativos. A análise anterior 
sugere algumas linhas do pesquisa potencialmente frutíferas: 

a) Investigação das variáveis que afetam o controle exercido pelo estimulo discriminativo 
sobre o relato verbal, ou, em outras palavras, a correspondôncia entre o relato e o estímulo 
discriminativo. 

b) Nos casos em que o estímulo discriminativo para o relato é um comportamento da 
prssoa que relata, pode-se investigar efeitos do relato sobre o comportamento-alvo, ou 
s ija, c :omportamento que é relatado. 

c) O comportamento de relatar pode ser reforçado ou modelado pelo pesquisador. Nestes 
casos, pode-se investigar os efeitos dos procedimentos de reforço ou modefagem sobre o 
relato e sobre os comportamentos aos quais o relato se refere. 


158 Júlio Céwr Coelho de Rose 



4.1. Estudos sobre correspondência 


As estratégias de pesquisa utilizadas pelos analistas do comportamento envolvem, 
tipicamente, uma observação precisa do estimulo discriminativo, de tal modo que a 
correspondência entre este estímulo e o relato possa ser medida. O relato é freqüentemente 
simplificado ao máximo, para evitar ambigüidade e necessidade de interpretação do seu 
conteúdo. 

Um dos mais importantes estudos sobre esta questão é o de Ribeiro (1989). Os 
sujeitos foram crianças pró-escolares. As sessões experimentais começavam com um 
período de brinquedo, em que o sujeito podia se dirigir a um armário contendo seis 
brinquedos, e retirar um deles para brincar. O sujeito podia devolver o brinquedo escolhido 
ao armário e retirar um outro. Esta situação permitia, portanto, que a criança brincasse 
com uma quantidade variável dos brinquedos disponíveis. O período de brinquedo era 
seguido por um período de relato, em que o experimentador exibia, uma de cada vez, a 
fotografia dos seis brinquedos, perguntando, diante de cada fotografia, se a criança havia 
brincado com aquele brinquedo. Após uma condição de linha de base, na qual se comprovou 
que as crianças faziam este relato com precisão, o experimentador passou a reforçar 
todos os relatos afirmativos, independentemente de correspondência. Nesta condição, 
portanto, quando o experimentador exibia a fotografia de um brinquedo, era reforçada a 
resposta de dizer que havia brincado, quer o sujeito tivesse ou não brincado com aquele 
brinquedo. Esta contingência produziu um aumento no número de relatos afirmativos. Os 
sujeitos passaram a relatar que haviam brincado com determinados brinquedos, mesmo 
quando não haviam de fato brincado. Este aumento foi mais pronunciado quando os relatos 
eram feitos em grupo, ou seja, quando cada sujeito fazia seus relatos em presença dos 
demais. Os dados mostram, portanto, que nas condições deste experimento, o reforço 
contingente a relatos com um determinado conteúdo (relatos afirmativos) produziu um 
aumento na frequência de relatos com este conteúdo e uma diminuição na correspondência. 

Critchfield & Perone (1990) mantiveram as condições de reforço constantes, mas 
manipularam o comportamento a ser relatado. Sujeitos adultos desempenhavam uma 
tarefa de escolha atrasada segundo modelo, com limite de tempo para a resposta de 
escolha. Eles recebiam pontos quando a escolha era correta e feita dentro do tempo 
estipulado. Em seguida, eles deviam relatar se haviam recebido ponto na escolha, apertando 
um dentre dois botões. Uma diminuição no limite de tempo para completar a resposta 
produzia um aumento no número de insucessos, ou seja, respostas que não recebiam 
pontos, seja por estarem incorretas, seja por ultrapassarem o limite de tempo. Assim, ao 
alterar o limite de tempo, os pesquisadores manipulavam indiretamente o comportamento 
a ser relatado. O aumento na proporção de respostas sem sucesso produziu uma diminuição 
na precisão dos relatos. Os relatos não correspondentes eram, tipicamente, relatos de 
sucesso, ou seja, os sujeitos relatavam uma resposta bem-sucedida quando haviam falhado. 
Em um estudo subsequente, Critchfield & Perone (1993) obtiveram resultados semelhantes 
quando o limite de tempo para escolha era mantido constante, e o aumento no número de 
insucessos era produzido por um aumento na complexidade dos estímulos. Estes autores 
relacionam estes resultados com a tendência dos sujeitos de relatar características dese- 


Sobrr romporf.imrnlo c cogniçAo 159 



jáveis. É provável que esta tendência seja resultado de uma história de reforço baseada, 
em parte, no conteúdo dos relatos. Assim, relatos de características ou comportamentos 
desejáveis podem ser, com alguma frequência, reforçados, mesmo quando não são cor¬ 
respondentes. Por outro lado, relatos de comportamentos ou características indesejáveis 
podem ser, com alguma froqüência, punidos, mesmo quando são correspondentes. 

De modo geral, os estudos de Ribeiro (1989) e de Critchfield & Perone (1990; 1993) 
mostram que a correspondência dos relatos com o comportamento-alvo depende de 
contingências explícitas ou implícitas. Quando o reforço é contingente ao conteúdo dos 
relatos, a correspondência tende a diminuir. 


4.2. Efeitos do relato sobre o comportamento-alvo 


A questão da correspondência diz respeito ao controle exercido pelo estímulo 
discriminativo sobre a resposta de relatar. No entanto, quando os estímulos discriminativos 
sãocomportamentos' 0 do próprio indivíduo que relata, o comportamento de relatar pode vir 
a ter efeitos sobre o comportamento-alvo, ou seja, o comportamento que é relatado. Estes 
efeitos devem ser levados em conta quando o interesse do pesquisador é no comportamento- 
alvo. 

Evidentemente, as inferências sobre o comportamento-alvo poderão ser tanto mais 
precisas quanto menos reativa tor a introdução do relato, ou seja, quanto menos interferência 
o relato produzir sobre o comportamento-alvo. Por este motivo, Erikson & Simon (1984) 
procuram desenvolver uma análise das condições em que o pesquisador pode assegurar 
que o relato é não-reativo. 

A literatura tem documentado, no entanto, muitas circunstâncias de clara 
interferência do relato sçbre o comportamento-alvo. Quando o comportamento-alvo é objeto 
de intervenção terapêutica ou educacional, uma condição em que o indivíduo é solicitado 
a relatar seu comportamento e manter registros escritos costuma produzir mudanças no 
comportamento-alvo em uma direção socialmente desejada (cf. Critchfield & Perone, 1990). 
Várias explicações têm sido oferecidas para este tipo de resultado: a) as solicitações 
para relato podem constituir uma instrução implícita que exerce controle sobre o 
comportamento-alvo; b) o relato pode ocasionar comportamentos de auto-observação, 
anteriormente ausentes; e, c) o relato pode ter propriedades de feedback, similares ao 
feedback externo, reforçando o comportamento-alvo. 

Um resultado oposto foi encontrado por Critchfield & Perone (1990). Neste estudo, 
os sujeitos desempenhavam uma tarefa de pareamento-com-modelo atrasado. A tarefa 
era tornada difícil pela diminuição do limite de tempo que os sujeitos tinham para emitir a 
resposta de escolha. Condições em que os sujeitos eram solicitados a relatar se haviam 
acertado ou não foram comparadas com condições de linha de base em que o relato não 
era solicitado. De modo geral, a condição de relato produziu um decréscimo na acurácia 
do desempenho de escolha. Critchfield & Perone atribuem a discrepância com os resultados 
relatados anteriormente à natureza da tarefa: o limite de tempo para completar a tarefa 


,0 Riqorosamente. estímulos produzidos poios comportamentos. 


160 Júlio Ccsiitir Coelho ile Roje 




introduzia uma condição em que o comportamento de auto-observação, necessário para o 
relato, competia com o comportamento de observação necessário para a escolha correta. 
Esta competição resultou em decréscimo na acurácia tanto do comportamento de esco¬ 
lha quanto do relato. 

Esta interpretação de Critchfield & Perone (1990) implica que o comportamento de 
escolha ocorria, na condição de linha de base, sem o acompanhamento de comportamentos 
de auto-observação. A tarefa dos sujeitos mudou quando eles foram solicitados a relatar; 

"... it is clear that once prompted to self-report the men began doing something 
differently. This type of effect may have implications tor concurrent verbalization 
Cthink aloud") procedures, which require subjects to verbalize aboutprivate events 
(e.g., hypotheses, rules, or self-talk) while engaging in public responses ... The 
possibility that prompts for self-reports may induce rather than simply harness self- 
observation ... cornplicates the interpretation of reported Information, unless the 
absence of reactive effects can bo demonstrated explicitly.'" (Critchfield & Perone, 
1990, p. 341, grifos no original)" 


4.3. Modelagem do conteúdo dos relatos 


Catania, Matthews & Shimoff (1982) submeteram estudantes universitários a um 
esquema múltiplo de reforço para a resposta de pressionar um botão: um dos componentes 
era um esquema de intervalo randômico e o outro componente era um esquema de razão 
randômica, e os reforços eram pontos que eram convertidos em dinheiro ao final do 
experimento. Os sujeitos poderiam ganhar pontos de modo mais eficiente pressionando 
rapidamente o botão durante o componente de razão randômica, e pressionando com 
uma taxa moderada e estável durante o componente de intervalo randômico. O 
experimentador solicitava periodicamente aos sujeitos uma descrição por escrito sobre 
como eles deveriam fazer para ganhar pontos. Um grupo de sujeitos recebia instruções 
sobre o que deveriam escrever nestas ocasiões, e estas instruções podiam ser compatíveis 
ou incompatíveis com as contingências. Para um outro grupo, o experimentador modelava 
o conteúdo das descrições, de modo a, em alguns casos, corresponder às contingências 
em vigor, e em outros casos ser incompatível com elas. Os sujeitos que tiveram as 
descrições modeladas mostraram maior correspondência entre o comportamento verbal 
(descrever) e o comportamento não-verbal (pressionar o botão), mesmo quando as 
descrições se opunham às contingências em vigor. 

Este estudo e suas replicações posteriores (Catania, Shimoff & Matthews, 1989; 
Matthews, Catania & Shimoff, 1985; Shimofl, Matthews & Catania. 1986) comprovam que 


11 "É claro que, uma voz solicitados a fazer auto-relato, os sujeitos começaram a fazer alguma coisa de 
modo diferente. Este tipo de efeito pode ter implicaçõos para procedimentos de verballzaç&o concorrente 
("ponsar alto"), que requerem que os sujeitos verbalizem a respeito de eventos privados (e.g., hipóteses, 
regras ou falar consigo mesmo) enquanto se engajam em respostas públicas... A possibilidade de que 
solicitações para auto-rolatos possam induzir a auto-observação, e nâo apenas permitir o seu monitoramento, 
... complica a interpretação da informação rolatada, a nâo ser que a ausência de efeitos reativos possa ser 
demonstrada expllcitamonto" 


Sobrr comportamento t cognifüo 161 


o relato verbal pode ser modelado. Mais ainda, estes estudos sugerem que o tipo de 
história do comportamento verbal pode modular seus efeitos, de tal modo que o comporta¬ 
mento verbal modelado pode exercer maior controle sobre o comportamento não-verbal do 
que o comportamento verbal diretamente instruído. Note-se, no entanto, que esta última 
conclusão não pode sor generalizada a partir destes estudos, conduzidos em situações 
bastante simplificadas e artificiais, e nos quais o comportamento não-verbal de interesse 
era muito simples e restrito à situação experimental. Mais pesquisas são necessárias 
para verificar se esta correspondência entre comportamento verbal modelado e comporta¬ 
mento não-verbal ocorre também em situações mais naturais. 

Nos estudos de Catania e colaboradores, o comportamento verbal foi explicitamen¬ 
te modelado pelo experimentador, que atribula pontos para descrições cu)o conteúdo se 
aproximava do conteúdo desejado. Todavia, em qualquer interação social, os participantes 
podem fornecer, muitas vezes inadvertidamente, inúmeros reforçadores que podem afetar 
o comportamento verbal ou não-verbal dos participantes. Isto provavelmente ocorre nas 
situações de coleta de relatos verbais. O pesquisador pode ínadvertidamente modelar o 
conteúdo dos relatos de tal modo que o sujeito venha a dizer aquilo que o pesquisador 
quer ouvir. Estes efeitos devem ser levados em conta quando, a partir de modificações em 
relatos verbais, são feitas inferências sobre modificações nos comportamentos-alvo. 


5. Conclusão 

A concepção comportamental considera tanto o comportamento verbal quanto o 
comportamento não-verbal como repertórios modelados pelas contingências. Estes 
repertórios interagem de maneira complexa, que também depende de contingências 
explicitamente manipuladas pela comunidade verbal e/ou de contingências implementadas 
inadvertidamente pelos participantes em interações sociais. A origem destes repertórios, 
verbal e não-verbal, e as contingências que determinam sua interação devem ser melhor 
conhecidas de modo a aumentar a validade de inferências feitas a partir de relatos verbais. 
O presente texto sumariza algumas contribuições empíricas da análise do comportamento 
para o estudo destas relações. 


Bibliografia 


CATANIA, A. C., MATTHEWS, B. A„ & SHIMOFF, E. (1982). Instructed versus shaped 
human verbal behavior: Interaction with nonverbal responding. Journal of the 
Experimental Analysis of Behavior, 38,233-248. 

_(1989). An experimental analysis of rule-governed behavior. Em S. C. Hayes (Org.), 

Rule-Govemed Behavior. Cognition, Contingencies, and Instructional Control. New 
York: Plenun. (pp, 119-150). 


162 Júlio Ccsor Coelho de Rose 



CRITCHFIELD, T. S., & PERONE, M. (1990). Verbal self-reports of delayed matchíng to 
sample by humans. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 53, 321- 
344. 

_(1993). Verbal self-reports about matching to sample: Effects of the number of 

elements in a compound sample stimulus. Journal of the Experimental Analysis 
of Behavior, 59.193-214. 

ERIKSON, K. A. & SIMON, H. A. (1984). Protocol Analysis: Verbal Reports as Data. 
Cambridge. EUA: MIT Press. 

FARDER, I. E. (1963). The things people say to themselves. American Psychologist, 18, 
185-197. 

MATTHEWS, D. A.. CATANIA, A, C„ & SHIMOFF, E. (1985). Effects of uninstructed 
verbal behavior on nonverbal responding: Coniingency descnptions. Journal of the 
Experimental Analysis of Behavior, 43, 155-164. 

PERONE, M. (1988). Laboratory lore and research practices ín the experimental analysis 
of human behavior: Use and abuse of subjects' verbal reports. The BehaviorAnalyst, 
11,71-75. 

PERONE, M., & DARON, A. (1980). Reinforcement of human observing behavior by a 
stimulus correlated with extinction or increased efforl. Journal of the Experimental 
Analysis of Behavior, 34, 239-261. 

RIBEIRO, A. F. (1989). Correspondence in children’s self-report: Tacting and manding 
aspects. Journal ot the Experimental Analysis of Behavior, 51,361 -367. 

SHIMOFF, E., Matthews, B. A., & Catania, A. C. (1986). Human operant performance: 
Sensitivity and pseudosensitivity to contingencies. Journal of the Experimental 
Analysis of Behavior, 46,149-157. 

SKINNER, B. F. (1953). Science and Human Behavior. New York: Macmillan. 

(1957b Verbal Behavior. New York: Appleton-Century-Crofts. . 


Sobre comportamento e cofjnlçAo 



Seção V 


O inundo dentro da 

pele 



Capítulo 18 


Sobre a incidência do operacionismo na 

Psicologia 

hiir Lopes Júnior 1 
Wncsp/Cimpus Bauru 


Enquanto área de conhecimento, provavelmente uma das características mais 
salientes da Psicologia está concentrada na diversidade com a qual se pode definir aquilo 
que se estuda quando se diz que se estuda Psicologia. 

Esta diversidade, por seu turno, ó expressa pelos diferentes programas ou projetos 
que objetivaram atribuir à Psicologia o status de disciplina científica. Lograr tal intento 
impunha a necessidade de definições suficientemente precisas e informativas para 
especificarem e caracterizarem os objetos de estudo, as técnicas e os procedimentos de 
pesquisa e de produção de conhecimento compatíveis com os preceitos epistemológicos 
destes programas. 

O Operacionismo se insere exatamente nesta temática: como definir os conceitos 
de uma disciplina científica, ou quais as características principais da linguagem na qual 
tais conceitos são definidos? 


' Unesp/FC/Departamento de Psicologia. Av. Eng. Luiz Edmundo Carrljo Coube s/n. Bauru, SP. CEP 17033- 
360. Fone: (0142) 302111 R 149 E-mail; jairpslOazul.bauru.unesp.br 


Sobre comportamento e cognição 167 




Originalmente, o Operacionismo constituiu-se num conjunto de princípios proposto 
pelo físico Percy W. Bridgman na obra The Logic of Modern Physics, publicada em abril de 
1927. Nesta obra, Bridgman apresentou os princípios diretamente relacionados com o 
procedimento a ser adotado na atribuição de significados a termos ou conceitos das 
ciências empíricas, e de modo mais específico, no domínio da Física. Dito em outros 
termos, operacionismo caracteriza uma tradição de investigação filosófica voltada para a 
especificação dos critérios necessários e suficientes para a formulação de definições 
científicas de conceitos empíricos. Tais definições foram denominadas por definições 
operacionais. 

Definir operacionalmente um conceito correspondia a identificar e descrever as 
operações envolvidas na mensuração das dimensões físicas às quais tal conceito faz 
referência. Deste modo, o significado científico de um conceito estaria circunscrito às 
operações de mensuração. 

A partir da década de 30, registrou-se uma expressiva receptividade da Psicologia 
aos princípios propostos por Bridgman. 

A adesão dos psicólogos foi tão representativa que, em algumas análises históricas 
da literatura pertinente, esta adesão foi denominada por utopia operacional (Israel e 
Goldstein, 1944; Kantor, 1938). A utopia operacional consistia em acalentar expectativas 
de que o operacionismo seria capaz de silenciar as controvérsias inúteis, proporcionar 
completa concordância entre psicólogos, dirimir problemas relativos ao dualismo que se 
fundamentavam na privacidade e na natureza metafísica dos conceitos mentalistas como, 
por exemplo, consciência, além de fornecer as bases legítimas necessárias de modo a 
conferir à Psicologia o status inabalável de disciplina científica 2 . 

A incidência do Operacionismo na Psicologia veio a se constituir em tema de 
vários debates e controvérsias, sendo que, provavelmente, o mais representativo tenha 
sido o Simpósio sobre o Operacionismo, proposto por Edwin Boring e publicado em setembro 
de 1945 no periódico Psychological Review. Seguramente, constituir-se-ia uma tarefa 
deveras difícil apresentar o produto destes debates dentro dos limites desta sessão. 3 

Optamos, assim, pela exposição sintética de três diferentes sentidos (significados 
ou características) atribuídos ao termo Operacionismo no âmbito da Psicologia. 


2 Uma análise histórica mais detalhada certamente devería considerar vários fatores que permitiriam uma 
melhor compreensão das condições diante das quais ocorreu a utopia operacional, como. por oxomplo, a 
necessidade de mensuração de fenômenos comportamentals estudados em laboratório, como o reflexo e 
as capacidades sensorials no domínio da psicofíslca de S. S. Stevens. e concomitantemente, a ascensão 
das teses do positivismo lógico e o ôxodo dos principais filósofos e cientistas membros e simpatizantes do 
Círculo de Viena para os Estados Unidos, motivados pela disseminação do anti-semitismo na Europa (Srnith, 
1986). De igual pertinência sâo os comentários críticos apresentados por Bridgman (1945) acerca das 
expansões (ou distorções) efetuadas na suo proposta original. 

1 Cabe destacar que esta apresentação Introdutória sobre a Incidência do Operacionismo na Psicologia náo 
acrescentará informações originais àquelas já existentes na extensa bibliografia acerca deste tema (Allen, 
1980; Bergman e Spence, 1951; Coleman, 1985; Day, 1969; Ellis, 1968; Flonagan, 1980, Israel o Goldstein, 
1944; Leahey, 1980; Moore, 1975; 1985; Rogers, 1989; Srnith, 1986; Stevens, 1939, Zuriff, 1985). Priorizar 
us questões polêmicas emorgontes da bibliografia mencionada e arriscar análises adicionais, supostamente 
originais, poderiam comprometer os objetivos desta modalidade de sessão, assim como desrespeitar os 
limites impostos a ela. 


168 J«iir Lopes Júnior 


Num primeiro sentido, definir operacionalmente implica a indicação dos correlatos 
comportamentais publicamente observáveis especificados por um.dado conceito. A definição 
operacional de conceitos que usualmente informam sobre estados emocionais, por exemplo, 
consistia na indicação e na especificação das alterações registradas na estabilidade de 
determinados repertórios, assim como da topografia das respostas publicamente 
observáveis e que muitas vezes fazem referência à ação do sistema nervoso autônomo 
sob a forma de taquicardia, respiração ofegante, palidez, sudorese, tremores e náuseas. 

Mas o termo operacionismo admite também uma segunda caracterização. Em 
alguns manuais de metodologia científica (Kerlinger, 1980) ou mesmo de Psicologia 
Experimental (McGuigan, 1976), definir operacionalmente um conceito implica a 
especificação das operações necessárias não apenas para medir fenômenos 
comportamentais publicamente observáveis, mas também na indicação das operações 
que produzem tais fenômenos. A título de ilustração, o termo frustração foi definido 
operacionalmente por qualquer operação de impedimento ou interferência na ocorrência 
de uma resposta (resposta de objetivo) diante de situações ambientais que sinalizassem 
elevada probabilidade da ocorrência desta resposta reduzir (ou eliminar) uma força de 
instigação que lhe é antecedente (Dollard, Doob, Miller, Moorer e Sears, 1976). 

Em conjunto, estas duas caracterizações definem a interpretação convencional 
do Operacionismo (cf. Moore, 1975; 1985). 

De acordo com a interpretação convencional, definir operacionalmente um conceito 
consiste em estabelecer relações de correspondência entre o termo e eventos publicamente 
observáveis, sejam tais eventos padrões comportamentais ou as operações a partir das 
quais tais padrões foram produzidos. Estas relações de correspondências cumpriam, em 
última instância, a função de viabilizar consensos entre os pesquisadores, satisfazendo o 
principal critério de cientificidade de algumas abordagens da Psicologia, em especial do 
Behaviorismo Metodológico. 

A terceira caracterização do Operacionismo, cujo principal proponente foi B.F. 
Skinner (1945; 1953; 1957), está em franca oposição à interpretação convencional, ou 
mais precisamente, ao estabelecimento de relações de correspondência entre um conceito 
e suas referências, bem como ao critério de cientificidade por consensos ou concordâncias 
intersubjetivas (cf. Malerbi e Matos, 1992; Matos, 1992). 

Segundo Skinner (1945), a atitude operacional sustenta grande relevância em 
qualquer ciência, mas em especial na Psicologia, em razão da presença de um vocabulário 
vasto de origem muito antiga e não científica. Entretanto, a proposta original de Bridgman, 
segundo a qual um conceito seria sinônimo de um conjunto correspondente de operações, 
não poderia ser considerada literalmente. Diferentemente da interpretação convencional, 
Skinner argumenta que vantagens consideráveis seriam obtidas se conceitos e constructos 
fossem analisados exatamente na forma na qual estes são observados, a saber, como 
respostas verbais. 

Segundo Skinner (1957), 

as teorias do significado usualmente consideram o comportamento do ouvinte e do 
falante simultaneamente. A prática é encorajada pela noção do ‘uso de palavras'a 
qual parece libertar a palavra do comportamento do falante ou do ouvinte, de modo 
que ela possa estarem alguma relação de referência com um objeto. A resposta 


Sobrr comport.imciito c cojjniçJo 169 



do ouvinte a um tato é obviamente influenciada pela correspondência entre a forma 
da resposta e o estímulo controlador, mas o lugar desta correspondência no 
comportamento do falante raramente foi analisada. A substituição de um estímulo 
por outro no reflexo condicionado sugeriu uma base biológica para a noção de 
referência. Assim, J. B. Watson argumentou que as palavras funcionam de modo a 
evocar respostas exatamente como fazem os objetos para os quais as palavras 
servem de substitutos, (p. 86) 

Em oposição à interpretação convencional que se fundamenta no estabelecimento 
de relações de referência no sentido criticado na citação anterior, a versão do Operacionismo 
proposta por Skinner consiste na análise funcional das contingências de reforço diante 
das quais são adquiridos e mantidos repertórios verbais. 

"Mas de que modo uma palavra 'substitui' uma coisa ou 'significa' o que o 
falante tem a intenção de dizer, ou comunica alguma condição de uma coisa a um 
ouvinte nunca foi satisfatoriamente estabelecido. A noção de operante verbal traz 
estas relações para o escopo dos métodos de uma ciência natural. Como um 
estímulo, ou alguma propriedade de um estímulo adquire controle sobre uma dada 
forma de resposta está agora melhor compreendida. A forma de uma resposta ó 
modelada pelas contingências predominantes numa comunidade verbal. Uma 
determinada forma ó colocada sob controle de estímulos através do reforçamento 
diferencial das nossas contingências de três termos ". (Skinner, 1957; p. 114-115) 

Salienta Skinner (1957), na seqüência, que: 

"As propriedades de um estímulo relevantes na evocação de uma resposta, 
quer para o falante individual, quer de acordo com a prática de uma dada comunidade, 
só podem ser descobertas considerando-se uma série de ocasiões nas quais as 
propriedades são sistematicamente variadas e a presença ou ausência da resposta 
é notada. Não podemos resolver esse problema dando à propriedade relevante uma 
espécie de status de objeto, como um ‘conceito’ ou 'abstração' - dizendo que a 
resposta vermelho refere-se ao 'conceito de vermelho’ ou à ‘vermelhidão’ de algo. 
Nunca reforçamos uma resposta quando um ‘conceito’ está presente; o que está 
presente é um estímulo particular. O referente do um tato abstrato, se é que este 
termo tem algum sentido, é a propriedade, ou con/unto de propriedades sobre a 
qual o reforço é contingente, controlando, por isso, a resposta. Podemos dizer que 
o referente é a classe de estímulo definida por tal propriedade ou propriedades, 
mas há poucas razões para se preferir classes a propriedades. A propriedade 
correlacionada com o reforço deve ser especificada em termos físicos, se quisermos 
permanecer dentro dos quadros dè uma ciênpia empírica ". (p. 117) 

Poderíamos admitir que ao se opor à interpretação convencional do operacionismo, 
Skinner propõe a identificação precisa das propriedades do ambiente correlacionadas 
com a ocorrência do reforçamento como o procedimento capaz de fornecer um vocabulário 
descritivo para uma ciência empírica do comportamento comprometida com a predição e 
o controle do seu objeto de estudo. 

A versão do Operacionismo proposta por Skinner se aplica à descrição das relações 
de controle de estímulo envolvidas na aquisição de operantes verbais sob controle de 


170 Kiir Loprs júnior 



estimulação pública, tanto quanto de estimulação privada, ou seja, de estimulação à qual 
apenas o falante tem acesso. Deste modo, a definição operacional de termos ou expressões 
comumente empregadas para descrever (ou informar sobre) "vivências interiores", ou dito 
em outros termos, um conjunto de estimulação existente sob a pele do falante, remete- 
nos para uma análise das contingências de reforçamento predominantes por ocasião da 
aquisição, bem como daquelas que mantém este repertório verbal autodescritivo, 
ressaltando-se o papel da comunidade verbal nesta aprendizagem. (Malerbi e Matos, 1992; 
Skinner, 1945; 1953; 1957) 

Visto que o controle exercido por um estímulo ou por uma relação entre estímulos 
não se constitui num processo exclusivamente seletivo (cf. Matos, 1981), o repertório 
verbal sob controle de estímulo, como bem salienta Skinner (1957), não se equivale a algo 
tão preciso e linear quanto uma lista de passageiros num avião, na qual um nome (ou, um 
operante verbal) corresponde a uma pessoa (um único estímulo ou propriedade), sem 
omissões ou repetições. No estudo dos operantes verbais sob controle de estimulação 
privada, ou dito de outro modo, na definição operacional de conceitos que informam sobre 
"vivências interiores", este princípio assume particular relevância. 

A título de ilustração, a definição (ou o significado) de algumas expressões 
constituintes de um repertório autodescritivo, como por exemplo, "humor deprimido", "visão 
turva", "saudade aguda", "rospiração agitada", "estômago embrulhado", dentre outras, pode 
ser descrita pela emissão dos mesmos operantes verbais que foram originalmente adquiridos 
diante de estimulação exteroceptiva (publicamente observável) e que, por sua vez, apresenta 
alguma semelhança com estimulações privadas de natureza interoceptiva, nociceptiva e 
proprioceptiva, a qual, entretanto, a comunidade verbal que reforçou diferencialmente não 
tinha acesso. Teríamos aqui uma modalidade de operante verbal - tato estendido - 
denominada por extensão metafórica (Skinner, 1957; p. 92 e segs.). 

Mas o operante autodescritivo "uma saudade aguda”, por exemplo, admitiria uma 
outra definição operacional, ou seja, uma outra análise funcional das contingências de 
reforçamento em vigor por ocasião da aquisição do repertório verbal a ser definido: o operante 
verbal "saudade aguda" poderia evidenciar relações de controle estabelecidas por uma 
comunidade verbal antes mesmo de a resposta recuar para o mundo privado. Como sugere 
Skinner (1957), 

"Se a resposta aguda ó, phmeiramente, adquirida em conexão com certos 
objetos que possuam propriedades físicas identificáveis, não relacionadas com 
seu efeito sobre o organismo humano - por exemplo, se uma agulha é chamada de 
aguda quando apresenta certo modelo geométrico ou quando penetra facilmente no 
papel ou num tecido, ou se uma faca è chamada de aguda quando corta com 
facilidade a lenha, então a extensão da resposta para certo tipo de estímulo... ó 
metonímica. Certos estímulos costumam ser associados com objetos que possuem 
certas propriedades geométricas e, por isso, a resposta é transferida de um para 
outro. Isto ô agudo torna-se sinônimo de Isto machuca, quando originalmente só 
era sinônimo do Isto tem uma ponta fina ou ... um gume afiado. Apesar de a 
comunidade nunca ter acesso a algo mais além da forma geométrica da ponta, ou 
do gume, ou de seus efeitos sobre a superfície do falante, a resposta Isto ô agudo 
no sentido de Isto machuca é presumivelmente efetiva e pode continuar a ser 
reforçada." (p. 132-133) 


Sobre comportamento c cognição 171 



Em síntese, o Operacionismo, nas suas diferentes versões ou características, 
cumpre a função de salientar a importância do modo como falamos ou definimos aquilo 
que pretensamente estudamos no âmbito de uma determinada disciplina científica. No 
caso da Psicologia, definir operacionalmente um conceito pode significar a descrição da 
topografia de padrões comportamentais públicos aos quais os conceitos fazem referência, 
a indicação das operações que produzem tais padrões comportamentais, ou a identificação 
das contingências de reforçamento que descrevem as relações de controle de estímulo 
envolvidas na emissão dos conceitos em questão. 

No âmbito da Psicologia, a pertinência de um rocurso metodológico que assegu¬ 
rasse consistência e validade científica aos conceitos usualmente empregados se esta¬ 
beleceu com significativa unanimidade. As versões expostas, contudo, foram e se man¬ 
têm plenamente passíveis de criticas que acusem seus méritos, mas principalmente, 
seus limites e implicações. 

Seguramente, enquanto recurso metodológico, a definição operacional dos 
conceitos emitidos na execução de um trabalho experimental ou de uma intervenção 
profissional não é suficiente para assegurar êxito ou mesmo para simplificar o rigor das 
análises exigidas. Entretanto, pareco-nos difícil supor que uma execução proficiente destas 
atividades possa prescindir deste importante recurso metodológico. 


Bibliografia 

ALLEN, H.J. (1980) P.W. Dridgman and B.F. Skinneron private experience. Behaviorism, 
8(1), 15-29. 

BERGMAN, G.; Spence, K.W. (1951) Operationism and theory construction. In M. H. 
Marx (Ed.) Psychological Theory. (p. 54-66) New York: The Macmillan Company. 

BRIDGMAN, P.W. (1945) Some general principies of Operational Analysis. Psychological 
fíeview, 52,247-249. 

_(1928) The Logic of Modem Physics. New York: The Macmillan Company. (A 

edição original foi publicada em 1927) 

COLEMAN, S.R. (1985) When historians disagree: B.F. Skinnerand E.G. Boring, 1930. 
The Psychological Record, 35, 301 -314. 

DAY, W. (1969) On certain similarities between the Philosophical Investigations of Ludwig 
Wittgenstein and the Operationism of B.F. Skinner. Journal of the Experimental 
Analysis of Behavior, 12, 489-506. 

DOLLARD, J.; DOOB, L; MILLER, N.; MOWRER, O.; SEARS. R. (1976) Frustração e 
agressão. In E. I. Megargee e J. Hokanson (Eds.) A dinâmica da agressão. 
(p. 27-39) São Paulo: EPU/Edusp. 

ELLIS, A. (1968) An operational reformulation of some of the basic principies of Psycho- 
analysis. In H. Feigl e M. Scriven (Eds.) Minnesota studies in the Philosophy of 
Science, (vol. 1; p. 131 -154) Minneapolis: University of Minnesota Press. 


172 l<iir Lopes Júnior 



FLANAGAN, O.J. (1980) Skinnerian metaphysics and (he problem of operationism. Be - 
haviorism, 8 (1), 1-13, 

ISRAEL, H.; GOLDSTEIN, D. (1944) Operationism in Psychology. Psychological Review, 
51.177-188. 

KANTOR, J.R. (1938) The operational principie in the physical and psychological Sciences. 
Psychological Record, 2, 3-32. 

KERLINGER, F. (1980) Metodologia da pesquisa em ciências sociais: Um tratamento 
conceituai. São Paulo: EPU/Edusp. 

LEAHEY.T. (1980) The myth ot operationism. The Journal of Mind and Behavior, 1,127- 
143. 

MALERBI, F.; Matos, M.A. (1992) A análise do comportamento verbal e a aquisição de 
repertórios auto-descritivos de eventos privados. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 
8 (3), p. 407-421. 

MATOS, M.A. (1995) Dehaviorismo Metodológico o Behaviorismo Radical. In B. Rangé 
(Org.) Psicoterapia Comportamental e Cognitiva: Pesquisa, prática, aplicações 
eproblemas. Campinas: Editorial Psy II. (p. 27-34) 

_(1981) O controle de estímulos sobre o comportamento. Psicologia, 7 (2), 1*15. 

MOORE, J. (1975) On the principie of operationism in a Science of behavior. Behaviorism, 
3, 120-138. 

_(1985) Some historical and conceptual relations among Logical Positivism, 

Operationism and Behaviorism. The Behavior Analyst, 8(1), 53-63. 

ROGERS, T. (1989) Operationism in Psychology: A discussion of contextuai antecedents 
and an historical interpretation of its longevity. Journal of the History of Behavioral 
Sciences, 25,139-153. 

SKINNER, B.F. (1945) The operational analysis of psychological terms. The Psychological 
Review, 52 (5). 270-277; 291-294. 

_(1953) Science andhuman behavior. New York: The Macmillan Company. 

_(1957) Verbal behavior. New York: Applenton-Century-Crofts. 

SMITH, L. (1986) Behaviorism and Logical Positivism. Stanford: Stanford University Press. 

STEVENS, S.S. (1939) Psychology and the Science of Science. Psychological Bulletin, 
36 (4), 221-263. 

ZURIFF, G.E. (1985) Behaviorism: A conceptual reconstruction. New York: Columbia 
University Press. 


Sobre comporf.imcnlo c cogniçAo 173 



Capítulo 19 


Eventos privados em uma ciência do 
comportamento' 

Emniiinucl Zugury lourinlio v 
UF PA 


E m 1945, Skinner participou de um Simpósio sobre operacionismo, apre¬ 
sentando um trabalho intitulado “A análise operacional de termos psicológicos" (Skinner, 
1945). Nesse trabalho, ele defendia a idéia de que uma ciência do comportamento poderia 
dar conta da chamada subjetividade ou interioridade humana. Ele preferia falar em eventos 
privados, por entender que tudo se resumia a comportamentos e estímulos que se 
diferenciavam apenas por ocorrerem no interior de cada um. Mas insistia que, ao contrário 
do que Watson afirmara em seu manifesto behaviorista (Watson, 1913) e ao contrário do 
que acreditavam alguns outros behavioristas contemporâneos seus (Boring e Stevens, em 
particular), a privacidade era um problema que podia ser tratado por uma ciência do 
comportamento. 


1 Trabalho apresentado no IV Encontro Brasileiro do Psicoterapia e Medicina Comportamental, Campinas, 
1995. 

2 Departamento de Psicologia Social o Escolar da Universidade Federal do Pará. Endereço para 
correspondência: Trav Mauriti, 3275, Apto 1501 Marco. 66 095-360, Bolem, Pará 


174 hmmiinutl Z.iflury Tourmho 



Passados exatos 50 anos, é o caso de se perguntar: será que a Psicologia enquanto 
ciência do comportamento de fato progrediu no sentido de introduzir em seu campo de 
investigação e/ou intervenção o problema da subjetividade humana? Antes que possamos 
antecipar uma resposta a esta pergunta, permitam-me colocá-la de outro modo: 
considerando-se que a subjetividade é um problema que se impõe ao psicólogo, sobretudo 
na atividade clínica, quantos terapeutas que trabalham com o referencial da análise do 
comportamento sabem oxatamente o que fazer com respeito aos sentimentos e 
pensamentos de seus clientes e consideram que o Behaviorismo Radical foi capaz de 
produzir um suporte conceituai suficiente para orientar a intervenção nesse campo? 

Não pretendo responder a nenhuma das duas perguntas, ató por que não tenho 
(in)formação suficiente para isso. Mas me arriscaria a afirmar que a problemática da 
subjetividado continua, para a análiso do comportamento, tão desafiante hoje quanto há 
50 anos. O que procurarei apresentar são alguns pontos principais da proposta skinneriana 
e alguns problemas que precisariam ser melhor explorados nesse contexto. Como se 
trata de um assunto razoavelmente complicado, dividi minha exposição em quatro partes 
e tentarei ir indicando quando passo de um ponto para outro. As partes são as seguintes: 

a) Considerações preliminares sobre a proposta Behaviorista Radical para a análise da 
privacidade. 

b) A relação entre privacidade e comportamento no behaviorismo skinneriano. 

c) A relação entre privacidade e comportamento verbal no behaviorismo skinneriano. 

d) Desafios teóricos e metodológicos na análise dos eventos privados. 

Passo, então, ao primeiro ponto. 


1. Considerações preliminares sobre a proposta behaviorista 
radical para a análise da privacidade 


Antes de entrar nas proposições de Skinner, acho importante esclarecer meu 
ponto de partida; isto é, algumas idéias que norteiam minha compreensão da abordagem 
behaviorista para a privacidade e que, de certa forma, constituem meu viés teórico. Chamei 
a isso de “considerações preliminares” na falta de um termo melhor, mas elas estão 
basicamente resumidas em quatro pontos: 

• A objeção do Behaviorismo Radical às abordagens psicológicas centradas na problemática 
da subjetividade ó, antes de tudo, uma objeçào a qualquer concepção internalista de 
homem. Podemos considerar internalistas todas as abordagens que recorrem a "condições" 
do próprio indivíduo na explicação de seu comportamento, sejam essas condições 
entendidas como estados, processos ou entidades interiores, e sejam elas referidas em 
termos de mente, cérebro ou cognição. Ao rejeitar o internalismo. a proposta behaviorista 
radical aparece sob a forma de um questionamento da crença na autodeterminação do 
comportamento. É bem verdade que a posição internalista não deve ser entendida num 
sentido estrito, como envolvendo uma crença ingênua na autodeterminação, visto que 


Sobre comportamento e cogniçiio 175 



muitas vezes o interno é concebido como determinado, em última instância, pelo mundo 
externo ao indivíduo. Mas também ó verdade que na perspectiva internalista o foco da 
análise psicológica continua localizado no interior de cada um, atribuindo-se ao ambiente 
externo um papel secundário na explicação do comportamento. No Behaviorismo Radical, 
ao contrário, é nas relações com o ambiente externo que devem ser buscadas as 
explicações pertinentes para o fenômeno comportamental. 

• Ao se voltar para os determinantes externos do comportamento, a análise do comporta¬ 
mento evidenciou progresso significativo na compreensão do fenômeno comportamental, 
inclusive humano, e mesmo na produção de uma tecnologia comportamental. Isso sugere 
(ou demonstra, como queiram) que um progresso científico na direção de uma maior 
capacidade de previsão e produção do comportamento pode independer da análise do que 
eventualmente esteja ocorrondo no interior de cada um - e isso faz muito sentido para uma 
abordagem que entende o comportamento como função do interações do organismo com 
condições externas a si, e nâo como o resultado de seus desejos, vontades, pensamen¬ 
tos, etc. Por outro lado, não se pode confundir esta argumentação com a afirmação de 
que nada ocorre no interior de cada um (embora ela possa dar origem àquela idéia pró- 
skinneriana de que uma ciência de comportamento deve deixar de lado o problema da 
subjetividade). 

• Não há nada, em uma concepção externalista do comportamento, que justifique a recu¬ 
sa em analisar o comportamento verbal supostamente descritivo de eventos internos. 
Sendo comportamento, este também é um material do qual o analista comportamental 
deve dar conta. O que deveria diferenciar o behaviorista, neste caso, é exatamente sua 
interpretação externalista para o fenômeno. 

• O conceito de eventos privados pode ser um conceito útil para demarcar a posição do 
Behaviorismo Radical com respeito a problemas tradicionais da Psicologia. Mas ó importante 
ir além das afirmações de caráter mais geral, diferenciando os fenômenos submetidos a 
esse conceito. É importante notar, por exemplo, que quando falamos de uma angústia não 
estamos falando de um fenômeno do mesmo tipo de um nervo dentário inflamado. Por 
outro lado, convém também diferenciar estímulos e comportamentos privados com respeito 
a alguns aspectos: quando se fala de comportamentos privados, ó comum tratar-se de 
comportamentos que retrocederam ao nível encoberto, o mesmo não podendo ser dito 
com respeito às chamadas estimulações internas. Esse tipo de "arrumação conceituai" 
das análises de Skinner ó indispensável para que se possa superar a dificuldade em 
sistematizar uma postura behaviorista, com respeito à privacidade, que possa subsidiar o 
trabalho, por exemplo, do terapeuta comportamental. 

Colocadas essas premissas, podemos iniciara análise dos eventos privados tal 
como ela aparece nos textos de Skinner. A discussão de Skinner articula-se em torno de 
dois temas principais. Primeiro, o que, afinal, vem a ser a privacidade, e qual a sua relação 
com o comportamento humano público. E, segundo, como aprendemos a falar sobre os 
eventos privados. Vou mo deter, por enquanto, no primeiro toma. 


176 hmm.imiol Z.iRury iourinho 



2 . 


A relação entre privacidade e comportamento no Behaviorismo 
Skinneriano 


Corno apontado antes, a noção do privacidade, para Skinner, diz respeito apenas 
a uma questão de acesso. O privado é aquilo que só está acessível de forma direta ao 
indivíduo no interior do quem ole ocorre. E apenas nesse sentido que há uma diferença 
entre público e privado. O privado é tão físico quanto o evento público e pode ser 
iqualmente interpretado com os conceitos do uma ciência do comportamento, isto ó, 
pode ser interpretado em termos de estímulos e respostas cuja única especificidade 
reside em seu caráter de inacessibilidade à observação pública direta. 

O pensar exemplifica um comportamento encoberto, assim como um nervo 
inflamado pode exemplificar uma estimulação encoberta. Os sentimentos também são 
interpretados, em algumas circunstâncias, em termos de estímulos privados, porém 
Skinner adverte que não se trata de estímulos determinantes do comportamento, mas 
sim subprodutos das contingências do reíorçamento. Talvez esta idéia possa ficar mais 
clara com a visualização da Figura 1. 




, SI 


História prévia 


-> R 

-> SR 


Figura 1: Interpretação behaviorista para a rolação ontro sontimonto e comportamento. 


Suponha que o comportamento em foco seja a realização de um tarefa escolar, 
por exemplo a leitura de um texto em voz alta. O SD pode corresponder a uma solicitação 
da professora ao aluno; SI corresponde a uma estimulação interior do indivíduo, por exemplo 
um sentimento de satisfação ou de medo; R corresponde ao comportamento de ler ou de 
recusar-se a ler; e SR, às conseqüências que se seguem ao comportamento do aluno. 
Qualquer que seja a resposta (R) emitida pelo aluno, a leitura ou a recusa em ler, ela deve 
ser interpretada, segundo Skinner, em termos das relações assinaladas no retângulo 
horizontal. Isto é, o comportamento deve ser considerado não enquanto o resultado de um 
sentimento, soja elo de medo ou de satisfação, mas enquanto determinado pelas relações 
com condições ambientais antecedentes e consequentes, a partir de uma história prévia 
de interação com circunstâncias semelhantes. Um mentalista, ao contrário, tenderá, 
segundo Skinner, a analisar o comportamento em termos de uma relação no retângulo 
vertical. Por exemplo, ele interpretará uma recusa em ler como determinada pelo medo do 
aluno. Acontece que, para Skinner, não existe naquele retângulo uma relação de 
determinação, mas. quando muito, uma relação temporal que não interfere nas relações 
de controle. Os eventos determinantes, por outro lado, estão fora do retângulo vertical. 
Sobre essa questão, Skinner (1953/1965) afirma o seguinte: 

“A prática de buscar dentro do organismo uma explicação para o comportamento 
tende a obscureceras variáveis que estão disponíveis de forma imediata para uma 


^obrc comporl.imcnlo e roRiiiç.lo 


177 




análise científica. Estas variáveis se encontram fora do organismo, em seu ambiente 
imediato e em sua história ambiental.(p.31) 

Skinner rejeita a alternativa internalista, então, pelo fato de ela se distanciar da 
análise do controle ambiental a que o comportamento humano está submetido. Para ele, 
quando o homem explica suas ações em termos de seus próprios sentimentos ou 
pensamentos, ele opta por uma alternativa bastante sedutora, na medida em que o faz 
pensar que ó senhor de seus próprios atos. Mas ele paga por isso o preço do 
desconhecimento acerca da real determinação de suas ações, e confinado a tal 
desconhecimento torna-se incapaz de reagir ao controle, do buscar estratégias de 
contracontrole. Seus problemas passam a ser vistos como uma questão de mudar a 
“mentalidade", os “sentimentos", etc., e não como uma questão de alteração das relações 
de controle. 

Observem que neste tipo de discussão falta uma melhor caracterização do que 
está sendo chamado de privado. Não se pode simplesmente falar do privado como 
subproduto das contingências porque nem sempre é isso que ocorre. Por exemplo, se o 
privado for um comportamento, ele é parte da contingência e não subproduto. Ele pode. 
também, ser uma parte da contingência relacionada à determinação de comportamentos 
públicos. Isso ocorre, a propósito, no caso da resolução do problemas, onde se tem uma 
cadeia de eventos que se encerra com um comportamento público, mas que tem como 
um de seus elos um outro comportamento que pode ser privado. A Figura 1 mostrada 
anteriormente não valeria, então, para situações desse tipo, que seriam melhor ilustradas 
como na Figura 2, a seguir; 


SD 

- i RI 

> R2 

) SR 






Figura 2: Exemplo de tipo de contingência em vigor na situação do rosolução do probloma 


Onde o SD, R2 e SR podem ser públicos, mas RI pode ser privada. É isso que 
ocorre, por exemplo, quando uma resolução de problema envolve um comportamento de 
pensar que e privado. 

Mesmo que falemos apenas de estimulação privada, também não ó possível 
caracterizá-la sempre como subproduto das contingências. Isso porque a estimulação 
privada pode vir a ser tanto um estímulo discriminativo quanto um estímulo reforçador para 
uma instância comportamental qualquer. 

Como se pode notar, a idéia de privado como subproduto de contingências 
ambientais pode ser muito útil para afirmar certas idéias da análise do comportamento, 
mas requer um esforço adicional na delimitação de seu escopo. Uma saída, talvez, seja 
supor que o privado é subproduto das contingências apenas quando se trata de condições 
corporais do organismo. Não é incoerente supor que o organismo humano sofro mudanças 
em sua estrutura e em seu funcionamento, ao longo de sua história de interação com o 
mundo, e que essas mudanças não são os determinantes dos comportamentos públicos, 
mas apenas um outro produto da interação com eventos ambientais que alteram o organismo 
também em termos de sua probabilidade de resposta. 


178 I mm.muel Z.ijjury louniilio 




Passo, agora, ao segundo tema em que Skinner se concentra ao tratar dos eventos 
privados e que mo parece não plenamente explorado pelos behavioristas: o problema de 
como aprendemos a falar desses eventos. 


3. A relação entre privacidade e comportamento verbal no 
Behaviorismo Skinneriano 


Gostaria de introduzir este tema com uma consideração que, apesar de sua provável 
obviedade, nem sempre ó levada em conta. O Behaviorismo Radical nunca negou que 
quem se comporta é um organismo dotado de uma estrutura e de funções que constituem 
a base biológica do fenômeno comportamontal. Entretanto, as alterações corporais de um 
indivíduo não constituem o objeto de estudos de uma ciência psicológica. Elas são 
alterações fisio-químicas e, enquanto tais, pertencem ao campo de estudos da Fisiologia 
ou da Neurofisiologia. Com isso, não quero dizer que as condições corporais de um indivíduo 
são irrelevantes para o psicólogo, mas apenas que não constituem, em si, um objeto da 
Psicologia. (Quanto elas interessam, inclusive na situação de psicoterapia, me parece ser 
uma outra discussão, que nos desviaria, nesse momento, do nosso objetivo). Portanto, 
quando se fala de privacidade enquanto problema psicológico, não ó das condições corporais 
que estamos falando. Quando os eventos internos são colocados como problema para a 
Psicologia, o que se pode indagar é como os indivíduos reagem às condições corporais e 
em que medida isso entra no controle de seus comportamentos públicos. Talvez se possa 
fazer, aqui, uma distinção entre o privado enquanto condições corporais e o privado enquanto 
sentimentos e pensamentos. O primeiro é objeto da Fisiologia e, o segundo, da Psicologia. 
Nesse caso, o privado de que a Psicologia se ocupa, tanto quanto qualquer fenômeno 
comportamental, tem uma base fisiológica, mas não se resume a isso. Ele envolve uma 
aprendizagem comportamental. A fim de evitar confusão conceituai, a partir deste ponto, 
passarei a chamar de eventos privados apenas o que se caracteriza como fenômeno 
psicológico, e chamarei o que pertence ao campo da Fisiologia simplesmente de condições 
corporais. Com isso, já estou sugerindo que sentimentos e pensamentos não se confundem 
com condições corporais. 

Numa perspectiva comportamental, é apenas a partir de contingências sociais 
que os indivíduos vêm a reagir de um modo particular a suas condições corporais; as 
contingências e os modos de reação, por outro lado, são verbais. Notem que, quando se 
tem um relato, não se está mais lidando com a condição corporal em si, mas com uma 
reação discriminativa a um set de estímulos que pode envolver aquela condição, embora 
não esteja limitado a ela. Sendo assim, a privacidade constitui um fenômeno de interesse 
para a ciência do comportamento, mas enquanto investigação das condições em que os 
indivíduos vêm a reagir discriminativamente a certas condições pessoais. Em 1945, Skinner 
já havia notado esta particularidade da análise psicológica da privacidade. Dizia ele que: 

"o único problema que uma ciência do comportamento pode resolverem conexão 
com o subjetivismo é no campo verbal. Como podemos explicar o comportamento 
de falar sobre eventos mentais?" (Skinner, 1945, p.294, grifo acrescentado) 


Sobro comportamento c cofliilç.lo 



Dizer que as contingências sociais e o modo de reação são verbais significa dizer 
que antes que um indivíduo interaja com uma comunidade verbal suas condições corporais 
não são experimentadas como dor, depressão, amor, etc.; elas são apenas alterações 
fisiológicas. Pode-se acrescentar ainda: alterações fisiológicas indiferenciadas para o 
indivíduo no corpo de quem ocorrem. Skinner argumenta que nada é diferente para alguém 
até que seja tornado diferente. Isso se aplica a nossas condições corporais, as quais só 
têm uma importância particular para nós quando a elas reagimos discnminativamente. 
Essa reatividade, por seu turno, só nos pode ser dada socialmente. Desse modo, o privado 
enquanto dor, depressão, amor, etc. (isto é, enquanto algo a que o indivíduo reage 
discriminativamente com respostas verbais descritivas de dor, depressão, amor) só se 
constitui na interação com uma comunidade verbal. Ou seja. o privado, enquanto fenómeno 
psicológico, tem uma existência determinada e limitada pelas práticas sociais com as 
quais interagimos; ele não é a condição corporal ostudada pela Fisiologia! E como essa 
interação é predominantomento verbal, é através da análise do fenômeno verbal que 
poderemos vislumbrar um modo de lidar com a privacidade. Não ó por acaso, portanto, 
que no artigo de 1945 Skinner concentra sua discussão nos modos como aprendemos a 
falar de nós mesmos. 

A abordagem que Skinner apresenta para o comportamento verbal desde o artigo 
de 1945 se caracteriza por uma rejeição das teorias referenciais de significado. Estas 
teorias dizem que a linguagem ó um sistema de representação do mundo e que os 
significados das palavras são imagens mentais que os indivíduos formam dos objetos por 
elas representados. Nessa perspectiva, cada um tem clareza do significado da expressão 
"estou triste" porque pode formar uma imagem mental de sua própria tristeza, o que não 
pode fazê-lo com respeito á tristeza do outro. 

Skinner rejeita as teorias referenciais do significado, propondo que a linguagem 
seja abordada não como um sistema de representação do mundo (e aqui faz pouca diferença 
se se fala de uma representação mental ou lingüística), mas como uma forma do ação. 
Trata-se, neste caso, de uma ação direta sobre o mundo social, isto é, sobre os outros 
indivíduos que participam de urna comunidade verbal, e de uma forma de ação indireta 
sobre o mundo físico, porque é mediada pelos outros indivíduos. Isso representa uma 
abordagem funcional para o problema, o que quer dizer considerar o significado não a 
partir da noção de correspondência, mas em termos da interação propiciada pelos diferentes 
"usos da linguagem". O conceito de significado só faz sentido, para Skinner, enquanto 
uma especificação das contingências de reforçamento das quais uma resposta verbal 6 
função. Sendo assim, é examinando como operam as contingências na instalação de 
respostas consideradas doscritivas que podemos avançar na discussão do status das 
descrições que fazemos de nós mesmos. 

De um modo geral, Skinner pretende colocar em discussão em que medida as 
falas sobre sentimentos o emoções, e em consequência, o conhecimento destes eventos, 
correspondem de fato a algo inacessívol aos outros, isto é, em que medida o significado 
dessas falas pode ser algo pessoal de alguém. Diz ele que toda resposta verbal é função 
de contingências de reforçamento dispostas por uma comunidade verbal. É a comunidade 
que modela nosso repertório verbal, e sua ação ó baseada naquilo que lhe está acessível 
à observação. Neste caso, respostas autodescritivas são também instaladas sob controle 
de eventos públicos, pois apenas a eles a comunidade tem acesso. Quando a comunidade 


180 I mm.imiel Z.iRury lourinlio 



ensina um indivíduo a emitir a resposta "estou com dor", ela não pode reforçar esta respos¬ 
ta contingentemente a um nervo inflamado porque ela não pode saber com precisão quan¬ 
do isso existe ou não. Desse fato não resulta a total impossibilidade de descrição de uma 
dor, mas resulta um sentido particular para o caráter descritivo da resposta "dor". 

Skinnor supõe, então, que ao instalar respostas verbais descritivas de eventos 
privados, a comunidade verbal infere que aquele evento privado está ocorrendo, a partir de 
indicadores públicos, e reforça a resposta verbal do indivíduo. Por exemplo, ela ensina 
uma criança a dizer "estou com dor de dente" ao ver a criança gemer e colocar a mão no 
queixo, mesmo que não possa ver uma inflamação no nervo dentário. Para a criança, por 
outro lado, a resposta pode vir a ficar sob controle de uma condição corporal. Tratando de 
um exemplo semelhante, Skinner {1974) afirma: 

*A comunidade verbal usa a informação pública, mas a criança pode 
eventualmente dizer"isso dói" respondendo apenas ao evento privado. Ela aprendeu 
a descrever um estimulo privado com uma precisão que depende apenas do quanto 
os eventos públicos e privados estão em concordância" (p.23). 

É importante fazer duas observações com respeito a essa citação de Skinner. 
Primeiro, quo a descrição de dor resultante corresponderá à alteração corporal apenas na 
medida em que esta alteração esteja em concordância com as condições públicas nas 
quais a comunidade baseia sua ação reforçadora. (A esse problema, retornarei adiante). 
E, segundo, que se está falando de uma descrição de uma condição corporal bastante 
peculiar, facilmente identificável através de instrumentos. Esse tipo de descrição não 
pode ser confundido, por exemplo, com a descrição de uma "angústia" ou de uma "tristeza”. 
Portanto, se no caso de uma dor de dente a correspondência entre a descrição e uma 
condição corporal particular já é relativa, mais ainda o ó quando se trata dos sentimentos 
em geral. Nos dois casos, mas principalmente no último, o privado em si vai se constituindo 
para o indivíduo a partir da ação da comunidade verbal e nisso reside uma grande contribuição 
da análise de Skinner. 

Skinner salienta que a funcionalidade do comportamento verbal é dependente de 
o indivíduo emitir respostas em acordo com as condições partilhadas pela comunidade 
verbal. Isto é, o que torna o comportamento verbal funcional ó que ele é um comportamento 
aprendido o mantido a partir de contingências dispostas socialmente. Dizer que a linguagem 
é um fenômeno eminentemente social significa dizer que é aponas porque todos partilham 
as mesmas contingências que interagem de forma eficiente uns com os outros, através do 
“uso de palavras". 

O quo é importante observar na proposta de Skinner ó que se se considera os 
relatos dos indivíduos sobro si mesmos como expressão de um conhecimento de si, ou 
de sua consciência, tem-se que admitir que toda consciência ó social, já que ó o resultado 
da exposição a contingências sociais. Por outro lado, ó necessário admitir a própria 
constituição social da subjetividade de cada um, na medida em que cada um vem a 
experimontar certos sentimentos enquanto tais a partir da interação com um dado grupo 
social. Este aspecto ó especialmente importante para que se questionem as experiências 
subjetivas como algo naturalmente dado, e universalmente necessário, e se possa interpretá- 
las como produto de uma cultura particular com a qual os indivíduos interagem. Não 
haverá dificuldade, neste sentido, para compreender porque certos grupos sociais soam 
esquisitos quando se diz que não sentem os mesmos sentimentos que sentimos. 


Sobre comportamento c coflnlçílo 



O caráter social da subjetividade e da consciência, ou do conhecimento que os 
indivíduos têm de si mesmos, inclusive de sua interioridade, coloca, porém, um outro 
problema. Respostas descritivas de eventos interiores são apenas indiretamente expressão 
de algo realmente interior, pois foram instaladas e são mantidas contingentemente a eventos 
públicos. Neste sentido, é necessário rediscutir se os tradicionais termos psicológicos 
descrevem de fato algo interno. Ou, de outra maneira, ó necessário discutir a crença de 
que se está falando de uma intimidade quando se relatam sentimentos e pensamentos. 
Esta crença, tudo indica, tem pouca pertinência diante de um reconhecimento das 
dimensões sociais argumentadas anteriormente. Para encerrar este ponto, recorro a mais 
uma citação de Skinner, novamente de seu artigo cinqüentenário. Dizia ele: 

Um reforçamento diferencial nâo pode ser feito contingente a uma propriedade 
de privacidade. Este fato tem uma importância extraordinária na avaliação dos termos 
psicológicos tradicionais. (Skinner, 1945, p.275) 


4. Desafios teóricos e metodológicos na análise dos eventos 
privados 

Até aqui, podemos resumir as proposições de Skinner do seguinte modo: 

a) Eventos privados são eventos de uma mesma natureza dos eventos públicos, mas só 
estão acessíveis de forma direta ao próprio indivíduo no corpo de quem ocorrem. 

b) A interação homem-ambiente resulta em dois produtos: uma alteração na condição 
corporal e uma alteração na probabilidade de resposta. Um não determina o outro; 
ambos têm a mesma origem ambiental. 

c) Nós só discriminamos nossos estados corporais a partir de uma ação reforçadora da 
comunidade verbal. A comunidade verbal, porém, reforça nossas respostas com base 
em eventos públicos aos quais ela tem acesso. 

d) Os termos psicológicos tradicionais não podem ser descritivos de algo interior de cada 
um, por uma limitação da própria "linguagem” e de seu caráter social. 

A essas colocações de Skinner, nós acrescentamos o seguinte: 

e) Os eventos privados, enquanto fenômenos psicológicos, não são as condições corpo¬ 
rais em si, mas comportamentos discriminativos adquiridos sob controle de eventos 
públicos, e que dentro de certos limites podem ocorrer sob controle de estimulações 
internas associadas àqueles eventos públicos. 

0 Os eventos privados enquanto fenômenos psicológicos, portanto, não constituem um 
fenômeno "natural"; eles são aprendidos socialmente. A privacidade de cada um nãoé 
algo exclusivamente pessoal, muito menos interior; é a privacidade do grupo social com 
o qual o indivíduo interage. 

Esta última afirmação merece ser melhor explorada, até para sabermos em que 

extensão ela pode ser validada e no que ela resultaria em termos do se lidar efetivamente 

com a privacidade no contexto da análise do comportamento. 


182 fimniiinucl Ziitfury Tourinho 



De um modo geral, respostas descritivas de si mesmo são adquiridas numa con¬ 
dição em que a comunidade verbal observa o comportamento do indivíduo. Isso é óbvio 
quando a comunidade ensina alguém a descrever seu comportamento, mas acontece, 
também, quando a comunidade ensina a descrição de um sentimento, por exemplo, um 
sentimento de "angústia". Talvez por essa razão, Skinner considera respostas supostamente 
descritivas de eventos internos como informativas do comportamento (passado, atual e 
futuro). Diz ele: 

"Uma análise behaviorista não questiona a utilidade prática de relatos do mundo 
interno que é sentido e introspectivamente observado. Eles são dicas (1) do 
comportamento passado e das condições que o afetaram, (2) do comportamento 
atual e das condições que o afetam, e (3) das condições relacionadas ao 
comportamento futuro. Apesar disso, o mundo privado de dentro da pele não ó 
claramente observado ou conhecido ." (Skinner, 1974, p. 31) 

Nessa citação, Skinner defende que as descrições de eventos privados podem 
ser informativas do comportamento e de suas causas e conclui advertindo que isso não 
significa o conhecimento do "mundo privado". O que precisaríamos esclarecer ó como 
uma resposta que supostamente descreve uma condição interna se mostra informativa do 
comportamento público e não da condição interna. A explicação está no fato de que a 
descrição foi instalada contingentemente ao comportamento público e não a um evento 
interno. Mas cada um de nós tem a certeza, quando fala de si mesmo, de estar sob 
controle de uma condição corporal própria. Isso tem sido explicado com a idéia de que a 
comunidade age com base em eventos públicos, mas, para o indivíduo, a resposta fica 
sob controle de uma condição corporal associada. Essa, entretanto, é apenas parte da 
história. É preciso acrescentar a esse raciocínio o fato de que o papel da comunidade 
verbal não se limita à instalação de respostas verbais. Desde 1945, Skinner chama a 
atenção para o fato de que a aquisição da resposta é apenas parte do problema. Diz ele: 

"O indivíduo adquire a linguagem da sociedade, mas a ação reforçadora da 
comunidade verbal continua a desempenhar um papel importante na manutenção 
das relações específicas entre respostas e estímulos que são essenciais para um 
funcionamento apropriado do comportamento verbal. [A questão de] como a 
linguagem é adquirida, então, ô somente uma parte de um problema muito maior. 
(Skinner, 1945, p.272, itálico acrescentado) 

Skinner aqui chama a atenção é para o fato de que mesmo após adquirida a 
resposta (contingentemente a estímulos aos quais a comunidade verbal tem acesso) ela 
continua sob controle dos estímulos (públicos) originais, por força da ação da comunidade 
verbal, e disso depende sua funcionalidade, seu “funcionamento apropriado". Se é verdade, 
então, que um indivíduo pode emitir uma resposta sob o controle de uma condição corporal, 
também é verdade que ao emitir a resposta ele está sob o controle de uma correspondência 
da condição corporal com os eventos nos quais a comunidade baseia sua ação reforçadora, 
o também é verdade que a funcionalidade da resposta não é dependente da correspondência 
com a condição interna do organismo, mas de sua relação com aqueles eventos públicos 
que lhe conferem funcionalidade. Se se junta essa afirmação com a noção skinneriana de 
significado, não seria exagero afirmar que o significado das respostas verbais tidas por 
descritivas de eventos privados não pode ser algo interior do indivíduo, mas apenas eventos 
públicos característicos das interações sociais responsáveis pela aquisição e manutenção 
daquelas respostas. 


Sobre compoil.imenlo e cogniç<lo 183 



Tomemos como exemplo uma descrição de um sentimento de felicidade. Quando 
a comunidade me ensina a me descrever como “feliz", ela o faz com base na observação 
do meu comportamento. A partir daí, minhas descrições de felicidade serão funcionais na 
minha interação social tanto quanto elas "corresponderem" à (probabilidado de) ocorrência 
daquele comportamento que constitui a base sobre a qual a comunidade exerce sua 
função reforçadora. Ou seja, o meu "critério" para me descrever como feliz ó o mesmo 
critério para que eu descreva alguma outra pessoa como feliz. Em termos skinnerianos, 
ambas as descrições estão sob ò controle das mesmas contingências do reforçamento 
(que são públicas). É claro que eu posso pensar que minha resposta está sob o controle 
do uma condição corporal minha qualquer, mas, na verdade, ela só é funcional se houver 
uma correspondência entre a tal condição corporal e os eventos públicos. É a 
correspondência com o evento público que determina até onde a resposta podo ficar sob 
o controle da condição corporal. E como ó o evento público que faz parte da contingência, 
a condição corporal associada pode ser qualquer uma, variando inclusive de indivíduo para 
indivíduo, e até para um mesmo indivíduo, a cada circunstância. 

No contexto dessa proposta de análise, quando alguém afirma que ostá sentindo 
uma felicidade, ele está falando da probabilidade de se comportar de uma dada maneira, 
e não informando uma condição corporal particular, até porque sua condição corporal no 
momento do relato pode não ser exatamento a mesma de um outro momento em que se 
descreveu como feliz. Por outro lado, o que está sendo informado ó um evento público, 
aprendido socialmente e intimamente articulado com a cultura que o indivíduo partilha. 
Compreender esse fenômeno implica, portanto, compreender partes da história de interação 
social do indivíduo; e exige, por outro lado, que se esteja razoavelmente informado acerca 
da cultura em que ele ocorre. (Do ponto de vista do interesse de uma disciplina psicológica, 
o estudo da cultura deve prover informações gerais sobre o tipo de subjetividade que nela 
se produz, os modos de reatividade comportamental que são ensinados pela sociedade 
nas diferentes circunstâncias de interação social.) 

O privado entendido enquanto reatividade comportamental pode também ser 
admitido como determinante de outros comportamentos públicos, sem que com isso se 
esteja abandonando uma concepção externalista do comportamento humano. Nesse caso, 
é importante reafirmar que não ó a condição corporal que está sendo tomada por 
determinante, mas um repertório publicamente adquirido. Talvez seja isso o que ocorre 
quando os indivíduos fazem descrições de seus sentimentos o "se comportam de acordo 
com o sentimento descrito". Nesse caso, estaríamos discutindo as autodescrições no 
contexto de uma concepção funcional do comportamento verbal, tentando examinar o 
controle discriminativo que exercem com respeito a outras instâncias comportamentais. 
Essa possibilidade coloca a análise da privacidade no campo da investigação sobro o 
comportamento governado por regras, considerando-se o conceito de regra não no sentido 
estrito de descrição de contingências, mas num sentido mais amplo de antecedente verbal. 

À parte das questões teóricas abordadas até aqui, o tema da privacidade também 
impõe aos behavioristas uma discussão de ordem metodológica. Isso porque as alternativas 
de análise citadas não são compatíveis com uma investigação do tipo experimental. A via 
metodológica para a análise da privacidade é necessariamente a da interpretação, a 
despeito do fato de que se trata de uma interpretação que tira proveito do conhecimento 
produzido peia análise experimental do comportamento. A interpretação se faz necessária 


184 bmm.mucl Z.ijjury lourinho 



tanto na análise de instâncias particulares de tenômenos relacionados à privacidade - e 
isso ó o que ocorre na clínica, quanto na construção de quadros gerais de análise das 
práticas de uma cultura particular. Deve-se observar, por outro lado, que a ciência 
experimental, tanto quanto qualquer outro empreendimento científico, envolve, também, a 
interpretação, ainda que limitada por outros parâmetros; ela não é em si mais objetiva do 
que tentativas de produção de conhecimento que se reconhecem eminentemente 
interpretativas. 

Podo-se também recorrer ao próprio Skinner para argumentar a favor da 
interpretação como método válido para uma ciência do comportamento e para uma 
intervenção profissional baseada nessa ciência. Skinner (1963) fala do behaviorismo como 
uma filosofia que se ocupa do "objeto de estudo e [d]os métodos da psicologia" (p.951). A 
filosofia de que fala Skinner pode ser considerada em termos de sua proposta de que os 
problemas pertinentes à disciplina psicológica sejam tratados como problemas relativos 
ao comportamento, em particular o comportamento humano, e de que o fenômeno 
comportamental seja interpretado de uma perspectiva (a) externalista, buscando-se a 
determinação do comportamento fora do organismo, e (b) funcional, reduzindo-se a 
explicação do fenômeno à descrição de relações funcionais entre eventos ambientais e 
comportamentais. No contexto desta proposta "filosófica", a experimentação converte-se 
em apenas um dos recursos de que o analista do comportamento pode lançar mão quando 
possível. Análises conceituais não-experimentais são não apenas legítimas, mas podem 
prover contribuições significativas e compreendem grande parte da obra do próprio Skinner 
(cf. Todorov, 1982). 

O uso da interpretação na análise dos eventos privados parece não constituir 
novidade para os terapeutas comportamentais. Correndo o risco de falar sem conhecimento 
de causa, eu diria que os terapeutas comportamentais reconhecem a validade dos relatos 
de eventos privados enquanto fonte de informação acerca do comportamento e usam 
estes relatos em um modelo de intervenção, que faz uso da interpretação na busca de 
identificar as variáveis sociais das quais os relatos apresentados são função e conduta 
que controlam. Os terapeutas possivelmente também reconhecem o diálogo, ou a interação 
verbal, como espaço de constituição do que pode ser denominado uma nova "realidade 
subjetiva" para os clientes e, neste processo, como interlocutores privilegiados. Enquanto 
ambiente verbal, eles transformam-se numa fonte de controle para a emergência de 
respostas verbais autodescritivas em alguma medida relacionada ao que se costumou 
chamar de "saúde mental" ou "psicológica". O que parece ó que a Psicologia 
Comportamental de inspiração skinneriana não tem atendido, no plano conceituai e 
investigativo, às demandas que são evidentes na intervenção clínica. Talvez isso se deva 
ao fato de que apenas recentemente a análise experimental do comportamento tem se 
voltado para o comportamento verbal e para a complexidade dos problemas que emergem 
quando se descobre que o comportamento humano está largamente sob controle de 
estímulos verbais, muitas vezes de uma forma que parece ser o indivíduo a fonte de controle 
de seu próprio comportamento. O outro lado do problema, porém, ó que quando as 
autodescrições são abordadas como antecedentes verbais que controlam outros 
comportamontos, tende-se a sobrevalorizar essa possibilidade, ignorando que muitas vezes 
o comportamento que se pensa estar sob o controle de uma autodescrição está, na 
verdade, sob o controle de variáveis externas ao indivíduo. Talvez por essa razão não faça 


Sobre compori.imento e cogniç.to 185 



sentido, para a anáfíse do comportamento, um modelo de intervenção na clínica ou em 
qualquer outra situação baseado exclusivamente na análise de material verbal. Não custa 
lembrar que, para Skinner, o autoconhecimento ou autodescrição não implicam 
necessariamente autocontrole. Não basta um indivíduo aprender a falar de si de modo 
diferente para que as variáveis ambientais anteriormente controladoras de seu 
comportamento deixem de ter essa função. 

Para encerrar, em acréscimo aos seis itens enumerados há pouco, eu arriscaria 
considerar relevante para discussão da privacidade, no âmbito de uma ciência do 
comportamento, explorar teórica e metodologicamente os seguintes problemas: 

g) Se por privado se entender condições corporais, deve-se falar, no mínimo, na existência 
de dois privados: um fisiológico e outro comportamental. Os limites da articulação possível 
entre um e outro são dados pela linguagem. 

h) Em se tratando do fonômenos psicológicos ou comportamentais, um evento não se 
configura como privado por oposição a público, mas pela importância dada a 
acompanhamentos internos, nem sempre identificáveis com precisão. 

i) O privado enquanto fenômeno psicológico ou comportamental pode ser objeto de análise 
de uma ciência do comportamento, inclusive enquanto evento determinante do 
comportamento público, sem que isso signifique uma adesão às psicologias internalistas. 

j) Por último, a abordagem da privacidade no âmbito de uma ciência do comportamento e 
da prática profissional nela amparada pode legitimamente íançar mão da interpretação 
como método. Essa talvez seja a única via atual para a análise comportamental dos 
eventos privados. O desafio consiste em lançar mão desse recurso metodológico de forma 
associada a mecanismos que permitam avaliar com alguma segurança sua eficácia. 

As questões enumeradas aqui não constituem nenhuma novidade conceituai, mas 
visam contribuir com uma discussão sobre a privacidade que permita avançar em relação 
às proposições de Skinner. Essa foi a expectativa que norteou a elaboração desse texto. 
Como expectativa, trata-se de um evento privado meu. Mas diante de tudo o que foi dito, 
esse sentimento de expectativa que pode me parecer muito pessoal e secreto tem a ver 
com meu próprio comportamento público e com o comportamento da comunidade científica 
e profissional com a qual interajo. Essa idéia não é nada atraente para uma cultura pautada 
pelo narcisismo e pelo subjetivismo. Mas talvez uma das principais funções sociais do 
Behaviorismo Radical seja exatamente a de fazer a crítica dessa cultura; de suas práticas, 
suas crenças e seus valores. 


Bibliografia 


SKINNER, B. F. (1945) The operational analysis ol psychological terms. Psychological 
Review, 52,270-277/291-294. 

(1963) Behaviorism at fifty. Science, 140,951-958. 

(1965) Science and Human Behavior. New York/London: Freo Press/Collier Mac 
Milan. Publicado originalmente em 1953. 


18 ó tmmunurl Z.ifiury Tourinho 



(1974) About Behaviorism. New York: Alfred A. Knopf. 

TODOROV, J.C. (1982) Behaviorismo e análise experimental do comportamento. Cadernos 
de Análise do Comportamento, 3,10-23. 

WATSON, J. B. (1913) Psychology as a behaviorist views it. Psychological Review, 20, 
158-177. 


Sobre comportamento c cognição 187 



Capítulo 20 


Introspecção: método ou objeto de estudo 
para a análise do comportamento ! 

Mi\ri<\ Amfliii Mülos v 

usr 


Ern priscas eras o curso colegial, além de Física, Química, Matemática e História 
Natural, também incluía Francês, Inglês, Espanhol e Filosofia! Lembro-me que o professor 
de Filosofia, um padre jesuíta baixinho e elétrico, logo na primeira aula, nos prometeu que 
a Filosofia nos ajudaria a cumprir a máxima socrática "Nosce te ipsunf. Para Platão, 
porta-voz de Sócrates, jamais poderíamos conhecer o mundo real, senão nossas pálidas 
impressões dele: as idéias ou imagens que, como sombras, habitariam as cavernas de 
nosso espírito. E, para conhecer essas impressões, deveríamos refletir e examinar nossos 
pensamentos, desejos e anseios; enfim, nossa alma. 

Depois, vim a saber que esse também era o objetivo da Psicologia: examinar e 
entender a alma e a mente das pessoas... 

Ora, a Psicologia só começou a ser cogitada como urna disciplina intelectual (e 


1 Vorsáo modificada do coníorôncla aprosontada no IV Encontro [Brasileiro do Pslcolorapia o Modicina 
Comportamontal promovido pela ABPMC em 1995, Campinas 

* Pesquisadora do CNPq. 


188 Maria Amélia Matos 



possivelmente científica) independente, em meados do século passado. Não obstante, 
quando isso ocorreu, sua proposta de trabalho, e portanto justificativa para existir, era a 
mesma dos gregos clássicos de 23 séculos atrás. 

Assim, concluí que a Psicologia tem uma longa tradição em equacionar o pessoal 
com o interno, o interno com o privado, e o privado com o psicológico. 


A Psicologia tem uma longa tradição em equacionar o pessoal com o 
interno, o interno com o privado, e o privado com o psicológico. 


Por quô? Por que as lembranças de uma pessoa, suas exporiôncias passadas, 
seus desejos, são "internos"? Por que as lembranças dos acontecimentos e experiências 
pelas quais passou são consideradas suas, particulares," privadas " e, portanto, proibidas 
aos outros? Por que ‘aquilo’ que de uma ação está disponível a todos não interessa ao 
psicólogo, só o escondido, o proibido? 

Creio que isso decorre basicamente de um conhecimento tosco das leis da 
natureza, o que leva, por sua vez, a uma concepção de universo mecanicista e dependente 
de relações causais imediatas no tempo e no espaço. 


“A Psicologia é a ciência que estuda a mente das pessoas". O que será esta 
mente, que aliás na Grécia se dizia "espírito", na Idade Média “alma", no século passado 
"mento", e hoje “consciência"? Essa sucessão de codinomes é bem indicativa da dificuldade 
em circunscrevê-la. Tentemos pela negativa, inconsciência: 

• Dizemos "inconsciência" quando uma pessoa tem um nível de ativação muito baixo. Por 
exemplo: ‘está desmaiada'. 

• Dizemos "inconsciência" quando uma pessoa age sob controle de estímulos inapropriados. 
Por exemplo: ‘está desatenta, não viu a placa de PARE'. Outro exemplo: ‘é insensível, 
não percebe que os outros não estão gostando da brincadeira que insiste em levar a 
cabo’. 

• Dizemos "inconsciência" quando uma pessoa não emite verbais coerentes e/ou 
compreensíveis sobre suas ações e sobre as circunstâncias em que essas ações 
ocorreram. Por exemplo: ‘não conhece a si mesma, não tem consciência do que faz ou de 
suas motivações'. 

Aceitando uma definição pela negação (o que não é uma boa prática), isso 
significaria que consciência seria operante com um nível de ativação alto? Sob controle 
discriminativo apropriado às contingências? E contendo um repertório verbal autodirigido? 
Não mo parece que os psicólogos do Século XIX (e mesmo alguns colegas de hoje) teriam 
concordado com isso. 

Consciência ou mente para eles seria algo que está dentro da pessoa. (Platão a 
localizava na cabeça, por ser esta redonda e a circunferência ser considerada polos gregos 
a forma geométrica mais perfeita, e, portanto, a única digna de alojá-la. A Escolástica a 
localizava no cérebro, o que é, no mínimo, estranho, pois, sendo ela de natureza imaterial, 


Sobro comport.imonlo c coflniç.lo 189 




como afirmavam, por que necessitaria de uma localização? Ou como se circunscreveria a 
um local? E os neurocientistas a localizam no sistema nervoso, o que, afinal, não revela 
uma postura muito diferente da dos tomistas.) Seria algo que, por ocorrer dentro da pessoa, 
somente dela ela tem acesso ou conhecimento direto. 

Para os psicólogos do Século XIX, o caráter psicológico da ação não estaria na 
ação propriamente dita (como a pessoa reage e em que circunstâncias), mas sim no 
conteúdo de sua experiência dessa ação. Por sua vez, o conteúdo da experiência de 
uma pessoa estaria na consciência dessa pessoa. Assim, se a tarefa da Psicologia era 
estudar o psicológico (leia-se, 'o conteúdo da experiência'), isso só poderia ser feito 
estudando-se essa consciência. 

Ocorre que, por ser a consciência pessoal, interna e privada, à qual somente o 
próprio sujeito tem acesso, o único método viável de estudo para a Psicologia seria o da 
introspecção. 

Com essa preocupação filosófica e posição metodológica, nasceu a Psicofísica, 
a primeira aspiração científica da Psicologia, e que, ao contrário do que o nome indica, 
não representou uma junção da Física e da Psicologia, mas, justamente, buscou defender 
o paralelismo entre ambas. 

Experimentar ora sentir, e os conteúdos das sensações oram considerados como 
indicadores do conteúdo do mundo físico. Webor, fisiólogo alemão, entre outras coisas, 
investigou como os músculos reagem ao peso de objetos: as pessoas distinguem melhor 
pesos quando os levantam ou quando estes lhe são colocados nas mãos? (Distinguir 
pesos era considerado não uma reação aos pesos, e sim o conteúdo da experiência de 
peso.) 

Além de responder a essa questão, Weber verificou que não há uma relação de 
um-para-um entre a magnitude da diferença entro dois pesos e a habilidade do sujeito em 
distingui-los. Mas, ele descobriu, se o valor absoluto da diferença entre dois pesos não 
prediz a resposta do sujeito, a razão entre esses dois valores o faz. A métrica da mente 
estava inaugurada, e esta se baseava na inspoção, pelo sujeito, de suas sensações (isto 
ó, de sua experiência de peso, no caso). O sujeito manuseava pesos, sua mente analisava 
as sensações daí decorrentes (o conteúdo de suas experiências), e ele relatava essa 
análise. Atentem para o fato que mente ou consciência não é, aqui, a sensação, 
mas a consciência da sensação, ou seja, um estado mental. 

A sensação é, portanto, destituída de seu caráter de ação e reificada como estado 
de consciência. E mais, estudava-se a consciência através da observação (relatada) do 
seus estados. 

Se pararmos para refletir, contudo, verificaremos que há um solipsismo aqui. 
Estudamos a consciência observando seus estados, seus conteúdos; mas essa observação 
é feita pela própria consciência que buscamos entender. É essa circularidade que, mais 
tarde, Watson vai denunciar em seu célebre “Manifesto”. 

Fechner, físico e filósofo alemão (e por muitos considerado verdadeiramente o 
primeiro psicólogo cientista), estendeu o alcance da análise de Weber para outros sentidos; 
refinou a matemática envolvida nesses estudos; e, principalmente, sistematizou os 
procedimentos de introspecção utilizados, organizando-os em três métodos psicofísicos 


190 Mtiii.i Amélia Matos 



canônicos. Fechner foi grandemente louvado por sua contribuição à Psicologia, e seus 
métodos vêm sendo ensinados, como sinônimo de psicologia científica, a estudantes do 
mundo todo, desde então. 

Comontando a prática disseminada desses métodos o seus cuidadosos e 
complexos procedimentos matemáticos, William James questiona o que exatamente 
aprendemos com eles, e conclui, citando Shakespeare: 

"E todos louvavam o duque 

Que vencera esta grande batalha. 

‘Mas o que de bom resultou disso?' 

Pergunta o pequeno Peterkin. 

'Dem, isso exatamente eu não saberia dizer', respondem, 

‘Mas que foi uma vitória famosa, isso foi!'.” 

(citado por W. James, 1890, p. 549) 


Wundt, médico e fisiólogo, já no Século XX, oficializou estes estudos, denominando 
a Psicologia ‘a ciência dos estados mentais ou da experiência consciente ’, e, para evitar 
o problema de se estudar pelo estudado, propôs que fosse considerada apenas a experiência 
pura, descontaminada de interpretações e reflexões pessoais. Para tanto, o sujeito deveria 
ser treinado cuidadosamente a concentrar-se na tarefa e atentar somente para o estímulo 
em pauta, não para suas outras dimensões; deveria estar isolado de quaisquer outras 
estimulações e distrações; deveria responder imediatamente ao estímulo, sem pensar e 
sem se valer de sua história passada; deveria responder não ao objeto, nem a seu 
significado, e sim à própria sensação; deveria distinguir entre sua experiência imediata e 
sua experiência elaborada, respondendo apenas à primeira; deveria responder não à coisa, 
e sim ao conteúdo de sua consciência; e deveria entender estas instruções. Ou, citando 
Heidbreder: 

"Quando uma pessoa observa ingenuamente, como o faz quotidianamente, 
ela vê, por exemplo, uma mesa; mas se um introspeccionista vê uma mesa enquanto 
faz uma observação científica de sua percepção da mesa, ele comete um erro de 
estímulo. Ele atenta ao estímulo ao invés de atentar ao processo consciente que o 
estímulo ocasiona nela. Ele está lendo no processo o que elo sabe do estímulo."... 
ó interpretação, não observação..." 

(Heidbreder, 1933, p. 129) 

Quando Titchener, que havia realizado seus estudos na Alemanha, levou essa 
proposta para os Estados Unidos, a importância dada à introspecção era tanta que, os 
que a defendiam, chamavam-na Psicologia Introspeccionista (os que não a defendiam, 
especialmente os gestaltistas, denominavam-na Psicologia WASP, isto ó, do branco - 
white-, anglo-saxão, e protestante, numa referência aos limites impostos pelo método à 
escolha dos sujeitos de seus estudos). 


Sobro comportamento c cognição 



Watson foi o primeiro a denunciar que a confiabilidade dos dados obtidos com 
esse tipo de pesquisa era mínima, e que ela não melhoraria com procedimentos mais 
rigorosos de controle ou de medida, nem com mais equipamentos ou maior ou melhor 
treinamento dos sujeitos. O caráter ínerentemente subjetivo da íntrospecção era o problema: 
a consciôncia observando a si própria é o método de investigação proposto; e a consciência 
sendo observada por si própria é o objeto que se pretende investigar. Pretende-se analisar 
e entender a mente, mas recorre-se a ela própria como instrumento para acessá-la, para 
selecionar seus conteúdos, e para descrevê-los. Ou, nas palavras do Prof. Richelle: 

"O que Watson denuncia em seu manifesto ô o fechamento da psicologia em 
sua circularidade da consciôncia como objeto e da consciôncia (introspectiva) como 
método." (Richelle, 1995, p. 3) 

As objeções de Watson eram essencialmente de caráter metodológico. Ao se 
dirigir aos que advogavam a Íntrospecção como mótodo da Psicologia, dizia: 

"Se você não consegue reproduzir meu dados ... isso se deve ao fato que sua 
íntrospecção não foi treinada. A crítica recai sobre o observador e não sobre o 
arranjo experimental. ”... "Se você não consegue observar os estados de 3 a 9 de 
clareza na atenção, sua íntrospecção é ruim. Se, por outro lado, um sentimento 
parece razoavelmente claro para você, sua Íntrospecção de novo tem problemas. 
Você está vendo demais. Sentimentos nunca são claros.” (Watson, 1913, p. 163) 

Contudo, Watson não rejeita a consciência. A meu ver, Watson era essencialmente 
um dualista, por isso rejeita a Íntrospecção como método, mas não rejeita a existência da 
consciência. Skinner, por sua vez aceitará a Íntrospecção como comportamento (e, 
portanto, como objeto legítimo de estudo), mas não aceitará, por absurda, a mera idéia da 
existência da consciência. 

Watson não refuta a existência da consciência, mas se recusa a estudá-la, bem 
como se recusa a estudar o pensamento, as emoções, e as sensações, e pelas mesmas 
razões, isto é, por serem pertencentes a um mundo interno inacessível pelo outro. Embora 
negando sequer a possibilidade da consciência, Skinner não nega a possibilidade de 
estudarmos o introspeccionar-se, e considera tarefa central, marcante mesmo, do 
Behaviorismo Radical o estudo do pensar e do sentir. Em 1974, em uma de suas obras 
mais marcantes e explicitas, About Behavlorism, diz: 

"O que está dentro da pele? E como o conhecemos? A resposta, acredito, é 
uma questão central para o Behaviorismo Radical.” (Skinner, 1974, p. 212) 

“O Bohaviorismo Radical... não nega a possibilidade de auto-observação ou 
autoconhecimento ou sua possível utilidade, mas questiona a natureza do que ó sentido 
ou observado, e portanto, conhecido. Ele restaura a íntrospecção, mas não o que os 
filósofos e psicólogos introspeccionistas acreditavam que estavam 'inspecionando', e 
levanta a questão do quanto podemos realmente observar de nosso corpo ."... "Não 
insiste numa verdade por concordância e pode portanto considerar evontos que ocorrem 
no mundo privado dentro da pele. Não denomina esses eventos 'não observáveis', e 
não os desconsidera por subjetivos." (Skinner, 1974, p. 16) (Grifos nossos) 


192 Miirui Amclni M.ilos 



W atson não rejeita a existência da consciência, mas certamente aceitaria que, 
se uma árvore caísse na floresta e não houvesse pessoa para observá-la, ainda assim 
teria caído e produzido som ao cair. (Já os gestaltistas da época e os cognitivistas de hoje 
diriam que, comportamentalmente, a árvore não caíra.) Skinner consideraria a questão 
irrelevante e sem sentido. 

O Behaviorismo Radical não separa observações do observado (assim como não 
separa mundo interno de externo). O observado ó o produto definidor da ação de observar. 
A posição de Skinner a respeito é clara, e, do trecho acima, pode-se concluir que o 
Behaviorismo Radical: 

• não nega a possibilidade de auto-observação ou de autoconhecimento; 

• restaura a introspocção; 

• considera eventos que ocorrem no mundo privado, em vez de eliminá-los por subjetivos. 

Mas, por outro lado, o Behaviorismo Radical: 

• questiona a natureza do que é sentido ou observado, e portanto, conhecido; 

• levanta a questão de quanto podemos realmente observar de nosso corpo. 


O Behaviorismo Radical: 


a) não nega a possibilidade de auto-observação ou de autoconhecimento; 

b) restaura a introspecção; 

c) considera eventos que ocorrem no mundo privado, em vez de eliminá- 
los por subjetivos. 

Mas, por outro lado, o Behaviorismo Radical: 

d) questiona a natureza do que é sentido ou observado, e portanto, 
conhecido; 

e) levanta a questão de quanto podemos realmente observar de nosso corpo. 


Quanto à natureza do que ó observado na introspecção, Skinner também ó claro: 
não observamos nossa consciência nem nossos estados mentais, e sim nosso corpo. 
Como ele próprio diz: 

"... o que ó sentido ou introspectivamente observado não ó algum mundo não 
físico da consciência, mente, ou vida mental, mas o próprio corpo do observador” 

... “nem significa (e isso é central na argumentação) que o que sentimos ou 


Sobre comportamento e coflnlçío 





observamos introspectivamente sejam as causas do comportamento"... "O que 
observamos introspectivamente sâo certos produtos colaterais dessas histórias 
[as histórias genéticas e ambientais de uma pessoa]." (Skinner, 1974, p. 17) 

Skinner aceita a introspecção do interno, do mundo privado, mas nega o 
classicamente proposto objeto da introspecção (consciência como objeto); não nega a 
existência das sensações, emoções, sentimentos, pensamentos, etc. (e insiste na 
importância de estudarmos essas reações), mas nega que estes eventos tenham status 
causal em relação a outros comportamentos. 

Eventos internos são, de novo, ocorrências da interação Organismo-Ambiente, 
não explicações; pelo contrário, são 'mais comportamento’ a ser explicado. A introspecção, 
para Skinner, não demonstra a função causal da consciência. Para Skinner, 
'comportamentos conscientes’ ou ‘introspecção’ são comportamentos verbais de uma 
pessoa consigo mesma e a respeito de si mesma. Estes comportamentos verbais 
(explícitos ou implícitos, palavras ou pensamentos, por exemplo), por sua vez, explicitam 
as relações entre aqueles comportamentos e suas circunstâncias, ou como Skinner diz: 

"... estendem seu [do comportamento] contato com o ambiente [que controla 
esse comportamento]... "(Skinner, 1957, p. 85) 

"... exercem um controle discriminativo maior sobre outro comportamento... 
Por exemplo, ao classificar corretamente um objeto, o falante pode reagir mais 
adequadamente a ele." (Skinner, 1957, p. 86) 

São tatos autodirigidos que se mantêm pela informação que fornecem ao ouvinte, 
no caso, o próprio falante. Estes tatos são particularmente úteis quando os comportamentos 
originais são implícitos (encobertos), e, portanto, em relação aos quais a comunidade 
social (o outro), não tendo acesso direto, não os reforça ou os reforça inadequadamente. 

Assim, chegamos ao segundo ponto importante na colocação de Skinner, "a questão 
do quanto podemos realmente observar de nosso corpo”. 

A "consciência” ou autodiscriminações teriam, ‘para Skinner, origem no contexto 
social do sujeito, e seriam portanto culturais e históricas (Skinner, 1953,1957). Aprendemos 
a falar sobre nossas sensações do mesmo modo que aprendemos a falar sobre nossos 
atos explícitos ou sobre eventos do mundo externo. 

"A comunidade verbal gera "consciência"quando ensina uma pessoa a descrever 
seu comportamento passado e presente, e comportamentos que ela provavelmente 
exibirá no futuro, bom como as variáveis das quais todos os trôs sào, supostamente, 
funções." (Skinner, 1969, p. 159) 

“Ao arranjaras condições sob as quais uma pessoa descreve o mundo público 
ou privado no qual vive, uma comunidade gera aquele tipo especial de comportamento 
denominado 'saber'."(Skinner, 1974, p. 30) 

“Autoconhecimento é de origem social. Apenas quando o mundo privado de 
uma pessoa se torna importante para os outros é que ele se torna importante para 
ela." (Skinner, 1974, p.31) 


194 Miiriii Amélia M.ilos 



Se ser consciente é emitir tatos na presença de eventos internos, então a extensão 
em que conhecemos nossa consciência (isto é, somos sensíveis a nosso mundo privado 
e reagimos a ele) depende da habilidade da comunidade verbal em (a) discriminar as 
circunstâncias em que um evento privado pode ocorrer e (b) estabelecer relações entre 
essas circunstâncias e certos termos lingüísticos (como isso pode ocorrer, é 
belissimamente descrito em seu artigo de 1945). 

Aprendemos sobre nosso corpo na medida em que temos um vocabulário sobre 
suas ações (isto é, seus estados, seu funcionamento), e isso depende da comunidade 
verbal. Isso significa que sem esse contexto social não poderíamos nos tornar conscientes, 
não teríamos subjetividade, nem individualidade. Autoconsciência ou introspecção são 
respostas autodirigidas, são afirmações que enunciamos acerca de nossos próprios 
comportamentos e das circunstâncias em que esses comportamentos ocorrem (a propósito, 
quando incluem projeções sobre a probabilidade futura de certos comportamentos já emitidos 
no passado, dizemos self, personalidade ou auto-imagem). Ambientes que reforçam tatos 
autodirigidos, como famílias de filho único e tardio, monastórios, cidades pequenas, certas 
formas de terapias, etc., são particularmente bem-sucedidos na produção de indivíduos 
auto-referenciados, sejam eles narcisistas, introvertidos, 'sensíveis', subjetivos, ou apenas 
autodescritivos (o que, em geral, é o oposto do ideal a ser produzido por comunidades 
científicas). 

Blackman (1991), comparando a posição de Skinner e George Mead a respeito, 
afirma que ambos mantêm a posição de que “na ausência de interação social não há 
consciência", já que esta emerge apenas como subproduto do social. Podemos então 
deduzir que animais ou crianças-ferais não poderiam formar autodiscriminações, não teriam 
consciência, não fariam introspecções. 

Vejamos melhor essa questão, analisando o uso da palavra ‘dor’. 

Em geral, usamos a expressão “Sinto dor" quando entramos em contato com 
estímulos punitivos, do tipo que em geral causa danos aos tecidos do corpo, ou que 
implica a perda de reforços. Algumas dessas respostas foram selecionadas por 
contingências filogenéticas e as partilhamos com muitos outros animais; são importantes 
para nossa sobrevivência como espécie. Essas respostas, em geral, podem ser observadas 
em situações nas quais estão presentes contingências de esquiva, fuga ou agressão. 
Dizer "Tenho dor“ é um verbal autodescritivo indicativo de autoconsciência, provavelmente 
mantido por essas contingências, e que pode ocorrer ao ladç de outras verbalizações 
como: “Alguém me acuda!”, ou “Não me cause maior dano que não estou pra brincadeira!". 

Para Rachlin (1985), sentir dor ó emitir comportamentos de dor. Se eu sinto dor e 
não choro, não reclamo, não gemo, nem faço caretas, então não posso dizer que sinto 
dor. Existem culturas e circunstâncias nas quais as pessoas são ensinadas a não responder 
chorando e gemendo a condições em que eu e vocês o faríamos. Quando estão nessas 
condições, essas pessoas procedem normalmente sem alterar sua rotina, e dizem, ‘não 
sentir dor’. Cães reagem à punição fugindo, evitando, ou agredindo, isto ó, emitindo 
respostas de correr, ganir, morder, etc., mas não apresentam respostas autodescritivas; 
portanto, cães não têm autoconsciência, e, nesse sentido, não sentem dor. Kasper Hause 
também não. 


Sobre comporlcimrnto e cognição 



E a questão da circularidade da introspecção, como fica? Voltemos novamente a 
nosso exemplo do sentir dor. Já vimos que ‘dor’ ó um comportamento (já falei uma vez no 
comportamento de "dorear”, assim como no de imaginar ou pensar). "Vejo João abrir a 
porta", ver, no caso, é um comportamento encoberto meu. Contudo, ele depende e se faz 
acompanhar de uma sórie de outros comportamentos, muitos dos quais explícitos: 
posicionar-me em direção à porta e/ou João, erguer minha cabeça e virá-la na direção de 
João ou da porta, abrir e focalizar os olhos, etc., e é somente na presença deles que sou 
reforçada por dizer que vejo João. Sentir dor também implica e/ou se faz acompanhar de 
outros comportamentos: ações gestuais, posturais, verbais, faciais, motoras, etc., conforme 
nossa análise anterior. Essas várias ações compõem a classe de comportamento "dorear", 
porque ocorrem nas mesmas circunstâncias e/ou se fazem acompanhar das mesmas 
conseqüências (o mesmo se aplicaria para lembrar, sonhar, resolver problemas, etc.). Na 
medida em que executamos outras operações de controle discriminativo e reforçamento 
sobre alguns elementos dessa classe (os elementos explícitos), os demais elementos 
(os encobertos), através do fenômeno de transferência de funções (Dougher, Augustson, 
Markham, Wulfert, & Greenway, 1994; deRose, Mcllvane, Dube, Galpin, & Stoddard, 1988; 
Goldiamond, 1962; Lazar, 1977) ou mesclagem de classes (Sidman, 1994), também ficam 
sob controle dos estímulos envolvidos nessas novas operações. 

Outro exemplo: "Eu vejo Veneza”, ou não tendo dinheiro para a viagem eu vejo 
fotos sobre Veneza, ou leio sobre Veneza, ou posso ouvir falar sobre ela por quem já lá foi, 
ou consulto a Internet. Se eu fui, posso relembrar, e se não fui, posso imaginar. Para ir, ler 
ou ouvir, dependo de outros tantos eventos do mundo externo, bom como de 
comportamentos explícitos meus e de outros. Para lembrar ou imaginar, dependo de minha 
história passada, que, por sua vez, para ter sido construída, também dependeu desses 
tipos de eventos: viagem, fotos, etc. E aqui mais uma vez fica clara a origem dos encobertos 
no ambiente externo. 

Para Skinner (1974, vejam especialmente o brilhante capítulo sobre percepção), 
esses vários eventos públicos e privados seriam respostas funcionalmente equivalentes. 
São comportamentos que ocorrem diante da mesma classe de variáveis, Veneza, e que 
produzem os mesmos efeitos sobre mim (lembrando: os diferentes discriminativos, Veneza 
vista, ouvida, lida, relembrada, etc. foram tornados uma classe através de procedimentos 
do meu grupo social). Este ponto ó importante porque me ajuda a entender porque a 
crítica de Watson sobre a circularidade e falta de confiabilidade da introspecção não se 
aplica à análise de Skinner. 

"Ver João abrir a porta", na verdade, ó uma classe de eventos que inclui erguer a 
cabeça, virá-la na direção da porta e/ou de João, orientar o olhar, etc. 

"Falar sobre João e a porta", também envolve comportamentos de especificar e 
descrever a porta, João, e as circunstâncias em que ambos se encontram. Portanto, de 
virar a cabeça na direção de João e da porta, olhá-los, etc. 

"Atravessar pela porta que foi aberta", também envolve comportamentos como 
virar a cabeça na direção de e olhar para a porta, andar na sua direção, etc. 

Assim como eu posso estudar um comportamento explícito através de uma outra 
instância de sua classe, eu posso tentar estudar (por inferência) um comportamento 
encoberto através de comportamentos explícitos que pertençam à mesma classe. Os três 


19Ó Mana Amélia Matos 



exemplos anteriores, ‘Ver João...” {comportamento privado), "falar sobre..." (comportamento 
verbal), e "atravessar pela porta..." (comportamento motor), incluem outros tantos 
comportamentos, privados ou não, motores ou verbais. Considerando que todos são 
controlados, direta ou indiretamente, por eventos do ambiente externo (quer na sua 
aquisição, quer na sua manutenção), eu posso identificar e manipular alguns desses 
eventos e assim controlar alguns desses comportamentos. Pelo que ficou dito 
anteriormente, se eu consigo controlar alguns comportamentos de uma classe, eu posso, 
teoricamente pelo menos, tentar controlar outros comportamentos dessa classe. Isso ó, 
eu posso inferir sobre os demais comportamentos dessa classe, sejam eles explícitos ou 
encobertos. 

Pela definição de comportamento como uma classe do interações, o Behaviorismo 
Radical podo, de fato, pretender estudar eventos comportamentais privados. As mesmas 
contingências que controlam o "dorear" {'sentir dor’), controlam o gemer, o falar, o reclamar, 
o gesticular, o passar remédio, o "caretear", o esquivar, o fugir, etc. Em que circunstâncias 
digo que alguém tem dor? Ou que eu tenho dor? Ou que alguém vê João abrir a porta? Ou 
que eu vi João abrir a porta? Em geral, emito esses verbais quando tenho acesso a ações 
de dor ou a ações de ver (caretas, expressões faciais, sintomas, movimentos, 
verbalizações). Sentir dor, ver eventos, observar a mim mesma, ir a Veneza são categorias 
comportamentais as quais descrevem e/ou incluem outras ações. Para Ryle (1984), a 
introspecção seria então desnecessária. Quando você sente dor de dente, você não sente 
dor e faz caretas e reclama e vai ao dentista. Todos esses atos são instâncias da mesma 
classe, e eu posso tentar inferir sobre aqueles comportamentos com menor probabilidade 
de ocorrência e/ou menor grau de acessibilidade, a partir de outros mais explícitos, tornando, 
de fato, desnecessária a prática da introspecção. 

Creio que ninguém expressou com maior pungência esta abrangência da classe 
"sentir dor", que a escritora chilena Isabel Allende em seu último livro, PAULA (Ed. Plaza 
y Janés, Barcelona, 1994). Em 1991, ela fora à Espanha lançar um livro e encontrou a filha 
gravemente doente. Poucos dias depois, Paula entraria em coma, estado em que ainda 
viveria vários meses, definhando lentamente. Isabel permaneceu no hospital com ela, e, 
durante esse período, escreveu várias cartas à filha contando as histórias da família, do 
país, e delas próprias, entremeadas com descrições de eventos no hospital em que estavam. 
A certa altura, diz "Para qué tanta palabra si no puedes oírme? Para quó estas 
páginas que tal vez nunca leas? Ml vida se hace al contaria..." 


Bibliografia 


BAUM, W. M. (1994) Understanding Behaviorism: Science, Dehavior and Culture. New 
York: HarperCoIlins. 

DAY, W. F. (1976) Analyzing verbal behavior under the control of private events. Behaviorism, 
4, pp. 195-200 [publicado tambóm em S. Lelgland (Org.) (1992). Radical 
Behaviorism: WilIardDayon Psychology andPhilosophy. Reno, Ne: Context Press]. 


Sobre comportamento e cogníçdo 197 



DEROSE, J. C.. MCILVANE, W. J., DUBE, W. V., GALPIN, V. C M & STODDARD, L T. 
(1988) Emergent simple discrimination established by indirect relation to differential 
consequences. Journalofthe ExperimentalAnalysis of Behavior,§Q, pp. 1 -20. 

DOUGHER, M. J., AUGUSTSON, E. M., MARKHAM, M. R., WULFERT, E. t & GREENWAY, 
D. E. (1994) The transfer of respondent eliciting and extinction functions through 
stimulus equivalence classes. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 
62, pp. 331-351. 

GOLDIAMOND, I. (1962) Perception. Em A. J. Bachrach (Org.), Experimental Foundations 
of clinicai Psychology. New York: Basic Books, pp. 280-340. 

HEIDBREDER, E. (1933) Seven Psychologies. New York: Apploton-Century-Crofts. 

JAMES, W. (1980) The Principies of Psychology. New York: Holt. 

LAZAR, R. (1977) Extending sequence-class membership with matching to sample. Journal 
ofthe Experimental Analysis of Behavior, 2Z, pp. 381 -392. 

RACHLIN, H. (1985) Pain and Behavior. The Behavioral and Brain Sciences, 9, pp. 43-83. 

RICHELLE, M. (1995) Du manifeste de Watson au renouveau de la conscience. Acta 
Comportamentalia, 3, pp. 1-7. 

RYLE, G. (1984) The Conceptof Mind. Chicago: University Press. 

SIDMAN, M. (1994) Equivalence relations and behavior: A research story. Boston: Authors 
Cooperativo. 

SKINNER, B. F. (1945). The operational analysis of psychological terms. Psychological 
Review, §2, pp. 270-277 [,publicado também em The Behavioral and Brain Sciences, 
1984, Z(4), pp. 547-553, de onde provém a citação ]. 

_(1953). Science andHuman Behavior. New York: Macmillan. 

_ (1957). Verbal Behavior. New York: Appleton-Century-Crofts, 

(1969). Contingencies of Reinforcement: a theoretical analysis. New York: Appleton- 
Century-Crofts. 

(1974). About Behaviorism. New York: A. Knopf. 

WATSON, J. B. (1913). Psychology as the behaviorist views it. Psychological Review, 20, 
pp. 158-177 [publicado também na obra organizada por R. J. Herrstein e E. G. 
Boring (1971) Textos Básicos de História da Psicologia. São Paulo: Herder/ 
EDUSP, pp. 626-636 ]. 


198 M.iriii Améllti M.itos 



Capítulo 21 


O modelo de seleção por consequências e a 

subjetividade 

M.ma Amálhi PicAbib Andcry 
IX/CAP 


✓ 

E difícil definir o momento, na obra de Skinner, em que ele formula a 'noção' de 
seleção por conseqüôncias. A influência darwiniana sobre Skinner se torna patente com a 
formulação desta noção que, entretanto, de certo modo sempre esteve presente em sua 
obra, a ponto de Skinner se referir à evolução para explicar, já na década de 30, o 
condicionamento respondente e operante (Skinner, 1935). Do mesmo modo, a própria 
postulação do comportamento operante traz a marca da conseqüência enquanto modo 
causal. Além disto, Skinner já parecia supor, de alguma maneira, uma tríplice determinação 
do comportamento desde o final da década de 40 e, certamente, em Science and Human 
Behavior (1953). Ali, aparecem estas duas marcas: a influência da Teoria da Evolução 
darwiniana e os primórdios do que viria a ser a proposta de uma determinação do 
comportamento em três níveis. Assim, por exemplo, para responder por que os reforçadores 
reforçam, Skinner se remete à evolução, para responder por que somos submetidos a 
condicionamento operante, mais uma vez temos que nos voltar à evolução. Mas o que há 
de novo neste período é que aí Skinner já aponta a necessidade de se considerar, de 


’Esta ó uma vorsão preliminar, ainda por ser revista, de trabalho apresontado om 1993. 


Sobre comportamento e coriiíç.Io 199 



maneira especial, a cultura como determinante do comportamento, quando define 
comportamento social e discute o controle social, especialmente através das agências 
controladoras. Pode-se dizer que algumas das bases para o modelo de seleção por 
conseqüências estavam dadas, na obra de Skinner, pelo menos desde a década de 50, no 
sentido de que certamente o operante é um conceito que envolvo, de maneira central, o 
controle do comportamento através do suas consequências e de quo o comportamento 
humano precisa ser explicado através da interação de variáveis que são filogenéticas, 
ontogenéticas e culturais. 

É inegável, porém, que o papel que parece ter adquirido o modelo de seleção por 
conseqüências, como conceito articuiador em sua obra, ó algo lentamonte construído e 
que só aparece com plenitude nos seus escritos a partir do final da década de 70. Fazendo 
um corte que certamente é arbitrário, podemos considerar o artigo Seleção por 
Conseqüências (1981) como um marco, aqui. 

Mesmo então, este não é um conceito que estava completamente estabelecido. 
Assim, há diferenças no modo de tratamento e interpretação nos vários artigos (por exemplo, 
1981,1989), ainda que sutis, sugerindo tratar-se de um tema em elaboração. Entretanto, 
parece que o modelo de seleção por conseqüências é de extrema importância conceituai 
na obra de Skinner, e eu arriscaria até dizer que com ele Skinner introduz uma marca 
revolucionária em seu sistema, do tipo que já havia feito antes com a noção de 
comportamento operante, com a noção de comportamento verbal e com a noção de tríplice 
contingência. 

O que afinal Skinner propõe e por que é tão importante? A resposta a esta questão 
não é única: o modelo de seleção por conseqüências é importante porque deíinitivamente 
separa Skinner do mecanicismo. A causalidade deixa de ser descrita em termos 
rnecanicistas de um efeito para uma causa. Enquanto modelo de causalidade, a seleção 
por conseqüências opera sobre variações pequenas e aleatórias que, por se mostrarem 
adaptativas, são selecionadas e reproduzidas. 

O modelo de seleção por conseqüências também ó importante porque define o 
ambientalismo skinneriano: a adaptação das espécies, do comportamento individual e 
das práticas sociais ao ambiente, passa a ser referida a um mecanismo causal quo coloca 
nas conseqüências e na sobrevivência a ênfase, afastando Skinner de uma visão do 
ambiente como simples detonador e modulando, portanto, sua proposta de controle. Dirá 
Skinner que exatamente porque seres vivos não são máquinas, o que podemos fazer é 
operar sobre variações, mas que ainda teremos que esperar pela seleção para que estas 
variações sejam ou não selecionadas (Skinner, 1987). 

Finalmente, o modelo de seleção por conseqüências permite a Skinner 
definitivamente resolver o problema da teleologia: é através deste modelo que se esclarece 
a aparente finalidade das mudanças comportamentais; ó através dele que se esclarece 
que o ambiente opera como um selecionador e não como um indicador da direção a ser 
seguida por uma espécie, um indivíduo, ou uma cultura. 

Mas o modelo de seleção por conseqüências é importante também porque resgata 
à teoria skinneriana uma unidade conceituai que desde sempre foi almejada. A partir de 
sua formulação, Skinner poderia afirmar a generalidade das leis comportamentais em 
relação a todas as espécies, a um só tempo afirmando o comportamento humano como 


200 M.iri.i Am.Mii P A. Andcry 



regido pelas mesmas leis e princípios e como especial. O comportamento humano, como 
o de qualquer outra espécie, passa a ser explicado por um só modelo causal, mas ao 
mesmo tempo, torna-se possível considerar as diferenças entre diferentes espécies e 
diferentes comportamentos e, ao mesmo tempo, resgatar sua unidade e as interações 
entre níveis de determinação até então potencialmente separados. 

A perspectiva de uma ciência abrangente do comportamento humano, que já teria 
unidade metodológica e epístemológica, em seus vários níveis, podo ser concretizada de 
uma maneira mais importante a partir do modelo de seleção por conseqüências que 
empresta a esta ciência unidade a partir de seu modelo causal. O que torna o comportamento 
uma coisa a ser estudada de um só ponto de vista, não importa se filogenético (instintivo, 
não aprendido, incondicionado, típico da espécie), individual ou cultural ó que o mesmo 
modelo causal opera em todos os eventos comportamontais. E, também importante, este 
modelo opera de forma tal que ó possível interpretar qualquer evento como sendo realmente 
multideterminado, mas com uma determinação que não ó mecânica. Os mesmos princípios 
- reprodução (com erro) / variação e seleção - podem e devem ser usados na descrição 
de todo comportamento, de outras espécies e da espécie humana. 

Partindo do suposto de que todo ser vivo evoluiu enquanto espécie através do 
processo descrito por Darwin como seleção natural, Skinner propõe o seu modelo de 
seleção por conseqüências. 

Para Darwin, ao se reproduzir, os seres vivos transmitem aos seus descendentes 
um conjunto de características que, entretanto, apresentam sempre alguma variação 
aleatória em relação aos seus progenitores. A reprodução garante a sobrevivência da 
espécie desde que o ambiente permaneça estável. As variações, que habilitam de maneira 
diferente aqueles membros que as carregam, são importantes no caso de mudanças no 
ambiente que exigem então novas habilidades dos indivíduos. Quando estas mudanças 
ocorrem, aqueles indivíduos quo possuem as características mais adaptadas à sobrevivência 
nas novas condições são selecionados, isto é, sobrevivem, e se reproduzem transmitindo, 
a longo prazo, estas mudanças para toda a espécie. Indivíduos, sobre os quais a seleção 
opera, são selecionados quando acontecem de ter sido reproduzidos com a variação que, 
então, com uma mudança ambiental, se mostra adaptativa. Com esse processo, espécies 
se adaptam, transformando-se, complexificando-se e sobrevivem, ou não se adaptam e 
perecem. A evolução ó, portanto, um mecanismo de seleção: são, como as chama Skinner, 
contingências de seleção natural que operam sobre variações aleatórias que ocorrem em 
membros de uma dada espécie, levando, como resultado, à sobrevivência (ou não) da 
espécie (Skinner, 1981). 

A evolução, que opera sobre indivíduos, mas que seleciona espécies, também 
atua sobre os repertórios comportamentais, necessários para a interação dos indivíduos 
com o ambiente. Quando Skinner fala do que chama primeiro nível de seleção por 
conseqüências - as contingências de seleção natural - como Darwin, refere-se às 
características dos membros de uma espécie e a padrões comportamentais que seriam 
selecionados segundo os mesmos mecanismos. Dizer, portanto, que a evolução seleciona 
características dos indivíduos de uma espécie significa dizer que ela atua também sobre 
padrões de comportamento e modos de operação destes padrões. O processo de seleção 
atua sobre padrões que, uma vez selecionados, dotam os membros de uma espécie de 
repertórios comportamentais que lhes permitem comportar-se no mundo - interagir com o 


Sobre compoit.imento t cotfniç.lo 201 



ambiente - e garantir a sobrevivência da espécie, desde que o ambiente não mude muito. 
O que significa dizer que nas espécies, ao lado de suas características fisiológicas, 
anatômicas, morfológicas, evoluem também comportamentos específicos de espécies. 
São estes repertórios, moldados portanto por seu valor de sobrevivência para a espécie, 
que possibilitam as trocas necessárias do indivíduo com o ambiente. O problema dos 
comportamentos e repertórios assim selecionados, lembra Skinner, ó que estes são 
repertórios adaptados desde que o ambiente se mantenha razoavelmente idêntico àquele 
existente quando da sua seleção 2 . 

O condicionamento respondente, enquanto nova forma de interação organismo- 
ambiente, teria surgido a partir de pequenas variações em relação a respostas específicas 
de espécie, presumivelmente, em primeiro lugar respostas a estímulos aversivos (Skinner, 
1987). Com o condicionamento respondente, indivíduos podem passar a reagir a um mundo 
em mudança com respostas que antes só seriam possíveis em condições preestabelecidas, 
permitindo que uma nova parcela do mundo se torne significativa. Isso quer dizer que os 
organismos passam a ser capazes de responder, ainda que com as mesmas respostas, 
a estímulos que antes não podiam, aumentando assim a sua possibilidade de adaptação 
ao ambiente. Entretanto, os reflexos condicionados só mantêm seu valor de sobrevivência 
se forem acompanhados dos reflexos incondicionados com que foram pareados, o que 
exige uma certa ‘ordenação’ do ambiente, por assim dizer: reflexos condicionados, enquanto 
modo de aquisição de repertórios, só são adaptativos se os estímulos condicionados 
sistematicamente forem pareados no mundo com os estímulos incondicionados. 

Após estas mudanças, mais uma vez através de pequenas variações que de 
início poderiam ter sido redundantes em termos de sobrevivência, em relação aos 
mecanismos comportamentais em efeito para uma determinada espécie, as espécies 
desenvolvem uma suscetibilidade ao reforçamento e um repertório não comprometido com 
padrões típicos da espécie ou com padrões eliciados, que podem ser condicionados à 
maneira operante. Estabelece-se assim uma possibilidade inteiramente nova de responder 
a um mundo em mudanças. Indivíduos suscetíveis ao reforçamento operante podem aprender 
respostas que não estão preparadas filogeneticamente, e um parcela muito maior do 
mundo pode se tornar significativa para eles. 

Aqui se estabelece, segundo Skinner, um segundo tipo de seleção por 
conseqüências. Este novo modo de seleção por conseqüências permite que membros 
individuais de uma espécie sejam capazes de operar sobre o mundo de modos que não 
estão pró-determinados, e também, que esta operação seja na direção agora não mais da 
sobrevivência da espécie, mas da aquisição de comportamento individual que permite a 
obtenção de conseqüências que são importantes para o indivíduo durante sua vida particular. 


3 Ao discutir os procossos comportamentais controlados pelas contingências de seleção natural, Skinner 
aborda o comportamento Imltatlvo. Sugere que pequenas variações no modo como so comportam os 
Indivíduos de uma espécie surgom, do início, redundantes ã seleção de comportamentos característicos das 
ospócios, permitindo aos Indivíduos membros se tornarem suscetíveis ã imitaçõo o ã modelaçflo Embora 
estos sejam processos ainda controlados por contingências de seleção filogenéticas, eles permitem aos 
membros de espécies suscetíveis a eles benetlciarem-se de reações ao ambiente de outros membros da 
espécie, tornando-se assim um processo comportamental selecionado filogeneticamente 


202 M.ir/.i Anulli.t I] A. Andery 




Comportamentos passam a ser controlados por suas conseqüências imediatas e são 
selecionados por conta dessas consequências, em termos de fortalecimento para o 
repertório comportamental de indivíduos e não mais de espécies. Mais uma vez, são as 
conseqüências que operam como modo causal; entretanto, não são mais as conseqüências 
filogenóticas de sobrevivência da espécie, mas conseqüências ontogenéticas de 
fortalecimento do comportamento individual. É produto deste processo evolucionário a 
suscetibilidade ao reforçamento pelas conseqüências imediatas do comportamento. 

A evolução teria operado, assim, de modo que o comportamento que de início 
seria selecionado apenas através das conseqüências para a sobrevivência da espécie 
como um todo passasse a ficar sob controle de um novo nível de seleção por conseqüências: 
o reforçamento (fortalecimento) do comportamento dos indivíduos. As contingências 
operantes de seleção permitem aos indivíduos que se tornam suscetíveis a este tipo de 
condicionamento uma flexibilidade e adaptabilidade ao ambiente que os torna muito mais 
capazes de sobreviver em ambientes constantemente em mudança. Por seu lado, este 
mesmo tipo de contingência de seleção certamente acelera, pola própria ação dos indivíduos 
e espécies suscetíveis de condicionamento operante, as mudanças ambientais. As trocas 
entre indivíduos e ambientes tornam-se maiores e mais intensas provocando, por seu 
turno, enormes mudanças em ambos. Também conseqüência deste processo evolucionário 
mais rapidamente adaptativo, o condicionamento operante tende a se tornar mais 
preponderante, de modo que parcelas cada vez maiores do repertório dos indivíduos tendem 
a se colocar sob controle operante. O surgimento do segundo nível de controle pelas 
conseqüências põe em cena, por assim dizer, um indivíduo mais maleável, capaz de 
responder a um ambiente que muda durante sua vida de maneiras inteiramente novas e 
inesperadas, e põe em cena um indivíduo que, pela primeira vez na evolução, ó controlado 
pelas conseqüências de seu comportamento individual. O condicionamento operante 
também torna possível aos indivíduos de uma espécie adaptarem-se a mudanças ambientais 
que até então certamente poderiam levar à extinção da espécie. A história individual, 
enquanto história comportamental, só se torna possível a partir deste passo evolucionário. 
A seleção não opera mais sobre a sobrevivência da espécie, mas sobre o comportamento 
do indivíduo, é comportamento que passa a ser selecionado - fortalecido ou enfraquecido 
através de reforçamento. A contingência selecionadora não mais é a sobrevivência da 
espécie, mas o comportamento individual. Não mais o organismo, mas o comportamento, 
o operante, torna-se o foco sobre o qual opera a seleção. 

Isso certamente nos leva a supor que a noção de individuação só se torna 
ontologicamente possível a partir do segundo nível de seleção por conseqüências. Apenas 
através do condicionamento operante os diferentes indivíduos de uma espécie podem 
passar a desenvolver repertórios que são adaptados a sua história individual, o que vale 
dizer, à sua interrelação particular com o ambiente. Assim, cada indivíduo de uma espécie, 
descontados os limites filogenéticos, passa a ser um indivíduo no sentido de possuir um 
repertório de comportamentos que é sempre necessariamente diferente dos outros membros 
de sua espécie. 


Sobre comportamento e coflniç.lo 203 



Certamente, tanto nos níveis um (seleção natural, sobrevivência da espécie), como 
dois (contingências de reforçamento, seleção de comportamento operante), certas formas 
de interação entre indivíduos, membros de uma mesma espécie, são importantes para a 
manutenção e a aprendizagem de comportamentos relevantes para a espécie e para o 
indivíduo. Daí, e da evolução fisiológica de um certo aparato (segundo Skinner, a faringe e 
as cordas vocais), surge um terceiro tipo de comportamento que é de suma importância - 
o comportamento social propriamente dito. A partir da possibilidade de que o comportamento 
de um indivíduo seja mediado pelo comportamento de outro indivíduo e seja reforçado por 
esta mediação, surge a possibilidade de imitação e modelação, agora controladas por 
reforçamento operante, ou melhor, pelas conseqüências do comportamento sobre o indivíduo 
e, finalmente, o comportamento verbal. O que a imitação e a modelação permitem ó uma 
espécie de encurtamento da aprendizagem, que pode agora ser feita através do mostrar e 
fazer, como diz Skinner. Membros da espécie podem se beneficiar do comportamento 
aprendido por outros membros da espécie. Esta tendência de ser reforçado por imitação e 
modelação constrói uma tendência para imitar e copiar modelos que também prepara para 
o passo evolucionário mais importante, pelo menos enquanto especificidade, da espécie 
humana; o surgimento de comportamento verbal. 

Com o aparecimento do comportamento social e especialmente com o 
comportamento verbal, torna-se possível que o comportamento de um indivíduo seja efetivo, 
ainda que não entre em relação mecânica com o ambiente. O comportamento verbal 
permite mais do que mostrar e fazer, permite um mostrar e fazer que leva os indivíduos a 
fazerem pelo outro. Uma parcela muitíssimo maior do mundo pode então passar a ser 
significativa para os indivíduos. Essa característica, entretanto, leva à evolução de um 
novo modo de controle das conseqüências sobre o comportamento: a seleção de práticas 
culturais. O que significa dizer que os homens, capazes de comportamento verbal, tornam- 
se suscetíveis a um novo modo de seleção por conseqüências: a seleção que atua sobre 
práticas culturais - práticas embasadas em reforçamento social, práticas que dependem 
da participação de mais de um indivíduo - selecionando aquelas práticas que permitem a 
sua própria sobrevivência e a do grupo praticante. Os mecanismos que operam sobre 
cada indivíduo praticante são os de condicionamento operante; entretanto, o critério que 
permite a manutenção ou não das práticas é a sobrevivência do grupo praticante. Isso traz 
uma nova maneira de ação sobre o mundo. Uma ação que permite que parcelas não 
existentes do mundo para os indivíduos possam passar a ter significação para eles e, 
mais importante talvez, que os indivíduos passem a independer do suas experiências 
diretas com o mundo para enfrentar o ambiente. Por seu turno, a seleção das práticas que 
se reproduzem em cada indivíduo se dão no grupo praticante. O homem passa a ser 
capaz de lidar com, de se comportar, de adquirir repertórios transmitidos socialmente. 
Além de poder interagir com o mundo de certo modo libertos de suas relações mecânicas, 
os homens passam a ser capazes de se beneficiar de interações que nem sequer foram 
vividas ou presenciadas por eles. A experiência do mundo, a aquisição do novos repertórios 
não mais depende da história de vida individual. 

A cultura, que emerge com o terceiro nível do seleção por conseqüências - definida 
por Skinner como o conjunto das contingências sociais -, permite não apenas a 


204 M.ir/.i Am.tliii P, A. Andcry 



sobrevivência de um grupo praticante, mas certamente torna este um grupo especial: um 
grupo capaz de transmitir o que (oi aprendido através do tempo, através de indivíduos e até 
mesmo através de lugares. A cultura permite uma certa atemporalidade da experiência no 
sentido de que permite que o mundo seja conhecido através da experiência de outros, que 
nem sequer precisam estar presentes fisicamente, Isso traz à espécie humana um nova 
capacidade de adaptação ao meio ambiente, uma adaptação que começa libertando o 
indivíduo do contato direto com o mundo mecânico na obtenção de seus reforçadores e 
que termina - hoje - por tornar este contato uma necessidade urgente. As práticas culturais, 
selecionadas por sua capacidade em tornar sobreviventes os grupos praticantes, são, é 
corto, produzidas e reproduzidas pelos indivíduos através de mecanismos de reforçamento 
social, mas permitem ao ser humano uma abrangência em sua ação que é única, ao 
mesmo tempo que o submete de maneira indissolúvel ao grupo. 

Ao postular o modelo de seleção por conseqüências, portanto, Skinner aborda o 
comportamento humano como um produto de três níveis de seleção por conseqüências. 
O comportamento humano, especialmente o comportamento tipicamente humano, só 
pode ser compreendido em termos da ação de cada um destes níveis e especialmente de 
sua interação. Os padrões comportamentais complexos - aqueles que constroem os 
indivíduos e as culturas nas quais vivemos - estão necessariamente vinculados, portanto, 
a nossa história natural e pessoal, mas estão também determinados pelas práticas culturais 
que são em última instância selecionadas por seu efeito sobre o grupo e não sobre o 
indivíduo. A análise experimental do comportamento, assim, pode continuar, e deve, sendo 
compreendida como aquele campo do saber que se ocupa de compreender comportamento 
dos indivíduos, mas não o fará se não considerar a cultura, se não considerar os efeitos 
das práticas culturais sobre o grupo como parâmetro para considerá-las em relação aos 
indivíduos. 

E é apenas através da cultura que um outro contato importante pode ser feito 
entre o indivíduo e o ambiente: o comportamento verbal permite que os indivíduos passem 
a ter um acesso a uma parte importante do mundo: o mundo privado. Embora o 
condicionamento operante prepare o indivíduo para o contato com o mundo dentro de sua 
pele, no sentido de que torna cada indivíduo único e singular, produto de uma história 
ambiental particular, é, certamente, através do comportamento verbal que este contato 
pode efetivamente ser realizado. É a cultura que permite o autoconhecimento e o 
autogoverno como modos de preparar os indivíduos a atuarem socialmente e como modo 
de garantir a reprodução de práticas culturais. É através da comunidade verbal que se 
constrói uma parte importante do repertório dos seres humanos: sua subjetividade. Se o 
condicionamento operante permite a individuação, permite a construção, para cada indivíduo 
de uma espécie, ainda que dentro de certos parâmetros, através de uma história de 
interação com o ambiente particular, de uma singularidade que não pode ser idêntica a 
qualquer outra. O conhecimento desta individualidade e a consequente reação a ela, na 
forma de comportamento operante, de autoconhecimento e de autogoverno só é possível 
com a emergência do comportamento verbal e seu conseqúente e necessário resultado: a 
evolução de ambientes sociais - em uma palavra, a cultura. 


Sobre comport.imonfo e cognifüo 205 



Sem o terceiro nível de seleção por conseqüôncias, ó impossível, por assim dizer, 
discutir-se a construção da subjetividade. E sem compreender a cultura, as práticas 
culturais, as contingências sociais em efeito na vida de cada indivíduo, ó difícil entender a 
subjetividade, que é sempre, deste ponto de vista, estritamente social. A nossa subjetividade, 
por paradoxal que pareça, talvez seja a mais social de todas as características humanas. 
É paradoxal, porque apenas através de correlatos outros a conhecem, e porque o próprio 
ato de torná-la pública em certo sentido a desfaz; entretanto sem o acompanhamento 
público, sem a modelagem e o reforçamento social, o comportamento verbal e a cultura, 
não podemos sequer falar dela. Mais ainda, as contingências responsáveis pela construção 
da subjetividade não são sequer um conjunto de contingências que modelam o 
comportamento operante no sentido mais estrito do termo; são sim, um conjunto de 
contingências que só permanecem em efeito por suas conseqüôncias em termos da 
sobrevivência do grupo praticante. Não se pode, portanto, compreender a subjetividade 
como mero conjunto de resultados de interações entre indivíduos, uma vez que estas 
interações são mediadas pela comunidade verbal, uma comunidade que mantém um 
conjunto de práticas por suas conseqüências para o grupo. 

As conseqüências de compreender a subjetividade como fenômeno que ó produzido 
não apenas dentro do modelo de seleção por conseqüências, mas que está essencialmente 
vinculado ao terceiro nível de seleção, nos remetem, em primeiro lugar, para o 
reconhecimento do fato de que talvez a subjetividade aparentemente tão absolutamente 
individual e singular só sobreviva enquanto puder ser também social e diretamente ligada 
à sobrevivência do grupo social. Em segundo lugar, e isso é especialmente relevante aqui, 
para Skinner, pelo menos uma parcela importante do que temos reconhecido como 
subjetividade - o self - é produto da evolução das culturas. E Skinner então afirma que 
enquanto podemos descrever uma pessoa como "um repertório de comportamentos", o 
selfé "um conjunto de estados internos acompanhantes, <que> é observado apenas 
através de sentimento ou introspecção", ou ainda, que “o selfé como uma pessoa se 
sente” (Skinner, 1989, p.28). Tanto é assim que, neste mesmo artigo, Skinner prossegue 
analisando como contingências verbais e sociais, então construiriam a auto-observação, 
a auto-estima, o self responsável, a autoconfiança e a relação entre selfe mente. Isso 
significaria, me parece, que a partir do modelo de seleção por conseqüências, o fenômeno 
da subjetividade, a sua construção, do ponto de vista behaviorista radical, deverá envolver 
necessariamente a compreensão de como se articulam indivíduo e cultura e, mais ainda, 
quais são, porque e como operam as contingências sociais que caracterizam a cultura na 
qual vivemos. 

Se voltarmos ao modo como evoluiu o comportamento operante, temos que 
atentar para o que Skinner chama a atenção, em artigo publicado em 1985. Ali, Skinner 
afirma que o reforçamento, na realidade, atua de duas maneiras (pelo próprio modo 
como evoluiu enquanto modo de inter-relação organismo-ambiente): como evento que 
imediatamente dá prazer - e está ligado à questão do drive - e como evento que fortalece 
o comportamento tornando-o mais provável no futuro. Skinner chama a atenção para o 
fato de que o reforçamento, enquanto conseqüência imediata do comportamento tem 
um efeito de prazer (produto da própria suscetibilidade ao reforço) - assim, quando 
agimos de um dado modo o fazemos pelo prazer e não necessariamente por uma 
tendência maior para nos comportarmos. Mas o reforçamento tem também um papel 


20ó M.irl.i Am.Ul,i P. A. Andery 



fortalecedor sobre o comportamento, muito mais importante em termos evolucionários, e 
que não é concomitante com o seu outro efeito - assim, quando sentimos uma tendência 
para nos comportarmos de determinado modo, não necessariamente sentimos o que 
havíamos sentido quando, ao nos comportarmos anteriormente, obtivemos reforçamento. 
O papel fortalecedor do reforçamento é mais importante em termos de sobrevivência, uma 
vez que dele depende nossa adaptação ao ambiente. 

Entretanto, ainda segundo Skinner, estes dois papéis do reforçamento, no caso 
humano, não parecem ter sido sequer igualmente privilegiados na evolução da cultura 
ocidental. O papel de algo que dá prazer se tornou preponderante na seleção dos 
comportamentos culturais que produzem reforçamento. Isso significa que desenvolvemos 
muitas práticas culturais porque garantem este efeito, e que não necessariamente garantem 
o efeito fortalecedor de certas práticas, muito mais importantes em termos da sobrevivência 
da espécie. O resultado disto ó, para Skinner, uma cultura em risco e que coloca em risco 
a própria sobrevivência da espécie. 

Se pudermos imaginar que esse privilégio sobre o efeito de prazer do reforçamento 
é realmente predominante em nossa cultura, e se concordarmos que a subjetividade, o 
self, são produtos de contingências culturais, podemos então discutir em que circunstâncias 
e com que características se desenvolverá a subjetividade e o se/f de cada um de nós 
nesta cultura. Aparentemente, se concordarmos com Skinner que o selfé a construção 
da subjetividade via cultura, e se vivemos em uma cultura que desenvolveu práticas em 
que o reforçamento imediato, o prazer, é o que controla o comportamento e as práticas, 
então o indivíduo, o se/f que daí emerge, é um se/f controlado por estas mesmas questões, 
um se/f que se conhece a partir destas conseqüências e não de outras que estão operando 
e que são, do ponto de vista da evolução e talvez da sobrevivência da espécie, mais 
importantes. Isso poderia significar que as tendências para supor um "eu iniciador” como 
diz Skinner, seriam produto também destas contingências, de contingências que em certo 
sentido se descolaram de conseqüências mais importantes, porque mais atrasadas, e 
que controlam não apenas nosso comportamento, mas nosso autoconhecimento, tomando 
sempre como referência nós mesmos (o que é ainda mais acentuado pelo fato de que o 
controle das conseqüências imediatas deve operar também em nível encoberto). O que eu 
estou querendo dizer ó que talvez Skinner esteja abrindo uma via importante para a 
discussão da subjetividade, não apenas porque estaria demonstrando a necessidade de 
entender as contingências culturais para se compreender a emergência da subjetividade, 
mas também porque nos dá uma boa pista para interpretarmos algumas das características 
mais marcantes da concepção de sujeito e de subjetividade que predominam em nosso 
tempo: até onde as ideologias de liberdade, livre-arbítrio, de vontade, necessidade, desejo 
são produtos não apenas de uma história intelectual que sempre privilegiou aquilo que é 
privadamente experienciado, mas são também, e talvez principalmente, produtos de 
contingências culturais que foram presas da própria armadilha da seleção natural? 

A cultura que emergiu do terceiro nível de seleção por conseqüências é, como 
não poderia deixar de ser, em certo sentido, refém de mecanismos evolucionários que, 
em primeiro lugar, não nos dão consciência dos processos a que estamos submetidos 
(como lembra Skinner, talvez o problema seja que não consigamos perceber, por conta 
da própria estrutura do sistema nervoso, os processos a que estamos submetidos, mas 
percebemos apenas os resultados destes processos - o que, aliás, desemboca com 


Sobre comportamento e cognlç<lo 207 



facilidade na idéia de que somos o sujeito iniciador de nossas ações), e que, em segundo 
lugar, nos colocaram sob o império das conseqüências imediatas de nossa ação, o que 
levou necessariamente a uma predominância de práticas que valorizam o prazer-como 
conseqüência do reforçamento, e não sua ação fortatecedora. Isso ó traduzido, na 
construção da subjetividade, em uma subjetividade que em certo sentido ó sempre alienada, 
no sentido de que temos consciência apenas de parte de nossa ação e suas 
conseqüências, e de que estamos presos a esta consciência parcial, especialmente quando 
vivemos em uma cultura cujas práticas culturais acabam por se caracterizar por isso. 


Bibliografia 


SKINNER, B. F. (1935) Two Types of conditioned reflex and pseudo typo. In: Cumulative 
fíecord. New York: Appleton-Century-Crofts Inc., 1972, pp. 479-488. 

(1953) Science andHuman Behavior. New York: Macmillan. 

(1981) Selection by Consequences. In Skinner, B.F. (1987) Upon FurtherReflection. 
Englewood Cliffs: Prentice Hall. 

(1984)The Evolution of Behavior. In Skinner, B.F. (1987) Upon Further Reflection. 
Englewood Cliffs: Prentice Hall. 

_(1985) Newsfrom Nowhere, 1984. In Skinner, B.F. (1987) Upon Further Reflection. 

Englewood Cliffs: Prentice Hall. 

(1986) What Is Wrong with Daily Life in the western World? In Skinner, B.F. (1987) 
Upon Further Reflection. Englewood Cliffs: Prentice Hall. 

_(1986b)The Evolution of Verbal Behavior. In Skinner, B.F. (1987) Upon Further 

Reflection. Englewood Cliffs: Prentice Hall. 

(1988) Genes and Behavior. In Skinner, B.F. (1989) Recent Issues in the Analysis 
of Behavior. Columbus: Merrill Publishing Co. 


208 M.iriii Am.ili,i P A. Andcry 



Capítulo 22 


A concepção de homem e a busca de 
autoconhecimento: onde está o problemat 

Teresa Maria de Azevedo Pires Sírio 

IVC7SP 


/\credito que para dar conta das expectativas que o título deste artigo pode 
sugerir, trés tópicos devam ser abordados: 1) a concepção de homem, 2) o 
autoconhecimento e 3) a busca de (autoconhecimento). Abordá-los a partir de uma 
perspectiva behaviorista radical implica pelo menos duas tarefas: desfazer parte das crenças 
bastante difundidas acerca do behaviorismo e problematizar. A tarefa de desfazer crenças 
nos conduzirá aos tópicos 1 e 2 (concepção de homem e autoconhecimento), já que as 
noções mais difundidas e que sustentam a maioria das avaliações feitas do behaviorismo 
se relacionam de forma direta com a visão de homem e de conhecimento científico que 
sustentam a proposta do behaviorismo para a Psicologia. A tarefa de problematizar (no 
sentido de localizar o problema, as perguntas, as questões, ou, em outras palavras, no 
sentido de localizar o desafio que deveria gerar conhecimento) nos conduzirá ao tópico 3 
-a busca de (autoconhecimento). 


Sobnr comport.imcnfo c eogníçdo 209 



1. A concepção de homem 


Segundo o autor de uma biografia de Skinner (Bjork, 1993), uma contradição 
central marcou o pensamento skinneriano; esta contradição envolve duas noções, pelo 
menos aparentemente, antagônicas: o poder do homem de planejar o futuro e o fato de a 
evolução biológica ser acidentalmente determinada. Sem discutir se são estas as noções 
que expressam exatamente a contradição, acredito que elas pelo menos refletem um 
antagonismo que marca tanto o processo de produção de conhecimento como o 
conhecimento produzido por Skinner: é a contradição entre determinante e determinado. 
O que isto quer dizer? Acredito que Skinner, ao produzir conhecimento e no conhecimento 
que produziu, se defrontou continuamente com o choque das alternativas de conceber o 
comportamento como só determinado ou como só determinante. É bem possível que 
Skinner não tenha sempre identificado e lidado com tal confronto; talvez por isso nem 
sempre o encontramos 'solucionado' de forma refletida em seus textos, mas, creio, este 
confronto esteve sempre presente e, de certa forma, conduzindo todo o seu trabalho. E 
esta contradição determinante/determinado está presente na concepção de homem implícita 
no behaviorismo radical. A análise que apresento a seguir pretende sustentar esta posição 
e se baseia em artigos sobre o mesmo tema que escrevi juntamente com Nilza Micheletto 
(Michelettoe Sério, 1993). 

a) Comportamento operante: produzido/produtor? O conceito de comportamento 
operante é o conceito basilar desta concepção de homem. A relação entre comportamento 
e conseqüência que caracteriza o conceito de operante diz que o comportamento produz 
conseqüências e que estas, por sua vez, determinarão aquele mesmo comportamento 
(entendido, aqui, como classe de respostas). Ora, o comportamento pode ter, em sua 
primeira emissão, ocorrido ao acaso - possivelmente como uma variação (não importando 
aqui como esta variação chega a ocorrer). Entretanto, se a conseqüência é por ele produzida, 
não há mais como falar em relações acidentais e se concretiza uma relação ‘causal’ 
especial: a conseqüência depende do comportamento e, ao mesmo tempo, o determina. 
Lembrando que comportamento é classe de respostas, esta relação 'causal' não se esgota 
em um número definido de instâncias: o comportamento está continuamente produzindo 
as condições de sua produção. 

b) Relações comportamento-ambiente: parte do todo/totalidade? Lidar com 
comportamentos, ou mais corretamente com relações comportamento-ambiente, para 
compreender o homem, traz implícita a defesa da análise (da decomposição, da divisão) 
como procedimento necessário para a produção de conhecimento sobre este homem. 
Esta defesa e a prática relacionada, ou seja, a utilização das relações comportamento- 
ambiente como instrumento de análise, tem como suporte a existência do organismo 
como um todo. Há um todo a ser analisado e a análise ó apenas parte do caminho para se 
compreender este todo. Mais que isto, por várias razões e em vários momentos de sua 
vida, Skinner sempre enfatizou estar lidando com o organismo como um todo. É este todo 
que se altera nas/com as diferentes relações comportamento-ambiente. Entretanto, nosso 
conhecimento se refere a tais relações, as leis que produzimos descrevem tais relações; 
na situação de produção deste conhecimento, a relação ó tomada como o todo que deve 
ser compreendido. Este é o preço da análise, um preço que não deveria implicar a dissolução 


210 Ifrew M.iri.i de Azevedo Tires Sério 



da totalidade, pois esta totalidade era o objetivo do conhecimento. 


c) Organismo: genérico/singular? O conhecimento produzido pretende descrever 
relações que são gerais, que se referem a todos os organismos. Entretanto, a generalidade 
dos processos descritos pela lei não acarreta a perda de singularidade de cada organismo. 
A singularidade é, na verdade, o resultado dos diferentes processos combinados das mais 
diferentes maneiras. 

d) Homem: organismo/pessoa? O homem é simultaneamente um organismo, uma pessoa 
e um se/f. Estas três dimensões são separadas enquanto recurso de análise para 
identificarmos as diferentes fontes de determinação de cada comportamento de um homem 
singular. Os determinantes que se originam na história da espécie, na história do indivíduo 
e na história da cultura atuam conjuntamente na constituição desse homem. Talvez se 
possa dizer que a singularidade ó acentuada no intercruzamento dessas trôs histórias. 

e) Homem singular: produto do acaso/dono de seu destino? É exatamente a existência 
dessas três dimensões humanas que possibilita a pergunta e delimita sua resposta. Como 
um dos resultados da história da cultura, o homem ó capaz de descrever as diferentes 
relações entre seus comportamentos e o ambiente e de antecipar, prever, as alterações 
que estas interações produzirão. Com base na descrição e previsão, o homem é capaz de 
planejar futuras relações de tal forma que o resultado delas - o próprio homem - não será 
mais produto do acaso. Isto pode ocorrer através da interferência nas variações que serão 
submetidas à seleção, ou da interferência no ambiente selecionador. Em qualquer um dos 
casos, o homem precisará se submeter à seleção, o que significa dizer que seu planejamento 
deverá virar ação e como tal sofrerá a determinação de suas conseqüências. Voltamos 
aqui ao antagonismo básico: nem só determinado, nem só determinante, nem produto do 
acaso, nem dono exclusivo de seu destino. O homem não é necessariamente produto do 
acaso, ou melhor, pode, em determinadas circunstâncias, não ser produto do acaso - o 
que, parece, o torna mais humano. Mas, para ser totalmente humano, ele tem que se 
submeter às relações que estabelece com o seu ambiente natural e social; sem isso, 
seríamos obrigados a imaginar um homem já pronto, acabado, ou, o que daria no mesmo, 
insensível aos efeitos de suas ações, imutável. 


2. O autoconhecimento 

Uma tal concepção de homem possibilita que o autoconhecimento seja discutido, 
ou, falando de outra maneira, a questão do autoconhecimento não está por princípio 
eliminada. Parece ser de bom tom iniciarmos a discussão.abordando o tema mais geral 
do conhecimento. 

a) Conhecimento: Consideramos como conhecimento tanto o comportar-se 
diferencialmente e efetivamente em determinadas situações, como o dizer como nos 
comportamos ou deveremos nos comportar. Em outras palavras, vemos como conhecimento 
tanto o comportamento ou comportamentos que são produtos de uma exposição anterior 


Sobrr comport.imcnto e cogniçüo 



às contingências de reforçamento, como a descrição dessas contingências. Podemos, 
no primeiro caso, identificar o conhecimento como pessoal, natural, ou até intuitivo e, no 
segundo, identificá-lo como objetivo, racional. Tanto em um caso como no outro, podemos 
identificar dois caminhos que levam ao conhecimento. Podemos: (a) dizer que conhecemos 
por contato, por familiaridade ("by acquaintance") e, (b) que conhecemos por descrição 
{"by description") ( Skinner, 1987, pp. 4-5 e ainda, 1982,1984). De qualquer forma, nos dois 
casos, falamos de conhecimento e, nos dois casos, o conhecimento deriva, se origina de 
nossa relação com o ambiente, de nossa participação em uma contingência de reforçamento 
completa (S d /resposta/S f ), quer seja a contingência que modela o comportamento 
específico, quer seja a contingência na qual a descrição é enunciada. Este aspecto é 
muito importante porque com ele se elimina a possibilidade de um conhecimento no qual 
o sujeito é passivo, no qual os fenômenos a serem conhecidos se impõem de tal forma ao 
sujeito que a ele só resta reproduzi-los tal qual são. Conhecer, em qualquer dos casos, 
implica um sujeito ativo e interagindo. 

"O contato sensória I com o mundo externo pode ser o início do conhecimento, 
mas contato não è suficiente. (...) Respostas devem ser dadas e reforçadas antes 
que qualquer coisa possa ser vista. ” (Skinner, 1984, p. 289) 

Talvez seja importante, também nos dois casos, destacar um tipo especial de 
conhecimento ao qual nos referimos como compreensão. Compreensão parece implicar o 
conhecimento das razões; em geral, dizemos que compreendemos um fenômeno quando 
conhecemos as razões de sua ocorrência. Quando conhecemos por descrição, a 
compreensão pode significar que nos expusemos à contingência que a descrição enuncia. 
Quando conhecemos por contato ou familiaridade, a compreensão pode significar que 
enunciamos uma descrição que permite participar de forma mais efetiva da contingência 
(Skinner, 1982, p.123). 

É de especial interesse na compreensão do homem o conhecimento que descreve 
contingências. Esse tipo de conhecimento marca de tal forma o homem, distinguindo-o 
qualitativamente de outras espécies animais e caracterizando de forma peculiar o ambiente 
humanizado (criado pelo homem), que, ao diferenciarmos a emissão do comportamento 
do ‘saber’ que o comportamento foi emitido, reservamos o termo conhecimento apenas 
para tal ‘saber’ (ver, por exemplo, Skinner, 1982, p.30). 

"As pessoas começaram (com o advento do comportamento verbal] a falar 
daquilo que estavam fazendo e por que o estavam fazendo. Descreviam seus 
comportamentos, o cenário em que ele ocorria e suas conseqüôncias. Em outras 
palavras, além de serem afetadas pelas contingências de reforço, passaram a 
analisá-las."(Skinner, 1982, p. 105) 


b) Autoconhecimento: Esta distinção torna-se ainda mais importante quando nos 
referirmos ao autoconhecimento. Por conta da história da Filosofia e da Psicologia, 
acreditamos que, ao emitir um comportamento, necessariamente sabemos que ele foi 
emitido; temos dificuldade em reconhecer que, quando descrevemos um comportamento 
nosso, dois comportamentos ocorreram - o comportamento descrito e o comportamento 


212 Teres»! M.iri.i de Azevedo Pire* Sério 



de descrever - e provavelmente eles estão sob controle de variáveis diferentes, ou seja, 
um não implica necessariamente o outro. Em outras palavras, acreditamos que dada a 
aparente intimidade que cada um de nós tem consigo mesmo, somos os fenômenos mais 
acessíveis ao nosso próprio conhecimento, tão acessíveis que este conhecimento ó ime¬ 
diato; temos dificuldades em reconhecer que o conhecimento que temos a nosso respeito 
ó necessariamente mediado por outros homens, que o autoconhecimento ó um produto 
social. 

Possivelmente, esta dificuldade tenha também raízes no fato de que além de tudo 
os outros homens não têm contato direto com a maior parte dos fenômenos que são 
objeto do autoconhecimento. Poucas pessoas, além de nós mesmos, saberão dizer o 
que fizemos ontem e o que provavelmente faremos amanhã; ninguém mais, além de nós 
mesmos, tom contato direto com nossos sonhos, projetos, sentimentos, desejos,... enfim, 
com o mundo sob nossa pele, com nosso mundo privado. Entretanto, apesar disso, só 
conhecemos este mundo íntimo se outros nos possibilitarem isto; ou melhor, o grau de 
intimidade que temos com este mundo depende da comunidade verbal à qual pertencemos. 

“Todas as espécies, exceto o homem, comportam-se sem saber que o fazem 
e, presumivelmente, isto também era verdadeiro no caso do homem até surgir uma 
comunidade verbal que fizesse perguntas acerca do comportamento, gerando assim 
o comportamento autodescritivo. O conhecimento de si próprio tem origem social e 
é inicialmente útil para a comunidade que propõe perguntas. Mais tarde, torna-se 
importante para a própria pessoa" (...) "Diferentes comunidades geram diferentes 
tipos e quantidades diferentes de autoconhecimento e diferentes maneiras de uma 
pessoa explicar-se a si mesma e aos outros." (Skinner, 1982, p. 146) 


Desenvolver o autoconhecimento deve ser algo tão importante para a comunidade 
que eia busca superar o problema da privacidade, contornando seu não acesso aos eventos 
privados com técnicas especiais que recorrem ao acompanhamento público desses eventos 
e à inferência. Mais do que isso, partindo de um repertório do auto-observação, possivelmente 
estabelecido a partir de contingências de modelação e do advento do comportamento 
verbal vocal, a comunidade cria contingências específicas para o desenvolvimento e 
fortalecimento desse repertório; a psicoterapia é um exemplo disso (Skinner, 1989b). É 
importante destacar que, dentro do autoconhecimento, a comunidade atribui especial 
importância à descrição dos comportamentos discriminativos do tipo ver, ouvir, tatear, 
sentir o gosto; além da descrição desses comportamentos fornecer uma dupla informação, 
é importante torná-las confiáveis pois tais comportamentos são a base sobre a qual outros 
fenômenos serão descritos (Skinner, 1989a). Dentro dessa perspectiva, também pode ser 
de especial interesse analisar os casos de ausência de autoconhecimento e buscar 
identificar as variáveis responsáveis por isso. (Skinner, 1989a) 

O autoconhecimento é importante também para o próprio indivíduo. Nele está a 
possibilidade de autogoverno, de autocontrole. 

Aposar dessa importância e a despeito do quadro de referência que o orienta, o 
autoconhecimento não consegue superar totalmente a barreira da privacidade. Isso traz 
conseqüências para a comunidade e para o indivíduo: desconfiança para a comunidade, 
imprecisão e/ou ignorância para ambos. 


Sobre comportamento e co#»fç»lo 



3. A busca de autoconhecimento 


Parece, assim, que o autoconhecimento não é um tema interditado pelo/ao 
9ehaviorismo Radical; existe já razoável reflexão a sou respeito, ele ó compatível com e 
fundamental para a concepção de homem contida nesta abordagem. Parece, também, 
que ele era o toque que faltava para integrar os behavioristas à comunidade dos psicólogos. 
Então, que problemas, que questões esse tema coloca? 

Pelo que foi dito até agora, dois conjuntos de questões poderiam despertar nossa 
curiosidade e nos levar ao trabalho árduo de produção de conhecimento. Um conjunto diz 
respeito à má compreensão do Bohaviorismo Radical. Tais questões nos levariam a investigar 
o conhecimento já produzido, caracterizá-lo, identificar suas possibilidades e limites. Um 
outro conjunto de questões diz respeito à relação entro conhecimento e ação. Tais questões 
nos fariam examinar as relações entre contingências vividas, conhecimento das 
contingências e alteração das contingências vividas. 

Só que o que foi dito ató agora encobre parte do que poderia ser revelado pela 
análise do título deste artigo. Casualmente ou não, inadvertidamente ou não, o título se 
refere à busca de autoconhecimento. E nesse detalhe pode estar a grando fonte de 
desafios para aqueles que trabalham com uma perspectiva behaviorista radical. 

Poderíamos começar, perguntando: por que buscamos autoconhecimento? Que 
homem está sendo construído junto com esta busca? 

De um autor que não é psicólogo nem behaviorista, poderemos tirar algumas 
pistas para iniciar nossa pesquisa. Sennett (1988), em seu livro O Declínio do Homem 
Público: as Tiranias da Intimidade, procura mostrar como essa busca desenfreada da 
intimidade, do privado, como a valorização do todos os ‘autos’ acaba, contraditoriamente, 
impedindo o autoconhecimento, acaba psicologizando todas as dimensões da vida humana, 
confundindo vida pública com assuntos íntimos, destruindo os espaços públicos. Diz ele: 


“Privadamente buscamos não tanto um princípio, mas uma reflexão, a saber, o 
que são nossas psiquês, ou o que é autêntico em nossos sentimentos." (...) 
“Considera-se esta vida psíquica tão preciosa e tão delicada que fenecerá se for 
exposta às duras realidades do mundo social e que só poderá florescer na medida 
em que for protegida e isolada.“ (...) “Vemos a sociedade mesma como ‘significativa' 
somente quando a convertemos num grande sistema psíquico. ” (...) “Multidões de 
pessoas estão agora preocupadas, mais do que nunca, apenas com as histórias 
de suas próprias vidas e com suas emoções particulares; esta preocupação tom 
se demonstrado ser mais uma armadilha do que uma libertação."(...) "Como resultado 
originou-se uma confusão entre vida pública c vida íntima: as pessoas tratam em 
termos de sentimentos pessoais os assuntos públicos" (...) “A troca entre uma 
maior absorção psíquica e uma menor participação social pode ser facilmente mal 
interpretada como um problema psicológico. Poder-se-ia dizer que as pessoas 
estão perdendo a 'vontade'de atuarem socialmente, ou estão perdendo o 'desejo'. 
Estas palavras, enquanto estados puramente psicológicos, induzem a erro porque 
não explicam como toda uma sociedade poderia perder sua vontade ou mudar seus 


214 Tcres.1 M.iri.i ilc A/cveilo Pires Sério 



desejos, a um só tempo. Induzem ainda mais ao erro ao sugerirem uma soluçào 
terapêutica para tiraras pessoas desse auto-envolvimento - como se o ambiente 
que fez ruir sua vontade social e transformou seus desejos pudesse repentinamente 
receber de braços abertos indivíduos totalmente mudados. "(Sennett, 1988, pp. 16- 
26) 


A destruição gradual e sistemática do espaço público, nos seus mais diversos 
sentidos, fornece as condições para a busca do espaço privado. Uma resposta menos 
custosa e do início muito roforçadora, pois encontramos um espaço sem os perigos e as 
feiuras ‘lá de fora', sem a variabilidade e instabilidade assustadoras; um ospaço acolhedor, 
estável e placidamente harmonioso. Só que, perdendo o público, perdemos a condição de 
conceder o privado. Podemos falar em ‘auto’, mas não em conhecimento. Poderemos ató 
desfrutar de todos os nossos sentimentos, as nossas emoções, mas teremos perdido a 
consciência disto. Centrados no autoconhecimento, teremos dado um grande passo na 
direção da dosumanização. Seremos apenas produtos do acaso. 

Se aceitarmos o desafio de buscar respostas para as duas últimas perguntas 
feitas (por que buscamos autoconhecimento? que homem está sendo construído junto 
com esta busca?), corremos o risco de perder o toque que nos integrava à comunidade 
dos psicólogos. De promotores do autoconhecimento, passaremos a críticos da busca de 
autoconhecimento. 

É interessante notar que Skinner, no final de sua vida, preocupou-se com a 
dificuldade que os jovens behavioristas estavam encontrando para conseguir trabalhos 
acadêmicos em uma área - a Psicologia - que estava cada vez mais sob hegemonia de 
teorias cognitivistas. Skinner se sentia responsável por isto (Bjork, 1993, p. 215). 

É interessante notar, também, que várias vezes, durante sua vida Skinner afirmou: 
“Eu não estou tentando mudar possoas. Tudo que eu quero fazer é mudar o mundo no qual 
elas vivem” (Bjork, 1993, p. 233). 

Talvez nossa verdadeira pergunta seja; pagaremos o preço? 


Bibliografia 

BJORK, D.W. (1993) B.F. Skinner: a Life. New York: Basic Books. 

MICHELETTO, N; SÉRIO, T.M. (1993) Homem: objeto ou sujeito para Skinner? Temas em 
Psicologia, 2, 11-21. 

SENNETT, R. (1988) O declínio do homem público. São Paulo: Companhia das Letras. 

SKINNER, B.F. (1982) Sobre o behaviorismo. Sáo Paulo: Editora Cultrix. 

(1984) Contingências do Reforço: uma análise teórica. São Paulo: Abril Cultural, 
Coleção Os Pensadores. 


Sobre comportamento e cognição 



(1987) Upon FurtherReflection. Englewood Cliffs: Prontice-Hall. 

(1989a) Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes. 


(1989b) Recent Issues in the Analysis of Bohavior. Columbus; Morryl Publishing 
Company. 


216 lenr/.i M.tri.i tle A/eveiio Pirei S^rio 



Capítulo 23 


Privacidade, comportamento e o conceito 
de ambiente interno 

Hmmanucl Zuflury lòurinho 
U\ PA 


ma crença largamente difundida em nossa cultura, e para a qual a Psicologia 
muitas vezes contribui, é a crença de que eventos interiores de um indivíduo podem 
determinar sua conduta. No âmbito da análise do comportamento, essa possibilidade ó 
examinada quando se discutem a natureza e o status da privacidade. No entanto, 
contrariando a tradição, um behaviorista (pelo menos radical) sempre dirá que a fonte 
última de controle do comportamento está no ambiente com o qual o indivíduo interage. 
Esse princípio, por um lado, é assentido por todos aqueles que partilham do projeto 
skinneriano de Psicologia enquanto ciência do comportamento; por outro, ainda não significa 
que chegamos a um consenso sobre como lidar com os eventos internos e/ou privados. 

Há vários modos de se articular o ambientalismo skinneriano com o reconhecimento 
de que eventos internos podem entrar no controle do comportamento humano. A pergunta 
‘‘o sujeito faz parte de seu próprio ambiente?" ó um modo de colocar esse problema em 


1 Docente do Departamento do Psicologia Social o Escolar da Universidade Federal do Pará. Endoreço para 
correspondência; Trav. Maurltí, 3275, Ap.1501. Marco. 66.095-360, Belém, Pará. E-mail: 
tourinho <60 sucuri oma 2 on.com. br 


Sobre comportamento c coruíçõo 



discussão. A resposta depende em alguma medida do ponto de partida que cada um 
assumir. Sendo assim, inicio esclarecendo quais serão meus vieses ao tentar formular 
uma resposta. 

Ern primeiro lugar, a análise que se segue parte de um conjunto de princípios e 
propostas teóricas elaborados por D. F. Skinner. Entendo, porém, quo as contribuições de 
Skmner no campo dos eventos privados constituem referências a partir das quais é 
necessário avançar, no sentido de um aprimoramento conceituai. Nesse sentido, apresento 
uma análise da privacidade que talvez não seja propriamente skinneriana, mas que pretende 
se caracterizar como behaviorista radical, na medida em que incorpora princípios próprios 
dessa tradiçãodepensamento na Psicologia. 

Em segundo lugar, entendo que, ao indagar se o privado é parto do ambiente, o 
que se está colocando em discussão é um conjunto de suposições, como: 

a) O evento privado ó um evento interno. 

b) O conceito de ambiente envolvo o que se pode chamar de ambiente privado ou interno. 

c) A existência de um ambiento privado implica a possibilidade de determinação do com¬ 
portamento, inclusive verbal, por eventos aos quais apenas o próprio sujeito tem acesso 
direto. 

Minha análise estará voltada, portanto, para esse conjunto de "suposições". 
Basicamente, argumentarei que apenas a afirmativa de número dois pode ser acatada 
sem problemas, As demais, além de polêmicas, têm validade restrita e, portanto, não 
podem ser admitidas de forma genérica, sob pena de representarem o abandono da 
perspectiva ambientalista do behaviorismo skinneriano. 


1. Evento Privado e Evento Interno 


Certamente, o conceito de interno é um conceito pertinente à discussão da temática 
da privacidade. Quando um indivíduo relata, por exemplo, seus sentimentos, acredita estar 
descrevendo um evento com o qual guarda uma intimidade especial, não acessível a quem 
o observa "de fora". Ao discutir esse tipo de relato em 1945, Skinner já caracterizava os 
estímulos privados como estímulos internos, por oposição a eventos externos (cf. Skinnor, 
1945). Por outro lado, o conceito de privado é frequentemente explicado por Skinner como 
remetendo a estímulos e respostas de um sujeito aos quais só ele mesmo tem acesso 
direto (Skinner, 1945; 1953/1965; 1969; 1974). É por isso que Skinner fala do privado 
como um problema de fronteira, que não se caracteriza por uma natureza especial (como 
pretenderiam os mentalistas), mas que implica uma restrição de acesso. 

Esse tipo de caracterização envolve a suposição de equivalência entre privado e 
interno e entre público e externo. Ficando apenas com os primeiros-privado e interno- 
precisamos notar que uma coisa é falar de acessibilidade pública de um evento; outra 
diferente é falar de sua localização (sob a pele ou não). Se privado significa inacessibilidade 
pública do evento, não posso dizer que é privado um evento qualquer, simplesmente porque 
ele é um evento interno. Um nervo inflamado, embora seja um evento considerado interno, 
pode em muitas circunstâncias ser um evento acessível à observação pública. Por outro 
lado, há eventos com respeito aos quais a dicotomia interno/externo não faz sentido e, 


¥18 hnm.mucl Z.i>juty loitimho 



ainda assim, algumas de suas instâncias são privadas. Por exemplo, não é possível 
categorizar comportamento como interno ou externo, mas ó possível falar de comporta¬ 
mentos inacessíveis à observação pública (não é sem motivos que Skinner se refere a 
comportamento privado ou encoberto, mas não a comportamento interno). A relação entre 
privado e interno poderia, então, ser formulada como na figura 1, abaixo, que representa os 
dois como conjuntos não-coincidentes, embora parte do que é interno seja efetivamente 
inacessível à observação pública e, portanto, privada. 



Também no que diz respeito ao interno, deve-se observar que o que existe dentro 
de cada um não é nada mais do que suas condições corporais. Essas condições corporais 
não se constituem em problema para a análise do comportamento; elas pertencem ao 
campo de investigação de outras ciências. 

Mesmo tratando do privado apenas em termos de inacessibilidade, ainda não 
estamos diante de um problema propriamente psicológico. Isso porque não são os eventos 
inacessíveis (ou acessíveis) em si que interessam à análise do comportamento, mas os 
eventos enquanto partes de contingências. Enquanto membro de uma contingência, um 
evento é analisado em sua relação com o comportamento de um organismo. Por esse 
motivo, para a análise do comportamento, o critério de acessibilidade deve ser mais relevante 
do que o critério de localização para discutir a temática da privacidade; o que importa é se 
é possível condicionar respostas discriminativas a certos estímulos e não onde eles se 
localizam 2 . Por outro lado, se por privacidade pretendemos discutir respostas sob controle 
de eventos considerados muito pessoais de cada um, então é de um processo 
comportamental que estamos falando. Convém, portanto, observar que estamos diante de 
três objetos diferentes: 


2 Do corlo modo, ó possível questionar n própria pertinência dn dicotomia iiitorno oxiorno, na modida om quo 
nenhum ovonto (ostimulo ou comportamento) rolativo a um indivíduo podo sor oxiorno n olo Rlbos (1982), 
por oxomplo, sugoro quo os ovonlos so dilorouciam aporias om tormos da possibilidado do alolarom outras 
pessoas, o quo correspondo, na prosonto analiso, é quostâo da privacidade Ribos (1982), porém, proloro 
falar do privado como "único", "singular", c nao como inacessível à obsorvaçfto pública. 


Sobre comportamento c cognição irtV 








• as condições corporais do indivíduo, que correspondem ao seu aparato anátomo-fisiológico 
e que, como o próprio nome diz, são condições para o fenômeno comportamental, mas 
não necessariamente elemento constitutivo deste. Como objeto de estudo, as condições 
corporais pertencem ao campo da fisiologia e ciências afins, o não da análise do 
comportamento. 

• os eventos inobserváveis publicamonte de forma direta, que podem sor internos ou náo o 
que não necessariamente se constituem em problema para a análise do comportamento. 

• os processos comportamentais, que envolvem respostas discriminativas a conjuntos de 
eventos, dentre os quais alguns podem ser inacessíveis à observação pública direta. Nesse 
caso, eventos inobserváveis, como alterações no aparato anátomo-fisiológico, podem vir a 
ser parte constituinte do fenômeno comportamental, mas náo por si mesmas; apenas 
enquanto membros de uma relação de contingência, que ainda precisa ser explicada (o 
que será retomado adiante). É apenas no campo de processos comportamentais, por 
outro lado, que se pode falar de privacidade como objeto de estudos da análise do 
comportamento. 

Notem quo, no primeiro caso, pode-se falar de uma parte do organismo localizaria 
sob a pele (constituída de eventos quo não são objeto de estudos da análise do 
comportamento 3 ). Já no caso de eventos inobserváveis publicamonte, estamos falando 
dos eventos privados, assim definidos e não associados à noção de interioridade. Quanto 
ao objeto de estudo da Psicologia, não se trata de nada que deva ser considerado 
aprioristicamente interno. Ele também não ó exatamente privado, embora possa envolver 
elementos privados. Ao contrário, seu caráter público é inegável, pois se trata de processos 
dependentes de contingências socialmente dispostas*. 

O que parece dificultar uma exata delimitação do campo da privacidade enquanto 
objeto da Psicologia é que freqüentemente nos detemos na discussão do que há dentro 
de cada um (o que é um assunto para a Fisiologia), esquecendo que esse material não 
suscita problemas especiais por ser interno, mas por ser privado (quando é o caso), o só 
se torna importante enquanto parte de um processo comportamental. Antes disso, ele 
não passa de um material indiferenciado para o indivíduo, e pouco ou nada relevante para 
a análise de seu comportamento. Isso é, antes que processos comportamentais dotados 


3 As condições corporais do um organismo sâo abordadas por Sklnnor como produtos colo toro/s das 
histórias filogenótica o ontogonótica do organismo. Em About Qehaviorism (Skinnor, 1974), por oxomplo, 
Skinnor afirma quo o quo podo sor introspoctndo 6 o próprio corpo, caractorizando-o om seguida como 
produto colateral das histórias gonótica o ambientai (cl. Skinnor, 1974, p 17). Isso significa roconhocor que 
todo comportamento possui uma base biológica - que ó, a propósito, histórica, no modida om quo ó o produto 
de um fluxo do interações, daí não se poder falar de dois organismos como dotados do ostruturas nnâtomo- 
fisiológicas idônticas. Mas osta baso biológico nâo se impõe como elemonto constitutivo do objoto de 
ostudos do uma clôncla que so ocupa do rolaçôos orgnnismo-nmbionte. Faz parte do ambiontallsmo sklnnorinno, 
também, a proposta do que so busque identificar relações ordenadas entro o organismo o o ambiente que o 
circunda, rejeitando, assim, alternativas que se rosumem a analisar o comporlamonto como função do 
condições Internas do organismo. Isto ó, o behaviorismo skinnoriano ó oxtornalista o nâo intornalista, no 
sentido do quo o foco da análise psicológica, segundo Skinnor, nâo dovo so clrcunscrover a aspoctos 
rolativos ao próprio organismo (cf Tourinho, 1995). 

4 Skinnor (1989) aponta para esto nspocto quando, atondo-se ás condições corporais, afirma quo "somonto 
sob tipos especiais do contingências verbais ó quo nós respondemos a corlos aspoctos do nosso corpo" 
(P 28) 


220 | mm.imie! Z.inury Tourinho 




de dimensões públicas ocorram, nenhuma “fração" da "interioridade" (ou exterioridade) de 
um indivíduo tem importância particular. Por outro lado, quando aquele material passa a 
participar de processos comportamentais, isso se dá em condições e dentro de limites 
que nem sequer se pode tomá-los como causa do comportamento. Este tópico será 
retomado adiante, no momento de discutir o conceito de “ambiente interno". Por ora, 
gostaria de reiterar que, ao falar de privacidade sem reduzi-la à questão da interioridade, 
ainda continuamos com dois objetos a serem diferenciados: o evento privado/inacessível, 
que, em si mesmo, nenhuma relevância tem para a análise do comportamento e a 
privacidade enquanto processos comportamentais dotados de dimensões públicas 6 . Acho 
importante esta diferenciação para esclarecer que, no momento em que a privacidade se 
converte em problema para a Psicologia, nós estamos diante de um fenômeno com 
dimensões públicas. (Isso justificaria dizer que a privacidade, enquanto objeto da análise 
do comportamento, não se caracteriza por oposição ao público). Tendo feito esse 
esclarecimento, estarei empregando o conceito de evento privado para falar daqueles eventos 
inacessíveis à observação, e o conceito de privacidade para aqueles processos 
comportamentais que são objeto da análise do comportamento. 

Voltando, então, à primeira afirmação (de que um evento privado é um evento 
interno), diremos não apenas que privado e interno não coincidem, mas, também, que a 
privacidade enquanto fenômeno comportamental (e não fisiológico ou de outro tipo) ó 
necessariamente um fenômeno dotado de dimensões públicas. 

Passo, agora, a discutir a possibilidade de eventos privados constituírem parte do 
ambiente de cada um. Como Skinner fala mais freqüentemente de ambiente interno (por 
se ocupar mais das condições corporais), estarei usando esta expressão para apresentar 
suas idéias, considerando, porém, que a análise do ambiente interno é relevante tanto 
quanto ela diz respeito a eventos privados. 


2. O conceito de ambiente interno 


Ao falar de ambiente, Skinner rejeita uma interpretação antiga, segundo a qual o 
ambiente era “simplesmente um lugar onde os animais e os homens viviam e se 
comportavam" (Skinner, 1969, p.3), em razão de esta concepção ignorar o papel ativo do 
ambiente na produção do comportamento. Por outro lado, nem sempre o termo ambiente 
ó empregado para falar de um elemento constitutivo do fenômeno comportamental. Em 
algumas circunstâncias, tendemos (e Skinner também) a falar de ambiente como o conjunto 
de tudo que nos cerca, inclusive aquelas partes ou aspectos do mundo que não guardam 
nenhuma relação com o comportamento. A diferença entre uma coisa (ambiente enquanto 
elemento constitutivo do fenômeno comportamental) e outra (mundo circundante) é sugerida 


Dado o caráter social do evonto privado, soquor so pode caracterizá-lo como pessoal - o privado do um 
indivíduo ô, em certo modlda, o privado do grupo social com o qual interage (cl. Tourinho, 1995). 


Sobro compoit.imonto e cofiirição 


em vários momentos por Skinner 6 e será aqui adotada, por uma razão simples: ela nos 
obriga a atentar para o fato de que quando falamos do comportamento como função de 
uma interação do organismo com o ambiente circundante, não estamos operando com 
uma concepção naturalista de ambiente, isto ó, não estamos falando de ambiente como 
algo naturalmente existente, muito menos coincidente com o conjunto de tudo que está à 
nossa volta. Por ambiente, estarei designando não o universo circundante a todos e a 
cada um, mas o conjunto de seus elementos ou eventos que vêm a adquirir função de 
estímulos, passando a constituir o fenômeno comportamental. Esta relação poderia ser 
representada como na figura 2, abaixo, onde ambiente corresponde a uma parcela do 
universo: aquela parcela à qual o organismo reage discriminativamente. 



O abandono de uma perspectiva naturalista para o conceito de ambiente implica 
admitir que o universo ó, em larga medida 7 , para cada um, um material indiferenciado. É 
apenas a partir do momento em que interage com partes do universo de um modo particular 
que o indivíduo passa a se comportar discriminativamente diante delas - e que elas então 
se convertem em ambiente. Skinner (1969) exemplifica essa idéia com o procedimento de 
ensino de respostas discriminativas às cores. O ensino deste repertório depende, grosso 
modo, do reforçamento de respostas apropriadas na presença das cores correspondentes. 
Segundo Skinner (1969), "a criança não discriminará as cores -... ela não verá as cores 
como diferentes - até que seja exposta a tais contingências, (p.229) 

Se o conceito de ambiente não implica tudo que está à volta do organismo, ele, 
por outro lado, também não se resume, para Skinner, ao que está fora do organismo. O 
primeiro requisito, porém, para que venha a existir um ambiente interno é a existência do 
material indiferenciado sobre o qual as contingências podem operar na produção do controle 
discriminativo. Skinner (1953/1965) fala deste material ao afirmar; 


9 Por exemplo, em Science and Human Dehavlor, Skinner (1953/1965) destina um capítulo ao tópico "o 
ambiente controlador", no qual o que se discuto sflo "as maneiras atravós das quais os estímulos geralmento 
funcionam" (p.130) no controle do comportamento. 

' A exceçõo aqui sflo as relações (do controle do comportamento por certas partes do univorso) favorecidas 
pela história filogenótica. Mesmo nesses casos, porém, as contingências ontogonóticas atuam, promovondo 
a ocorrência de respostas discriminativas sob controle de determinados eventos (cf. Carvalho Neto, 1996). 


I mm-mud Z.ifiury Tourlnho 







Quando dizemos que o comportamento é função do ambiente, o termo 
"ambiente” significa presumivelmente qualquer evento no universo capaz de afetar 
o organismo. Mas parte do universo está circunscrita no interior da própria pele do 
organismo. (...) Com respeito a cada indivíduo, em outras palavras, uma pequena 
parte do universo é privada (Skinner, 1953/1965, p.257, itálico do autor). 

O material do qual esse universo interno se constitui correspondo, segundo Skinner, 
às mesmas condições corporais a que nos referimos anteriormente, como se observa 
nesta outra citação: 

"Uma pequena parte do universo está contida dentro da pele de cada um de 
nós. Não há nenhuma razão para que ela tenha um status físico especial em virtude 
de se situar nestes limites, e nós eventualmente teremos uma explicação completa 
dela [fornecida] pela anatomia e pela fisiologia." (Skinner, 1974, p.21, itálico 
acrescentado). 

Em muitas circunstâncias, Skinner admite que partes deste universo interno 
chegam à condição de estímulos (cl. Skinner, 1945; 1953/1965; 1969; 1974). No momento 
em que isso acontece, ó que podemos falar de um ambiente interno. Nesse caso, dizer 
que existe um ambiente interno próprio de cada indivíduo, significa dizer que suas condições 
anátomo-fisiológicas podem entrar no controle discriminativo de algumas de suas respostas. 
É nesse sontido que a segunda afirmação citada na introdução deste texto, segundo a 
qual o conceito de ambiente envolve a possibilidade de um ambiente privado ou interno, 
pode ser considerada válida. 

Mas como também não cabe naturalizar o ambiente interno, ó preciso dizer que 
uma condição corporal não é naturalmente um estímulo, O conjunto das condições corporais 
de um indivíduo, tanto quanto o universo como um todo, lhe são indiferenciadas, até que 
contingências especiais coloquem o comportamento sob controle discriminativo de alguns 
de seus aspectos. Os limites dentro dos quais esse controle discriminativo pode ser 
produzido são os limites para a conversão do mundo interno em ambiente. E é essa 
possibilidade que se passa a examinar agora. 


3. Ambiente interno e controle do comportamento 

Antes de abordar propriamonte como condições corporais podem entrar no controle 
do comportamento, gostaria de antecipar um comentário sobre o conceito de ambiente 
interno: este não ó um conceito fundamental para a sustentação do programa de pesquisas 
skinneriano. Tanto assim que o contexto em que Skinner fala de ambiente interno ó um 
contexto de resposta às críticas que são dirigidas ao Behaviorismo Radical 8 . Não se trata, 


H About Bohaviorism (Skinner, 1974) ó urna obra que |á inicia com Skinner enumerando as criticas dirigidas 
ao behaviorismo. Em Scionce nnd Hunum Bohavior (Skinner, 1953/1965), Imediatamente após introduzir o 
problema do "ambiente interno" o das questões dal derivadas, Skinner faz afirmações como; Felizmente, a 
quostâo ó rammente crucial na prática de contolo do comportamonto humano. O leitor cujos interesses são 
essencialmente práticos, e que podem neste momento preferir passar para os próximos capítulos, podem 
fazô-lo som problemas sórios (p.258). 


Sobre compod.imento c coflniçõo 223 




portanto, de um conceito tornado necessário pelo programa de pesquisas da análise do 
comportamento; ao contrário, conceitos que poderiam ser considerados como remetendo 
a condições internas dos organismos (como as chamadas "variáveis terceiras”), com os 
quais Skinner trabalhou no início de sua carreira, foram posteriormente abandonados (cf. 
Morris, 1996; Sério, 1990°). A exigência do conceito de ambiente interno veio de outras 
fontes - possivelmente, socioculturais. 

Passando ao tema do controle do comportamento por condições internas, Skinner 
(1974) fala dos processos através dos quais o comportamento vem ficar sob controle 
discriminativo de aspectos ambientais recorrendo a um ditado antigo, segundo o qual 
“nada ó diferente até que faça diferença" (p.31). "Tornar diferente" seria a função do 
reforçamento diferencial. Antes que ele ocorra, contingentemente a uma resposta a 
determinado elemento ou aspecto do universo com o qual o indivíduo interage, este elemento 
ou aspecto "não faz diferença" para o indivíduo. Isso vale não apenas para o "mundo 
externo", como no exemplo das cores, anteriormente citado, Para Skinner (1969), “o 
mesmo processo de reforçamento diferencial é necessário para que a criança chegue a 
distinguir entro eventos que ocorrem dentro de sua própria pele" (p.229, itálico acrescentado). 
A questão é como condicionar respostas sob controle de condições internas específicas. 
O próprio sujeito não pode prover o reforçamento, devido à sua incapacidade de identificar 
com precisão a condição interna. Por exemplo, suponha que um sujeito pretenda colocar 
uma resposta sob controle discriminativo de uma alteração na composição do sou sangue. 
Isso será impossível, pois o próprio sujeito não pode identificar com precisão quando esta 
condição - e não uma outra condição qualquer - está ocorrendo. Um modo de contornar 
a limitação pessoal é através da ação da comunidade, que poderia prover, para o sujeito, 
o reforçamento contingente a respostas sob controle de suas condições internas, do 
mesmo modo que ela faz isso quando se trata de condições externas. Ocorre, porém, 
que, ou a comunidade tem acesso direto à condição interna, ou ela também não pode 
reforçar respostas contingentes a essa condição (ou seja, ou o evento interno tem uma 
dimensão pública e não ó privado, ou a ajuda da comunidade não ó possível). Por essa 
razão, Skinner (1974) afirma que "com respeito a eventos no mundo dentro da pele, a 
comunidade verbal não tem sido capaz de tornar as coisas suficientemente diferentes" 
(p.31). Isto ó, no que diz respeito ao mundo interno, os procossos requeridos para 
transformá-lo em ambiente nem sempre são possíveis. 

Apesar das limitações, a comunidade verbal procura ensinar repertórios 
discriminativos de condições internas, especialmente repertórios verbais, em razão da 
utilidade que estes repertórios podem ter (cf. Skinner, 1974; cap. 2; 1989, cap.2). A ação 
da comunidade, porém, está baseada nos eventos públicos possivelmente associados às 
condições internas (cf. Skinner, 1945). Uma observação frequente de Skinner (cf. Skinner, 
1945; 1974), quando analisa essa situação, é a de que, embora a ação reforçadora da 
comunidade verbal esteja baseada em eventos públicos, a resposta pode ficar, para o 
sujeito, sob controle de uma estimulação interna associada. Essa parece ser uma crença 
que todos partilhamos, uma vez que somos capazes de observar instâncias de nosso 


“ Embora Skinner (1931/1961), procurasse caracterizar as “variáveis torcolras” (condlcionamonto, drive, 
emoção), rosponsávois pola variabilidade do comportamonto, como "condições do oxporimento" (Sklnnor, 
1931/1961, p.344) nem sempro osta posição implicou o afastamonto total de interpretações intornalistas 
daquolas variáveis (cf. Sério, 1990, p.82ss). 


224 hnm.imiol Z.iflury louiinlio 




próprio comportamento ocorrendo sob controle de uma condição interna, por exemplo, 
quando descrevemos uma “dor” qualquer. Todavia, gostaria de chamar a atenção para dois 
problemas que parecem contrariar essa nossa crença, ou pelo menos conferem a ela 
validade relativa. 

Primeiro, usando o oxemplo da dor, a palavra “dor” não corresponde a uma condição 
específica dentro do organismo, nem mesmo quando a qualificamos como “dor de dentes", 
“dor do cabeça", etc.. “Dor” ó uma resposta verbal, adquirida contíngentemente a um set 
de estímulos dentre os quais se inclui um padrão de respostas públicas do próprio sujeito. 
Ainda que so argumonto quo a resposta ostá sob controle de uma condição interna qualquer, 
por exemplo um músculo distendido, o caráter verbal da resposta e sua necessária “base” 
social impõem uma dimensão pública ao controle dessa resposta. 

Segundo, a ação da comunidade verbal não se encerra com a instalação da resposta 
descritiva. A comunidade continua operando com respeito aos nossos repertórios 
autodescritivos, e com base nos mesmos estímulos públicos. A funcionalidade de uma 
resposta auto descritiva depende, portanto, do atendimento àquelas contingências públicas. 
Isto é, mesmo quando a resposta fica eventualmente sob controle de uma condição interna, 
ela so mantém sob este controle discriminativo tanto quanto a condição corresponder aos 
estímulos públicos nos quais a ação reforçadora da comunidade verbal está baseada. 
Neste caso, a participação do evento interno no controle discriminativo da resposta depende 
do sua correspondência com condições públicas. Por exemplo, se alguém chega ao 
terapeuta e se descreve como deprimido, a condição interna sob controle da qual a resposta 
é emitida pode ser qualquer uma, variando de indivíduo para indivíduo, e até para um 
mesmo indivíduo em diferentes momentos, desde que esteja associada a um padrão de 
respostas públicas com base no qual a comunidade descreve alguém como deprimido. 
Por outro lado, a possibilidade de uniformidade da condição interna nas diferentes 
circunstâncias nas quais a resposta verbal “estou deprimido" é emitida por um mesmo 
sujeito ou por sujeitos diferentes depende do âmbito dentro do qual as condições internas 
podem variar acompanhando aquele mesmo padrão de respostas públicas 10 . Parece mais 
fácil atentarmos para ossos aspectos quando consideramos não nossas próprias respostas, 
mas as respostas de outros e as condições em que elas permitem aos outros interagirem 
conosco de determinado modo. Se alguém nos diz que está deprimido e esta resposta 
não tem nenhuma relação com uma probabilidade de comportar-se publicamente de 


10 Exornplo dessa limitação na conversão do mundo intorno om nmbionlo, isto ó, orn parte do fonõmono 
comportomontal, podo sor encontrado no trabalho realizado por Malorbi (1994), quo tinha por objetivo 
onsinar os sujeitos a discriminar um evento fisiológico - altoraçâo do nível yllcômico. A altoraçâo em si nfto 
podia sor observada pola oxporimentadora, nem Identificada com precisão polos sujeitos. Os sujeitos foram 
troinados, ontáo, para procurarom discriminar outros eventos Internos e/ou oxternos associados á altoraçâo 
do nível glicêmico, sondo esta altoraçâo rogistrada através do um exame do sangue capilar. As discriminações 
oram roforçadas diforoncialmonte com base na correspondência ontro a rosposta do sujeito o o rosultado 
do oxamo do sanguo. Ao final, obsorvou-so um padrflo idiossincrático do associação sintoma (Interno)- 
glicemia para cada sujeito Nesse exemplo, há um evento fisiológico cuja discriminação ó Importante, porém 
impossívol para o indivíduo, polo monos do modo direto, A alternativa do rocorrer a outros eventos intornos, 
também fisiológicos, possivolmonto associados, sondo o reforçamento contingente a uma medida pública, 
resulta om diferenciação intorsujoitos do controlo da rosposta por uma condição intorna. O trabalho de 
Malorbi (1994) provô, ainda, outros olomontos para uma discussão aprofundada da privacidade, quo não 
poderão sor aqui oxaminados om razão dos objotivos deste texto. 


Sobre compoil.imenlo e cogmç.lo 225 




determinado modo, dificilmente ela será reforçada. Isso fica especialmonte evidente quando 
se trata de ensinar repertórios desse tipo a crianças. Para o analista do comportamento, 
por outro lado, talvez os repertórios autodescritivos sejam relevantes exatamente pelo que 
informam sobre a probabilidade do comportamento. 

Se considerarmos que o que vem sendo discutido sob o conceito de ambiente 
interno é a possibilidade de controlo discriminativo de respostas por eventos privados 
(inacessíveis à observação pública direta), podemos dizer que um evento privado não se 
converte em ambiente senão pela associação com eventos públicos; por outro lado, quando 
ocorre um controle de resposta por evento privado, este privado não é propriamente um 
evento, mas um conjunto variado de condições associadas a uma condição pública, sob 
controle da qual a resposta foi instalada e é mantida. Podemos resumir este tópico 
recorrendo à figura 3, abaixo. Ela ilustra os seguintes aspectos da análise aprosentada: 



Figura 3: A relação ontre universo e ambiento, públicos e privados. 


• o universo de cada sujeito ó constituído de uma parte pública e de uma parte privada. 
Ambas são indiferenciadas para o sujeito e estão submetidas às mesmas condições para 
converterem-se em ambiente. 

• um evento privado, por exemplo "X", só se converte em ambiente a partir de sua associação 
com uma parte do ambiente público, por exemplo “Y". Já o universo público prescinde de 
uma associação com aspectos particulares do universo ou do ambiente privado para se 
converter em ambiento. 

• o ambiente privado, uma vez constituído, não ó autônomo na produção do comportamento 
oficaz (funcional), embora se possa admitir que ele em algumas circunstâncias controla 
discriminativamente um conjunto de respostas, inclusive descritivas, de "estados 
psicológicos". Por outro lado, a condição privada que vem a controlar uma resposta 
discriminativa é variável, dentro de um limite de correspondência com eventos públicos. 
Um evento privado "X", portanto, não é um evento, mas um conjunto de condições 
indiferenciávois com base em seus próprios atributos. Nesse sentido, talvez não seja o 
caso de falar em eventos privados; a própria identificação de um evento (sua nomeação, 
por exemplo) já implica uma dimensão pública. 

• mesmo nas circunstâncias em que uma condição privada qualquer participa do controle 
discriminativo de uma resposta, este processo tem uma dimensão pública e é regulado 
por ela. 


I mm.iiuK'1 Z.itfury Imirínho 





Com isso, a terceira afirmação apresentada na Introdução, de acordo com a qual, 
a partir do concoito de ambiente privado, pode-se falar na determinação do comportamento 
por oventos, aos quais apenas o próprio sujeito tem acesso, precisa, no mínimo, ser 
relativizada, na medida em que ela não pode implicar uma autonomia do que ó privado na 
produção do comportamento. 

Se este modo de interpretar a privacidade for pertinente, então não apenas a 
privacidade enquanto processo comportamental tem dimonsões públicas e não suscita 
nenhum conjunto do problemas especiais para a análise do comportamonto, como também 
a própria noção de evento privado como um evento particular, como algo que existe 
independentemente dos processos característicos da privacidade e como algo que se 
define por oposição ao público pode ser questionada. Esta, porém, ó uma possibilidade 
que precisaria ser melhor discutida, 

A alternativa de análise apresentada tem pelo menos duas limitações que precisam 
ser assinaladas e que, se exploradas, talvez nos permitam chegar a uma formulação mais 
consistente da privacidade. Primeiro, ela aborda apenas uma parte do problema da 
privacidade: aquela que diz respeito aos estímulos privados do que Skinner (1945) fala. 
Não se tocou na questão dos comportamentos privados, que constituem parte da 
problemática da privacidade e que demandam uma análise especial. Dado que os 
comportamentos encobertos existem, antes, numa forma aberta, não é difícil assinalar 
que estão dotados de uma dimensão pública. Mas também não é possível ignorar que 
ocorrem de modo inacessível à observação pública direta e, ao contrário das condições 
corporais, constituem sempre e necessariamente o próprio fenômeno comportamental. 
Além disso, o comportamento encoberto gera, muitas vezes, estímulos discriminativos 
privados que entram no controle do comportamento subseqúente (por exemplo, quando o 
encoberto é o comportamento verbal). Neste caso, estaríamos diante de um ambiente 
tipicamente privado; todavia, um privado publicamente constituído e apenas 
circunstancialmente existente naquela condição. 

Uma segunda limitação da análise é a de que, ao discutir o papel do ambiente 
pr/vado na determinação do comportamento, estivemos sempro considerando respostas 
operantes. Se, nesse domínio, há de fato uma dependência do ambiente privado om relação 
ao ambiente público, este não pode ser dito com respeito a respostas reflexas. No caso 
dos reflexos incondicionados, um evento privado (e interno) pode ser autônomo na produção 
do uma resposta. É claro que, quando isso ocorre, o sujeito pode não estar consciente da 
resposta ou do que a produz; ele pode não ter adquirido uma resposta (especialmente 
verbal) sob controle discriminativo do reflexo. Mas, ainda assim, o privado está determinando 
a resposta; elo é um ambiente ao qual o organismo reage, ainda que não discriminativamente. 
Além disso, existe a possibilidade de interação entre reflexos incondicionados e respostas 
operantes, que exigiriam um exame mais cuidadoso. Considere-se, por exemplo, o caso 
da dor de dentes, que Skinner (1945) caracteriza como singular em virtude da relativa 
intensidade do estímulo” . Na dor de dentes, pode haver um evento privado capaz de 


11 Ao discutir situações om quo n resposta do sujeito ó reforçada contingentomonto a uma condição quo 
envolvo ostimulos públicos o ostímulos privados, Skinnor (1945) afirma Quando manifestações publicas 
subsistam, nunca ó corto ntó ondo o ostimulo privado assumo [o controlo] No caso do uma dor do dontos, o 
ovonto privado ò som duvida dominante, mas isso so deve a sua rotativa intonsidade, n/lo n qunlquor condição 
do rolorçamonto ditoroncial. Em uma descrição do próprio comportamonto, o componente privado podo sor 
muito monos importante. 


Sobre compod.imento c cofliiiç.lo 



eliciar respostas públicas. Quando o sujeito emite estas respostas reflexas, a comunidade 
o ensina a descrever*se com dor de dentes; isto ó, ela ensina respostas discriminativas 
àquela situação. Nesse caso, talvez seja mais provável que a resposta permaneça para o 
sujeito sob o controle do evento privado. Isso ocorre porque a situação do reflexo propicia 
uma relação muito mais uniforme entre a condição privada e o comportamento no qual a 
comunidade baseia sua ação reforçadora. Ern outras palavras, além de o reflexo 
incondicionado exemplificar uma circunstância, na qual uma condição interna não requer 
nenhum processo ontogenético para vir a controlar o comportamento (desde que a função 
eliciadora seja admitida como uma função a partir da qual reconhecomos a determinação 
do comportamento), quando associado a respostas operantes, ele favorece o controlo 
discriminativo pela condição privada. Talvez soja isso que ocorro ern situações como a de 
dordedentos. 

Para encerrar, a pergunta "O sujeito faz parte de sou próprio ambiento?" ó um 
pouco genérica para que seja possível uma resposta única e categórica. Em todo caso, 
pode-se dizer que a resposta é "sim", desde que isso não signifiquo a roafirmação de 
supostos historicamente dominantes na Psicologia, como: 

a) o fenômeno psicológico tem uma natureza interna; 

b) cada sujeito tem acesso privilegiado ao que ocorre dentro de si mesmo; 

c) o indivíduo ó a fonte de controle de seu próprio comportamento. 

Afinal, o Behaviorismo Radical não dá simplesmente nova roupagem para 
problemas e crenças antigas. Ele instaura um modo não conservador (o pouco sedutor) do 
examinar essas crenças. 


Bibliografia 


CARVALHO NETO (1996) Skinnere o Papel das Variáveis Biológicas em uma Explicação 
Comportamental: Uma Discussão do Modelo Explicativo Skinneriano a partir da 
Contraposição desta Proposta ao Pensamento Etológico de K. Lorenz. Belém: 
Dissertaçãode Mestrado. Curso de Mestrado em Psicologia: Teoria e Pesquisa 
do Comportamento, Universidade Federal do Pará. 

MALERBI, F. E. K. (1994) Discriminação de Estados Glicêmicos por Pacientes Diabéticos: 
Efeitos da Aquisição de um Repertório Descritivo de Eventos Internos e Externos. 
São Paulo: Tese de Doutorado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia, 
Universidade de São Paulo. 

MORRIS, E. K. (1996) B. F. Skinner y las variables terceras: historia y historiografia. 
Mimeo. Trabalho apresentado no I Congresso Iberoamericano o Intoramoricano 
de Analisis do la Conducta e XIII Congresso Mexicano de Analisis de la Conducta. 
Vera Cruz, México. 

RIBES, E. (1982) Ribes, E. (1982) Los eventos privados: f ',un problema para la teoria de la 
conducta? Revista Mexicana de Análisis de la Conducta, 8 (1), 11-29. 


228 I mm.imid /.if>ury lourinho 



SÉRIO, T. M. A. P. (1990) Um Caso na História do Método Científico: Do Reflexo ao 
Operante. São Paulo: Tese de Doutorado, Programa de Estudos Pós-Graduados 
em Psicologia Social, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 

SKINNER, D. F. (1945) The operational analysis of psychological terms. Psychological 
Review, 52,270-277/291-294. 

(1961) The conceptof the roílox in the description of behavior. Em: Skinner, B. F. 
Cumulativo Record - Enlarged Edition. New York: Appleton-Century-Crofts, pp.319- 
346. Publicado originalmonto em 1931. 

(1965) Science and Human Behavior. New York/London: Froo Press/Collier 
Macmillan. Publicado originalmente em 1953. 

(1969) Contingoncies of Roinforcement: A Theorotical Analysis. New York: 
Appleton-Century-Crofts. 

(1974) About Behaviorism. New York: Alfrod A. Knopf. 

(1989) Recent Issues in the Analysis of Behavior. Columbus: Merrill. 

TOURINHO, E. Z. (1995) Eventos privados em uma ciência do comportamento. Trabalho 
apresentado no IV Encontro da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina 
Comportamental. Campinas, São Paulo. 


Solm* tompoil.imvnlü e co^niv<lo 



Capítulo 24 


Eventos privados: o sujeito faz parte de seu 
próprio ambientei' 

Maria Ainéíía Maios* 1 

wsr 


Durante estas férias passadas, estive lendo um livro de uma nova safra do 
escritores americanos denominados “de origem étnica". Trata-se de uma literatura leve, 
própria para férias, em que os autores rememoram suas origens enquanto descrevem as 
experiências de seus antepassados. No livro em questão, escrito por uma californiana de 
origem chinesa, há uma passagem que reflete bem os procedimentos e as dificuldades 
relacionadas com o estudo do mundo privado. A personagem principal, uma chinesa com 
muito pouco conhecimento da língua inglesa, está tentando ensinar chinês a uma 
missionária americana recém-chegada à China, sem nenhum conhecimento de chinês. 
Depois de apontar para vários objetos dizendo-lhes o nome em chinês, Kwan espera 
passar a hora do dia e o estado do tempo e novamente diz-lhes o nome, etc. Um dia Miss 
Banner aponta para o próprio peito e faz um sinal de interrogação que Kwan interpreta 
como uma pergunta sobro o nome de sentimentos. Para ensinar Miss Banner, Kwan leva- 


1 Vorsao modilicnda do pnlostra aprosontada no V Encontro Hrasiloiro do Psicotorapia o Medicina 
Cornportnrnontal, promovido pola ADPMC om sotombro de 1996, orn Aguas do Lindóia. 

* Posquisadora do CNPq. 


230 M.iri.i Amélia M.ilos 




a para um passeio e, no trecho que transcrevo a seguir, descreve o que ocorreu: seu 
procedimento (que ó o mesmo mencionado anteriormente) e seus resultados: 

"Nós vimos pessoas discutindo. 'Raiva', eu disse. Vimos uma mulher deposi¬ 
tando alimento cm um altar. Respeito’eu disse. Vimos um ladrào sondo preso em 
praça pública. 'Vergonha', ou disse. Vimos uma jovem sentada à beira do rio, 
jogando uma rede velha e esburacada na parte mais rasa da água. 'Esperança', eu 
disse." 

"Mais tarde, Miss Danner apontou para um homem tentando fazer passar um 
grande barril por uma passagem demasiadamente estreita. 'Esperança', disse Miss 
Banner. Mas, para mim, isso não era esperança e sim estupidez; arroz no lugar de 
cérebro. E cu pensei, Rara o quê é que Miss Banner estava olhando enquanto eu 
nomeava aqueles outros sentimentos para ela?"' 

(Amy Tan, 1996, pagina 54) 


"Eventos privados: o sujeito faz parte de seu próprio ambiente?" Esse foi o tema 
proposto pela Diretoria da ABPMC para os integrantes dessa mesa redonda. Embora o 
título tenha sido modificado no programa deste Encontro, creio até por sugestão nossa, 
ainda assim acho que vale a pena explicitar as questões que nos levaram a sugerir essa 
mudança. Mesmo porque, foi a partir deste ponto que elaborei meu texto. 


Primeiro ponto: O título é obscuro: o que é sujeito? 

Um organismo biológico vivo, isto é, reagente, dotado de um conjunto de 
experiências? 

Nosso sentido, a resposta é não; o sujeito não faz parte de seu ambiente. 
Ambientes não são sistemas biológicos vivos afetáveis por sua experiência (aliás, ambientes 
não experimentam experiências). 

Contudo, o sujeito pode reagir a seu corpo e a suas experiências passadas. Um 
organismo pode funcionar como um manipulando sobre o qual o sujeito pode atuar, como, 
por exemplo, ao emitir comportamento de auto-editoração (Skinnor, 1957). Nesse sentido, 
a resposta é sim, o sujeito faz parte de seu próprio ambiente; mas é preciso distinguir que 
o faz, não enquanto sujeito, e sim enquanto produto da experiência passada. Explico 
melhor: quando alguém reage a uma luz vermelha, reage não só ao comprimento de onda; 
sua reação depende também do contexto em que essa luz está (farol de tráfego, caixa de 
fusíveis, zona de meretrício, etc.). Na verdade, depende do repertório comportamental 
desse alguém em relação a esse contexto, isto é, depende de suas experiências com 
farol de tráfego, com fusíveis, etc. Mesmo que eliminemos a memória de um indivíduo 
através de alguma intervenção química ou cirúrgica, imediatamente este indivíduo começará 
a desenvolver novas experiências e a acumular um novo repertório, etc. 

Não obstante, a separação organismo/ambiente é desejável para o trabalho do 
cientista. Existom cortas mudanças físicas que ocorrem no âmbito do comprimento de 
uma onda, outras mudanças físicas ocorrem na retina do sujeito, e outras, em seu sistema 


Sobre compoif.imenlo e cogmçõo 231 



nervoso (reconheçamos, não obstante, que umas e outras só ocorrem em interdependência, 
diria mesmo, só existem porque todas existem). 

Segundo ponto: O título também ó obscuro pela expressão "eventos privados". Referimo- 
nos aqui a ostímulos ou a respostas? Eventos privados são reações de um organismo a 
eventos estímulos? Ou são estímulos internos aos quais reagimos? A ambigüidado é 
verdadeira. Eventos privados são eventos comportamentais privados (isto ó, internos) 
om processo de ocorrência, que podem funcionar como fontos do controlo discriminativo 
para comportamentos subsequentes (como, por exemplo, em comportamento do auto- 
editoração, de pensar, etc.); e, são também fontes privadas de estimulação, não imediata 
e dirotamente relacionada a estes eventos comportamentais om processo do ocorrência 
(como, por exemplo, om processos dolorosos). Em outras palavras, alguns eventos privados 
sao fontes internas do estimulação interoceptiva, enquanto outros são processos 
comportamentais que usamos como fonte do estimulação (produzem mudanças quo nada 
mais são do que estímulos) para outros comportamentos. Essa segunda função ou ciasse 
ó que gera problemas nos estudiosos, espocialmente nos cogmtivistas, quo a rejeitam. 
Para elos, eventos internos são causa do comportamento, e, portanto, não podem ser 
comportamento. Para o behaviorista radical, eventos internos não podem ser considerados 
como eventos iniciadores ou até mesmo mediadores do comportamento. Como Skinnor 
diz, eles não explicam comportamento, são outros tantos comportamentos a serem 
explicados (1974), 

Respostas, encobertas ou não, como fontes de estimulação, devem sua função 
discriminativa a condições antecedentes públicas específicas. Por exemplo, determinados 
gestos e/ou expressões faciais de uma pessoa levam a que uma outra pessoa pergunte 
se ela tem dor de cabeça, bem como a oferecer um comprimido: mais tarde, esta primeira 1 
pessoa, diante da mesma sensação que acompanhou aquelas oxprossõos o gestos, 
podo dizer Tenho urna dor de cabeça’, ou pode dirigir-se a alguém e pedir um comprimido. 
A sensação (‘dor’) atuou como um discriminativo para a verbalização o/ou pedido, o a 
função discriminativa da sensação foi adquirida diante de contingências sociais específicas 
(Skinnor, 1945). A sensação não é causa da verbalização, nem do gesto, nem do pedido. 
Como Skinner diz: 

"O evento privado, na melhor das hipóteses, é não mais do que um elo numa 
cadeia causal, e freqüentomcnte nem mesmo isso é. Podemos pensar antes de agir 
no sentido que podemos agir e de maneira encoberta antes de agirexplicitamento, 
mas nossas ações não são uma "expressão ” da resposta encoberta, ou um 
conseqüência dela. As duas [nossas ações e nossa resposta encoberta] são 
simplesmente atribuíveis às mesmas variáveis." (B. F. Skinner, 1953, página 279) 

Falaremos mais Sobre isso logo abaixo, ao mencionarmos a questão dos relatos 
verbais. Na verdade, acho que faríamos melhor se parássemos com essa insistência de 
falar em eventos privados, quer como estímulos, quer como respostas, e adotássemos a 
boa prática de faiarmos em comportamento. 

Mas, alguém poderia perguntar: "E a diferença entro comportamento oncoborto o 
comportamento explícito? Vale a pena reter esses termos?" Nem mesmo essa prática 


232 M.hm Amóli.i M.ilos 



considero útil, ambos, comportamento encoberto e comportamento explícito, estão sujei- 
tos às mesmas leis, ambos têm a mesma natureza, só se distinguom pelo número de 
observadores que controlam. Em suma, sua diferença ó de acosso, o é para a pesquisa 
desses problemas de acesso que nossa inteligência deveria estar voltada, não para questões 
de semântica. Ao fim e ao cabo nosso bem-ostar tísico e social, e, portanto, também 
nosso avanço moral e filosófico, dependerão sempre de nossa acometida empírica. Nesse 
sentido, estou sempre muito intrigada pelo trabalho da Dra. Fani Malorbi. 

Terceiro ponto: É uma consoqüência do que foi dito anteriormonto. Repetindo: “A diferença 
ontre comportamento encoberto o explícito é de acesso, não de natureza!" De fato, eles 
são idênticos, ambos dependem tanto da ocorrência do eventos atuais quanto da existência 
de eventos passados. 

Nosso corpo, barreira entre o público e o privado, ò também o palco para o público 
o o privado! 

O termo sujeito (ou, falando mais tecnicamente e de maneira mais afastada de 
homúnculos residuais) o termo "organismo" se refero exatamonto a osso fato: somos o 
produto de nosso ambiente progresso, filogenétíco e ontogenético, somos produto de 
nossas experiências em relação a esse ambiente. 

Nossas sensações, emoções, pensamentos, lembranças, etc., e também nossos 
atos, movimentos, posturas, etc., dependem de discriminativos presentes, os quais só 
são discriminativos devido a uma história passada. 

A análise do comportamento em função desses discriminativos atuais vem sendo 
feita com enorme sucesso na área de controle de estímulos; a análise que envolve histórh 
passada se divide em dois caminhos, ambos com armadilhas. 

Um caminho, longo, penoso e aborrecido, mas que - a história tem demonstrado 
- paga seus dividendos, é a construção, em laboratórios, de protótipos ou modelos 
experimentais com história passada e tudo, a qual, então, é estudada. E aqui é que está 
o erro: freqüentemente se pensa exatamonto isso, quo estamos ostudando a história 
passada. Não, o que estamos estudando é o comportamento presente, na situação 
presente, e não podemos fazer mais do que isso, ou, como diz Skinner, "Um organismo 
se comporta como o faz devido a sua estrutura atual" (1974, p, 8). O passado só pode sor 
avaliado (isto é, interpretado) pelos seus efeitos, isto é, pelo comportamento presente do 
sujeito, sujeito esse que, elo sim, ó sou passado, é o produto de suas experiências. 

O outro caminho que mencionei se faz através do estudo do relato verbal, e aqui 
estamos de novo diante de uma boa possibilidade mal aproveitada. 

Em Análise do Comportamento, temos um mandamento que diz que o ambiente 
afeta o comportamento do João, o que, por sua vez, o comportamento de João tem efeitos 
sobro o ambiente, e é afetado por esses efeitos, e assim por diante... 

É verdade, podemos afetar o comportamento de João, encoberto ou explícito, 
através de eventos verbais e não-verbais. Por sua vez, o comportamento de João altera o 
ambiente verbal o o não-verbal em que nós - eu e ele -, operamos. Mas, isso ó verdade 
apenas para o comportamento explícito de João. Quanto ao comportamento encoberto de 
João, ele afeta apenas o ambiente "João”. 


Solm' lompoil.imnilo c co^nj\ilo 



No momento em que João verbaliza (o chamado relato verbal), já estamos diante 
de outro comportamento de João (não mais o encoberto R1 controlado pelas circunstâncias 
SI). Estamos diante de um comportamento R2 controlado pelos efeitos gerados pelo 
encoberto RI e pelas condições sociais presentes no momento da verbalização de João. 
O quadro abaixo ilustra o que dissemos. 


SI 


■> RI 


onc 


> S2 


pnv 


(sensação) (efeito) 


R2 ...>S3 

S2' pu „ 

(audiência) 


A situação SI (sua natureza não é importante no momento para esta análise) 
controla o comportamento encoberto RI (uma sensação X, por exemplo), o qual tem um 
efeito, a situação S2 [e aqui é que está o problema de vez que esse efeito é frequentemente 
confundido com a sensação, pois ele, freqüentemente, também, ó encoberto e, 
freqüentemente, ocorre nas mesmas circunstâncias em que RI ocorre]. Por sua vez, o 
relato verbal (R2) é controlado tanto pela situação S2 (ou seja, o produto de RI) quanto 
pela situação S2’ (um evento público, a audiência). Em outras palavras, S2 e S2’controlam 
o comportamento explícito R2 (que é, este sim, o “relato verbal”). Por outro lado, a linguagem 
do relato foi adquirida em contextos sociais, que envolvem tanto a contingência SI -RI -S2, 
quanto S?-R gestos o expressões faciais-S3, isto é, sua aquisição ocorreu diante de 
eventos explícitos: respostas colaterais ou acompanhamentos públicos (Skinner, 1945). 

Não podemos dizer que R2 corresponde ou expressa R1, e sim que ele, relato, é 
controlado conjuntamente pelos efeitos do encoberto RI e pela comunidade verbal, ou 
seja, é função de S2 e S2’. Esta seria uma análise incompleta em termos de relações 
comportamento-comportamento. 

Por outro lado, eu até posso estudar as condições que determinam esta ou aquela 
verbalização de João. Posso até estudar as condições em que diferentes verbalizações, 
e/ou outras reações, por exemplo motoras, ocorrem intercambiadamente no repertório de 
João. Posso até demonstrar que essas verbalizações e/ou reações formam uma classe 
de respostas funcionalmente equivalentes (lembram-se da análise de Skinner [ 1957] sobre 
a expressão "gostar de música”?), mas, se essa classe comportamental inclui também 
respostas encobertas, eu jamais saberei. 

De qualquer maneira, nunca estarei estudando o encoberto de João, nem nunca 
poderei dizer que estou estudando o conteúdo de seu sonho, ou de sua imaginação ou 
de sua fantasia; estou estudando apenas suas verbalizações. 

O sujeito João, contudo, pode identificar se, na presença de estímulos que o 
levam a dizer "Gosto dessa música!”, ele também tem outras reações auditivas, visuais, 


234 M.iri.i Amélia M.ilos 




proprioceptivas, nociceptivas, etc. {às quais só ele tem acesso). Nesse caso, ele terá 
identificado uma classe de reaçóes que incluem comportamentos encobertos (sensações, 
pensamentos) e explícitos (falas, gestos), e eu posso, vejam bem, posso tentar controlar 
ou ter acesso a esses encobertos, controlando outros elementos (estes, públicos) da 
classe. Os encobertos, porém, e seus relatos, serão sempre metáforas. 

Perguntar se alguém sente dor equivale a perguntar se alguém sente ver; perguntar 
se alguém está consciente de seus eventos privados equivale a perguntar se ele está 
cionto de seus estímulos públicos. Na verdade, perguntar se alguém está ciente de sua 
dor de dente significa perguntar se as condições presentes são aquelas que controlariam 
uma verbalização sua do tipo 'Sinto dor de dente’. O que não ó diferente de perguntar se 
as condições são tais que controlariam verbalizações do tipo 'Está chovendo’. O estudo 
do relato verbal deveria então ser o estudo do comportamento verbal, sem as implicações 
internalistas causais do primeiro; deveria ser o estudo da presença ou ausência de 
determinados tipos de controle de estímulo sobre uma resposta verbal. Nesse sentido, a 
questão da privacidado se reduz, apropriadamente, à questão da especificidade ou 
singularidado. A sensação de cor é propriedade de um objeto-estímulo, a sensação de 
odor de outro objeto-estímulo; por que a sensação de dor deveria ser uma propriedade 
minha, ou do um comportamento meu? Esta postura supõe, de minha parte, a crença em 
poderes ou capacidades inerentes aos organismos, bem como na internalidade como 
uma propriedade desse organismo. Dor, tristeza, raiva são respostas públicas (não 
experiências privadas), que se caracterizam por serem mais ou menos difíceis de identifica . 
Relatos na primeira pessoa não são aprendidos identificando experiências privadas ou 
eventos encobertos; são aprendidos identificando-se situações ambientais. 

A seguir, gostaria de apresentar uma seleção de frases de Skinner sobre eventos 
privados e comportamentos encobertos; na certeza de que tudo que eu falei ele já falara, 
e muito melhor! 


"Como as pessoas se sentem é freqüentemente tâo importante como o que 
fazem. ” 


(B.F.Skinner, Recent Issues in the Analysis of Behavior, 1989, p. 3) 


"O problema surge, em parte, do fato inegável da privacidado: uma pequena 
parte do universo está dentro da pele do homem. Seria tolice negar a existência 
desse mundo privado, mas também ô tolice afirmar que porque ó privado ele é de 
uma natureza diferente da do mundo externo. A diferença não está na matéria de 
que se compõe o mundo privado, mas em sua acessibilidade." 

(B.F.Skinner, BeyondFreedom and Dignity, 1971, p. 191) 


“O que sentimos são condições do nosso corpo... Mas o que é sentido não é 
uma causa primeira ou iniciadora. " 

(B.F.Skinner, Recent Issues in the Analysis of Behavior, 1989, p. 4) 


Sobro compoit.imonlo o rojjniçòo 235 



“Nenhum relato do que está acontecendo dentro do corpo humano, nào importa 
quào completo seja, explicará as origens do comportamento humano. O que acontece 
dentro do corpo nào é um começo." 

(D.F.Skinner, Recent Issues in tho Analysis of Dehavior, 1989, p. 24) 


“Mas eventos privados, na melhor das hipóteses, são não mais do que um elo 
na cadeia causal, e em geral nem mesmo isto eles são. Podemos pensar antes de 
agir, no sentido que nos comportamos de maneira encoberta antes de fazê-lo de 
maneira explicita, mas nossa ação nào é uma “expressão"da resposta encoberta, 
nem uma consequência dela. Ambas são atribuíveis às mesmas variáveis." 

(D.F.Skinner, Science and Human Behavior, 1953, p. 279) 


"... Pelas mesmas razões tenho certas sensações (ou sentimentos, ‘feelings’, 
no original inglês]..." 

"... estou escrevendo devido às conseqüências não devido a minhas sensações 
(ou sentimentos, 'feelings']. Minhas sensações [sentimentos, 'feelings'] o meu 
comportamento são produtos colaterais de minha história pessoal." 

(D.F.Skinner, fíeflections on Dehaviorism andSociely, 1978, p. 86) 


As expressões entre colchetes na citação acima, bem como naquelas que se 
seguem, representam tentativas de minha parte de traduzir as expressões empregadas 
por Skinner. 


“O gerenciamento eficaz do comportamento humano ó seriamente prejudicado 
quando apelamos para sensações [sentimentos, 'feelings', no original inglês] e 
idéias ao explicarmos o comportamento. Assim fazendo, estamos negligenciando 
contingências ambientais mais úteis." 

(D.F.Skinner, Reflections on Behaviorism and Society, 1978, p. 101) 


"O ambiente age sobre um organismo na superfície de seu corpo, mas quando 
este corpo é o nosso, parece-nos que observamos seu progresso atêm deste ponto; 
por exemplo, parece-nos ver o mundo real se tornar experiência, uma apresentação 
física se torna uma sensação ou uma percepção. De fato, esta segunda etapa 
pode ser tudo que vemos. A realidade pode ser apenas uma inferência e, do acordo 
com alguns entendidos, uma má inferência. O que é importante pode não ser o 
mundo físico do lado de fora da pele, mas o que este mundo significa para nós 
deste lado de cá." 

(D.F.Skinner, Reflections on Dehaviorism and Society, 1978, p. 71) 


23Ó M,ii i,i Ami'li.1 M.ilos 



“Mas será que as sensações [sentimentos, ‘feelings’, no original inglês] não 
têm algo a ver com nossa formulação de uma ciência do comportamento? Não 
agredimos porque estamos com raiva e ouvimos música porque gostamos? E se 
isso é verdade, nossas sensações [sentimentos, 'feelings'] não deveriam ser 
acrescentados a aqueles eventos antecedentes dos quais o comportamento é 
função? Esta não é a ocasião própria para respondera esta indagação, mas posso 
sugerir uma resposta a ser dada."... “O que sentimos são condições do nosso 
corpo, a maioria da quais estreitamente relacionadas com nosso comportamento e 
com as circunstâncias nas quais nos comportamos. Agredimos o sentimos raiva, 
ambos pela mesma razão, e esta razão está no ambiente. Em suma, as condições 
corporais que sentimos são produtos colaterais de nossas histórias genéticas e 
ambientais. Não possuem força explicativa; simplesmente são fatos adicionais a 
serem levados cm conta." 

(B.F.Skinner, Reflections on Behaviorism and Society, 1978, p. 71) 


Ainda, na mesma obra citada acima, Skinner, ao discutir a questão da auto- 
observação e da introspeção, comenta: 


“Um outro problema se refere à natureza e localização do conhecedor. O 
organismo em si mesmo está, por assim dizer, entre o ambiente que age sobre ele, 
e o ambiente sobre o qual ele age... De que perspectiva observamos os estímulos 
entrando no ‘armazém’onde a memória estoca seus dados? Ou [de que perspectiva 
observamos] o comportamento saindo [desse armazém] e expressando-se 
fisicamente? O agente observador, o conhecedor, parece contrair-se a algo muito 
pequeno no meio das coisas. 

Na formulação do uma ciência, com a qual comecei, é o organismo como um 
todo que se comporta. Ele age dentro e sobre um mundo físico, e pode ser induzido 
por um ambiente verbal a responder a algumas de suas próprias atividades." 

(B.F.Skinner, Reflections on Behaviorism and Society, 1978, p. 73) 


“Uma formulação bchaviorista não ignora as sensações [sentimentos, ‘feelings’, 
no original inglês]; esta formulação apenas muda a ênfase do sentir [da sensação] 
para o que se sente [para aquilo que ó sentido]." 

(B.F.Skinner, Cumulative Record, 1959, p. 284) 


“Sentir ó um tipo de ação sensorial, como ver ou ouvir." 

(B.F.Skinner, Rccent Issues in theAnalysis of Behavior, 1989, p. 3) 


“A distinção entre o público e o privado de maneira alguma é a mesma que 
existe entre o físico e o mental. Esta é a razão pela qual os behavioristas 


Sobrv comport.imcnlo i* cogníftlo 



metodológicos (que adotam a primeira distinção) diferem dos behavioristas radicais 
(que eliminam o segundo termo na segunda distinção. O resultado ó que, enquanto 
o behaviorista radical pode, sob certas circunstâncias, considerar os eventos 
privados (inferencialmente, talvez, mas não menos significativamente), o 
operacionista metodológico se coloca numa posição em que elo não pode ."... 
"Mas, eu afirmo que minha dor de dente é tão física quanto minha máquina do 
escrever, embora não seja pública, e não vejo razão porque uma ciência operacional 
objetiva não possa considerar o processo através do qual um vocabulário, descritivo 
de uma dor de dente, ó adquirido e mantido ." 

(B.F.Skinner, Cumulative Record, 1959, p. 285 [originalmonte om The Operational 

Anaíysis of Psychofogical Terms, 1945]) 


"O que se sente, o que ó sentido quando se tem uma sensação [sentimento, 
‘feeling’, no original inglês] é uma condição de nosso corpo." 

(B.F.Skinner, Recent Issues in the Anaíysis of Dehavior, 1989, p. 13) 


O célebre artigo, em que essa discussão sobre o público e o privado ocorre, foi 
publicado em 1945 na revista Psychological Review, e republicado em 1959, na coletânea 
Cumulative Record, na quaí o autor faz uma revisão com avaliação de sua produção 
cientifica. É interessante notar que nesta coletânea, o artigo em questão foi classificado 
sob o sub-título ‘‘Parte VI - Comportamento literário e verbal". 

"A distinção público/privado aparentemente leva a uma análise lógica (distinta 
de uma análise psicológica), do comportamento verba! do cientista, embora eu nâo 
veja razão pela qual isto devesse ocorrer. Talvez porque os subjetivistas ainda não 
estejam interessados nos termos, e sim naquilo que os termos designam. O único 
problema que uma ciência do comportamento deve solucionar em relação ao 
subjetivismo está no campo verbal." 

(B.F.Skinner, Cumulative Record, 1959, p. 285 [originalmente em The Operational 

Anaíysis of Psychological Terms, 1945]) 


‘‘O autoconhecimento é de origem social. Somente quando o mundo privado 
de uma pessoa se torna importante para os outros, é que ele se faz importante para 
essa pessoa." 

(B.F.Skinner, About Behaviorism, 1974, p. 31) 


"... Falamos a nós mesmos [comportamento encoberto] tal como falamos em 
voz alta, e respondemos tal como respondemos ao comportamento dos outros, ou 
respondemos tal como respondemos ao comportamento de nós mesmos quando 
falamos em voz alta." 


(B.F.Skinner, The Technology of Teaching, 1968, p. 124) 


238 M.iri.i Amóli.i M.itos 



“No livro About Behaviorism eu digo que os estados do corpo que sào sentidos 
não são as causas do comportamento, e sim os produtos colaterais das causas. 
Isto não significa que os eventos privados não possam controlar o comportamento, 
como o fazem [aliás] quando os descrevemos (mesmo se de maneira 
necessariamente inexata). ” 

(B.F.Skinner, Notebooks, 1980, p. 227) 


"... termos, adquiridos a partir de uma comunidade verbal que tem acesso 
apenas ao comportamento [explícito] de uma pessoa, passam a ser usados por 
esta pessoa sob o controlo de estímulos privados associados. “ 

(B.F.Skinner, Notebooks, 1980, p. 73) 

Skinner mantinha um caderno de anotações constantomento consigo. Ali anotava 
idéias, observaçõos e/ou comentários sobre fatos ou leituras, etc. Mais tarde, recuperava 
estas anotações e as desenvolvia, se fosse o caso, em novos projetos. Na década de 70, 
ele convidou um aluno seu (e posteriormente colaborador), R. Epstein, para coletar e 
organizar esses cadernos. Posteriormente, em 1980, Epstein publicou uma seleção dessas 
anotações sob o título Notebooks, a qual, freqüentemente, não ó citada como obra de 
Skinner. Nestes Notebooks, ao discutir a questão dos eventos privados, Skinner deixa 
bastante clara sua concepção da origem social desses eventos e sua linguagem. 

Ele dá como exemplo uma dor produzida por um objeto do forma aguda, e que 
passa a ser descrita como "uma dor aguda", e termina dizendo que daí em diante dores 
semelhantes, isto ó, sensações semelhantes, serão denominadas igualmente de "agudas", 
mesmo quando produzidas em outras circunstâncias. O nosso engano, diz, está em 
supor que estas condições sejam a causa do comportamento, em vez de produtos colaterais 
dessas condições, produtos esses que, por alguma razão, se tornaram mais conspícuos. 

Skinner fornece uma lista de termos que podem ter passado por transformações 
semelhantes, isto ó, que foram adquiridos do maneira semelhante em relação a eventos 
privados: to wish (desejar), to need (necessitar), to long for (sentir a falta de), to yearn 
(querer muito), to envy (invejar), TO BEGRUDGE (dar ou fazer algo do má vontade, 'com 
um pó atrás’), to scorn (caçoar), to be fond of( gostar), togrieve for(lastimar-so, chorar a 
perda), fo be sad (estar triste), fo mourn (lamentar, prantear). E se pergunta se serão 
estados da mente ou formas de comportamento, para esclarecer que a etimologia dessas 
palavras fornece a resposta a essa pergunta: Diz, “to wish (querer) começou como to 
strive for (lutar por) e se relaciona a to win (vencer ou ganhar)", e prossegue, analisando 
igualmento cada termo (Skinner, 1980, p. 73). Em termos mais próximos de nossa língua, 
por exemplo, "invejar" ó um verbo que essencialmente significa "olhar com desejo de possuir", 
e tem sua raiz no desejo de tentar imitar ou igualar a pessoa invejada (ou de quem se 
inveja algo). "Invejar" teria sido usado, inicialmente, pela comunidade para descrever o 
comportamento de alguém que tentava imitar ou igualar outrem. Em seguida, passou a 
ser usado por esse alguém para designar condições orgânicas semelhantes àquelas 
experimentadas durante as condições que geravam "imitação”, quando novas circunstâncias 
não geravam comportamentos explícitos (ou por uma questão de intensidade/magnitude, 
ou por supressão devido à punição). 


Sobre compoil.imenlo e cognição 239 



"Não são estes os estados da mente ou sensações [sentimentos, 'feelings', 
no original inglês], ao invés de formas de comportamentos? A história desses termos, 
encontrada no Oxford English Díctionary, nos responde. Cada termo foi usado 
inicíalmente com relação a algum ato público ou conjunto de circunstâncias; 
eventualmente ficou sob o controle de estímulos privados associados ."... 

(B.F.Skinner, Notebooks, 1980, p. 73) 


"O engano é supor que as condições [orgânicas] sentidas possam ser a causa 
possível de qualquer comportamento que eventualmente surja, ao invés de produtos 
colaterais resultantes de circunstâncias que possam, eventualmcnto, ter um efeito 
comportamental mais conspícuo. " 

(B.F.Skinner, Notebooks, 1980, p. 74) 


Gostaria de finalizar esta fala com algumas breves considerações terminológicas 
(cf. Aurélio, 1 0 Edição -Terminologia, conjunto de termos próprios duma arte ou ciência’), 
pois mo parece apropriado que assim terminemos nossa fala sobre eventos encobertos. 
Considerando que a afirmação inicial (1945) de Skinner, de que o limite entre eventos 
encobertos e explícitos ó a pele, foi posteriormente rejeitada como não importante por ele 
mesmo (1969), me parece necessário tentar estabelecer algumas diferenças entre 'eventos 
públicos e privados' e 'eventos naturais e ficcionais', através de exemplos de comportamento, 
como minha amiga Célia Zannon uma vez me pediu. 

"Joào abre a porta", é um evento público em relação ao qual várias pessoas 
podem ter acesso e sobre o qual podem discorrer, ou de outra forma agir. 

"Eu vejo João abrir a porta", é um evento privado já que somente eu tenho 
acesso ao meu comportamento de ver, e portanto sobro o qual somente eu posso 
discorrer ou de alguma outra forma agir [de alguma forma, considero que é através 
dessa possibilidade de várias atuações - além da do sentir-que a circularidade 
apontada por Watson com relação à introspecção, é quebrada]. 

Meus batimentos cardíacos estão dentro de minha pele, mas só são encobertos 
na medida em que não ocorra uma invasão instrumental ou cirúrgica do meu corpo. Por 
outro lado, meu alívio ao saber que escapei de uma cirurgia cardíaca é completamente 
privado, não apenas interno. A expressão desse alivio ó um evento público. 

Todos os exemplos citados acima representam eventos naturais (ocorrências, 
sensações, sentimentos, emoções, lembranças, pensamentos), públicos o privados. Isto 
ó, ocorrem no meu corpo ou fora de meu corpo, mas todos têm dimensões físicas espaço- 
temporais em relação às quais eu ou outros podemos agir. Um evento ficcional seria a 
atribuição do ato de João a uma pulsão interna, a uma decisão ou intenção de sua parto; 
seria atribuir o meu ato de ver a porta aberta à minha 'atenção', ou à ação de minha 
'inteligência perceptiva', etc. Eventos naturais são eventos em relação aos quais uma 
pessoa pode falar ou, de alguma outra forma, agir; podem explicar nossos 
comportamentos. Eventos ficcionais são 'arranjos explicativos posthod. Ninguém pode 
agir em relação à minha inteligência ou à minha falta de, e essa inteligência não explica 
meu comportamento, pelo contrário, meu comportamento é sua evidência. 


240 M.iri.i Améli.i M.ilo* 



“Joáo abre a porta" e isso afeta o meu comportamento ou o de outros observadores. 
"Eu vejo João abrir a porta", ou “Eu me lembro que João deixou a porta aberta", e isso afeta 
minhas ações de me dirigir ou não à sala ao lado, etc. Esses exemplos ilustram outro 
ponto importante: comportamentos encobertos só podem ser estudados, e mesmo assim 
inferencialmente, quando são pré-correntes a comportamento explícitos (alguns autores 
[cf Rachlin, 1985] os consideram mesmo como pertencentes a uma mesma classe). 

A discussão de eventos encobertos como estímulos e/ou como respostas deveria 
ser retomada de forma exclusiva. Por exemplo, nem sequer abordamos a posição de Day 
e Daurn a respeito. A expressão 'eventos do mundo interno’ é usada exclusivamente com 
a função de estímulo para o primeiro autor e de resposta para o segundo. Para Day (1976/ 
1992) evento encoberto pode se referir tanto a estímulos discriminativos como a 
reforçadores. Um evento interno com função de estímulo discriminativo seria, de acordo 
com Day, minha dor de dente que me leva a dizer ‘Estou com dor de dente’, ou me leva a 
procurar um dentista, posição semelhante à exposta aqui. Evento interno com função 
reforçadora (ou punitiva) seria, ainda de acordo com Day, a sensação do alívio após ser 
medicada e a dor desaparecer. 

Daurn (1994) emprega o termo 'evento encoberto' como comportamento, 
distinguindo aí dois tipos de eventos privados: eventos de pensamento e eventos do 
sensação ("thinking cvents o sensing events”). Os primeiros envolveriam, de acordo com 
o autor, ações de resolver problemas, decidir, pensar, lembrar, imaginar, etc.; os últimos 
envolveriam ações como ver João e sua porta, ouvir música, sentir coceira, cheirar comida, 
etc. O critério para distingui-los seria o fato de que "eventos de pensamento tôm uma 
relação com a linguagem pública que os eventos de sensação não possuem" (p. 41). Além 
disso, eventos de sensação não teriam uma contrapartida pública (exemplos de 
contrapartida pública: pensar/fazer, lembrar/escrever ou falar, decidir/executar, etc.). Por 
ossos critérios, eu diria que sentir dor, alegria, medo, amor, alívio seriam todos eventos de 
pensamento. Não são imediatos, precisam ser aprendidos, através de sua contrapartida, 
provavelmente. É uma proposta intrigante, mas como abordar exemplos como o de um 
pintor compondo um quadro? Seria este um exemplo exclusivamente de eventos de 
sensações? Não envolvería também eventos de pensamentos? Um outro exemplo mais 
difícil: um poeta compondo uma poesia. Seriam seus eventos comportamentais encobertos 
de pensamento? Apenas? Como eu distingo um evento encoberto de outro nestes 
exemplos, supondo-se que um mesmo ato não poderia pertencer a ambas as categorias. 
Outro exemplo: diz-se que muitas soluções a problemas de Matemática são ‘sentidas’ 
antes que ‘pensadas’, são ‘intuídas antes mesmo de serem demonstradas’. Mas será 
que, pelo contrário, isso não adviria de uma familiaridade, do uma contrapartida pública 
muito extensa? E o 'lembrar' e o 'imaginar', não são, de acordo com Skinner, "o ver na 
ausência da coisa vista"? (Skinner, 1974). 

Uma outra questão que mo intriga ó "Por que o controle de eventos privados sobre 
explícitos se exerce, mais freqüentemente, sobre o comportamento verbal? Será que isso 
se deve ao fato do que o verbal não necessita de substrato físico para ser emitido? Ou 
porque prescinde, mais que os demais, de continuidade espaço-temporal com seus 
antecedentes? 

Talvez a gente possa se encontrar um outro dia para discutir essas questões. 


Sobro comport.imeiifo o coriiívõo 



Bibliografia 

DAUM, W. M. (1994) Understanding Behaviorism: Science, Behavior, and Culturo. New 
York: Harpor Collins Colloge Publishers. 

DAY, W. F. (1976/1992) Analyzing verbal behavior under the conlrol of privale events. 
Behaviorism, 4, 195*200. Republicado em 1992 om S. Lolgland (Org.) Radical 
Behaviorism: Willard Day on Psychology and Philosophy. Reno, N Y: Context 
Press, cap. 9. 

RACHL.IN, H. (1985) Pain and behavior. Behavioral and Brain Sciences, 8,43-83. 

SKINNER, B. F. (1945) The Operational Analysis of Psychological Torms. Psychological 
Review, 52, pp. 270-294. 

(1953) Science and Human Behavior. New York: McMilIan. 

_(1957) Verbal Behavior. New York: Appleton-Centwry-Crofts. 

_(1959) Cumulative Record: A Selection of Papers. New York: Appleton-Century- 

Crofts. 

(1968) The Technology of Teaching. New York: Appleton-Century-Crofts. 

(1969) Contingencies of Reinforcement: a theoretical analysis. New York: Appleton- 
Century-Crofts. 

_ _(1971) Beyond Freedom and Dignity. New York: Alfred A. Knopf. 

(1974) About Behaviorism. New York: Alfred A. Knopf. 

(1978) Reflections on Behaviorism and Society. Englewood Cliffs, NJ: Prentice - 
Hall. 

(1980) Notebooks. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall [seleções dos livros de 
anotações de B.F.Skinner, editadas por R. Epstein], 

(1989) Recent Issues in the Analysis of Behavior. Columbus: Merril Publishing Co. 
FAN, A. (1966) The Hundred Secret Senses. New York: Ivy Books. 


242 M.iri.i Amóli.i M.itos 



Capítulo 25 


Eventos privados: o sujeito faz parte de seu 

ambiente? 

/«»/?/ l:L\ Kórn Miilabi 

ruc/sr 


C^orn o objetivo de relacionar eventos privados com ambiente, numa pers¬ 
pectiva comportamental, vou iniciar comentando alguns problemas de linguagem associados 
a esses conceitos e depois vou apresentar alguns dados empíricos, mostrando como é 
possível fazer pesquisa numa área que envolve essa relação. 

Ao analisar a obra de Skinner, percebe-se que eventos privados, eventos 
internos e termos subjetivos muitas vezes sáo empregados como sinônimos. No entanto, 
poderíamos diferenciá-los. 

O evento privado é aquele que não é público; é o evento que ocorre na presença 
de um indivíduo, em particular. O seu antônimo é evento público 1 . Em geral, o evento 
privado ó um evento interno e este é o motivo pelo qual se costuma confundi-lo com o 
evento interno. Entretanto, è possível haver um evento privado que ocorra exteriormente 
ao indivíduo, porém numa situação na qual apenas aquela pessoa esteja presente. Nesse 


'Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda (1975). Novo Dicionário da Língua Portuguesa Rio do Janeiro: Novo 
Fronloira. 


Sobre compoit.imenlo e copnivõo 243 


caso, o evento será privado porque a comunidade não é capaz de observar a sua ocorrência, 
embora, potencialmente, pudesse fazê-lo. Bastaria que houvesse outra pessoa presente 
e, nesse caso, o evento deixaria de ser privado, tornando-se público. 

O evento interno ó aquele que ocorre no interior do organismo; opõe-se ao evento 
oxterno 1 . Aqui o que define é a localização do evento. Na maioria das vezos, o evento 
interno é um evento privado porque a comunidade não tem acesso ao que ocorre no 
interior dos organismos. Se a comunidade conseguisse ter acesso aos eventos internos 
das pessoas, estes deixariam de ser privados e passariam a ser públicos. 

O termo subjetivo, empregado especialmente por Skinner (1945) na Análise 
Operacional dos Termos Psicológicos, é a denominação para uma resposta verbal a 
estímulos privados. 

Em geral, eventos privados e internos são denominações dadas quer a estímulos 
quer a respostas, mas o adjetivo ‘‘subjetivo" geralmente qualifica uma resposta verbal. 

Com relação ao conceito de ambiente, encontramos nos dicionários definições 
como: a) aquilo que cerca (apenas por fora?) ou envolvo os soros vivos ou as coisas (Novo 
Dicionário Aurélio); b) o conjunto de todas as condições externas ... a um organismo ? ; 
c) todas as condições, circunstâncias e influências que envolvem o afetam o 
desenvolvimento de um organismo ou de um grupo de organismos 3 . Como podemos 
verificar, não há um consenso quanto a se considerar ambiente algo apenas externo ao 
indivíduo ou não. 

Para o Behaviorismo Metodológico, ambiente refere-se apenas às condições 
externas, porque essa forma de Behaviorismo considera importante o critério de verdade 
por consenso público, o qual só pode ser alcançado para eventos externos e públicos. Na 
medida em que aspectos do ambiente interno não são, podem ser observados por 
observadores independentes, eles não poderiam, segundo essa abordagem, ser objeto de 
uma Ciência. 

Diferentemente, para o Behaviorismo Radical, ambiente deve ser entendido de 
uma forma mais ampla, englobando condições externas e condições internas, não um 
universo indefinido, mas o ambiente que efetivamente afeta um organismo. 

Encontramos no livro Ciência e Comportamento Humano (Skinner, 1953), uma 
classificação de estímulos em três categorias, em função da sua inserção (localização) 
no ambiente do sujeito: (1) estímulos exteroceptivos - gerados no ambiente externo ao 
organismo. Por exemplo: sons, luzes, odores, etc., (2) estímulos interoceptivos - gerados 
no ambiente interno do organismo, principalmente nos sistemas digestivo, respiratório o 
circulatório. Por exemplo: estímulos gerados pelo estômago cheio, por cálculos no dueto 
biliar, pela contração de pequenos vasos sanguíneos, pelos batimentos cardíacos 
acelerados, etc., e (3) estímulos proprioceptivos - gerados pela posição e pelo movimento 
do corpo no espaço e pela posição e pelo movimento de partes do corpo em relação às 
outras partes (também no ambiente interno do organismo). Por exemplo: estímulos 
gerados quando se movimenta um braço com os olhos vendados. Se os olhos estiverem 
abertos, o movimento do braço será também um estímulo exteroceptivo. 


■'Wobster's New Collogiato Dictionary (1951). Cambridgo, Mass., USA: G.&C. Morriam Co. 

'Webster's New Twentieth Cenlury Diclionary Unabridgod (1975). USA; Williarn Collins* WoilcJ Publishing Co 


244 I ,im 1 l,i Korn M.ilerbi 



Poderíamos acrescentar a essa classificação os estímulos nociceptivos - gerados 
no ambiente interno ou externo ao organismo, resultantes de lesões dos tecidos que 
sofrem agressões físicas, químicas ou biológicas em qualquer parte do organismo. Por 
exemplo: estímulos dolorosos gerados pelo corte num dedo, pela compressão de um 
sapato apertado, pela ingestão de um alimento demasiadamonte quente. 

Em rolação aos nossos estímulos internos, temos uma certa familiaridade, na 
medida em que ocorrem no interior de cada um de nós. No entanto, poderíamos nos 
perguntar como ó possível ter acesso aos estímulos internos dos outros? E,se não for 
possível o acesso aos estímulos que ocorrem no interior dos outros organismos, como 
poderíamos estudar a relação entre esses estímulos e os comportamentos? 

Há, basicamente, duas formas de acesso aos estímulos internos dos outros, 
tornando-os públicos: 1) através de uma invasão instrumental (por exemplo: através da 
utilização de um estetoscópio que amplifica os ruídos cardíacos, do registro da atividade 
elétrica das ondas cerebrais, do registro da tensão muscular, etc.) e 2) através do relato 
verbal do sujeito no interior de quem ocorrem os eventos internos. Respostas de auto- 
observação e de autodescrição apresentadas por este sujeito exporiam para a comunidade 
seus eventos internos. 

O relato verbal não substitui o evento interno, mas é uma resposta a ele. O 
relato verbal pode ser usado como uma fonte de informação sobre os eventos internos. 

Sabemos que o comportamento verbal ó um comportamento aprendido. O relato 
de eventos externos é um produto de um processo de aprendizagem no qual estão 
envolvidos procedimentos de reforçamento diferencial para respostas verbais (tatos) 
apresentadas a estímulos públicos. 

No caso dos eventos internos (aos quais apenas o sujeito tem acesso direto), 
como é possível colocar respostas verbais sob o controle desses eventos? Skinner (1945) 
ofereceu uma resposta a esta questão, supondo que a comunidade verbal ensina as 
pessoas a relatarem seus eventos internos, empregando quatro estratégias, todas baseadas 
em acompanhamentos públicos (quer de estímulos, quer de respostas) associados aos 
eventos internos. Essas estratégias poderiam ser utilizadas em várias combinações, 
dependendo do comportamento a ser ensinado. 

Através da 1* estratégia, a comunidade utilizaria estímulos exteroceptivos 
associados aos estímulos internos para tornar o reforçamento contingente à resposta 
do indivíduo. Por exemplo: uma criança cai e seu joelho sangra. A mãe ao observar o 
sangue (estímulo exteroceptivo para a mãe e para a criança) diz: 

"Você se machucou? Está doendo?" Com a repetição desta situação ou de situações 
similares, a criança aprende que "doendo" descreve as sensações (estírfiulos internos) 
provocadas pela queda. 

A 2* estratégia baseia-se em respostas colaterais públicas aos estímulos 
internos para reforçar a resposta verbal aos estímulos internos. Por exemplo, após a 
queda, a criança cai e, ao se levantar, começa a mancar - resposta colateral não-verbal 
pública. A mãe, ao observar a criança andando com dificuldade, infere que a queda provocou 
dor e pergunta: "Está doendo?" Esta estratégia não ó muito diferente da primeira, na 
medida em que as respostas colaterais públicas apresentadas pelo sujeito funcionam 


Sobre comportamento e cognição 245 



como estímulos exteroceptivos para a comunidade verbal. 

A 3* estratégia acontece mais tardiamente no desenvolvimento do indivíduo porque 
exige, como pré-requisito, um certo repertório verbal. A pessoa que aprendeu a descrever 
o seu próprio comportamento encoberto em reação a um conjunto de estímulos 
externos e internos passa a apresentar essa descrição, agora, apenas na presença de 
estímulos internos. Por exemplo: aprendo a dizer "estou com fome" sob o controle da 
passagem de tempo desde a última refeição e sob o controle das contrações no meu 
estômago (eventos internos). Num determinado momento, mesmo desconhecendo quanto 
tempo so passou desde q última refeição, digo "estou com fome" apenas sob o controle 
dos eventos internos. 

Corno 4“ e última estratégia, Skinner sugeriu que uma resposta què é adquirida 
e mantida em conexão com estímulos exteroceptivos poderia ser emitida, por indução, na 
presença do ostímulos internos, com base em propriedades coincidentes destes dois 
conjuntos de estímulos (metáforas). Por exemplo: descrevemos nossos estados internos 
com os termos “agitação", "depressão", "paixão ardente", etc. 

Através das quatro estratégias apontadas por Skinner, a comunidade verbal seria 
capaz de fornecer reforçamento para respostas verbais controladas por eventos internos, 
mesmo não tendo acesso direto a esses eventos. No entanto, pelo fato do os eventos 
internos do indivíduo não serem diretamente acessíveis à comunidade verbal, haverá falhas 
no procedimento de discriminação, o que impedirá a aquisição de um vocabulário (de 
descrição de eventos internos) estável, aceitável e razoavelmente uniforme. 

Em todas as estratégias citadas, a comunidade precisa agir para ensinar o indivíduo 
a relatar seus eventos internos; portanto, a linguagem dos eventos internos é um produto 
social. 


Essas questões que estamos discutindo hoje, nessa mesa redonda, têm sido 
objeto de discussão de muitos filósofos da ciência que têm procurado respostas para as 
seguintes perguntas: É possíveí ou não estudar eventos internos? Qual é a natureza dos 
eventos internos (física ou mental?) Deve-se adotar o critério de verdade por consenso 
público (apenas eventos passíveis de observação por observadores independentes podem 
ser estudados)? Qual é o papel da linguagem no conhecimento, em geral, e no 
autoconhecimento, em particular? 

Enquanto os filósofos estão envolvidos nessa discussão, um grupo de 
pesquisadores na área de Psicofísiologia tem desenvolvido procedimentos, há pelos menos 
três décadas, que se mostraram eficazes para ensinar as pessoas a discriminarem seus 
próprios eventos internos, tais como: a atividade elétrica da pelo (Baron, 1966; Stern, 
1972), a freqüência cardíaca (Epstein e Stein, 1974; Epstein, Cinciripini, McCoy e Marshall, 
1977; Ashton, White e Hogson, 1979; Kaktin, Blascovich e Goldband, 1981), a motilidade 
gástrica (Stunkard e Koch, 1964; Griggs e Stunkard, 1964), a pressão arterial (Shapiro, 
Redmon, McDonald e Gaylor, 1975; Luborsky, Brady, McCIintock, Kron, Bortinchach e 
Levitz, 1976; Cinciripini, Epstein e Martin, 1979; Grenstadt, Shapiro e Whitehead, 1986), o 
nível de álcool no sangue (Lovibond e Caddy, 1970; Silverstein, Nathan e Taylor, 1974; 
Lansky, Nathan e Lawson, 1978), o nível de monóxido de carbono alveolar (Martin e 
Frederiksen, 1980), o nível de açúcar no sangue (glicemia) (Gross, Wojnilower, Levin, 
Dale, Richarson e Davidson, 1983; Gross, Magaluick e Decher, 1985; Wing, Epstein e 


24Ó I .mi l l.i Korn M.ileibi 



Lamparski, Kagg, Nowalk e Scott, 1984; Freund, Johnson, Rosembloom, Alexander e 
Hansen, 1986; Cox, Cárter, Gonder-Frederick, Clarke e Pohl, 1988; Cox, Gobder-Frederick, 
Julian, Cryer, Lee, Richards e Clarke, 1990; Nurick e Johnsin, 1991). Em todos estes 
casos, os pesquisadores utilizam um procedimento de discriminação operante que fornece 
reforçamento diferencial para o responder apropriado ao evento que ocorre no interior do 
sujeito (evento interno). Este procedimento só ó possível porque o pesquisador consegue 
ter acesso aos eventos internos dos sujeitos, através de medidas públicas do próprio 
evento ou de eventos associados àqueles 4 

Eu, particularmente, tenho pesquisado na área de discriminação de estados 
glicômicos. Para indivíduos portadores de Diabetes Melittus, essa discriminação ó elemento 
fundamental do seu tratamento. Tenho empregado um procedimento que ensina, abs 
pacientes diabéticos, uma resposta verbal descritiva dos seus estados glicômicos 
(hipoglicemia; valores menores que 60 mg/dl, normoglicemia; valores maiores ou iguais a 
60 o menores ou iguais a 180 mg/dl e hiperglicemia: valores maiores que 180 mg/dl). No 
treino discriminativo, os sujeitos são solicitados, em determinados momentos, a estimar 
seu nível glicêmico (ele deve dizer se está em hipo -, normo - ou hiperglicemia) e depois, 
esta resposta verbal recebe reforçamento diferencial pelo acesso do sujeito à medida real 
da sua glicemia naquele momento. Este acesso permite ao sujeito verificar se sua estimativa 
foi correta ou incorreta. O procedimento que torna o nível glicêmico acessível ó muito 
simples, sendo realizado pelo próprio sujeito, utilizando um reflectômetro portátil. Durante 
o treino de discriminação dos estados glicômicos, além de estimar e medir sua glicemia, 
o sujeito é solicitado a observar e registrar a) sintomas, b) eventos do ambiente externo 
associados à regulação glicêmica, e c) ambos os tipos de eventos. Comparando a precisão 
das auto-estimativas de glicemia antes e depois do treino discriminativo, verificamos que 
este melhora a precisão de todos os sujeitos. Esses dados foram apresentados em 
comunicação anterior (Malerbi, 1995a). Após o treino, os pacientes adquirem um vocabulário 
descritivo bastante preciso - respostas verbais apropriadas às diferentes condições 
glicêmicas (evento interno), o que mostra que é possível colocar respostas verbais sob o 
controle de eventos internos. 

Uma outra análise que os dados dessa linha de pesquisa têm possibilitado se 
refere aos sintomas de hipoglicemia e de hiperglicemia relatados pelos pacientes. Se os 
pacientes forem solicitados a relatar quais são seus sintomas de hipo - e de hiperglicemia 
antes (sintomas-crença) e depois (sintomas relevantes) de serem submetidos a um treino 
discriminativo de seus estados glicômicos, pode-se avaliar a influência do treino sobre o 
relato verbal supostamente sob controle de eventos internos. Antes de participarem do 
treino, os pacientes diabéticos são submetidos a uma entrevista em que são questionados 
a respeito dos sintomas que ocorrem nas suas diferentes condições glicêmicas (sintomas- 
crença). Essa descrição inicial é, provavelmente, produto de uma história de aprendizagem 
na qual a comunidade verbal, sem ter acesso direto aos eventos internos dos pacientes, 
ensinou-lhe a descrever suas sensações, utilizando as estratégias disponíveis. 

Numa das fases do procedimento, os pacientes recebem uma lista de sintomas e 
são instruídos a observá-los e registrar sua possível ocorrência, antes da apresentação 
das auto-estimativas de glicemia e da mensuração das glicemias. A partir desses registros 


4 Nossas posquisas, orn geral, o pesquisador infere que o evento interno ocorreu com base na informação 
produzida por elotrocardiógrafos, pneumógrafos, dormaômetros, quimóqrafos, reflectômotros, etc. 


Sobro comport.imonlo o coflniç.ío 



e, com a utilização de um algoritmo derivado da Teoria de Detecção de Sinal (ver Malerbi, 
1995b), ó possível estabelecer quais são os sintomas preditores de hipo e de hiperglicemia 
(sintomas relevantes) para cada sujeito. A comparação entre os sintomas-crença e os 
sintomas relevantes possibilita uma avaliação da precisão dos primeiros, isto ó, permite 
avaliar a adequação do repertório verbal descritivo dos eventos internos antes de os pacientes 
serem submetidos a um treino discriminativo. A Tabela 1 apresenta os sintomas relevantes 
para hipoglicemia para cada um dos oito pacientes que participaram do treino discriminativo. 


Tabela 1 

Sintomas relevantes para hipoglicemia para cada sujeito.* 



248 him H«i Kom M.ilcrbt 















































SI S2 S3 S4 S5 S6 S7 S8 



* Os sintomas que também foram mencionados na entrevista Inicial (sintomas-crença) estão em negrito. 


Como mostra a Tabela 1, os sintomas relevantes para hipoglicemia variaram muito 
entre os sujeitos. A maioria dos sintomas rolevantes não foi mencionada pelos sujeitos na 
entrevista inicial do estudo. 

Uma grande porcentagem dos sujeitos (87,5%) mencionou de um a três sintomas 
de hipoglicemia que se mostraram relevantes no decorrer do treino. Tremor foi o sintoma 
relevante para hipoglicemia mais freqüente para este grupo de sujeitos, tendo sido também 
o sintoma-crença mais freqüente. 

A Tabela 2 apresenta os sintomas relevantes para hiperglicemia. 


Sobrv comporl.imento e coRniç.lo 249 






















Tabela 2 


SI 

S2 

sede 

sede 

boca seca 

boca seca 



S4 

S5 

sede 

sede 

boca seca 

boca seca 



boca seca 


nervosis- nervosis- nervosis- 



bocejar 


vontade 
de urinar 


fraqueza 


mau 

humor 


bocejar 


















































SI 

S2 

S3 

S4 

S5 

S6 

S7 

S8 








dificuld.de 

raciocinar 








coceira 


■ 

sEBlIflS 







hálito 

cetona 















"cheio" 








raiva 

dor de 
cabeca 







fPP 


* Os sintomas quo também foram moncionados na ontrovista inicial (sintomas-crença) ostâo em negrito. 


Também para hiperglicemía nem sempre houve coincidência entre sintomas-crença 
e sintomas relevantes e estes últimos também variaram muito entre os sujeitos, como foi 
observado para hipoglicemia. 

Sede e boca seca foram os sintomas relevantes mais freqüentes para 
hiperglicemia. O sintoma urina muito, mencionado por muitos sujeitos na entrevista 
inicial como sintoma de hiperglicemia, foi relevante para apenas um sujeito (SI). 

Alguns sintomas que sinalizaram hipoglicemia para determinados sujeitos 
indicaram hiperglicemia para outros sujeitos. Por exemplo, boca seca e sede que foram 
os sintomas relevantes mais freqüentes para hiperglicemia, sinalizaram hipoglicemia para 
os sujeitos SI e S6. 

Quatro sujeitos do presente estudo mencionaram, na entrevista inicial, de um a 
três sintomas que se mostraram relevantes para hiperglicemia. Os outros quatro não 
foram capazes de citar sequer um sintoma relevante para hiperglicemia, na entrevista 
inicial, embora tenha sido possível estabelecer sintomas relevantes para hiperglicemia 
para todos os sujeitos. 

A freqüência de sintomas relevantes para hipo e hiperglicemia variou muito de 
sujeito para sujeito. Um mesmo sujeito apresentou frequências diferentes de sintomas 
relevantes para as diferentes condições glicêmicas (por exemplo: S4 e S6), o que significa 
que relatar muitos sintomas ou poucos sintomas não é característica do sujeito (sujeito 
mais ou menos falante), nem da condição glicêmica. 

A precisão dos sintomas-crença foi avaliada de três formas: 1) porcentagem de 
coincidências (acertos) entre sintomas-crença e sintomas relevantes: 2) freqüência de 
alarmes falsos (antes do treino, o sujeito relata que o sintoma ó um preditor de hipo ou de 
hiperglicemia,.mas o sintoma não se relaciona, de fato, com essas condições glicêmicas), 
e 3) freqüência de omissões (o sintoma é um preditor de hipo ou de hiperglicemia, mas o 
sujeito não o menciona na entrevista inicial). 

A porcentagem de coincidências entre sintomas-crença e sintomas relevantes, 
apresentada na Tabela 3, foi calculada da seguinte forma: 


Sobro compoifiimonto c coftiiiçíio 251 

















acertos 


Porcentagem de coincidências:__ . xlOO 

acertos + alarmes falsos + omissões 


A porcentagem de coincidências variou entre os sujeitos com um valor máximo 
de 37,5%. Assim, a precisão dos sintomas-crença para hipo e para hiperglicemia, antes 
do treino discriminativo, foi muito baixa para ambos os estados glicêmicos. 


Tabela 3 

Porcentagem de coincidências entre sintomas-crença e sintomas relevantes para 
cada sujeito. 


Sujeitos 

SI 

S2 

S3 

S4 

S5 

S6 

S7 

S8 

Hipoglicemia 

10,0 

25,0 

14,3 

11,5 

13,3 

0,0 

22,2 

16,7 

Hiperglicemia 

18,7 

37,5 

0,0 

0,0 

— 

0,0 

11,1 

13,3 


A tabela 4 apresenta a freqüência de alarmes falsos comparada com a freqüência 
de sintomas relevantes e com a freqüência de sintomas-crença. 


Tabela 4 

Freqüência de alarmes falsos, de sintomas relevantes e sintomas-crença, para 
cada sujeito. 


Hipoglicemia Hiperglicemia 


Sujeitos 

Alarmes 

falsos 

Sintomas 

relevantes 

Sintomas- 

crença 

Alarmes 

falsos 

Sintomas 

relevantes 

Sintomas- 

crença 

SI 

2 

8 

3 

3 

13 

6 

S2 

1 

3 

2 

1 

7 

4 

S3 

5 

2 

6 

4 

10 

4 

S4 

5 

21 

8 

3 

4 

3 

S5 

0 

15 

2 

* 

3 

0 

S6 

5 

6 

5 

1 

2 

1 

S7 

5 

4 

7 

6 

3 

7 

S8 

3 

3 

4 

1 

14 

3 


*Este sujeito relatou não apresentar sintomas de hiperglicemia, na entrevista inicial. 


252 l iiiii ht«i Korn Mtilerbi 













































































Alarmes falsos ocorreram tanto para hipoglicemia quanto para hiperglicemia. Todos 
os sujeitos, exceto o sujeito S5, apresentaram pelo menos um alarme falso. A freqüência 
de alarmes falsos foi sempre igual ou menor que a freqüência de sintomas-crença para 
cada sujeito. 


Tabela 5 

Freqüência de omissões e porcentagem de omissões relativamente à freqüência 
total de sintomas relevantes. 


Hipoglicemia Hiperglicemia 


Sujeitos 

N 

% 

N 

% 

SI 

7 

87,5 

10 

76,9 

S2 

2 

66,7 

4 

57,1 

S3 

1 

50,0 

10 

100,0 

S4 

18 

81,8 

4 

100,0 

S5 

13 

86,7 

3 

100,0 

S6 

6 

100,0 

2 

100,0 

S7 

2 

50,0 

2 

66,7 

S8 

2 

66,7 

12 

85,7 


Houve uma grande porcentagem de omissões por parte de cada sujeito. Dessa 
forma, o treino de auto-observação mostrou-se necessário para capacitar os sujeitos na 
discriminação de seus sintomas relevantes. 

Os sujeitos desta pesquisa omitiram de um a 18 sintomas para hipoglicemia e de 
2 a 12 sintomas para hiperglicemia. Em relação à freqüência total de sintomas relevantes, 
pelo menos metade dos sintomas relevantes para cada estado glicêmico deixou de ser 
mencionada, na entrevista inicial, pelos sujeitos. 

Estes dados permitem-nos concluir que, baseando-nos na Teoria da Detecção de 
Sinal para avaliar a relevância dos sintomas, podemos identificar, para cada sujeito, um 
diferente conjunto de sintomas relevantes para hipoglicemia e para hiperglicemia. Estes 
resultados são muito semelhantes àqueles obtidos em outros estudos, utilizando diferentes 
metodologias (Pennebaker, Cox, Gonder-Frederick, Wunsch, Evans e Pohl, 1981; Cox, 
Gonder-Frederick, Pohl e Pennebaker, 1983; Freund e col., 1986; Gonder-Frederick, Cox, 
Dobbitt e Pennebaker, 1989). 

A precisão dos sintomas-crença variou muito entre os sujeitos. Cada sujeito, 
exceto um, apresentou pelo menos um alarme falso. Antes do treino de auto-observação, 
pelo menos metade dos sintomas relevantes foi omitida por cada sujeito. A ocorrência de 
alarmes falsos mais a grande froqüência de omissões, observados na entrevista inicial, 
indicam que os sujeitos não eram capazes de relatar muitos dos sintomas associados às 
suas flutuações glicêmicas antes do treino. 


Soba* comportamento c coriiíç.Io 253 









































A descrição de sintomas é um comportamento verbal (tato) em resposta a eventos 
internos. Como já mencionamos anteriormente, é difícil para a comunidade verbal ensinar 
autodescrições precisas para as pessoas, na medida em que essa comunidade não tem 
acesso direto aos eventos internos dos indivíduos para fornecer o treino necessário. Esta 
devo ser a razáo da elevada ocorrência de alarmes falsos e de omissõos. Entretanto, se 
os pacientes forem instruídos a) a observar e registrar seus sintomas de hipo e de 
hiperglicemia (eventos internos) o b) a apresentar auto-estimativas de glicomias (respostas 
verbais provavelmente sob o controle de eventos internos), e se c) essas respostas forem 
reforçadas diferencialmente pela precisão das auto-estimativas (coincidência entre 
estimativas e medidas de glicemias), então os pacientes podem aprender uma resposta 
verbal precisa para descrever seus estados glicêmicos (eventos internos). Os nossos 
dados referentes ao aumento da precisão das estimativas de glicemia apontam nessa 
direção. 


Bibliografia 


ASHTON, R.; WHITE, K.D. e HOGSON, G. (1979). Sonsivity to heart rate: A 
psychophysiological study. Psychophysiology, 16, 463-466. 

BARON, J. (1966). An EEG correlate of autonomic discrimination. Psychonomic Science, 
4, 255-256. 

CINCIRIPINI, P.M.; Epstein, L.H. e Martin, J.E. (1979). The effects of feedback on blood 
pressure discrimination. Journal of Applied Behavior Analysis, 12,345-353. 

COX, D.J.; CÁRTER, W.R.; GONDER-FREDERICK, L; CLARKE, W. e POHL, S. (1988). 
Blood glucose discrimination training in insulin-dependent diabetes mellitus (IDDM) 
patients. Biofeedback and Self-Regulation, 13(3), 201-217. 

COX, D J.; GONDER-FREDERICK, L; JULIAN, D.; CRYER, R; LEE, J.H.; RICHARDS, 
F.E. e CLARKE, W. (1990). Intensive Vs Standard blood glucose awareness 
training (BGAT) wiíh insulin-dependent diabetes; mechanisms and ancillary effects. 
Psychosomatic Medicine, 53,453-462. 

COX, D.J.; GONDER-FREDERICK, L; POHL, S. e PENNEBAKER, J.W. (1983). Reliabif- 
ity of symptom-blood glucose relationships among insulin-dependent adult diabeties. 
Psychosomatic Medicine, 45( 4), 357-360. 

EPSTEIN, L.H.; CINCIRIPINI, P.M.; MCCOY, J.F. e MARSHALL, W.R. (1977). Heart rate 
as a discriminative stimulus. Psychophysiology, 14, 143-149. 

EPSTEIN, L.H. e STEIN, D.B. (1974). Feedback-mfluenced heart rate discrimination. 
Journal of Abnormal Psychology, 83, 585-588. 

FREUND, A.; JOHNSON, S.B.; ROSEMBLOOM, A.; ALEXANDER, B. e HANSEN, C.A. 
(1986). Subjective symptoms, blood glucose estimation and blood glucose 
concentrations in adolescents with diabetes. Diabetes Care, 9(3), 236-243. 


254 fiini ll,i Kòrn M.ilcrbi 



GONDER-FREDERICK, L.A.; COX, D.J.; BOBBITT, S.A. e PENNEBAKER, J.W. (1989). 
Mood changes associated with blood glucose íluctuations in insulin-dependent 
diabetes mellitus. Health Psychology, 8(1), 45-49. 

GREENSTADT, L; SHAPIRO, D. e WHITEHEAD, R. (1986). Blood pressure discrimination. 
Psychophysiology, 23 (5), 500-509. 

GRIGGS, R.G. e STUNKARD, A. (1964). The interpretation of gastric motility II. Sensivity 
and bias in the perception of gastric motility. Archives of General Psychiatry, 11, 
82-89. 

GROSS, A.M.; MAGALNICK, L.J. e DELCHER, H.K. (1985). Blood glucose discrimination 
training and metabolic control in insulin-dependent diabetics. Dehaviour Research 
Therapy, 23(5), 507-511. 

GROSS, A M.; WOJNILOWER, DA; LEVIN, R.B.; DALE, J.; RICHARDSON, P. e 
DAVIDSON, P.C. (1983). Discrimination of blood glucose leveis in insulin-dependent 
diabetics. Behavior Modification, 7 (3), 369-382. 

KAKTIN, E.S.; BLASCOVICH, J. e GOLDBAND, S. (1981). Empirical assessment of 
visceral self-perception: individual differences in the acquisition of heart beat 
discrimination. Journal of Personality and Social Psychology, 40,1095-1101. 

LANSKY, D.; NATHAN, P. E. e LAWSON, D.M. (1978). Blood alcohol levei discrimination 
by alcoholics: the role of internai and externai cues. Journal of Consulting and 
Clinicai Psychology, 46, 953-960. 

LOVIBOND, S.H. e CADDY, G. (1970). Discriminated aversive control in the moderation of 
alcoholics' drinking behavior. Behavior Therapy, 1,437-444. 

I UBORSKY, L; BRADY, J.P.; MCCLINTOCK, M; KRON, R.E.; BORTINCHACH, E. e 
LEVITZ, L. (1976). Estimating one's own systolic blood pressure: effects of feedback 
training. Psychosomatic Medicine, 28, 426-438. 

MALERBI, F.E.K. (1995a). Discriminação por Pacientes Diabéticos de Estados Glicômicos. 
Palestra proferida no IV Encontro Brasileiro de Psicoterapia e Medicina 
Comportamental que ocorreu em Campinas. 

(1995b). Discriminação de estados glicêmicos por pacientes diabéticos: efeitos 
da aquisição de um repertório descritivo de eventos internos e externos. Tese do 
Doutorado defendida no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. 

MARTIN,J.E. e FREDERIKSEN, L.W. (1980). Self-tracking of carbon monoxide leveis by 
smokors. Behavior Therapy, 11,577-587. 

NURICK, M.A. o JOHNSON, S.B. (1991). Enhancing blood glucose awareness in adoles- 
centsand young adults with IDDM. Diabetes Care, 14(1), 1-7. 

PENNEBAKER, J.W.; COX, D.J.; GONDER-FREDERICK, L; WUNSCH, M.G.; EVANS, 
W.S. e POHL, S. (1981). Physical symptoms related to blood glucose in 
insulin-dependent diabetics. Psychosomatic Medicine, 43(6), 489-500. 


Sobro comporl.tmculo i* coriííç.Io 255 



SHAPIRO, A.P.; REDMON, D.P.; MCDONALD, R.H.Jr. e GAYLOR, M. (1975). Relationshíps 
of perception, cognition, suggestion and operant conditioning in essential hypertension. 
Progress in Brain Research , 42,299-312. 

SILVERSTEIN, S.J.; Nathan, P.E. e Taylor, H.A. (1974). Blood alcohol levei estimation and 
controlled drinking by chronic alcoholics. Behavior Therapy , 5,1-15. 

SKINNER, B.F. (1945). The Operational Analysis of Psychological Terms. Psychological 
Review, 52,270-277. 

(1953). Science and Hurnan Behavior. New York: Mac Millan, 

STERN, R.M. (1972). Detection of one’s own spontaneous GSRs. Psychonomic Science, 
29, 354-456. 

STUNKARD, A. e KOCH, C. (1964). The interpretation of gastric motility I: Apparent bias in 
fhe reports of hunger by obese persons. Archives of General Psychialty, 1 1, 74-82. 

WING, R.R.; Epstein, L.H.; LAMPARSKI, D.; HAGG, S.A.; NOWALK, M.P. e SCOTT, 
N. (1984). Accuracy in estimafing fasting blood glucose leveis by patients wifh 
diabetes. Diabetes Care, 7(5), 476-478. 


25ó I .mi I l.i Kori) M.ilcrbi 



Capítulo 26 


Há um lugar para o ambiente ? 1 

Nil/ii Michclcllo y 


A análise que apresento sobre a questão “O sujeito faz parte de seu próprio 
ambiente?", que orienta este debate, está centrada em propostas de Skinner sobre este 
tema. 


Uma dificuldade que se enfrenta ao rever a obra de Skinner ó delimitar a definição 
de ambiente e a relação que o ambiente estabelece com o organismo. Durante sua obra, 
Skinner apresentou diferentes definições e relações, na medida em que ampliou a noção 
de comportamento de forma a abarcar dimensões cada vez mais amplas e complexas da 
ação humana e em que alterou o modelo metodológico adotado. 


1 Trabalho apresentado na Mesa Redonda intitulada Eventos Privados: O sujeito faz parte de seu próprio 
ambiento? no V Encontro Brasileiro do Psicotorapia o Medicina Comportamental, realizado ern Águas do 
Lindóia, om sotombro de 1996. 

3 Professora do Dopartamonto do Mótodos o Técnicas da Faculdade do Psicologia da Pontifícia Universidade 
Católica do Sflo Paulo. 

Endoroço para correspondência: Rua Pelotas, 541- apto 101. Sâo Paulo, SP • CEP 04012-002. 

E-rnall: nrnichelettoOu-notsys.com.br. 


Sobre comport.imento e cofliiiç.lo 257 



A dificuldade apresenta-se já em seus primeiros textos. Referindo-se aos 
determinantes do reflexo, Skinner, em 1930, afirma: 

"O comportamento de um organismo intacto difere da atividade reflexa de uma 
'preparação'principalmente no número de suas variáveis independentes. Um reflexo 
incondicionado requer, por exemplo, não só um estímulo de intensidade adequada, 
mas uma condição facilitadora dentro do organismo. Similarmente, um reflexo 
condicionado depende da condição facilitadora peculiar ao seu reflexo incondicionado 
subjacente."(1930c, p. 433) 

É exatamente às variáveis independentes identificadas como "condições 
facilitadoras dentro do organismo" que Skinner atribui a variabilidade do comportamento. 
Sobre isto ele afirma : 

"... sob a suposição de que a condição facilitadora dentro do organismo ô 
responsável pela variabilidade, as leis da variabilidade são ... as leis da condição 
facilitadora. "(1930, p. 434) 

Se definirmos ambiente como variáveis independentes relacionadas ao 
comportamento, em 1930, o sujeito, entendido aqui como organismo, faz parte do seu 
ambiente. 

Em 1931, a resposta não parece ser tão clara. Sem se referir ao termo ambiente, 
Skinner define reflexo como correlação observada estímulo e resposta. Esta definição 
permite buscar fora do organismo eventos correlacionados com a resposta; como ele 
afirma, permite lidar com os "extremos da cadeia causal". A relação funcional como modelo 
de determinação dispensa o caminho até então percorrido pelos estudos do reflexo, 
originados na Fisiologia, que fundavam a explicação em estruturas internas ao organismo, 
localizadas no sistema nervoso, que propagavam mecanicamente os efeitos do estímulo. 

Entretanto, tal definição não dá conta da variabilidade do comportamento, de 
fundamental importância para ele. A compreensão da variabilidade depende de terceiras 
variáveis - drive, condicionamento e emoção -, tratadas como condições do experimento. 
Cabe lembrar que em 1930 o drive foi considerado variável dentro do organismo. Sem se 
referir à localização destas variáveis, Skinner agora adota critérios do operacionismo que 
lhe permitem investigá-las através da manipulação de condições que estão fora do 
organismo, através de operações propostas pelo investigador, sem que seja necessário 
discutir a natureza destes processos investigados, ou seja, com os critérios operacionais, 
a questão aqui proposta não tem significado. 


Em “A natureza genérica do estímulo e da resposta" (1935a), Skinner se refere 
explicitamente a ambiente. O estímulo, aqui tratado como a variável independente 
correlacionada com a resposta, é identificado como "parte do ambiente” e o ambiento ó 
descrito como “fragmentado" por linhas de fraturas naturais que o analista do comportamento 
deve considerar ao delimitar que estímulos investigar (p. 458). O ambiente age sobre o 
comportamento como uma força que elicia a ocorrência da resposta. E as variáveis 
responsáveis pela variabilidade desta relação - drive, condicionamento e emoção - agora 
são evocadas para que a delimitação das partes do ambiente consideradas na correlação 
não seja arbitrária. 


258 Nil/it MrcfiWdfo 



Novas formas de ação do ambiente sobre o comportamento sâo identificadas 
quando Skinner começa a diferenciar, em 1935, dois tipos de reflexos. Num deles, o 
estímulo se relaciona com a resposta, desencadeando-a através de uma força à qual se 
refere como"... pontos de provocação que não se encontram dentro do organismo" (1935b, 
p. 537). O outro tipo de reflexo fortalece uma resposta, e não a elicia. Este é descrito 
como o"... tipo que não exige um ponto externo de sua referência em sua provocação ou 
descrição." (p. 537). E o processo de condicionamento relativo a este último tipo"... ó, na 
realidade, o tornar ligados um grupo de reflexos que variam como uma função de um 
mesmo drive." (p. 482). Referências à localização do estímulo eliciador - "dentro do 
organismo" ou em “um ponto externo" a ele - acompanham as definições. 

A definição dos dois tipos de reflexo se completa em 1937. Skinner neste momento 
descobre uma nova relação entre organismo e ambiente. No reflexo operante, o estímulo 
que antecede à resposta não é mais eliciador. Estímulos que antecedem a respostas, 
inicialmente neutros, podem alterar sua relação funcional com o comportamento permitindo 
que o organismo discrimine condições ambientais de reforçamento. Os estímulos 
reforçadores conseqüenciando a resposta alteram sua probabilidade de ocorrência futura. 
Por outro lado, é a resposta que "produz" o estímulo reforçador, ou seja, é a resposta que 
produz o ambiente que a determina. 

Duas complicações apresentam-se, com a proposta do operante, para análise da 
questão aqui proposta. 

A primeira delas se coloca a partir da afirmação de que a resposta operante 
produz o estímulo reforçador. Skinner indica que as condições ambientais que determinam 
o comportamento são produzidas pela ação do sujeito e que as alterações na força do 
operante são produto das contingências ambientais. É possível excluir da definição de 
ambiente a participação do sujeito, ou seja, num ambiente produzido pelo sujeito pode-se 
dizer que o sujeito dele faz parte? A mesma questão pode ser proposta para a definição de 
sujeito. 

A outra complicação decorre do fato de que as funções discriminativas e 
reforçadoras dos estímulos ambientais dependem de relações prévias que o organismo 
estabeleceu com o ambiente, que interferem nas relações atuais, ou seja, só se compreende 
um operante pela análise das transformações destas relações - alterações na freqüência 
da resposta do organismo e alterações nas funções dos estímulos. Sendo assim, a 
compreensão do operante não depende apenas da relação do comportamento com o 
ambiente imediato, depende de relações prévias que se estabeleceram entre organismo e 
ambiente. Os estímulos ambientais que alteraram a probabilidade de resposta e a função 
do estímulo ocorreram no passado. Como considerar a ação destes estímulos, que interfere 
na probabilidade de ocorrência atual da resposta, senão através do próprio sujeito? 

Skinner, em 1938, aborda a interferência destas relações passadas entre ambiente 
o comportamento através do conceito de reserva, segundo o qual as respostas são 
armazenadas dentro do organismo e podem ser exauridas pela extinção, ou seja, elas 
determinam os efeitos das operações sobre o organismo. Segundo Skinner, a reserva 

"... ó um modo conveniente de representara relação particular que se obtém entre 
a atividade de um reflexo e sua subseqüente força. Mas eu mostrarei mais tarde 
que a reserva é claramente exibida em todas as suas propriedades relevantes 


Sobre comportamento e cognição 259 



durante o processo que a exaure e que uma força momentânea é proporcional à 
reserva e portanto uma medida direta disponível, A reserva está conseqüentemente 
muito perto de ser tratada experimentalmente." (1938, p. 26) 

Ern outra passagem, Skinner afirma: 

"... há uma relação entre o número de respostas aparecendo durante a extinção 
de um operante e o número de reforçamentos precedentes (isto ó, o número de 
respostas que pode ser obtido do organismo é estritamente limitado pelo número 
que foi posto nele )..." (1938, p. 28) 

O objetivo de Skinner de produzir conhecimento a partir de dados observados tem 
no operacionismo sua possibilidade de concretização. Constantemente destacando o drive, 
o condicionamento e a emoção como variáveis - ora independente, ora controlada - tratadas 
como condição do experimento, ou inferindo reserva a partir da taxa de ocorrência da 
resposta, Skinner consegue chegar em 1938, sem propor análises das condições internas 
do organismo. 

Skinner não encontrou, entretanto, no operacionismo acomodações (soluções) 
muito confortáveis, pois diferente do mundo físico o organismo vivo ó capaz de 
comportamento operante. O conceito de reserva será logo abandonado e criticado 
futuramente por Skinner por seu suposto mecanicista. 

Identifica-se em 1945 uma alteração nas análises de Skinner, que pode ser 
associada à recusa dos critérios operacionalistas e ao fato de estar discutindo 
especificamente o comportamento humano. Em 1945, o que era evitado até 1938 se torna 
objeto de análise. Estímulos privados existem, estão relacionados à ocorrência do 
comportamento. Como Skinner afirma: 

"... cada falante possui um pequeno porém importante mundo privado de 
estímulos... tanto quanto possamos conhecer suas reações a estes são similares 
às suas reações aos eventos exteriores ." (p. 272) 

"Precisamos conhecer as características das respostas verbais a estímulos 
privados ..." (p. 272) 

"... não se trata evidentemente de questionar se são possíveis as respostas a 
estímulos privados. Elas ocorrem com bastante frequência e precisam ser 
explicadas." (p. 273) 

A noção de ambiente sofre uma ampliação. Com a discussão da privacidade, o 
ambiente passa a envolver estímulos privados do sujeito e consequências "fornecidas por 
outros organismos e não por uma ação mecânica exercida pelo ambiente.” (p. 277) Skinner 
chamará este ambiente, em 1947, de ambiente social. Deve-se considerar também que 
neste ambiente verbal os estímulos presentes agem sobre os sujeitos envolvidos (falante 
e ouvinte) de forma relacionada, porém não semeíhante. 

Skinner propõe uma discussão não sobre a existência de tais eventos, mas sobre 
as dificuldades de conhecê-los não apenas por uma ciência do comportamento, mas, e 
talvez principalmente, pela comunidade verbal que os produz. Como afirma Skinner: 


2Ó0 Nil/.i Michelotlo 



"... o ser consciente, como forma de reagir ao próprio comportamento, è um 
produto social... é apenas porque o comportamento do indivíduo é importante para 
a sociedade que a sociedade por sua vez torna este comportamento importante 
para o indivíduo. O indivíduo torna-se ciente do que está fazendo apenas após a 
sociedade ter reforçado respostas verbais com respeito ao seu comportamento 
como fonte de estímulo discriminativo. O comportamento a ser descrito (o 
comportamento do qual se deve tomar ciência) pode posteriormente retroceder até 
o nível encoberto, e (para adicionar uma dificuldade culminante) o mesmo pode 
ocorrer com a resposta verbal." (1945, p. 277) 

Se estímulos discriminativos encobertos e respostas encobertas que foram 
produzidas pelo ambiente social estabelecem relações funcionais com o comportamento, 
se um mundo privado de estímulos pode ser relacionado à ocorrência da resposta, deve- 
se concluir que variáveis responsáveis pela sua determinação fazem parte do sujeito. E 
volta a questão, tais variáveis podem ser chamadas de ambiente? Talvez a referência de 
Skinner a um ambiente interno nos autorize a chamar tais variáveis de ambiente e a 
considerá-las como parte do próprio sujeito. 

“O processo de condicionamento tem valor de sobrevivência. Uma vez que o 
ambiente muda de geração em geração, particularmente o externo mais que o 
ambiente interno, respostas reflexas apropriadas não podem sempre se desenvolver 
como mecanismos herdados ." (1953, p. 55) 

Skinner aqui se refere a ambiente interno e externo considerando suas dimensões 
filogenéticas e ontogenéticas. Esta análise de processos comportamentais será explicada 
em 1961 por uma nova noção de causalidade que ele chamará de seleção por 
conseqüências. Novos aspectos deverão então ser considerados na noção de ambiente. 

Esta noção de causalidade, específica dos organismos vivos, explica o 
comportamento a partir de três níveis de determinações - filogenético, ontogenético e 
cultural. A determinação ambiental age, selecionando, em dimensões temporais muito 
diferentes: além do ambiente delimitado pelo espaço de uma vida individual, ela envolve os 
ambientes em que a espécie foi selecionada e os ambientes sociais - as culturas. Estes 
ambientes se transformam constantemente. Não temos mais os ambientes que 
selecionaram nossa espécie. Como afirma Skinner: 

“Se há um ambiente filogenético natural, deve ser aquele no qual a espécie se 
desenvolveu. Mas as contingências filogenéticas responsáveis pelo comportamento 
corrente repousam num passado distante." (1981, p. 315) 

A partir da seleção por conseqüências, Skinner consegue explicar o caráter histórico 
do controle ambiental, sem recorrer a supostos hidráulicos que o conceito de reserva 
trazia. 


“O comportamento não é controlado pelo cenário atual, como parece ser na 
psicologia estímulo-resposta; ele não é limitado pelo estímulo. Entretanto, é a história 
ambiental que mantém o controle: a dotação genética da espécie mais as 
contingências a que o indivíduo foi exposto ainda determinam o que ele irá perceber." 
(1974, p. 82) 


Sobre comport.imcnlo c coflniçilo 261 



O controle desta história ambiental se faz presente no sujeito transformado. 


“Em lugar de dizer que o organismo armazena cópias das contingências às 
quais foi exposto e mais tarde as recupera e responde a elas novamente, ela [a 
análise comportamental] diz que o organismo é mudado pelas contingências e 
mais tarde responde como organismo mudado. As contingências passam para a 
história. "(1987a, p. 64) 

O organismo apresenta determinadas susceptibilidades do reforçamento, 
resultantes da história ambiental filogenética, que interferem no comportamento atual. 
Sobre isto Skinner afirma: 

"No condicionamento operante, o comportamento è reforçado, no sentido de 
fortalecer e fazer mais provável ocorrer, por certas espécies de consequências, 
que primeiro adquiriram o poder de reforçar através da seleção natural." (1990, p. 
1206) 

Não ó apenas como organismo, com sua capacidade filogenética de se comportar 
e com sua susceptibilidade a reforçamento, que o sujeito participa das condições que 
determinam seu próprio comportamento. O sujeito participa também como pessoa e como 
eu. Ao se referir ao que ó tradicionalmente chamado de pensamento, Skinner, analisando 
o falante como seu próprio ouvinte, afirma que: 

“Ele reage ao seu próprio comportamento de várias maneiras importantes. 
Parte do que ele disse está sob o controle de outras partes de seu comportamento 
verbal. ... 

O falante manipula seu próprio comportamento; ele o revê e pode rejeitá-lo ou 
emiti-lo de forma modificada. ” (1957, p. 26) 

A pessoa pode, de forma encoberta, estabelecer estímulos discriminativos para 
os próprios comportamentos, pode avaliá-los, pode também conseqüenciá-los. 

“Outra conseqüência importante < do comportamento verbal > é que o falante 
se torna também ouvinte e pode reforçar amplamente seu próprio comportamento." 
(1974, p. 100) 

A pessoa pode emitir comportamentos de forma subaudível ou mesmo não emiti- 
los em função de uma história anterior de punição. Ela pode agir em função de regras 
autoconstruídas, “ que descrevem ou implicam contingências de reforçamento" (1985, p. 
103); ela pode, desta forma, descrever condições que controlam seu comportamento e 
agir, como normalmente se diz, de forma racional e consciente, mas pode também se 
alienar. Como afirma Skinner, 

“Nós fazemos nossas próprias regras e as seguimos. Elas representam ganhos 
extraordinários, entretanto elas nos alienam do contato imediato com importantes 
reforçadores genéticos ou de reformadores condicionados baseados neles." (1985a, 

P- 38) 


2Ó2 Nil/<t Micliflctto 



No que se refere a práticas sociais, encontramos também análises nas quais 
Skinner identifica determinações relacionadas a dimensões privadas do sujeito. Ao analisar 
as sociedade ocidentais, Skinner descreve práticas sociais determinadas pelo efeito 
imediato do condicionamento operante que ele descreve como o sentimento de prazer. 

"Muitas práticas de culturas avançadas parecem aumentar a treqüôncia de 
reforçamento imediato. O Ocidente ô especialmente rico nas coisas que chamamos 
interessantes, belas, deliciosas, divertidas, excitantes. Estas coisas tornam a vida 
cotidiana mais reforçadora, mas elas reforçam pouco mais do que o comportamento 
de colocar alguém em contato com elas"... (1986, pp. 23-24) 

"Eu estou argumentando que as práticas sociais evoluíram primeiramente por 
causa do efeito prazeroso do reforçamento operante e aquela parte do efeito 
fortalecedor das conseqüências foi perdida. A evolução das práticas culturais foi 
malograda." (1986, p. 17-18) 

A partir destas passagens, parece possível afirmar que o "ambiente interno" participa 
da determinação do comportamento. Então, por que encontramos também passagens na 
obra de Skinner, principalmente quando ele está se opondo aos mentalistas e cognitivistas, 
em que ele afirma que o ambiente está fora do organismo? 

"Na análise operante e no Behaviorismo Radical que se constrói sobre ela, o 
ambiente permanece onde está e onde sempre esteve - fora do organismo." (1974, 

P- 81) 

Afinal, há uma local para o ambiente? 

Uma primeira resposta talvez seja que tanto o ambiente interno como o externo 
participam da determinação do comportamento. Não podemos negligenciar os eventos 
privados uma vez que eles não são apenas parte da ação humana que precisa ser 
compreendida, eles também fazem parte mundo que nos controla. 

"... o Behaviorismo Radical aceita o argumento de que partes de nosso corpo 
entram no controle sensível do que nós fazemos, não só no comportamento do tipo 
patinação artística mas no auto-observação e autocontrole que são modelados e 
mantidos peia comunidade verbal." (1985, p. 105) 

Por outro lado, não podemos limitar a explicação do comportamento aos eventos 
privados. Eles precisam ser explicados, a partir das mesmas determinações que explicam 
os eventos públicos, a partir do ambiente externo presente e pela história ambiental que 
seleciona o sujeito como organismo, pessoa e eu. O sujeito como parte de seu ambiente 
não origina a ação, não armazena contingências de maneira a poder recordá-las no momento 
da ação, não transporta o mundo exterior para dentro de si enquanto imagens ou 
representações. 

A determinação do sujeito enquanto ambiente sobre seu próprio comportamento 
não depende do que ele é capaz de perceber enquanto sentimentos, estados físicos ou 
estados da mente. Se ater ao que pode ser imediatamente observado em si mesmo, quer 
como estados físicos ou como estados mentais, pode levar a falsas noções, uma vez que 


Sobrv comport.imenlo e co#niÇ<io 263 



não podemos ver o processo de condicionamento que determina nosso comportamento 
atual, os determinantes da força atual de nosso comportamento são as conseqüências 
passadas. 

"Muitos eventos relevantes em nossa história passada sucederam sem serem 
notados. Para um acontecimento, o comportamento para o qual elos eventualmente 
se provarão relevantes ainda não ocorreu e não podem contribuir para contingências 
que nos conduziriam a notá-los. E se nós o notamos, nós podemos rapidamente 
esquecer. Mas os sentimentos, 'idéias', ‘intenções sentidas' etc. parecem 
relacionadas e eles ocorrem exatamonte no exato lugar que seria ocupado pela 
causa."(1972, p.51) 

Explicações através de agentes internos podem nos fazer negligenciar ações 
sobre o mundo exterior, sobre o ambiente físico e social, necessárias para transformar as 
contingências presentes em nossa sociedade que colocam em perigo a sobrevivência, e 
necessárias também para gerar novos sentimentos. 

Explicações limitadas a agentes internos são, no mínimo, fragmontadas o parciais. 
Como afirma Skinner (1987b, p. 63) 

“A preocupação tradicional com agentes explicativos internos quebra o 
comportamento em fragmentos. Psicofísicos, por exemplo, estudam os efeitos 
dos estímulos, mas só até o ponto em que eles são supostamente experienciados 
por um agente interno. 

Psicolingüistas registram mudanças no número de palavras ou no comprimento 
das sentenças que uma criança fala num período de tempo, mas usualmente sem 
nenhum registro do que aconteceu quando a criança ouviu palavras ou sentenças 
ou que conseqüências se seguiram quando ela estava falando. Psicólogos estudam 
a aprendizagem verbal pedindo a seus sujeitos para memorizar e ou recordar sílabas 
sem sentido, mas a palavra sem sentido deixa claro que eles não estão interessados 
em todas as variáveis que controlam o comportamento. De algum modo, processos 
ou entidades internas atuam como lugares iniciadores ou finalizadores. Um pedaço 
de sensação é estudado por um psicólogo, um pedaço de comportamento por 
outro e um pedaço de mudança por outro ainda. A análise do comportamento junta 
os pedaços novamente ao estudar episódios relativamente completos, cada qual 
com um história de reforçamento, um contexto atual, uma resposta e uma 
conseqüência reforçadora."(1987b, p. 63) 

A primeira resposta proposta à questão aqui levantada indica que o ambiente 
interno como parte do sujeito e o ambiente externo fazem parte da determinação do 
comportamento. Mas talvez uma resposta mais precisa envolva considerar os novos 
parâmetros trazidos pela noção de seleção por conseqüências como modelo causal. Este 
modelo descreve uma relação constante entre organismo e ambiente em várias dimensões 
sem recorrer a um momento, um local ou uma força iniciadora. Sujeito e ambiente 
transformam-se, por ações recíprocas, em dimensões temporais amplas e variadas que 
se conjugam a cada momento e de forma constantemente renovada na determinação do 
comportamento. Esta visão parece não envolver uma dicotomia sujeito-ambiente. Suponho 
que a interrogação sobre se o sujeito faz parte de seu ambiente talvez seja um resquício 


2Ó4 Nil/.i Micljrldto 



de mecanicismo, no qual o behaviorismo se originou. O mecanicismo dedica-se à explica¬ 
ção do movimento de um corpo que exige uma força iniciadora provocada por outro corpo 
exterior a ele, seu objeto não tem história e a variação e a transformação são anomalias. 

Skinner aponta as transformações ocorridas na história do behaviorismo quando 
analisa a consciência: 

"Trata-se de uma reviravolta irônica, considerando a história da revolução 
behaviorista, que à medida que desenvolvemos um vocabulário mais efetivo para a 
análise do comportamento, também ampliamos as possibilidades de tomar 
consciência, assim definida. Psicologia do outro ô, afinaI de contas, uma abordagem 
direta do conhecer-se a si mesmo." (1945, p. 277) 

Talvez outra decorrência irônica da explicação da privacidade, considerando a 
história da revolução behaviorista, seja que a proposta behaviorista radical tenha gerado 
uma explicação que rompa a separação entre privacidade e alteridade, sujeito e ambiente. 
Uma explicação que coloca questões sobre como abordar no comportamento as dimensões 
históricas que o constituem. Como Skinner indica: 

"... a análise do comportamento ... é necessariamente ‘histórica’- quer dizer, 
está limitada a relações funcionais que revelam falhas temporais. Faz-se uma coisa 
hoje que afeta o comportamento de um organismo amanhã." (1974, p. 236) 


Bibliografia 


SKINNER, B.F. (1930) Onthecondítionsof elicitationof certain eatíng reflexes. Proceedings 
of National Academy of Sciences, 16:433-438. 

(1931) The concept of reflex in the description of behavior. In: Cumulative Record. 
New York: Appleton-Century-Crofts Inc., 1972, pp. 429-457. 

_(1935a) The generic nature of the concepts of stimulus and response. In: Cumulative 

Record. New York: Appleton-Century-Crofts Inc., 1972, pp. 458-478. 

(1935b) Two Types of conditioned reflex and pseudo type. In: Cumulative Record. 
New York: Appleton-Century-Crofts Inc., 1972, pp. 479-488. 

_(1937) Two types of conditioned reflex: a reply to Konorski and Miller. In: Cumulative 

Record. New York: Appleton-Century- Crofts Inc., 1972, pp. 489-497. 

(1938) Behavior of Organism. New York: Appleton-Century-Crofts, 1966. 

_(1945) The operational analysis of psychological terms. The PsychologicalReview, 

52 (5): 271-277; 291-294. 

__(1947) Current trends in experimental psychology. In: Cumulative Record. New 

York: Appleton-Century-Crofts Inc.,1972, pp. 295-313. 

(1953) Science and Human Behavior. New York: The Free Press, 1965. 


Sobre compoil.imcDto e coflnlç.lo 265 



(1957) Verbal Behavior. New Jersey: Prentice*Hall, Inc.. 

(1961) A lecture on "having" a poem. In: Cumulativo Record. New York: Appleton- 
Century-Crofts Inc., 1972, pp. 345-358. 

(1962) Behaviorism at fifty. In: Contingencies of Reinforcement: A theoretical 
analysis. New York: Appleton-Century* Crofts, 1969, p. 221-268. 

(1972) Humanism and Behaviorism. In: Reflections on Behaviorism andsociety. 
New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1978, pp. 48*55. 

(1974) About Behaviorism. New York: Alfred A. Knopí, 1974. 

(1981) Selection by consequences. In: Upon Further Reflection. New Jersey: 
Prentice-Hall, Inc., 1987, pp. 51-63. 

(1985a) News from nowhere, 1984. In: Upon Further Reflection. New 
Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1987, pp. 33-50. 

(1985b) Cognitive Science and behaviorism. In: Upon Further Reflection. New 
Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1987, pp. 93-111. 

(1986) What is wrong with daily life in the Western word? In: Upon Further 
Reflection. New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1987, pp. 15-31. 

(1987a) The place of feeling in the analysis of behavior. In: Recent Issues in the 
Analysis of Behavior. Ohio: Merril Publishing Company, 1989, pp.3-12. 

_"(1987b) Whatever happened to psychology as the Science of behavior? In: Recent 
Issues in the Analysis of Behavior. Ohio: Merril Publishing Company, 1989, pp. 59-72. 

(1990) Can psychology be a Science of mind? American Psychologist, 45(11): 
1206-1210. 


2óó Nil/.i Michclelto 



Capítulo 27 


O conceito de comportamento encoberto 
no Behaviorismo Radical de B. F. Skinner 

tninumucl Z<i$ury Tourinho* 


O 


conceito de comportamento encoberto é introduzido por Skinner, em sua 
discussão da privacidade, para dar conta de um conjunto de problemas tradicionalmente 
abordados pela psicologia a partir de referenciais mentalistas ou cognitivistas. Aí estão 
incluídos o pensar, o atentar, o ver, e outros tantos fenômenos admitidos como formas de 
ação do organismo, mas raramente interpretados com os conceitos de uma ciência do 
comportamento. Ao rejeitar a dicotomia físico-mental e o critério de verificação pública 
(Skinner, 1945), Skinner propõe-se a interpretar esses fenômenos enquanto 
comportamentos, com uma única especificidade: seu caráter privado ou encoberto. Dizer 
que aquelas ações do organismo podem ser interpretadas enquanto comportamentos 
implica afirmar que se trata do eventos (a) dotados de dimensões físicas e (b) funcionalmente 
relacionados a contingências de reforçamento presentes no ambiente (físico e social) com 


1 Trabalho aprosontado no IV Encontro Brasiloiro do Psicoterapia o Medicina Cornportnmontal, Campinas, 
1995. 

1 Dopartamento do Psicologia Social e Escolar da Universidade Federal do Pará. Endereço para 
correspondência: Trav. Mauriti, 3275, ap 1501. Marco. 66.095-360, Bolóm, Pará. 


Sobre comportamento c cognição 2Ó7 




o qual o organismo interage. Nesse sentido, o pensar é um fenômeno comportamental 
tanto quanto (e sujeito às mesmas leis que) o andar, por exemplo. Desse modo, não há 
necessidade, para Skinner, de uma definição especial para o conceito de comportamento 
encoberto, exceto que se trata de "comportamento executado em escala tão pequena que 
não ó visível aos outros". (Skinner, 1974, p.27) 

Apesar da aparente simplicidade da definição de comportamento encoberto, ela 
suscita um conjunto de questões que exigem esclarecimento. Procurarei, a seguir, abordar 
algumas destas questões, examinando como Skinner lida com elas. 

a) A aquisição do comportamento encoberto. 

Nas ocasiões em que Skinner trata da aquisição de repertórios encobertos, ele 
geralmente se refero a respostas adquiridas inicialmente de lorma pública ou aberta, e que 
posteriormente retrocedem "ao nível do comportamento encoberto ou moramente incipiente" 
(1945, p.273). Um exemplo claro disso ó o comportamento verbal encoberto, ao qual 
Skinner (1968) se refere afirmando que: 

‘‘Embora eventualmente uma criança falo para si mesma silenciosamente, nós 
a ensinamos a falar reforçando diferencialmente seu comportamento audível. Embora 
mais tarde ela leia livros e recite passagens para si mesma, nós a ensinamos na 
medida em que ela lê e recita em voz alta. O comportamento encoberto requer 
menos do ambiente atual e é fácil, rápido e secreto, mas até onde sabemos não há 
nenhum tipo de pensar que tenha que ser encoberto." (p. 125) 

O pensar ó outro exemplo clássico de comportamento encoberto, mas ele não se 
confunde, para Skinner, com o comportamento verbal encoberto. O pensar, para Skinner, 
pode ser um conjunto de comportamentos preliminares (que podem ser públicos ou privados) 
emitidos em situações de resolução de problemas, nas quais não há possibilidade 
momentânea de emissão de uma resposta capaz de produzir o reforçamento. Tais respostas 
preliminares (ou precorrentes), quando funcionais, produzem mudanças (no ambiente ou 
no próprio indivíduo) que tornam possível a emissão da resposta solucionadora (que produz 
o reforçamento). Também o pensar é adquirido inicialmente de forma aberta. Por exemplo, 
quando aprendemos a ensaiar um movimento no jogo de damas, aprendemos a fazer isso 
de forma aberta e apenas sob outras contingências passamos a emitir a resposta de 
forma encoberta. Skinner, porém, não afasta a possibilidade de que uma estratégia de 
resolução de problema seja "aprendida em nível encoberto, com conseqüências privadas" 
(Skinner, 1974, p.112). Mas isso seria uma exceção e precisaria ser melhor explicada. 

b) A manutenção de um comportamento ao nível encoberto. 

' Quando uma resposta ó aprendida de forma aberta, ela está sob o controle de 
conseqüências do ambiente do indivíduo. Quando ela passa ao nível encoberto, pode-se 
falar de duas possíveis fontes de controle. Primeiro, pode ser que a resposta fique sob 
controle de conseqüências privadas, É o que ocorre, por exemplo, no comportamento 
verbal encoberto. Sobre essa possibilidade, Skinner (1953/1965) diz o seguinte: 

"O comportamento verbal... pode ocorrer ao nível encoberto porque ele não 
requer a presença de um ambiente físico particular para a sua execução. Além 


2 68 írmmtiiiurí Z.ijjury Tourínfio 



disso, ele pode permanecer efetivo em nível encoberto porque o próprio falante è 
também um ouvinte e seu comportamento verbal pode ter consequências privadas. 

A forma encoberta continua a ser reforçada, embora ela tenha sido reduzida em 
magnitude ao ponto em que não tem qualquer efeito apreciável no ambiente", (p.264) 

Na segunda alternativa, a resposta é parte de uma cadeia comportamental e fica 
sob controle das conseqüências ambientais que se seguem á segunda resposta, o chamado 
"comportamento consumatório". Isso ó o que ocorre com o pensar quando ele é um 
comportamento preliminar. Quanto a esta possibilidade, Skinner (1968) diz o seguinte: 

"Uma vez que o comportamento precorrente opera principalmente para tornar o 
comportamento subseqüente mais efetivo, ele não precisa ter manifestações 
públicas. Qualquer comportamento pode retroceder ao nive! privado ou encoberto 
desde que as contingências de reforçamento sejam mantidas, e elas são assim 
mantidas quando o reforçamento é automático ou derivado da efetividade do 
comportamento aberto subseqüente. Como resultado, muito do comportamento 
precorrente envolvido no pensar não è óbvio", (p. 124) 

Quer dizer, como um comportamento encoberto não afeta o ambiente físico e 
social com o qual o indivíduo está interagindo, ele não pode produzir mudanças reforçadoras 
nesse ambiente. Nesse caso, ou ele é reforçado por uma conseqüência igualmente interna, 
ou ele é reforçado por uma conseqüência que se segue a um outro comportamento que e 
público e subseqüente ao comportamento encoberto, 

c) Vantagens e desvantagens do comportamento encoberto. 

Há circunstâncias em que o comportamento encoberto é claramente mais vantajoso 
para o indivíduo do que a forma aberta. Algumas vantagens citadas por Skinner (1974) são 
as seguintes: a)"... nós podemos agir sem nos comprometermos" (p.103), isto é, podemos 
emitir uma resposta sem sofrer possíveis conseqüências negativas que resultariam de 
sua emissão pública; e b) "nós podemos cancelar o comportamento e tentar novamente 
se as conseqüências privadas não forem reforçadoras" (p.103), por exemplo, quando 
ensaiamos uma jogada num jogo de xadrez. 

Há situações, porém, em que a forma encoberta de uma resposta é menos vantajosa 
do que a forma pública e, nesses casos, o comportamento tende a voltar ao nível aberto. 
Diz Skinner (1968) que "um pensador retorna ao nível aberto, por exemplo, quando a auto- 
estimulação encoberta é inadequada; ele pode começar um cálculo matemático 
privadamente, mas começar a falar alto ou escrever notas quando o trabalho se torna difícil 
ou surgem distrações", (p. 125) 

Resumindo, o que define a forma aberta ou encoberta de cortas respostas são as 
contingências em vigor, a possibilidade de produzir conseqüências reforçadoras em uma 
dada situação com a qual se está interagindo. Nenhuma resposta é sempre e 
necessariamente mais eficaz se emitida de forma aberta ou encoberta. 

d) A descrição do comportamento encoberto. 

A possibilidade de descrição do comportamento encoberto está intimamente 
relacionada com o aprendizado da descrição desse comportamento quando ele ocorre de 
forma aberta. No Dehaviorismo Radical, o comportamento verbal ó visto como determinado 


Sobre comport.irnculo e coflniç.lo 



por contingências sociais. A comunidade verbal, por seu turno, atua sempre com base em 
eventos públicos, que lhe estão acessíveis à observação direta. E apenas observando o 
comportamento om sua forma aberta, então, que a comunidade pode ensinar o indivíduo a 
descrevê-lo. Para o próprio indivíduo, porém, a resposta pode ficar sob o controle, também, 
de uma estimulação encoberta que acompanha o comportamento. Sendo assim, numa 
ocasião futura, quando aquela estimulação ocorrer o indivíduo podo descrever a ocorrência 
do comportamento, mesmo que ela tenha acontecido de forma encoberta. Essa análise 
tem algumas complicações que não cabe discutir aqui, mas é importante ficar claro que a 
descrição só pode ser aprendida, a princípio, a partir de ocorrências abertas do 
comportamento. 

e) A relação entre comportamento encoberto e comportamento aberto. 

É um erro pensar que todo comportamento aberto é determinado por 
comportamentos ou estímulos encobertos. Por exemplo, é um equivoco interpretar um 
comportamento público como determinado por um “pensamento", uma "decisão" ou uma 
"reflexão". O controle último de toda instância de comportamento humano está no ambiente 
físico e social. É possível que um comportamento encoberto anteceda temporalmento a 
ocorrência de um comportamento aberto, mas o último não é determinado pelo primeiro; 
ambos são função das contingências ambientais. 

f) O ver como comportamento encoberto. 

O comportamento de ver exige uma análise especial. Tanto quanto os outros 
comportamentos encobertos, ele é aprendido de forma aberta. Segundo Skínner (1968), 
"até onde sabemos, nada jamais é visto encobertamente que já não tenha sido visto 
abertamente, pelo menos de forma fragmentária. Portanto, o ver encoberto pode ser 
ensinado como ver aberto" (p. 127). O que torna o comportamento de ver um caso especial 
é que mesmo em sua forma aberta ele tem uma topografia que não pode ser especificada. 
Na verdade, ele é ensinado não com a comunidade observando diretamente o "ver", mas 
com a comunidade inferindo sua ocorrência a partir da observação de outros comportamentos 
públicos que pressupõem a ocorrência do ver. Por exemplo, a comunidade ensina alguém 
a ver uma praia na medida em que solicita que o indivíduo descreva o lugar. 

A análise do comportamento de ver é também fundamental para a crítica 
behaviorista à idéia de que nós armazenamos cópias mentais do mundo (cf. Skínner, 
1963). Uma cópia seria irrelevante para o comportamento privado porque o ver pode ocorrer 
na ausência da coisa vista. Uma vez que eu tenha aprendido a ver, por exemplo, uma 
praia, na presença da praia, eu posso vê-la na sua ausência, sem precisar, para isso, 
pressupor que eu guardoi uma cópia mental da praia. Isso pode parecer improvável porque 
estamos acostumados com vários tipos de cópias de estímulos visuais, como fotografias, 
filmes, etc. Mas náo é nada diferente de se dizer que se pode ouvir uma música na 
ausência dos estímulos auditivos que lhe são característicos, nem por isso dizemos que 
temos cópias mentais dos sons. 

g) O caráter social do comportamento encoberto. 

A ocorrência de uma resposta qualquer de forma aberta ou encoberta é função de 
contingências de reforçamento do ambiente com o qual interagimos, principalmente 


270 I mm.mucl Z.itfury lounnbo 



do ambiente social. Não há, portanto, comportamento naturalmente encoberto; o que em 
uma cultura ocorre predommantemente sob a forma encoberta pode, em outro ambiente 
cultural, ocorrer predominantemente sob a forma pública ou aberta. Na cultura ocidental, 
por exemplo, a chamada leitura silenciosa, que corresponde ao comportamento verbal 
textual encoberto, só se tornou predominante a partir do final da Idade Média, com a 
separação ontro vida pública o vida privada (cf. Ariés, 1991). Antes disso, o comportamento 
verbal textual era predominantemente um comportamento público ou aberto. 

Quando se fala do comportamento encoberto como função de contingências de 
reforçamento erninentemente sociais, é importante entender que estamos falando da relação 
entre comportamento encoberto e práticas culturais. Nesse nível, não estamos mais lidando 
com vantagens ou desvantagens do encoberto no nível pessoal ou individual, mas no nível 
da sobrevivência da própria cultura. Isto é, alguns repertórios comportamentais podem 
subsistir predominantemente a nível encoberto não porque são mais funcionais enquanto 
tal para o próprio indivíduo, mas porque estão sob controle do contingências relacionadas 
à sobrevivência de uma cultura e das práticas que lhe são características. Neste caso, 
não apenas não podemos naturalizar o fenômeno do comportamento encoberto, como 
precisamos refletir sobre a própria cultura que o propicia e o modo de vida que esta cultura 
está produzindo ao estabelecer limites muito estritos para que grande parte do repertório 
comportamental humano possa ocorrer a nível aberto. 


Bibliografia 

ARIÉS, P. (1991) Por uma História da Vida Privada. Em Ariés, P. e Chartíer, R. História da 
Vida Privada - Volume 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1 “ reimpressão, p. 7-19 

SKINNER, D. F. (1945) The operational analysis of psychological terms. Psychological 
Review, 52,270-277/291-294. 

(1963) Dehavíorism at fifty. Science, 140, 951-958. 

(1965) Science and Hurnan Behavior. New York/London: Free Press/Collier 
MacMilIan. Publicado originalmente em 1953. 

(1968) The Technology of Teaching. New York: Appleton-Century-Crofts. 

(1974) About Dehaviorism. New York: Alfred A. Knopf. 


Sobre compoit.imenlo e coRiiif.lo 271 



r 




Parte II 


Questões 

metodológicas e de 
aplicação 


V 


J 



Seção VI 


"Consciência" e 
terapeutas 



Capítulo 28 


Conceituação do comportamento verbal e 
seu papel na terapia 


Mii/u Miirthti Costa I lübncr 
IA/VI /nivcrsidtidc Mackcn/ic 


C-^onceituar comportamento verbal no contexto do Behaviorismo Radical 
de Skinner leva-nos, necessariamente, e, primeiramente, a citar a clássica obra Verbal 
Behavioir (traduzida como O Comportamento Verbal) de Skinner, publicada em 1957. 
Considerado como um dos trabalhos mais criativos de Skinner, possui a curiosa 
característica de ser mais conhecido como objeto de revisão e críticas do que pelo seu 
uso ou emprego de seus termos. 

Os próprios behavioristas da época parecem ter julgado a obra ousada, para os 
padrões de fundamentação exigidos até 1977 (20 anos depois de sua publicação). Alguns 
autores chegaram a afirmar que a "teoria" de Skinner permanecia ainda em seu estado 
primitivo, sem testes experimentais e revisões de seus conceitos. 

Mais recentemente, a partir da década de 80, essa situação começou a mudar e 
passou-se a encontrar vários trabalhos empregando a terminologia de Skinner para o 
comportamento verbal (Willians, 1977; Mattar, 1979; Hübner-D'Oliveira, 1982, dentre outros), 
bem como análises que completam ou modificam, em parte, alguns termos originais de 
Skinner (Michel, 1982; Catania, 1986;Catania, 1988). 


^obre comport.imenlo e togniç.lo 277 



A propósito da presente exposição é, então, o de selecionar e apresentar a definição 
mais amplamente aceita e empregada de comportamento verbal, dentro do Behaviorismo 
Radical, bem como a contribuição de Catania para análise desse comportamento e sua 
relação com os demais. Serão incluídos, também, alguns dados de pesquisa na área que 
se mostrem, a meu ver, mais diretamente aplicáveis e úteis em sessões de terapia 
comportamental. 

Para a seleção da definição ainda mais veiculada e aceita, é necessário voltar ao 
livro O comportamento verbal de Skinner (1957). Para este autor, na maioria do tempo o 
ser humano age apenas índiretarnente sobre o ambiente. Seu primeiro efeito ó sobre 
outros homens. Assim, no exemplo clássico de Skinner, um homen sedento, em voz de 
se dirigir a uma fonte de água diretamente, pode simplesmente “pedir um copo d’água" a 
alguém, ou seja, engajar-se em um comportamento que produz um certo padrão 
de sons que, por sua vez, induz alguém a trazer-lhe um copo d’água. A consequência 
última - que é receber o copo d'água - não compartilha nenhuma útil relação mecânica, 
física com o comportamento de origem, pedir um copo d’água. De fato, diz Skinner, a 
característica desse comportamento ó o de ser impotente em relação ao mundo físico. 
Palavras "não quebram ossos", diz Skinner (1957, p. 2), não removem montanhas. 

Por outro lado, o comportamento verbal é eficaz sobre as outras pessoas, ou 
melhor, é eficaz apenas através da mediação de outras pessoas. Dito de outra forma, 
“comportamento verbal é aquele que é reforçado através da mediação de outras pessoas" 
(Skinner, 1957, p.2). Requer-se, portanto, para que haja o comportamento verbal, um 
falante e um ouvinte, conjunto que é denominado por Skinner de "episódio verbal”. 

O termo ‘'comportamento verbal” é proposto no lugar do termo “linguagem", pelas 
contaminações o várias interpretações que esse último termo tradicionalmente possui. É 
proposto “comportamento verbal" para enfatizar que "linguagem" é um comportamento 
modelado e mantido por consequências mediadas e não é algo, uma propriedade, que 
alguém possua ou, muito menos, uma entidade interna. 

Assim, entender comportamento verbal é mais do que entender o uso de um 
determinado vocabulário. Entender comportamento verbal numa anáfise funcional é 
verificar quanto conseguimos prever a ocorrência de comportamentos verbais específicos 
e, eventualmente, quanto conseguimos produzir ou controlar tais comportamentos, 
alterando as condições nas quais eles ocorrem. 

Ao representar, através de exemplos, as possíveis aplicações desse objetivo da 
análise funcional do comportamento verbal, Skinner (1957) oferece vários exemplos, e 
um deles pareceu especialmente valioso para terapeutas comportamentais. Pergunta 
Skinner (1957): "Como um terapeuta pode conseguir tornar descorberto (“trazer à tona”) o 
comportamento verbal latente em uma entrevista terapêutica?" 

Esse exemplo revela, a meu ver, a ousadia e o alcance da proposta skinneriana 
para a análise do comportamento verbal. E, nas palavras do próprio autor, mesmo que a 
resolução de um problema como esse não seja o objetivo mais imediato de uma análise 
científica do comportamento verbal, a resolução passa pelos tipos de processos e relações 
que uma análise funcional do comportamento verbal deve considerar, ou seja: que condições 
posso criar, como terapeuta, para que aumentem a probabilidade de um determinado 
comportamento verbal emergir? Em que condições determinadas, respostas verbais 


278 M.iii.i Mtiitlni I lubnrr 



(conteúdos verbais) ocorrem e em que condições elas não ocorrem? Que relações há 
entre o comportamento verbal de meu cliente e seus gestos, suas ações, seus 
comportamentos não-verbais? 

São perguntas como essas que dão início a uma série de possíveis procedimentos 
e análises que demandam criatividade e engenhosidade do terapeuta e conhecimento da 
história de vida do seu cliente. 

Apesar de a proposta de uma análise funcional do comportamento verbal estar 
pronta desde 1957, os processos básicos e relações que dão ao comportamento verbal 
características especiais estão ainda sendo compreendidas. O livro O Comportamento 
Verbal foi apenas o início, um “exercício de interpretação”, como disse seu próprio 
autor. 


E na presente exposição, em vez de tocar nessas características especiais do 
comportamento verbal, expondo, por exemplo, as oito categorias funcionais propostas 
por Skinner para os operantes verbais, julgo mais relevante, para o presente contexto, 
apresentar as relações especiais que o comportamento verbal pode apresentar com outro 
tipo de comportamento - o não-verbal. 

Ou seja, vou comentar sobre a relação entre “palavras e ações" para usar uma 
expressão mais cotidiana. Considerei oportuno falar sobre essa relação visto ser sessão 
de terapia "recheada" de comportamento verbal e visto que tanto o terapeuta como o 
cliente almejam que esses episódios verbais tenham também efeito sobre situações não 
verbais da vida do cliente, sobre seus comportamentos não-verbais, ou seja , suas ações. 

Assim, para destacar o que já se sabe e o que se hipotetiza sobre o poder do 
comportamento verbal, torna-se necessário citar as contribuições de Catania (1985; 1988). 
Em experimentos realizados por esse autor (Catania, 1988), ele demostrou que as 
contingências arranjadas para a “fala" de alguém acerca do seu próprio comportamento 
não-verbal, ou seja, acerca de sua própria ação, foram mais eficazes em mudar essa 
ação do que as contingências arranjadas diretamente sobre essa ação. 

Em outras palavras, demonstrou que um comportamento humano não-verbal (uma 
ação direta sobre o ambiente) era relativamente insensível às contingências, de tal modo 
que esse comportamento não mudava quando ocorriam mudanças nos esquemas de 
reforçamento. Mas obtiveram mudanças no comportamento não-verbal quando o 
comportamento verbal relacionado ao desempenho em esquema foi mudado (p0r 
modelagem, por exemplo). 

Para ficar mais claro esse poderoso controle do comportamento verbal sobre o 
não-verbal, vale a pena resumir o experimento de Catania (1988), realizado com crianças 
de quatro a seis anos, que replicam dados de experimentos semelhantes aos de colegas 
seus realizados com adultos. 

A criança deveria pressionar uma de düas janelas existentes num monitor de 
computador. Quando a janela mostrasse o desenho de uma “estrela", a pressão na tela 
deveria ocorrer de acordo com o esquema de razão variável (ou seja, depois de um número 
variável de respostas). 

Quando no monitor aparecia o desenho de uma "árvore", a pressão de acordo 
com o esquema (resposta correta) consistia no acender de uma lâmpada de uma série 


Sobre comporl.imenlo e cofiniçío 


279 



de oito lâmpadas dispostas em coluna. Quando a coluna de oito lâmpadas estava acesa, 
a criança ganhava um presente. Ocasionalmente, a criança falava sobre os presentes 
que ganhava com o boneco (o gato Garíield) que aparecia de tempos em tempos atrás de 
uma cortina, ao lado do equipamento. 

Como ó típico apenas para os humanos verbais, os dois esquemas de reforçamento 
não produziram um responder diferencial (para organismos nào-verbais os esquemas de 
razão produzem fidedignamente taxas mais altas do que os esquemas de intervalos). 

Depois de algumas sessões, Catania introduziu uma modificação no procedimento: 
o boneco "Garfield" aparoceu nos períodos entre os esquemas e começava perguntando 
à criança "como funcionava o jogo”. Agora, as lâmpadas acendiam então um contingente 
às respostas verbais que se referiam ao desempenho do sujeito, num procedimento de 
modelagem. Nunca se dizia à criança o que dizer ou o que fazer. Modelava-se o 
comportamento verbal da criança na direção de fazê-la dizer como se jogava o jogo, ou 
seja, de descrever seu próprio desempenho. O que se conseguiu fazer com que a criança 
falasse foi, por exemplo, que "na estrela era para apertar rápido e na árvore era para 
apertar devagar". Quando a criança disse isso, os desempenhos correspondentes aos 
esquemas emergiram. 

Numa de suas conclusões sobre esse experimento, Catania (1988) supôs que o 
comportamento não-verbal fosse tipicamente governado por regras, enquanto que o verbal 
fosse tipicamente modelado por contingências. Assim, para se modificar o comportamento 
humano nâo-vorbal, é mais provável que se tenha sucesso indiretamente, modelando-se 
o comportamento verbal relevante, do que diretamente, modelando o comportamento 
não-verbal propriamente dito. 

E esse sucesso de se conseguir mudanças no comportamento não-verbal 
mudando-se o verbal correspondente a ele é interpretado pelo fato de nós, humanos, 
aprendermos, por equivalência, a corresponder o que fazemos e o que dizemos que 
fazemos. Palavras e ações, se têm uma história de equivalência, de correspondência, 
então a mudança em um poderá provocar a mudança em outro. 

Em nossas pesquisas em equivalência (Matos e Hübner-D'Oliveira, 1992) 
obtivemos alguns dados compatíveis com essas observações. Diante de uma tarefa não- 
verbal - apontar, onde a criança deveria emparelhar cores iguais - uma de nossas crianças 
não atingia o critério de desempenho, ou seja, não emparelhava cores iguais. Introduzimos, 
entào, um procedimento de solicitar à criança, após um primeiro acerto, que descrevesse 
o que havia feito e reforçávamos a fala correspondente ao desempenho correto. Após ter 
descrito sua resposta correta (comportamento verbal), o critério de desempenho foi logo 
atingido (comportamento não-verbal ). 

Vejo, particularmente, no meu trabalho de atendimento a crianças com dificuldades 
no processo de aprendizagem, que muitas vezes, mudando por modelagem, modelação 
e reforçamento diferencial, a "fala anti-estudo", "anti-escola ”, para uma "fala pró-escola", 
“pró-saber", obtenho mais rapidamente mudanças paralelas favoráveis nos 
comportamentos "não-verbais", tais como sentar-se diariamente na escrivaninha de estudos 
em horários determinados, ler, ir às aulas, etc. 

Situações análogas às desses experimentos ê a essas que descrevi me parecem 
ocorrer nas sessões de terapia. 


280 M.iri.i M.ifth.i I lubner 



Ou seja, poderíamos explicar o sucesso do controle e a manutenção de muitas 
pessoas em terapia justamente pelo sucesso do controle do comportamento verbal (do 
terapeuta e cliente) sobre a ampla gama de comportamentos náo-verbais que o cliente 
deseja ver em si mudados (ou seja, as ações que ocorrem fora da sessão de terapia). 

Em suma, o que esses dados e explicações apontam é que conseguimos mu¬ 
danças em comportamentos não-verbais quando eles passam a ser controlados por 
instruções, ou melhor, auto-instruções. E as auto-instruções, quando surgem, tornam o 
comportamento sensível às contingências. Nada mais belo e completo. 

Assim, o comportamento verbal tem um papel central no sucesso da terapia, por 
seu controle sobre os demais comportamentos. E, felizmente, esse controle pode ser 
adquirido diretamente, modelado e mantido por contingências. Portanto, acessível a todos. 

Finalmente, esses dados surpreendem aqueles que acham que ‘‘terapia é mero 
blá-blá-blá", que trabalhar com o "discurso" do cliente é apenas retórica de fracos efeitos. 
O controle poderoso do comportamento verbal está aí para desmentir. Ele reverte essa 
conclusão e mostra que trabalhar com o comportamento verbal é um excelente trampolim 
para se atingir as ações propriamente ditas. 


Bibliografia 


CATANIA.C. (1986). On the difference between verbal and nonverbal behavior. The analysis 
of verbal behavior, 4,2-9. 

__ (1988). The functions of language. Curso ministrado durante a XVIII Reunião 
Anual de Psicologia da Sociedade de Psicologia de Ribeirão Preto. 

HÜDNER-D’OLIVEIRA, M.M. (1982). Os operantes verbais Ecóico, Tacto e Mando de 
Skinner: considerações a partir de uma experiência de ensino com jovem ecolálica. 
Dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade 
de São Paulo. São Paulo. 

MATOS, M.A e HÜBNER-D'OLIVEIRA, M.M. (1992). Equivalence relations and reading.Em 
S.C. Hayes e L.J. Hayes (Orgs) Understandiny Verbal Relations. Reno: Context 
Press, pp. 83-94. 

MATTAR, C. D.(1979). O ensino de respostas gestuais simbólicas para crianças 
severamente retardadas. Dissertação apresentada ao Instituto de Psicologia da 
USP. 

MICHAEL.J. (1982). Distinguishing between discriminativo and motivational functions of 
stimuli. Journal of Experimental Analysis of Behavior,_2Z, 149-155 

SKINNER, B.F. (1957). Verbal Behavior. New York: Appleton. 

Wll l IAMS, W.L. (1977). The effect of co-operation procedures on the acquisition and 
subsequent generalization of a sign language communication repertoire in severely 
and profoundly retarded girls. Tese de doutorado apresentada à Universidade de 
Manítoba, Canadá, 


Sobn* comportcimrnlo e coruíç.Io 281 



Capítulo 29 


Aquisição de consciência como condição 
para a melhora do desempenho 

l.orismJrio Ernesto Simoimsi' 


Será que apresentar “consciência" é condição necessária para melhora de 
desempenho? 

Esta é uma questão controversa, com respostas positivas e negativas entre alguns 
pesquisadores. Antes de respondê-la, entretanto, ó preciso especificar sobre o que estamos 
falando. Nunca é demais lembrar que falar de consciência ó falar de eventos chamados 
"privados" e que um dos principais problemas a respeito deste conceito é a sua definição. 
(Greenspoon, 1975) 

É possível, no entanto, sugerir uma definição que possa ajudar a resolver algumas 
das dificuldades dessa conceituação. 


'Professor Doutor do Departamento do Psicologia da Universidade Católica de Goiás - Pesquisador CNPq 
301 881 88-0 


282 I orismário f mesto Simon.issi 



1 . 


Consciência ou comportamento consciente? 


Em seu livro Sobre o Dehaviorismo, Skinner (1974, p.7) di 2 que: 

"(...) eis, como exemplo, alguma das coisas comumente ditas sobre o 
Dehaviorismo ou a ciência do comportamento. Creio que sáo todas falsas. 

1 - O Behaviorismo ignora a consciência, os sentimentos e os estados mentais" 

Esta é a crítica número um das vinte que Skinner apresenta na introdução do seu 

livro. 

Em outro livro de sua autoria (Skinner, 1980, p. 345), ainda diz: 

O que sâo os eventos privados aos quais, pelo menos de uma forma limitada, 
um homem vem a responder através de formas que chamamos de \perceber' ou 
‘saber’? Comecemos com o tipo mais antigo, e de muitas maneiras o mais difícil 
representado pelo ‘fato obstinado da consciência' 

Essas duas citações feitas por Skinner são suficientes para mostrar que Skinner 
nào nega a existência da consciência. De acordo com Davis (1984, p. 623), "Skinner 
duvida que os eventos internos do discurso mentalista clássico tenham qualquer papel 
explicativo em uma ciência do comportamento. Porém, ele aceita sua existência e assume 
a responsabilidade de explicar o que eles são". No entanto, aceitar a existência de um 
evento não é suficiente para que possamos estudá-lo. É preciso mais, muito mais. E o 
próprio Skinner (1984) aponta um começo para isso, afirmando que a questão é inicialmente 
conceituai. Em resposta a esta posição de reconceituação, Davis (1984) apesar de 
discordar, em alguns pontos, do discurso feito por Skinner, concorda que a proposta 
deste é inicíalmente conceituai. Davis (1984, p. 623) afirma: "Skinner duvida que os eventos 
internos do discurso mentalista inicial tenham qualquer papel explicativo em uma ciência 
do comportamento. Porém, ele aceita sua existência e assume a responsabilidade de 
explicar o que eles são." 

Sem dúvida, Skinner trata a consciência como comportamento, e este é o primeiro 
passo para que possamos estudá-la de forma reinterpretada, como descrições de eventos 
físicos em relação a outros eventos físicos. 

Também as relações entre comportamentos e meio ambiente foram especificadas 
por Skinner. Utilizando-se da contingência tríplice como instrumento conceituai, ele apontou 
para a possibilidade prática da análise dos comportamentos e as suas relações com o 
meio ambiento. É, pois, possível falar de comportamentos cônscios sem abandonar os 
princípios da Análise Experimental do Comportamento. Comportamentos cônscios podem 
ser tratados como uma classe de operantes. E, como operantes, podem ser analisados 
em relação aos estímulos antecedentes e em relação às conseqüências. Portanto, pode 
ser analisado com base na contingência tríplice. 


Sobre compoit.imeiito c cojjniç.lo 283 



2. Estudos de contingências e regras: suas relações com com¬ 
portamentos denominados cônscios 


De acordo com Todorov (1985, p. 75), 

"o termo contingência se refere a um instrumento conceituai que ó utilizado na 
análise das interações organismo-ambiente. Uma contingência de três termos 
especifica: (1) uma situação presente ou antecedente que pode ser descrita em 
termos de estímulos chamados discriminativos pela função controladora que exercem 
sobre o comportamento: (2) algum comportamento do sujeito que, se emitido na 
presença de tais estímulos discriminativos, tem como conseqüência (3) alguma 
alteração no ambiente, que não ocorreria (a) se tal comportamento fosse emitido 
na ausência dos referidos estímulos discriminativos, ou (b) se o comportamento 
não ocorresse." 

Sem dúvida, os estudos sobre regras começaram a lançar luz sobre os 
comportamentos conscientes, analisados desde um ponto de vista experimental. De acordo 
com Glenn (1987, p. 30), “regras são descrições de relações funcionais (...). Uma regra 
pode ser formulada com referências verbais aos estímulos. Portanto, o comportamento 
estará implicado por regras, mesmo que não seja especificado”. 

Sendo as regras descrições de relações funcionais, uma das possibilidades é 
fazer estudos que relacionem quais são as relações funcionais a que as descrições 
se referem. Essas relações podem ser especificadas como relações entre estímulos, 
respostas ou consequências, ou seja, como contingência de três termos (Holland e Skinner, 
1969). 

A distinção feita por Skinner (1978) entre comportamento modelado por 
contingências e comportamento governado por regras resultou em inúmeros estudos,' 
experimentais e análises teóricas sobre estes dois tipos de comportamentos e as condições \ 
necessárias para sua ocorrência. 

Alguns experimentos foram realizados por Simonassi, Oliveira e Sanábio (1994) e 
Simonassi, Fróes e Sanábio (1995) com base nas definições de regras e contingências 
citadas acima. Esses experimentos estudaram possíveis relações existentes entre 
exposição às contingências e formulações de regras. 

O procedimento básico para o estudo pode ser resumido da forma como se segue. 

Os sujeitos experimentais, em geral humanos adultos, são conduzidos um a um 
a uma sala experimental e colocados diante de uma tela sensível instalada em um monitor 
de computador. 

Em seguida, recebem instruções mínimas sobre como operar a tela e sobre o que 
fazer na situação. 

De forma geral, aparecem na tela do computador três estímulos sobrepostos a 
três retângulos. Um de cor azul, outro de cor vermelha e outro verde. Um toque no retângulo 
azul sobrepõe a este o estímulo programado. Um novo toque no retângulo verdo ou vermelho 


284 I orísm.mo f mesto Slmoinusl 



faz com que o estímulo do retângulo azul desapareça e reapareça no retângulo que foi 
tocado. Dessa forma, pode-se programar uma série de experimentos, variando-se os 
estímulos. Um novo toque no retângulo azul reintroduz novo estímulo, e assim, 
sucessivamente. Após os toques nos retângulos verde ou vermelho, ocorre um som 
característico e, no centro da tela, a palavra CERTO ou ERRADO, conforme for o critério 
estabelecido para tal. Os sons associados às palavras certo ou errado sâo diferentes. 
Assim sendo, um retângulo azul, quando tocado, faz surgir na tela do computador um 
estímulo que, seguido por outro toque nos retângulos verde ou vermelho, ó acompanhado 
de sons diferenciados e das palavras certo ou errado. Isso caracteriza uma tentativa. Em 
cada tentativa, temos uma tríplice contingência programada: um SD, uma Resposta de 
tocar (escolher)« RE e uma conseqüência (certo ou errado). 

Após cada tentativa, ou nas tentativas programadas, aparece na tela do computador 
uma instrução, pedindo ao sujeito para relatar por escrito "como ele está fazendo para 
resolver este exercício". Com um novo toque na tela, recomeçam as tentativas. 

Assim sendo, duas respostas são estudadas: (1) a resposta de escolher e (2) a 
resposta de redigir. A resposta de redigir é uma resposta que faz parte do contexto e pode 
ser analisada como uma resposta controlada pelas instruções ou pelas contingências 
programadas. 


3. Alguns resultados experimentais 


/ 

Em um experimento realizado por Simonassi, Oliveira e Sanábio (1994), foram 
utilizados 32 sujeitos para estudar, entre outros objetivos, "se as respostas certas 
aumentavam de frequência antes da formulação das regras". 

Quando as respostas de escolher corretas foram analisadas, verificou-se que, 
para 15 dos 19 sujeitos que formularam a regra em concordância com as contingências, 
a freqüência de respostas certas aumentou antes da formulação das regras. Isto é, os 
acertos médios passaram de 22% na tentativa 1 para 88% na tentativa 5. Para os quatro 
outros sujeitos que formularam a regra, a curva também foi típica de aprendizagem. 
Resumidamente, pode-se afirmar que para 15 sujeitos dos 19 que formularam a regra, a 
freqüência de acertos aumentou antes da formulação da regra. 

O mais interessante a observar ó que, para 12 dos 13 sujeitos que não formularam 
a regra e, portanto, o término do experimento foi pelo número de tentativas, também 
ocorreu aumento da freqüência de acertos. Apenas para um dos sujeitos que não formularam 
a regra, não houve aumento do freqüência, uma vez que este sujeito já iniciou o experimento 
com uma freqüência de acertos elevada. 

Assim sendo, pode-se dizer que, para 31 de 32 sujeitos, a freqüência de respostas 
aumentou antes da formulação da regra escrita. Portanto, o aumento dos acertos dependeu 
das conseqüências (certo ou errado) programadas na contingência. 


Sobrr compoil.imento e cognição 285 



Em um outro experimento realizado por Simonassi, Fróes e Sanábio (1995), em 
que um dos objetivos foi verificar se as respostas corretas aumentavam antes das 
formulações das regras, tanto para os sujeitos que formularam as regras como para aqueles 
que não as formularam, os resultados foram semelhantes ao experimento anterior, com 16 
sujeitos utilizados. Para 14 dos sujeitos, a frequência de respostas aumentou gradualmente 
ou era alta desde a primeira tentativa. Para dois sujeitos, não ocorreram mudanças. É 
bom salientar que estes dois sujeitos não formularam a regra e não solucionaram o problema 
apresentado. 

Tomados em conjunto, os resultados dos dois experimentos de Simonassi e colab. 
{1994 e 1995) indicam que: 1) a f reqüência de respostas de escolher corretas aumentou 
como resultado da exposição às contingências; 2) a formulação da regra ocorreu sempre 
após o aumento da frequência de respostas corretas; e, 3) aumentos na frequência de 
respostas de escolher corretas foram observados na ausência da formulação da regra. 

Esses resultados têm sido replicados em uma série de estudos sobre regras e 
contingências e têm sido apresentados nas Reuniões Anuais da Sociedade Brasileira de 
Psicologia. 


4. Relação entre regras e comportamentos conscientes 


Os resultados dos dois experimentos citados permitem fazer uma relação entre 
formulação de regras (a resposta de redigir) e o que pode ser chamado de comportamentos 
conscientes. Se definimos como comportamento consciente a resposta de redigir sobre 
os termos da contingência programada (estímulos discriminativos, respostas de escolha 
e consequências), podemos afirmar que os sujeitos que formularam a regra são sujeitos 
cônscios da contingência programada. Para todos esses, a freqüência de respostas de 
escolher aumentou antes de eles descreverem as regras. Portanto, antes de serem 
considerados cônscios. Mais ainda, para aqueles que não redigiram a regra, a freqüência 
de acertos da resposta de escolher aumentou, embora não pudessem ser considerados 
cônscios. Dessa forma, pode-se concluir que a aquisição de consciência não é condição 
necessária para melhora do desempenho de solucionar problemas. Parece ser possível 
afirmar que tanto o aumento da freqüência de uma resposta (no caso a resposta de escolher) 
como uma outra resposta (no caso, a resposta de formular regras) dependem da exposição 
às contingências programadas e das contingências instrucionais. 

Nos dois experimentos relatados, a relação analisada foi a da resposta de redigir 
em relação à contingência programada, ou melhor, em relação aos termos que compõem 
a contingência programada. Esta relação entre a tríplice contingência programada e a 
resposta de redigir é que possibilita uma análise do que foi definido como comportamento 
cônscio. 


Entretanto, há que se considerar outros casos. Por exemplo, pode-se supor uma 
situação na qual um sujeito é exposto a um problema em que a freqüência de acertos 
(respostas de escolher) está muito baixa. Em seguida, um falante pode descrever a 


28ó l orism.írio fmc*to Símon.iisi 



contingência programada para o sujeito e este imediatamente aumentar a sua freqüência 
de respostas, isto é, pode passar de uma freqüência de acertos próximo a zero para uma 
próxima a cem. 

Nesse caso hipotetizado, a freqüência de respostas aumentou abruptamente de 
zero para cem. Porém, há que se considerar que, no exemplo dado, o sujeito mudou a 
freqüência de respostas com base em uma nova instrução que lhe foi dada, e, portanto, 
estará sob controle puramente instrucional. Se a instrução estiver em concordância com 
as contingências programadas, o desempenho se manterá. Caso contrário, o desempenho 
se modificará. Nesses dois casos (contingências em acordo e desacordo), o 
comportamento estará em estado de transição parcialmente controlado pelas instruções 
e passará a estados estáveis mantidos pelas contingências programadas. Daí, poder-se 
afirmar quo a contingência programada é que mantém a resposta de escolher. Há, portanto, 
um duplo controle: instrucional e contingencial. (Cerutti, 1989; Baron e Galizio, 1983; 
Hayes e Hayes, 1989; Buskist e Miller, 1986.) 

O que ocorre quando o controle é puramente instrucional é que a relação existente 
náo é mais entre a contingência programada e a resposta de descrever, mas sim, entre 
instrução e a resposta de descrever. Nesse último caso, a resposta de descrever as 
contingências não teve ainda oportunidade de ocorrer, uma vez que o organismo ainda não 
se comportou em relação à contingência programada. Portanto, fica difícil falar de 
comportamento cônscio se a resposta à tríplice contingência não ocorreu. Seria mais 
adequado descrever a mudança de desempenho com base nas instruções dadas ao sujeito 
(ouvinte), que é o fenômeno que se observa. 

Finalmente, algumas considerações devem ser feitas, de um ponto de vista teórico, 
sobre formulação de regras e solução de problemas. 

a) Os experimentos aqui apresentados foram feitos com sujeitos humanos adultos de re¬ 
pertório verbal bem estabelecido. 

b) Os problemas foram de solução simples, o que pode ter facilitado a formulação de 
regras. 

c) Estudos com manipulação de estímulos que propiciam análises moleculares ou mola¬ 
res devem ser conduzidos para a análise do momento da autoformulação de regras. 

d) Outros tipos de respostas verbais, tais como respostas verbais vocais, devem ser estu¬ 
dadas em relação à sua oportunidade de ocorrência (tentativa a tentativa ou em tentati¬ 
vas espaçadas). Isso permitirá análises conceituais relacionadas à Hipótese Para- 
mecânica de Ryle o ao Behaviorismo Molar de Rachlin (veja Baum, 1994), sobre com 
portarnentos conscientes. 

e) Mais experimentos sobre instruções e contingências programadas devem ser conduzi¬ 
dos para tentar separar os efeitos destes controles. 

O presente texto aponta para a possibilidade do estudo experimental de compor¬ 
tamentos conscientes. Tais estudos estão relacionados à solução de problemas, exposi¬ 
ção a contingências e formulação de regras. Essas três áreas parecem promissoras para 
ajudar a solucionar questões relativas ao que denominamos de comportamentos consci¬ 
entes. 


Sobro comportamento o cognição 



Bibliografia 


BAR ON, A. e GALÍZIO, M. (1983). Instructional control of human operant behavior. The 
Psychological Record, 35,495*520. 

BA UM, W.M. (1994). Understanding behaviorism: Science, behavior and cultura. New 
York: Harper Collins College Publishers. Chapter 3. 

BUSKIST, W.F. e MILLER Jr., H.L (1986). Interactions between rules and contingencies 
in the control of human fixed-interval performance. The Psychological Record, 36, 
109-116. 

CERUTTI, D.T. (1989). Discrimination theory of rule-govemed behavior. Journal of the 
Experimental Analysis of Behavior, 31., 259-276. 

DAVIS, L.H. Skinner as conceptual analyst. The Behavior and Brain Science, 7, 623-624. 

GLEN, S. (1987). Rules as environmental events. The Analysis of Verbal Behavior, 5,29- 
39. 

GREENSPOON, J. (1975). Revision dei concepto de experiencia privada. Em Pardo, G.F. 
e Natalício, L.F.S. (org.) La ciência de la conducta. México: Trilhas. Pgs. 133- 
143. 

HAYES, S.C. and HAYES, L.J. (1989). The verbal action of the listeneras a basis for rule- 
governance. In Rule-Governed Behavior: cognition, contingencies and instructional 
contro!,_ Edited by Steven C. Hayes. Plenun Press: New York. Pp. 153-190. 

HOLLAND, J.G.; SKINNER, B.F. (1969). A análise do comportamento. São Paulo: Herder. 

SIMONASSI, L.E.; OLIVEIRA, C.l. e SANÁBIO, E.T. (1994). Descrições sobre possíveis 
telações entre contingências programadas e formulação de regras. Estudos, 21 
(3/4): 97-112. 

SIMONASSI, L.E., FRÓES, A.C. e SANÁBIO, E.T. (1995). Contingências e regras: 
considerações sobre comportamentos conscientes. Estudos, 22, (3/4): 189-199. 

SKINNER, B.F. (1974). Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Ed. Cultrix. 

(1980). Contingências do Reforço. São Paulo; Coleção Os Pensadores: Abril 
Cultural. 

_(1984). Behaviorism at fifty. The Behavior and Brain Science, 7, 615-621. 

_ (1978). O Comportamento Verbal. São Paulo: Cultrix. 

TODOROV, J.C. (1985). O conceito de contingência tríplice na análise do comportamento 
humano. Psicologia: teoria-prática, 1, (1), 75-81. 


288 I orism.mo K Slmon.mi 



Capítulo 30 


O estudo de eventos privados através de 
relatos verbais de terapeutas 

Roberto Alves 
Pénis Roberto Zomiwioni* 
Roberto Kovtic 1 


Vários terapeutas brasileiros autodenominados comportamentais têm declarado 
que perguntam a seus clientes sobre seus comportamentos encobertos (Delitti, 1991; 
Meyer, 1990, Banaco, 1993, Guilhardi, 1995; Delitti e Meyer, 1995). Pesquisadores tém 
declarado que vêm estudando os comportamentos encoberlos (Kerbauy, 1994; Tourinho, 
1995; Zamignani, Kovac e Banaco, 1996; Kovac, Zamignani e Banaco, 1996). Esses 
profissionais vêm baseando seus trabalhos e justificando essas práticas primordialmente 
em Skinner (1982; 1991). De uma certa maneira, estas declarações aproximaram um 
grande número de alunos de cursos e eventos ligados á Análise Experimental do 
Comportamento e ao Behaviorismo. 

Outros profissionais behavioristas radicais ligados à clínica (por exemplo, Guedes, 
1993a, 1993b) têm criticado o uso de eventos internos como se este uso insinuasse que 


' Prolossor Associado do Departamento de Métodos e Técnicas da Faculdade de Psicologia da PUC/SP. 
J Bolsista do Iniciaçflo Científica do CNPq PUC/SP. 

'PUC/SP 


‘'olm* compoit.imrnto i* cogoi(íio 


289 



as explicações para o comportamento tivessem voltado, como nas teorias mentalistas, 
ao interior das pessoas. 

De (ato, essa preocupação não parece infundada. Tem sido observado tanto na 
prática de alguns alunos quanto na de alguns profissionais iniciantes, que muitos deles 
interpretaram, a partir dos primeiros trabalhos citados anteriormente, que bastaria perguntar 
aos clientes sobre seus comportamentos encobertos para que os terapeutas fossem 
capazes de fazer análises behavioristas. A culpa não é dos alunos, nem dos profissionais 
iniciantes, certamente. Sendo coerente com uma prática behaviorista, ó possível afirmar 
que se o aluno não aprendeu foi o professor que não ensinou (Banaco, 1995). Essa má 
interpretação pode ter se originado do que vimos mostrando de nossa prática nos congressos 
nestes últimos anos. Passamos durante muito tempo tentando justificar porque nós nos 
consideramos behavioristas; apesar disso, trabalhamos com os comportamentos 
encobertos nas sessões clínicas e esquecemo-nos de mostrar como a análise funcional 
deve levar em conta esse tipo de comportamento e/ou analisá-lo. Assim, vemos como 
necessário, retomar os porquês da importância de se estudar o comportamento encoberto 
na prática clínica, e mais do que isto, retomar seu papel no exercício de uma análise 
funcional, através de pesquisas que possam levá-los em consideração. 


1. O comportamento encoberto é “especial”? 


Vários autores, revendo a obra de Skinner, afirmam que o comportamento encoberto 
é um comportamento como outro qualquer e, portanto, deve ser estudado (Matos, 1996; 
Micheletto, 1996; Tourinho, 1996). Resta a nós, enquanto pesquisadores, “arregaçar as 
mangas” e começar a estudá-lo, descobrir novas metodologias, "mergulhar" no 
conhecimento produzido até agora, na tentativa de esclarecer as dúvidas existentes e 
fornecer à prática clínica bases científicamente fundamentadas para o manejo destes 
eventos. 

Comportamentos Encobertos; Especificidades e Implicações para a Pesquisa 

Algumas questões levantadas durante o V Encontro Brasileiro de Psicoterapia e 
Medicina Comportamental, principalmente aquelas levantadas nas apresentações sobre o 
tema: “Eventos Privados: O sujeito faz parte de seu ambiente?" (Tourinho, 1996; Micheletto, 
1996; Matos, 1996; Malerbi, 1996), permitiram uma reavaliação no trabalho desenvolvido 
até então sobre eventos encobertos. Primeiramente, deve-se levar em consideração que 
efetivamente trabalha-se com os comportamentos encobertos na prática clínica e os 
terapeutas comportamentais já apontaram várias razões para se comportarem dessa maneira 
(Delitti e Meyer, 1995). Em segundo lugar, devemos atentar que o que os diferencia dos 
comportamentos abertos ó unicamente a acessibilidade. i 

Segundo Skinner (1982), o comportamento encoberto é aquele que so pode ser 
observado pela própria pessoa que se comporta (por exemplo, sentir) ou, pode ser executado 
em uma escala tão pequena que não seja visível aos outros (por exemplo, pensar), ou o 
comportamento encoberto é fazer aquilo que se faria quando o estímulo estivesse presente 
(como ver algo na ausência da coisa vista, "fantasiar", por exemplo.). Por isso, o acesso 


290 Robalo A. H.in.iio Pcms R. Z.imi^n.ini-Robat.i Kov.ic 



da comunidade verbal a estes comportamentos é restrito, e depende da descrição verbal 
feita pelo indivíduo de seus próprios comportamentos encobertos. Até o momento, o relato 
verbal ó a fonte mais importante de dados sobre os eventos internos. 

Banaco (1993) afirma que comportamentos do tipo encoberto, tais como emoções 
sentidas durante a sessão terapêutica, são mais difíceis de serem descritos e controlados 
do que os comportamentos abertos. Por essa razão, são dificilmente discriminados, e 
muitas vezes manejados de forma deficiente, principalmente pelo terapeuta iniciante. Esses 
comportamentos teriam a sua parcela de determinação no comportamento expresso, tanto 
pelo cliente quanto pelo terapeuta na sessão e, consequentemente, na qualidade do 
atendimento. Aparentemente, esta afirmação contraria os escritos de Skinner. Em vários 
pontos de sua obra, Skinner discute o papel dos eventos internos na determinação dos 
comportamentos e afirma que eventos infernos não são causa do comportamento observado; 
são produtos colaterais “às respostas abertas e resultado, tanto quanto elas, das 
contingências ambientais”. (1982,1991) 

Tentando propor uma sistematização dessa problemática, Tourinho (1995) descreveu 
duas possíveis formas de relação: uma que descrevería eventos encobertos, como emoções 
ocorrendo paralelamente ao comportamento expresso, e outra que descreveria eventos 
internos, tais como pensamentos, que poderiam estar encadeados entre o estímulo 
discriminativo e a resposta emitida. Essa análise não descarta a necessidade de considerar 
as vanáve/s ambientais na determinação do comportamento. 

Dessa forma, a contingência a ser analisada poderia ser assim representada: 


S 1 

História Prévia_S° _S H 

onde S n corresponde a um acontecimento externo, S 1 corresponde a uma estimulação 
interior do indivíduo (um sentimento, por exemplo), R corresponde a uma resposta pública, 
e $ H às consequências que se seguem a esta resposta. Tourinho afirma que, para o 
Behaviorismo Radical, a resposta (R) deve ser interpretada em termos da relação explicitada 
na contingência, e nunca como um resultado de S. 

Para a discussão do que seria sentimento, Skinner (1982) propõe que este seja 
considerado urn comportamento reflexo. Com sua postura monista, Skinner afirma que o 
que é sentido é o próprio corpo do organismo se comportando, reagindo aos estímulos 
ambientais. 

Levando à frente esta questão, considerando as emoções da forma proposta até o 
momento (como um comportamento reflexo), e considerando o esquema apresentado 
acima, podemos nos perguntar se a conseqüência (S M ) teria efeito apenas sobre R e não 
sobre S 1 . Catania (1983), apresenta uma discussão interessante e útil para este ponto. 
Segundo esse autor, 

"O reflexo é apenas uma relação entre muitas das relações possíveis entre 
estímulos e respostas. No reflexo, a apresentação de algum estímulo produz 
confia velmente alguma resposta. Mas, o estímulo desse reflexo pode afetar outras 
respostas de maneira diferente, e a resposta desse reflexo pode ser afetada 


Sobro comportamento o coRiiíçáo 291 



diferentemente por outros estímulos". 

Decorre dessa afirmação a proposfa de que o comportamento encoberto 
denominado “emoção" pode ser considerado reflexo nas primeiras apresentações dos 
estímulos, mas pode ocorrer num contínuo (ocorrer concomitantemente a outras respostas, 
tanto encobertas quanto abertas) o sofrer a ação de outros estímulos quo se seguem a 
ela. Várias outras pesquisas apontam este tipo de relação ocorrendo entro comportamentos 
operante e leflexo (para uma descrição completa dessas relações, veja o Capitulo 2 do 
livro de Catania (1983) - Learning). 

Uma segunda relação possível entre estímulos antecedentes, respostas (abertas 
ou encobertas, reflexas ou operantes) e conseqüências é descrita por Tourinho da seguinte 
forma: 


“ele (o comportamento encoberto] é parle da contingência, e não um subproduto. 

Ele podo também ser uma parte da contingência relacionada à determinação de 
comportamento público. Isso ocorre, a propósito, no caso da resolução de 
problemas, onde se tem uma cadeia de eventos que se encerra com um 
comportamento público, mas que tem como um de seus elos um outro 
comportamento, que pode ser privado ." 

Ou seja, pode haver uma cadeia comportamental, na qual o ambiente interno do 
sujeito funcionaria como S ü para seu próprio comportamento. Essa contingência poderia 
ser representada da seguinte forma: 


S° __ . R, 


R 


2 - 


S M 


onde um estímulo qualquer, ambiental (S ü ) é seguido por uma resposta privada (R,) que 
podo ser um pensamento, e R 2 que pode ser uma resposta expressa, soguidos então por 
uma consequência (S M ). Assim, S°, R ? e S n podem ser públicos, mas R, pode ser privado. 
É o que ocorre, por exemplo, quando uma resolução de problema envolve um comportamento 
de pensar que é privado 4 . 

Vemos como necessária a investigação de episódios comportamentais nos quais 
eventos semelhantes aconteçam. No entanto, apresenta-se como um problema a dificuldado 
de acesso a dados desta natureza. 


" Cabo ressaltar quo se RI acontece como resposta privada, necessariamente ola "ostevo fora um dia", ou 
soja, lol modelada pola comumdado verbal Por exemplo, para resolvermos a questão matomático: quanto á 
37 monos 20?, emitiremos a resposta privada do "subtrair", e chegaremos ao resultado “17". Entáo, uma 
rosposta privada ocorreu; no entanto, um dia ela já foi aberta (inúmeras vezos “contamos nos dedos", 
fizemos exercícios em cadornos, fizemos as contas em voz alta e agora a resposta de subtraçao ocorre em 
nivol oncoborto). 


292 Robalo A, H.m.iCO' Daiif R. Robalo Kov.ic 


2. A comunidade, o comportamento verbal e a pesquisa 


Assim como a aprendizagem de qualquer outro comportamento, a aprendizagem 
verbal do discriminação dos eventos encobertos é construída a partir da relação com a 
comunidade verbal. No entanto, ao contrário dos comportamentos abertos, aos quais a 
comunidade tem acesso direto à observação para a instalação da resposta verbal 
discriminativa, nos encobertos a comunidade tem acesso apenas aos eventos públicos 
que os acompanham. Decorre disso uma aprendizagem discriminativa deficiente e a 
variação, para cada sujeito, da relação entre cada resposta verbal descritiva e seus 
respectivos eventos encobertos. A descrição de comportamentos encobertos dificilmente 
será absolutamente precisa, pois o relato verbal nem sempre terá uma correlação perfeita 
com o ovento relatado. A qualidade desta correlação vai depender da história de 
reforçamento e exposição a contingências de descrição destes comportamentos encobertos 
de cada indivíduo. Este é o limite do acesso a comportamentos encobertos com o qual 
temos que lidar. 

A pesquisa sobre eventos encobertos tem que levar em consideração essas 
características, quando busca o acesso aos comportamentos encobertos através do 
relato verbal. 


3. Alguns modelos metodológicos 


Considerando as características dos comportamentos encobertos apontadas até 
o momento, alguns pesquisadores desenvolveram métodos de investigação, partindo do 
relato verbal como dado. 

Simáo (1986) utilizou um procedimento de interação pesquisador-sujeito que 
envolve atividades formalmente planejadas pelo pesquisador para que o sujeito faça relatos 
sobre um fenômeno-toma em uma série de jsessões. Nesse trabalho, era solicitado ao 
sujeito que recordasse aspectos do fenômeno que ele considerasse relevante. Este relato 
era gravado em áudio, transcrito e roapresentado cumulativa e sistematizadamente para o 
sujeito de sessão para sessão, com o objetivo de coletar novas informações. Como efeito 
da interação verbal, observaram-se transformações no discurso e na açào do sujeito ao 
longo do tempo. 

Wielenska (1989) procurou estudar a viabilização do uso desse procedimento em 
sessões de supervisão. Nessas sessões, foram selecionados alguns fenômenos-tema, e 
o sujeito era ontrevistado, consultando suas lembranças sobre sessões terapêuticas que 
havia conduzido, seu relato verbal sobre a atuação gravado em áudio, transcrito pela 
experimentadora e seu conteúdo sistematizado em torno dos problemas trazidos pela 
terapeuta-sujeito. O uso do procedimento foi, ao longo das entrevistas, modificando a 
atuação do terapeuta-sujeito, mostrando que ele era útil no estudo de comportamentos 
(fossem eles abertos ou encobertos), na discriminação de aspectos relevantes da situação- 
problema, etc. 


Sobu* compoit<iim*nto e cognição 293 



Uma possível forma de implementar o estudo de alguns aspectos da relação 
terapêutica seria utilizar o procedimento proposto por Simão em situações de supervisão 
(como foi feito por Wielenska) partindo não apenas de relatos sobre as sessões gravados 
em audio, mas de gravações em video e áudio das próprias sessões terapêuticas e não de 
relatos verbais de lembranças dessas sessões. 

Preocupada há anos com os eventos que ocorrem durante a sessão terapêutica, 
Kerbauy (1996) tem procurado desenvolver um método capaz de obter de terapeutas o 
conhecimento necessário para descrever e entender as relações estabelecidas nessa 
situação. Essa autora desenvolve no momento, junto a uma orientanda, um projeto para 
verificar as variáveis que interferem nas tomadas de decisão dos terapeutas durante as 
sessões. O método consiste na gravação em vídeo e áudio das sessões, com entrevista 
do terapeuta imediatamente após a realização da sessão, concomitantomente à reprodução 
da gravação da sessão. Nessa entrevista, as autoras buscam dados dos eventos abertos 
e encobertos que determinaram as escolhas dos sujeitos-terapeutas para suas 
intervenções. 

Sendo entrevistado dessa forma, o sujeito estaria observando seu comportamento 
expresso de uma maneira mais fidedigna do que quando "consulta sua memória" para 
fazer o relato verbal sobre a sua atuação. 

Um outro centro de pesquisa que busca soluções para o estudo de comportamentos 
encobertos através de relato verbal é o Laboratório de Psicologia Experimental da PUC- 
SP Os trabalhos de seus pesquisadores (Kovac, Zamignaní e Banaco, 1995; Zamignani, 
Kovac e Banaco, 1995; Zamignani 1996) vêm utilizando procedimentos semelhantes ao 
proposto por Kerbauy (1996). 

O objetivo inicial das pesquisas realizadas por esses autores era desvendar quais 
as variáveis estariam operando no controle do comportamento expresso do terapeuta durante 
o atendimento e levantar dados que pudessem responder se os comportamentos encobertos 
do terapeuta que ocorriam durante a sessão faziam parte também dessas variáveis. Num 
primeiro momento, a linha de pesquisa procurou fazer uma comparação entre sujeitos que 
fossem terapeutas experientes (com mais de dez anos de atuação clínica) e sujeitos 
inexperientes (terapeutas em formação). A obtenção de su|eitos inexperientes foi simples, 
pois os autores estavam em constante contato com alunos que cursavam o quinto ano de 
Psicologia. No entanto, os autores enfrentaram uma grande dificuldade para encontrar um 
terapeuta experiente que tivesse disponibilidade de ter suas sessões de atendimento 
gravadas e de participar das entrevistas. Por conta disso, optou-se pela utilização de um 
dos autores (Banaco) como sujeito. Qualquer análise feita a partir de dados obtidos através 
deste sujeito deve levar em consideração o fato de que ele ó um observador diferenciado, 
tanto pelo interesse no assunto em questão quanto pelo conhecimento dos objetivos da 
pesquisa. 

Os dados foram coletados nas sessões ocorridas durante o estágio supervisionado 
da Clínica Psicológica Ana Maria Poppovic, da Faculdade de Psicologia da PUC-SP. Nas 
sossôes, os clientes eram atendidos em grupo de até seis componentes por dois co- 
terapeutas. Um estagiário permanecia dentro da sala de atendimento para registrar as 
sessões cursivamente com papel e caneta; havia um rodízio entre os alunos para a função 
de terapeuta, e o supervisor e os outros alunos do grupo de estagiários assistiam à 
sessão atrás do espelho. Num primeiro momento, foram coletados dados de atendimento 


294 liiibcrto A. Ilm.ico-Paiis Aí. Ztimifin.im Uobeil.i Kov.ic 



nos quais um dos co-terapoutas era o terapeuta experiente (o supervisor). Uma câmera de 
vídeo era colocada atrás do espelho, com o foco centrado no terapeuta. Depois que a 
sessão era gravada, era transcrita integralmente. Em seguida, procedia-se à seleção de 
alguns pontos da sessão considerados relevantes para a pesquisa (algumas alterações 
perceptíveis na expressão do rosto do sujeito, “ajeitar-se" na cadeira, ou um silêncio muito 
grande, etc.). Seguia-se então uma sessão de entrevista na qual o sujeito assistia à 
reprodução da sessão, observando o seu desempenho. As questões formuladas eram do 
tipo: “No momento Y da sessão, você agiu desta maneira (era feita uma descrição verbal 
da ação do sujeito). Vamos ver?". Era reproduzida a fita que continha o registro do 
comportamento do sujeito. Em seguida, era perguntado a ele: “O que é que você estava 
pensando neste momento" ou “O que é que você estava sentindo nessa situação?" diante 
da cena mostrada no vídeo. Eram perguntas básicas para a investigação do comportamento 
encoberto. 

Este procedimento tinha como fundamentação a hipótese de que estímulos 
semelhantes aos que atuaram na sessão de atendimento seriam reaprosentados com a 
reprodução da sessão em vídeo, possibilitando ao sujeito não apenas que ele recordasse 
o que havia pensado e sentido na sessão, mas talvez ter seu comportamento novamente 
sob controle de estímulos semelhantes aos da sessão terapêutica, na qual atuou. 
Obviamente, o procedimento não permite o acesso exatamente ao encoberto emitido no 
momento da sessão, porque já são conhecidas pelo sujeito as consequências que ocorreram 
em decorrência aos seus comportamentos expressos, que eram desconhecidas e 
imprevistas no momento da sessão. 

Mas foi possível levantar, com esse procedimento, alguns pontos de discussão. 
Selecionaremos, a título de ilustração, um trecho descrito de uma das sessões observadas. 

A situação que estava sendo apresentada no vídeo era a seguinte: uma cliente, 
que costumeiramente falava em demasia, tinha acabado de verbalizar por 3 minutos corridos; 
os outros integrantes do grupo (clientes) estavam se dispersando; a pergunta feita ao 
sujeito pelos pesquisadores foi: “E quando você percebe que uma pessoa só está falando 
e o grupo todo está desatento? Como é que você se sente ?" O entrevistado, tendo visto 
na fita a situação registrada, e seus comportamentos abertos, responde: 

"Eu me sinto aflito. Eu me sinto aflito porque eu tô perdendo o controle do 
grupo. Eu quero que o grupo seja agradável pras pessoas pra que elas aumentem 
a chance de estar ah. No que elas começam a se desligar do que está acontecendo, 
aquilo não está sendo reforçador para elas, e eu tô dirigindo, então eu preciso de 
alguma maneira pegar aquilo, mas eu nào posso ao mesmo tempo magoara pessoa 
que está falando, porque ela também é importante e faz parte do grupo e eu tenho 
que estar nessa coisa, eu nào posso perder o grupo e não posso perdô-la. Entào eu 
tenho que arrumar um jeito de estar satisfazendo a todo mundo; então eu começo 
a falar 'hum hum', ‘tá bom', ‘tudo bem', aí eu começo a ficar mais irritado, e eu 
estou tentando dizer isso de uma outra maneira. Que são coisas que eu posso ir 
falando junto com eles, assim como eu falo ‘hum hum', 'sei', ‘ham, ham', nessa 
situação eu falo ‘tá bom', 'tudo bem, 'tá legal', que quer dizer 'corta'. Ai eu começo 
a sinalizar e depois eu faço isso algumas vezes, ai eu corto. Porque eu já dei sinal, 
já dei sinal, se eles nào respondem, ai eu corto e viro pra outra pessoa. "(Kovac, 
1995, p. 48) 


Sobre comport.tmento e cofliiiçilo 



Quando estávamos tentando fazer um exercício de análise funcional de 
comportamentos encobertos, percebemos que a triplico contingência, levando em 
consideração apenas os eventos observáveis, não explicava todo o episódio do forma 
satisfatória A solução encontrada foi desmembrar todo o episódio em várias mmirrelaçoes, 
quo aconteciam todas ao mesmo tempo. Desta forma, descrevemos cadeias paralelas, 
conforme a noçao do colatoralidado proposta por Skinner (1982, 1991). Valo lembrar que o 
S 11 para todas era o mesmo: os 3 minutos da fala da cliente, o desinteresse dos outros 
membros do grupo, etc. 

A partir dessa verbalização, podemos notar várias respostas abertas e encobertas 
acontecendo concomitantementc. O sujeito emito sons, enquanto procuia fornias de 
conduzir o grupo sem perder a atenção dos componentes, sem magoar a pessoa quo esta 
falando, relata quo esteve irritado, procura sinalizar sua irritaçao etc. 

Se forem acoplados os dois esquemas apresentados por Tourinho, o descritivo da 
ornoçao o o cio pensamento, o que estava acontecendo era o seguinte: 


S 1 

S n R, R S" 

Para facilitar a análise, propomos a substituição dos índices numéricos do esquema 
de Tourmho por índices alfabéticos que sejam indicadores do comportamento em questão. 
Assim, seu esquema seria substituído por: 

S' 

s" n p r a s M 




onde R 1 ', quo substituiu R, significa pensamento' e R A que substituiu R significa 'resposta 
aberta' 


Nesse esquema, S ü representa o período de 3 minutos da fala daquela cliente 
especifica, o desinteresse do restante do grupo e a história de atendimento daquele grupo 
por aquele terapeuta; S 1 representa os sentimentos do terapeuta provocados por esse S 1 ’; 
R 1 ’ representa a discriminação destes eventos e a reflexão sobre o que fazer, baseado na 
abordagem teórica; R A representa o comportamento aberto (falas do tipo "sei", "hum, hum" 
etc.) e S" a consequência para o episódio todo, que é a cliente não parar de falar. 

A análise possível da cadeia de comportamentos obtida a partir deste esquema 
pode conduzir a uma interpretação de que S 1 e R 1 ’ estejam ocorrendo concomitante e 
encobertamente, e apenas R' 1 esteja determinando R A (o que seria um erro). Como jiode* 
se perceber, este esquema náo abarca a totalidade das relações descritas pelo 
comportamento verbal do sujeito ao relatar o episódio. Para sermos mais fiéis ao dado 
coletado, necessitamos desenvolver o esquema apresentado de uma forma mais refinada, 


29ó Kolvilo \ H, in.no Prms K. /.imiojuiu Kobfit.i Ko\.n 



|á que para que a discriminação da emoção pudesse ter ocorrido, foi necessário primeira¬ 
mente que a emoção ocorresse. 

Desta forma, poderíamos desenvolver um outro esquema que descreva o 
episódio: 


S° 


S 1 - R° - R 1 ’ 

R A _ 

R” - 


S" 


onde, além das respostas e estímulos já descritos (S 1 , R'\ S ü , R A e S”). foram acrescentadas 
novas respostas: R°- discriminação da emoção - e R 11 - resposta de busca de alternativas 
para mudar a situação. 

Nota-se que além de ter acrescentado duas respostas, oste esquema propoe 
uma reorganização das relações estabelecidas entre as respostas anteriores. Desta forma, 
cadeias paralelas são descritas (conforme a noção de colateralidade proposta por Skinner, 
1982, 1991), mas certamente a colateralidade só pode ser evocada entre S\ R A e R". As 
respostas R D e R p são seqüenciais e só ocorreram porque ocorreu S 1 . Mais complexa que 
esta é a constatação de que R A e R n só perduram no tempo enquanto R p está presente, 
afetando desta forma a noção de colateralidade. Parece que existe uma interação entre 
estas respostas que só terminaria se: 

a) a cliente parasse de falar e/ou outra pessoa do grupo começasse a falar (S"para R A ); 

b) se o sujeito encontrasse na situação um estímulo que pudesse apoiá-lo para a mudança 
do discurso da cliente (S n para R n ); 

c) se o tempo possível de ser esperado para que a mudança ambiental ocorra se extinguir 
o R A fiver que ser mudada (decisão do terapeuta de “ cortar " a fala da cliente). 

Dessa forma, embora as relações entre os elementos da análise fiquem mais 
reveladas, ainda fica claro que será a conseqüência possível para cada uma das respostas 
que afetará o conjunto todo e não uma determinação de S 1 . A partir das possíveis 
consequências (descritas em a, b ou c) a serem fornecidas pelo ambiente, é que as 
respostas todas - abertas e encobertas, operantes e respondentes - mudarão na seqüência 
e terão suas probabilidades de ocorrência no futuro modificadas. 

Assim, se ocorresse o descrito em "a", é possível que o terapeuta ficasse menos 
irritado, deixasse de verbalizar "hum, hum" etc., parasse sua resposta de busca de 
alternativas e iniciasse uma outra resposta de “prestar atenção" a esse novo evento. Se 
ocorresse o descrito em "b", é possível que o terapeuta, através de comportamento verbal, 
introduzisse na fala do cliente o novo elemento que havia aparecido. Se tivesse que optar 
por "c", talvez estivesse "abrindo mão" das consequências de ser receptivo à fala de cliente 
para obter uma outra conseqüência mais reforçada para si - manter a participação de 
todos os mombros do grupo. 

O que fica para ser investigado é a temporalidade e a possível relação entre S 1 , R A 
e R H . Possivelmente o procedimento proposto neste trabalho poderia buscar resultados, 


'íolm* rompoit.imrnlo t cogniç.lo 



através de entrevista elaborada a partirda análise aqui apresentada, que explicitassem 
melhor essas relações. 

Talvez a discriminação dos comportamentos encobertos seja difícil de ser 
obtida, pois a comunidade verbal - ainda que de formação behaviorista radical - não exigiu 
de seus integrantes, ató o momento, esta discriminação refinada de seus comportamentos. 
Esta aprendizagem se faz importante para que o terapeuta possa ter consciência das 
variáveis presentes em seu atendimento. A partir do conhecimento destas variáveis, 
comportamentos expressos podem ser alterados ou reavaliados visando uma melhora de 
seu desempenho. (Zamignani, 1996) 

O episódio abaixo, obtido com a terapeuta inexperiente (S) demonstra que a 
intervenção através da pergunta do experimentador (E) possibilitou a consciência do 
algumas variáveis que interferiram na sua (do terapeuta) atuação: 

E — Então, você continua nessa fala sua, a V. diz: "Ah, eu não acho que seja 
problema...", nem ela, você interrompe e diz: "Então, isso você não acha, mas 
alguma coisa certamente você acha!" 

S - Então, já é com raiva que eu digo isso do tipo, isso que eu acabei de falar, ou 
quero que ela se exponha, entendeu? Eu sei que talvez não seja assim o melhor 
Ieito , mas nessa hora eu tinha raiva mesmo, queria que e/a fa/asse. Porque só e/a 
não tinha problema ali, entendeu? 

E - E você, o que faz com que você ache que ela tem que estar expondo dessa 
forma ? De outra forma e não dessa os problemas dela ? 

S - Minha história pessoal, provavelmente. Me irrita o jeito dela falar como se ela 
não tivesse nenhum problema, sei lá, nem sei. Eu acho que ató, assim, pro objetivo 
do grupo, talvez fosse importante ela expor, pra gente poder trabalhar exatamente o 
que incomoda ela; porque a impressão que eu tenho e que até hoje a gente não 
sabe, agora tá começando a se aproximar melhor do momento que ela começa a 
falar um pouco mais. Mas até então, o quê que ela tava fazendo ali? Se é uma 
pessoa que num... "tá tudo muito bom, tá tudo muito bem, tem uma coisinha que 
incomoda ali, mas nada é problema ." Então sei lá, acho que é importante ela se 
expor pra poder trabalhar isso ali. 

A descrição verbal dos eventos privados do sujeito ocorreu quando os entrevistadores 
perguntam à terapeuta inexperiente: "O que é que você sentiu aqui?” e ela pôde dizer: “eu 
tava com raiva mesmo.” Com esta verbalização e a intervenção posterior dos entrevistadores, 
a terapeuta poderia desenvolver um repertório discriminativo encoberto sobre as relações 
ambientais que provocaram suas emoções e do comportamento expresso que havia acabado 
de ver sendo emitido através da reprodução da fita, o que permitiria a reflexão a respeito de 
outras alternativas comportamentais a serem emitidas em situações semelhantes a essas 
descritas. 

Os exemplos apresentados sugerem inúmeras questões que podem gerar novas 
linhas de pesquisa sobre os comportamentos encobertos na prática clínica. Ressaltamos 
novamenfe que a nossa análise parte fundamentalmente da relação funcional existente 


298 Roberto A. H.in.ico-Pcnis R. Zomifjnom Roberto Kov.ic 



entre os eventos externos (estímulo discriminativo, resposta e consequências) e os even¬ 
tos privados descritos, ou seja, de forma alguma, essa análise descarta a noção de tríplice 
contingência apresentada inicíalmente por B. F. Skinner. A formulação apresentada por 
Micheletto (1995) mostra a coerência deste tipo de análise com a proposta skinneriana: » 

Skinner considera como parte do fazer o que as pessoas pensam e sentem. 
Como ele afirma, "Sentir é tanto um produto da evolução como o fazer. Ele è parte 
do fazer" (1990, p. 1207). Como os sentimentos,",a mente è o que o corpo faz. É o 
que a pessoa faz. Em outras palavras e comportamento ." (1987b/1989, p. 67) 

Os eventos privados não só são parte da ação humana, mas fazem parte dos 
eventos do universo que afetam o organismo. Como Skinner afirma, "o termo 
ambiente significa qualquer evento do universo que afeta nosso comportamento" e 
"parto do universo está dentro de nossa pele" (1953/1965, p. 257) e como tal faz 
parte da determinação; "... partes do corpo entram no controle sensório do que 
fazemos..." (1985/1987, p. 105). Sendo assim, para Skinner, "como as pessoas se 
sentem ó frequentemente tão importante quanto o que elas fazem." (1987a/1989, 
p. 3) 


Durante toda sua obra, Skinner trabalha com o comportamento como objeto 
de estudo, mas a abrangência do que pode ser entendido como comportamento se 
estende no desenvolvimento de sua ciência. A noção de comportamento de Skinner 
abarca a ação humana em toda sua complexidade: os eventos privados, a moral, o 
pensamento, a consciência, a alienação e a própria ciência." (grifos nossos) 


Consideramos que este é um caminho promissor na explicitação dessas questões, 
tao importantes para a área. Este trabalho propôs-se apenas a iniciar esta discussão, que 
e bastante complexa e que exigiria um aprofundamento teórico, metodológico e volume de 
pesquisa muito mais rico e volumoso que o executado para este trabalho. 

Finalizando, apresentaremos algumas considerações a respeito do porquê estudar 
o comportamento encoberto, seja ele do cliente ou do terapeuta: 

• primeiramente porque os clientes (e muitas vezes os terapeutas) estão mais acostumados 
a falar deles - dos encobertos - do que das situações ambientais que controlam as suas 
respostas. 

• em segundo lugar, porque se falam sobre estes comportamentos, eles podem aprender 
e melhorar as suas relações sociais. As nossas relações sociais estão fundamentadas 
em falas desse gênero. Aprendemos a nos expressar em nossas relações interpessoais 
através do verbalizações como: eu gosto disso, isso é legal! eu não gosto, estou triste, 
etc. não é comum ouvirmos falas do tipo: “você reforça meu comportamento por estar 
desse jeito”, ou coisas semelhantes. 

• em terceiro lugar, defendemos que os terapeutas continuem perguntando sobre os eventos 
internos. O cliente muitas vezes discrimina o que sentiu (culturalmente falando, nossa 
comunidade verbal prioriza esse tipo de respostas discriminativas) e não discrimina as 
relações ambientais que controlaram seu comportamento (novamente dado ao fato de que 
nossa cultura, montalista, não prioriza esto tipo de eventos). O pedido para observar evento 


Sobre comporbimento r coflniç.lo 299 



interno exige que o cliente observe a si próprio e aos outros para que venha a discriminar 
tanto o efeito que o mundo tem sobre ele quanto o efeito que ele tem sobre o mundo. A 
literatura de laboratório elucida quais são as operações que ocorrem no ambiente e que 
fazem com que o cliente vivencie determinados comportamentos emocionais. Assim, 
conhecendo estas relações, temos condições de analisar verbalizações apresentadas 
pelo cliente do tipo: “senti raiva naquele momento", quando ele não consegue descrever a 
relação ambiental que provocou aquele evento encoberto. Essa forma de análise está 
melhor descrita por Skinner(1991), 

"A análise das contingências ambientais “não significa porém que os terapeutas 
comportamentais nunca devam perguntar aos seus clientes o que elos estão 
sentindo ou pensando. A partir das respostas dos clientes é possível inferir alguma 
coisa sobre suas histórias, genética e pessoal. De fato, fazer tais perguntas é 
freqüentemente a única forma de que os terapeutas dispõem para aprender sobre 
uma dada história pessoal. Faltam-lhes as facilidade necessárias para investigações 
diretas, e investigar sem permissão é antiético. No entanto, perguntar sobre 
sentimentos e pensamentos è apenas uma conveniência - a verdadeira conveniência, 
de fato, que explica porque as pessoas têm perguntado sobre e por tantos séculos 
- e devemo-nos voltar para variáveis mais acessíveis se quisermos promover uma 
análise científica, ou então usá-la para fazer alguma coisa em relação a problemas 
pessoais", (pp. 108e 109) 


Bibliografia 


BANACO, R A. (1993): O Impacto do Atendimento sobre a Pessoa do Terapeuta. Temas 
em Psicologia. 2. p. 71 - 79. 

CATANIA, A.C. (1993). Learning. Englewood Cliffs, NJ.: Prentice*Hall (3 a edição). 

DELITTI, A. M. C. (1991): Análise Funcional do Relato de Sonhos. Mesa redonda 
apresentada na XXI Reunião Anual de Psicologia da Sociedade do Psicologia do 
Riboirão Preto. Ribeirão Preto, 1991. 

DELITTI, A. M. C. & MEYER, S. B. (1995): O Uso dos Encobertos na Prática da Terapia 
Comportamental. In: Rangè, B. (orgj Psicoterapia Comportamentalo Cognitiva 
de Transtornos Psiquiátricos - Campinas, SP: Editorial Psy, 1995, p. 269 - 274. 

GUEDES, M. L. (1993a): Equívocos da Terapia Comportamental. Temas em Psicologia2, 
p. 81 «05 

_ (1993b): Behaviorismo Radical e Subjetividade. Texto proferido durante o II En¬ 
contro Brasileiro da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina 
Comportamental. Campinas, 1993. 

GUILHARDI, H. J. (1995): Um Modelo Comportamental de Análise de Sonhos. In: Rangè, 
B. (org.) Psicoterapia Comportamental e Cognitiva de Transtornos Psiquiátricos- 
Campinas, SP: Editorial Psy, 1995 p. 257 - 267. 


300 Robalo A. H.tinico Paus R. Z.imitfn.mi-Rabal.i Kov,ic 



KERBAUY, R.R. (1996) Pesquisa em Terapia Comportamental. Cadernos de Pesquisa: 
Registros e Anotações. Junho, 5, 84-93. São Paulo - Setor de Pesquisa, 
Documentação e Publicação da Clínica do Instituto Sedes Sapientiae. 

KOVAC, R.; ZAMIGNANI, D.R. o BANACO, R. A (1996). The role of Private Events as 
Control Variable in therapeutic sessions: collaterality or determinism?. Trabalho 
apresentado na 22nd Annual Convention of Association for Behavior Analysis, em 
San Francisco - EUA, 27 de maio de 1996. 

MEYER, S. B.(1990): Tópicos Avançados em Terapia Comportamental. Mesa redonda 
apresentada no IV Encontro Paranaense de Psicologia. 

SIMAO, L. M. (1982); Estudo Descritivo Das Relações Professor - Aluno, APUD: MOTTA, 
M. M. M.: Estudo de um Instrumento de Coleta de Dados Através de relatos 
Verbais. Tese de mestrado não publicada, Universidade de São Paulo, Instituto de 
Psicologia, 1991. 

SKINNER, B. F. (1982): Sobre o Behaviorismo- São Paulo: Ed. Cultrix 

(1989): Ciência e Comportamento Humano — São Paulo: Martins Fontes Ed., 
1989 - 7 a edição. 

(1991): Questões Recentes na Análise Comportamental- Campinas, SP: Papirus. 

WIELENSKA, R. C. (1989): A Investigação de Alguns Aspectos da Relação Terapeuta - 
Cliente em Sessões de Supervisão. Tese de Mestrado não publicada, Universidade 
de São Paulo, Instituto de Psicologia. 

ZAMIGNANI, D. R. (1996) Psicoterapia Comportamental em Grupo na PUC-SP: uma análise 
de variáveis envolvidas no processo de supervisão clínica. Trabalho de Conclusão 
de Curso apresentado à Faculdade de Psicologia da PUC-SP como parte dos 
requisitos necessários à obtenção do título de psicólogo. 

ZAMIGNANI, D.R.; KOVAC, R, e BANACO, R. A . (1996) The behavior therapist practice: 
a study about the control variables that may be in operation during a therapeutic 
session. Trabalho apresentado durante a 22nd Annual Convention of Association 
for Behavior Analysis, em San Francisco - EUA , 25 de maio de 1996. 


Solm* comporl.tmnilo c ro^mç.u» 



Seção VII 


A prática clínica e a 
produção científica 



Capítulo 31 


O terapeuta é um cientista? 

Sérgio Vasconcelos dc I uini 

ruc/sr 


M eu artigo pressupõe uma declaração necessária: não sou, não fui um 
terapeuta nem tive formação para sê-lo. Qualquer competência que possa me autorizar a 
tratar deste tema vem do lado da pesquisa. Por outro lado, considerando-se que este fato 
ó conhecido da organização deste livro, imagino que a idéia é mesmo a de ter alguém 
falando como pesquisador, e não como terapeuta. 

As primeiras considerações que me ocorreram sobre o tema não foram muito 
claras e eu atribuí as ambiguidades ao título. Mesmo trocando a palavra cientista por 
pesquisador (o que ajudou), eu não resolvia o problema. Não imaginava que se pudesse 
estar perguntando se todo terapeuta era um pesquisador e, muito menos, se algum 
poderia sê-lo. Afinal, muitos terapeutas têm produzido e divulgado conhecimento de 
qualidade, e este encontro - assim como os anteriores - é prova disto. Nesta linha de 
raciocínio, concluí que a questão importante a responder era em que condições um 
profissional pode ser -sistematicamente - pesquisador e terapeuta ao mesmo tempo 7 
Em outras palavras, é possível que ele produza sistematicamente conhecimento durante 
ou a partir de sua atividade como terapeuta? 


Sobre comportiimrnto e coflnlç.lo 305 


Esta pergunta está circunscrita dentro de um problema com o qual tenho me 
ocupado (Cf. Luna, 1989 e Luna, 1992): trata-se da distinção entre o pesquisar e o prestar 
serviços, e eu gostaria de gastar algum tempo tratando dela. 

Independentemente do referencial teórico/metodológico do profissional, uma 
pesquisa - teórica, empírica ou de qualquer outra natureza - pressupõo necessariamente, 
a meu ver, quatro requisitos: 

a) a existência de uma pergunta cuja resposta ó importante encontrar porque configura 
conhecimento novo; 

b) a elaboração (e sua descrição) de um conjunto de passos que permitam obter infor¬ 
mação necessária para chegar à resposta; 

c) um sistema de referência que permita tratar e analisar as informações obtidas; 

d) a indicação do grau de confiabilidade na resposta encontrada (em outras palavras, por 
que aquela resposta, nas condições da pesquisa, é a melhor resposta possível?). 

Estes elementos permitem caracterizar mais claramente a distinção entre o 
pesquisar e o prestar serviços. Os critérios de relevância que presidem a formulação de 
um problema de pesquisa levam a esperar que a resposta a ser obtida ao final da pesquisa 
- constatada a correção metodológica - seja relevante para a comunidade científica por 
preencher uma lacuna importante no conhecimento disponível. Dessa forma, pesquisa e 
sempre um elo de ligação entre o pesquisador e a comunidade científica, razão pela qual 
a sua publicidade é elemento indispensável do processo de produção de conhecimento. 
Conhecimento não divulgado não é conhecimento, e seu produtor não é pesquisador. 

Nos projetos de prestação de serviços, o profissional (não necessariamente o 
pesquisador) defronta-se com um interlocutor (indivíduo, grupo, comunidade) que apresenta 
um problema que, para maior facilidade de comunicação, identificarei aqui como "queixa". 
Cabe ao profissional identificá-la (ou levar o seu cliente a fazê-lo) e colocar sua competência 
a serviço do encaminhamento de soluções. Desta forma, um projeto de intervenção parte 
da “queixa" e tem como ponto de chegada, a sua solução. Se isto ocorrer, ter-so-á 
configurado uma bem-sucedida prestação de serviços. 

A aparente obviedade destas considerações começa a ser abalada quando se 
consideram projetos do intervenção que se pretendem pesquisas e/ou que são relatados 
como tais. Nestas circunstâncias, tenho observado a ocorrência de certas configurações 
que merecem consideração. Comento pelo menos duas. 

Configuração 1. O projeto é relevante pelos seus efeitos (isto é, profissional e 
cliente consideram-se satisfeitos com os resultados) mas não há indicação de seus 
procedimentos, nem avaliação dos resultados; em outras palavras, torna-se difícil até 
caracterizar a ação profissional, seja de pesquisa, seja de intervenção. 

Configuração 2. O relato da pesquisa dá conta da queixa o da sua solução; 
contudo, nem queixa nem solução são relevantes para a comunidade científica, na medida 
em que não constituem conhecimento novo para ela. Embora pais possam ficar aliviados 
por saberem que a enfermidade de seu filho foi identificada e curada, dificilmente o médico 
dele iria a um congresso para comunicar seu procedimento para identificar sarampo e 
tratar dele. 

Em resumo, independentemente da relevância de que cada uma destas atividades 
se reveste, pesquisa e prestação de serviços não se confundem, nem mesmo quando 


306 Sfrtfio V.iíconcdos ile I un.i 



ambas são desenvolvidas conjuntamente. Por mais verdadeiro que seja o fato de que 
teoria e prática precisam interagir continuamente, e por mais indiscutível que seja a 
necessidade do compromisso do pesquisador com a transformação da realidade, 
permanece o fato de que ambas - pesquisa e prestação de serviços - têm interlocutores 
diferentes o desempenham funções diferentes no processo de desenvolvimento do 
conhecimento. 

Estas declarações deveriam ser suficientes para estabelecer minha posição quanto 
ao valor indiscutível de cada uma destas atividades e, sobretudo, da importância fundamental 
da troca contínua entre os respectivos profissionais. Mas a pergunta que me fizeram ó 
outra e pode ser reformulada agora: é possível que o terapeuta produza sistematicamente 
conhecimento novo (portanto, relevante para a comunidade científica) enquanto intervém 
na situação profissional? Note-se que não se questiona se ó possível que um terapeuta 
seja também um pesquisador. Eu comecei minha fala afirmando esta possibilidade. 

A questão que me coloco é se sua atividade profissional enquanto terapeuta pode 
atender aos requisitos vigentes para caracterizar a pesquisa. 

Acredito que possíveis respostas a esta questão possam advir da análise de 
prováveis contingências a controlar atividades do pesquisador o do terapeuta. 

Eu mencionei, há pouco, requisitos mínimos que permitem caracterizar uma 
pesquisa. Embutido nestes requisitos, existe um sistema de referência e de controle, 
nem sempre explicitado, mas inexorável. Por exemplo, quem decide, referenda a importância 
da resposta que se procura buscar? Seria ingênuo pressupor que baste o julgamento do 
próprio pesquisador. Da mesma forma, de onde vêm os critérios que o pesquisador deve 
satisfazer para afirmar (e ter credibilidade ao fazê-lo) que a resposta encontrada ó a melhor 
resposta possível? 

A resposta a estas e muitas outras perguntas semelhantes aponta para um sistema 
de avaliação/referendo exercido, em muitos níveis diferentes, pela comunidade de pares 
do pesquisador. Este sistema começa com a disseminação genérica dos referenciais 
teórico-metodológicos aceitáveis para a produção de conhecimento em um determinado 
tempo (a história da ciência mostra quanto eles são sujeitos a mutação) e desce a níveis 
menos sutis representados por pareceres a trabalhos submetidos a financiamento ou à 
publicação e pela avaliação realizada a teses e dissertações na Pós-Graduação (trajetória 
meio inevitável ao postulante a pesquisador). 

Em síntese, o pesquisar desenvolve-se segundo normas gerais estabelecidas e 
controladas pelo próprio grupo de pesquisadores. Como em qualquer outra confraria, a 
adesão a estas normas é condição para o estabelecimento do status de cada um em 
particular e de todos, em geral. Para que este processo ocorra, é necessário que os 
produtos da atividade de pesquisa tenham um caráter necessariamente público. 

Por outro lado, como estabelecer estes correlatos em relação ao terapeuta? Que 
contingências existem no sentido de levá-lo a tornar público o seu produto? Sob que 
condições pode ocorrer a avaliação de seus pares? Garantida a habilitação mínima e 
salvaguardado o código de ética, que tipo de controle pode ser exercido sobre a sua 
atividade? Como é estabelecido o status profissional de um terapeuta não-pesquisador? 


Sobrr comportamento e coflmç.lo 307 



Acredito que existam diferenças marcantes entre as contingências controladoras 
destes dois grupos de profissionais e eu analiso, a seguir, as seguintes: 

1. Compromisso epistemológico e ênfase no tipo de formação. 

2. Desenvolvimento metodológico. 

3. Timing da pesquisa e da intervenção clínica. 


1. Compromisso epistemológico e ênfase no tipo de formação 

É muito difícil avaliar o que controla um profissional em sua atividade de posquisa. 
Embora curiosidade e compromisso com o conhecimento sejam motivações elegantes e 
tentadoras, a verdade é que precisamos, antes, descartar uma série de outros candidatos 
sérios a controladores (tais como a necessidade de titulação, exigências contratuais o a 
própria manutenção de status, por exemplo). Além disto, como qualquer outro tipo de 
controle, estes precisam ser instalados ao longo da história de vida. Há consenso de que 
esta instalação precisaria ser iniciada cedo, mas a literatura sobre Ensino de Ciências, 
por exemplo, (tanto a européia quanto a norte-americana) é farta em críticas ao insucesso 
da iniciação de crianças no jogo da Ciência. Em nível nacional, não faltam críticas dos 
próprios órgãos responsáveis pelo ensino à fragilidade da formação em pesquisa que se 
desenvolve ou que nem se tenta desenvolver nos cursos de formação. 

A despeito disso, a comparação entre as formações de futuros terapeutas e de 
futuros pesquisadores, no que diz respeito ao compromisso com a produção de 
conhecimento, fala muito alto a favor dos segundos. Não tenho dados a respeito, mas 
todos os meus indicadores sugerem que a preocupação com a capacitação do profissional 
para a intervenção clínica aliada à multiplicidade de abordagens, cada qual reclamando a 
necessidade de alta especialização, ocorrendo em um tempo exíguo, têm levado os alunos 
a interpretarem a formação em pesquisa ou, pelo menos, a competência teórico- 
metodológica, como mais uma opção profissional, assim como eles optam entre clinica e 
trabalho. Uma das imagens mais claras de que eu guardo dos meus tempos de professor 
de metodologia no curso de graduação é a de alunos justificando seu desinteresse pela 
disciplina por já terem feito a opção pela clínica. Uma aluna chegou a declarar que deveria 
ser dispensada da disciplina porque não pretendia ser cientista! Em conversas com amigos 
terapeutas, durante a preparação deste texto, recebi de um deles um curioso alerta: o de 
que supervisores clínicos (de alunos e de recém-formados) e associações congregando 
terapeutas estariam desenvolvendo um tal nível de supervalorização da intervenção e controle 
sobre ela que não sobraria espaço para se cogitar sobre a produção de conhecimento na 
atuação clínica! 

Um último ponto precisa ser assinalado dentro deste tópico. As discussões que 
se vêm travando nos últimos anos sobre a dissociabílídade ensino-pesquisa e, em 
especial, sobre o caráter profissionalizante do ensino de graduação tendem a reforçar 
uma separação entre aqueles que produzem conhecimento e aqueles que vão consumi-lo 
na atividade profissional. Dentro das universidades, principalmente as particulares, não ó 


308 Sérgio V.iícoikcIüs »le l.un.i 



estranho que se defendam contratos muito reduzidos a determinados professores e se os 
eximam de uma produção compatível com a função da Universidade, sob a alegação de 
que sua experiência profissional é indispensável para a formação do aluno. A alegação é 
perfeita. O que não se justifica é que a sua experiência profissional venha carrear, ao 
aluno, o modelo de uma intervenção que não se compromete com a geração de 
conhecimento novo e sua exposição à crítica. 

Se, de fato, estas análises estiverem corretas, a formação do terapeuta cria poucas 
contingências - se alguma - na direção de um compromisso com a produção de 
conhecimento. Nestas circunstâncias, sobraria aquilo que Gil e Carrascosa (1985) e Hewson 
(1985) chamaram, respectivamente, de compromissos metodológicos e de 
compromissos epistemológicos para manter um profissional pesquisando. Mas, afinal, 
o que teria instalado, em primeiro lugar, tais compromissos? 


2. Desenvolvimento metodológico 


Anos atrás, em um simpósio na Reunião Anual da atual Sociedade Brasileira de 
Psicologia, eu tive oportunidade de analisar a situação da pesquisa aplicada em relação à 
pesquisa básica, dentro da Análise Experimental do Comportamento, e concluí pelas 
tremendas dificuldades que a primeira enfrentava em virtude dos modelos metodológicos 
impostos pela segunda. Embora não seja o caso de retomar aquela análise agora, vale 
ressaltar alguns pontos nela assinalados. 

A natureza dos princípios epistemológicos da AEC, a ênfase na Psicologia enquanto 
ciência natural, os seus pressupostos metodológicos e o longo período de "caça ás bruxas" 
que se abateu sobre os seus adeptos, por exemplo, geraram uma expectativa segundo a 
qual a pesquisa que não pudesse atender aos padrões estabelecidos para e pelo trabalho 
básico de laboratório seria uma pesquisa de categoria inferior ou nem seria pesquisa. Eu 
diria que muito mudou neste cenário nos últimos anos, mas eu tenho a impressão de que 
as mudanças não chegaram a desfazer os efeitos inicialmente produzidos sobre os que 
desenvolvem atividades ditas aplicadas. 

De fato, se, no caso particular da clínica psicológica, tiverem de ser mantidos 
critérios da pesquisa experimental, tais como as análises que permitem identificar 
operantes, os critérios de estabilidade e os procedimentos para identificação da mudança 
comportamental, então a clínica acabará sendo reduzida a um laboratório em que o problema 
de pesquisa assume primazia sobre a "queixa” do cliente. Em outras palavras, devemos 
abrir mão da possibilidade de que a AEC venha a permitir a pesquisa durante a intervenção 
clínica. 


Não acredito que se|a esse o caso, mas suspeito de que seja esta a interpretação 
vigente. Eu tenho um antigo projeto, nunca concretizado, de procurar entender porque 
alguns brilhantes o críticos analistas do comportamento abandonaram a AEC, justamente 
no momento em que abandonaram a área acadêmica ou assumiram atividades profissionais 
fora dela. Porque brilhantes, eles poderão nos convencer da insuficiência da abordagem 
para além dos (imites da pesquisa. Mas porque críticos poderão ter abandonado a AEC 


Sobre comport.imrnto e cogniç.lo 309 



por sucumbirem ao peso das exigências metodológicas em uma situação adversa e 
exigindo intervenção precoce. 

Um dos piores vícios da AEC, ao meu ver, foi o que eu sempre chamei de 
"fetichização" do procedimento, ou seja, situações (e há vários exemplos delas) em que o 
comportamento ó escolhido para estudar o procedimento, e não vice-versa, o que sô se 
justifica enquanto pesquisa metodológica. Aliás, eu temo que isto já esteja ocorrendo em 
relação às relações de equivalência! 

Além deste fetiche - ou por causa dele - a AEC mostrou-se extraordinariamente 
lenta em desenvolver tecnologias alternativas que - sem prejuízo dos pressupostos 
epistemológicos e dos critérios metodológicos - atendessem às peculiaridades dos vários 
fenômenos em que comportamentos estão envolvidos. Com isto, acabamos circunscrevendo 
a natureza e o tipo de fenômenos que podemos estudar, fazendo com que a critica do 
behaviorismo radical ao behaviorismo metodológico servisse também a ele. I fá muito tempo, 
Kantor (1970) foz em vão esta crítica à AEC. 

Sob este ponto de vista, não chega a ser surpreendente se os profissionais voltados 
para a prestação de serviços de fato não produzirem conhecimento, embora caiba também 
e principalmente a eles a criatividade metodológica. No entanto, a situação de intervenção 
clínica é um dos maiores celeiros de um fenômeno que os pesquisadores, de alguns para 
cá, passaram a privilegiar: o relato verbal. Mais do que isto, as pesquisas produzidas 
sobre o assunto, a despeito dos cuidados tomados, frequentemente pecam por um aspecto 
sobre o qual o terapeuta tem quase total controle: o contexto. Dificilmente um pesquisador 
terá oportunidade de discriminação e de generalização dos controles que se exercem 
sobre o comportamento verbal de um indivíduo quanto aquela facultada a um terapeuta. E 
aos que hesitarem quanto à validade metodológica, para a AEC, de uma pesquisa não- 
experimental sobre relatos verbais, basta lembrar que o Verbal Behavior (Skinner, 1957) 
é um belo exemplo de tradução, de interpretação não-experimental dos princípios 
estabelecidos experimentalmente pela AEC. 

Em conclusão, as características teórico-epistemológicas da AEC, firmadas com 
base na pesquisa experimental de laboratório, não favorecem o trabalho daqueles que se 
dedicam à prestação de serviços e, eu diria, em particular aos terapeutas. Ao mesmo 
tempo, nem sempre está claro quanto estas características são parte integrante de um 
modelo teórico-epistemológíco de produção de conhecimento e quanto representam, 
apenas, as necessidades da pesquisa básica em relação aos problemas propostos para 
estudo. 


Estas circunstâncias podem ajudar a explicar porque, durante muito tempo, 
profissionais que se dedicavam à prestação de serviços evitaram a divulgação de seus 
trabalhos em encontros mais gerais: esta poderia ter sido a forma encontrada de evitar a 
aversividade das críticas - admitidamente pesadas. Embora muitos trabalhos possivelmente 
merecessem mesmo a crítica, outros poderiam estar sendo discriminados por ousarem 
destoar do modelo metodológico imposto pela pesquisa basica. 

Por outro lado, pesa também sobre estes prestadores de serviços a morosidade 
ou a inércia no desenvolvimento de tecnologia eficiente e adequada aos fenômenos sobre 
os quais trabalham. 


310 Nórtflo V.istoncelos ilc l.uiw 



3. Timing da pesquisa e da intervenção clínica 


Este tópico representa um desdobramento do anterior, mas com peculiaridade 
suficiente para ser analisado a parte. Grande parte do fetiche do procedimento, a que me 
referi há pouco, e quase com certeza da morosidade no desenvolvimento de tecnologia 
procedual, advém de uma deformação no nosso procedimento de ensino em geral, e da 
AEC em particular: trata-se da tendência a transmitir fatos, regras, procedimentos, em 
vez de se ensinar o indivíduo a pensar; no nosso caso, a pensar em termos de contingências. 
Tal aprendizado ó fundamental para que a AEC possa se constituir verdadeiramente em 
uma maneira eficiente de se lidar com o comportamento onde quer que ele ocorra, e nas 
circunstâncias em que ocorrer. 

A importância deste fato para o tema em questão decorre da comparação entre a 
situação com que se defrontam o pesquisador e o terapeuta em seus respectivos contextos 
do trabalho. Para começar, enquanto o pesquisador tem quase todos os graus de liberdade 
para escolher o seu problema de pesquisa, o âmbito em que pretende estudá-lo, estabelecer 
os critérios para a seleção de sujeitos e escolher dentre as alternativas metodológicas 
possíveis, ao terapeuta cabe, no máximo, em geral, discriminar, dentre os seus casos 
clínicos, aqueles com menor possibilidade de ruído. 

Em segundo lugar, e talvez mais crucial para o problema em questão, esta o 
papel desempenhado pelo cliente em relação àquele desempenhado pelo sujeito de 
pesquisa. Com exceção do caso de um terapeuta diretivo, em uma terapia diretiva, o 
timing do processo terapêutico está muito mais na dependência do cliente do que do 
terapeuta. Por outro lado, em condições gerais, o timing de uma pesquisa fica mais sob o 
controle do pesquisador do que do sujeito, até porque este pode vir a ser substituído. 

Nestas condições, resta ao terapeuta que pretenda produzir conhecimento enquanto 
intervindo na situação clínica, o desenvolvimento de um raciocínio metodológico ágil e 
criativo que permita, ao mesmo tempo, manter-se sob o controle das necessidades do 
cliente e daquelas da comunidade que julgará a sua produção. Como já foi dito antes, do 
ponto de vista epistemológico, o que interessa à comunidade é o conhecimento novo 
produzido, não o bem-estar do cliente; obviamente, do ponto de vista do cliente, a direção 
é inversa! 


4. Refazendo um caminho 


Em vez da pergunta inicial "O terapeuta é um cientista”, eu me propus a avaliar 
sob que condições um profissional pode, sistematicamente, ser um terapeuta e um 
pesquisador ao mesmo tempo. Confesso que saí deste trabalho bastante diferente do 
modo como entrei nele. Mais do que qualquer coisa que eu possa ter lido a respeito do 
assunto, acredito que tenha pesado o exercício de tentar, concretamente, interpretar 
possíveis contingências de um lado e de outro dos dois pólos de atividades. 

O resultado deste exercício é, para mim, ambíguo. Nos termos das análises que 


Sobre compoit.imento e copniç.lo 311 



fiz e que apresentei, aqui, minhas conclusões levam-me a dizer que as contingências são 
todas desfavoráveis e que, portanto, a junção das duas atividades é pouco provável de ser 
mantida sistematicamente. Mas há um outro conjunto de elementos que precisam ser 
considerados e que foram me empurrando, ao longo de minhas reflexões, para um outro 
caminho de análise. 

Em nenhum momento, ocorreu-me ser necessário explicitar o que eu chamava de 
pesquisa ou produção de conhecimento. Mas tudo leva a crer que este seja um elemento- 
chave dentro desta questão. Se por este termo estivermos entendendo a pesquisa 
experimental, valem as análises feitas até aqui. Por outro lado, de há muito se vem insistindo 
em uma distinção importante entre o que seria a Análise Experimental do Comportamento 
e a Análise do Comportamento. Também há muito tempo os etólogos simpatizantes do 
Behaviorismo Radical de Skinner (por exemplo, Warren e Warren, 1977) vêm apontando 
quanto a AEC teria a ganhar se usasse o seu arsenal conceituai para entender se as 
relações que se estabelecem foram das condições artificiais do laboratório. Além disso, 
conforme já apontado aqui, poucos pesquisadores disporão, em momento algum, das 
condições privilegiadas dos terapeutas no que diz respeito ao uso, importância e significado 
dos relatos verbais. 

É perfeitamente conceptível, para mim, o desenvolvimento de um tipo de pesquisa 
por terapeutas em que fenômenos simulados pelo laboratório sejam colocados à prova na 
situação clínica. Em que a generalidade ampla de alguns princípios possa ser reduzida 
em favor de uma compreensão maior de fatores com possibilidade de interferir nos 
fenômenos contemplados. 

Provavelmente, isto não será possível com todos os casos clínicos com que se 
defronta um terapeuta, mas o compromisso com a produção de conhecimento poderá vir 
a desenvolver o que chamei de criatividade metodológica e tornar essa possibilidade cada 
vez mais concreta. 

A minha ambigüidade frente à pergunta, a que me referi há pouco, decorre do fato 
de dar-me conta de que ela vem sendo formulada, há muito tempo, dentro de um contexto 
que não é o da situação clínica; consequentemente, as respostas estarão demarcadas 
pelos mesmos parâmetros que circunscreveram a pergunta. Entretanto, acredito que a 
situação possa ser alterada. Se vocês me permitem a pretensão, gostaria de concluir com 
sugestões nesse sentido. 

a) O que deve nos reunir não ó uma curva acumulada, uma linguagem, nem um conjunto 
de procedimentos, mas uma maneira de encarar as relações recíprocas entre 
comportamento e meio. 

b) Há imensas lacunas no conhecimento de que dispomos sobre essas relações e 
provavelmente muitas maneiras diferentes de produzi-lo. Se pudermos nos concentrar na 
demonstração da funcionalidade do conhecimento produzido, provavelmente reduziremos 
os ruídos que se estabelecem sobre as melhores maneiras de produzi-lo. 

c) Esta concentração na funcionalidade do nosso conhecimento dependerá do esforço 
conjunto daqueles que se dedicam à produção do conhecimento, à prestação de serviços 
e, sobretudo, daqueles que conseguirem produzir conhecimento enquanto intervêm na 
situação natural. 

d) Valerá a pena tentarmos este esforço coletivo; mas será ainda mais proveitoso se 
conseguirmos eliminar os vícios de formação, especialmente aqueles que transformam a 


312 Sérflio V.itcüiicdo* de l.utni 


competência teórico-metodológica e a produçào de conhecimento em opção, em vez de 
fazer dela um compromisso epistemológico com a Psicologia, e etico com o cliente e com 
o homem. 


Bibliografia 


GIL, D. e CARRASCOSA, J. (1985) Science learning as conceptual and methodological 
change. European Journalof Science Education, 7(3), 231-236. 

HEWSON.P.W. (1985) Epistemologicalcommitments in the learning ot Science. European 
Journal of Science Education, 7(2), 163-172. 

KANTOR, J. R. (1970) An analysis of The Experimental Analysis of Behavior (TEAB). 
Journal of Experimental Analysis of Behavior, 13, 101-108. 

I UNA, Sérgio. V. de (1989) O falso conflito entre tendências metodológicas. Em, I. Fazen¬ 
da (Org.), Metodologia da Pesquisa Educacional. São Paulo: Cortez Editora. 

_(1992) Prestar serviços e pesquisar: algumas distinções necessárias. Universi¬ 
dade e Educação. Coletânea CBE. Sào Paulo: Papirus. 

SKINNER, B, F. (1957) Verbal Behavior. New Jersey: Prentice-Hall. 

WARREN, A. R. e WARREN, S.F. (1977) Ecological Perspectives in Behavior Analysis. 
Baltimore: University Park Press. 


Sobre comporl.imeiilo v cofiiiiç.lo 313 



Capítulo 32 


O mundo dentro e fora do 
duas faces de uma mesma 


laboratório: 

realidade 1 


M.iri ,i I Iclcini l.cilc I lün/ikcr* 

1 * 7 ’ 


F^ra o leigo, o laboratório de pesquisa aparenta, muitas vezes, artificialidade 
suficiente para permitir a suposição de que ele nada tem em comum com a vida real: é 
como se os mundos dentro e fora do laboratório fossem dois mundos distintos. Nada mais 
enganoso. O mundo existente dentro de um laboratório ó parte de um todo, de uma única 
realidade que apenas na aparôncia difere do que se passa do lado de fora. Sem qualquer 
exceção, os princípios que regem os fenômenos ali estudados são os mesmos que regem 
a realidade cotidiana. Se assim não fosse, nosso conhecimento sobre física não teria 
evoluído tanto com a maça que caiu sobre a cabeça de Newton, ou com a agua que 
transbordou da banheira de Arquimedes. Por serem parte de uma única e indivisível realidade, 
os mundos dentro e fora do laboratório estão contmuamente se alimentando na busca do 
conhecimento. 

A pergunta básica que move o cientista é muito mais frequente no quotidiano do 

Toxlo baseado na palestra profonda no IV Encontro Brasiloiro do Psicotorapia o Modicina Comportamontal, 
ern Campinas (SP). 1995. 

^Pesquisadora do CNPq 


314 M.iri.i I Iclcn.i I oito I lün/ikoi 



que se supõe. Cada vez que um indivíduo se pergunta "Por quê?", está iniciado um processo 
de investigação. Nesse sentido, poder-se-ia dizer que cada ser humano, atém de médico 
e louco, de cientista também tem um pouco . Então, nessa busca do conhecimento, o 
que diferencia o homem comum do cientista que trabalha dentro de um laboratório? 
Provavelmente, a principal diferença entre eles seja o método de investigação, isto é, a 
forma como eles buscam as respostas para as suas perguntas: enquanto o homem comum 
busca suas respostas de maneira assistemática, o cientista se utiliza de uma metodologia 
de investigação que, em princípio, é mais econômica, gerando mais resultados com menos 
esforço dispendido. Ao uhlizar o método experimental, por exemplo, o cientista controla 
as variáveis que supostamente determinam o fenômeno em estudo, manipula algumas 
delas, eliminando as que não se confirmam como relevantes, até que sejam identificadas 
as que são críticas para a sua compreensão, 

Essa metodologia de trabalho, por sua vez, é derivada de algumas crenças que o 
cientista tem a respeito do mundo. Por exemplo: 1) nada ocorre ao acaso; 2) todos os 
fenômenos são parte integrante da natureza; 3) existe ordem e regularidade na natureza . 
As mesmas crenças podem, ou não, ser assumidas pelo homem comum, mas não se 
pode ser cientista sem elas . Assim, a investigação científica é decorrência de uma forma 
de se ver a realidade, sendo a ciência simplesmente uma dentre as muitas formas de 
conhecimento que o homem utiliza desde que começou a se perguntar "por quê?". 

Atualmente, o pensamento científico não colide com as crenças da nossa cultura 
sobre o mundo em que vivemos. Por exemplo, diferenternente do que ja ocorreu no passado, 
hoje em dia nenhum de nós corre o risco de ser condenado à morte por afirmar que a Terra 
gira em torno do Sol, nem é ridicularizado por afirmar a existência de seres invisíveis a 
olho nu, como bactérias e vírus. Esses avanços da ciência já foram incorporados ao 
pensamento da nossa cultura sem representar qualquer tipo de ameaça à sua existência. 
Contudo, o pensamento científico, aplicado ao estudo do comportamento humano, ainda 
é visto como uma ameaça aos valores culturais mais aceitos. 

Tais valores dizem respeito ao dualismo aplicado apenas ao ser humano. 
Resumidamente, a nossa cultura ocidental considera que o Homem é algo a parte do 
restante da natureza: enquanto os animais são seres compostos apenas pelo seu corpo 
(proposta monista), o ser humano seria o único provido de uma seguncia natureza não 
física, correspondente a alma ou mente (proposta dualista 6 ). É a existência dessa natureza 
imaterial que tem mantido na espécie humana o seu senso de superioridade frente aos 
demais seres vivos (e daí ser fácil compreender a resistência em se deixar de lado essa 
proposta). 

A perspectiva dualista de Homem não conflita com a investigação experimental 


Roforôncia no dito popular "Do módico o louco, cada um tom um pouco". 

A 

Mesmo os fonómonos ditos caoticos sâo ostudnaos a partir desses princípios. Considera-se quo há umn 
lócjicn intornn no caos: sor caótico nâo significa sor ao acaso. 

''Considorando-se quo a ciência abordada nosso texto ê a experimental 

"importante destacar que esse dualismo se caracteriza exatamente pelo fato de a alma. ou mente, serem 
consideradas do natureza nâo física, A mento, entendida dentro de um referencial fisiológico ou 
comportnmental, num mesmo plano do outros eventos biológicos, nâo caracteriza esse dualismo. 


Vibre compoit.imcnto v cognição 315 



do corpo humano, embora no passado isso já tenha ocorrido. Na história da Medicina, é 
bem documentado o fato de que, nos tempos medievais, era considerado um sacrilégio a 
investigação do interior do corpo humano por se acreditar que ele fosse a embalagem da 
alma: incisões no corpo humano significariam violações da alma, e eram por isso rejeitadas . 
Apenas quando essa crença se modificou, foi possível o desenvolvimento da medicina, 
sendo hoje raras as pessoas que não tenham se beneficiado diretamente dos seus avanços. 

Ultrapassada a barreira do “sagrado" e intocável no que diz respeito ao corpo 
humano, falta ainda ultrapassá-la no que diz respeito ao seu comportamento. O tratamento 
dessa questão reflete dirotamente na psicologia, sendo diversas as abordagens assumidas 
pelos profissionais da área. A abordagem mais radical, parte do dualismo para afirmar que 
o ser humano não é passível de ser estudado cientificamente: pode-so pensar sobre o 
Homem (como o faz a Filosofia há séculos), mas não se podo conhecê-lo de uma forma 
oxperimontal, nem buscar a existência de "leis" gerais que regem seu modo de sor. Ta! 
posicionamento, já predominante no passado, é minoritário na ciência atual. 

Uma segunda abordagem dualista, porém menos radical, considera que o Homem 
pode ser investigado cientificamente, desde que para isso se utilizem métodos diferentes 
dos utilizados para a investigação do restante da natureza: a existência das categorias 
"ciências naturais" e "ciências humanas" expressa essa distinção. 

A psicologia, como ciência humana, tem a mente como seu objeto de estudo. 
Consequentemente, é freqüente ser encontrada entre os psicólogos a convicção de que o 
conhecimento da área só pode ser produzido na investigação direta com seres humanos: 
se a mente é própria apenas da espécie humana, o conhecimento sobre o comportamento 
de outras espécies não pode auxiliar na compreensão do Homem. Tal posicionamento 
limitou durante muito tempo o uso do laboratório nas investigações psicológicas pois 
esbarrava constantemente nas limitações éticas e práticas de investigações com seres 
humanos. Enquanto essa posição dominou a psicologia, foi pequeno o desenvolvimento 
dos seus conhecimentos em nível experimental. 

Apenas no último século, o Homem passou a ser reconhecido como parte 
integrante da natureza, e como tal, teria seu comportamento regido por leis naturais. Ao 
propor que a espécie humana ocupa, hoje, o topo da escala animal simplesmente porque 
suas características foram selecionadas ao longo de um processo evolucionário, comum 
a todas as espécies, Darwin aproximou qualitativamente o ser humano do restante dos 
seres vivos. Com essa perspectiva evolucionista, o conhecimento obtido sobre 
comportamento de outras espécies passou a ser um instrumento precioso para a 
compreensão do ser humano. Em consequência, a Psicologia experimentou um grande 
avanço como ciência experimental, e passou a ser posicionada dentro do quadro de 
referências das ciências biológicas 

Duas abordagens do comportamento decorrem dessa concepção evolucionista: 
1) o dualismo é adotado para todas as espécies que, como o Homem, passam a ser 
analisadas em função do corpo e mente, sendo seus comportamentos considerados 


; Nos dias atuais ainda são encontradas cronças como essas, derivadas da ligação corpo/almn. que impodom 
algumas intervenções no organismo Por exemplo, as religiões que acreditam que o sangue “contém" n 
alma, impedem a realização de transfusões de sangue 


31 ó M.iri.i I Iclcn.i I cito I tün/ikfr 


expressões de fenômenos biológicos e mentais; 2) o monismo passa a ser aplicado a 
todas as espécies, inclusive o ser humano que teria seu comportamento analisado como 
fenômeno biológico. Ambas as alternativas tornam qualitativamente comparável o 
comportamento das diferentes espécies, respeitando-se as diferenças entre elas: tanto 
uma como outra constatam o fato de que cada espécie tem características próprias que 
as distinguem das demais, o que não impede que elas tenham sido sujeitas aos mesmos 
processos seletivos e tenham seus comportamentos controlados pelas mesmas leis naturais. 
Conseqüentemente, a compreensão dos processos comportamentais básicos de uma 
espécie aumenta a compreensão do comportamento das demais. 

Na psicologia contemporânea, o Behaviorismo Radical é um dos principais 
representantes da filosofia monista (Skinner, 1982). Os trabalhos desenvolvidos 
oxperimentalmente sobre comportamento animal, decorrentes dessa filosofia, permitiram 
a identificação de leis gerais que regem o comportamento humano (Skinner, 1953). 

No seu nível mais básico, essas leis apontam dois tipos de relações organismo/ 
ambiente, críticas para se compreender o comportamento humano. Uma delas diz respeito 
à sensibilidade dos organismos às associações estabelecidas entre os eventos do meio 
(estímulos), a qual possibilita que novos aspectos do ambiente passem a se relacionar 
com o seu comportamento: ou seja, estímulos podem adquirir, para o indivíduo, significados 
novos e relevantes para a ocorrência do seu comportamento (condicionamento respondente). 
Um outro tipo básico de relação identificada diz respeito à sensibilidade dos organismos 
às conseqüências dos seus comportamentos: a sua probabilidade de ocorrência futura 
depende das conseqüências produzidas por ele (condicionamento operante). 

Taís relações básicas, identificadas nos estudos com animais, têm implicações 
diretas para o comportamento humano. Por exemplo, diversos modelos animais de 
psicopatologias foram propostos a partir dessas leis gerais básicas, sendo utilizados em 
diferentes tipos e áreas de pesquisa: a supressão condicionada como modelo de ansiedade, 
o desamparo aprendido como modelo de depressão, e outros. Vou deixar de lado esses 
modelos, justamente por serem eles bastante difundidos, e abordarei dois exemplos 
menos conhecidos de investigações sobre comportamento animal que ilustram a asserção 
feita no início desse trabalho sobre a semelhança entre os mundos dentro e fora do 
laboratório. 

O estudo da tolerância e dependência a drogas tem relevância óbvia para o ser 
humano. A tolerância caracteriza-se pelo fato de que administrações sucessivas de uma 
mesma droga produz a necessidade de doses crescentes para que se obtenha o mesmo 
nível de efeito. A dependência física corresponde ao fato de que, dado o uso repetitivo da 
droga, o organismo passa a funcionar adequadamente (do ponto de vista fisiológico) apenas 
na presença dessa droga: na sua falta, ocorrem alterações, chamadas de síndrome de 
abstinência, cuja gravidade depende do tipo de droga, dose e freqüência de seu uso. 
Essa síndrome de abstinência é extremamente aversiva (pois implica dosconforto, dores, 
etc), sendo eliminada prontamente pela introdução da droga no organismo. Portanto, embora 
fenômenos distintos, tolerância e dependência são decorrentes da experiência prévia do 
indivíduo com a droga, ambos agravados por administrações sucessivas. Além disso, 
ambos se potencializam: na medida em que existe uma correlação direta entre intensidade 
da síndrome de abstinência e as doses previamente usadas, o processo de tolerância, 


Sobre comportamento e coRiiiçõo 317 



que produz a necessidade de doses crescentes, agrava a dependência; por sua vez, o uso 
continuado da droga, motivado pela síndrome de abstinência, agrava a tolerância, e assim 
sucessivamente. 

Os processos operantes são facilmente identificados no comportamento de 
indivíduos que apresontam essa dependência. No caso das chamadas drogas de abuso, 
pelo menos dois tipos de conseqüências estão associados à manutenção do 
comportamento de auto-administração: 1) as drogas adicionam sensações consideradas 
desejáveis pelo usuário (por exemplo, alucinações, euforia, prazer, etc) - o que tecnicamente 
seria chamado de reforçamento positivo , e 2) elas reduzem sensações desagradáveis, 
tanto daquelas cuja ocorrência prévia independe da droga (tristeza, solidão, etc) como das 
diretamente relacionada ao seu uso (síndrome de abstinência) - efeitos tecnicamente 
chamados de reforçamento negativo. 

Além dos processos operantes já bastante investigados em laboratório com animais 
(com contribuições relevantes para a prevenção e tratamento da dependência), há uma 
série de trabalhos que investigaram o processo de condicionamento respondente subjacente 
à tolerância a drogas, com conseqüências diretas para o tratamento dos usuários das 
drogas de abuso. Esses trabalhos, desenvolvidos principalmente por Shepard Siegel e 
cofaboradores, têm como aspecto crítico a identificação de associações entre estímulos 
que ocorrem durante a administração de drogas. A droga (estímulo incondicionado) torna 
altamente provável (elicia) algumas respostas do organismo, independentemente de qualquer 
aprendizagem (respostas incondicionadas). Os aspectos do ambiente, associados à sua 
administração dessa droga , podem adquirir novas funções para o organismo (tornam-se 
estímulos condicionados), passando a eliciar respostas que, por dependerem dessa 
experiência, são ditas condicionadas. O aspecto crítico dos trabalhos de Siegel é a 
identificação de que, no uso de drogas, os estímulos condicionados muitas vezes eliciam 
respostas opostas à eliciada pelo estímulo incondicionado. Por exemplo, a adrenalina 
produz respostas incondicionadas de taquicardia, redução de secreção gástrica o 
hiperglicemia, sendo que estímulos pareados à sua administração produzem, após 
condicionamento, bradicardia, aumento de secreção gástrica e hipoglicemia; da mesma 
maneira, os estímulos pareados com a administração de insulina (cuja resposta 
incondicionada é de hiperglicemia) produzem hiperglicemia, os associados com a morfina 
(poderoso analgésico incondicionado) passam a eliciar respostas condicionadas de 
hiperalgesia (ver Siegel, 1979). 

A hipótese de Siegel ó de que o efeito condicionado, na medida em que vai sendo 
estabelecido, reduz o efeito incondicionado da droga, gerando a tolerância. Assim, quanto 
mais pareamentos forem feitos, mais intensa será a resposta condicionada e, 
conseqüentemente, menor o efeito usual da droga, ou seja, maior a tolerância. O aumento 
da dose soluciona, a curto prazo, a questão da intensidade do efeito (maior a magnitude 
do estímulo incondicionado, maior a magnitude da resposta incondicionada). Porém, a 
continuidade dos pareamentos leva a uma magnitude crescente da resposta condicionada, 
aumentando-se a tolerância. Ora, se a proximidade temporal entre os estímulos pareados 
e sabidamente uma variável crítica no condicionamento respondente, pode-se supor que 
os estímulos que mais sistematicamente antecedem ao contato do organismo com a 
droga serão os estímulos condicionados mais potentes. Na maioria dos casos, a 
administração da droga está associada aos companheiros e ao local de uso, a visão da 
droga/seringa e, mais proximamente, à picada da agulha (no caso de drogas injetáveis). 


318 M.iri.t I lolcn.i l.cilc t lün/ikrr 



Portanto, são esses os estímulos que mais provavelmente se tornarão estímulos 
condicionados, sendo esperado que, na sua presença, o efeito da droga seja reduzido 
(tolerância). Uma conseqüência possível dessas associações é que se o indivíduo receber 
a mesma dose da droga em ambiente muito diferente do usual, o efeito poderá ser bem 
mais intenso que o que vinha sendo obtido no seu cotidiano (por estarem ausentes alguns 
dos estímulos condicionados). Isso aparentemente oxplica a maior incidência de morto 
por overdose quando o indivíduo recebe a droga em ambiente novo. 

Outra conseqüência direta desse condicionamento é no tratamento dos usuários. 
Um tratamento que retire o indivíduo do seu meio, afastando-o da visão da droga ou injeção, 
etc (tipo internação em clínicas especializadas), não coloca em extinção os estímulos 
condicionados: eles só deixariam de ter controle sobre as respostas condicionadas, 
opostas às produzidas pela droga, se fossem apresentados repetidamente sem paramento 
com a droga (extinção operante). Assim, após um longo e penoso tratamento numa clínica 
para eliminar a síndromo de abstinência (ou seja, a dependência lísica), o indivíduo volta 
ao seu meio, onde possivelmente vai se defrontar com alguns daqueles estímulos 
condicionados (local e pessoas associadas ao uso da droga, etc). Estes eliciarão as 
respostas condicionadas uma vez que elas não foram submetidas à extinção. Como tais 
respostas são opostas às eliciadas pela droga, elas produzem os mesmos sintomas da 
síndrome de abstinência cujo término, a curto prazo, depende da administração da droga. 
Ou seja, essas respostas condicionadas aumentam, e muito, a probabilidade do indivíduo 
a recorrer novamente à droga (comportamento que será reforçado negativamente). Sabe- 
se hoje, graças a esses estudos, que o efeito de produzir síndrome de abstinência também 
pode ser esperado de fotos ou outdoors que mostrem seringas, ironicamente utilizados 
nas campanhas contra as drogas (Siegel, 1979) 

Tais demonstrações levantam dúvidas sobre os tratamentos tradicionalmente 
realizados com dependentes de drogas e dão subsídios para o desenvolvimento de 
tratamentos mais efetivos, que diminuam o índice de reincidência. Esses dados só foram 
possíveis devido ao uso de animais em pesquisas básicas voltadas para a análise 
experimental do comportamento: a maior parte desses trabalhos foi realizada em 
laboratório, com animais, sendo que posteriormente foram realizados estudos confirmando, 
na clínica, as relações identificadas no laboratório. 

Outro exemplo a ser citado faz parte de uma literatura mais recente, que une a 
genética comportamental e os estudos operantes do comportamento. O desenvolvimento 
da genética comportamental tem permitido a seleção, com animais, de alguns genes que 
podem ser responsáveis por diferentes características comportamentais dos indivíduos. 
Os ratos SHR {Spontaneously Hypertensive Rats) são um exemplo desse tipo de seleção, 
tendo como principal característica o fato de serem hipertensos e, o que mais nos interessa, 
hiperativos. Comparativamente aos ratos WKY (WistarKyoto), tidos como “normais”, os 
SHR apresentam uma freqüência muito mais elevada de atividade motora, além de diferenças 
no ritmo de aprendizagem. Essas características, determinadas geneticamente, sugeriram 
a alguns pesquisadores o uso desses animais em estudos comparativos com crianças 
que apresentam a síndrome de hiperatividade infantil ( Attention Déficit Hyperactivity Disorder 
- ADHD), as quais, além de serem muito ativas, apresentam dificuldades de aprendizagem. 
Esses ratos foram utilizados numa série de pesquisas relacionadas à aprendizagem de 
variabilidade, controlada por contingências operantes (Page e Neuringer, 1985). Alguns 
trabalhos delimitaram controles genéticos nessa aprendizagem: numa situação em que 


Sobre comportamento e cognição 319 



ratos privados de alimento recebiam pelotas de ração (reforço) em conseqüência da emissão 
de seqüências de respostas (reíorçamento positivo), os animais SHR emitiam seqüências 
mais variáveis que os WKY; além disso, eles tiveram dificuldade em aprender a repetir 
uma mesma seqüência quando o reforço foi apresentado contingente a essa repetição, 
enquanto os WKY foram superiores nessa aprendizagem (Mook, Jeffrey e Neuringer, 1993). 
Contudo, quando o reíorçamento foi contingente à aprendizagem da variação (o alimento 
era liberado apenas se o animal emitisse seqüência diferentes das emitidas por ele 
anteriormente), ambos os tipos de ratos aprenderam igualmente (Hunziker, Saldana e 
Neuringer, 1996). Ou seja, a contingência operante anulou, nesse caso, as diferenças 
comportamentais determinadas geneticamente. 

Esses trabalhos permitem a suposição de que a dificuldade de aprendizagem 
atribuída às crianças hiperativas pode ser, ao menos em parte, decorrente de um ambiente 
não adequadamente programado para a sua aprendizagem: elas podem ser piores aprendizes 
quando a situação de aprendizagem envolve tarefas muito repetitivas (talvez o mais comum 
em situações tradicionais acadêmicas), mas podem ser excelentes aprendizes em 
situações que privilegiem a variação. Além de aprendizagens acadêmicas que podem ser 
beneficiadas pela variação, esses indivíduos poderiam ser bem aproveitados em atividades 
voltadas para as artes e a criatividade, entre outras. 

Esses trabalhos com animais não apontam formas de tratamento das crianças 
portadoras dessa síndrome, mas são desafiadores enquanto sugerem que algumas 
“certezas" clínicas podem ser fruto apenas de uma análise equivocada que, se assim for, 
tem rotulado como "deficientes" algumas crianças que poderiam ter desenvolvimento 
acadêmico normal, se lidadas adequadamente. Esse foi apenas mais um exemplo de que 
o laboratório animal pode, e deve, levantar questões para comportamentos humanos 
complexos. 

Ambas as linhas de investigação com animais aqui apresentadas mostram uma 
associação com áreas médicas: embora isso nem sempre ocorra, e natural que haja esse 
intercâmbio na medida em que a psicologia se posiciona como ciência biológica. Contudo, 
é importante frisar que tal intercâmbio não significa que a psicologia esteja voltando a 
adotar o modelo médico, como ocorreu nos seus primórdios. Pelo contrário, a sua integração 
com outras ciências biológicas tem crescentemente demonstrado que o organismo não 
existe isoladamente, sendo indispensável para a sua compreensão o estudo da sua 
interação com o ambiente. E nesse particular, a psicologia tem muito a oferecer. 


Bibliografia 


HUNZIKER, M.H.L., SALDANA, L. e NEURINGER, A. (1996). Behavioral Variability in SHR 
and WKY Rats as a Function of Rearing Environment and Reinforcement 
Contingency. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 65,129-144. 

MOOK, D.M., JEFFREY, J. e NEURINGER, A. (1993). Spontaneously hypertensive rats 
(SHR) readily learn to vary but not repeat instrumental responses. Behavioral and 
Neural Biology, 59, 126-135, 


320 M.iri.i I lelen.i Leite I lun/iker 



PAGE, S, e NEURINGER, A. (1985). Variability is an operant. Journal of Experimental 
Psychology: Animal Behavior Processes, 11,429-452. 

SIEGEL, S. (1979). The role of conditioning in drug tolerance and addiction. Em J.D. Keehn 
(Ed). Psychopatology in Animais. New York: Academic Press (pp. 143-168). 

SKINNER, B.F. (1953). Science and Human Behavior. New York: Macmillan (tradução de 
1970 - Ciência e Comportamento Humano. Brasília: Editora Universidade de 
Brasília) 

(1974). About Behaviorism. New York: Alfred A. Knopf (tradução de 1982 - Sobre 
o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix - EDUSP. 


Sobro compoii.imonlo c coflniç.lo 321 



Capítulo 33 


Com que contingências o terapeuta 
trabalha em sua atuação clínica? 

I lélio tosà C/uillhmii 
l\/CCç Instituto </c AiuUisc dc Comportamento 

C 'ampinas 


A o tentar responder à questão título desta apresentação tem-se que explicitar 
inicialmente uma importante limitação metodológica. No trabalho clínico típico, quer em 
consultórios, quer em clínica-escola, onde não se faz pesquisa com controle rigoroso de 
variáveis, é impossível afirmar quais variáveis estão de fato em operação, quais estão 
sendo manipuladas, quais estão sendo modificadas, em suma, o que ó função de que. 
Não se está afirmando que o trabalho clínico não comporte uma investigação cientificamente 
rigorosa. Delineamentos de caso único - reversão, linha de base múltipla e variações 
destes dois delineamentos experimentais básicos - permitem que se alcance num trabalho 
clínico respeitável status científico (Hersen & Barlow, 1976). 

O trabalho clínico é legitimado por inúmeros autores, e o próprio Skinner (1978, p. 
29) ao mencionar que o material a ser analisado por uma ciência do comportamento 
provém de muitas fontes explicita que “a observação clínica fornece material em quantidade... 
Ainda que, geralmente, se concentrem nos distúrbios que levam as pessoas às clínicas, 
os dados clínicos são freqüentemente interessantes e de especial valor quando a condição 
excepcional do paciente indica uma característica importante do comportamento." Assim, 
ao lado das eventuais contribuições que traz ao cliente que dele se socorre para obter 


322 I lélío José l/uillhinli 



alívio de seus problemas, também contribui com suas descobertas, apesar das limitações 
metodológicas, para o corpo de conhecimento da Psicologia como Ciência. 

Neste trabalho, é necessário ter claro que se reconhece que na clínica não se 
está fazendo um trabalho de análise experimental de comportamento (Skinner, 1978), 
mas o terapeuta comportamental, munido dos conhecimentos de princípios, conceitos e 
procedimentos comportamentais olha para a realidade clínica com o referencial teórico da 
proposta comportamental em particular do Behaviorismo Radical e, desta forma, interpreta 
e interfere no processo terapêutico à luz desse referencial. Assim, o terapeuta 
comportamental está fazendo uma análise comportamental, ou uma análise conceituai 
comportamental (Todorov, 1982), ou uma análise da realidade clínica com linguagem 
comportamental. As interações sugeridas pelo terapeuta, ou seja, as possíveis 
contingências em operação na situação clínica (considerando-se o "aqui-agora" da sessão) 
ou na relação do cliente com seu mundo, são hipóteses a serem testadas e verificadas. O 
teste empírico em última análise é concretizado através das mudanças comportamentais 
do cliente. Essas mudanças são determinadas por múltiplos fatores intra e extra sessão 
terapêutica, impossíveis de serem isolados. Resta, portanto, ao terapeuta - para não 
classificar seu trabalho de inútil ou de utilidade indemonstrável - buscar vestígios de 
relações entre o que ocorre na sessão e as mudanças comportamentais do cliente. 

As evidências que possam demonstrar a adequacidade das contingências 
sugeridas pelo terapeuta para descrever e explicar o que está ocorrendo com o cliente 
(quais são de fato as relações funcionais?) são precárias no estudo do sujeito único em 
terapia. Também são precárias as evidências sobre as reais contingências que o terapeuta 
supõe estar manejando, na forma de regras e de rearranjo das condições que estão ao 
seu alcance manipular. Está o terapeuta, de fato, trabalhando com as variáveis que supõe 
estar manipulando? O problema do controle experimental e de definição e controle de 
variáveis é complexo numa situação quase natural, como é o caso de uma sessão de 
terapia. Alguns cuidados podem ser programados, como sugerem Campbell & Stanley 
(1963), para definir variáveis, sistematizar coleta de dados e relacionar variáveis, atribuindo 
ao estudo clínico pelo menos o status "quase-experimental’’. Ao longo de sua prática 
clínica, no entanto, o terapeuta pode repetir seus procedimentos (pode-se dizer que o 
procedimento terapêutico é uma classe de comportamentos que tem algumas funções 
em comum, funções essas que permitem classificar desempenhos bastante diferentes na 
forma de o terapeuta se relacionar com o cliente numa mesma classe funcional, como, 
por exemplo, comportamentos reforçadores, punitivos, etc.) com diversos clientes, de 
modo a conseguir de certa maneira replicar a introdução das variáveis terapêuticas 
(experimentais) em sucessivos clientes (Guilhardi, 1987). Enquanto delineamento 
experimental, pode-se falar em linha de base múltipla com diferentes sujeitos, envolvendo 
replicações sistemáticas do procedimento inter-sujeitos (Sidman, 1976). 

Em suma, é possível identificar e descrever as possíveis contingências em operação 
na relação direta entre terapeuta e cliente e aquelas a que se pode chegar pelo relato do 
cliente. No entanto, a descrição dessas contingências não supera o status de hipótese de 
trabalho (Bachrach, 1971). A evolução do processo terapêutico acrescenta dados que 
confirmam ou refutam a adequacidade das contingências hipotetizadas, influenciando assim 
o comportamento do terapeuta, modelando, reforçando, punindo, etc., seu repertório de 
analisar e manejar as contingências. O trabalho é basicamente indutivo e funcional. A 
previsão por parte do terapeuta, se correta, adiciona evidência a favor da adequacidade de 


Sobrr comport.imcnto c cofliiiçdo 323 



sua análise. Não a prova, pórém. Somente o controle sobre o comportamento, pouco 
acessível num contexto clínico, a comprovaria. A repetição dos padrões de análise e a 
repetição das comprovações de previsão dão maior solidez ao trabalho do terapeuta, mas 
não lhe outorgam ainda o status de experimental. 


1. Algumas características do processo terapêutico 

O processo terapêutico pode ser esquematicamente conceituado como uma 
seqüência de interações da seguinte forma: 

A 

Cliente é o narrador: sua narrativa tem múltiplas funções para o terapeuta: SD, Sr, 
S pró-av, S av, eliciadora, etc. 

Terapeuta ó o ouvinte: responde à narrativa do cliente em função de: 

a) seu referencial teórico-conceitual e do conjunto de procedimentos de manejo de com¬ 
portamentos; 

b) seu sistema de valores, crenças, emoções, etc. (repertório comportamental desen¬ 
volvido pelo conjunto de contingências às quais respondeu durante a vida); 

c) suas motivações presentes (contingências atuais em operação, quer aquelas em opera¬ 
ção no seu cotidiano fora da sessão, quer as em operação na sessão). 


B 

Terapeuta é o narrador: sua narrativa tem múltiplas funções para o cliente: SD, Sr, 
S pré-av, S av, eliciadora, etc. 

Cliente é o ouvinte: responde à narrativa do terapeuta em função de: 

a) seu sistema pessoal de valores, crenças, emoções, etc. (repertório comportamental 
desenvolvido peio conjunto de contingências às quais respondeu durante a vida). 

b) suas motivações presentes (contingências atuais em operação, quer aquelas em operação 
no seu cotidiano fora da sessão quer as em operação na sessão). 

O processo terapêutico depende das interações dos repertórios de narrador e 
ouvinte do terapeuta, bem como dos repertórios de narrador e ouvinte do cliente. 

As intervenções do terapeuta têm como objetivo último levar o cliente a auto- 
observação e ao autoconhecimento (ser capaz de descrever as contingências às quais 
responde e influir nelas). "Todo comportamento, seja ele humano ou não humano, ó 
inconsciente: ele se torna "consciente” quando os ambientes verbais fornecem as 
contingências necessárias à auto-observação" (Skinner, 1991, p. 88). Ou seja, o terapeuta 
para cumprir seu papel deve assumir na interação com o cliente a função dos "ambientes 
verbais". 


324 I lélio lotó C/uilli.mli 



Micheletto e Sério (1993, p. 19) apresentaram uma clara síntese da concepção da 
consciência de acordo com o Behaviorismo Radical: "Skinner afirma o autoconhecimento 
como a possibilidade de um tipo especial de conhecimento. Como fruto de contingências 
sociais, os homens podem descrever seus comportamentos, sentimentos e as relações 
entre seus comportamentos, sentimentos e o ambiente; estas descrições podem se referir 
a eventos passados, presentes e futuros. Para Skinner, o autoconhecimento ó sinônimo 
de consciência, podendo haver diferentes graus de consciência correspondendo à quantidade 
e ao tipo de elementos envolvidos na descrição. Estes diferentes graus teriam como 
extremos, de um lado, o 'comportamento modelado e mantido por suas conseqüências 
imediatas', que seria 'não só inconsciente', mas ‘irracional, irascível, não planejado’ e, de 
outro, o ‘autogoverno’, quando ‘fazemos nossas próprias regras e as seguimos’ (Skinner, 
1987, p.38). Com isso, abre-se a possibilidade, apesar de todas as dificuldades nela 
envolvidas, de um sujeito consciente e, inclusive por isso, passível de ser conhecido”. 

O processo do autoconhecimento ocorre, concretamente, através de questões 
feitas pelo terapeuta, que levam o cliente a descrever seus comportamentos e os 
sentimentos que o acompanham e a relacionar esses comportamentos e sentimentos 
com o ambiente (Skinner, 1969). Neste caso, as contingências verbais que promovem a 
auto-observação são explícitas. "As pessoas são solicitadas a falar sobre o que estão 
fazendo ou porque o estão fazendo e, ao responderem, podem tanto falar a si próprias 
com a outrem. A psicoterapia é, freqüentemente, um espaço para aumentar a auto- 
observação, para "trazer à consciência” uma parcela maior daquilo que ó feito e das razões 
pelas quais as coisas são feitas" (Skinner, 1991, pp. 46 e 47). O terapeuta pode auxiliar 
ainda mais nesse processo discriminativo dando modelos para o cliente (pode, por exemplo, 
sugerir relações que o cliente sozinho não é capaz de fazer). Sua função não é 
exclusivamente questionar, mas também sistematizar as informações, fazer previsões, 
levantar hipóteses, etc. 

Segundo Zettle (1990), as descrições verbais de contingências que o cliente chega 
a fazer (sob influência do terapeuta), subseqüentemente podem vir a controlar o 
comportamento do próprio cliente. Um passo importante consiste em planejar contingências 
que levem a uma correspondência entre pensar, dizer e fazer. Quando o indivíduo segue as 
próprias descrições verbais das contingências (auto-regras), está melhor preparado para 
responder às exigências da sequência pensamento-ação. Quando um cliente adquire 
comportamento de seguir regras e auto-regras, está melhor preparado para lidar com o 
mundo “porque ele mesmo pode, então, reagir mais eficazmente no momento em que o 
comportamento modelado por contingências estiver enfraquecido" (Skinner, 1969, p. 159). 
O terapeuta usando reforçamento arbitrário pode contribuir para fortalecer o comportamento 
de seguir auto-regras. "Faz isso, perguntando ao cliente quais foram as auto-regras por 
ele usadas para guiar seu próprio comportamento e reforçando-o pela correspondência 
entre suas ações e seus relatos posteriores sobre as regras que seguiu. Da mesma 
forma, (o terapeuta) pode solicitar aos indivíduos que tracem planos que usarão no futuro 
para guiar seu comportamento em determinadas situações e, então, conseqüenciará uma 
correspondência entre comportamento verbal e não-verbal" (Zettle, 1990, p.45). Observe- 
se que não se pretende dizer que o comportamento encoberto do tipo auto-regras controla 
a ação, mas são as contingências estabelecidas para produzir as auto-regras e as 
contingências programadas para estabelecer a relação entre auto-regras e ação. Não se 


Sobrr comport.immto e co(jnlç*lo 325 



exclui o papel do terapeuta desse processo causal. Ele desempenha, entre outras, a 
função de manejador de contingências verbais na sessão. 

O cliente, por sua vez, responde no processo terapêutico a pelo menos três níveis 
de controle: auto-regras (“estímulos que especificam contingências produzidos pelo 
comportamento verbal da própria pessoa", Zettle, 1990, p.44), regras ("estímulos verbais 
que especificam contingências", Zettle, 1990, p.44) e contingências não-verbais propriamente 
ditas. Antes da terapia, o cliente já possui seu repertório de auto-regras. Durante a terapia, 
no processo de autoconhecimento, o cliente pode ampliar e/ou alterar suas auto-regras. 

Tanto as regras, como as auto-regras, podem evitar que o cliente entre em contato 
com a realidade. Isso gera um controle fraco sobre o comportamento do cliente. Este, ao 
aceitar as regras do terapeuta, pode não entrar em contato direto com as conseqüências 
do seu comportamento. Além disso, as regras ignoram as reais motivações do cliente e 
são, em última análise, uma hipótese ou previsão. Só as contingências exercem real 
controle sobre o comportamento. As auto-regras, em particular antes da terapia, tendem 
a controlar comportamentos de tuga-esquiva, evitando, desta forma, também que o cliente 
entre em contato com as conseqüências do seu comportamento, "...existe uma distinção 
útil entre conhecer por compreensão e conhecer por descrição. Conhecer porque alguma 
coisa que você fez teve conseqüências reforçadoras é muito diferente de conhecer porque 
você foi ensinado a fazer; ó a diferença entre comportamento modelado por contingências 
e comportamento governado por regras." (Skinner, 1991, p. 111). 

O processo terapêutico não deve evitar que o cliente entre em contato com as 
conseqüências do seu comportamento. "A separação entre o comportamento e suas 
conseqüências naturais é, segundo Skinner, alienação." (Micheletto e Sério, 1991, p.20). 
Assim, o conhecimento emerge da relação inseparável entre a prática ou vivência (o cliente 
deve entrar em contato real com as conseqüências de seus atos) e a reflexão ou teoria (o 
terapeuta deve auxiliar o cliente a identificar as contingências em operação ás quais 
responde). Essa relação dinâmica envolve: observação do comportamento como ponto de 
partida para a formulação (ainda que na forma de hipótese) das contingências em operação; 
previsões sobre comportamentos, se essas contingências forem reais, ou sobre suas 
alterações, no caso de manipulações das contingências; contato com as contingências, 
o que permitirá confirmar ou não as previsões; nova elaboração das contingências em 
operação (se for o caso); novo teste de realidade e assim sucessivamente. 


2. Exemplos de interações terapeuta-cliente com fonte de análise 
de contingências 

Alguns trechos extraídos de sessões poderão ilustrar os pontos teóricos expostos 
anteriormente. Nos três casos selecionados, há características básicas comuns: 
consciência de que as relações afetivas não são satisfatórias e devem ser interrompidas, 
mas dificuldades para tomar a iniciativa do rompimento e, ainda mais difícil, manter a 
separação. A escolha dos casos não foi casual. Trata-se de um nível de interações humanas 
em que o comportamento do cliente raramente fica sob controle de regras expostas, quer 
pelo terapeuta quer por pessoas relevantes na sua vida. Ao mesmo tempo, as contingências 


32Ó I lélio José Quill)<mli 



naturais das relações envolvem uma tal trama de eventos reforçadores e aversivos que 
tendem a manter o vínculo, e mesmo quando a pessoa verbaliza que sabe “que deve se 
separar", não consegue fazê-lo. Parece que a saída envolve a influência simultânea do 
controle por regras (ação direta do terapeuta) e do contato do cliente com as conseqüências 
naturais decorrentes da interação afetiva. 


Caso A 

No início do estudo, a cliente tinha 40 anos, era separada do marido há alguns 
anos, morava sozinha com o filho de 12 anos. Profissional liberal bem-sucedida, vivia 
independente financeiramente. Conheceu um rapaz 10 anos mais velho, com quem passou 
a viver. Aos poucos, percebeu que ele a explorava financeiramente (não tinha emprego, 
morava na sua casa, usava seu carro, seus cheques, etc.). Só conseguiu se separar dele 
com muita dificuldade, quando ficaram claros outros “problemas de caráter'’ do companheiro: 
era mentiroso, promíscuo, vivia constantemente envolvido em “negócios" estranhos e mal 
explicados, etc. A cliente procurou a terapia na fase final desse relacionamento, antes de 
conseguir se separar, com dupla queixa: "depressão" e "dificuldades conjugais". O seguinte 
diálogo ocorreu num período em que a cliente estava separada do namorado: 

C: - Tenho falado com meu tio por telefone. Fazia tempo que não conversávamos. Eu falei 
muito pouco dele para você. Foi uma pessoa muito importante para mim. Quando meu pai 
morreu, ele me tratou com muito carinho. Preencheu o espaço deixado por ele... (a C fez 
outros comentários carinhosos sobre o tio). Ele era muito bonito, rico e tinha um sucesso 
incrível com as mulheres. Ninguém entendeu quando começou a sair com uma “vagabunda". 
Você acredita que acabou se casando com ela e vivem há anos muito bem? 

T: Ficou sob controle dos seguintes SDs: tio bonito, rico (ela se considera uma moça 
bonita, independente financeiramente, profissional liberal bem-sucedida, um "bom partido", 
enfim), conheceu e se casou com uma “vagabunda"(o ex-namorado poderia ser classificado 
como "mau-caráter"). Estaria ela fazendo uma generalização do papel do tio (ou imitando- 
o)? T verbalizou: - Está me inquietando o porquê de você ter trazido este assunto do seu 
tio! Também não entendi porque você, repentinamente, retomou o relacionamento com 
ele... 

C: - Eu sempre adorei esse tio. Acho que me afastei dele por causa da esposa. Ela nunca 
viu com bons olhos nosso relacionamento... 

T: C se esquivou de responder à questão do T. Sua intervenção: - Tenho uma hipótese: 
acho que você está dando uma volta para me dizer que pretende procurar novamente R 
(ex-namorado). Se seu tio se casou com uma "vagabunda" e deu certo, por que você não 
pode se ligar ao R e dar certo? É esse seu raciocínio? 

C: - Você acha que eu seria louca a esse ponto? Já não sou mais a mesma pessoa. A 
terapia me ajudou muito. Você não confia em mim? (C já havia terminado várias vezes o 
namoro e reiniciado a relação com R, mesmo tendo afirmado que não voltaria mais com 
ele). 

T: A resposta da C ao T pareceu uma fuga-esquiva: em função das sessões anteriores, 
juntos, C e T, concluíram que R era uma pessoa problemática, de quem C deveria se 


Sobre comport.imenlo e cognição 



afastar. Assim, R estaria se esquivando de uma reprovação do T. - Não! Você já voltou 
tantas vezes depois de ter concluído que R “não servia" para você, que não estou seguro. 

C:- Ah, não há perigo. Tenho me sentido mais segura nas minhas decisões. Pode acreditar 
em mim... 

T: Tendo dado vários SDs para C e obtido apenas respostas de fuga-esquiva (assim parecia 
ao T) o T deu outros SDs para tentar quebrar a generalização (tio-cliente; "vagabunda"- 
"mau-caráter") estabelecendo uma possível discriminação. - Bem, então, pelo menos 
considere o seguinte: você acha que seu tio vive feliz com a mulher dele. Vá até lá e lhe 
pergunte. Você acha que ele lhe diria a verdade? Também não sabemos porque ele se 
casou com ela. Pergunte isso também. Vamos tentar ver o que realmente aconteceu na 
relação entre eles. (T quer que C entre em contato com a realidade e fique sob controle 
das contingências reais e não de auto-regras). 

Na manhã da sessão seguinte, C liga para T: 

C: - Hoje vou até aí com R. Não se assuste. Ele ficará na sala de espera enquanto eu fizer 
a sessão... Tudo bem? (Ou seja, C havia retomado a relação com R). 

T: - Conversaremos sobre isso na sessão. 

C: - R está morando comigo. Deixei bem claro para ele que agora é para valer. Não vou 
tolerar que me apronte mais nada. Nada mesmo. Disse-lhe que não preciso do dinheiro 
dele, mas mesmo assim quero que trabalhe, se sustente... (a C se alonga listando outras 
exigências para R permanecer na casa dela). 

T: C procura criar contingências para instalar um padrão de fuga-esquiva em R: “comporte- 
se bem para evitar me perder". Ao mesmo tempo, tenta se esquivar da avaliação do T. 
Parece querer dizer: "agora tenho controle do comportamento dele". Isso fica mais 
evidenciado quando C intercala, entre as exigências que faz a R, frases ditas para T do 
seguinte tipo: 

C: - Melhorei muito com a térapia. Já não sou mais boba como fui. Hoje sei o que quero 
e sei impor meus limites. Além disso, estou fazendo terapia e você vai me ajudar a lidar 
melhor com a situação. Você me entende? Você não concorda que eu melhorei? Você não 
acha que com sua ajuda eu não vou sofrer o que sofri? (Com essas questões, procurou 
conseguir reforços de T para a sua decisão e, ao mesmo tempo, sua ajuda. Não parece 
tào segura do que fez... T optou por prosseguir na tentativa de melhorar a discriminação de 
C , questionando a quem ela estava respondendo). 

T: - Ao me contar o que você disse para R, você está tentando mostrar que o comportamento 
dele agora está sob seu controle. Você não vai mais ser conduzida por ele. Você quis 
mostrar esse controle para ele ou para mim? (Parece claro que C responde às suas auto- 
regras. E as contingências atuais de privação e perda de reforçamento (ausência de R) 
foram mais fortes que as contingências passadas punitivas durante a convivência com R. 
T optou por deixá-la testar as contingências naturais advindas de conviver com R. O 
referencial teórico de T estabelece que o comportamento que compõe a relação operante 
produz consequências, o que "indica que o comportamento é indispensável porque ele é 
que produzirá aquilo que passará a fazer parte de seus determinantes. Dito de outra 
maneira, a consequência depende do comportamento e o determina" (Micheletto e Sério, 


328 I télio )o*é Quilh.mii 



1993, p, 13). Diante disso, T não insistiu na questão proposta e completou: - Se acha que 
ó importante para você ficar com R, tente mais uma vez. A convivência com ele lhe dirá o 
que é melhor para você... 

C: - Isso mesmo, concluí que amo mesmo R e quero tentar de novo. Mas, tenho certeza 
que estou mais preparada. Se você quiser, achar que é o caso, você pode falar com ele e 
ver o que ele acha de mim. Ele tem me dito que estou diferente... 

Aproximadamente três meses depois, por telefone: 

C: - Você pode me atender hoje? Não estou bem... 

T: - Hoje não é possível. Mas o que houve? 

C: - E amanhã cedo? Estou triste, muito triste... perdi toda aquela alegria, té... 

T: - Posso arrumar um horário. 

Durante a sessão: 

C: - Estou desanimada, perdendo a fé. Eu acreditava na melhora, na mudança. Estava 
estimulada a dar a mão, a lutar, ajudá-lo. Acho que fui precipitada. Talvez por causa 
daquilo que lhe falei: desejo ter uma família, um marido, um pai para o meu filho... 

T: Cliente apresenta um padrão típico de comportamento sob extinção e/ou punição. Parece 
que não há fugas ou esquivas possíveis, exceto se livrar de R.. - O que provocou tudo isso 
em você? 

C: Relata o ocorrido e conclui: - É dependente da mãe dele até hoje. Mandei-o embora. 
Agora falo para ele tudo o que penso dele. Antes não. Disse que eu o sustento que 
vivemos do meu consultório. Ele sabe que sou apaixonada, mas não sou cega. Outro dia, 
chamou minha secretária de maneira muito íntima. Dei-lhe uma bronca, nada de intimidade 
com a secretária... Não deixei que levasse nenhuma roupa que comprei para ele. Ligou 
para a "mamãe" para dizer: “ela me mandou embora, mamãe!". Ridículo! (Seguiram-se 
outros exemplos desse tipo). 

T: R não mudou seu comportamento. Sua fuga-esquiva em relação a C consistiu em 
mentir de forma ainda mais elaborada. A frustração sentida por C, ao discriminar o padrão 
comportamental de R, levou-a a se afastar dele (fuga-esquiva) e a puni-lo. 


Comentários 

As verbalizações de C após a primeira separação e agora são análogas. Nada 
garante que não voltará a se relacionar com R. A diferença mais relevante é que entrou em 
contato com as contingências sabendo reconhecê-las e descrevê-las. Porém, apenas o 
comportamento verbal nada garante. É necessário uma correspondência entre verbalização, 
ação e sentimento. Como escreveram Micheletto e Sério (1993, p. 14):" O que se busca 
é a concepção do homem como relação. O homem constrói o mundo à sua volta, agindo 
sobre ele e, ao fazê-lo, está também se construindo". E mais: "Como produto desta relação 
se tem um homem diferente a cada nova relação, significa dizer que este homem, a cada 
relação, se altera em sua totalidade". 


Sobro comportamento c copniç.lo 329 



C fala que se sente livre de R. "Liberdade é um sentimento produzido por 
determinadas contingências de reforçamento, e como tal é um efeito tào importante quanto 
a própria alteração do comportamento." (Micheletto e Sério, 1993, p. 15). Essa é a grande 
diferença entre a primeira ruptura do relacionamento e a última. O sentimento não ó algo 
"menor", como as autoras salientaram (p. 16). 

A terapia visa o desenvolvimento da pessoa e do eu: “a pessoa enquanto um 
repertório de comportamento, pode ser observada pelos outros; o eu ( self ), como um 
conjunto (set) de estados internos que o acompanham é observado somente através dos 
sentimentos ou da introspecção." (Skinner, 1991, pp. 44 e 45). "A pessoa seria produto da 
vida particular de cada um e o ( self) seria um produto de contingências sociais." (Micheletto 
e Sério, 1993, p.16). 

A cliente teve no processo terapêutico vários dos seus "eus" modelados. Assim, 
entre outros, pode-se salientar (Skinner, 1991, p.51): 

auto-estima: "o eu de que gostamos (uma condição corporal resultante do reconhecimento 
alheio ou de auto-reconhecimento aprendido dos outros)"; 

autoconfiança: "o eu confiante (correlato a um comportamento reforçado positivamente)"; 

racionalidade: "um eu racional (correlato a um comportamento governado por regras, 
incluindo regras estabelecidas pela própria pessoa que se comporta)". 

Skinner (1991, p.51) completa: "Relacionamos esses eus com as contingências de 
reforçamento responsáveis tanto pelo comportamento como pelas condições corporais 
que o acompanham e também com as contingências verbais necessariamente responsáveis 
por estima, confiança e racionalidade." 

Follow-up 

Quatro anos após este rompimento entre C e R, ela continua separada dele. 
Houve eventuais telefonemas dele procurando reatar o relacionamento, mas ela não quis 
falar pessoalmente com ele. Atualmente, C vive com o filho e tem um namorado com 
quem convive, de maneira harmoniosa, há aproximadamente um ano. 


Caso B 

No início do estudo, a cliente tinha 33 anos, era solteira, com uma história pessoal 
de excesso de proteção por parte da mãe, que muito a estimulou intelectualmente (ler, 
estudar, etc.), mas deu-lhe poucas oportunidades para tomar iniciativas, sempre se 
antecipando a ela na solução de problemas. A mãe tinha grande disponibilidade para 
dialogar com ela, para "trocarem idéias". Essa era uma forma que usava para controlar a 
filha. O enfoque usual da mãe era "compreender" o ponto de vista do "outro", aceitar seus 
argumentos, dando para a filha, de forma sutil, modelos de submissão e modelando nela 
padrões comportamentais incompatíveis com afirmação, argumentação, autovalorização, 
etc. A mãe, embora desse a impressão de ser uma pessoa segura (a cliente assim a 
descrevia), era muito preocupada com o que "os outros vão pensar" e também insegura 
nas suas decisões. O pai era visto como racional, objetivo, agressivo, competente, mas 
distante, como uma pessoa que pertencia a "um outro mundo". 


330 l Iflio José C/uilh,mli 



T: C terminou recentemente seu namoro com M, pois achava que “não tinham nada a ver 
um com outro", ela "não o amava”, o achava pouco interessante, inseguro, “viver com ele 
não dá futuro", dizia. No entanto, mesmo assim, relatou que se sentia insegura com a 
decisão: 

C: - Dem... Não é com a decisão que acho que está certa. Tenho medo de não aguentar... 
Embora racionalmente soubesse que isso não era o melhor para ela, temia voltar atrás e 
recomeçar o namoro. Relatou ainda: - Sinto uma tristeza, um vazio íntimo que muito me 
angustia. Perguntou ao terapeuta se não seria melhor voltar ao namoro e dar mais um 
tempo: - Você não acha que aí estarei mais preparada para agüentar a separação? Acho 
que prefiro me livrar desta sensação ruim agora, mesmo que tenha que suportar tudo de 
novo, voltar a conviver com tudo que me incomodava no namoro. 

T: Quem tomou a decisão de terminar foi a cliente: decidir é um comportamento que não 
lhe é familiar. No nível racional, está segura. Porém, sua história de vida a poupou de 
frustrações: assumir a responsabilidade de terminar o namoro lhe ó aversivo, bem como a 
perda do namorado que, em vários aspectos, lhe era reforçador (seu desconforto pode 
estar relacionado com baixa resistência à frustração). A descrição dos seus sentimentos 
são compatíveis com os produzidos por procedimentos de perda de reforçadores (como, 
por exemplo, extinção, punição negativa, aumento brusco na exigência de comportamento 
para obtenção de reforços). Aparentemente, a perda de reforçadores está pesando mais 
que a eliminação da estimulação aversiva. Admite voltar ao namoro "mesmo que tenha 
que suportar tudo de novo". A avaliação que ela faz do namoro reflete as contingências às 
quais responde: 

- Durante o namoro: o namorado é aversivo em muitos aspectos e pouco reforçador; 

- Depois do rompimento'do namoro: o namorado passa a parecer mais reforçador 
do que aparentava e menos aversivo do que ela se queixava. O afastamento das 
contingências reais presentes na relação durante o namoro fez com que C passasse a 
responder às contingências atuais (perda de reforçadores que existiam na relação e 
eliminação dos aversivos então presentes), e perdesse a discriminação entre estas 
contingências e as passadas. Provavelmente, deva experimentar as contingências naturais 
do namoro mais um pouco. T explicitou a análise acima e se omitiu a respeito da questão 
de voltar ou não ao namoro. 

Na mesma sessão, C, ainda insegura com a decisão a ser tomada, comentou: 

C: - Quando eu terminava o namoro com F (namorado anterior), era diferente, eu sentia 
um grande alívio... Será que estou ficando mais insegura? Eu gostava muito mais do F do 
que do M e, no entanto, parece que estou sofrendo mais agora! Notei também que quando 
M me procurou na quarta-feira e saímos para jantar, eu estava mais firme. Resisti aos 
apelos dele para voltarmos. Agora que faz alguns dias que não me procura, parece que 
estou mais frágil! (C pensa em voltar com M). Não deveria ser o contrário? Perto dele, 
enquanto ele estava sendo bonzinho, insistente, eu disse não... Você não acha que naquele 
momento seria mais fácil eu ceder? Mas, não foi assim... 

T: O namorado anterior, F, era extremamente reforçador em alguns aspectos (seguro em 
suas decisões, resolvia problemas da cliente, dando-lhe segurança e apoio) e extremamente 
aversivo em outros (agressivo, autoritário, ciumento, etc.). O namoro (em cada recomeço) 


Sobre comportamento e cojjnlçào 331 



era no início agradável, mas a relação aversiva evoluía num crescendo até o término. 
Portanto, a sensação de “alívio" era provocada pela fuga-esquiva (romper a relação). 
Separada do namorado, a relação aversiva se enfraquecia e a cliente se confrontava com 
uma nova realidade também aversiva: solidão, conflitos para tomar decisões, etc. Assim, 
voltar ao namoro passava a ser um comportamento de fuga-esquiva progressivamente 
mais provável. Reatava a relação, mesmo aversiva, com o namorado e assim o ciclo se 
repetia. A expectativa de C de que houvesse uma generalização dos sentimentos (se ela 
sentia alívio ao terminar com F, deveria também senti-lo ao romper com M), quando 
ocorresse o término de um namoro para o outro, não se aplica, pois eram relações funcionais 
muito diversas. Quando M a procurou para jantar, sua frustração diminuiu (apareceram 
reforçadores) e os aversivos da relação de namoro reapareceram e ajudaram-na a recusar- 
se a voltar. Quando ele se afastou, houve queda dos reforçadores novamente. Sua 
verbalização final envolve outra generalização em relação ao namoro anterior: F comandava 
a relação e decidia por ela sobre a volta (ela não conseguia lhe dizer não): M, por outro 
lado, é indeciso e submisso na relação; logo, seus pedidos não controlam C da mesma 
maneira que F controlava. O terapeuta explicitou esse equívoco na generalização. 

Na sessão seguinte: 

C: - Talvez você fique decepcionado, mas voltei com meu namorado (M). Minha amiga 
disse que tinha certeza que isso ia acontecer. 

T: C estava mais aliviada com sua decisão, embora esperasse uma “repreensão" do 
terapeuta. Do ponto de vista clínico não havia nada a repreender: ela voltou a entrar em 
contato com as contingências reais naturais, típicas do seu namoro. 

C: - Consegui fazer uma relação clara do que você me disse na sessão anterior numa 
situação no meu trabalho. 

(T havia comentado a respeito de suas dificuldades de tomar decisões como um 
padrão generalizado, ocorrendo em diferentes áreas de sua vida, não exclusivamente no 
nível afetivo): Não consegui defender minhas idéias até o fim com o meu chefe. Argumentei 
até certo ponto, refutei seus argumentos, mas, afinal, prevaleceu a opinião dele. No meio 
da discussão, pensei em D (uma funcionária que trabalha no mesmo departamento). Se 
ela não acatasse as determinações da empresa eu não acharia legal. Isso me confortou... 
(C espera que todos sejam submissos) mas, no fundo, não quero fazer o que meu chefe 
espera de mim. 

T: C Fez uma generalização importante: relatou o mesmo padrão de respostas "submeter- 
se ao outro", “abrir mão daquilo que acredita" em dois contextos diferentes, no namoro e 
no trabalho. Generalizou, inclusive, o padrão de submissão para a colega de trabalho. Por 
outro lado, discriminou seus sentimentos de insatisfação, o que parece indicar um progresso 
no autoconhecimento. O terapeuta apontou que o padrão de resposta diante do chefe se 
assemelhou ao padrão com o primeiro namorado. Apontou ainda que a preocupação com 
a avaliação do outro segue um modelo da mãe e, ela própria, incorpora esse valor ao julgar 
que D não deveria deixar de acatar as determinações da empresa. 

Algumas características dos dois namorados que podem auxiliar na análise da 
situação vivida pela cliente: 

M: - Ciumento, sem vínculo profissional definido (faz “bicos" eventualmente), pouco dinheiro 


332 Hélio loté Quilhanli 



(depende do dinheiro dela para fazer programas), sempre disponível (passa a maior parte 
do tempo ao lado dela), atencioso, atende a tudo que ela solicita, tipo "bonzinho", nao 
sabe “o que quer da vida", mas nào se angustia com isso (dá a impressão que acredita 
que tudo vai dar certo na vida), "ruim de cama", bastante previsível, dependente dela para 
tomar iniciativas e resolver problemas, parece não se importar com as críticas da cliente, 
ó inteligente, mas dá a impressão de que tudo que faz é “enrolado", "confuso". Este namoro 
durou alguns meses. O dia a dia foi sem brigas, mas com eventuais discussões por 
ciúmes da parte dele (que se tornaram mais freqüentes na fase final do namoro). 

F: - Ciumonto, possessivo, agressivo, muito inteligente, muito ativo, com bastante iniciativa, 
bem-sucedido com mulheres (todas de nível sócio-cultural-econômico inferiores ao da 
cliente), "muito bom de cama", imprevisível (ora ciumento, ora indiferente, ora presente, 
ora ausente, ora paciente, ora intolerante e agressivo), bem-sucedido profissionalmente, 
traços de "mau-caráter", do tipo "sabe o que quer na vida", "so pensa em levar vantagem”, 
raramente reconhece os seus erros. Esse namoro durou alguns anos com muitas brigas 
no dia-a-dia e frequentes interrupções e voltas na fase final. Basicamente, a relação de 
namoro era mantida por F através de forte controle coercitivo. 

Comentários 

A cliente continuou o namoro com M por mais um mês e meio e terminou 
definitivamente a relação. Um ano depois, iniciou um novo namoro. Por outro lado, sua 
evolução no trabalho foi notável; foi promovida para cargo importante de chefia e seu 
desempenho de liderança e tomada de decisões têm sido elogiados. Atualmente, discute 
em bom nível profissional com o chefe, tendo adquirido um padrão de autoconfiança e 
assertívidade. 

As intervenções do terapeuta nas sessões ocorreram a partir das verbalizações 
da cliente, mas englobaram todo o seu conhecimento do caso: história de vida (padráo de 
relacionamento com a mãe, modelos dados por ela, etc.), características dos namorados 
e como todos esses dados se complementavam com os padrões comportamentais da 
cliente. Finalmente, foram exatamente todos esses padrões de interações, que permitiram 
ao terapeuta conhecer o modo de reagir da C e o levaram a prever, razoavelmente, como 
ela se comportaria em determinadas condições. 

A hipótese do terapeuta a respeito do comportamento da cliente não é rígida, nem 
aleatória. Fundamenta-se nos conceitos comportamentais formulados a partir dos dados 
trazidos por ela em múltiplas sessões, em situações diversas no correr do processo 
terapêutico. E são exatamente os dados observados a partir do uma previsão ou manipulação 
de contingências que influenciarão sobre a manutenção ou alteração das hipóteses de 
trabalho do terapeuta. 

Nem sempre o que a cliente diz descreve as reais contingências em operação 
(será que estou ficando mais insegura?, por exemplo). Uma vez que a cliente está 
diretamente envolvida nas contingências, sua discriminação a respeito delas pode ser 
parcial, equivocada ou, até mesmo, inexistir. Ao terapeuta, cabe analisar o relato e não 
aceitá-lo simplesmente. 

A intervenção terapêutica é um tipo de comportamento verbal, mais especificamente 
um conjunto de regras, que são apresentadas ao cliente, visando alteração ou manutenção 


Sobre compofl.imcnto e co^mfilo 333 



de determinados comportamentos. Ao apresentar uma regra para o cliente, o terapeuta 
está procurando estabelecer um controle por regras sobre o comportamento dele. 

O controle do comportamento por regras (intervenção do terapeuta), contudo, ó 
menos eficiente do que o controle exercido diretamente pelas contingências. Um e outro 
se complementam. A diferença entre as forças de controle sobre o comportamento deve- 
se ao fato de que no primeiro caso (controle por regras), o comportamento é instruído e no 
segundo (contingências naturais) ele é modelado e, como tal, diretamente exposto às 
suas conseqüências reforçadoras. No caso da cliente, incluem-se também suas auto- 
regras, que podem se opor às regras propostas pelo terapeuta. As mudanças nas auto- 
regras são críticas para a evolução dentro da terapia. Quando o terapeuta mostra para a 
cliente que ela faz uma generalização indevida (leva-a a discriminar a que está realmente 
respondendo); que seu padrão comportamental imita o padrão materno; que a perda de 
reforçadores, mesmo que fracos, provoca reações emocionais (desagradáveis), que a 
mobilizam para se engajar em ações que lhe devolvam esses reforçadores, ainda que as 
mesmas ações produzam conseqüências aversivas; que os desejos e opiniões dos outros, 
mesmo que lhe sejam aversivos (ou exatamente por isso), controlam o comportamento de 
obediência (que tem função de fuga-esquiva de outros eventos mais aversivos, tais como 
a crítica, a reprovação, etc.); o terapeuta está levando a cliente a discriminar e, daí descrever, 
as contingências a que responde, e quais comportamentos e sentimentos delas decorrem. 
Assim, a aproxima mais do autoconhecimento. Também são dadas deixas de como alterar 
seus comportamentos para influir nas contingências. 

Veja como Skinner (1991, pp. 111 e 112) descreve o papel do terapeuta: "o que 
acontece lá (na clínica) é uma preparação para um mundo que não está sob o controle 
do terapeuta. Ao invés de arranjar contingências de reforçamento presentes, como poderia 
ser feito em casa, na escola, no local de trabalho ou num hospital, os terapeutas dão 
conselho. Dar modelo de comportamento (modelação) a ser copiado é um tipo de conselho, 
mas o conselho verbal tem um alcance maior. Ele pode assumir a forma de uma ordem 
("Faça isto”, "Pare de fazer aquilo") ou pode descrever contingências de reforçamento 
("Fazer isto provavelmente acarretará um efeito reforçador", "Se você fizer aquilo, as 
conseqüências poderão ser punitivas")"... "O conselho face a face pode, outrossim, assumir 
o formato de regra orientadora para ação eficaz. Os provérbios e máximas das culturas 
são regras desse tipo. São especialmente úteis porque os terapeutas podem não estar 
disponíveis para ajudar quando aparecem novos problemas. Entretanto, nem todo problema 
pode ser resolvido mediante a aplicação de uma regra e os terapeutas precisam ir um 
passo à frente e ensinar seus clientes a construírem suas próprias regras. Isso significa 
ensinar-lhes algo sobre a análise do comportamento - uma tarefa usualmente mais fácil 
do que ensiná-los a alterar seus sentimentos ou estados da mente." 


334 Mélio Jos* C/uilh.mli 



Follow-up 

Passados três anos, a cliente se manteve afastada definitivamente desses 
namorados. Tomou iniciativa de começar um namoro com uma pessoa de sua escolha, 
com quem se casou. A relação conjugal é harmoniosa, ela tem conduzido com tranqüilidade 
sua vida familiar e profissional, de modo que não considera que haja, atualmente, problemas 
nessas áreas. Teve uma filha e está grávida novamente. Suas preocupações atuais se 
referem às dificuldades de conciliar a disponibilidade de tempo para a filha e para o trabalho. 
Tem dado prioridade ao papel de mãe. 

Seguem-se dois exemplos - um real, outro literário - de descrições feitas pelas 
próprias clientes das contingências sob as quais se comportam. Revelam em palavras, 
não necessariamente técnicas, os controles a que respondem durante o processo de 
desenvolvimento do seu autoconhecimento. 


Caso C 

No início do estudo, a cliente tinha 36 anos, era casada, tinha três filhos. Procurou 
a terapia por causa de uma depressão ocasionada por conflito conjugal. No trecho descrito 
abaixo, a cliente revela que começou a discriminar a intensidade do controle aversivo que 
o marido exercia sobre ela e as dificuldades para modificar esse padrão comportamental 
dele. As frases da cliente foram transcritas de um texto redigido por ela alguns dias depois 
de profunda crise depressiva. 

C: - A fuga da realidade é um mecanismo importante para uma trégua, um descanso 
diante de tanta ansiedade. 

T; A cliente se refere ao desespero extremo a que chega em alguns momentos e, à sua 
maneira, descreve o mecanismo funcional do comportamento de fuga-esquiva. 

C: - Pena que após a fuga sempre vem uma nova decepção, quando novamente nos 
deparamos com o mundo real. Aí, nesse momento, a ansiedade atinge um grau máximo. 

T: Reconhece que seu comportamento de fuga-esquiva é apenas temporariamente eficaz, 
e a aversividade da situação se reinstala. 

C: (Mas, essa ansiedade reaparece...) - Comparativamente, em um nível inferior ao de 
uma situação equivalente de vida vivida anteriormente... 

T: Parece reconhecer algum progresso em seu controle da ansiedade. 

C:- Mas, um “desgaste", uma "ferrugem", permanece no fundo de nossa alma. E, de 
maneira cumulativa, este efeito destrutivo vai impregnando nossas idéias, movimentos, 
atos, palavras, emoções... 

T: Mas, ao mesmo tempo, reconhece que a relação conjugal tende a um caminho sem 
volta (“desgaste", "ferrugem", permanece... vai impregnando...). A decepção se acentua, 
como fruto da extinção e incontrolabilidade (“buscou, lutou... mas foi perdido"). 

C:- Até finalmente, olharmos para o espelho do nosso "eu" e visualizarmos um novo ser: 
modificado e, nos parece, entristecido com algo que buscou, pelo qual lutou, mas que foi 
perdido. 


Soürr comportamento e cotfiilç«1o 335 



T: Já que mudar a realidade foge ao seu controle, só lhe resta um padrão de fuga: mudar 
a si mesma ("visualizar um novo ser"). 

A poesia abaixo permite uma análise do comportamento "inconsciente" (por pane 
da mãe) e do autoconhecimento (por parte da poetisa). 


Ensinamento 


Adélia Prado 


Minha màe achava estudo 
a coisa mais fina do mundo. 

Nãoô. 

A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 

Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, 
ela falou comigo: 

"Coitado, até essa hora no serviço pesado". 

Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente. 
Não me falou em amor. 

Essa palavra de luxo. 


Aquilo em que a mãe dizia acreditar, "estudo é a coisa mais fina do mundo", 
aparece como uma regra ditada por ela. Essa regra, no entanto, não é o que exerce 
controle mais importante sobre o comportamento da filha. Seus comportamentos manifestos: 
"Coitado, até essa hora no serviço pesado." (verbal) e "Arrumou pão e café, deixou tacho 
no fogo com água quente." (ação), funcionaram como contingências mais fortes 
(comportamento vicariante) sobre a filha. A poetisa revela ter consciência do controle a 
que responde (discrimina entre as duas contingências geradas pela mãe - instrução 
verbal e modelos - e fica sob controle da segunda) e discrimina qual é, em última análise, 
seu comportamento (ao qual ela se refere metaforicamente no verso "A coisa mais fina do 
mundo é o sentimento."). A màe responde às contingências (ausência do marido no trabalho) 
com comportamento verbal e manifesto (de amor), porém, sem consciência do que a 
controla nem do controle que vai exercendo sobre a filha: as contingências que geram 
comportamentos e sentimentos de amor ("Não me falou de amor. Essa palavra de luxo.") 
A poetisa revela que conhece seu comportamento e quais contingências foram responsáveis 
pelo seu modo de agir e sentir. Nesse aspecto particular de seu repertório comportamental, 
apresenta autoconhecimento (consciência) e está sob controle de auto-regras. 


336 I lólio lose Qullh.mli 



Bibliografia 


DACHARACH, A. J. (1971) Introdução à Pesquisa Psicológica. São Paulo: Herder. 
Publicação original de 1969. 

CAMPBELL, D. T. & STANLEY, J. C. (1963j Experimental and Quasi-Experimenta! Designs 
for Research. Chicago: Rand McNally College Publishing Company. 

GUILHARDI, H. J. (1987) Método Científico e Prática Clínica. Em H.W. Lettnere Bernard 
P. Rangó, Manual de Psicoterapia Comporlamental. São Paulo: Manole. 

HERSEN, M. & BARLOW, D. H. (1976j Single Cases Experimental Designs: Strategies 
forStudying Behavior Change, New York: Pergamon Press. 

MICHELETTO, N. & SÉRIO, T. M. A. P. (1993) Homem: Objeto ou Sujeito para 
Skinner? Temas em Psicologia, 2,11-21. 

PRADO, A. (1991) Poesia Reunida. Siciliano: São Paulo. 

SIDMAN, M. (1976) Táticas de Pesquisa Cientifica: São Paulo: Ed. Brasiliense. Publicação 
original de 1960. 

SKINNER, B. F. (1969) Contingencies of Reinforcement: A Theoretical Analysis. New 
York: Appleton-Century-Crofts. 

(1978) Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes. Publicação 
original de 1953. 

_(1987) News from nowhere, 1984. Em B. F. Skinner, Upon Further Reflection. 

New Jersey: Prentice Hall. Publicação original de 1985. 

_(1991) O Eu Iniciador. Em B. F. Skinner, Questões Recentes na Análise 

Comportamental. Campinas: Papirus. Publicação original de 1988. 

_(1991) O Que Terá Acontecido Com a Psicologia Como Ciência do Comportamento? 

Em B. F. Skinner, Questões Recentes na Análise Comportamental. Campinas: 
Papirus. Publicação original de 1988. 

(1991) O Lado Operante da Terapia Comportamental. Em B. F. Skinner, Questões 
Recentes na Análise Comportamental. Campinas: Papirus. Publicação 
original de 1988. 

TODOROV, J. C. (1982) Behaviorismo e Análise Experimental do Comportamento. Cadernos 
de Análise do Comportamento, 3. 

ZETTLE, R. D. (1990) Ruled Governed Behavior: A Radical Behaviorism Reply to the 
Cognitive Challenge. The PsychologicalRecord, 40,41-49. 


Sobre comportamento e cojjnlçilo 


337 



Capítulo 34 


Como fazer pesquisa em clínica ? 1 

Riichcl Rodrigues Kcrlhwy 
IA l> 


Esta questão formulada pela ABPMC reflete a preocupação dos terapeutas 
comportamentais. Respondê-la remete-nos à totalidade dos sócios, pois a preocupação 
em pesquisar e trabalhar com dados obtidos em experimentos é um dos pontos quase 
sagrados para as pessoas que atuam em diversas áreas, com um enfoque comportamental, 
independente das vertentes teóricas. O porquê da existência dessas diferenças teóricas, 
que aparecem menos na prática, na atuação dos terapeutas comportamentais, a meu ver, 
poderá ser objeto de futuras análises. 

Não me surpreenderia que, na gênese dessas diferenças teóricas, 
encontrássemos um pouco de política, de condições para lormação de adeptos, luta por 
espaço de trabalho e poder, envolvimentos emocionais, além de concepções diversas 
sobre o homem e o universo e eficácia de procedimentos. Não seria desprezível analisar 
a diversidade de culturas e de idéias peculiares aos países ou etnias em que se expande 


'Este artigo foi preparado para a reuniflo Anual da ABPMC em 1996. No entanto, por sugestflo de Holio 
Gullhardi, transformamos nossas conferências programadas para dias diferentes, em debate conjunto, com 
o público e entre nós. Agradeço à diretoria da ABPMC a oportunidade de publicar os originais. 


338 Rachel Rodrigues Kcrbauy 


o movimento das terapias comportamentais. Esse estudo poderá ou nào existir nos próximos 
anos, dependendo de algumas das variáveis expostas acima ou de outras a incluir. 

As análises culturais me parecem relevantes, pois os clínicos tendem a incorporar 
em suas práticas clínicas essas análises para entender falas de clientes e a partir dessas 
práticas criar maneiras específicas de atuação que, a meu ver, são especulações bastante 
adequadas em inúmeros casos clínicos. Em minha experiência pessoal, lembro como li 
vorazmente o estudo de Margareth Mead sobre os japoneses, por indicação do próprio 
cliente. Eu fazia perguntas na sessão, para entender a cultura que o levava a escolhas 
que, a meu ver, eram desadaptativas e também para que ele compreendesse os controles 
exercidos e as regras aprendidas. A espada e o Crisântemo de Mead( 1946) tornou-se 
minha bíblia naquela época, para entender o mundo de um nissei. Hoje Rua e casa, de Da 
Matta (1985), provavelmente ocupa esse lugar de livro sagrado, entre outros, bem como a 
leitura de alguns jornais diários e revistas semanais, descontados a busca de escândalos 
políticos ou passionais. Nessa incumbência de falar, deixarei de incluir os livros de 
Psicologia utilizados nos estudos diários sobre os casos que atendo e para melhorar 
minha atuação clínica, além de discussões com colegas ou outros profissionais... isto é 
outra história... e fica para uma outra vez... 

O assunto deste artigo é como fazer pesquisa clínica. Recentemente, em maio, 
Roberto Banaco (1996) e eu participamos, convidados, em um ciclo de conferências sobre 
Pesquisa Clínica, no Instituto Sedes Sapientiae, com profissionais que trabalham com 
diversos referenciais teóricos. Cada dia do curso, dois clínicos, do mesmo referencial, 
expunham suas idéias que eram debatidas no final do tempo pelos presentes. Muito do 
que organizei para falar hoje foi publicado nos Cadernos de Pesquisa do Instituto Sedes 
Sapientiae (1996). 

Noto hoje preocupação crescente com pesquisa na área clínica. É um fato novo 
no Brasil e menos estranho entre os terapeutas comportamentais, por nossas origens 
propagadas: aceitar dados quando obtidos através da metodologia experimental. Existe 
um compromisso com a avaliação de técnicas utilizadas na intervenção. Essa avaliação ó 
através da metodologia da ciência experimental e nesse sentido foi realmente uma reação 
ao tipo de idéias que fundamentava a prática clínica, onde predominava o modelo 
psicodinâmico. 

Com essas origens, a base do trabalho em clínica era o condicionamento clássico 
e operante, os princípios de aprendizagem de Hull, Pavlov, Skinner, e a psicologia 
experimental como um todo. Como exemplo da necessidade e aceitação dos dados 
experimentais e incorporação no modelo clínico comportamental ó interessante lembrar 
o desenvolvimento dos trabalhos com obesidade e autocontrole que se iniciaram com as 
análises do comportamento alimentar de Ferster (1962) e foram respaldados 
posteriormente, quanto ao controle que o alimento presente exerce no obeso, pela série 
de experimentos de Schachter e Gross (1967) e seus colaboradores. Eram experimentos 
isolados, em diversas situações e sujeitos de pesquisa: jejum no dia do perdão e 
observação do gordo e magros, relógio com o horário modificado no laboratório e bolachas 
à vista; sorvetes com gosto modificado e relatos de gordos e magros, e observação da 
quantidade ingerida. Com base em experimentos como estes, a ênfase no ‘alimento 
presente’ só foi diminuída e ultrapassada com a invasão das idéias cognitivas, análise 


Sobrr comporliinurnlo e cogniçdo 


339 



de contingências e regras, anos após. Até hoje, sobre regras, os capítulos favoritos para 
mim são III e V do Contingências de Reforçamento , de Skinner (1969), que utilizava desde 
os primórdios dos cursos que ministrava em autocontrole, pela necessidade das regras 
para compreender o comportamento de autocontrolar-se. 

O Brasil tem uma tradição de formação em Análise de Comportamento com vinda 
de Keller no início dos anos 60. Decorre desse fato que o trabalho e a pesquisa em clínica 
foi lento. Entre as explicações possíveis, está a necessidade de formar pessoal e a ênfase 
no trabalho acadêmico, em pesquisa básica, e falta de status do trabalho aplicado, 
especialmente o clínico, na época. Após esse inicio, os profissionais que se dedicaram à 
clínica procuravam refletir e superar os desafios no cotidiano de um terapeuta 
comportamental que estudava em livros e revistas americanos e encontrava limitações em 
suas ações como terapeuta, obrigando-o a questionar as práticas que aplicava. 

Com essa tradição de formação e estudos empreendidos, vários terapeutas que 
se autodenominam terapeutas comportamentais procuraram desvendar o comportamento 
encoberto que ocorre nas sessões. Há utilidade para terapeuta e cliente em descobrir os 
encobertos, por fornecer pistas sobre as contingências em vigor para aquele comportamento 
analisado e por esclarecer de forma confiável o que acontece na sessão terapêutica. 
Metodologias próprias começaram a acontecer: a) análiso de relatos verbais de sujeitos 
e devolução por assunto dessas análises para que a pessoa pudesse completar ou 
esclarecer (Bori e colaboradores): b) fornecer um gravador e solicitar aos sujeitos de uma 
pesquisa que relatem o que sentem ou pensam durante períodos de espera (Buzzo - 
1986); c) colocar o sujeito em uma situação experimental e solicitar que desse ordens 
verbais que podem, ao serem analisados, mostrar como o problema proposto é resolvido 
(Kovac - 1995); d) gravar sessões com recursos adicionais e solicitar ao terapeuta, 
entrevistando-o pós-sessão, que explicite o que fez durante a sessão; e) analisar as 
transcrições e identificar as tomadas de decisão que mostram mudança de cursos de 
ação na interação terapeuta-cliente. 

Esses procedimentos têm se mostrado promissores na discussão da proposta 
comportamental para os controles encobertos do comportamento. De um modo geral, são 
pesquisas para estudar um problema conhecido como de pesquisa básica, mas cuja 
implicação para o trabalho clínico é clara e seus autores na maioria são clínicos, e essa 
seria uma primeira etapa visando a intervenções posteriores. Esses trabalhos são pouco 
conhecidos, por se restringirem a teses de mestrado ou doutorado com pouco impacto na 
comunidade, embora tenham beneficiado aqueles que fizeram e seus orientadores e, às 
vezes, um grupo de pessoas que recorreram às bibliotecas. A divulgação desses trabalhos 
tem se dado principalmente em comunicações em congressos. 

Por essa descrição, nota-se que a busca dos terapeutas comportamentais no 
Brasil tem sido uma análise funcional das sessões terapêuticas e especialmente do 
comportamento dos clientes, mas priorizando a análise de comportamento verbal e de 
relato material com o qual o terapeuta trabalha. 

Os delineamentos experimentais sofisticados que procuram mostrar com quais 
pessoas um procedimento é adequado ou compará-los com ingestão de medicamentos 
não foi a ênfase escolhida. Seria mais do estilo, embora não tenha sido realizado, o 
experimento com pacientes de pânico, relatado por Seligman, 1993, comparando-os com 
pacientes com distúrbios de ansiedade e pessoas normais. Introduzia-se uma manipulação 


340 R»ichrl RociriHur* Kertwuy 



verbal, uma frase incompleta, e verificava-se com quais palavras esses pacientes completam 
a frase e qual a rapidez. Dessa forma, é possível verificar se os pacientes com pânico têm 
mais pensamentos catastróficos e se estes são automáticos. Essa constatação determinará 
um dos focos principais do tratamento de pânico: alterar os pensamentos catastróficos e 
verificar como a pessoa pensa sobre seus sintomas fóbicos. Ao completar uma frase com 
uma palavra que mostra catástrofe, é possível inferir, com uma margem de segurança 
razoável, que os pacientes têm o hábito de pensar catastroficamente. Os sujeitos liam 
alto sentenças que descreviam sensações corporais e as duas últimas palavras que 
completavam a frase estavam meio apagadas. Os pacientes de pânico liam os finais 
catastróficos mais rapidamente. 

Esse tipo de pesquisa com um planejamento tradicional de manipulação de uma 
variável e comparação de grupos e que tem como preocupação central descobrir novos 
procedimentos de tratamento ou explicar referenciais teóricos, a meu ver se justifica. É 
pesquisa behaviorista também, embora possa não ser a maneira de fazer pesquisa escolhida 
pelo Behaviorismo Radical. Provavelmente, dar essa contribuição ó o que mantém os 
pesquisadores produzindo conhecimento, além da necessidade de publicação. No caso 
do trabalho acadêmico, há a aceitação pelos pares, curiosidade pessoal, "paixão” pelos 
procedimentos ou referenciais teóricos e especialmente afirmação da eficácia da técnica. 
No entanto, esse tipo de pesquisa esbarra em problemas estatísticos pela necessidade 
de manter variabilidade mínima entre os sujeitos, exigir número grande de sujeitos para 
formação de grupos e ter um problema bem específico, definido, e com terapeuta treinado 
em cada técnica a ser comparada. Como o sujeito do experimento é selecionado com 
rigor, não é o mesmo que existe na prática clínica, que não é selecionado e aparece na 
maioria das vezes com queixas vagas. 

Essas críticas, a forma tradicional de pesquisar, vem de encontro ao que se enfatiza 
nas décadas de 80 e 90 entre os terapeutas comportamentais. Por essas críticas é que a 
AABT - Association for Advancement ofBehavior Therapy- editou uma nova revista em 
1995, Cognitive and Behavioral Practice, que detalha técnicas clínicas especificas e sua 
aplicação. Há artigos sobre a maneira de resolver os obstáculos durante o tratamento. A 
revista procura mostrar como a ciência pode ser aplicada. Claro que, ao seu lado, continua 
a existir a Behavior Therapy, uma das revistas mais citadas e fonte de dados de pesquisa 
sobre diagnóstico, Psicopatologia Descritiva, prevenção e intervenções práticas em Terapia 
Comportamental Cognitiva, 

Acompanhando essas críticas Kòhlenberg, um terapeuta behaviorista radical, em 
seu livro sobre FAP Psicoterapia Funcional Analítica, 1989, quando fala em pesquisa e 
avaliação, na página 196 e seguintes, afirma que a questão a ser colocada seria “Há 
algum processo ou resultado de coleta de dados para sustentar a FAP? Infelizmente, 
atualmente, não há dados desse tipo. A FAP é esclarecida, no entanto, por uma abundância 
de dados de estudos de laboratório em conceitos básicos como reforçamento, esquiva, 
controle de estímulo e regras. Mas como estendemos esses conceitos para áreas que 
excedem as condições de laboratório a FAP tem o status de hipótese", (grifo meu). 

No entanto, por que a FAP "apaixona" algumas pessoas? Porque deu um salto 
grande e se propôs a estudar e a trabalhar com os princípios do comportamento verbal 
de Skinner e especialmente com o que acontece na sessão terapêutica. Essa idéia não ó 


Sobre comportamento e cognição 341 



nova entre os behavioristas radicais. Ferster, em 1979, achava que era necessário fazer 
uma análise dos comportamentos que ocorrem na interação entre paciente e terapeuta. 
Ferster diz que "os comportamentos que ocorrem na terapia são um dado objetivo no qual 
a maior parte das atividades e seus reforçadores podem, pelo menos potencialmente, ser 
observados por ambas as partes” (p. 296). Ao propor uma análise funcional da interação 
entre terapeuta e cliente, Ferster esclarece o objetivo da terapia, distinto dos procedimentos 
educacionais. "É possibilitar ao paciente falar sobre os processos encobertos criando 
condições nas quais ele pode observar aspectos de sua conduta e os antecedentes 
funcionais, que, de outra forma, passariam despercebidos". Continua ainda: "silêncios 
prolongados, conflitos sobre horário, remuneração, discrepâncias entre as exigências do 
paciente e uma visão prática de qual tipo de ajuda é possível, chegar atrasado ou faltar às 
sessões, podem ocorrer por que alguns eventos são muito aversivos para serem falados", 
(p. 299). "À medida que o terapeuta se torna um ouvinte, há a possibilidade de o cliente 
observar os determinantes de seus comportamentos e de quais variáveis são função." (p. 
280). 


Portanto, há anos, essa perseguição ao estudo do que acontece na sessão 
terapêutica é colocado em evidência. Mas por que as pesquisas não aconteceram ató 
agora? Porque os behavioristas radicais, quando fizeram aplicações de conhecimentos, 
mesmo em área clínica, o fizeram como estudos de laboratório, publicados no JABA, 
Journal of Applied Behavior Analysis, desde 1968. Também trabalhavam mais em 
instituições, como escolas e hospitais, sendo a interação professor-aluno um dos temas 
favoritos. Os experimentos eram conduzidos com delineamentos experimentais sofisticados, 
geralmente com sujeito único e linha de base múltipla. Claro que o estudo com 
esquizofrênicos alimentando gatinhos com leite, de Lindzey (1946), foi realizado antes e 
não foi publicado no JABA e já era um começo de comportamento clínicos entrarem no 
laboratório. Claro, ainda, que os trabalhos de Keller (1943) com treinamento em Código 
Morse foram de aplicação, mas, de modo geral, o behaviorista radical fazia experimentos 
controlados e não trabalhava em clínica. 

O primeiro conjunto especialmente para análise do comportamento clínico apareceu 
em 1993 na The Behavior Analyste, a segunda, em 1994. Buscam mostraras aplicações 
atuais dos procedimentos de análise do comportamento na situação clínica. 

Hayes e Wilson (1994) mostram como desenvolveram um conjunto de técnicas 
durante 15 anos para alterar a maneira como as relações verbais funcionam e consideram- 
se “conscientemente baseados no pensamento de análise do comportamento" (p. 289). 
Essas técnicas seriam em conjunto uma abordagem psicoterápica denominada de 
distanciamento compreensivo alterando a denominação posteriormente para terapia da 
aceitação e comprometimento (ACT, Acceptance e Commitment Therapy). A característica 
principal é tratar da esquiva emocional e da incapacidade de manter comprometimento 
para mudança do comportamento. No entanto, para fazer pesquisa e descrever sua maneira 
de trabalhar, os autores Inserem transcrições de sessões para ilustrar seus conceitos. 
Para mostrar a penetração e validade do procedimento, divulgam em conferências o 
protocolo da pesquisa em suas linhas gerais. Fizeram também estudo com várias 
populações, mas os dados dos resultados são considerados "limitados". Em um estudo 
comparando a ACT com a terapia cognitiva de Beck em pacientes deprimidos, Zettle 
1984, em uma tese de doutorado não-publicada, e citada por Hayes e Wilson, considerou 
a ACT mais eficaz. Mediu de forma padrão através do auto-relato de depressão após 12 


342 kíichfl Rodriflutt Ktrtwuy 



semanas de terapia individual. Hayes e colaboradores tôm medido seus resultados com 
as medidas usuais de ansiedade, empregando também análise de casos com 
delineamentos de grupo com diversas medidas, de pré e pós-tratamento. 

Kõhlenberg e Tsai (1991) propõem que sejam testados empiricamente algumas 
propostas da FAP: 1) se a terapia foi estruturada, para evocar ocorrências de 
comportamentos clínícamente relevantes, durante a sessão; 2) se o terapeuta pontua os 
problemas relevantes do cliente e os comportamentos-alvos relacionados, à medida que 
acontecem na sessão; 3) o terapeuta tem em seu repertório, os comportamentos 
pretendidos nos objetivos; 4) as ações do terapeuta modelam e reforçam naturalmente a 
melhora do cliente; 5) o terapeuta oferece interpretações sobre o comportamento do cliente 
que incluem estímulos discriminativos, o comportamento que está sendo interpretado e 
reforçado. Evidentemente, em cada um desses itens, temos um problema que a pesquisa 
procura responder. 

Pelas formulações anteriores, vocês devem estar esperando uma proposta 
inovadora. É e não é. A partir da ênfase na experiência clínica pessoal Kõhlenberg enumera 
a quantidade de dados brutos a que o terapeuta está exposto. Desde o tom de voz e 
expressões faciais até as atividades motoras e... resfriado. Os detalhes são lembrados 
pelo envolvimento do clínico no processo. Considere que esses dados excedem o conteúdo 
das escalas, o resultado dos testes e os relatórios de pesquisa. Essas observações 
sensibilizam o terapeuta e metodologicamente considera as dimensões propostas por 
Kazdin (1981) para fazer um estudo de caso como um bom roteiro de pesquisa. Essas 
dimensões permitem mostrar a influência da experiência pessoal, segundo Kõhlenberg e 
Tsai (1991) e incorporam essa proposta. 

Kõhlenberg e Tsai (1994) mostram em um estudo de caso, como as medidas de 
depressão pelo inventário de Beck obtido durante 13 sessões de tratamento e duas sessões 
de seguimento com terapia cognitiva seguida de FAP propiciaram mudanças que se 
mantiveram até a 25* semana. No entanto, introduziram a FAP quando o comportamento 
estava em declínio. Nessa forma, não é possível determinar se a mudança e manutenção 
podem ser atribuídas à FAP, após o emprego das técnicas tradicionais de terapia cognitiva. 
Os trechos transcritos da sessão que apresentam são para mostrar como foi enfocada a 
relação terapeuta-cliente e não esclarece os resultados. 

Em Ciência e Comportamento Humano (1953), Skinner, ao analisar terapia, afir¬ 
ma: “Achar a solução não ó terapia, não importando quem faz a descoberta. Contar ao 
paciente que ele está errado pode não trazer nenhuma mudança substancial nas variᬠ
veis independentes relevantes, e por isso pode representar pouco progresso em direção 
à cura. Quando o próprio paciente vê que está errado, não é o fato de que a solução partiu 
de dentro dele que é importante, mas o que importa é que, para descobrir sua própria 
solução, seu comportamento com relação ao problema deve ter se alterado enormemen¬ 
te. Mais adiante, afirma: "a terapia consiste, não em levar o paciente a descobrir a solução 
para seu problema, mas em mudá-lo de tal modo que seja capaz de descobri-la.” (p. 216). 
Portanto, pela proposta de Skinner, tanto em 1953 como em 1989, é fazendo análises 
funcionais que se descobrirá como a interação de terapeuta e cliente produziram os 
resultados da terapia e quais outras variáveis podem ter atuado. “Isso não significa, 
porém, que os terapeutas comportamentais nunca devam perguntar a seus clientes o 
que eles estão sentindo ou pensando. A partir das respostas do cliente, ó possível inferir 
alguma coisa sobre suas histórias, genética e pessoal." (p. 78) 


Sobre comportamento c cognição 343 



Com essas propostas e explicações do que é terapia é evidente que, para fazer 
pesquisa em Terapia Compotamental, precisamos responder a essas questões e propor 
outras. Como fazê-lo? Está em aberto. O limite ó a criatividade pessoal e o respaldo na 
literatura. No momento, acho que está mais para a criatividade individual. 

Resta agora contar como estou fazendo pesquisa no Laboratório de Comporta¬ 
mento e Saúde do Departamento de Psicologia Experimental da USP, em orientações de 
pesquisas, de teses e em meu trabalho pessoal. 

1) Registrando sessões de terapia em audiovisual. Portanto, torno a sessão um dado 
permanente. Para tanto solícito, que os clientes concordem por escrito com esse tipo de 
registro. 

2) Formulo questões que considero relevantes por serem originais, pois têm possibilida¬ 
de de chegar a resultados surpreendentes, descrever uma metodologia ou esclarecer um 
conceito e sua utilização. Também procuro ver se a questão é importante no sentido de 
afetar diretamente o trabalho do profissional e obtendo uma "cura" mais duradoura, mais 
rápida e, dessa forma, beneficiando o paciente. Eu deveria olhar também a viabilidade, 
ou seja, se existem os recursos, quanto tempo o trabalho exige, se o orientando, aluno e 
eu própria temos o repertório necessário para fazer a análise exigida pelo tema ou pergun¬ 
ta. Confesso que peco com frequência nesse item. 

3) A pesquisa proposta passa a ser um estudo do caso, pois, em terapia comportamental 
com enfoque de behaviorismo radical, de B. F. Skinner e especialmente se a proposta é 
analisar a interação terapêutica, o efeito da terapia é o resultado do que aconteceu duran¬ 
te a sessão. A avaliação e o diagnóstico caminham ao mesmo tempo, no desenvolvimento 
da terapia. Portanto, as perguntas formuladas pelo pesquisador devem conter uma descri¬ 
ção desse processo e procurar descrever quais eventos eliciadores, discriminativos ou 
reforçadores aconteceram. 

Vamos ver o que eu poderia e estou perguntando às sessões transcritas ou obser¬ 
vando as gravações em vídeo: a) em quais ocorrências do problema clínico eu posso 
verificar elos comportamentais emitidos durante a sessão de terapia e como eles aumen¬ 
taram ou diminuíram de freqüência no curso da terapia; b) Quais as falas do terapeuta em 
relação a cada colocação do problema clínico pelo cliente e o efeito na fala do cliente. Que 
tipo de falas são essas e aqui eu teria que formular classes após os recortes dos trechos 
eelecionados; c) Quais os eventos ocorridos fora da sessão e relatados pelo cliente que 
foram por ele relacionados à terapia, quais mudanças comportamentais identificou e quais 
os efeitos no ambiente; d) Quais as decisões do terapeuta durante a sessão, ou seja, 
como escolheu entre duas falas do cliente uma delas para analisar. Qual o efeito dessa 
escolha no comportamento do cliente. Neste caso, fizemos também um registro do relato 
das decisões tomadas pelo terapeuta durante a sessão e quais as explicações do terapeuta 
para suas escolhas imediatamente após a sessão. Os dois conjuntos de dados serão 
uma tese de mestrado; e) Um trabalho que está começando a me fascinar é verificar como 
o terapeuta identifica um relato de emoção e como analisa esse relato para o cliente uma 
vez que são eventos privados. Para Skinner, (1989) o sentimento é um tipo de ação senso- 
rial, como ver ou ouvir. O que sentimos são as condições do corpo e aprendemos a 
nomeá-las em contingências especiais de reforçamento. Como os eventos públicos e 
privados raramente coincidem exatamente, as palavras para os sentimentos não são en- 


344 Ríichfl Rodrijjufs Kerbciuy 


sinadas com tanto sucesso, como para objetos. Uma análise possível é das circunstânci¬ 
as públicas responsáveis pelo sentimento. Por que ela disse que está com medo? Porque 
foi ameaçada de perder o emprego. À medida que se analisa esses eventos e os relatos 
do cliente que podem ou não ser acompanhados das descrições das mudanças fisiológi¬ 
cas, descobre-se a relação com a história passada em circunstâncias similares. Dessa 
maneira, as emoções serão encontradas nas transcrições. Ao analisá-las, posso classi¬ 
ficar até se essas emoções surgiram relacionadas com algum evento filogenético impor¬ 
tante: um estímulo incondicionado, um reforçador ou punidor. Posso ainda verificar e clas¬ 
sificar como nos relatos do cliente à intervenção do terapeuta encontrei descrições de 
sentimentos onde identifico um condicionamento clássico juntamente com aprendizagem 
operante. No caso das emoções, estou ainda interessada em verificar quando o cliente, 
no decorrer do tratamento, passou a analisar as emoções com o referencial que eu estou 
usando e especialmente quando começou a emitir comportamentos eficazes e identificar 
as contingências a que está submetido, ou seja, quando e como o cliente passou a deixar 
de olhar para dentro de si e a analisar as condições que produzem as emoções e a 
eficácia de seu repertório novo. De fato, quando o conhecimento das contingências foi por 
ele traduzido em uma maneira de facilitar a vida. 

4) Essas questões são respondidas com uma forma específica de trabalhar. Leio o texto 
até encontrar os episódios que determinarão o corte da sessão. A pergunta de pesquisa ó 
que determinará a exclusão das interações posteriores. As sessões são lidas geralmente 
em seqüência e avaliadas quanto às informações ligadas ao tema da pesquisa. Nada 
impede que trechos excluídos sejam recuperados posteriormente se a pergunta inicial foi 
ampliada, trocada ou se o corte anterior mostrou-se inadequado em outras leituras. 

5) Outra fase é a análise dos trechos selecionados. Essa análise implica que eu tenha 
levantado algumas categorias que, no caso de identificar relatos de emoções, poderiam 
ser quais as emoções nomeadas acompanhadas de descrição fisiológica e quais as emo¬ 
ções nomeadas com descrição de circunstâncias. À medida que a análise prossegue e 
novas categorias são formuladas ao compará-las pelas informações, ó possível agrupar 
em classes. Os.novos trechos que forem sendo analisados e que se mostram compatí¬ 
veis com as classes formuladas serão nelas inseridos. Outras formarão novas classes. 
Geralmente as classes começam minuciosas, detalhadas e no decorrer da análise ó 
possível agrupá-las em classes mais amplas. 

Em um caso clínico, posso mostrar como o relato de emoções ocorreu em cada 
sessão, de acordo com a classe. Exemplo: nomeação de emoção, nomeação com des¬ 
crição de circunstâncias, com descrição fisiológica. Posso mostrar ainda a modificação 
desse relato no decorrer da terapia, e se e como a intervenção do terapeuta influiu nesse 
processo e quais os temas tratados. 

Como última fase, examina-se criticamente o que foi relatado como emoção, o 
tipo de intervenção do terapeuta. O exame crítico dos resultados é apoiado nos autores 
que discutiram os conceitos. 

Estamos, pois, construindo uma maneira de fazer pesquisa clínica enfocando, 
entre outras variáveis, a relação terapeuta-cliente. No entanto, o fundamental é verificar 
quais estímulos discriminativos são fornecidos pelo terapeuta e quais são formulados pelo 
cliente e como ele realiza essa passagem do que acontece na sessão e a sua vida diária, 
segundo seu relato analisado pelo terapeuta após o trabalho clínico realizado. 


Sobrr comportamento e cofinlçdo 345 



Bibliografia 

BANACO, R. (1996) Pesquisa em clínica comportamental. Cadernos de pesquisa: registro 
e anotações. Junho, 94-106. 

BECK, A.T. Emery G. e GREENBERG, R. (1985) Anxiety disorders and phobias: A 
cognitive perspective. New York: Basic Books. 

BUZZO, M.P. (1986) Tese de mestrado defendida no Departamento de Psicologia 
Experimental USP, sob a orientação de Rachel Rodrigues Kerbauy. 

DA MATTA, R. (1985) Rua e a casa. São Paulo: Brasiliense. 

FERSTER, C.B.; NUREMBERG, J.L e LEVITT, E.B. (1962) The control of eating. J. of 
Mathematics, 87-109. 

FERSTER, C.B. (1979) Psychotherapy from the standpoint of a behaviorist. Em: J.D. Keehn 
(org.) Psychopatology in animais: Research end clinicai implications. New York: 
Academic Press. 

HAYES, S.C. e WILSON, K,G. (1994) Acceptance and Commitment Therapy: Altering 
the verbal support for especiential avoidance. The Behavior Analyst. 2,289-304. 

KAZDIN, A.E. (1981) Drawing valid inferences from case studies. Journal of Consulting 
and Clinicai Psychology, 49, 183-192. 

KELLER, F.S. (1943) Studies in international Morse Code. A new method of teaching 
code reception. Journal of Applied Psychology, 27,407-415 (Traduzido por César 
Ades para Keller. Ática). 

KERBAUY, R.R. e MARGOTTO, A. (1994) Uma análise do comportamento verbal do 
terapeuta durante a sessão: a tomada de decisão". Projeto de mestrado 
desenvolvido por Adriana Margoto sob a orientação da Prof®. Dra. Rachel Rodrigues 
Kerbauy no Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de São 
Paulo. 

KERBAUY, R.R. (1996) Pesquisa em Terapia Comportamental. Cadernos de Pesquisa: 
registro e anotações, junho, 84-93. 

KÕHLENBERG, R.J. e TSAI, M. (1991) FAP: FunctionalAnalytic Psychotherapy:creating 
Intense andcurative Therapeutic Relationship. New York: Plenum Press. 

_(1994) The