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Full text of "Uma ciência sobre “coisa” alguma: relações funcionais, comportamento e cultura"

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unesp 


Uma ciência sobre “coisa” alguma 

relações funcionais, comportamento e cultura 


Kester Carrara 


SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros 

CARRARA, K. Uma ciência sobre “coisa” alguma : relações funcionais, comportamento e cultura 
[online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2015, 190 p. ISBN 978-85- 
7983-657-2. Available from SciELO Books < http://books.scielo.org >. 



Alt the contents of this work, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 
International license . 

Todo o conteúdo deste trabalho, exceto quando houver ressalva, é publicado sob a licença Creative Commons Atribição 
4.0. 


Todo el contenido de esta obra, excepto donde se indique lo contrario, está bajo licencia de la licencia Creative Commons 
Reconocimento 4.0, 


UMA CIÊNCIA SOBRE 
“COISA** ALGUMA 

RELAÇÕES FUNCIONAIS, 
COMPORTAMENTO E CULTURA 


KESTER CARRARA 


Uma ciência sobre 
“coisa" alguma 


CONSELHO EDITORIAL ACADÊMICO 
Responsável pela publicação desta obra 


Profa. Dra. Alessandra Turini Bolsoni Silva (Coordenadora do Programa) 
Profa. Dra. Ana Cláudia Moreira Almeida-Verdu (Vice-coordenadora 
do Programa) 

Profa. Dra. Lúcia Pereira Leite 
Ana Carla Vieira (Representante discente) 


KESTER CARRARA 


Uma ciência sobre 
“coisa’’ alguma 

Relações funcionais, 

COMPORTAMENTO E CULTURA 


CULTURA 

ACADÊMICA^ 

£ d í t o n a 


© 2015 Editora Unesp 
Cultura Acadêmica 
Praça da Sé, 108 
01001-900 -São Paulo -SP 
Tel.: (Oxxll) 3242-7171 
Fax: (Oxxll >3242-71 72 
www.culturaacademica.com.br 
www.livrariaunesp.com.br 
feu@editora.unesp.br 


CIP - Brasil. Catalogação na publicação 
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ 

C299u 

Carrara, Kester 

Uma ciência sobre "coisa" alguma [recurso eletrônico]: relações fun- 
cionais, comportamento e cultura / Kester Carrara. - l.ed. - São Paulo: 
Cultura Acadêmica, 2015. 

Recurso digital 
Formato: ePub 

Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions 

Modo de acesso: World Wide Web 

ISBN 978-85-7983-657-2 (recurso eletrônico) 

1. Behaviorismo (Psicologia). 2. Filosofia da mente. 3. Comporta- 
mento. 4. Livros eletrônicos. I. Título. 

15-26793 CDD: 150.1943 

CDU: 159.9.019.4 


Este livro é publicado pelo Programa de Publicações Digitais da Pró-Reitoria de 
Pós-Graduação da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp) 


Editora afiliada: 



Asociación de Editoriales Universitárias Associação Brasileira de 
de América Latina y el Caribe Editoras Universitárias 



Poder-se-ia definir a Psicologia como a 
ciência do comportamento dos organismos. 
Entretanto, esta definição simples é ao 
mesmo tempo incompleta e equivoca. [...] 
Os psicólogos estudam o comportamento 
em suas relações com o ambiente. O com- 
portamento isolado do meio em que ocor- 
re dificilmente poderia ser objeto de uma 
ciência. Imagine-se, por um momento, 
o absurdo que seria uma fita que regis- 
trasse todo comportamento de um orga- 
nismo, do nascimento até a morte, e em 
que todas as indicações do mundo em que 
vive fossem cuidadosamente apagadas! 
Só quando se começa a relacionar aspec- 
tos do comportamento com os do meio é 
que há possibilidade de uma psicologia 
científica. 


(Keller; Schoenfeld, 1950, p.16-7) 


Para argonautas interessados 
no planejamento de contingências 


Agradecimentos 


A Diego Mansano Fernandes, pela leitura crítica e pelos comen- 
tários sobre o original. 

A José Antônio Damásio Abib, capaz de já no prefácio acres- 
centar reflexões tão inovadoras quanto perspicazes sobre o tema 
abordado. 

A Maria Luiza Favret, pelo trabalho editorial a um só tempo 
célere, competente e gentil. 

À PROPG-Unesp, à Editora Unesp - Selo Cultura Acadêmica, 
ao CNPQ, à Fapesp, ao Departamento de Psicologia e Programa 
de Pós-graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendi- 
zagem, instâncias institucionais que apoiaram a publicação deste 
livro. 


Sumário 


Prefácio 1 3 

Introdução 1 9 

1 Psicologia e pensamento dicotômico 27 

2 A inviabilidade da “coisa em si” como fonte explicativa do 
comportamento 41 

3 Nada é, senão pelas suas relações 107 

4 O frasco de amónia e a complexidade relacional 1 1 9 

5 Principia comportamentalis 1 23 

6 Sustentabilidade e altruísmo condicional 1 55 

7 Uma hiperultramegamaximetacontingência como unidade 
conceituai: algo sobre Laplace, Mach e Ockham 1 6 1 

8 Descendência e delineamentos culturais: que futuro será o 
futuro de Pedro, Isabela e Miguel? 1 73 

Referências bibliográficas 1 79 

Sobre o autor 1 89 


Prefácio 


Quando recebi o convite do professor Kester para fazer o prefá- 
cio de seu livro, fiquei surpreso com título tão insólito: Uma ciên- 
cia sobre “coisa" alguma. Devo confessar que essa ideia atraiu-me 
imediatamente, pois, afinal, o que seria uma ciência sobre coisa 
alguma? Mas, antes de me envolver com especulações as mais fan- 
tasiosas, e conhecendo a formação filosófica do professor Kester, 
logo pressenti, e depois confirmei: não se trata de uma ciência sobre 
coisas, especialmente não se trata de uma ciência sobre a coisa em 
si. Percebi, então, que minha surpresa inicial não tinha razão de ser, 
pois, afinal, a expressão “coisa alguma” faz alusão a alguma coisa 
(ou talvez a coisa nenhuma?); mais especificamente, faz alusão à 
coisa em si, uma coisa que existe (existe?), mas que é impossível de 
ser conhecida. 

A referência a Kant é imediata, pois foi o filósofo alemão quem 
disse que os objetos podem ser concebidos não só como coisa em 
si, mas também como fenômeno. Os objetos, como coisa em si, 
existem independentemente de nossa sensibilidade, de nossa ca- 
pacidade de receber representações. Portanto, existem indepen- 
dentemente de nós, existem fora de nós, e, de acordo com Kant, 
não podem ser objeto de conhecimento. Apenas como fenômenos, 
prossegue o filósofo, como objetos dados à nossa intuição através 


1 4 KESTER CARRARA 


da sensibilidade, é que podem ser objeto de conhecimento. Kant 
conclui, então, que o ponto de partida para o conhecimento é a 
experiência, ordenada, porém conforme as formas do pensamento, 
as categorias do entendimento, a causalidade, por exemplo. Não 
temos, pois, experiência da coisa em si, logo, “dessa coisa” não po- 
demos ter conhecimento. 

Kester comenta que a noção de coisa em si está próxima de seu 
fim já faz alguns séculos. Não deixa de ser surpreendente que, de- 
pois de Kant, algum cientista ainda acredite que é possível conhecer 
a coisa em si, que é possível, portanto, conhecer a realidade. Não 
podemos conhecê-la e, consequentemente, não é possível explicar 
os fenômenos com base nessa noção. Não é possível, prossegue o 
autor, explicar o comportamento com base em uma “mente imate- 
rial”, “estruturas cognitivas”, “estruturas de personalidade” etc., 
e ele escreve, então, um longo capítulo para mostrar (embora não 
só) a inviabilidade da coisa em si mesma como fonte explicativa do 
comportamento . 

Visto que estamos diante de uma ciência sobre coisa alguma, 
cabe logicamente perguntar de que ciência se trata. A resposta en- 
contra-se no subtítulo do livro. Com efeito, trata-se de uma ciência 
centrada em relações, a tal ponto radical que "nada é, senão pelas 
suas relações” (p. 105). A tese do professor tem amplo alcance, haja 
vista que argumenta tratar-se de uma verdadeira revolução no âm- 
bito da filosofia da ciência, com repercussões nas ciências de modo 
geral. E é radical, porque a tradicional pergunta filosófica “o que 
é?” não pode mais ser respondida sem fundamento em relações. A 
pergunta “o que é?” é uma pergunta sobre o ser, e não pode mais 
ser respondida em termos de “essências”, “substâncias”, "coisas”, 
“coisas em si”. 

Kester é categórico nesse ponto, como pode ser verificado 
nesta passagem: “Comportamento não é um conceito que possa 
ser caracterizado tão facilmente quando se formula uma pergunta 
como: ‘o que é comportamento?’” (p. 115). E arremata: “Com- 
portamento não é, e nada é, senão um conceito apenas possível 
no âmbito de relações” (p. 1 15). É a pergunta de Parmênides, a 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 5 


pergunta pelo ser, que o autor abandona. Mas, ao seu modo, 
Heráclito também perguntou pelo ser. Com efeito, sem negar o 
vir-a-ser, sem negar o fluxo, sem negar o mundo, como fez Parmê- 
nides, Heráclito mostrou como conciliar a oposição entre o ser e o 
vir-a-ser, inserindo a constituição do ser na temporalidade, de tal 
modo que a pergunta pelo ser passou a adquirir sentido no vir-a- 
-ser, no fluxo, no mundo. Aparentemente, Kester diz algo similar 
quando escreve que “o comportamento não é, e nada é, senão... 
no âmbito de relações” (p. 1 1 5), relações essas que se desenvolvem 
como processos comportamentais: relações dinâmicas e mutáveis. 
Decorre, portanto, que o comportamento é não por sua essência ou 
por sua substância, mas por suas relações. Assim, a pergunta ade- 
quada é: “Como se dá ou como se estabelece ou em que condições 
dadas se pode falar em comportamento?” (p. 1 1 5). 

O professor Kester assenta o fundamento de uma ciência sobre 
relações na filosofia do empiriocriticismo de Ernst Mach. Nessa 
versão do positivismo, as relações são concebidas como funcionais, 
como relações entre variáveis. Após detalhado esclarecimento dessa 
fundamentação, ele desenvolve sua argumentação no sentido não só 
de mostrar as afinidades das relações funcionais de Mach com as de 
Skinner, mas também de afastar o Comportamentalismo Radical 
de alegadas relações com outras versões de positivismo, tais como o 
positivismo lógico e o sociológico. Na verdade, Kester ressalta que 
provavelmente o repúdio à metafísica é o aspecto que mais apro- 
xima as versões de positivismo. Como o autor sabe, mas não deixa 
de ser oportuno relembrar neste momento, o repúdio à metafísica 
tem sua fonte não somente no positivismo, mas também em outras 
filosofias, como nas de Kant e Wundt. Com efeito, Kant declara 
que a alma, o universo e Deus são objetos da razão pura, coisas 
em si, objetos da metafísica, e, por isso mesmo, não podem ser 
conhecidos, o que torna impossível, respectivamente, uma psico- 
logia racional, uma cosmologia racional e uma teologia racional. 
Por sua vez, Wundt refuta a psicologia tradicional, a psicologia 
metafísica: a psicologia espiritualista e a psicologia materialista. 
E, em consequência, rejeita a explicação da experiência psíquica, 


1 6 KESTER CARRARA 


com base não só nos processos e atributos da matéria, mas também 
na mente-substância. Em seu lugar, Wundt coloca a psicologia 
moderna, a psicologia empírica, a psicologia científica. No rastro 
do professor Kester, poderíamos dizer que o repúdio à metafísica é 
o traço marcante não só da filosofia e da psicologia moderna, mas 
também, em última análise, da ciência moderna. É esse movimento 
geral do pensamento filosófico que está no horizonte do livro do 
autor, e é a esse movimento que pertencem não só as diversas ex- 
pressões do positivismo moderno, mas também o Comportamen- 
talismo Radical. 

Pisando no solo firme da crítica à metafísica, da crítica ao dua- 
lismo de substância, uma mental, outra material, Kester dispara 
uma artilharia contra o pensamento dicotômico, o pensamento 
binário, o pensamento “ou isto ou aquilo”. Sua exposição prossegue 
com método. Em primeiro lugar, arrola as mais relevantes expres- 
sões do pensamento dicotômico, por exemplo, “ou monismo ou 
dualismo”, “ou inatismo ou ambientalismo”, “ou estruturalismo 
ou funcionalismo”, “ou determinismo ou indeterminismo”, “ou 
objetivismo ou subjetivismo”, "ou internalismo ou externalismo” 
etc. Em segundo lugar, mostra como escapar da camisa de força da 
lógica binária em prol de uma lógica de conciliação ou de intera- 
ções, cujo brilhantismo pode ser verificado nos exames detalhados 
das oposições “ou inatismo ou ambientalismo” e “ou objetivismo 
ou subjetivismo”. 

Cabe mencionar, novamente, a atmosfera kantiana e heracli- 
tiana que, a meu juízo, atravessa o livro de Kester. Com efeito, 
Kant mostrou como conciliar a razão com a experiência e o idealis- 
mo transcendental com o realismo empírico. E Heráclito mostrou 
como conciliar o ser com o vir-a-ser. Isso revela o quanto a questão 
da conciliação dos opostos é antiga e o quanto o livro de Kester 
realiza largos voos filosóficos. 

Esclarecido o ambiente filosófico do Comportamentalismo 
Radical, o autor dedica-se a explicar conceitos básicos da ciência 
fundamentada nessa filosofia, a Análise do Comportamento, com 
especial ênfase na contingência de três termos: a contingência que 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 7 


envolve relações de dependência funcional entre o comportamento 
dos organismos, a situação ou o contexto em que ocorre, as con- 
sequências que produz. A contingência de três termos é a unida- 
de básica de Análise do Comportamento, e sua compreensão é de 
fundamental importância não só para a análise do comportamen- 
to do indivíduo, mas também, argumenta o autor, para a Análise 
Comportamental da Cultura (um ramo especial, afirma Kester, da 
Análise do Comportamento). O seu argumento é intencionalmente 
polêmico, porque, quando se trata da transição de fenômenos mais 
simples para fenômenos mais complexos, há os que pensam que é 
necessário criar novas unidades de análise e os que, ao contrário, 
pensam que não. Kester argumenta que a criação de novas unidades 
de análise, à medida que os fenômenos se tornam mais complexos, 
pode conduzir (infere com uma pitada de humor) da metacontingên- 
cia até a hiperultramegamaximetacontingência. 

Trata-se, a meu ver, de uma crítica que o autor dirige a uma 
espécie de escolástica: escolástica da complexidade. Apoiado na 
declaração de Mach de que “a natureza é simples”, Kester prefere 
não só passar a navalha de Ockham na tendência a criar novas uni- 
dades de análise, à medida que os fenômenos se tornam mais com- 
plexos, mas também concordar com Skinner, ao reconhecer que é o 
indivíduo que se comporta e que é o comportamento do indivíduo 
que explica fenômenos de grupo (uma posição tantas vezes reite- 
rada por Skinner). Ao fazer sua crítica contundente à investigação 
de unidades de análise mais complexas, o professor Kester não está 
negando a complexidade relacional das contingências, ao contrário, 
mas não pensa que seja necessário ir além da unidade de Análise do 
Comportamento: a contingência de três termos. 

Já se encaminhando para o final de sua obra, Kester reserva um 
papel crucial para o que chama de Comportamentalismo Radical 
Contextualista Humanista. O aspecto contextualista refere-se, evi- 
dentemente, à complexidade que envolve as relações dos compor- 
tamentos dos organismos com seus contextos e consequências. Mas 
o que significa o termo “humanista”, quando se sabe que é quase 
lugar comum caracterizar o Comportamentalismo Radical como 


1 8 KESTER CARRARA 


uma forma de anti-humanismo? O autor tem um forte interesse so- 
cial e defende a tese de que a Análise Comportamental da Cultura 
pode contribuir para o planejamento de práticas culturais com valor 
de sobrevivência para a cultura. Mas, argumenta, o planejamento 
cultural deve se guiar por valores éticos, tais como o desenvolvi- 
mento de sociedades mais justas, mais igualitárias, mais solidárias, 
mais altruístas e menos egoístas, bem como por valores políticos, 
tais como a formação da cidadania e a participação no planejamento 
cultural das pessoas interessadas nas transformações culturais que 
promovam tais valores éticos. Uma Análise Comportamental da 
Cultura fundamentada no Comportamentalismo Radical e sob o 
lume de tais valores éticos e políticos é uma forma de humanismo, 
que pode contribuir com outras áreas do conhecimento humano 
focadas em valores éticos e políticos similares, a fim de diminuir o 
sofrimento e a infelicidade dos seres humanos. 

O leitor tem em mãos um livro complexo, obra madura, de 
grande relevância filosófica e social para compreender o Compor- 
tamentalismo Radical e a Análise do Comportamento, bem como 
a Análise Comportamental da Cultura e o Planejamento Cultural 
Participativo, com vistas não só ao desenvolvimento de uma socie- 
dade mais justa, mas também à formação da cidadania. Filósofos, 
analistas do comportamento, sociólogos, estudantes de Psicologia 
certamente encontrarão no livro do professor Kester discussões 
provocativas e edificantes. O livro requer leitura lenta e atenção 
concentrada no vai e vem típico das obras que têm coisas importan- 
tes para dizer. 


José Antônio Damásio Abib 


Introdução 


Este livro tem pretensões moderadas . 1 Trata superficialmen- 
te de questões importantes no âmbito da Psicologia, sem almejar 
uma formalização metodológica da análise temática desenvolvida. 
Pode-se dizer mesmo que não se vai além de conjecturas. Diante 
do pressuposto de que estamos frente a uma ciência ainda plástica, 
com fundamentos em processo de sedimentação, e não diante de 
dogmas a serem defendidos ou atacados, o que se pretende é aguçar 
a curiosidade do leitor em relação a um aspecto central no debate 
acerca do fazer humano, que diz respeito à natureza dos conteúdos 
e processos a examinar quando buscamos explicá-los sob uma ótica 
comportamentalista. 

Os parâmetros da análise aqui pretendida obedecem, natu- 
ralmente, às fronteiras estabelecidas pela formação acadêmica do 
autor. Também por essa razão, as discussões serão realizadas sob 
o viés da Análise do Comportamento, sem prejuízo do reconheci- 


1 Em parte, subsidiaram as reflexões deste autor para a elaboração do livro: o 
debate de temas correlatos no âmbito do Grupo de Estudos e Pesquisas em 
Delineamentos Culturais, o desenvolvimento de temas dos seus três últimos 
projetos para Bolsa de Produtividade do CNPq e análises já iniciadas em tese 
de livre-docência não publicada. 


20 KESTER CARRARA 


mento da relevância de análises alternativas por outras mediações 
teóricas. 

Ressalte-se que os dados empíricos que, em tese, sustentam al- 
gumas das asserções contidas neste livro são em parte limitados por 
dificuldades inerentes à própria natureza complexa dos fenômenos 
estudados. Mesmo levando em conta que a Psicologia já não é uma 
ciência tão nova, uma vez que simbolicamente inaugurada com o la- 
boratório wundtiano de Leipzig, nem que suas formulações primei- 
ras derivaram de amálgama de opiniões de filósofos, matemáticos, 
lógicos, teólogos e físicos (para resumir suas origens intelectuais), e 
que, paralelamente, o interesse do homem pelo autoconhecimento 
acompanha-o desde sempre, ainda assim esses dados podem cons- 
tituir condição favorável a um livre e célere avanço em direção à sua 
consolidação como ciência. De modo exatamente oposto, se, por 
um lado, o diálogo permanente com outras áreas do conhecimento 
torna seu percurso menos linear, por outro, exige um caminhar que 
segue adiante, mas sempre incorpora ou exclui conhecimento até 
então dado como definitivo, não sem antes extensa “negociação 
teórica” entre posturas clássicas e inovadoras. 

Essa característica confunde a interpretação de quem queira en- 
contrar uma ciência que progrida por simples justaposição ou soma 
de novos conhecimentos ao acervo já existente. No caso da Psico- 
logia, essa negociação tem sido mais demorada do que na maioria 
das outras áreas do conhecimento, não porque os fenômenos que 
estuda revelem uma natureza “complicada”, mas pelo fato de ela 
ser altamente complexa, com número excepcionalmente amplo 
de variáveis críticas, as quais, o mais das vezes, são mutuamente 
interferentes. 

Isso posto, as duas principais trilhas inseparáveis e intercru- 
zadas para o avanço do conhecimento, a pesquisa empírica e as 
reflexões teóricas, são igualmente afetadas por essa indiscutível 
complexidade. 

Não se trata, pois, de um livro que revisa ou é sobre Mach ou 
sobre Skinner, mas de um livro a partir desses autores. E sugerimos 
ao leitor que o principal aspecto a atentar nos argumentos aqui 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 2 1 


apresentados é que eles estarão sempre voltados para a dimensão 
relacional da ciência, em especial da ciência do comportamento. 
Essa dimensão, que a literatura recente e qualificada aponta como 
crucial em várias disciplinas científicas (Schneider, 2012; Biglan, 
2015a; 2015b), requer uma reflexão ponderada, criteriosa e propo- 
sitiva, aqui ensaiada a partir da Análise do Comportamento. 

Boa parte dos fenômenos da natureza, para serem razoavelmen- 
te conhecidos, necessitam ser examinados mediante a descrição 
das relações entre as variáveis que deles participam. Isso também 
acontece com as atividades genéricas que caracterizam cada espécie 
e, ainda, com os comportamentos dos organismos vivos, sejam tais 
atividades respondentes ou operantes. E este texto diz respeito, em 
particular, a comportamentos operantes e, de maneira ainda mais 
especial, a comportamentos que ocorrem em situações nas quais 
a noção de planejamento cultural (na vertente designada Análise 
Comportamental da Cultura) é a questão central examinada. 
Conforme Fernandes (2015): 

[ . . . ] Susan Schneider traz uma colaboração ímpar ao nos guiar diante 
das inovações de outras áreas do conhecimento, principalmente a 
Epigenética e as Neurociências, e aponta o papel da seleção pelas 
consequências nos processos por elas estudados. As interações entre 
natureza e desenvolvimento, entre natureza e ambiente caminham 
de modo que já não podem mais ser estudadas separadamente, e as 
consequências vêm sendo destacadas como fundamentais não só 
em seu já demonstrado papel na explicação do comportamento ope- 
rante, mas também na ativação e organização de padrões de intera- 
ção genética e no que diz respeito ao funcionamento das estruturas 
e mecanismos cerebrais, (p. 14-5; destaque nosso) 

O livro de Schneider (2012) é bastante otimista em relação aos 
avanços alcançados recentemente pela Análise do Comportamento 
em suas relações com outras ciências. O Behaviorismo Radical pa- 
rece ter emprestado a outras disciplinas científicas algumas de suas 
conclusões paradigmáticas (portanto, consistentemente apoiadas 


22 KESTER CARRARA 


em dados experimentais e considerações teóricas sólidas) e, no mo- 
mento, inspira muitas pesquisas que aproximam Neurociências, 
Fisiologia e Antropologia, cada qual dentro de seu modus faciendi. 
O Science of Consequences [Ciência das consequências] faz uma re- 
visão, em linguagem acessível, da grande diversidade de aplicações 
da lógica de seleção pelas consequências, das articulações desse 
conceito com o de evolução, das relações entre genes e consequên- 
cias, das funções das consequências no cotidiano das pessoas e de 
muitos outros temas relevantes, totalizando dezesseis capítulos 
que se encerram com: “Consequences on a grand scale: society, the 
long term, and the planet” [Consequências em larga escala: socie- 
dade, longo prazo e o planeta]. O texto de Susan Schneider, editora 
da Psychology Today, com graduação em Engenharia Mecânica e 
pós-graduação em Desenvolvimento e Aprendizagem Humana, 
hoje Ph.D. atuante na University of Pacific e com muitas publi- 
cações em Análise do Comportamento, é bastante otimista, desde 
o primeiro capítulo, “Consequences everywhere” [Consequências 
em todo lugar]: 

Consequências proporcionam a motivação que conduz bor- 
boletas às flores e pessoas à Lua. Estar feliz corresponde a obter 
consequências, pequenas ou grandes, incluindo o pôr do sol. E as 
consequências estão em todo lugar. Algumas são imediatas; outras, 
uma sombra no horizonte cuja forma podemos vislumbrar ou que 
nos escapa. Elas são boas ou ruins, mas estão no meio de tudo. Fun- 
cionam para os tigres e as tartarugas — e para nós. Como é irônico, 
então, que as consequências e a ciência que incide sobre elas quase 
sempre sejam ignoradas, (p. 19; tradução nossa) 

Por sua vez, Biglan (2015a), com extensa atuação em Análise 
Comportamental da Cultura, é ainda mais otimista, o que se pode 
constatar em sua entrevista postada na Science online: 

Pode parecer que mudanças esplêndidas não são possíveis 
quando se trata do comportamento humano. Continuamos a ter 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 23 


problemas sérios como criminalidade, abuso de drogas, depressão, 
fracasso acadêmico e pobreza. Ao ler os jornais, você pode pensar 
que não progredimos de forma alguma no que se refere a tais pro- 
blemas e que nenhuma mudança é possível. Mas você pode estar 
errado. Um grande progresso tem sido alcançado no modo como 
tratamos e prevenimos tais problemas, e é esta ciência que pos- 
sui um potencial para melhorar o bem-estar humano para muito 
além das ciências físicas. Se você não está ciente do progresso das 
ciências do comportamento, é porque tal progresso é relativamente 
recente e porque as políticas e os programas que podem prevenir 
ou atenuar problemas ainda não são utilizados em larga escala. 
Estamos à beira de uma revolução no uso das ciências do compor- 
tamento que melhorará o bem-estar das pessoas de formas que se 
revelarão tão dramáticas quanto as mudanças que testemunhamos 
na Medicina, Física e Química. (Disponível em: <http://www. 
ambientessociais. blogspot.com. br/201 5/02/a-ciencia-do-com- 
portamento-pode-vir-ser.html>. Acesso em: 20 abr. 2015) 

Também em outro pronunciamento imediatamente anterior ao 
lançamento do seu mais recente livro, The nurture effect: how the 
Science ofhuman behavior can improve our lives & our world (2015b) 
[O efeito ambiental: como a ciência do comportamento humano 
pode mudar nossas vidas e nosso mundo], 2 o autor revela otimismo: 

Temos as ferramentas para ajudar as nossas famílias e escolas a 
serem mais proativas. Em vez de tratar isoladamente cada problema 
psicológico, comportamental ou de saúde, como se não tivesse rela- 
ção com outros problemas, precisamos estimular todas as organi- 
zações que trabalham para o bem-estar humano a se unirem para 


2 Como nurture tem vários significados em língua inglesa, cabe um esclareci- 
mento sobre a tradução adotada: a expressão nature and nurture diz respeito, 
classicamente (ao menos desde o período elisabetano), à relativa importância 
das qualidades inatas (no sentido do nativismo ou do inatismo), quando com- 
paradas às experiências individuais nas relações com o ambiente (no sentido 
empirista ou, mais especificamente, behaviorista). 


24 KESTER CARRARA 


ajudar a tornar todas as nossas famílias e escolas mais atuantes. 
(Tradução nossa. Disponível em: <http://www.nurtureeffect. 
com/>. Acesso em: 20 fev. 2015) 

Biglan (2015b) enfatiza, no livro, a questão da busca e consoli- 
dação, pelos cientistas, das relações entre variáveis no âmbito geral 
da ciência e no âmbito particular das ciências do comportamento: 

Até Darwin, a principal estrutura conceituai para pensar o nexo 
de causalidade na ciência era mecânica. Os cientistas fizeram enor- 
mes progressos na compreensão das relações entre os objetos físi- 
cos, estudando as maneiras como esses objetos influenciavam uns 
aos outros. Antes, pensando sobre essas relações como se poderia 
pensar sobre uma máquina, o foco foram as partes do mundo e as 
forças que influenciam essas relações, (p.12; tradução e destaques 
nossos) 

Uma ciência das consequências, todavia, também se manteve 
embutida na proposta de Skinner de uma filosofia behaviorista ra- 
dical e de uma análise comportamental, sem que esse autor perma- 
necesse, de modo completo ou definitivo, pessimista ou otimista, 
como revela este trecho de uma entrevista que concedeu à revista 
Veja (1983): 

Veja — Para muitas pessoas, Skinner e Behaviorismo, embora já 
incorporados à ciência, ainda são sinônimos de manipulação de 
comportamento e possibilidades sinistras. Isso o incomoda? 
Skinner - Eu estou preocupado com a escalada das armas nuclea- 
res, mas não culpo Einstein por isto. Lamento, como todo mundo, 
que certas drogas pesquisadas com fins farmacêuticos sejam usadas 
por viciados, mas nem por isso vai defender-se o fim da pesquisa 
farmacêutica. Não se acaba com os automóveis porque motoristas 
bêbados os usam para matar. Tudo pode ser usado para fins sinis- 
tros e isto vale para a tecnologia do comportamento. O fato é que 
pessoas habilidosas sempre souberam manipular o comportamento 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 25 


de outras. Só que o faziam intuitivamente, como uma arte. Alguns 
tinham o talento, outros não. Com o Behaviorismo, explicamos 
como isto acontece, (destaque nosso) 3 

Como se poderá notar nos argumentos apresentados neste livro, 
entendemos que a era da busca pelas “coisas” (incluindo eventos, 
instâncias, estruturas em “si mesmas”) está cada vez mais próxima 
de seu fim no mundo da ciência dos últimos três séculos. O que a 
teoria darwiniana da evolução e a abordagem behaviorista radical 
têm feito, em particular, é, de modo genérico, oferecer argumentos 
e demonstrações experimentais inequívocas, espécie a espécie, da 
validade da lógica da variação e seleção pelas consequências, nas 
mais amplas dimensões possíveis. A ideia de variação e seleção, 
todavia, está inextricavelmente ligada à de relações funcionais. Um 
mundo das “coisas em si”, das explicações de fenômenos a partir 
de instâncias fenomênicas diferentes daquelas do próprio fenô- 
meno a ser explicado (o comportamento explicado pela existência 
de uma mente imaterial, por exemplo), de estruturas teóricas e 
lógicas postuladas sem vínculo com o âmbito empírico (estruturas 
de personalidade, estruturas cognitivas), parece fadado não mais 
a uma “tradução” de seus termos aos de uma ciência das relações 
funcionais (como ocorreu com frequência no início do século XX), 
mas a uma troca inevitável de seus postulados pelos dessa ciência. 

O que este livro propõe não é, portanto, um olhar ingenuamente 
otimista para um futuro melhor graças à mera descoberta e consoli- 
dação de princípios comportamentalistas. A visão aqui assumida se 
caracterizará, de forma clara, por um otimismo contido (no mesmo 
contexto de atribuir à Psicologia o status de ciência; cf. Abib, 
1993). Apesar do avanço indiscutível anunciado recentemente por 


3 Não se entenda, por esse argumento, que Skinner defenda a possibilidade de 
uma ciência neutra. Em outras passagens, ele mostrará quanto os dados que 
coletamos são resultado de interpretação. O que ele pretende é mostrar que 
justamente essa relação do indivíduo pesquisador com o objeto do conheci- 
mento é parte do interesse explicativo sobre o fazer ciência e o que é feito da 
ciência. 


26 KESTER CARRARA 


Schneider (2012) e Biglan (2015a; 2015b), ainda há muitos obstá- 
culos desafiadores, como o desenvolvimento do altruísmo; o pro- 
blema da justificação das prescrições éticas para as iniciativas de 
planejamento cultural; o tratamento tecnológico das dificuldades 
com o controle das práticas culturais mediante consequências de 
longo prazo; o desenvolvimento de estratégias de “convencimen- 
to” dos agentes públicos para a formulação de políticas públicas 
adequadas em termos comportamentais; o desenvolvimento de 
sistemas de consequenciação com função de contracontrole para os 
dirigentes políticos, como resposta ao seminal desafio de Juvenal 
repensado por Skinner: "Quis custodiet ipsos custodes?” [Quem 
controlará o controlador?]. 


1 

Psicologia e pensamento dicotômico 


Seja no cenário da experimentação, seja no da reflexão, a prin- 
cipal dificuldade para o desenvolvimento e a consolidação do co- 
nhecimento passa por um processo de imobilização conceituai. 
Nesse processo, ao longo da história da Psicologia, numerosos ato- 
res tomaram para si, como inamovíveis, algumas posturas localiza- 
das em um ou outro dos polos extremos das principais dicotomias 
costumeiramente enunciadas e discutidas nessa trajetória, exempli- 
ficadas pelas díades inatismo-ambientalismo, monismo-dualismo, 
estruturalismo-funcionalismo, determinismo-indeterminismo, 
objetivismo— subjetivismo e internalismo-externalismo. Embo- 
ra duas das características dessa lista sejam a sua perene incom- 
pletude e a sua similitude ou equivalência às de outras áreas de 
conhecimento , 1 é seguro que as dissensões por ela abrangidas são 
suficientes para caracterizar a polêmica trajetória da Psicologia na 
busca de sua consolidação como ciência. 

Ao longo deste livro, o leitor facilmente identificará em que me- 
dida essas dissensões permeiam as tentativas de formulação de uma 

1 Na Filosofia, por exemplo, é comum encontrar algo como: racionalismo— 
irracionalismo, materialismo-idealismo, teoria-práxis; e coloquialmente, 
em áreas compartilhadas: físico— psíquico, alma— corpo, interior— exterior, 
público-privado . 


28 KESTER CARRARA 


Psicologia enquanto ciência. Essas díades funcionam como um tipo 
de trama de um pano de fundo sobre o qual se inscrevem, aborda- 
gem por abordagem, os principais enunciados a respeito do que 
constituiria a dimensão “psicológica” da existência dos seres vivos, 
especialmente os humanos. E, ainda que outros tantos aspectos 
façam parte do processo de elucidação das diversas possibilidades 
explicativas da constituição desta ou daquela mediação teórica, é 
historicamente notória a predominância de um dos polos de cada 
díade nos constructos hipotéticos que buscam definir e nominar 
teorias e sistemas explicativos no contexto da Psicologia. 

Ocorre, quase sempre, que essas oposições não correspondem, 
no mundo empírico, de fato e exatamente, a uma real dicotomia ter- 
minativa, final e irreversível, do tipo ou isto ou aquilo. Na maioria 
das vezes, tais dicotomias não são verdadeiramente dicotômicas. 
Não há como demonstrar, de modo cabal, que todos os compor- 
tamentos dos seres vivos possuem uma origem necessariamente 
inata, no sentido de que sejam geneticamente transmitidos. Do 
mesmo modo, não há como obter dados que corroborem uma (su- 
posta) afirmação “ambientalista” de que todo comportamento é 
aprendido. A oposição entre os polos é, na maioria das ocasiões, 
algo relativo, condicional, circunstancial ou contextuai. Ainda no 
mesmo exemplo, os fatos da experiência dos organismos vivos, de 
maneira consistente com a direção dos dados da pesquisa experi- 
mental, sugerem a interação de fatores genéticos e ambientais na 
determinação do comportamento. 

No exemplário dos episódios de vida, cada atividade dos or- 
ganismos parece apresentar-se menos ou mais influenciada por 
variáveis da história biológica ou da história ambiental. Algumas 
situações são, ilusoriamente, exemplos "claros” de uma ou de outra, 
entre duas formas de determinação: 1) as mudanças na dilatação da 
pupila em função da variação claro/ escuro; os comportamentos que 
compõem o “estilo” de construção de ninho do pássaro joão-de- 
-barro; o ato de seguir o primeiro objeto que se move, comum entre 
certas aves (o imprinting, ou estampagem, no exemplo clássico de 
Lorenz, não importa se correto ou não); e o fototaxismo positivo no 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 29 


voo “cego” das mariposas em direção à chama que poderá consumir 
suas vidas - todos esses exemplos oferecem uma nítida impressão, 
porém falsa, de que aí está presente a demonstração de que há uma 
“causa” genética para esses repertórios; (2) quando respondemos 
mediante contração ou dilatação pupilar em função de aconteci- 
mento sonoro só por nós ouvido num filme; quando o elefante do 
circo, após fazer seus malabarismos, inclina-se para receber o “re- 
conhecimento” do público; quando legamos aos nossos descen- 
dentes um estilo arquitetônico de construção residencial; quando o 
técnico em informática faz um reparo no nosso notebook; quando 
o afinador de pianos adequa os sons oitava por oitava; quando afir- 
mamos a inexistência de um altruísmo desinteressado - tudo parece 
nos conduzir, nesses casos, a uma conclusão pragmática e aparente- 
mente inequívoca de que todos esses episódios derivam apenas da 
experiência interativa dos indivíduos com seu ambiente. Ou seja, 
eles seriam ambientalmente determinados ou “causados”. 

De maneira diferente do que as aparências sugerem, nenhuma 
dessas formas de determinação constitui um conjunto de exemplos 
de ações fundadas apenas na genética ou no ambiente. No primei- 
ro exemplário, as condições corporais (ou organísmicas) que pro- 
porcionam alguma probabilidade para sua ocorrência resultam de 
transmissão genética. No entanto, sua efetiva origem encontra-se 
na seleção de tais condições corporais, em tese, a partir de muta- 
ções que se constituem vantajosas em termos funcionais (ou seja, 
trazem maior benefício para a sobrevivência da espécie, não sem 
considerar o contraditório exemplo das mariposas). Constituir-se 
como mais funcional é um processo que implica, numa dimensão 
temporal específica, a interação entre organismos e ambiente. Em 
última análise, um corpo modificado, no âmbito da espécie, pelas 
interações com o ambiente, é reproduzido ou replicado de tal modo 
que as condições biológicas apresentadas ao nascimento podem ser 
vistas como uma estrutura variavelmente flexível, mas duradoura e 
determinante de um padrão “fixo” de ação. No entanto, quando se 
olha para a dimensão “fixa” desses padrões, nada se encontra que 
sugira uma estrutura eterna, mas em constante mutação, embora 


30 KESTER CARRARA 


numa dimensão temporal relativamente extensa. Ou seja, o que 
se “vê”— mas que concreta e propriamente não se vê em última 
análise, são relações. 

Na maioria dos casos, famosas dicotomias não expressam, de 
modo efetivo, qualquer “incoerência” natural, nem implicam que 
os organismos vivos resultem de arranjos estruturais de natureza 
distinta. Em outras palavras, são os processos qua processos que 
são distintos para comportamentos ou grupamentos de comporta- 
mentos. Para além do fato, em sua aparência apenas estrutural, de 
que são as características espécie -específicas que isoladamente de- 
terminam os padrões comportamentais, a configuração relacional e 
a dimensão histórica das interações organismo-ambiente parecem 
prevalecer como condicionantes de sua ocorrência. 

Os exemplos do caso 1 , examinados “de perto” parecem eviden- 
ciar uma determinação biológica representada por uma estrutura 
corporal geneticamente transmitida e sinalizada, que permitirá ao 
organismo comportar-se de certa maneira. Esse olhar próximo, 
imediato, sugere que uma possível “causa” do comportamento lo- 
caliza-se nessa estrutura biológica específica. Porém, ao examinar- 
mos de modo indireto, mediato, mantendo certo distanciamento 
temporal que permite vislumbrar a trajetória de desenvolvimento e 
consolidação de certa estrutura biológica, o que nela encontramos? 
Não exatamente um corpo que, pela sua organização biofisiológica 
inerente (portanto, não dada por interação), responde pelo padrão 
comportamental analisado, mas um organismo de tal modo confi- 
gurado e cuja história filogenética, em alguma extensão temporal 
ao longo de sua trajetória (interativa), fez que fosse selecionado e 
cumprisse funções de sobrevivência da espécie, de maneira direta 
ou indireta. O que prevalece, aparentemente, continua sendo o 
conjunto dos processos de variação e seleção pelas consequências 
e a efetividade do repertório selecionado num ambiente provavel- 
mente semelhante ao prevalente no passado. Para resumir, o que se 
nota é que, mesmo na dimensão filogenética, o modo determinante 
das mudanças anatômicas, fisiológicas, enfim, biofuncionais, não é 
outro senão aquele dado por interações e relações funcionais. 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 3 1 


Quanto aos exemplos do caso 2, parece mais fácil identificar 
onde estão as relações, por conta da dimensão temporal relativa- 
mente curta (a própria duração da existência do organismo, por 
exemplo) em que as interações produzem a grande maioria dos 
nossos comportamentos (os operantes e os respondentes condicio- 
nados). Note-se, em contrapartida, que também aí as origens são 
da mesma natureza daquelas apresentadas pelo corpo cujas carac- 
terísticas são geneticamente transmitidas. Ou seja, ser sensível às 
consequências é uma condição corporal que, de maneira curiosa, 
não se dissocia da história dos efeitos de interação de organismos 
vivos com seu ambiente num passado “remoto”. Trata-se de uma 
condição corporal que visa a funcionalidade interativa e, em con- 
sequência, a possibilidade de se aprender por meio da variação e 
seleção operantes e transmitir práticas culturais, que poderão ou 
não permanecer e mudar daí em diante, em conformidade com as 
contingências a que estejam submetidas. O que resta transmitido 
biologicamente parece constituir, portanto, uma condição corporal 
que garante sensibilidade a mudanças em função do controle pelas 
consequências. 

Vistos desse modo, os níveis (ou as instâncias) filogenético, on- 
togenético e cultural, enunciados por Skinner (1953), não podem 
distinguir-se um do outro por uma natureza distinta, mas por 
processos particulares que, em última análise, sempre remetem 
a alguma condição de variação e seleção comum entre os três. É 
importante compreender que a designação dos processos “filogené- 
tico”, "ontogenético” e “cultural”, enquanto “níveis” de variação e 
seleção, constitui uma escolha meramente metafórica, até mesmo 
arbitrária. Embora o “nível” cultural aparente ser o mais "elevado”, 
no sentido de que, sendo o terceiro, refere-se à complexa forma de 
transmissão de práticas culturais alimentadas por entrelaçamento 
de comportamentos e contingências, não é o que, de fato, acontece. 
Da mesma forma, seria possível entender que o “nível” filogené- 
tico, este sim, fosse o mais importante, no sentido de que parece o 
mais "básico”, fundamental para a existência dos demais. Assim, o 
termo “nível” refere-se apenas à designação de instâncias às quais 


32 KESTER CARRARA 


correspondem algumas tantas operações no processo de variação 
e seleção. As diferenças entre eles dizem respeito à maneira como 
acontecem mudanças em padrões comportamentais. 

Na dimensão filogenética, qualquer mudança diz respeito a alte- 
rações nas características anatomofisiológicas dos organismos vivos, 
decorrentes de mutações, e sua interação com o ambiente passa a 
ser mais efetiva ou funcional para a sobrevivência da espécie. As 
mudanças organísmicas decorrem de mutações vantajosas em ter- 
mos biológicos e são transmitidas geneticamente às gerações sub- 
sequentes, via reprodução da espécie. Muito do comportamento 
respondente, em termos de reflexos incondicionados, exemplifica 
características que viabilizam a sobrevivência dos organismos a par- 
tir de um aparato corporal biologicamente “pronto” para garantir 
as condições essenciais de sobrevivência. A dimensão filogenética, 
nesse sentido, "prepara” os novos exemplares da espécie para que, ao 
nascerem e passarem a viver em um ambiente similar ao do passado 
selecionado, disponham das condições biológicas que asseguram a 
sua sobrevivência nesse ambiente, em especial de modo que, grada- 
tivamente, essa sobrevivência possa ser dada ou influenciada pelas 
interações dos organismos, no cotidiano, com o meio em que vivem. 

Já o segundo “nível” diz respeito a um período específico da 
vida dos organismos, que transcorre entre o seu nascimento e a sua 
morte, caracterizado pelas consequências resultantes das interações 
entre organismo e ambiente. Essas mudanças de comportamen- 
to também acontecem em função de variação e seleção, porém a 
variação não resulta diretamente de mutações biológicas, mas da 
“experiência” representada pelo inextricável elo entre contexto 
antecedente, comportamento e consequências, sendo estas últimas 
distintas para os diferentes seres vivos, a depender da história par- 
ticular de cada espécie. Trata-se do extenso repertório de comporta- 
mentos extremamente sensíveis às consequências, que garante uma 
extraordinária adaptação dos organismos a condições variáveis no 
seu ambiente físico-químico-biológico-social. Se, por um lado, a 
dimensão filogenética foi objeto especial de descrição e análise por 
Darwin, a dimensão ontogenética (segundo “nível”) constituiu- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 33 


-se no achado, na descrição e na explicação segundo a Análise do 
Comportamento, uma abordagem “psicológica” de Skinner às inte- 
rações dos organismos com seu ambiente, restritas à temporalidade 
demarcada pelo período de transcurso da vida. 

Finalmente, uma terceira instância, igualmente importante no 
processo geral de variação e seleção, é o “nível” cultural, o qual 
implica, para além do período de vida do organismo individual em 
suas relações com o ambiente, também os padrões de interação de 
diversos organismos, constituindo o que designamos de práticas 
culturais. Estas, em última análise, também remetem a compor- 
tamentos, e comportamentos, naturalmente, que só podem ser do 
indivíduo, já que comportar-se é condição inerente à individuali- 
dade. Para além de uma dimensão metafórica, não há que se falar 
em “comportamento do grupo”, já que grupo não “absorve”, não 
“consome” as consequências geradas por certa organização, certa 
configuração, certo tipo de entrelaçamento entre os comportamen- 
tos dos seus membros. 

O grupo não é um organismo. Este se comporta e produz con- 
sequências no ambiente, as quais, por sua vez, alteram a probabili- 
dade de ocorrência de classes de respostas funcionalmente similares 
às que produziram tais consequências. O grupo é uma reunião, 
com base em diversos critérios possíveis, de indivíduos que se arti- 
culam de tal maneira que apenas sob tal lógica coordenada as con- 
sequências são possíveis. Esse entrelaçamento é uma condição que 
diferencia as práticas culturais em relação ao comportamento ope- 
rante ordinário, individual, do segundo “nível”. As consequências 
afetam uma condição plural de organização comportamental, as 
práticas culturais, que são arranjos de comportamentos individuais 
dispostos de tal modo que apenas e tão somente se emitidos em tais 
circunstâncias e com tal padrão implicarão reforçadores para uma 
dimensão plural no contexto do grupo - ou o comportamento de 
todos os membros, ou de parte dele, especificável na caracterização 
das contingências vigentes - que sensibilizem os seus membros. 

O terceiro “nível”, portanto, é “responsável” pela transmis- 
são (no caso humano, excepcionalmente complexa, pela presença 


34 KESTER CARRARA 


de comportamento verbal) de padrões designados como culturo- 
-comportamentais , 2 representados por tipos de práticas culturais 
que tenham sido efetivos para a sobrevivência do grupo e de seus 
indivíduos. De modo concomitante, é nesse nível que, paralela- 
mente, são excluídos padrões de práticas que não sejam funcionais 
para o grupo e que “precisem” ser eliminadas ou transformadas. Na 
atualidade, discute-se a pertinência do uso de duas possíveis unida- 
des de análise das práticas culturais: a contingência de três termos 
de Skinner ou a metacontingência de Glenn, aspecto que não será 
aqui aprofundado, dado o escopo diverso deste livro. 

Nessa caracterização dos "níveis” de variação e seleção há um 
fato central: não existe diferença de natureza entre os processos que 
se dão nas três instâncias. As três remetem à mesma lógica para- 
digmática que caracteriza a Análise do Comportamento, ou seja, 
a seleção pelas consequências. Certamente, o modus operandi de 
cada uma dessas instâncias, como visto, é diferente, seja em termos 
do processo envolvido, seja em relação ao que muda no organismo 
e ao transcurso temporal do processo. Portanto, não existem três 
dimensões separadas ou estanques da vida de um organismo. Tra- 
ta- se de três maneiras pelas quais o processo de variação e seleção 
atua. Retomaremos o assunto apenas contextualmente, após anali- 
sar várias questões a ele relacionadas. O objetivo desta retomada é 
antecipar ao leitor uma possível sinalização da trilha que se seguirá 
em parte dos argumentos apresentados neste livro. 

Tomemos, como paralelo, outro modelo de dicotomia comum 
entre abordagens psicológicas e o cenário geral das questões epis- 
têmico -ontológicas das ciências em geral. Trata-se da questão mo- 
nismo-dualismo. A interpretação dessa díade depende do critério 
e das finalidades às quais se destina. Por exemplo, dentro da visão 
comportamentalista, é possível falar em um dualismo público-pri- 
vado, que se define basicamente pelo critério da acessibilidade. 


2 Note-se que culturo-comportamentais, aqui, não indica uma dupla natureza 
do fenômeno social. Apenas sinaliza a constituição comportamental das práti- 
cas culturais. 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 35 


Considera-se público aquilo que de alguma forma é diretamen- 
te contatado na relação do indivíduo com seu ambiente externo. 
Considera-se privado, em contrapartida, aquilo que só o indivíduo 
contata ou sente, como seus pensamentos e parte de sua “economia 
interna”, genericamente referida aos processos fisiológicos intesti- 
nos ao corpo. 

Ainda permanecem grandes indagações sobre a zona de frontei- 
ra entre o que é público e o que é privado quando se tomam critérios 
como a pele enquanto divisor do que é interno ou externo ao orga- 
nismo. Além disso, é vastamente conhecida a menção de Skinner 
(1967) à diferença entre as dimensões público-privado e físico-não 
físico. No seu exemplo, segundo o qual sua dor de dentes é tão física 
quanto as teclas de sua máquina de escrever, Skinner ressalta que 
apenas ao próprio indivíduo (“primeira pessoa”) que sente dor é 
possível o acesso direto a esta, certamente um evento privado (que 
não pode ser sentido do mesmo modo por uma “segunda pessoa”). 
No entanto, o fato de que seja privado, subjetivo, não implica que 
seja de outra natureza, não física. Nesse caso, a internalidade não 
corresponde a uma condição de dualidade substantiva, na qual o 
que é externo é físico, e o que é interno não é. Nessa perspectiva 
(ontológica), Skinner é evidentemente monista. 

Essa, porém, é apenas uma situação e um critério para explicitar 
a dicotomia monismo-dualismo. A mesma díade, quando conside- 
rada em relação ao que se disse a respeito da existência ou não de 
dois tipos de mundo, um material e outro imaterial, aplica-se quan- 
do pretende-se adotar um pressuposto filosófico para o desenvolvi- 
mento de algum edifício científico. Apenas e tão somente quando 
se objetiva fazer referência a uma abordagem da Psicologia que 
conceba a separação da realidade, quanto à sua substância, em ma- 
terial ou imaterial, é possível, como decorrência desse pressuposto, 
falar em relações entre variáveis de dois tipos: 1) aquelas que admi- 
tem um evento ou acontecimento imaterial como determinante de 
um evento material - por exemplo, a atribuição do comportamen- 
to de elaborar projetos inovadores à existência de uma estrutura 
cognitiva tal como uma "mente criadora”; 2) aquelas que admitem 


36 KESTER CARRARA 


apenas que variáveis fisicamente descritíveis podem determinar 
a ocorrência de comportamentos, também estes entendidos como 
tendo concretude física. Evidentemente, no primeiro caso não é 
possível a mesma conclusão ao se conceber “mente” como sendo 
“corpo e nada mais”; no segundo, a menção a variáveis fisicamente 
descritíveis não significa que estas serão sempre e necessariamente 
fáceis de descrever, assim como é complexo descrever ou localizar 
no espaço o pensamento como um fato que possui extensão. 

Há muitas outras questões por trás da dicotomia físico-não físi- 
co. Uma delas diz respeito à acessibilidade a eventos, coisas, fatos, 
acontecimentos com o auxílio dos sentidos. Olfato, tato, paladar, 
audição são “instrumentos naturais” disponíveis para garantir certa 
probabilidade de sobrevivência às espécies de seres, mas não cons- 
tituem todas as possibilidades de instrumentalização corporal do 
acesso a ocorrências da natureza. Os desenvolvimentos tecnológicos 
(óculos, binóculos, microscópios e telescópios, para exemplificar) 
estendem as possibilidades de aferição “mais precisa” da ocorrência 
de variáveis a outras instâncias imperceptíveis aos nossos sentidos 
naturais. Além disso, certa lógica de localização espacial de eventos 
parece colaborar para se concluir pela materialidade física, ainda 
que não seja percebida e identificada pelos sentidos ou por sua 
extensão tecnologicamente dada. A não ser em sentido metafórico, 
não seria possível que uma pessoa, estendendo a mão aberta, apre- 
sentasse uma demonstração do tipo: “Eis aqui, na palma da minha 
mão, o que penso a respeito!”. A nossa história cultural nos conduz 
a responder ao nosso interlocutor que quer saber a localização do 
nosso pensar mostrando a ele a nossa cabeça. Isso, se não for ne- 
cessariamente e completamente suficiente, parece um consistente 
indicativo de que pensamentos têm uma localização física, o corpo. 
Tomado como comportamento, o pensar seria "parte daquilo que o 
organismo faz”, como arriscou Skinner em 1938. 

Logo se nota que tais dicotomias nunca representam, cada qual 
e todas elas, um problema teórico isolado. Não é possível falar de 
internalismo-externalismo sem provocar tensões quanto às día- 
des monismo-dualismo, estruturalismo-funcionalismo, deter- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 37 


minismo-indeterminismo. Muitas outras existem, prontas para 
participar do debate sobre a existência (material ou imaterial) de 
acontecimentos (fatos da natureza) para os quais queremos encon- 
trar (identificar e descrever no âmbito de suas relações) explicações 
(relações entre variáveis determinantes e determinadas). 

Esse panorama inspira a defesa de alguns sistemas explicati- 
vos na Psicologia, seja considerando como seu objeto de estudo a 
consciência, a atividade ou o comportamento. O aprofundamento 
de cisões amparado em dicotomias nem sempre claras ou legítimas 
(sejam elas de viés epistemológico ou ontológico), associado à di- 
vulgação de ideologias supostamente inerentes às escolhas meto- 
dológicas derivadas dessas díades, tem consolidado a possibilidade 
de escolhas de formação profissional do psicólogo diante de um 
amplo leque de alternativas. Dentre os diversos vieses, emerge o 
da Análise do Comportamento, de trajetória polêmica, mas em 
contrapartida consistente enquanto sistema explicativo que vem 
avançando há mais de cem anos, especialmente apoiado na pesqui- 
sa empírica, começando pela sua versão mais rústica representada 
pelo Behaviorismo Clássico de Watson (1913). 

É exclusivamente no contexto behaviorista - de fato, no con- 
texto do Behaviorismo Radical 3 contemporâneo, descendente da 
formulação skinneriana - que este livro pretende situar suas con- 
jecturas consentâneas com o abandono de uma psicologia apoiada 
na “psique”, enquanto instância na maioria das vezes considerada 
fonte causal de todas as ações, por vezes vista mesmo como uma 
instância imaterial inacessível, a requerer estratégias metodológicas 
de análise para além de qualquer similitude com as ciências natu- 
rais. Não se trata, pois, de um retorno a Watson (1913), mas de um 
passo nada claudicante em direção a uma ciência das relações entre 
variáveis. Nesse sentido, trata-se de um empreendimento científico 
que privilegia a descrição da natureza como meta essencial. Mas não 


3 Para uma análise dos sentidos em que o termo “radical” é apropriado no 
contexto do Behaviorismo skinneriano, pode-se consultar Carrara; Strapasson 
(2014). 


38 KESTER CARRARA 


se restringe à descrição “topográfica” de uma única variável, por- 
que essa etapa da ciência, embora imprescindível, não é suficiente 
para o estabelecimento de conhecimento consistente sobre "como 
funcionam” os fenômenos. O que se busca, e constitui objeto cen- 
tral deste volume, ainda é uma descrição, porém de relações entre 
variáveis. Esse é o nexo de interesse da Análise do Comportamento, 
e é esse o motivo para a consolidação de um caminho que ultrapasse 
qualquer ilusória esperança de conhecer as “coisas” em si mesmas. 

Mostra-se necessária uma abordagem das questões que ex- 
plicam por que estamos dando, neste livro, especial importância 
às interações entre organismo e ambiente. Em particular, ela se 
contrapõe à clássica (e parcialmente vigente) ideia de que, com 
a experiência, acumulamos uma espécie de repositório (um “de- 
pósito intracorporal de nosso repertório”, talvez) de minúsculas 
“representações” internas do mundo externo. Tal repositório con- 
teria uma série de "cópias” da realidade das “coisas” com as quais 
convivemos. Outra análise possível talvez exija a compreensão do 
sentido que estamos dando ao conceito de comportamento no âm- 
bito do Behaviorismo Radical para melhor entender as razões de tal 
rejeição liminar à “teoria da cópia”. 

O que se revela como mudança, a partir das relações funcionais 
com o ambiente (uma vez que mudanças decorrem delas, inevita- 
velmente), é a configuração corporal, com especial ênfase para o 
cérebro, os neurônios e o sistema nervoso em geral, de modo que, 
por exemplo, diante de uma situação parecida, no presente, com 
uma do passado, à qual respondemos com sucesso, mostra-se para 
nós a possibilidade de que podemos responder agora de forma equi- 
valente. Ou seja, quando nos vemos diante de uma situação similar, 
é a situação que enseja uma resposta para cuja ocorrência nosso or- 
ganismo está preparado em função da experiência. Tal similaridade 
está dada não pela “coisa em si” que nos afeta, mas pelo tipo de 
relação selecionada de maneira interativa. Naturalmente, embora 
centenária, a questão da definição de comportamento, termo dis- 
seminado na literatura de numerosas disciplinas científicas, não é 
nada consensual. Nossa opinião (Carrara; Zilio, 2013) é apenas uma 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 39 


das cinco apresentadas nesse número especial da Revista Brasileira 
de Análise do Comportamento. É representativo das considerações 
ali veiculadas o trecho seguinte: 

[O comportamento...] De um lado, tem existência material. 
De outro, essa existência não basta por si só. O comportamento é 
o próprio funcionamento do organismo segundo uma determinada 
organização corporal. Entretanto, o comportamento jamais está 
encerrado dentro do corpo do organismo como se este funcionasse tal 
qual um repositório ao qual o organismo pudesse recorrer buscando 
formas de agir a-históricas. Não há repertório comportamental pen- 
sado como repositório, à maneira da teoria da cópia. Não há um 
arquivo de eventos comportamentais. A mudança na “configuração” 
comportamental tem natureza histórica, no sentido de que decorre 
das interações organismo-ambiente; de modo correspondente, o 
corpo muda a cada interação. À pergunta sobre onde se localiza um 
repertório comportamental, a melhor resposta parece ser “Em lugar 
algum!”. Ou seja, é o corpo (constantemente mudado a partir de 
novas interações) que se altera e é o comportamento que apresenta 
padrões inerentes a essa configuração alterada. Em última análise, 
o que há de (estruturalmente) estável num organismo é (apenas) sua 
aparência, aos nossos (limitados, mas até por isso suficientemente 
funcionais) sentidos, que nos permitem identificar, ver ou ouvir o 
“outro” como “o mesmo” de ontem e que será provavelmente “o 
mesmo” de amanhã. O continuum generalização-discriminação, 
na análise do comportamento, não apenas explica suficientemente 
esse fato, mas justifica pela funcionalidade biológica nosso interesse 
especial em relações funcionais, e não num enfoque estrutural. 

Diante da possibilidade de que o comportamento seja parte do 
próprio funcionamento do organismo, podemos ficar tentados a 
conceber que funcionamento só se dá em relação a algo ou alguma 
circunstância e que, por isso, comportamento seria, finalmente, 
interação. No entanto, é preciso considerar que interações, nesse 
caso, não são teóricas, não são abstratas, já que se dão no âmbito 
do corpo em funcionamento face ao ambiente, ou seja, no contexto 


40 KESTER CARRARA 


de um mundo físico. Há uma diferença talvez sutil entre os termos 
“relação” e “interação”. Embora ambos se refiram sempre a um 
plural de situações, organismos, acontecimentos ou eventos, é de 
se observar que “interação” implica, mais propriamente, “ações 
conjuntas”, enquanto “relação” implica, como já apontamos, nexo, 
dependência. A despeito de que sejam termos incluídos no jargão 
do analista como intercambiáveis, um modo de atentar para esse 
aspecto particular é retomar uma diferença classicamente marcada 
nos pressupostos fundamentais dos conceitos de contiguidade e 
contingência. Naturalmente, aqui ainda não estão em questão as 
diferenças dos conceitos matemáticos de relações e correlações. A 
existência do comportamento reivindica um "relacionar -se com” 
(agora aproximado ao “interagir com”) o ambiente. Não há como 
falar do comportamento em si, mas somente nas suas relações com o 
ambiente. Não há como falar em ambiente, se não se especificam as 
condições ou o modo com que este faz intercâmbio com o organismo . 

O que o analista busca, finalmente, é descrever tais interações, 
procurando especificar quais tipos de relações de dependência estão 
em curso (o que se faz via análise de contingências). Nesse sen- 
tido, então, a própria interação qua interação e a própria relação 
qua relação constituem conceitos abstratos e destituídos de uma res 
extensa, mas não subsistem, no âmbito da análise comportamental, 
fora de um referente empírico. Especialmente no comportamento 
operante, são essas relações entre as variáveis representadas pelo 
funcionamento do organismo, articuladas às variáveis ambientais 
que constituem o entorno antes-depois da emissão de respostas 
que completam o tipo de fluxo comportamental que provavelmente 
se repetirá num futuro semelhante. Note-se, portanto, que quem 
é sensível às mudanças ambientais é o organismo individual em 
sua ação, ou seja, que se comporta de uma dada maneira em dadas 
circunstâncias e é ou não reforçado por assim proceder; em contra- 
posição, em mero trocadilho, “comportamento não se comporta” e, 
nesse sentido, não é este que, efetivamente, é consequenciado. Para 
tal, é preciso que seja comportamento do organismo, o que não é 
conceito corriqueiro e evidente quanto possa parecer, (p. 14-5) 


2 

A INVIABILIDADE DA " COISA EM Sl" 
COMO FONTE EXPLICATIVA 
DO COMPORTAMENTO 


Para a compreensão do viés através do qual buscamos adentrar 
o cenário contemporâneo das explicações da Psicologia em relação 
a assuntos humanos e descrever as particularidades da lógica com- 
portamentalista, escolhemos recuperar aspectos centrais da história 
evolutiva do pensamento científico sobre a determinação dos acon- 
tecimentos da natureza. Nesse caminho, é relevante alertar para o 
fato de que encontraremos sempre certas ideias preconcebidas em 
relação a alçar a Psicologia à condição de ciência, como a (suposta?) 
necessidade de possuir metodologia própria e distinta daquela das 
ciências naturais, a evanescência de seu objeto de estudo e a inaces- 
sibilidade a fontes “íntimas” de causalidade das ações que, em tese, 
repousariam como incógnitas no interior do cérebro. 

Em nosso exercício regressivo, de modo arbitrário, porém con- 
veniente, adotamos estas obras de Mach: The Science of Mechanics 
(1883) [A ciência da Mecânica], The analysis of sensations ( 1886) [A 
análise das sensações], Popular scientific lectures (1894) [Leituras 
científicas populares] e Knowledge and error (1905) [Conhecimento 
e erro], que promoveram reflexões revolucionárias, na época em 
que foram publicadas, sobre o que constituiria uma explicação 
científica. Suas proposições, ora bem aceitas, ora odiadas, como 
quando examinadas por Lenin (1909), tiveram grande repercussão 


42 KESTER CARRARA 


não apenas no âmbito da Física, mas em todo o mundo científico, 
desde a sua época até o momento atual. 

Uma das razões para percepções menos ou mais sensibilizadas 
em relação às mudanças propostas por Mach foi a sua convicção, 
exposta em Knowledge and error (1909), de que residiria aí “um 
motivo suficientemente importante para colaborar intensamente, 
por meio de nossas concepções psicológicas e sociológicas, para a 
realização de um ideal de ordem moral do mundo” (p.305). 

Para López (1981), a ideia de Mach de que, para uma verdadei- 
ra compreensão científica do mundo, era preciso que os cientistas 
retrocedessem “aos elementos ou sensações que o compõem, tanto 
no domínio subjetivo (psíquico) como objetivo (físico)” (p.85), nos 
aproximaria de uma consistente base teórica e dos elementos que 
constituem qualquer âmbito do real-físico ou do real-psíquico, 
princípio do qual nem metodológica nem ontologicamente se po- 
deria escapar, “obtendo uma depuração do mundo das aparências, 
dos enganos e ilusões que dominam o pensamento e a concepção 
vulgar do mundo” (p.85). 

Mach também sensibilizou alguns russos em princípio fiéis 
ao pensamento marxista, e Lenin, considerando-os traidores da 
ideologia, não se furtou a criticar Mach em seu Materialismo e 
empiriocriticismo (1909). Com relação a Lenin, parece relevante 
ressaltar que o cenário de iminentes e reais conflitos (como o da 
Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918) e os bastidores do 
planejamento estratégico de debates e propaganda ideológica e 
partidária ensejaram também movimentações e manifestações de 
parte da comunidade científica. Por vezes, mesmo alguns cientistas 
que eram seus compatriotas acabaram por deixar-se sensibilizar 
por certas proposições de Mach, já visto como pensador à margem 
da liderança de Lenin, do que resultou a contundente interpretação 
dada no seu Materialismo e empiriocriticismo (1909). 

Ernst Waldfried JosefWenzel Mach, nascido em Chirlitz- 
-Turas, no então Império Austro-Húngaro, em 1838, foi físico e 
filósofo - e, em certo sentido, em razão de parte de seus escritos, 
talvez também pudesse ter sido um psicólogo - e, sobretudo, um 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 43 


eminente pensador científico. Seu trabalho influenciou e conti- 
nua influenciando praticamente todas as áreas do conhecimento. 
Mesmo Freud leu Mach e assinou o manifesto que este liderou, 
convocando os intelectuais para a fundação de uma Sociedade para 
a Filosofia Positivista. Freud havia sido convidado por Wilhelm 
Ostwald (1853-1932, “pai” da físico-química) a ser seu coautor em 
um artigo apoiando a ideia de seu energetismo, doutrina filosófica 
segundo a qual “os elementos da realidade, tanto material como 
espiritual”, eram concebidos como energia. Embora Freud formule 
um modelo explicativo próprio de energia psíquica, incompatível 
com o mote machiano de relações entre variáveis de ontologia física, 
seu propósito inicial era o de constituir uma ciência empírica con- 
sistente sobre o funcionamento da mente humana. 

No entanto, Mach teve particular importância para a formula- 
ção, por Skinner, da filosofia behaviorista radical e da ciência por 
ele sistematizada, a Análise do Comportamento. 

Para melhor avaliação da amplitude das influências de Mach 
nos diversos campos do saber, é necessário relembrar alguns dos 
principais pensadores que viveram na mesma época que ele ou em 
épocas próximas, voltados a atividades filosóficas ou diretamente 
relacionadas à práxis substantiva das ciências a que se dedicaram. 
Alguns desses pensadores foram: Locke (1632-1704), Newton 
(1643-1727), Hume (1711-1776), Kant (1724-1804), Hegel 
(1770-1831), James (1842-1910), Avenarius (1843-1896), Freud 
(1856-1939), Lenin (1870-1924), Watson (1878-1958), Einstein 
(1879-1955) e Skinner (1904-1990). Essa relação pode sempre ser 
ampliada, dado o espectro de influência do empiriocriticismo de 
Mach, mas não reduzida, tais as análises machianas das obras de 
seus antecessores, tais as similitudes de alguns conceitos centrais 
com o que se pode encontrar hoje nos principais sistemas científicos 
de explicação da realidade. 

Os argumentos de Mach, extensamente incorporados e por 
vezes combatidos, não podem, todavia, ser ignorados se o que se 
almeja é uma caracterização contemporânea das principais discipli- 
nas científicas. Como acontece com a maioria dos grandes autores, 


44 KESTER CARRARA 


também Mach teve fases ou momentos em que se opôs em parte 
a determinadas concepções ou apoiou-as com maior vigor. Em 
relação a algumas questões e afirmações, manteve-se incrédulo 
por muito tempo. Por exemplo, desde logo adotou uma postura 
aparentemente mecanicista e descrente em relação à teoria atômica. 
Considerava os átomos como “simples ferramentas que os quími- 
cos e físicos utilizavam a fim de facilitar o seu entendimento, mas 
sem nenhum tipo de relação com a realidade” (Pereira; Freire Jr., 
2012, p.9). Ou seja, para ele, os átomos constituiriam uma simples 
metáfora explicativa da realidade, mesmo já sendo conhecidos, 
desde 1908, dados consistentes que corroboravam a natureza cor- 
puscular da matéria. 

Essas alternâncias conceituais, adicionadas às particularidades 
do contexto histórico-político, em especial nos momentos de ocor- 
rência de diversos conflitos internacionais que serviram de cenário 
para o desenvolvimento filosófico -científico na "era da teoria”, 
produzem reflexões nem sempre lineares. Sem dúvida, as análises 
de trajetórias conceituais temporalmente persistentes na história 
da ciência precisam ser examinadas, considerando um contexto di- 
nâmico e que costuma estender-se ao longo de décadas ou mesmo, 
quando não, de séculos. O conjunto de intelectuais citado anterior- 
mente viveu uma dessas conjunturas especiais da história da ciência. 
Para ela convergiram, e se completaram ou se confrontaram, ideias 
inovadoras ou renovadoras, mais adiante tomadas literalmente, 
reificadas e consagradas como afirmações permanentes sobre fatos 
da natureza. Essa condição gerou polêmicas que se estenderam ao 
longo da história, multiplicando conceitos e posições que nem sem- 
pre fazem jus às reflexões originais dos seus mentores. 

Talvez o movimento mais condizente com essa configuração 
complexa e ao mesmo tempo detentora de influências tão marcantes 
na história da ciência contemporânea tenha sido o Círculo de Viena. 
Nascida da Filosofia e de amálgama de especulações derivadas de 
outras disciplinas, a Psicologia, por volta da metade do século XIX, 
buscou apartar- se das conjecturas filosóficas, considerando pos- 
sível constituir-se como ciência autônoma, guiada por princípios 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 45 


derivados exclusivamente da pesquisa empírica. Nesse período, 
constituiu -se como ícone dessa busca a criação do primeiro labora- 
tório de Psicologia no Instituto de Pesquisa Experimental da Uni- 
versidade de Leipzig (1879). Mais adiante, nos Estados Unidos da 
América, sob lógica de pesquisa e epistemologia distintas, surgiu 
outra iniciativa na direção dessa almejada separação: o lançamento, 
já em 1913, das bases do Behaviorismo de Watson. 

Não obstante tais arrojados projetos “separatistas”, provavel- 
mente a constituição do Círculo de Viena, dirigido à unificação 
da ciência no que diz respeito ao seu método e à sua epistemolo- 
gia essencial, possa ser legitimamente analisada, como foi feito de 
modo criterioso por Smith (1986). O autor considerou o Círculo 
como um acontecimento científico -intelectual que proporcionou 
ora uma reaproximação, ora uma hipotética “aliança” entre os fi- 
lósofos positivistas lógicos (ou empiristas lógicos) e homens da 
ciência até então circunscritos a outras disciplinas, como a Mate- 
mática, a Física, a Economia, a Sociologia, mas não diretamente 
à Psicologia. Entretanto, esta não passaria totalmente indiferente 
a esse movimento intelectual responsável por mudanças radicais 
no pensamento científico. Trata-se de considerar sobretudo a di- 
mensão das nítidas influências de Ernst Mach sobre a formulação 
e configuração inicial do Behaviorismo de B. F. Skinner a partir de 
sua tese de doutorado, em 1930-1931. 

O positivismo lógico emergiu no mundo verbal alemão durante 
os anos de 1920, como um ato de resistência dos partidários da 
consolidação metodológica das ciências naturais, em detrimento 
da tradição do idealismo germânico. Suas finalidades eram: 1) a 
formulação de argumentos consistentes na busca por uma ciência 
unificada; 2) uma radical postura antimetafísica, apoiada metodo- 
logicamente no verificacionismo; 3) a definição lógica de conhe- 
cimentos sobre a natureza pelas vias analítica e sintética. Com tal 
paradigma tricotômico, o positivismo lógico restringiu o conhe- 
cimento aos princípios derivados da experimentação científica e 
destituiu a metafísica do seu status, não por ter sido demonstrado 
que era falsa, mas sim porque era desprovida de qualquer signifi- 


46 KESTER CARRARA 


cado e confiabilidade, entendida como verificabilidade. A impor- 
tância atribuída aos procedimentos metodológicos da ciência levou 
positivistas lógicos proeminentes a estudar o método científico e 
a explorar a lógica da teoria da confirmação (estratégia carnapia- 
na depois atacada por Karl Popper, com o argumento de que um 
critério melhor para distinguir o que é ciência do que não é seria o 
caráter de falseabilidade das asserções científicas). 

Como interessam a este livro as influências diretamente rece- 
bidas pelo Behaviorismo Radical de Skinner, embora os efeitos do 
Círculo se estendessem de modo mais contundente às obras de Hull 
e Tolman, nos deteremos na participação de Ernst Mach no mo- 
vimento sediado na Áustria e em quatro de suas principais obras, 
originalmente publicadas nas datas indicadas e provavelmente exa- 
minadas pelo mentor do Behaviorismo Radical ao longo de sua 
trajetória: The Science of Mechanics (1883), The analysis of sensa- 
tions (1886), Popular sicentific lectures (1894) eKnowledge and error 
(1905). Esse aspecto nos coloca em companhia dos positivistas (ou 
empiristas) lógicos, considerando desde logo que, de modo paralelo, 
mas não compartilhado, uma tendência então recente da cienti- 
ficidade inspirava discussões acadêmicas restritas ao âmbito da 
Psicologia acadêmica. Representativo dessa tendência, o Psychology 
as the behaviorist views it (1913) [Psicologia como o behaviorista a 
vê], de Watson, propunha claramente a substituição da finalidade 
da Psicologia - de estudo da consciência, passaria a estudo do com- 
portamento - e a consequente troca de estratégia metodológica - a 
introspecção daria lugar à observação. 

Antes, e contrariamente ao tipo de contato de Skinner com o 
positivismo lógico, é peculiar que este, em grande medida adotado 
pelo Behaviorismo Metodológico, especialmente representado por 
Boring e Stevens, tenha induzido esses pesquisadores a uma manei- 
ra de raciocinar bem demonstrada por Matos (1997): 

Considerando que só tenho acesso às informações que meus 
sentidos me trazem, o positivista lógico conclui que não posso 
ter informações sobre minha consciência, cuja natureza difere da 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 47 


de meu corpo. Note-se que ele não nega essa consciência, ape- 
nas afirma a impossibilidade de estudá-la. É interessante que essa 
influência também levou ao idealismo e ao subjetivismo. Afirmar 
que não tenho acesso a coisa alguma senão a minhas sensações per- 
mite a negação do mundo: o mundo não existe, somente minhas 
impressões dele; portanto, só minhas ideias são reais. (p. 57) 

Porém, independentemente do que ocorreu com os behavioris- 
tas metodológicos, o que terá acontecido em relação ao contato do 
behaviorista radical Skinner com os positivistas lógicos? A inter- 
pretação mais comumente disseminada na academia e na literatura 
pelos comentadores que fazem restrições ao comportamentalismo 
é que seu Behaviorismo Radical é uma filosofia positivista que 
se apoiaria, para a composição de seus argumentos explicativos, 
no raciocínio dedutivo. Entretanto, uma leitura atenta de Mach, 
de Skinner e dos acontecimentos que marcaram suas trajetórias 
pode revelar resultados surpreendentes, certamente opostos a essa 
compreensão. E o que veremos a seguir, seja acompanhando dire- 
tamente alguns textos seminais desses autores ou de comentadores 
selecionados em função da acurácia de suas análises. 

Comecemos com Smith e seu Behaviorism and logical positi- 
vism (1986) [Behaviorismo e positivismo lógico], resultado de doze 
anos de estudos sobre filosofia e história da Psicologia na Stanford 
University. Esse livro é referência imprescindível para quem quer 
conhecer de modo consistente o assunto. Nos seus dez capítulos, o 
autor apresenta a visão lógico-positivista de ciência e as abordagens 
de Tolman, Hull e Skinner sobre as relações entre Psicologia e ciên- 
cia. Smith examina algumas conjecturas então correntes, apoiadas 
sobretudo nas afirmações de Koch (1964) e Mackenzie (1972), que, 
em conjunto, roteirizam a análise que o autor conduz. 

Este livro apresenta, assim, as características essenciais das con- 
siderações da relação entre o Behaviorismo e o positivismo lógico 
feitas por Koch e Mackenzie. Essas características são as alegações 
de que: 1) o Behaviorismo e o positivismo lógico estavam intima- 


48 KESTER CARRARA 


mente associados; 2) o primeiro importara sua visão de ciência do 
segundo; 3) os destinos dos dois movimentos estavam, portanto, 
interligados, ou seja, o fracasso de um afetaria a viabilidade do 
outro. A inclusão dessa interpretação da aliança behaviorista-posi- 
tivista em um livro bastante conhecido na história da Psicologia 
sugere que ele realmente se constituiu numa fonte de referência 
para a compreensão do episódio, (p. 12-3; tradução nossa) 

Smith relata que Schlick foi para Viena em 1922 para assumir a 
cadeira de História e Teoria da Ciência Indutiva, posição que vinha 
sendo ocupada por Ernst Mach. Como este, Schlick era um físico- 
-filósofo (embora Mach dispensasse insistentemente o segundo 
qualificativo) interessado em epistemologia das ciências naturais. 
Sua ida a Viena proporcionou a reunião de vários cientistas interes- 
sados em encontrar ou formular um perfil unificador da ciência que 
contivesse regras objetivas de pesquisa e reflexão científica que pu- 
dessem ser compartilhadas pelas várias disciplinas. Algum tempo 
depois, estava constituído o Círculo de Viena (Wiener Kreis). Esse 
grupo desenvolveu ideias que muito influenciaram o pensamento 
científico e filosófico do mundo ocidental nas três ou quatro déca- 
das seguintes. A ideia central do Círculo não permaneceu sempre a 
mesma, naturalmente. No decorrer de sua história, surgiram dis- 
sidências e variantes, como é o caso de Karl Popper. Também daí 
derivou, ainda que indiretamente, uma parcela significativa do tra- 
balho de Ludwig Wittgenstein, de início preocupado com a eluci- 
dação (ou construção) de mecanismos para uma linguagem formal 
que expressasse a essência dos problemas filosóficos e científicos e 
pudesse denotar, de maneira inequívoca, a natureza do fenômeno 
analisado. 

Ainda para Smith (1986), os primeiros membros da organização 
se viam como seguidores das ideias de Mach, embora conside- 
rassem que este com frequência negava importância maior para a 
Lógica e a Matemática no processo de construção de uma "lingua- 
gem” científica universal. A ideia era a de que tal linguagem, com 
o auxílio da Lógica, forneceria ao movimento empirista os instru- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 49 


mentos que permitiriam a resolução do antiquíssimo conflito entre 
racionalismo e empirismo. Desde a chegada de Schlick e em função 
do trabalho de Mach, a trama conceituai do positivismo lógico se 
desenvolveu até seu reconhecimento oficial em publicação de Feigl 
eBlumberg, em 1931. 

Os positivistas lógicos reconheciam sua origem intelectual na 
tradição empirista britânica do século XIX, representada sobretu- 
do pela obra de David Hume, que já reconhecia diferenças entre 
questões de fato e conjecturas reflexivas (ou ideias). As questões 
de fato podiam ser aferidas ou testadas com referência direta ao 
mundo da experiência, enquanto as ideias não possuíam referências 
claras a esse mundo (considerando-se o empírico enquanto ma- 
téria tangível), podendo ser examinadas apenas mediante o uso 
da introspecção. Exceto pela Matemática, cujos postulados não 
teriam um referencial ontológico ancorado na experiência (mas cuja 
veracidade poderia ser aferida através do exame das relações entre 
ideias), todas as outras reflexões padeciam da ausência de uma 
base apoiada na experiência direta. A distinção entre essas duas 
instâncias e a adesão aos instrumentos de análise lógica, associada 
ao desenvolvimento de estratégias metodológicas de aferição da 
realidade, levaram os intelectuais influenciados pelo empirismo a 
definir sua tricotomia. 

Embora seja possível um paralelo entre a visão humiana e o 
positivismo lógico, havia uma diferença especial entre essas con- 
cepções: Hume considerava que o conhecimento empírico consistia 
em hábitos nos quais sequências de impressões sensíveis estavam 
associadas a leis psicológicas. Para a maioria dos colegiados do Cír- 
culo - e o exemplo mais crítico talvez seja revelado pela posição 
do matemático Gotlob Frege -, a experiência “psicológica” não 
podia fazer parte da explicação dos fenômenos da natureza, por- 
que desprovida de uma dimensão objetiva passível de ser descrita 
mediante um procedimento lógico-analítico. Frege foi implacável 
ao atacar o que chamou de psicologismo, que para ele seria uma 
espécie de devastação produzida pela incursão da Psicologia na 


50 KESTER CARRARA 


Lógica, referindo-se a esse processo como uma “doença” filosófica. 
Para Constant (2003): 

Para começar, o psicologismo é a tendência para reduzir um 
problema a categorias psicológicas. Na Lógica, o psicologismo 
representa uma tendência a reduzir as suas regras a uma psicolo- 
gia humana. Especificamente, o psicologismo implica que as leis 
da Lógica constituem, em princípio, um fenômeno psicológico e, 
portanto, os seus fundamentos são psicológicos. Por exemplo, uma 
forma de psicologismo afirma que as leis da Lógica são um pro- 
duto da maneira como cérebros estão conectados com a realidade 
e, portanto, um tema de Neuropsicologia. De outro modo, pode-se 
afirmar que a Lógica é mais bem estudada pela maneira como os 
seres humanos respondem a determinadas situações e, portanto, 
poderia constituir-se num tema da Psicologia behaviorista. (p.l -2; 
tradução nossa) 

As polêmicas em torno do positivismo (ou empirismo) lógico 
foram diversas, mas o “problema” em função do qual conceber 
ações lógicas como comportamento aniquilaria a Lógica qua Lógica 
ganhou destaque, uma vez que o conceito de sensação já constituíra 
parte da arquitetura teórica proposta pelo mais eminente predeces- 
sor empirista do Círculo de Viena, Ernst Mach. Isso gerava outro 
tipo de tensão para a ideia de "ciência unificada”, já que, por um 
lado, Hume concebia a possibilidade de uma teoria do conheci- 
mento psicologística, em contrapartida ao que viria a ser uma teoria 
puramente lógica do Círculo. Por outro lado, essa “psicologização” 
humiana era rejeitada por Frege e pelos lógicos do movimento. 
Paralelamente, a tensão entre empirismo (desde Hume e parte do 
grupo britânico) e positivismo (desde Auguste Comte e John Stuart 
Mill) passava pela aceitação parcial ou completa da lei positivista 
dos três estados e seus corolários. 

Comte, que cunhara o termo “positivismo” como característica 
da última instância e forma de conhecimento mencionada nessa lei, 
defendia que o conhecimento genuíno estava baseado na experiên- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 5 1 


cia, e não se admitia pensar de outra forma. As leis da ciência, na 
sua visão, eram afirmações sobre sucessão e similaridade entre os 
fenômenos observados, e o conhecimento teológico e metafísico era 
rejeitado como ilegítimo no âmbito da ciência, uma vez que trans- 
cendia o contexto da experiência, como também para Mach. O pro- 
blema essencial com Auguste Comte não era, fundamentalmente, 
o terceiro ponto de sua lei (o estado positivo), quando aplicado à 
descrição do conhecimento científico. Era sobretudo a dimensão 
ético-moral de sua interpretação da realidade social. O pensador 
francês concebia uma teoria da história da humanidade baseada 
na naturalização da existência de diferenças no status dos grupos 
sociais, o que implicava identificar a presença de uma condição 
humana dominada inerentemente por ações e crenças metafísicas e 
teológicas, as quais, esperava-se, seriam substituídas por um estado 
“superior” da sociedade baseado no conhecimento positivo. 

Todavia, embora se esteja tratando de positivismos distintos, 
recuperar características do positivismo clássico para esclarecer quais 
desdobramentos desse movimento orientam a adoção do qualifica- 
tivo pelos membros do Círculo de Viena (positivismo lógico) talvez 
seja uma alternativa pertinente para compreender, por um lado, o ca- 
ráter cientificista herdado como corolário (ou, em algumas situações, 
como razão central do positivismo) e, por outro, o caráter prescritivo 
(na dimensão ético-moral do positivismo social de um Comte tardio, 
quando chega a formular sua “religião da humanidade”). 

Comte concebia a natureza de modo muito diferente do que hoje 
constitui mote da metodologia das ciências naturais. Seu “naturalis- 
mo” aproximava-se de um determinismo absoluto, quase fatalista, 
pelo qual aceitava como “natural” a existência de um Estado em 
que predominaria, necessariamente, a concentração de riquezas nas 
mãos dos dirigentes industriais. Essa convicção o levaria a ponto de 
pensar que os "proletários reconhecerão, sob o impulso feminino 
[considere-se sua proposta de uma ‘religião da humanidade’, em 
que se revela um grande enlevo envolvendo sua veneranda Clotilde 
de Vaux], as vantagens da submissão e de uma digna irresponsabili- 
dade, em função da doutrina positiva, que há de preparar os proletá- 


52 KESTER CARRARA 


rios para respeitarem, e mesmo reforçarem as leis da natureza que 
implicam concentração de poder e riqueza” (Comte, 1864; destaque 
nosso). Esse capitalismo incipiente, fundado num determinismo 
absoluto, que se contrapõe ao determinismo probabilístico hoje 
defendido na metodologia da pesquisa, fez apologia ideológica da 
ordem estabelecida como sendo natural e, em consequência, a-his- 
tórica e praticamente imutável. Coincidentemente, com essa crença 
na naturalização das condições sociais interclasses, o descrever des- 
comprometido com o transformar com frequência esteve presente 
nos relatos de pesquisa ao longo de muitas décadas, sem indicação 
de intenções para a construção de uma sociedade mais equânime. 

O debate sobre a naturalização da realidade social tem ensejado 
a adoção de distintas dimensões que hoje caracterizam as metodo- 
logias de pesquisa: ideográfica versus nomotética, básica versus apli- 
cada, histórica versus a- histórica e quantitativa versus qualitativa. 
Ainda, lamente-se que versus , no mais das vezes, acabe represen- 
tando confronto, mais do que simples contrapartida ou parâmetro 
de comparação. Por certo, muito há que ser relativizado nas com- 
parações que se faz na pesquisa atual, nos meios acadêmicos, com o 
ponto de vista comtiano original. 

Auguste Comte (1798-1857) recebeu várias influências intelec- 
tuais, mas a mais marcante e conceitualmente próxima talvez tenha 
sido a de Condorcet (1743-1794):a leitura do seu Esboço de um qua- 
dro histórico dos progressos do espírito humano (1784) foi fundamen- 
tal para ele. Nessa obra, Condorcet apresenta um esboço relevante 
dos descobrimentos e das invenções da ciência e da tecnologia na sua 
época, fatos importantes, do seu ponto de vista, para uma melhor 
organização social e política da Europa. Comte, que já manifestara 
anseio, na Escola Politécnica e nos cursos particulares que minis- 
trava, por mudanças sociais, identificou na busca do conhecimento 
“exato” (nesse sentido, “positivo”) o que julgava ser o melhor cami- 
nho para que a sociedade fosse beneficiada como um todo. 

Comte recebeu também influência significativa de Saint Simon, 
de quem foi secretário. Conforme Gianotti (1983), Comte teria 
declarado sobre sua convivência com ele: 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 53 


Pela cooperação e amizade com um desses homens que veem 
longe nos domínios da filosofia política, aprendi uma multidão de 
coisas que em vão procuraria nos livros; e no meio ano durante o 
qual estive associado a ele meu espírito fez maiores progressos do 
que faria em três anos, se eu estivesse sozinho; o trabalho desses 
seis meses desenvolveu minha concepção das ciências políticas e, 
indiretamente, tornou mais sólidas minhas ideias sobre as demais 
ciências, (p.viii) 

Todavia, como seu mestre, no entender de Comte, se limitas- 
se a tarefas eminentemente práticas, tais como formar uma elite 
industrial e científica na França, e ele aspirasse à independência e 
reforma teórica do conhecimento, acabou abandonando o convívio 
com Saint Simon. Nessa época (1823-1824), Comte publicou seu 
Plano de trabalhos científicos necessários à reorganização da socie- 
dade, pleiteando, como anunciado no título, reformular a Filosofia, 
dando-lhe direção cientificista e propondo -a como instrumento útil 
à sua aspiração de mudança social. 

O contexto histórico, na época em que o positivismo comtiano 
surgiu, aponta uma dissidência entre Comte e os matemáticos da 
Escola Politécnica de Paris, numa luta em que o poder intelectual 
estava em jogo. Auguste Comte acreditava que era chegada a hora 
de os biólogos e sociólogos ocuparem o primeiro lugar nas decisões 
intelectuais. Com essa disputa, perdeu o cargo de examinador na 
Politécnica, sobretudo em função do último volume do seu Curso 
de Filosofia Positiva e de trechos do Discurso sobre o espírito positivo. 

Fundamentalmente, o que se nota na turbulenta trajetória com- 
tiana é a preocupação com as condições sociais vigentes e a crença 
de que o novo meio de ascensão da sociedade a melhores condições 
só poderia ser alcançado com o desenvolvimento científico. Para 
tanto, era preciso investir no aprimoramento da busca do conhe- 
cimento e, mais, na delimitação das distinções necessárias entre o 
conhecimento científico e as demais formas como se apresentava. 
Fica claro, então, que o positivismo, embora tivesse seus prede- 
cessores nos séculos XVI a XVIII, em particular Bacon, Hobbes e 


54 KESTER CARRARA 


Hume, acabou sendo sistematizado por Comte, que recebeu tam- 
bém influência mais próxima e direta de Condorcet e Saint Simon, 
como j á abordado . 

De maneira sintética, o paradigma comtiano das três fases do 
conhecimento assim se apresenta: 

1) A fase teológica mostra o homem tentando explicar o mundo 
a partir da intervenção de seres sobrenaturais. Divide-se em 
fetichismo, politeísmo e monoteísmo . Para os propósitos deste 
livro, considerando teoricamente viável essa caracterização 
metafórica, nas mais toscas fases históricas do pensamento 
científico estaríamos pressupondo a existência de “algo” ou 
“alguém” que interferiria na disposição dos fatos mundanos. 
Em outras palavras, rejeitaríamos qualquer naturalismo que 
pudesse ser relacionado a variáveis do mundo fenomênico e 
constituir-se em exemplar explicação sobre “como” os fatos 
da natureza se relacionam ou se contextualizam. 

2) A fase metafísica concebe “forças” para explicar diferentes 
fenômenos, em substituição às divindades. Fala-se em “força 
química”, “força vital”, “força física”. Aqui reside o modelo 
explicativo mais duramente combatido por Mach, quando 
se revela antimetafísico. Ao fazê-lo, Mach exemplifica como 
puramente metafísico o uso do conceito de forças causais 
para explicar, como teria procedido Newton, fenômenos 
naturais. No âmbito da Psicologia, esse procedimento ense- 
jaria apoio numa causalidade decorrente de estados ou estru- 
turas internas (físicas ou conceituais, como vários tipos de 
energia) admitidas como instâncias responsáveis pelo com- 
portamento dos organismos. 

3) A fase ou estado positivo caracteriza-se pela subordinação 
da imaginação e da argumentação à observação. Segundo 
Gianotti (1983): 

[...] Cada proposição enunciada de maneira positiva deve 
corresponder a um fato, seja particular, seja universal. Isso 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 55 


não significa, porém, que Comte defendesse um empirismo 
puro, ou seja, a redução de todo conhecimento à apreensão 
exclusiva de fatos isolados. A visão positiva dos fatos aban- 
dona a consideração das causas (finais) dos fenômenos (pro- 
cedimento teológico ou metafísico) e torna-se a pesquisa 
de suas leis, entendidas como relações constantes entre 
fenômenos observáveis. (p.XI; destaque nosso) 

Dessa maneira, originalmente, a Filosofia positiva conside- 
rava impossível a redução de todos os fenômenos da natureza a 
um princípio único (Deus, natureza). Ao contrário, a experiência 
nunca mostraria mais do que uma limitada interconexão entre de- 
terminados fenômenos, cada ciência, organizada segundo o edifício 
científico proposto por Comte, ocupando-se apenas de certo grupo 
desses fenômenos, irredutíveis uns aos outros. 

Essa atitude de esquivar-se da ideia de “causa” e optar pela de 
“relações constantes” entre tais fatos ou fenômenos naturais ob- 
viamente desagradou a muitos. Mantida por qualquer cientista na 
atualidade, ainda pode produzir efeito similar, embora maquiado 
sob outros discursos, na medida em que se procura responder, por 
esse caminho, a questões do tipo “Como se dá tal fenômeno?”, em 
contrapartida àquelas preferidas pelos leigos, que têm curiosidade 
para saber, por exemplo: “Por que tal fenômeno acontece?”. No 
entanto, embora a Filosofia positivista clássica já procurasse avan- 
çar em termos conceituais, abandonando as explicações teológicas e 
metafísicas, acabava esbarrando no equivocado propósito de buscar 
uma correspondência entre os enunciados científicos e os próprios 
dados, ou seja, certa “identidade” entre fato e valor (ou entre fenô- 
meno e sua interpretação), o que, de resto, encontra-se hoje rele- 
gado a plano secundário por qualquer concepção parcimoniosa de 
ciência, sem que, equivocadamente, parte da crítica ainda atribua 
ao Behaviorismo, grosso modo, essa característica. 

Para a caracterização da Filosofia positivista comtiana, também 
é fundamental a escolha do lema básico “ver para prever”, que 
enfatiza a importância da sistematização da observação fenomênica 


56 KESTER CARRARA 


e, mais do que isso, constitui-se como pilar fundamental de todo o 
positivismo. Sintetiza Gianotti (1983): “o espírito positivo [...] ins- 
taura as ciências como investigação do real, do certo e indubitável, 
do precisamente determinado e do útil. Nos domínios do social e do 
político, o estágio positivo do espírito humano marcaria a passagem 
do poder espiritual para as mãos dos sábios e cientistas e do poder 
material para o controle dos industriais” (p.XII). Daí se pode ante- 
cipar a interpretação recorrente de que, com tal proposta, consoli- 
dou-se, em épocas mais recentes, uma necessária equivalência de 
“princípios positivistas” a um (eticamente cruel) desenvolvimento 
científico comprometido com o capital, a serviço do poder domi- 
nante e detentor de uma posição imobilista que busca a adaptação 
do homem à realidade que lhe é apresentada, em contrapartida a 
uma postura dinâmica, que investiga o envolvimento dele com a 
transformação social. 

Dessa caracterização do positivismo clássico se depreende que 
Comte, apesar de seus propósitos de reforma social, não foi pro- 
priamente um pensador progressista ou revolucionário, uma vez 
que mostrou-se reacionário no tocante à naturalização das dife- 
renças sociais interpretáveis nas suas últimas obras, aquelas de in- 
teresse menos científico e mais ficcionais, de certo modo afetadas 
pelas suas últimas convicções religiosas. Em lugar de aprofundar o 
estabelecimento de uma ciência transformadora da realidade, o que 
fazia de fato era exortar os proletários a “abrandar o egoísmo dos 
capitalistas”. Estava à procura de uma ordem moral humanitária, 
que veiculou e defendeu nas últimas publicações, o que culminou 
numa proposta de mudança de ordem contraditória, presente na 
sua religião positiva, propriamente, seu apostolado positivista, que 
pudesse abolir conflitos de classe. Por certo, seu apelo ao que se po- 
deria hoje denominar de "conscientização do poder instituído” para 
sensibilização com relação aos problemas sociais não teve os efeitos 
que, em tese, parecia esperar. Apesar de sua contribuição para o 
avanço epistêmico-metodológico, o positivismo “social”, desde 
Comte e Durkheim, e que teve influência político -ideológica no 
Brasil, esteve mais para uma desastrada concepção do que pudes- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 57 


sem ser transformações comunitárias orientadas pela justiça social, 
além de não ter consolidado propostas convincentes de estratégias 
de aplicação do conhecimento científico à constituição de uma so- 
ciedade cidadã. Algumas dimensões particulares caracterizaram tal 
influência. Para Pereira e Freire Jr. (2012), no Brasil 

[...] o positivismo mostrou-se muito mais influente nas questões 
políticas do que nas questões filosóficas ou científicas. Gomes 
(1998) defende que apesar do enorme número de seguidores do 
positivismo no Brasil, a influência do positivismo na ciência brasi- 
leira foi muito pequena, devido à inexistência de universidades no 
país até 1920. Estudantes brasileiros pertencentes à elite realizavam 
seus estudos na Europa, em geral, na França e, desta forma, a elite 
brasileira se apropriou das ideias comtianas. Entretanto, o positi- 
vismo tornou-se uma filosofia importante na formação do pensa- 
mento republicano, sendo a maior expressão dessa influência os 
dizeres “ordem e progresso” presentes na bandeira brasileira, (p.3) 

Especialmente no âmbito europeu, acentua-se em Émile 
Durkheim (1858-1917) a ideia de que os fenômenos sociais po- 
deriam ser analisados e explicados mediante o emprego da meto- 
dologia das ciências naturais. Embora tenha sido Comte a cunhar 
o termo “sociologia”, foi Durkheim quem formalizou estratégias 
básicas para a pleiteada “sociologia científica” (Da divisão do traba- 
lho social , 1999; As regras do método sociológico, 2007). Durkheim é 
contundente: “A primeira regra e a mais fundamental é a de consi- 
derar os fatos sociais como coisas (físicas).” Referia-se à proposição 
comtiana de que fenômenos sociais são fatos naturais submetidos a 
leis naturais: não haveria senão coisas na natureza. Começa aqui um 
mal-entendido que perdura até hoje na concepção de muitos. Ele 
estava convencido de que havia regularidade na natureza, inclusive 
na natureza social, ou seja, os fenômenos sociais ocorreriam com 
certa regularidade, podendo ser expressos em termos de teorias, leis, 
postulados científicos. Nesse sentido, prevalecia uma espécie de 
monismo fisicalista em seu pensamento sociológico. Entretanto, se 


58 KESTER CARRARA 


Durkheim parecia convincente ao defender que o comportamento 
social pode ser compreendido por meio de estudo empírico, por 
outro lado parecia associar a essa possibilidade de compreensão a 
ideia de que a natureza da sociedade - uma vez que seu funciona- 
mento seria submetido a leis — não podia ser alterada, numa espécie 
de determinismo “fatalista”, e não determinista: “os fenômenos 
físicos e sociais são fatos como os outros, submetidos a leis que a 
vontade humana não pode interromper [...] e, por consequência, 
as revoluções no sentido direto do termo são coisas tão impossíveis 
como os milagres”. 

Com essa imobilização do fato social, Durkheim acabou por 
defender um princípio de não intervenção, de conformidade e de 
reprodução inconteste da estrutura social em vigor. A sociedade, 
nesse sentido, se constituiria como “sistema de órgãos diferentes 
no qual cada um tem um papel particular [...] mesmo que alguns 
tenham situação especial (privilegiada)”. E por essa via que ele viria 
a ser considerado, de certa forma, metodologicamente conservador: 
o fato de que se poderia estudar o fenômeno social objetivamente é, 
por vezes, confundido com a ideia de que esse fato, por ter estofo 
físico e natural, seria imutável, inalterável. 

Seguramente, as menções aqui feitas a Durkheim são frações ín- 
fimas de suas reflexões metodológicas, que não podem ser avaliadas 
como menos ou mais maleáveis, como eminente ou superficialmen- 
te positivistas, sem o risco de formular conclusões prematuras e tal- 
vez ingênuas. Todavia, servem à finalidade principal desta reflexão, 
que inclui esboçar um traçado do contexto em que o Behaviorismo 
teve contato com a tradição positivista comtiana e suas modifi- 
cações ao longo da história. Ainda como sintomática influência 
dos preceitos comtianos, Durkheim sustentava um apelo a que os 
cientistas sociais se pautassem por um “esforço de objetividade” 
ao analisar os fenômenos sociais. Nesse sentido, deveria ser man- 
tido “certo distanciamento” do homem enquanto observador com 
relação ao homem enquanto ser observado. Levada ao extremo, tal 
ideia presumia a possibilidade do observador “neutro”, que se des- 
vencilharia da sua condição de homem enquanto ser falível, histó- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 59 


rico, multideterminado, sob influência das próprias características 
do objeto da observação. Assim, “distante” e livre das influências 
subjetivas, o cientista poderia “ver” melhor e de modo mais claro 
o fenômeno social. E consensual, hoje, entre a maioria dos pes- 
quisadores e filósofos da ciência, que isso é impossível. Inúmeros 
estudos, sobretudo na área social, já mostraram que, por maiores 
e mais aperfeiçoados que sejam os cuidados metodológicos utili- 
zados na observação de um fenômeno, resta sempre, com maior ou 
menor intensidade, algum indício da influência de características 
inerentes ao observador enquanto variável presente na descrição e 
interpretação que se faz do fenômeno. 

Essa característica do positivismo ingênuo, que não é “privi- 
légio” de Durkheim, já que esteve presente na fala e na prática de 
muitos estudiosos, sustenta a ideia de uma ciência supostamente 
“neutra”, que poderia resolver todos os problemas da observação 
mediante o aperfeiçoamento técnico, ideia que permanece, ainda, 
em meio a raras parcelas da comunidade acadêmica e de pesqui- 
sa. Essa pequena parcela de pesquisadores acredita que o avanço 
tecnológico da observação, desde aquela feita a olho desarmado 
até aquela realizada com equipamentos eletroeletrônicos, digitais, 
a cada dia mais sofisticados, garantirá, algum dia, a total ausência 
de contaminação dos resultados. Não se enxerga aí o fato de que 
sempre, e por último, cabe ao ser humano interpretar e consumir os 
resultados da pesquisa. Ou seja, os dados são o que são apenas no 
sentido de que não se constituem em algo assepticamente separado 
de qualquer coisa que seria, em tese, alguma “coisa” em si mesma. 
Eles são, desde sempre, uma interpretação da realidade à qual se 
dá uma denominação e uma organização, como se verá sobretudo a 
partir da influência de Mach. 

Todavia, por não constituir o centro de nossa atenção neste 
livro, a caracterização superficial do contexto histórico do positivis- 
mo que foi feita parece suficiente para deixar claro outro episódio 
que marcou a trajetória das filosofias de ciência que culminaram 
no aparecimento do Behaviorismo Clássico de Watson e nos neo- 
behaviorismos de Hull, Tolman e Skinner. Parece conveniente, no 


60 KESTER CARRARA 


entanto, esclarecer melhor o chamado “esforço de objetividade” 
defendido por Durkheim, conceito convenientemente examinado e 
exemplificado por Lóvy (1994): 

Liberar-se por um “esforço de objetividade” das pressuposi- 
ções éticas, sociais ou políticas fundamentais de seu próprio pen- 
samento é uma façanha que faz pensar irresistivelmente na célebre 
história do Barão de Münchausen, o herói picaresco que consegue, 
através de um golpe genial, escapar ao pântano onde ele e seu cavalo 
estavam sendo tragados, ao puxar a si próprio pelos cabelos [...] E 
suficiente examinar a obra dos positivistas, de Comte e Durkheim 
até nossos dias, para se dar conta de que eles estão inteiramente 
fora da condição de “privados de preconceitos” . Suas análises estão 
fundadas sobre premissas político-sociais tendenciosas e ligadas ao 
ponto de vista e à visão social de mundo de grupos sociais deter- 
minados. Sua pretensão à neutralidade é às vezes uma ilusão, às 
vezes um ocultamento deliberado e, frequentemente, uma mistura 
bastante complexa dos dois. É inútil insistir, aliás, neste aspecto, 
já que os positivistas mais lúcidos, como Karl Popper, mostraram, 
eles próprios, o ridículo desta doutrina tradicional da ciência social 
sem preconceitos e sem prenoções. (p.32-3) 

Não há como examinar a evolução de uma corrente psicológica 
sem fazer alusões à filosofia e à sociologia que a precederam ou 
acompanharam historicamente. Não é sem razão que Lóvy (1994) 
considerou Popper como “mais lúcido”, embora, na mesma obra, 
ele se torne objeto de crítica do autor. Isso porque Popper, de certo 
modo dissidente do Círculo de Viena, produziu influências até hoje 
mantidas por muitos estudiosos no que diz respeito ao caráter de 
demarcação científica. Seu critério de falseabilidade das asserções 
científicas, em contrapartida ao de confirmação repetida de tais as- 
serções, lançou novas luzes para a construção do edifício da ciência, 
como veremos adiante. 

Retornamos, incidentalmente, à história do positivismo e, so- 
bretudo, à tensão experimentada por Comte devido ao fato de que 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 6 1 


as ideias de Saint Simon (de quem não divergira por simples idios- 
sincrasias) e de outros pensadores do Iluminismo pudessem trans- 
formar-se em ameaça à “estabilidade social” vigente. Ao mesmo 
tempo que não queria o estado de coisas anterior a 1 789 , pretendido 
pelos absolutistas, temia uma postura revolucionária. Por isso, seu 
positivismo de então enseja a defesa de uma sociedade “científica” 
em que é privilegiada uma “ordem industrial”, a qual sustenta, 
afinal, a ideia de “ordem e progresso”. Nessas circunstâncias, não 
é difícil entender o sentido generalizado da crítica ao positivismo 
como filosofia comprometida com a manutenção do estado de coi- 
sas vigente. Ou seja, o progresso da ciência, viabilizado pela objeti- 
vidade, por si e necessariamente traria melhores condições de vida 
para todos, o que é provável que tenha sido o ingênuo engodo em 
que se meteram Comte e seus primeiros seguidores. 

Por razões parecidas, o conceito de positivismo como condição 
suficiente para o reacionarismo e a alienação se difundiu por longo 
período e se mesclou com uma busca da objetividade científica 
contaminada pela crença impertinente em dados puros e na neu- 
tralidade científica, interpretação hoje completamente abandonada 
em todas as disciplinas. Entre os críticos dos empreendimentos 
científicos que continuam buscando objetividade na identificação, 
descrição e análise dos dados e na construção de sistemas teóricos 
explicativos da realidade ainda existem, no entanto, posturas que 
confundem e mesclam essa desejável atitude científica com a des- 
cabida crença em dados puros e com a naturalização imobilista de 
classes no contexto das sociedades, as quais há muito tempo se sabe 
que são resultantes da história das relações sociais. 

Como já se mencionou, a literatura crítica acerca da influência 
positivista sobre o Behaviorismo vai desde uma análise das reais im- 
plicações metodológicas e conceituais da pesquisa até implicações 
político-ideológicas mais profundas. Na primeira dimensão, estão 
em jogo algumas dicotomias básicas, como a questão do como? e do 
por quê? enquanto questionamentos a serem feitos sobre os fenô- 
menos. Também aí reside o debate acerca de verificação e refutabi- 
lidade. De modo mais geral, um jogo que envolve questões lógicas, 


62 KESTER CARRARA 


relativas à indução e à dedução, e que chegou a colocar sob análise a 
proposição de Karl Popper sobre os critérios de demarcação entre o 
que é e o que não é ciência - embora ele tenha sido ocasionalmente 
citado por Skinner, este não teve o objetivo precípuo de ater-se a 
essa discussão, apesar de sua reconhecida importância. Por fim, 
outra questão em que a influência positivista da busca da objetivi- 
dade está presente é a que diz respeito à recusa de Skinner do status 
causal atribuído por alguns aos eventos mentais (trata-se de caso 
genérico no âmbito do cognitivismo de seu tempo). Ele insiste em 
rejeitar qualquer espécie de teleologia, qualquer espécie de expli- 
cação que envolva a busca de propósitos que sejam supostamente 
causadores do comportamento, até porque, reitere-se, demarca o 
seu Behaviorismo Radical como uma filosofia de ciência que admi- 
te, por pressuposição, estofo único nos fenômenos: trata-se de um 
estofo físico que lhes confere caráter monista. 

Desse primeiro bloco analítico sobre as influências positivis- 
tas originaram-se outras polêmicas envolvendo o Behaviorismo, 
por exemplo, a questão quantidade-qualidade. Bruyne, Herman e 
Schoutheete (1977) entendem a quantificação, que seria prioridade 
no Behaviorismo, como uma ligação entre a operacionalização de 
hipóteses e a coleta de informações, submetendo a pesquisa a suas 
exigências metodológicas. Nesse sentido, a quantificação imporia 
uma ordem ao universo semântico, reduzindo-o a um universo 
simbólico de números. Em alguns casos, esse proceder tipificaria 
influências do positivismo lógico, não atribuíveis, como vimos, 
diretamente a Skinner (nesse sentido, Hull e Tolman tendiam a 
expressar, em termos de fórmulas e equações, as relações entre 
comportamento e ambiente). Note-se, sobre o continuum quan- 
tidade-qualidade, tal como mencionamos em outra publicação 
(Carrara, 1996): 

Em seguida, há a necessidade de apreciação dos métodos qua- 
litativos e quantitativos, que acentuam discussões e grande polê- 
mica em torno de um caráter supostamente simplista e reducionista 
que teria passado do positivismo ao Behaviorismo. A ênfase na 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 63 


quantificação, nos últimos oitenta anos, parece ter sido responsável 
por certa “desqualificação da qualidade”. Se, para Goode e Hatt 
(1977), “a pesquisa moderna deve rejeitar como falsa a dicotomia 
entre métodos qualitativos e quantitativos baseada no uso ou não 
da estatística”, para Demo (1981), fica clara uma rejeição quanto à 
possibilidade de um conhecimento puramente objetivo. Demo opta 
pelo critério da objetivação, que substitui a tentativa de reproduzir 
a realidade assim como ela é. Alerta, então, que, como nunca conse- 
guiremos realmente reproduzi-la, devemos optar pela objetivação, 
uma conduta que compreende caminhar em busca da objetividade, 
embora alcançá-la de modo definitivo seja utópico, (p.236) 

Outros autores também criticam o uso dos métodos quantita- 
tivos derivados do positivismo, alertando para o fato de que não 
seriam os métodos em si que produziriam as injustiças sociais, 
mas o uso que se faz deles. Ou seja, pela concepção positivista da 
ciência, “que insiste na aplicação do modelo das ciências naturais 
às ciências sociais”, as verdadeiras crenças e práticas dos seres hu- 
manos ficariam relegadas a segundo plano, o que parece ser mais 
uma crítica no sentido de que esse encaminhamento metodológico 
(a quantificação) levaria, necessariamente, a uma “objetificação” 
do indivíduo. 

Parece ser exatamente pela via do estudo “objetivo” do ser hu- 
mano que se encaminha a crítica ao Behaviorismo em geral e ao 
Behaviorismo Radical em particular. Através da quantificação — 
mensuração da frequência, duração, intensidade, força-peso, to- 
pografia ou outras dimensões do comportamento -, a Análise do 
Comportamento seria científica apenas no sentido da medida em 
si, mas ficaria do lado de fora da análise sobre o que há exatamente 
de “humano” no ser humano. Ou seja, o que se defende, em geral, 
na literatura crítica, é que algumas características do ser humano, 
seja no seu comportamento, seja na sua personalidade, seja nas suas 
ações, fugiriam aos padrões de análise próprios das ciências natu- 
rais. Em outras palavras, o Behaviorismo Radical seria uma filoso- 
fia incompetente para dar conta de todas as dimensões, sobretudo 


64 KESTER CARRARA 


“sociais”, que participam da determinação das ações humanas, 
porque seu método - positivista, em essência -, se ateria apenas a 
uma parcela da realidade, não alcançando dimensões intrínsecas à 
complexidade das organizações sociais. 

De qualquer maneira, seguramente, cabe fazer uma ressalva: 
Skinner não nega, em absoluto, a importância do que vem sendo 
designado de metodologia “qualitativa”, embora sua forma pecu- 
liar de trabalhar (delineamento de sujeito único, com replicação 
sistemática) pressuponha evidente e extensa quantificação. Mas 
ele entende que, em última análise, apenas a qualidade interessa. A 
quantidade, em si, nada diz sobre as propriedades das variáveis es- 
tudadas. O cientista não tem interesse na quantidade em si mesma, 
a qual lhe interessa apenas por estar associada a fenômenos da na- 
tureza e contribuir para expressar sua “intensidade”. Talvez possa 
estar interessado em números ou em algum “aspecto cabalístico” de 
certos números (7, 13, 666), mas o interesse aqui não está em outro 
aspecto, senão no vínculo cultural supersticioso entre números 
e acontecimentos físicos. Esse simples exemplo falseia a ideia de 
que o cientista se interesse por números em si ou por si mesmos. 
Estudar as dimensões “cabalísticas” de certos números é um estudo 
sociológico de aspectos qualitativos. Não há como falar em qualida- 
de a não ser a partir de observação, descrição, quantificação, proce- 
dimentos que assegurariam uma posterior interpretação científica. 

Aparentemente, tanto Skinner desvalorizou (ou demorou a res- 
ponder a) algumas das observações dos críticos acerca de sua produ- 
ção científica - como aquelas de Chomsky sobre linguagem versus 
comportamento verbal, em geral apenas provendo respostas às 
vinte principais restrições no seu About Behaviorism (1974) [Sobre 
o Behaviorismo] , ou participando de debates históricos — , quanto 
alguns críticos supervalorizaram a desqualificação das concepções 
objetivistas (cf. Thiollent, 1987), que se opõem, em geral, “à con- 
cepção empirista concebida em moldes positivistas que tende a des- 
valorizar a elaboração teórica e supervalorizar a observação” (p.87). 

Uma confusão comum em relação a quanto e em que medida é 
positivista o Behaviorismo Radical advém de seu suposto desdém 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 65 


com relação ao mundo “mental”, o que Skinner contesta em 1974: 
“uma ciência do comportamento precisa considerar o lugar dos 
estímulos privados como coisas físicas e, ao fazê-lo, provê uma 
explicação alternativa para a ‘vida mental’ [...] a questão, então, é: o 
que está sob a pele e como nós podemos conhecer isso? A resposta 
é, creio, central para o Behaviorismo Radical” (p.180). 

Parte da crítica faz confusões conceituais entre o Behaviorismo 
Radical e o Metodológico de Boring e Stevens, e, adicionalmente, 
utiliza de maneira indiscriminada, como sinônimos, Behaviorismo 
skinneriano e watsoniano. Esse descuido conceituai, infelizmente 
muito comum, também leva à atribuição de conotação pejorativa 
ao conteúdo da crítica: ao supor que o Behaviorismo Radical re- 
jeita o mundo privado, ele passa a ser considerado reducionista; 
ao ser assim considerado, supostamente, objetifica o ser humano, 
equalizando-o aos outros animais; ao fazer esta equalização, tende 
a encarar o homem como ser limitado, não criativo, não produtivo, 
que está à mercê do meio e, por isso, é inteiramente passivo; ao 
considerar o homem como passivo, determinado, o Behaviorismo, 
em geral, seria corrente teórica imobilista, não transformadora, re- 
produtivista e, como esse tipo de papel serve ao poder dominante, 
ideologicamente reacionária. 

Claro está que o exercício dessa linha de raciocínio deixa de 
levar em conta as diferenças entre os diversos tipos de Behavio- 
rismo, o contexto histórico das inegáveis influências positivistas 
em toda a ciência (e também no Behaviorismo), os trabalhos de 
vários autores, especialmente behavioristas radicais, de colocar 
sua metodologia e suas descobertas a serviço da população (ver 
Holland, 1977), sobretudo contra minorias elitistas e despóticas. 
Pouco adiante, neste livro, nos auxiliará uma análise mais detalha- 
da desenvolvida por Cupani (1990), diferenciando “positivismo” 
e positivismo no cenário científico geral. É óbvio, portanto, o fato 
de que Skinner não ignorou - embora não tenha incorporado in- 
tegralmente — a formulação filosófica positivista. Recebeu líquida 
e certa influência de Ernst Mach, como já mencionamos. Mas o 
positivismo de Mach precedeu e influenciou o Círculo de Viena, 


66 KESTER CARRARA 


propulsor do positivismo lógico. Até por conta dessa influência, 
Skinner declara no começo de The behavior of organisms (1938) [O 
comportamento dos organismos]: "o sistema, na medida em que 
envolve o método científico [...] é positivista” (p.44). Contudo, sua 
referência, aí, restringe-se à prevalência do estado positivo, no sen- 
tido comtiano de que a imaginação e a argumentação subordinam - 
-se à observação. Como já mencionamos em outros escritos (1996): 

Entretanto, isso não confere à afirmação skinneriana a condição 
de submissão ao conceito apresentado por Hanson (1975), segundo 
o qual no positivismo a observação descreveria propriedades da 
natureza das coisas e não propriedades inerentes às teorias ou 
interpretações que os observadores elaboram acerca da natureza. 
É seguro, no Behaviorismo Radical, que o observador tem entre si 
e o dado de realidade todo um anteparo representado pela sua his- 
tória comportamental. Não fosse assim e não se investiria tanto, no 
Behaviorismo, em pesquisar cuidados metodológicos que possam 
reduzir a incidência dos erros experimentais devidos à influência 
do pesquisador nos resultados das pesquisas. Esse investimento, 
contudo, já foi celebrado como podendo apenas tornar-se um ideal 
relativo, de vez que o viés completo não pode extinguir-se, por 
conta de que o ser humano acaba sendo parte inerente da natureza 
que observa e estuda, (p.247) 

Skinner reitera sua preocupação em relação à subjetividade nas 
observações, em especial quando se trata de introspecção, em um 
trecho de seu último livro (1989, p. 139-41), quando declara que os 
positivistas lógicos, num contexto paralelo ao do operacionismo ló- 
gico criticado no simpósio de 1945 (ver Skinner, 1945a; 1945b), ad- 
mitiam a existência de uma mente, mas concordavam que ela deveria 
ficar fora do domínio da ciência, porque não podia ser confirmada 
por uma segunda pessoa, o que configuraria ausência de intersubje- 
tividade entre pesquisadores como critério de demarcação de objeti- 
vidade científica. Afirma que, de modo contrário aos behavioristas 
metodológicos, aceitava a existência de comportamentos privados, 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 67 


como o pensamento, e de outros eventos internos, porém como es- 
tados corporais, cujo estudo deveria ficar a cargo dos fisiólogos, em 
relação à sua estrutura e ao seu funcionamento. Para o autor (1989): 

Dados obtidos através da introspecção seriam insuficientes para 
a ciência, uma vez que a privacidade torna impossível aprender a 
observá-los de maneira precisa [...] como mostrou Lawrence Smith 
(1986), o positivismo lógico veio muito tarde para influenciar dire- 
tamente Hull, Tolman ou a mim, de maneira marcante, mas isso era 
devido a uma figura anterior, Ernst Mach. Minha tese de doutorado 
j á consignava meu débito a The Science of Mechanics [ . . . ] Smith está 
certo em dizer que a "aliança comportamental-lógico-positivista, 
de modo geral, foi muito mais limitada em seu escopo do que 
comumente se acredita". Na verdade, eu não acredito, em abso- 
luto, que houve uma aliança, e, portanto, não acredito em algo cha- 
mado, de forma absolutamente imprecisa, de “aliança fracassada”. 
[...] Dentre os três comportamentalistas, Hull foi o que mais ati- 
vamente promoveu uma conexão com o positivismo lógico. Como 
afirma Smith, o assassinato de Moritz Schlick enfraqueceu o Cír- 
culo, e o positivismo lógico voltou-se para o movimento de unidade 
da ciência. Hull assistiu ao Terceiro Congresso Internacional da 
Unidade da Ciência em Paris, em 1937, e foi um dos organizadores 
do encontro de 1941 , na Universidade de Chicago. Nessa comuni- 
cação, falava da “surpreendente e significante similaridade entre a 
doutrina fisicalista dos positivistas lógicos e o enfoque caracterís- 
tico do comportamentalismo americano que originou o trabalho de 
J. B. Watson [...]” (p. 139-41; destaques nossos) 

As inconsistências conceituais na atribuição de um caráter posi- 
tivista ao Behaviorismo Radical são muitas e vêm acompanhando, 
de maneira polêmica, a sua própria história. Matos (1990) reafirma 
que Skinner sempre teve alguma preocupação com a verificabilida- 
de - e, com isso, foi em parte influenciado pelo operacionismo de 
Bridgman -, mas admite que sua epistemologia é marcadamente 
diferente daquela dos positivistas lógicos, uma vez que seu anti- 


68 KESTER CARRARA 


formalismo e sua inabalável postura empírico -descritiva revelam 
a influência certa de Mach, mais que de qualquer outro tipo de 
positivismo. E, reiterando essa herança que privilegia o relacional, 
Matos (1997) explicita que "o behaviorista radical não trabalha 
propriamente com o comportamento, ele estuda e trabalha com 
contingências comportamentais, isto é, com o comportar-se dentro 
de contextos” (p.46). 

Esses desencontros conceituais relativos ao conceito de positi- 
vismo são em parte esclarecidos por Cupani (1990), ainda que seu 
trabalho não pretendesse, originalmente, qualquer vínculo especí- 
fico com o contexto behaviorista. O autor crê que algumas dessas 
interpretações enviesadas do termo “positivismo” vinculam-se 
à questão de uma boa definição do que signifique objetividade 
científica. Assevera que existia nos anos de 1990, época em que 
algumas de suas obras foram publicadas, uma tendência crescente 
nos meios acadêmicos a denominar de “positivista” a convicção de 
que a ciência constitua esforço de conhecimento para validar resul- 
tados de pesquisa de todos que possuem certa formação científica, 
independentemente de peculiaridades individuais ou grupais dos 
seres humanos. 

Cupani (1990) esclarece que a objetividade científica residi- 
ria nessa validade “universal” e admite que a denominação de po- 
sitivismo para esse conceito de ciência é compreensível, porque 
ela muito deve aos esforços do positivismo e do neopositivismo 
históricos para reconstituir a conduta dos cientistas naturais. Ob- 
serva ainda que foi característico do positivismo ingênuo crer na 
possibilidade de que o cientista pudesse se referir a dados puros, 
isentos de interpretação, na medida em que a ciência era vista como 
uma tarefa de constatação da natureza, o que poderia ser alcançado 
“por todos”, a partir da observação dessa natureza - prevalece aí a 
questão da objetividade por consenso, admitida pela avaliação da 
intersubjetividade entre pesquisadores, a crença na lógica do acordo 
entre cientistas. O autor, no entanto, esclarece que esse tipo de cren- 
ça foi varrido da ciência há muito tempo: os epistemólogos de diver- 
sas orientações têm mostrado quanto ilusório é conceber a ciência 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 69 


como investigação de dados puros. Os dados são necessariamente 
interpretados e elaborados, e o simples fato de que são relatados 
mostra isso, tanto quanto a pesquisa na área de profecias autorreali- 
zadoras e ‘‘efeito Pigmalião”. 

Por essa via, é compreensível, embora não justificável, a prática 
de denominar de “positivistas” os partidários da objetividade cientí- 
fica, embora não defendam uma ciência neutra ou a possibilidade de 
observações “puras” no sentido do positivismo clássico. Para Cupa- 
ni (1990), associações ainda mais sutis seriam feitas ao se suspeitar 
da estratégia anteriormente mencionada. Segundo o autor, diante 
da conhecida posição de Popper, os teóricos acusados de “positivis- 
mo” são por vezes partidários da sociedade liberal. Em virtude da 
associação liberalismo-capitalismo, tornam-se inimigos naturais do 
marxista que, fazendo do positivismo a ideologia oficial do capitalis- 
mo, encontra fácil oportunidade para considerá-los "positivistas”. 

Considerações parcimoniosas a esse respeito são apresentadas 
por Cupani (1990): 

Existe uma tendência crescente em nossos meios acadêmicos a 
denominar “positivista” a convicção de que a Ciência constitua um 
esforço de conhecimento cujos resultados devam ser válidos para 
todos os que possuírem a devida formação específica (matemática, 
sociológica etc.), independentemente de peculiaridades individuais 
ou grupais dos seres humanos. A objetividade científica residiria 
nessa validade "universal” das afirmações científicas, uma vali- 
dade alcançada pela conjunção de fatores tais como o proceder 
metódico, a constante crítica e autocrítica dos cientistas, a atitude 
imparcial ante os assuntos estudados, a prescindência de interesses 
outros que a busca da verdade, a utilização de linguagens unívocas 
e enunciativas (não expressivas ou imperativas) e a atenção prefe- 
rencial aos aspectos quantitativos dos fenômenos pesquisados. Os 
resultados seriam objetivos porque intersubjetivamente válidos, 
e nessa medida indicariam que a tentativa de conhecimento foi 
bem-sucedida, ou seja, seriam “objetivos” em sentido etimológico: 
corresponderiam aos objetos reais em si mesmos, (p. 103) 


70 KESTER CARRARA 


O autor esclarece ainda outros aspectos relevantes da questão: 

Ora, há tempo que os epistemólogos das mais diversas orienta- 
ções têm mostrado que é ilusório conceber a Ciência como investi- 
gação que se serve de dados não interpretados. Apesar da enganosa 
etimologia, os dados são elaborados: correspondem a questões, 
hipóteses e teorias em função das quais são procurados. Os dados, 
por conseguinte, resultam de uma interpretação (ou melhor: são 
certa interpretação), cujo mérito consiste em não ser arbitrária, 
senão justificada dentro do âmbito de consenso em que tem sentido 
uma dada pesquisa. [...] E provável que muitos cientistas conti- 
nuem a acreditar que trabalham com dados não interpretados; em 
tal caso, merecem certamente a crítica de serem "positivistas”. Sem 
embargo, é curioso que sejam assim considerados os pesquisadores 
e teóricos que reconhecem a inevitável interpretação dos dados, 
mas que defendem, apesar disso, a objetividade do conhecimento 
científico, definida pela não arbitrariedade dos dados dentro de 
um determinado consenso. Os críticos parecem presumir, a partir 
da defesa da objetividade, a crença em dados puros, e se sentem 
autorizados a falar de “positivismo”. E como a crença em dados 
puros encontra-se desacreditada, os críticos parecem deduzir que se 
encontra igualmente desacreditada a própria noção de objetividade 
científica. Desse modo, "positivismo” acaba significando a aparen- 
temente injustificada confiança na objetividade científica. [...] 

De acordo com as considerações anteriores, é inadequado deno- 
minar “positivistas” aos partidários da objetividade científica. 
Todavia, mais delicada que a questão da denominação é a rejeição 
da ideia de objetividade que parece acompanhar e motivar a censura 
de "positivismo”, pois, se não estou enganado, o espírito da crítica 
parece consistir na convicção da superioridade da verdade-para- 
-nós sobre a verdade-para-todos. [...] Denominar “positivistas” 
a pesquisadores e teóricos que não o são, pode ser uma estratégia 
para desqualificar posições adversas à própria. Atribuindo a um 
defensor da objetividade a crença - hoje abandonada - em dados 
puros, mostrar-se-ia como insustentável a defesa da objetividade, 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 7 1 


tornando-se plausível a noção de que a Ciência deva ser compro- 
metida. [...] E difícil encontrar hoje alguém que se considere dis- 
cípulo ou continuador dos positivistas e neopositi vistas. Debater o 
positivismo tem, por isso, a meu ver, um interesse puramente his- 
tórico. O debate em torno do "positivismo”, pelo contrário, equi- 
vale ao debate sobre a objetividade e - pelas razões antes expostas 
- sobre a confiança na verdade e no seu valor a propósito dos pro- 
blemas atualmente vividos, principalmente os sociais. Evitar uma 
denominação inapropriada seria uma significativa contribuição 
para um tratamento rigoroso e uma discussão honesta de tais pro- 
blemas. (p. 104-6) 

Para análise detalhada da presença do positivismo no seu âmbito 
metodológico e ético-social, ver também Cupani (1985). Todavia, 
relativize-se o discutido, mesmo porque há que se considerar que 
o autor realiza a sua análise dentro do contexto da epistemologia 
e da filosofia da ciência, mais amplo do que as cercanias do Beha- 
viorismo. Daí, especialmente, a menção a Karl Popper: The open 
society and its enemies (1945) [A sociedade aberta e seus inimigos]. 
Entretanto, não é uma generalidade que todo cientista que valorize 
a objetividade, ainda que por formas e vias de acesso diferentes, 
seja partidário do liberalismo mencionado. Habitam entre eles, 
como entre os que não defendem a busca da objetividade, vários 
outros tipos ideológicos possíveis. De qualquer modo, permanece 
pertinente a análise para mostrar como associações plausíveis ou 
espúrias fluem, de maneira intencional ou casual. O Behaviorismo 
Radical de Skinner, em virtude de toda a sua história, acaba certa- 
mente sendo incluído por seus críticos, via tais associações, no rol 
das correntes cujo “positivismo” inerente seria sinônimo de com- 
prometimento com uma posição politicamente arcaica e atrelada ao 
poder dominante. Tal história inclui sempre o traço inusitado — e, 
por vezes, precipitado - das afirmações de behavioristas polêmicos, 
como no caso de Watson e seus desafios, lançados em conferências 
públicas no início do século XX, por exemplo, bem como de obras 
que geraram intermináveis análises e acusações de utopia das mi- 


72 KESTER CARRARA 


norias, como Walden Two, ficção skinneriana de 1948 inspirada, 
em termos éticos e ideológicos, em Walden, de W. H. Thoureau 
(1854), e, em termos científicos, na então incipiente Análise do 
Comportamento . 

A identificação de Comte como o aparentemente único respon- 
sável pela ideia do positivismo acontece por conta de seu trabalho 
intenso de sistematização, que inclui a lei dos três estados, o lema 
do “ver para prever” e a divisão das ciências; e sua efetiva propo- 
sição de transformação da filosofia positivista em ideologia que 
pretendia mudanças políticas a serem obtidas pela conversão da 
consciência pública dominante, apenas mostrando aos detentores 
do poder as diferenças entre o saber “objetivo” e o “subjetivo”. Em- 
bora esse tipo de postura possa ser mais bem examinado se contex- 
tualizado temporalmente na história da humanidade, não é difícil 
perceber que constitui um paradigma recorrente no pensamento 
contemporâneo. Mais especificamente, a ideia de que o trabalho de 
“conscientização” de certos grupos, mediante políticas públicas que 
consistam em meros “esclarecimentos”, “orientações” e “convenci- 
mento verbal”, é eficiente ainda permanece entre vastos segmentos 
sociais e nas principais agências institucionais que dirigem a vida 
pública. Essas instâncias, em sua maior parte, desconhecem o fato 
de que se torna imprescindível um arranjo de contingências que 
preveja, para além da mera informação, três momentos interligados: 
o contexto para emissão do comportamento, as características do 
próprio comportamento e as consequências por ele produzidas. 

No âmbito da narrativa da história evolutiva do positivismo 
clássico, até sua presença reorientada no positivismo lógico do Cír- 
culo de Viena, a questão técnico -pragmática do arranjo de contin- 
gências capazes de mudar comportamentos ou práticas culturais 
justifica-se melhor pelo fato de que, na passagem de Mach a Skin- 
ner, pode-se verificar a inovação aí resultante na explicação da di- 
nâmica das atividades humanas: a passagem da identificação de 
causas à descrição de relações funcionais. Essa passagem revela- 
-se em Skinner, posteriormente, como crucial para a compreensão 
consistente do mundo empírico humano e da natureza em geral. 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 73 


Trata-se de aspecto vital para a cisão entre a Psicologia que insiste 
em defender explicações pautadas em supostas forças, constructos 
hipotéticos e condições e estruturas internas, e a Psicologia apoiada 
na descrição de relações entre variáveis, conforme sugere o título 
deste livro. 

E isso nos faz retornar ao ponto crucial para o qual nos levara 
Smith (1986): Viena. Não incomodava aos positivistas lógicos a 
rejeição inicial de Comte à metafísica (ele próprio, no final da vida, 
militaria no mesmo caminho explicativo que criticara, ao propor a 
Igreja do Apostolado Positivista). Essa rejeição dizia respeito tam- 
bém às considerações de Mach, apesar de serem muito diferentes as 
razões para a sua escolha. Os membros da organização não se ha- 
viam confortavelmente com o positivismo quase religioso comtiano 
e a sua convicção sobre a naturalização dos estratos sociais. Um 
exemplo de visões anteriores que já estabeleciam restrições ao 
comtismo é encontrado em Mill, que declara simpatizar com várias 
ideias de Comte e sua possibilidade de integração com o empirismo 
britânico. Tal como Hume e Comte, Mill também pensava que o 
conhecimento era sempre fundado na experiência e concordava 
com a ideia de que qualquer convicção sobre conhecimento trans- 
cendente ao mundo empírico era desnecessária ou impossível. Mill 
aceitava a doutrina de Comte sobre os três estados e sobre a necessi- 
dade de reorganizar a sociedade numa base científica, mas divergia 
dele quanto à forma como enfatizava as ramificações sociológicas 
da ciência, defendendo a convicção de que o positivismo na ciência 
se atinha mais aos aspectos metodológicos. 

É evidente que, ao longo da herança comtiana, vários “positivis- 
mos” ou seus supostos “sinais” foram interpretados por diferentes 
autores como necessariamente presentes em vários empreendimen- 
tos científico-filosóficos. No entanto, em alguns casos, os equívo- 
cos deixados pela equalização desses supostos sinais ao positivismo 
clássico de Comte têm sido utilizados como argumento para inter- 
pretações deletérias em todas as áreas. Sobre esse tipo de confusão 
conceituai a partir de outra área que não a Psicologia, Pereira e 
Freire Jr. (2012) observam: 


74 KESTER CARRARA 


Dizer que os positivistas do Círculo de Viena e o positivismo 
de Comte apresentam as mesmas características é um equívoco 
inadmissível, e, sendo assim, caracterizar o positivismo tem sido 
um problema para os filósofos, pois há uma grande dificuldade 
em considerar "os positivismos” como uma filosofia única. Entre- 
tanto, mais complicado do que definir o positivismo talvez seja 
encontrar os positivistas, (p.3, destaque nosso) 

E embora Mill, de todo modo, tal como Comte e Hume, figu- 
rasse nas raízes remotas do movimento de Viena, o nome mais cre- 
ditado pelos seus membros como inspirador do Círculo era Ernst 
Mach, identificado como o principal pensador associado à tradição 
empirista. Não foi gratuitamente que a designação do movimento 
na Áustria recebeu, em sua honra, a denominação de Sociedade 
Ernst Mach (Verein Ernst Mach). O físico-filósofo, mediante a 
confluência do empirismo radical com o positivismo experimental, 
sustentava que o objetivo de qualquer ciência é oferecer descrições 
concisas sobre as dependências funcionais entre fenômenos. Para 
Smith (1986), no monismo neutro machiano os elementos relacio- 
nados nas leis descritivas da ciência são constituídos por experiên- 
cias puras que não são nem mentais, nem físicas, mas traduzidas nos 
próprios termos das relações dadas no âmbito da experiência. Além 
disso, acredita que a ciência pode ser unificada apenas mediante a 
eliminação da metafísica em favor de um estrito empirismo. 

Essa explícita conexão da unidade da ciência com a rejeição à 
metafísica foi uma grande fonte de inspiração para os positivistas 
lógicos. Na sua completa rejeição a explicações a priori ou transcen- 
dentais (no sentido de explicações buscadas em dimensão distinta 
daquela do fenômeno a ser explicado), a epistemologia machiana 
era concebida como uma espécie de “psicologia do conhecimento”. 
Para Mach (1905), todo conhecimento, incluindo o científico, con- 
siste numa eficiente adaptação ao ambiente, num formato em que 
“o físico e o psíquico contêm, portanto, elementos comuns e não 
estão, como se crê geralmente, um frente a outro em oposição ab- 
soluta” (p.8). 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 7 5 


Conforme Smith (1986), “consequentemente, o conhecimento 
pode ser estudado em termos dos processos psicológicos do conhe- 
cedor e, finalmente, em termos de comportamentos biológicos” 
(p.35). Nessa perspectiva, do mesmo modo que na Lógica e na 
Matemática, outras formas de pensar também são experienciais em 
princípio e, assim, devem se sujeitar ao que Mach denominou de 
“economia biológica”. Ele não apenas não se interessava pela lógica 
formal, chegando mesmo a ser hostil a ela, conquanto a consideras- 
se apenas uma “forma econômica de pensamento” . Suas interpreta- 
ções psicológicas, em geral, e lógicas e matemáticas, em particular, 
pareciam sinalizar que sua visão divergia fortemente daquela dos 
positivistas lógicos. 

O sucessor acadêmico de Mach, Moritz Schlick, recebeu um 
convite bastante rentável em Bonn. Como era o organizador e res- 
pondia pessoalmente pelo Círculo de Viena, sua saída sem dúvida 
produziria consequências prejudiciais para os destinos do movi- 
mento. Como informa Smith (1986), Schlick tomou uma decisão 
de momento e resolveu permanecer em Viena. Nessa época (1929), 
quando de sua estada como professor visitante na Stanford Uni- 
versity, Otto Neurath, Rudolph Carnap e Hans Hahn reuniram 
as principais propostas do movimento e como que o oficializaram, 
comunicando-o para toda a comunidade científica internacional. O 
texto, intitulado The scientific world-conception: the Vienna Circle 
(1929) [A concepção científica do mundo: o Círculo de Viena], era 
uma espécie de panfleto do manifesto de Viena. Explicitava a heran- 
ça do positivismo lógico e enfatizava que a integração da nova lógica 
com a estrutura empirista constituía uma mudança importante nas 
formas tradicionais do empirismo e do positivismo. Como reflexo 
do antipsicologismo de Frege, os autores escreveram: “É o método 
de análise lógica que, essencialmente, distingue o empirismo e o 
positivismo da versão anterior, que era mais de orientação biológico- 
-psicológica” (p.308; tradução nossa). 

Apesar da posição divergente de Frege, uma nova versão de con- 
vívio entre positivismo lógico e algumas abordagens da Psicologia 
se tornou possível no âmbito das discussões do Círculo. A adoção 


76 KESTER CARRARA 


do fisicalismo como base para a unificação da ciência redirecionou a 
atenção dos positivistas lógicos para alguma aceitação da Psicologia, 
sob inspiração do conceito machiano de sensações, porque esta- 
va em jogo a viabilidade de formular alguma psicologia em termos 
de linguagem física. Nesse contexto, Carnap publicou no famoso 
Erkenntnis (1932) seu Psychology in physical language [Psicologia em 
linguagem física], apenas um ano após a proclamação do fisicalismo 
enquanto regra verbal da comunicação científica. 

Para Smith (1986), o fato de que, na sequência, os positivistas 
lógicos tenham passado a adotar um behaviorismo lógico na base da 
construção de argumentos científicos deixou inteiramente aberta a 
questão sobre seu relacionamento com o Behaviorismo científico 
do tipo que já era praticado por behavioristas norte-americanos. 
De início, não constituindo mais do que uma extensão da doutri- 
na fisicalista em Psicologia, o Behaviorismo lógico era uma tese 
linguística ou uma espécie de teoria do significado, mas não uma 
abordagem científica da Psicologia. Conforme Smith (1986): 

Embora os behavioristas às vezes oferecessem definições com- 
portamentais de termos mentalistas, proceder desse modo não 
era, de maneira alguma, uma atividade essencial do Behaviorismo 
científico. Behaviorismo lógico e científico foram, assim, diferentes 
empreendimentos com objetivos e métodos distintos, (p.60; tradu- 
ção nossa) 

De qualquer maneira, os positivistas lógicos manifestaram 
algum interesse no Behaviorismo durante os anos de 1920, ao se 
considerar o texto de Bertrand Russell, The analysis of mind [A aná- 
lise da mente], de 1921, que fazia referência a Watson logo após o 
aparecimento de seus primeiros textos. Referências a ele já haviam 
aparecido em textos da época dos membros do Círculo, até porque, 
de início, ele parece ter feito coro com seus membros, manifes- 
tando-se contra a metafísica e identificando-se com análises pró- 
-fisicalismo encontradas em sua obra e na de Pavlov. Estratégias 
convenientes de aproximação, nem sempre tão cientificamente 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 77 


legítimas, podem ter atravessado a relação entre o Behaviorismo 
Clássico e o empirismo/ positivismo lógico. Para Smith (1986): 

Isso ocorreu apesar do fato de que, estritamente falando, as 
realizações de Watson e Pavlov foram irrelevantes para a legitima- 
ção do uso de uma linguagem fisicalista. Os positivistas lógicos 
perceberam que a implausibilidade aparente de um tratamento 
fisicalista da Psicologia seria um obstáculo - uma fonte de “resis- 
tência emocional” - para a aceitação da doutrina, e eles estavam 
preparados para fazer uso propagandístico dos nomes de Pavlov e 
Watson. (p.60-1; tradução nossa) 

A mútua “descoberta” entre os filósofos do Círculo e os pri- 
meiros behavioristas (“psicológicos”, para excluir aqui qualquer 
menção ao Behaviorismo lógico) se deu, em grande parte, graças a 
desenvolvimentos conceituais e reflexões paralelas, como se pode 
depreender dos fatos até aqui relatados. Os dois movimentos, por 
um bom período contemporâneos, não foram criados um a partir 
do outro e, de resto, permanecem equívocos de interpretação sobre 
suas origens e trajetórias, especialmente no que concerne a uma 
possível absorção de estratégias de lógica dedutiva pelos behavio- 
rismos, sejam moleculares ou molares, exceto por Clark L. Hull. 
Tanto que a tradição de pesquisa behaviorista que sobreviveu con- 
tinua sendo o indutivismo. Antes, porém, de uma caracterização 
mais definitiva desses caminhos paralelos, ambos os movimentos, 
tanto o Behaviorismo como o positivismo lógico, apresentaram po- 
lêmicas no âmbito de suas próprias trajetórias independentes. Para 
exemplificar, observem-se as características do positivismo lógico, 
embora este resulte do produto do encontro de duas tradições alta- 
mente conflitantes entre si. 

Na tentativa de unir essas tradições, seus mentores criaram uma 
abordagem bastante influente e abrangente de filosofia da ciência, 
mas elas não se desvencilharam, apesar disso, de sérias tensões 
intelectuais oriundas de sua dupla ancestralidade. A “mistura” do 
logicismo fregiano e do empirismo machiano contribuiu para uma 


78 KESTER CARRARA 


posição filosófica algo instável. Com isso, a ideia de uma análise 
empírica das sensações, ainda que a definição destas tenha passado 
por muitas e nem tanto sutis reformulações, oferecida por Mach, 
conduziu o Círculo, em relação ao desenvolvimento da Psicologia 
como ciência, a uma posição até mesmo periférica na contempora- 
neidade, embora plenamente indispensável, na dimensão da histó- 
ria do desenvolvimento dos paradigmas da ciência. Em relação ao 
Behaviorismo, esclarece Smith (1986): 

[...] os principais neobehavioristas desenvolveram suas próprias 
considerações psicológicas da Ciência e, ao fazê-lo, anteciparam 
alguns aspectos de tendências epistemológicas correntes. Pre- 
ferindo subordinar a Lógica à Psicologia, todos eles foram mais 
empiristas do que os positivistas lógicos. A este respeito, eles não 
eram muito diferentes dos proponentes do psicologismo do século 
XIX. Porém, o que tornou esse psicologismo original foi que era 
um psicologismo behaviorista. Se a Psicologia poderia ser uma 
ciência objetiva, não haveria mais nenhuma razão para rejeitar o 
psicologismo em razão do subjetivismo. E, certamente, os beha- 
vioristas acreditavam acima de tudo que o Behaviorismo poderia 
tornar a Psicologia objetiva, (p.65; tradução nossa) 

Apresentamos até aqui apenas mais uma das possíveis descri- 
ções, provavelmente enviesada pela história da formação intelectual 
deste autor, do que possa ser considerado um tosco e sintético ro- 
teiro de construção do cenário para o desenvolvimento e a conso- 
lidação de uma filosofia de ciência que conduz aos pressupostos 
da Análise do Comportamento. Prosseguiremos, conforme sugere 
o título deste livro, à procura das razões para rejeitar, no âmbito 
conceituai, qualquer objeto de estudo e modo explicativo que se 
apoie em estruturas, instâncias, eventos, estados, “coisas” (muito 
genericamente falando) para explicar as atividades dos organismos. 

Para tal empreitada, parte do caminho passa por uma análise 
da trajetória behaviorista radical de Skinner, sobretudo no que ela 
guardasse ou não estreitas relações com as reflexões concernentes 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 79 


ao Círculo de Viena e às formulações da filosofia de ciência de Ernst 
Mach, em particular. 

Nascido vinte anos após Hull, behaviorista inspirado no modelo 
newtoniano de ciência, Skinner reconheceu algumas influências na 
sua formação científica, declarando que leituras, como de Mach 
e Bacon, revelaram desde logo seu paradigma funcional na expli- 
cação do comportamento nas suas relações com o ambiente. Para 
Smith (1986), essa diferença foi manifestada em relação a vários 
aspectos: a natureza das explicações; o valor e o papel da teoria; o 
tipo de atenção dada a eventos inobserváveis; e o método científico 
em si mesmo. Para mostrar a contraposição de suas posições: Hull 
colocava -se no polo dedutivo do processo de obtenção de conclu- 
sões, enquanto Skinner posicionava- se no polo indutivo (p.258). 
Acompanhando Smith (1986): 

Por causa do indutivismo de Skinner, abordagem empirista 
radical, sua obra teve pouca popularidade durante a Age of Theory 
[era da teoria] ; todavia, uma vez que os sistemas teóricos elaborados 
começaram a cair em desgraça nos anos 1950, a abordagem de Skin- 
ner estava pronta para fazer sucesso, embora fosse Hull a figura 
dominante do Behaviorismo na época, (p.258; tradução nossa) 

Além de Bacon, lido precocemente, Skinner relata ter lido de 
Darwin: The voyage of the Beagle (1845) [A viagem do Beagle], The 
origins of species (1859) [A origem das espécies] e The expression of 
the emotions in man and animais (1872) [A expressão das emoções 
em homens e animais]. Em 1926, a revista Dial publicou uma re- 
senha de Russell sobre o Behaviorism (1924) de Watson. Skinner 
leu-a, interessou-se pelo tema e comprou o livro de Watson e o 
livro The Analysis of Mind ( 1921) [A análise da mente], de Bertrand 
Russell. Skinner leu também Conditioned reflexes [Reflexos condi- 
cionados] (Pavlov, 1927), Logic of modem Physics [Lógica da Física 
moderna] (Bridgman, 1928), The analysis of sensations [A análise 
das sensações] (Mach, 1883) e outros clássicos, dentre eles, alguns 
de Poincaré, Loeb e outros. 


80 KESTER CARRARA 


Tendo lido Bacon, Skinner desde cedo conheceu a visão de 
ciência que enfatizava a observação, a classificação, o estabeleci- 
mento de leis indutivas e o afastamento da supergeneralização e 
de dogmas metafísicos. Sua simpatia em relação a esses aspectos se 
consolidou nas leituras dos textos de Mach, durante sua graduação 
em Harvard. Foram esses textos que serviram de modelo científico 
para a tese de doutorado de Skinner e para o desenvolvimento de 
sua concepção de ciência. Conforme Smith (1986), no The Science 
of Mechanics, Mach traçou o desenvolvimento da mecânica desde 
suas origens primitivas até o seu status contemporâneo na época, 
considerando que conceitos da Física tais como o de força aparece- 
ram de maneira quase artesanal, sem correspondência direta com 
dados que os apoiassem. Já no prefácio desse livro, anunciou que 
pretendia “contribuir para o esclarecimento de ideias, expor o real 
significado do assunto e desfazer-se de obscuridades metafísicas”. 
Smith (1986) escreve sobre a tese de Skinner: 

Tendo lido Mach e Bridgman, Skinner foi receptivo à posição de 
Russell e estava preparado para defendê-la em sua tese. A primeira 
metade do trabalho foi dedicada a uma análise histórico -crítica do 
conceito de reflexo, sendo o método e o objetivo explicitamente 
delineados a partir de Mach. Skinner escreveu em sua introdução 
que “a principal vantagem, primeiramente explorada por Mach, 
reside na utilização de uma abordagem histórica [...] Alguns fatos 
históricos são considerados por dois motivos: para descobrir a 
natureza das observações nas quais o conceito foi baseado e para 
indicar a fonte das interpretações incidentais com a qual estamos 
envolvidos”, (p.265; tradução nossa) 

Skinner observava que a importância da observação do refle- 
xo estava em verificar que esta não permitia nada mais do que a 
constatação da correlação do estímulo com a resposta e que outras 
características referidas ao reflexo, tais como se ele era “involun- 
tário”, “não aprendido” ou “inconsciente”, consistiam em meras 
“interpretações incidentais”. Assim como Mach, Skinner usou a 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 8 1 


análise histórica como ferramenta para clarear conceitos, e para 
isso incluía a função positiva de esclarecer a origem experimental 
e a base conceituai envolvida e a função negativa de revelar seus 
componentes (metafísicos) não essenciais. Era como separar o joio 
do trigo olhando para a dimensão experimental e para o que disso 
“sobrava”: metafísica, nada além. 

Skinner leu outros positivistas, mas foi Mach quem mais o in- 
fluenciou quanto à dimensão epistemológico-metodológica. Com 
Smith (1986), “não seria exagero dizer que Skinner foi profunda- 
mente influenciado por Mach e os sinais dessa influência estão 
espalhados pelo trabalho de Skinner nos anos de 1930, quando 
sua tese dá o padrão do que irá acontecer” (p.265). Outros sinais 
da influência machiana podem ser identificados na leitura, por 
Skinner, d eAnalysis of sensations (1914) e de Knowledge and error 
(1905), além dos registros informalmente deixados por ele no seu 
A sketchfor an epistemology (1934-1937), texto de anotações jamais 
convertido diretamente em publicação pelo autor. Nesse texto, de 
cerca de sessenta páginas, o nome de Mach aparece em torno de 
catorze vezes, sempre como uma referência fundamental a susten- 
tar as análises e conclusões de Skinner. No entanto, o material não 
constitui referência segura ou oficial, uma vez que as informações 
sobre o trabalho do autor com esse material ainda não foram confir- 
madas pelas fontes próximas de Skinner na época. 

Para Ernst Mach, a ciência é uma reprodução mais precisa das 
interpretações práticas dos fatos da vida cotidiana. Atividades tais 
como a caça, o artesanato, as interações humanas em geral, com 
manipulação direta do ambiente, constituiriam os rudimentos 
do conhecimento humano. Documentando sua afiliação a Mach, 
Skinner escreveu que as primeiras leis da ciência foram, provavel- 
mente, as regras usadas pelos artesãos no treinamento de aprendi- 
zes. Como behaviorista, Skinner esteve naturalmente interessado 
em avaliar a evolução do conhecimento em paralelo à evolução das 
espécies, como tema de interesse da Biologia comportamental e da 
história das culturas. Embora estivesse, a seu tempo, circundado 
por um universo introspeccionista, Mach, ainda como reflexão de- 


82 KESTER CARRARA 


rivada de seu exemplo dos artesãos, remete à constituição biológica 
os “sólidos fundamentos do conhecimento científico”. Em 1905, 
no Knowledge and error , utilizou várias páginas para explicitar sua 
visão do que considerava um comportamento animal inteligente, 
tal como o comportamento do cientista. Para Smith (1986), “nas 
suas incursões dentro da psicologia comparada, Mach chegou a 
conclusões parecidas com as da maioria dos behavioristas: homens 
e animais formam conceitos no mesmo sentido; seu comportamen- 
to é governado por associações adquiridas mediante a experiência e 
mantido pela sua utilidade biológica” (p.267). Na sua visão, a evo- 
lução do comportamento animal e a história da Física constituíam 
duas partes de uma simples e mesma linha histórica de desenvolvi- 
mento humano. A ciência compreendida por Mach, apresentada no 
estudo de Smith (1986), assim se apresentava: 

Como um fenômeno histórico, é provisória e incompleta. Toma- 
das em conjunto, estas quatro características da ciência- a sua casua- 
lidade, contingência, particularidade e incompletude - significavam 
para Mach que a ciência não podia ser reduzida a uma fórmula ou a 
determinado conjunto de regras metodológicas. Da mesma forma, 
Skinner tem visto todo o conhecimento como um produto da histó- 
ria. Ao fazer isso, ele tem enfatizado as mesmas características da 
ciência apontadas por Mach, e formulou a mesma conclusão de que 
a ciência não pode ser captada por qualquer fórmula, como pretende 
o método hipotético -dedutivo, (p.268; tradução nossa) 

Essa caracterização da ciência como fenômeno primariamente 
biológico e histórico levou o eminente físico a concluir pela perti- 
nência de um novo conceito: o de economia biológica na ciência. Tal 
princípio é citado por ele com frequência, e diz respeito apenas à 
descrição econômica de fatos. Ou seja, a ciência seria um empreen- 
dimento que resumiria de modo consistente os fatos da natureza. 
Para Fitas (1998), pode-se caracterizar uma boa teoria científica 
como a que "permite a classificação e previsão dos fenômenos sem 
recurso a um excessivo número de ideias sem correspondência com 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 83 


o que é observado pelos sentidos” (p.129). Ainda, para esse autor, a 
lei da economia - que acreditamos possa ser encontrada na ciência, 
em alguns raciocínios similares, como o cânone de Morgan, a lei da 
parcimônia e a navalha de Ockam - não se ocupa da constituição 
da natureza, nem da explicação causal dos fenômenos observados. 
No entanto, para Mach, a “hipótese atomista, supondo o átomo 
como entidade real, constitui uma teoria física muito complicada; 
um átomo nunca se observara, sendo impossível sua comprovação 
experimental; logo, essa teoria não faria sentido” (p.130). 

Isso nos leva a especular: fosse Mach um psicólogo e, mais 
ainda, um behaviorista, seria ele um behaviorista metodológico, e 
não um behaviorista radical, dado que a inacessibilidade (até então) 
dos corpúsculos atômicos caracterizaria a máxima do “inobservá- 
vel, então fora da ciência”, típico do Behaviorismo Metodológico? 
Como se verá em outra parte deste livro, Mach permanecerá até 
o final da vida acreditando que a figura do átomo serviria apenas 
como metáfora didática para uma concepção teórica da organização 
micromacroscópica da natureza, mas não constituinte de sua di- 
mensão empírica, apesar de as evidências experimentais já estarem 
em curso na última década de sua vida. 

Como sabido, também para Skinner a atividade científica é um 
tipo especial de comportamento, governado pelas contingências de 
reforçamento. Acrescenta, no entanto, contingências de sobrevi- 
vência, considerando a discutível conjectura de que a ciência pro- 
move a autopreservação, seja no âmbito pessoal ou da cultura. De 
todo modo, Skinner segue Mach em relação a certos desideratos da 
ciência, destacando a eficiência da investigação, a imediaticidade da 
observação e a economia da descrição e comunicação dos achados. 
O behaviorista conclui que uma abordagem puramente descritiva 
da ciência possui maior eficiência do que uma abordagem hipoté- 
tico-dedutiva. Adjetiva negativamente as condutas antieconômicas 
no âmbito da ciência, assim como condena o uso de certos termos 
vernaculares da linguagem coloquial, quando sugerem interpreta- 
ções metafísicas, considerando as condutas e os termos pouco prá- 
ticos, supérfluos, desnecessários e mesmo desajeitados e obesos” 
(1938; 1945a). 


84 KESTER CARRARA 


A rejeição a essas formas de expressão, por outro lado, pode ter 
levado a extremos o “primeiro” Skinner. Na revisão de Moxley 
(2005), ficam claras suas preferências preliminares por uma “lin- 
guagem objetiva” que pudesse expressar em fórmulas precisas as 
leis do comportamento. 

Como Mach e os positivistas lógicos, Skinner estava inicialmente 
interessado em fórmulas matemáticas e inclinado a apresentá-las 
em seus primeiros relatos de pesquisa. Em adição à sua afirmação 
de 1931 sobre a importância do reflexo, Skinner apresenta fórmulas 
tais como “R = f (S, A)” (1931, p. 452); “N = KTN” (1932, p.28); e 
“N = log Kt + C + ct” (1933, p.341 ) (p.37; tradução nossa) 

É extremamente importante compreender o sistema explicativo 
skinneriano numa contextualização temporal associada ao pensa- 
mento científico -filosófico que constituiu o cenário para o Skinner 
de 1931 (tese), de 1938 (O comportamento dos organismos ) e de 1945 
( Simpósio sobre o operacionismo). Ao mesmo tempo, em total coe- 
rência com o propósito essencial deste livro, ao defender a descrição 
de relações funcionais como estratégia irrenunciável para o entendi- 
mento dos fatos da natureza, é importante avaliar contextualmente 
o que diz Skinner já nas primeiras páginas de seu livro inaugural 
(1938). Na página 6, o autor oferece uma incipiente - embora nada 
insipiente - definição de comportamento. Na sequência, encontra- 
-se um conjunto de termos, a maioria deles bastante popular, que 
são associados ao modo coloquial de explicitar aspectos da nossa 
interação com o ambiente. Diz-se, cotidianamente, que “um orga- 
nismo vê ou percebe objetos, ouve sons, saboreia substâncias, 
cheira odores, gosta de ou antipatiza com alguém; ele quer, 
procura e descobre algo; ele tem um propósito, tenta, é bem- 
-sucedido ou falha; ele aprende, recorda-se ou esquece; ele 
fica amedrontado, furioso, feliz ou deprimido; adormece ou 
acorda, e assim por diante” (p.6). Skinner afirma que é necessário 
evitar esses termos numa descrição científica do comportamento, 
não pelo fato de que não seja possível encontrar uma definição 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 85 


para cada um deles, mas talvez por mero acordo entre pessoas. O 
problema é que esses termos comumente carregam conotações de 
processos subjacentes nem sempre claros, fazem referência a condi- 
ções intencionais do organismo para comportar-se numa ou noutra 
direção e dizem respeito cotidianamente a coisas ou estruturas, em 
geral internas, responsáveis pela ocorrência dos comportamentos 
a que se referem. O próprio Skinner (1938) explicita o que há de 
errado com os termos do vernáculo. 

A objeção importante ao vernáculo na descrição do comporta- 
mento é que muitos dos seus termos implicam esquemas conceituais. 
Eu não quero dizer que uma ciência do comportamento deve dispen- 
sar um esquema conceituai, mas que não deve assumir algum sem 
uma análise cuidadosa dos esquemas subjacentes ao discurso popu- 
lar. O vernáculo é desajeitado e obeso; seus termos se sobrepõem uns 
aos outros, estabelecem distinções desnecessárias ou irreais e estão 
longe de ser o modo mais conveniente para lidar com os dados. Eles 
têm a desvantagem de serem produtos históricos, introduzidos por 
causa da conveniência cotidiana, em vez de por conta do tipo especial 
de conveniência que caracteriza um sistema científico simples. Seria 
um milagre se tal conjunto de termos estivesse disponível para uma 
ciência do comportamento, e nenhum milagre desse tipo aconteceu. 
Há apenas uma maneira de obter um sistema conveniente e útil: ir 
diretamente para os dados, (p.7; tradução nossa) 

E oportuno acrescentar que Skinner verticalizará sua posição 
sobre o escopo metodológico do Behaviorismo que descreve em O 
comportamento dos organismos (1938) ainda no segundo capítulo 
(p.44 ss.). Ele demarca a direção da pesquisa na Análise do Com- 
portamento taxativamente. 

Até aqui, como o método científico está em discussão, o sistema 
estabelecido no capítulo anterior pode ser caracterizado como se 
segue. É positivista. Limita-se à descrição, em vez de à explicação. 
Os seus conceitos são definidos em termos de observação imediata 


86 KESTER CARRARA 


e não são dadas propriedades fisiológicas ou de localização. Um 
reflexo não é um arco, um drive não é um estado central, e extinção 
não é o esgotamento de uma substância fisiológica ou estado. Ter- 
mos desse tipo são usados apenas para reunir grupos de observa- 
ções, estabelecer uniformidades, e para expressar as propriedades 
do comportamento que transcendem casos individuais. Eles não 
são hipóteses, no sentido de coisas a serem provadas ou refutadas, 
mas representações convenientes de coisas já conhecidas, (p .44 ; 
tradução nossa) 

Ao assinalar que seu sistema é positivista, Skinner está visivel- 
mente se referindo ao tipo de derivações “causais” que a lingua- 
gem coloquial sugere, o que costuma se circunscrever a explicações 
mediante estruturas internas (materiais ou imateriais), a dimensões 
teleológicas, e com funções iniciadoras internas típicas. Todas essas 
características são frontalmente adversas à tese das relações funcio- 
nais. É apenas e especificamente nesse contexto da terminologia 
que vai utilizar em seu livro primeiro que Skinner identifica seu 
sistema com o positivismo: dentro da lei dos três estados (teológico, 
metafísico e positivo), ele atribui à linguagem “científica” que uti- 
lizará a característica de ser positiva, no sentido de eminentemen- 
te descritiva, que também atribuirá aos termos usados no escopo 
metodológico de sua obra. 

Mas há algo mais: embora se possa entender que Skinner anun- 
cia evitar uma terminologia teleológico-metafísica em favor de 
outra, descritivo-positiva, e com isso estaria sob a influência da 
proposição positivista comtiana de ciência, parece mais pertinen- 
te, considerando as inúmeras referências que faz a Ernst Mach 
e sua renitente rejeição à metafísica, que esteja sob controle das 
características da ciência apontadas pelo físico-filósofo austríaco. 
A fisionomia das propostas skinnerianas, nessa direção, pode ser 
vista como variações dos mesmos expedientes utilizados por Mach 
na dimensão biológica, o que estreita o parentesco das reflexões de 
ambos os intelectuais, como se verá adiante. Antes, por outro lado, 
Skinner também justifica o fato de que não substituirá todos os 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 87 


termos da língua inglesa em suas formulações, o que seria cienti- 
ficamente antieconômico, no sentido dado por Mach. Como não é 
possível nem conveniente definir todos os termos, ele passa a criar 
alguns que terão especificidade no âmbito de sua abordagem, como 
de fato o fez ao longo de sua obra com “reforço”, “reforçamento”, 
“operante”, “tato”, “mando” e dezenas de outros. 

A afinidade lógica do positivismo metodológico (note-se: me- 
todológico, mas não social, no sentido de Comte e Durkheim) de 
Skinner com o de Mach, portanto, implica olhar, alternativamente, 
para a causa como função, e para a descrição como explicação. De 
acordo com Mach (1894), “para o investigador da natureza não há 
mais nada a descobrir além da dependência entre os fenômenos, 
ou seja, a dependência dos fenômenos uns em relação aos outros” 
(p.252). Esse aspecto é crucial para o entendimento da visão relacio- 
nal adotada pelos dois autores e completa de maneira lógica a fes- 
tejada expressão machiana “descrever é explicar”. Os fenômenos, 
para o físico austríaco, ocorrem todos no âmbito de uma variação 
de relações de interdependência e são naturalmente descritos em 
termos de tais dependências. De modo que, para ele, descrever ade- 
quadamente um fenômeno é o mesmo que explicá-lo. Mach (1894) 
escreve: ”será que a descrição responde a tudo o que o pesquisador 
quer saber? Na minha opinião, é isso o que ela faz (p.253). 

Para Smith (1986), Mach reconhece que a redução da explana- 
ção à descrição pode parecer incômoda aos pensadores para os quais 
a simples descrição produz uma sensação de “causalidade insatis- 
feita”. A maioria das pessoas estaria acostumada a conceber causa 
mesclada com a ideia de “puxar ou empurrar” para produzir efei- 
tos, como num reflexo respondente incondicionado estímulo-res- 
posta. Mas essa noção de causa seria apenas metafórica, supérflua e 
rejeitada em qualquer formulação científica final machiana. No seu 
esquema, “causa” e “efeito” são simples mudanças nas correlações 
entre duas ou mais variáveis do fenômeno, sentido em que relações 
de causa e efeito poderiam ser substituídas economicamente pela 
noção de função matemática. Essa visão machiana foi adotada de 
pronto por Skinner desde logo em sua carreira e figurou ao longo 


88 KESTER CARRARA 


de toda a sua produção científica. Isso pode ser notado em seus 
textos de 1935, 1937 e 1938, quando ele consolida uma redefinição 
dos reflexos, substituindo a ideia de “drive” por uma mudança na 
correlação entre estímulo e resposta. Lembre-se que o autor está, 
então, apenas começando a ampliar seu exercício de formulação 
da dimensão operante do comportamento dos organismos. Antes 
disso, já na sua tese (1930-1931), revela precocemente a influência 
de Ernst Mach e admite que explicação e descrição constituem 
essencialmente atividades idênticas: "a visão mais simples de ex- 
plicação e de nexo de causalidade parece ter sido sugerida pela pri- 
meira vez por Mach [...] para quem, em uma palavra, a explicação 
é reduzida à descrição e a noção de causalidade substituída pela de 
função” (p. 337-8; tradução nossa). 

Como se pode notar, se estritos aspectos da sua ciência (a Análi- 
se do Comportamento) e da sua filosofia de ciência (o Behaviorismo 
Radical) podem ser considerados fundados em algum positivismo, 
como o próprio Skinner admite e enuncia, estão apoiados na espécie 
de positivismo de Mach e, exceto pela recusa às explanações teoló- 
gicas e metafísicas, mediante uma influência longínqua e indireta 
de Comte. Isso se esclarece na excelente análise de Smith (1986), na 
qual fica claro que o autor busca identificar aspectos que relacionam 
as visões “positivistas” de Mach e Skinner. Os positivistas lógicos 
do Círculo de Viena tinham Mach como seu predecessor doutriná- 
rio com relação à filosofia de ciência prevalente, mas o positivismo 
de Mach carecia de outro aspecto que era proeminente no movi- 
mento: uma forte ênfase na dimensão lógico-formal. Enquanto os 
positivistas lógicos mantinham sua epistemologia, que rejeitava a 
metafísica por meio da análise lógica, Mach defendia a mesma fina- 
lidade apoiado na descrição e na observação empíricas. Uma análise 
similar pode ser feita sobre o positivismo de Skinner: assim como o 
de Mach, seu positivismo foi uma estrita variante descritiva. 

Essa postura epistêmico-metodológica de ambos implicava uma 
abordagem comungada, em que havia uma diferença de ênfase. No 
caso de Skinner, a economia proporcionada pelo novo método, em- 
bora finalmente biológica, era de imediato intelectual, resultante da 
combinação de parcimônia nas estratégias de pesquisa empírica e 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 89 


de vigorosa rejeição de especulações metafísicas. Naturalmente, tal 
postura rendeu a Skinner, como também a Mach, por razões dife- 
rentes, muitas críticas, tendo sido acusado de simplismo explicativo 
e positivismo ético, como já dito. 

O princípio da economia (ou parcimônia) de fato não se origina 
diretamente em Ernst Mach, mas em Richard Avenarius, filósofo 
alemão que formulou as primeiras ideias do empiriocriticismo, 
baseado sobretudo no requisito inerente à predominância da ob- 
servação e descrição como estratégia de pesquisa. De todo modo, 
há em Skinner ecos prevalentemente machianos, já que a evolução 
da ciência, para ambos, constituía um caso especial de processos 
biológicos amplos de autopreservação e adaptação ambiental. O 
behaviorista considerava o conhecer uma espécie particular de 
comportamento, e este, por sua vez, era contextualizado e enten- 
dido como um produto do processo adaptativo de modelagem por 
contingências ontogenéticas e filogenéticas de sobrevivência. 

Na tentativa de situar Skinner no cenário das contribuições 
históricas para a constituição do seu Behaviorismo, Smith (1986) 
escreve: 

[...] Skinner enfatizou as contribuições de Darwin, Lloyd Morgan, 
Watson e Pavlov. De Pavlov, aprendeu a lição “controle suas con- 
dições e você verá ordem” . Mas Pavlov estava estudando o córtex 
cerebral por meio de suas experiências sobre o reflexo condicio- 
nado. Tal tratamento inferencial da neurofisiologia por meio de 
estudos comportamentais violava a insistência machiana de Skin- 
ner no desenvolvimento de uma ciência baseada na observação. 
Além disso, Skinner argumentava que, se o próprio comporta- 
mento é ordenado, ele deve ser tratado no seu âmbito de ocorrência, 
sem a necessidade de recorrer a outro nível de explicação. Nesses 
aspectos, ele foi muito influenciado pelo seu professor, o fisiolo- 
gista W. J. Crozier, de Harvard, e de modo indireto também pelo 
professor de Crozier, Jacques Loeb. Foi a influência da Biologia 
comportamental positivista de Loeb e Crozier, mais do que a da 
Psicologia comparativa dos sucessores imediatos de Darwin, que 
Skinner revelou nas suas pesquisas, (p.286; tradução nossa) 


90 KESTER CARRARA 


Embora imprescindível, aprofundar a compreensão sobre como 
e em que medida a herança machiana, o positivismo clássico e o 
positivismo lógico influenciaram Skinner na construção do Beha- 
viorismo Radical não é tarefa simples. Primeiro, parece necessário 
retomar algumas diferenças essenciais entre o Behaviorismo skin- 
neriano e o de Watson, de um lado, e os de Tolman e Hull, de outro. 
Isso se faz necessário para compreender de modo razoável como 
cada um concebe seu modelo teórico de Behaviorismo. 

Watson tem sido considerado patrocinador ora de um Beha- 
viorismo ortodoxo, ora do Behaviorismo Metodológico. No en- 
tanto, trata-se apenas de uma contundente guinada no Zeitgeist 
do começo do século XX, de onde talvez lhe advenha uma suposta 
ortodoxia em termos de finalidades e métodos - estudar e observar 
o comportamento, em lugar de conduzir introspecções e refletir 
sobre os eventos, a natureza ou as características da consciência 
humana. No entanto, como já amplamente explicado na literatura, 
não lhe cabe a designação de behaviorista metodológico (Strapas- 
son; Carrara, 2008). A atribuição da prática de um Behaviorismo 
Metodológico (1945a; 1945b) é atribuída por Skinner diretamente 
a Boring e Stevens. Na versão destes, o que é público, no compor- 
tamento, é passível de ser considerado científico; o que é privado 
deve estar fora de consideração científica. 

Não é preciso aduzir detalhes ao fato de que algumas formas de 
behaviorismo, embora as afirmações exacerbadas de seus autores 
precisem ser consideradas historicamente, geraram polêmicas duras 
e intermináveis e resistência enorme entre aqueles que, embora sim- 
patizassem com a ideia de que fosse necessária maior objetividade, 
estavam habituados a lidar com a introspecção como instrumento de 
coleta de “dados” e, até por conta disso, não sabiam como lidar com 
o que ainda imaginavam como objeto último da "sua” Psicologia (a 
consciência) diante da nova visão metodológica, desde o Manifes- 
to Behaviorista de 1913. Nessas condições, Watson acabou sendo 
lido e veiculado por aqueles que, entre outros, viriam a constituir o 
Círculo de Viena, interessados em tornar a Psicologia uma ciência 
natural, nos moldes pregados pelo positivismo lógico, embora não 
fosse esse, propriamente, o estratagema behaviorista de Watson. 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 9 1 


Em particular, Schlick, Carnap e seus seguidores certamente 
influenciaram o Neobehaviorismo de Tolman e Hull, na medida 
em que estes compartilhavam a ideia de que uma ciência do com- 
portamento deveria ser expressa mediante equações matemáticas e 
com o uso de uma linguagem inequívoca (com o auxílio da lógica 
dedutiva). Por seu turno, Skinner é um indu ti vista ao seu modo. Ou 
seja, o uso preferencial do seu delineamento de sujeito único, com 
replicação, deixa explícita a lógica de que o melhor controle, no sen- 
tido de parâmetro de comparação, para o participante da pesquisa, 
é ele próprio, o mesmo indivíduo. Com isso, as comparações acon- 
tecem intrassujeito, e não intersuj eitos. Finalmente, a generalização 
se dá pelas eventuais corroborações de dados com outras situações e 
sujeitos, tratando-se aqui do item da replicação sistemática. 

Por outro lado, uma distinção importante que Skinner fez entre 
o Behaviorismo Metodológico e o Behaviorismo Radical é o fato de 
que este considera fundamental o estudo dos eventos privados e 
insiste em que não se deve confundir a dicotomia público-privado 
com a dicotomia objetivo-subjetivo. Ou seja, tanto o que é público 
quanto o que é privado deve ser objeto de estudo de uma ciência do 
comportamento. A objetividade, portanto, por um lado, não advém 
da observação direta do fenômeno; por outro, não implica um con- 
senso intersubjetivo entre cientistas - eles podem concordar com 
relação a eventos inteiramente subjetivos ou imensuráveis, como no 
exemplo: “a mente causa o comportamento”. 

A obra de Skinner, desse modo, possui um perfil divergente, em 
aspectos relevantes, daquelas dos colegas que o precederam. Seu 
Behaviorismo Radical, monista e fisicalista quanto ao estofo (ao 
substrato, à estrutura) dos fenômenos naturais, como o comporta- 
mento, abre espaço para o estudo de eventos internos - privados, 
mas não mentais, no sentido corriqueiro dessa última expressão, 
que significa uma dimensão não física e de funcionamento autô- 
nomo -, ainda que relute diante das dificuldades oriundas da utili- 
zação dos relatos verbais na forma como eles eram originariamente 
obtidos mediante a introspecção. Seu reconhecimento da impor- 
tância do comportamento verbal e, em particular, do comporta- 


92 KESTER CARRARA 


mento verbal encoberto, aparece explícito em diversas obras, em 
particular no seu ensaio eminentemente teórico: O comportamento 
verbal (1957). 

Reitere-se que Skinner considera, como em About Behaviorism 
[Sobre o Behaviorismo] (1974), “o Behaviorismo Metodológico 
como uma versão psicológica do positivismo ou do operacionismo 
lógico”. Mais tarde, em Cannonical papers (1984) [Artigos canôni- 
cos], ele escreverá: 

No Departamento de Psicologia de Harvard, Boring e Stevens 
concordavam que [...] era preciso que a Psicologia se preocupasse 
unicamente com eventos comportamentais e não mentais se qui- 
sesse fazer parte das ciências unificadas. Mas eu não concordava 
com isso. Essa era a posição dos behavioristas metodológicos. De 
acordo com essa doutrina, o mundo é dividido em eventos públi- 
cos e privados. E a psicologia, para tornar-se ciência, precisaria 
confinar-se ao mundo dos eventos públicos. Isso não era bom beha- 
viorismo [...] eu creio que os eventos privados são importantes e 
precisam ser estudados como fatos comportamentais. (p. 552) 

Demarcada essa diferença reconhecida por Skinner em relação 
a seus colegas de Harvard, fica clara sua herança do que se poderia 
chamar de positivismo descritivo, oriundo de Mach, em contrapo- 
sição a um positivismo social ingênuo, como advindo de Comte. 
Skinner considerava também que o Neobehaviorismo de Tolman 
e Hull importava recomendações metodológicas dos positivistas 
lógicos de Viena e, com isso, o objeto de estudo da Psicologia era 
visivelmente influenciado pelo dedutivismo lógico e pelos acordos 
intersubjetivos de verdade científica. Skinner discordava dessas 
pressuposições, e essa era uma característica do Behaviorismo Ra- 
dical, comprometido com quatro condições básicas: interesse no 
estudo do comportamento “em si mesmo”, com características 
próprias e não alienadas a aspectos fisiológicos; antimentalismo; 
compromisso com o evolucionismo biológico darwiniano; compro- 
misso com o determinismo probabilístico. 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 93 


Creel (1980) aponta outra característica fundamental do que 
se poderia chamar de positivismo skinneriano: trata-se da explica- 
ção para os eventos privados, que seriam divididos em acessíveis 
e inacessíveis. O primeiro tipo se compõe daqueles eventos como 
as batidas do coração, as sinapses dos neurônios, que permitem 
algum tipo de observação (são internos, privados, mas direta ou 
indiretamente observáveis), mas não são comportamento, na acep- 
ção majoritariamente operante estudada na obra skinneriana. Os 
do segundo tipo, os inacessíveis, embora experienciais e ocorrendo 
no corpo, não poderiam ser observados direta ou indiretamente no 
momento, como as sensações de prazer ou dor, os sonhos. Ambos, 
para Skinner, deveriam fazer parte de algum interesse da ciência 
psicológica. A admissão dos eventos privados como fundamen- 
tais numa análise psicológica não significa, porém, que Skinner 
equalize eventos privados a eventos mentais e que todos os eventos 
privados sejam comportamentos, no sentido por ele atribuído como 
“parte daquilo que o organismo faz” na interação com o ambiente 
(1938). Ele rejeita a condição causal a constructos mentalistas, tais 
como ego, sentimento, mente, traços, instintos etc., analisando os 
conceitos psicológicos, inclusive os introspectivos mencionados 
por Bridgman, em termos de controle de estímulos. 

Costuma-se considerar que a preocupação de Skinner com os 
dados, de forma geral - e com sua cuidadosa coleta, em particular — , 
constitua uma característica que o aproxime das formas tradicio- 
nais de empirismo, o que é incorreto ao se fazer referência ao tipo 
de empirismo que referencia na intermediação das ideias - e, nesse 
sentido, da “experiência consciente” - a interpretação da realidade, 
já que ele elege a resposta como unidade básica de análise. Por outro 
lado, por vezes se supõe que a identificação dele com o determinis- 
mo consista em fator que o vincule ao mecanicismo. Por último, 
“o combate à metafísica e a pretensão de prever e controlar levou 
muitos a inseri-lo dentro do positivismo” (Micheletto, 1997), o 
que talvez ocorra porque Comte também defende bases empíricas. 
Segundo ele, a observação é a “única base possível de conhecimento 
verdadeiramente acessível” e “toda proposição que não seja estrita- 


94 KESTER CARRARA 


mente redutível ao simples enunciado de fatos, particular ou geral, 
não pode oferecer nenhum sentido real ou inteligível” (p.30-1). 

Como já analisado, no entanto, não parece que seja exatamente 
o positivismo comtiano que se encontra em Skinner, mas aquele 
reinterpretado por Ernst Mach, como também deduz Mackenzie 
(1977). Isso se consolida nas palavras de Chiesa (1992): 

Outra característica da filosofia de Mach diretamente adotada 
por Skinner é sua tendência a reduzir ou a limitar o conceito de 
explicação à descrição. Para o leitor moderno, acostumado a pensar 
em ciência como um empreendimento que caminha da descrição 
para a explicação, esse propósito pode parecer contraditório aos 
objetivos da própria ciência. Todavia, Hempel e Oppenheim come- 
çam seu clássico Estudos sobre a lógica da explicação precisamente 
com esta asserção: ‘‘a pesquisa científica nas suas várias acepções 
vai além da mera descrição do fenômeno que estuda, mediante a 
colocação de uma explicação para o fenômeno que investiga”. [...] 
A distinção de Mach surgiu de duas características do seu próprio 
argumento: a) a definição de "descrição”, que está relacionada à 
visão de Mach acerca de causação; b) a oposição de Mach a cer- 
tas espécies de teorias, especialmente àquelas sustentadas numa 
visão mecanicista da natureza, que, consequentemente, apelam a 
entidades hipotéticas para superar lacunas temporais e de espaço 
entre causas e efeitos. Isso é similar à discussão derivada do grande 
debate do século XIX a respeito das técnicas apropriadas de inter- 
pretação (teorias) na física e a disputa acerca das tentativas de des- 
crição natural dos fenômenos em termos análogos ao trabalho de 
uma “grande máquina”, (p. 1.292; destaque nosso) 

Desse trecho pode-se depreender um pouco da identidade do 
pensamento skinneriano (expresso sobretudo a partir de 1945) e das 
proposições machianas (mais bem conhecidas particularmente nos 
textos de 1883, 1894 e 1905). Skinner compartilha a ideia de que 
descrever é explicar, no sentido de que, quando as mudanças nos 
valores das variáveis são descritas concretamente, ponto a ponto, 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 95 


tem-se uma explicação do fenômeno. Esse é o sentido inicial do 
conhecimento para Skinner, que, adiante, admite a formulação de 
teorias apenas no caso em que se utilizem elementos explicativos 
contidos num mesmo estofo (o físico), abdicando de qualquer con- 
dição dualista. 

Chiesa (1992) deixa clara essa influência de Mach sobre Skin- 
ner, quando menciona a ênfase comum de ambos sobre a sequência 
observação-descrição-integração, na qual se privilegia o aspecto 
descritivo, em detrimento do inferencial ou da construção teórica. 
Não que Skinner ou Mach se esquivem em definitivo da formula- 
ção de teorias, até porque o fizeram incessantemente ao longo de 
suas vidas, ou neguem que o pesquisador, ao conceber seu projeto, 
tenha em vista algumas conjecturas preliminares. Mas o conjetu- 
rar, para ambos, precisa estar integrado num sistema no qual se 
tenham dados que permitam formular novas hipóteses, que levem 
a procurar novos dados etc. Apenas incidentalmente, quando se 
revê a bibliografia skinneriana (Carrara, 1992), nota-se que o seu 
programa de trabalho, durante toda a sua carreira, seguiu certa 
ordem, visivelmente caminhou de intensa atividade de pesquisa 
básica para a elaboração e publicação de artigos teóricos, o que foi 
comum nos seus últimos vinte anos de vida. De qualquer maneira, 
Skinner, sempre seguindo Mach, atribuiu particular valor heurísti- 
co à descrição como forma de compreender as relações funcionais 
entre as variáveis estudadas. 

Skinner, como Mach, privilegia a descrição da relação entre 
eventos como forma de explicação. Para ele, o comportamento só 
ganha sentido, só pode ser compreendido, e controlado, e previsto, 
se a análise leva em conta a interação entre organismo e ambiente. 
Para entender esse sistema relacional, é imprescindível descrever 
o que muda (se muda) no organismo e ao mesmo tempo, conse- 
quentemente, no ambiente - para assegurar essa consequenciação, 
há uma série de procedimentos metodológicos. Portanto, Skinner 
defende uma relação funcional, e não um sistema de causalidade 
mecânica (Micheletto, 1997). 


96 KESTER CARRARA 


Apesar da máxima proposta por Mackenzie (1977) de que “a 
relação entre a ciência e o mundo real” é que define se uma teoria é 
ou não positivista, parece clara a necessidade de redobrada cautela 
ao classificar esta ou aquela corrente de tal ou qual maneira. No 
caso do Behaviorismo skinneriano, é nítido seu compartilhar com 
o determinismo e com o naturalismo visível no positivismo. Entre- 
tanto, se entendida a diferença entre “positivismo” e positivismo, 
aludida por Cupani (1985; 1990), não há como categorizar o Beha- 
viorismo Radical - embora alguns possam tentar fazê-lo em relação 
ao autor, Skinner, e não à sua obra - decisivamente dessa maneira. 
No mínimo, seria um procedimento simplista. Parcimônia é im- 
prescindível, como recomenda Abib (1985): 

[...] corre-se sempre o risco de, ao tentar encaixar um autor em 
determinado esquema, abstrair elementos importantes de sua obra, 
que terminariam por impedir sua classificação e, por outro lado, 
por esse mesmo motivo, não perceber que o pensamento do autor 
poderia estar mais bem situado em outro tipo de classificação, 
ou, até, não se ajustar a qualquer tipo conhecido de classificação, 
(p. 203-4) 

Como conclui Chiesa (1992), “o sistema de explicação do Beha- 
viorismo Radical focaliza as relações entre pessoas se comportando 
[ . . . ] e suas consequências - comportamento no seu contexto ”. Nesse 
Behaviorismo, “pessoas são ilustradas como todos indivisíveis, ati- 
vos no e interativos com o seu ambiente, mudando e sendo muda- 
das pelo contexto e pelas consequências do seu comportamento” 
(p. 1.288-9). Skinner, portanto, advoga uma estrutura relacional de 
análise do objeto da Psicologia. Tal estrutura hoje parece coerente- 
mente estabelecida do ponto de vista tecnológico e filosófico dentro 
do Behaviorismo Radical, em vista do montante de pesquisas já 
produzidas nas suas diversas subáreas. Todavia, é o próprio Skinner 
quem, no último artigo que escreveu (1990), alerta para o fato de 
que o emprego dos procedimentos de Análise do Comportamento 
por setores mais amplos da Psicologia - ou seja, se esta tende ou não 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 97 


a tornar-se o método preferencial da Psicologia - “é matéria que o 
futuro decidirá”. 

Embora haja indícios de que Skinner tenha lido muito sobre a 
evolução da ciência nos anos precedentes à sua consolidação como 
pesquisador e tenha convivido diretamente com alguns desses au- 
tores, os dados da literatura revelam-no um cientista com formula- 
ções teóricas próprias. Isso não significa que tenha concebido seu 
Behaviorismo Radical de forma isolada das discussões ocorridas 
na literatura, como, de resto, nenhum homem de ciência de que 
se tem notícia produziu teorias que prescindam de um passado de 
influências, menos ou mais diretas, menos ou mais intensas, fáceis 
ou difíceis de identificar. Como vimos, Ernst Mach foi uma das 
maiores fontes inspiradoras de Skinner, mas nem Mach formulou 
um Behaviorismo Radical, nem Skinner simplesmente replicou o 
empiriocriticismo. Ocorre que, a partir de certo momento na evo- 
lução da construção do sistema teórico - momento esse, por vezes, 
de difícil percepção imediata -, tal sistema acaba inexoravelmente 
personalizado por um dos atores do cenário científico. A publicação 
do Terms (Operational analysis of psychological terms) [Análise 
operacional dos termos psicológicos], por Skinner, em 1945, foi 
uma dessas ocasiões. 

No que diz respeito a uma eventual herança tomada empresta- 
da ao Círculo de Viena, o "segundo” Skinner parece guardar certa 
distância. Por exemplo, a sua visão do operacionismo lógico, apesar 
da ênfase inicial no verificacionismo, divergia significativamente 
daquela dos positivistas lógicos. Para Smith (1986), Skinner “em 
nenhum momento manifestou simpatia com o positivismo lógico, 
para além do aspecto formal” (p.279). 

Skinner esteve pessoalmente próximo de duas das maiores fi- 
guras do positivismo lógico, Rudolf Carnap e Herbert Feigl. Logo 
depois de receber seu Ph.D., recebeu uma indicação para a Harvard 
Society of Fellows, da qual o filósofo W. V. O. Quine também era 
membro. Através de Quine, que havia estudado com Carnap em 
Praga, Skinner encontrou-se com Carnap em Harvard durante o 
verão de 1936. Tempos depois, manifestou-se dizendo que tinha 


98 KESTER CARRARA 


poucas esperanças de reconciliar lógica e psicologia, embora talvez 
conseguisse convencer os lógicos de que muitos problemas por eles 
debatidos estavam mais no campo da Psicologia. No Comporta- 
mento dos organismos ( 1938) e no texto de 1945, Skinner refere-se a 
Carnap de maneira crítica em relação à visão deste sobre a “unidade 
da ciência” (a unificação dos padrões da linguagem científica). 

Com Feigl foi um pouco diferente. Nas palavras de Smith 
(1986): 

O relacionamento de Skinner com Feigl começou no início dos 
anos 1940, quando ambos estavam na Universidade de Minnesota. 
Lá tornaram-se amigos íntimos. Juntos, leram e discutiram Wal- 
den Two e se envolveram em discussões amigáveis sobre questões 
filosóficas relacionadas com a Psicologia. Mas nunca chegaram a 
qualquer acordo substancial sobre essas questões, e é duvidoso que 
Skinner tenha absorvido muito do positivismo lógico a partir de seu 
contato com Feigl. Da sua parte, Feigl se referiu a Skinner como 
o "mais brilhante e consistente psicólogo positivista da América” 
e resumiu seu relacionamento com ele dizendo: “Discordamos 
fortemente em questões filosóficas da Psicologia, mas isso nunca 
perturbou as nossas relações pessoais.” Skinner declarou: “Ele e 
eu nunca resolvemos totalmente as diferenças entre o positivismo 
lógico e o Behaviorismo, e cada um de nós, como Feigl já colocou, 
continua a cultivar seu próprio jardim.” (p.280; tradução nossa) 

Em A matter of consequences (1984), Skinner detalha um pouco 
mais esse episódio, e a aproximação e o afastamento do movimento 
do positivismo lógico: 

Philipp Frank, outro membro do Círculo e um dos grandes filó- 
sofos da ciência, dirigiu o programa de Educação Geral que incluiu 
Ciências Naturais 114. Ele também foi presidente da Unidade de 
Comitê de Ciência da Academia Americana de Artes e Ciências e 
convidou-me a ser membro dela. Participei de algumas reuniões, 
mas logo ficou claro que procurei a unidade com uma perspectiva 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 99 


diferente - uma análise do comportamento do cientista - e pedi 
demissão, (p.128; tradução nossa) 

Em síntese, Skinner parece ter simpatizado com o positivismo 
lógico no começo da sua carreira, mas descartou assumir definitiva- 
mente um behaviorismo apoiado nos cânones do positivismo lógico 
defendido pelo Círculo de Viena. De fato, fora influenciado mais 
pelo próprio Mach e suas formulações do que propriamente pelos 
efeitos intelectuais do Círculo enquanto movimento científico. 
Lembremos que, por volta de 1930, época de sua pós-graduação, 
Skinner teve contato direto com a variedade de positivismo (o des- 
critivo) de Mach e o impulso da Biologia, sob influência de Darwin. 
Mais adiante, desviou-se de modo mais visível do formalismo do 
positivismo lógico, caracterizando -se, por meio do descritivismo, 
por um antiformalismo anteposto ao dedutivismo lógico. Aca- 
bou por rejeitar inclusive certo tom asséptico dos ideais de ciência 
“pura” e independente do observador que margeava as discussões 
sobre o modelo de conhecimento a ser reconhecido pelo projeto de 
unificação da ciência. Em About behaviorism (1974), ele escreve: 

Seria absurdo para o behaviorista afirmar que ele está, em qual- 
quer sentido, isento de sua própria análise. Ele não pode sair do 
fluxo causal e observar o comportamento de algum ponto especial 
de vista [...] No próprio ato de analisar o comportamento humano, 
ele está se comportando, (p.234; tradução nossa) 

A literatura revista sugere que, em geral, não há uma associação 
intelectual legítima entre o Behaviorismo skinneriano e o positivis- 
mo lógico. Sem dúvida, algumas influências são percebidas, como o 
fato de que Skinner não caminhou insensível às leituras fundamen- 
tais geradas por Mach e pelo grupo de Viena. Por exemplo, ambas 
as posições implicavam a rejeição às especulações metafísicas, mas o 
modo como esse objetivo foi instrumentalizado contemplou estra- 
tégias muito distintas. Skinner elaborou suas "próprias” formula- 
ções- de modo relativo, sem dúvida, já que leituras completamente 


1 00 KESTER CARRARA 


“isentas” são improváveis no campo científico se uma das duas 
características admitidas é a evolução do conhecimento, não por 
justaposição, mas por incorporação de novos dados, que por sua 
vez incluem ou excluem o conhecimento já existente. Por exemplo, 
seu conceito de seleção pelas consequências decorre de seu contato 
com leituras detalhadas de Darwin. Nesse sentido, seria um em- 
préstimo da teoria darwiniana. No entanto, Skinner dá seu próprio 
“tom” à ideia de seleção darwiniana, quando faz restrições visíveis à 
atribuição causal do processo evolutivo das espécies, na época, com 
base numa “pressão seletiva”. Ele abandona esse "ente” da pressão 
seletiva constituído por uma explicação metafísica atribuída a uma 
“força” - no sentido newtoniano, já então devastado por Mach com 
as críticas aos conceitos de “massa”, “espaço absoluto” e “tempo 
absoluto” - que “conduz inevitavelmente” à evolução das espécies. 
Redige um particularmente bem articulado e sobejamente conhe- 
cido paradigma de três níveis de variação e seleção — filogenético, 
ontogenético e cultural - e mostra que o que mantém ou altera 
comportamentos ou práticas culturais são as consequências por 
estes produzidas no ambiente. Resultam aí afastados: estratégias 
de explicação baseadas em constructos “mentais”; métodos de- 
dutivos; quaisquer resquícios positivistas que superem estratégias 
metodológicas de pesquisa. 

Skinner acaba por demarcar em definitivo seu afastamento em 
relação ao positivismo lógico nos artigos sobre a sua participação 
no Simpósio sobre Operacionismo (1945a; 1945b), promovido pelo 
seu ex-orientador, E. G. Boring. Neles expõe com clareza seu en- 
tendimento sobre as diferenças entre seu Behaviorismo Radical e o 
Behaviorismo Metodológico de Boring e Stevens. Esse momento é 
crucial na história da Análise do Comportamento, porque Skinner 
torna definitiva sua defesa de um descritivismo relacional, ins- 
pirado nos moldes machianos do “descrever é explicar” (ou seja, 
descrever o comportamento nas suas relações com o ambiente é, 
efetivamente, explicá-lo). Não se trata, mais uma vez, de asso- 
ciar duas “coisas”, ou “eventos”, ou “condições” e adotá-las como 
componentes físicos de uma “causa complexa” das ações dos or- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 0 1 


ganismos vivos, mas de explicitar que apenas o conhecimento das 
próprias relações de dependência entre essas instâncias é que pode, 
de alguma maneira, iluminar a compreensão sobre saber como 
funciona o mundo comportamental, até mesmo em razão de que o 
saber como possibilita prever, alterar, planejar objetivos inerentes 
ao edifício científico pretendido por Skinner. 

Parte desse seu entendimento seguramente deriva de uma ins- 
piração machiana, mas é necessário relembrar que o Behaviorismo 
Radical não foi criado por Mach, do mesmo modo que o empirio- 
criticismo não se originou em Skinner, mas em Mach e Avenarius. 
Tanto Mach como Skinner enfrentaram severas críticas de seus 
contemporâneos, advindas de diferentes áreas do conhecimento. 
No entanto, apesar de suas diferentes épocas, origens e trajetórias, 
é possível claramente identificar no sucessor certas características 
do antecessor. 

Skinner incorpora a ideia de relações funcionais que substituem 
a noção de causa, apropria-se da lógica do “descrever é explicar”, 
a seu modo rejeita o mecanicismo, adota o monismo e estende a 
crítica machiana à antimetafísica ao âmbito das explicações men- 
talistas em Psicologia. No entanto, não absorverá integralmente 
o conceito machiano de "sensações”. Reformula-o no campo das 
percepções, instrumentaliza-o no âmbito dos processos de genera- 
lização e discriminação de estímulos (mais amplamente, de controle 
de estímulos) e, embora as “sensações” sejam sempre referenciadas 
na materialidade, concebe- as como relações do comportamento 
com o ambiente, no seu mais amplo sentido. Esse distanciamento, 
contudo, ainda assim reserva contatos, como a ideia de que "o corpo 
é material, visível, tangível, sensível e ocupa parte no espaço, junto 
com outros corpos. [...] Há, através do conceito de sensação, uma 
nova leitura para os fenômenos que o senso comum entende por 
‘subjetivos’ ou ‘psíquicos’” (Elias, 2012, p.21, sobre as ideias de 
Ernst Mach). Mach, no entanto, sugere que o físico e o psíqui- 
co possuem elementos comuns e que entre eles se estabelece um 
continuum de acontecimentos com dimensão temporal e espacial 
passíveis de análise científica. Conforme Jalón (2010), para Mach 


1 02 KESTER CARRARA 


[...] existe uma união necessária do sensível com o racional, graças 
a um monismo no qual o todo e as partes se unem natural e inextri- 
cavelmente; o físico e o psicológico-sensitivo podem adequar-se de 
forma tal que entre os mundos exterior e interior não existe abismo 
algum, como é próprio da tradição empirista moderna, (p.258; 
tradução nossa) 

No entanto, admitir que ambos os aspectos, físico e psíquico, 
“se tocam” implica dizer que um e outro interagem, embora consti- 
tuídos de substâncias distintas? Ou equivale a admitir que psíquico 
é, no sentido dado, também físico e, por isso, há uma redução do 
primeiro ao segundo? Ao seu modo, Skinner deslindaria essas ques- 
tões na formulação do Behaviorismo Radical. 

De toda forma, a questão da dicotomia entre aparência e rea- 
lidade não faz sentido para Ernst Mach, como ele frisa na obra de 
1905 (p.22), de maneira que fenômenos físicos e psíquicos são da 
mesma natureza, do que se conclui que ela seja física, o que é mais 
preciso do que sua afirmação de que os físicos “incluem” parte dos 
psíquicos ou que estes se “mesclam” àqueles em sensações. Mach 
descarta a ideia de essência, registrando, como Skinner, que o que é 
público e o que não é manifesto são acontecimentos da mesma na- 
tureza (um passo em direção ao monismo de substância), de modo 
que fica excluída a existência de estruturas internas criadas apenas 
para explicar eventos que não podem ser diretamente observados. 
Skinner também empresta de Mach esse perfil de descrição eco- 
nômica na ciência, que reduz de modo parcimonioso a criação de 
novos conceitos sobre novas entidades supostamente responsáveis 
pela dinâmica do comportamento, para além das interações entre 
organismo e ambiente. 

Quando Skinner trata dos eventos privados, especialmente 
comportamentos encobertos, encaminha a questão segundo a acep- 
ção machiana de que a diferença é uma questão de acessibilidade, 
não de natureza. Ou seja, comportamentos, encobertos ou públi- 
cos, têm, em última análise, uma natureza física. E evidente que 
não é o caso de, observando dimensões físicas biológicas estrutu- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 03 


rais (o interior de um cérebro, por exemplo), poder propriamente 
“ver” nelas comportamentos. Percebe-se um amálgama complexo 
de estruturas biológicas, mas não os processos de que se ocupam, 
naturalmente. Por outro lado, outros eventos privados, não ne- 
cessariamente comportamentais, também são inacessíveis a uma 
segunda pessoa. E nesse sentido que Skinner diz que “minha dor de 
dentes é tão física quanto as teclas de minha máquina de escrever”. 
Como se nota, de certa forma há trechos bastante congruentes entre 
os dois autores. É possível “ler Skinner e encontrar Mach” ou ler 
“Mach com olhar skinneriano”, mas isso não implica verdadeira 
identidade de concepções, pelas razões já apresentadas. 

Como interpreta Elias (2012), Mach considerava, no contexto 
explicativo fenomênico, a importância das “relações entre os fatos 
físicos, que dependem de circunstâncias externas ao corpo e [tam- 
bém] de circunstâncias interiores ao corpo, que são as sensações”. 
Ele escreve: 

Mach introduz o conceito de “sensações” para delimitar o que 
seriam essas experiências psíquicas. As sensações não são cons- 
tituídas de uma natureza diferenciada. São sempre dados ime- 
diatos. Não se ancoram numa dicotomia realidade/aparência. 
Inclusive, Mach se preocupa em citar o fenômeno da ilusão de 
ótica como exemplificação de que não há uma realidade alternativa 
que "deturpa” a realidade, mas sim uma ignorância (à época) das 
circunstâncias em que as percepções são produzidas. Mach expõe 
que o que conduziu a uma distinção entre a aparência e a realidade 
(fenômeno e coisa) foram confusões das percepções produzidas por 
circunstâncias diferentes. Assim, a dicotomia aparência/realidade 
não faz sentido, (p.23) 

Uma ideia, porém, atravessa as sendas do empiriocriticismo e 
instala-se no Behaviorismo Radical de modo sutil e adaptado ao 
vocabulário dele. Trata-se do conceito kantiano de “coisa em si”, 
criticado na essência da ideia de "sensações” no domínio de Mach. 
Ainda que não seja possível resumir Kant, pela grandeza e comple- 


1 04 KESTER CARRARA 


xidade de suas reflexões, a passagem da crítica de Mach a Skinner 
se dá mediante o exame, primeiramente, do que designa "elemen- 
tos”, associados a diferentes "atributos” que os qualificariam como 
coisas, eventos, estruturas que conhecemos. Na interpretação de 
Elias (2012): 

Entretanto, Mach não limita o conceito de sensações apenas às 
relações do homem com o mundo externo. O conceito de sensa- 
ções também engloba as experiências sensoriais do homem consigo 
mesmo. Aqui, entram as sensações que o homem tem das proprie- 
dades físicas do próprio corpo, mas também relações do tipo pen- 
sar, sentir, lembrar, introspectar. Mach define introspecção como 
combinações de sensações. Considerando a importância da relação 
(interação), Mach compreende que as sensações se recombinam e 
dão origem a novas sensações, (p.24) 

Laurenti (2004) adiciona esclarecimentos importantes à posição 
machiana: 

A dicotomia físico-mental faz sentido no contexto de um 
dualismo de substâncias, que também é rejeitado por Mach 
(1894/1943) quando critica as noções de substância e de coisa- 
-em-si. A ideia tradicional de substância (como uma coisa ou corpo 
imutável, uma essência que está por detrás da aparência e que existe 
independente do sujeito) é tratada em termos de um grupo de sen- 
sações abstraído do fluxo de elementos que apresenta maior cons- 
tância e estabilidade do que outros. Passando a palavra a Mach: 
"mas seria muito melhor dizer que os corpos ou coisas são símbolos 
mentais resumidos de grupos de sensações - símbolos que não 
existem fora do pensamento” (p. 200-1). A identidade do corpo é 
assegurada quando abstraímos um grupo de sensações do fluxo, 
e os elementos desse grupo se apresentam mais constantes em 
comparação com aqueles elementos instáveis. Contudo, algumas 
mudanças nesse grupo constante podem ocorrer e, muitas vezes, 
essas alterações acontecem sem que o corpo deixe de ser, para nós, 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 05 


o mesmo. Isso estabelece a condição para que formemos a noção de 
substância distinta de seus atributos, em outras palavras, a ideia da 
coisa-em-si. (p.52-3; destaques nossos) 

Em nota, Laurenti acrescenta: 

A função da linguagem no processo de abstração é esclarecida 
por Mach (1905) ao rejeitar a noção de “coisa-em-si”: “As primei- 
ras e mais antigas palavras são nomes de ‘coisas’. [...] Não existe 
coisa inalterável. A coisa é uma abstração, o nome ou símbolo de 
uma combinação de elementos de cuja mudança abstraímos. [...] 
Quando, posteriormente, observamos a mutabilidade, não pode- 
mos, ao mesmo tempo, sustentar a permanência da coisa, a menos 
que tenhamos que recorrer à ideia da coisa-em-si, ou outro absurdo 
semelhante.” (p.579; destaques nossos) 


3 

Nada é, senão pelas suas relações 


Este livro tem um subtítulo contraposto ao seu título: relações 
funcionais, comportamento e cultura, o qual justamente sinaliza 
a maneira de proceder no contexto da Análise do Comportamento 
quando o analista procura “explicá-lo” . O analista comportamental 
não dirá que alguém agiu, ou provavelmente agirá, em razão de 
uma estrutura cognitiva que estabelece uma intenção como causa 
das ações. Não dirá que uma vontade inerente a um estado motiva- 
cional interno impulsiona o indivíduo para uma ação que reduz ou 
muda tal estado. Não dirá que alguém sai de um recinto ou entra em 
um recinto (uma sala de aula, por exemplo) em razão do exercício 
de um atributo de escolhas comportamentais possibilitadas por 
uma propriedade imanente do ser humano, o livre-arbítrio. Não 
dirá que alguma estrutura da personalidade, mesmo que apenas 
conceituai, organiza suas ações e as dirige ou não, independente- 
mente de sua consciência, a escolher entre fazer e não fazer algo. 

O analista comportamental move-se por uma visão histórica 
do estabelecimento de repertórios comportamentais que decorre 
dos tipos similares de interações existentes, no transcurso de tal 
história, entre organismo e ambiente. Dirá que fazer ou não fazer 
algo, ou fazer algo de determinada maneira, decorre de padrões 
comportamentais modelados nessas interações, historicamente 


1 08 KESTER CARRARA 


estabelecidas, entre organismo e ambiente. Dirá que o que muda, 
no âmbito e no transcurso dessas interações, são as configurações 
corporais do organismo, mas não ocorrem quaisquer mudanças em 
eventuais “depósitos” de informação sobre o mundo. 

Assim, ao se perguntar onde ficam, em nosso organismo, tais 
repertórios comportamentais, provavelmente a resposta será “em 
lugar algum”, já que não permanecem “cópias”, seja na forma de 
imagens, de sinais ou de padrões complexos de ações, em nenhum 
“depósito” ou “reservatório” de experiência interativa em nosso 
corpo, de modo que possamos delas nos utilizar quando nos encon- 
trarmos em situações similares. 

O analista do comportamento dirá que o que muda, em decor- 
rência das interações, é o próprio corpo - o que difere frontalmente 
da possibilidade de absorver cópias da realidade experiencial -, 
de maneira que o que controla a probabilidade de o indivíduo se 
comportar de tal modo ou de outro no futuro é o tipo de relação his- 
toricamente estabelecida no passado entre o organismo, mediante 
certo padrão comportamental, e as consequências de suas ações no 
ambiente. Dirá, então, que as mudanças corporais resultantes de 
nossas interações com o ambiente nos tornam, em fluxo contínuo, 
sempre biofisiologicamente — e, neste sentido, fisicamente - dife- 
rentes do que éramos em nosso momento anterior. Dirá que, nesse 
sentido, não há propriamente uma estrutura corporal (perene), mas 
uma “estrutura” em constante mudança, que corresponde ao nosso 
desenvolvimento biocomportamental. O analista dirá, finalmente, 
que, embora acredite que há “coisas” no mundo, não é senão pelas 
relações entre o comportar-se e as consequências daí decorrentes 
que se torna possível conhecer, descrever e explicar nossas ações no 
ambiente. De modo relativamente econômico e essencial, é o que o 
analista dirá sobre os ingredientes e preceitos inescapáveis de uma 
proposta relacional para sua ciência do comportamento. Nada além. 

Para Mach é completamente ilusória a ideia de que, para co- 
nhecer “a coisa em si” (cf. Kant), o processo implica remover, uma 
a uma, as qualidades individuais dos elementos que alimentam 
sensações em relação a eventuais objetos. Não é possível conhe- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 09 


cer, pela sua constituição estrutural, algo como uma mesa. Esta é 
sempre uma interpretação funcional, estética, enfim, qualificada 
como algo, e não pode ser compreendida senão no seu contexto e 
por ele. Do mesmo modo, paralelamente, para Skinner também 
não é possível descrever, conhecer, explicar um comportamento 
senão pelas condições demarcatórias das relações do organismo 
com o ambiente. Para um exemplo complexo, pensemos em um 
comportamento dito “altruísta”. Não há tal “coisa” no sentido de 
que se pode tomar seu estudo considerando qualquer característica 
intrínseco -estrutural de uma ação "altruísta”. O que nos aproxi- 
mará de uma compreensão não é responder à pergunta: “o que é?”, 
mas sim: “como se relacionam variáveis do indivíduo e do ambiente 
naquilo que designamos comportamento altruísta?”. 

Esperamos que esteja cada vez mais claro que um dos objetivos 
deste livro é esclarecer algumas das contraposições presentes em 
seu próprio título e subtítulo: a procura da explicação factual nas 
“coisas-em-si-próprias” contra a procura da explicação nas rela- 
ções entre variáveis. Fazer isso assemelha-se a identificar a lógica 
funcional da Análise do Comportamento e avaliar a viabilidade de 
que essa ciência possa consolidar-se, em particular no campo do 
planejamento de práticas culturais, contribuindo de forma con- 
sistente para aproximar a condição humana da concretização da 
justiça social. 

Para cumprir a primeira parte dos objetivos, é possível, de modo 
sucinto, remeter o leitor a publicações que tratam o assunto de 
maneira precisa e direta. A respeito da lógica e dos procedimentos 
para uma boa análise funcional e da opção behaviorista radical pelas 
relações funcionais, em contrapartida à causação mecânica, sugeri- 
mos a leitura do artigo de Micheletto (2000) e da tese de doutorado 
de Barba (2003). 1 Micheletto, no seu artigo (2000), ressalta que: 


1 As excelentes contribuições desses dois autores, apresentadas na sequência, 
aparecem organizadas numa série de tópicos resumidos (os dez primeiros de 
Micheletto, e os seguintes, de Barba). Pedimos desculpas a esses autores por 
eventuais análises por nós acrescentadas às paráfrases que, eventualmente, 
possam alterar qualquer aspecto do sentido original contido em suas obras. 


1 1 0 KESTER CARRARA 


• A maneira como uma análise funcional das relações entre 
comportamento e ambiente possibilita que se tenha um 
retrato claro de padrões típicos das classes de respostas e das 
características físicas e temporais dos contextos antecedente e 
consequente que controlam esse comportamento. Com isso, 
revela-se a concretude e o modo funcional de variáveis cujos 
valores podem ser alterados quando se objetivam mudanças 
nos padrões comportamentais. 

• As raízes mais distantes da prática de descrição de relações 
no âmbito da ciência remontam aos empiristas ingleses, em 
especial David Hume, mas essa origem ainda dizia respeito 
às relações entre ideias, as mais simples sendo combinadas e 
constituindo um repositório de que se lançaria mão conforme 
as necessidades e sob uma lógica de recuperação ou recorda- 
ção a partir desse possível repositório. Três princípios guia- 
vam tais conexões para Hume: a semelhança entre elas, sua 
contiguidade temporal ou de localização e seus efeitos sobre o 
organismo. 

• Ainda para os empiristas, as relações entre ideias se estabe- 
lecem na mente de forma mecânica, por mera justaposição, 
sem fazerem referência à noção de função. Esta apenas apa- 
rece adiante, associada a processos orgânicos na Biologia, que 
investiga funções vitais dos sistemas orgânicos. Em Comte 
começam a se distinguir aspectos anatômicos (dimensão está- 
tica) e fisiológicos (dimensão dinâmica). 

• O uso, em Psicologia, do termo “função” é derivado do 
emprego fisiológico, mas ainda é aplicado a fenômenos “men- 
tais” e por vezes se revela dependente do conceito de força, no 
sentido newtoniano tão combatido por Mach. Com o filósofo e 
físico austríaco, a noção de causalidade mecânica é substituída 
pela de relações funcionais. A primeira pretendia descobrir “a 


Afirmamos nosso reconhecimento a outros autores que tratam de modo con- 
sistente do assunto, apenas aqui não mencionados por conta da impossibili- 
dade de espaço suficiente para uma mais ampla revisão da literatura. 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 1 1 


força” que desencadearia um fenômeno e o meio material para 
a propagação dela; a segunda atém-se às próprias relações, e 
essa conjunção, como um todo, configura as condições sob 
as quais ocorre o fenômeno. A utilização de função na Psi- 
cologia começa com a frenologia de F. J. Gall, no começo do 
século XIX. 

Essa utilização de função passa por nova modificação a partir 
da metade do século XIX, com William James, que retoma 
o uso semelhante ao biológico, mas destacando-se por um 
ataque veemente à Psicologia estruturalista, que postula uma 
organização conceituai ou concreta de sistemas de tal modo 
estabelecidos que “determinam” como efeitos os padrões das 
atividades humanas. 

Afunila- se a precisão conceituai do termo “função” com a 
renovação da Matemática. Nesta, o conceito (apud Miche- 
letto, p.117, citando Boyer) assim se apresenta: “se uma 
variável y está relacionada a uma variável x de tal modo que, 
sempre que é dado um valor para x existe uma regra segundo 
a qual um único valor de y fica determinado, diz-se que y é 
função da variável independente x.” A função é assim repre- 
sentada: y = F(x). Ou seja, nas relações matemáticas, como 
naquelas do mundo empírico em geral, a “dependência” a elas 
inerente deve ser entendida como a variação concomitante 
entre mudanças nos valores da variável independente (x), 
correspondendo, ponto a ponto, a mudanças nos valores da 
variável dependente (y). Nas palavras de Micheletto: “Esta- 
belece-se nesta noção de função uma relação entre variáveis 
dependente e independente, em que os pontos ou valores das 
variáveis não podem mover-se de forma independente uns 
dos outros” (p.117; destaque nosso). 

Já influenciado por leituras preliminares de Ernst Mach, na 
sua formação básica em Psicologia, Skinner usa pela primeira 
vez o conceito de relações funcionais (o que remete, desde 
logo, à ideia de função matemática) quando estabelece, em 
sua tese de doutorado, as bases do seu sistema para expli- 


1 1 2 KESTER CARRARA 


cação do comportamento de organismos intatos mediante 
o estudo do reflexo, por ele definido como “uma correlação 
observada entre estímulo e resposta” . Skinner (1931) esclarece 
que, “como uma disciplina científica, a Análise do Comporta- 
mento deve descrever o evento não apenas por si mesmo, mas 
na sua relação com outros eventos; e, para ser satisfatória, ela 
deve explicar [...]” (p.442, apud Micheletto, 2000, p.118). 

• Skinner, ainda em 1931, acaba chegando a uma função mate- 
mática para o reflexo: R = f(S, A), onde R é resposta, S é o estí- 
mulo e A é uma variável terceira, introduzida na equação para 
explicitar uma condição adicional que afeta a variabilidade 
do comportamento (exemplos: drive , condição emocional). Já 
em 1938, no seu The behavior of organisms, o autor refere-se 
à relação funcional como uma estratégia derivada da histó- 
ria natural e referente à descrição dos fatos da natureza. Ele 
afirma: “Pelo dado obtido deste modo [história natural] é 
possível classificar diversas espécies de comportamentos e 
determinar suas frequências relativas de ocorrência. Mas, 
embora isto seja, propriamente falando, uma descrição do 
comportamento, não é uma ciência no sentido aceitável. Nós 
pretendemos ir além da mera observação para estudar as rela- 
ções funcionais. Precisamos estabelecer leis em virtude das 
quais nós podemos prever o comportamento e nós podemos 
fazer isso somente se identificarmos as variáveis das quais 
o comportamento é função” (p.8, apud Micheletto, 2000, 
p. 1 19; destaque nosso). 

• Para Skinner, já em 1953, estava claro que os termos "causa” e 
“efeito” já não eram mais utilizados em larga escala na ciência, 
uma vez que foram mais associados a tantas teorias sobre estru- 
tura e funcionamento do universo do que àquilo que os cientistas 
desejariam dizer a respeito. Em Ciência e comportamento humano 
(1953), Skinner escreve: “os termos que os substituem [‘causa’ 
e ‘efeito’], contudo, referem-se ao mesmo núcleo factual. Uma 
‘causa’ vem a ser ‘uma mudança em uma variável independente’ 
e um ‘efeito’, ‘uma mudança em uma variável dependente’. A 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 1 3 


antiga conexão ‘causa-e-efeito’ transforma-se em uma ‘relação 
funcional’. Os novos termos não sugerem de que maneira uma 
causa causará seu efeito. Eles meramente afirmam que eventos 
diferentes tendem a ocorrer ao mesmo tempo e em certa ordem” 
(p.23; apud Micheletto, 2000, p. 119). 

Já Barba, em sua tese de doutorado (2003), pontua: 

• O cenário teórico -filosófico anterior a Mach, por ele interpre- 
tado (1886), sugere que “os fenômenos físicos e os biológicos 
tinham, a separá-los, uma diferença de natureza fundamental, 
uma vez que os processos físicos admitem somente explica- 
ções eficientes, enquanto os processos biológicos comportam 
somente explicações teleológicas. Mach contesta esse ponto 
de vista e declara que tal divisão não se justifica” (p.97). Apa- 
rentemente, o que Mach quer demarcar é que não se trata de 
uma diferença de natureza, mas decorrente do fato de que 
os fenômenos biológicos mantêm multiplicidade de partes 
que nem sempre se tornam visíveis ao primeiro relance. Uma 
tarefa adicional, de reconstrução do fenômeno a partir de 
observações particulares, se torna sempre necessária, de modo 
que a alternativa de adoção de conclusões sobre o feitio do fato 
biológico da natureza conduz, inevitavelmente, a uma inter- 
pretação parcial e incompleta do fenômeno. Mach defende 
a ideia de que, em Biologia como em outras áreas (embora 
reconheça que a Física tivesse superado em parte essa etapa), 
nosso conhecimento é sempre imperfeito e provisório. “Ou 
seja, é próprio do nosso conhecimento apresentar ‘lacunas’” 
(Barba, 2003, p.98). 

• Ao condenar as soluções explicativas teleológicas, Mach dá o 
primeiro passo em direção às relações funcionais. Para Barba, 
“uma explicação selecionista devolve a causa ao seu lugar 
lógico natural: antes do efeito. Mach menciona o caso das cri- 
sálidas, que mudam de cor. Uma explicação que revela causas 
eficientes pode substituir uma explicação teleológica” (p. 1 00), 
como explicita Mach (1 886): “Dos materiais que são sensíveis 


1 1 4 KESTER CARRARA 


à luz, alguns há que podem adquirir quase qualquer matiz. 
Quando tais materiais são expostos a uma iluminação colo- 
rida, eles retêm a cor da iluminação, porque eles não absorvem 
os raios da mesma cor que eles mesmos, e consequentemente 
a luz é incapaz de produzir qualquer mudança adicional 
neles. De acordo com a observação de Poulton, é provável 
que muitas das cores adaptativas das crisálidas tenham ori- 
gem dessa maneira. Em tais casos, portanto, não precisamos 
olhar para fora dos meios que produzem o efeito, para encon- 
trar o ‘propósito’ que é alcançado. Evitando qualquer juízo 
precipitado, podemos dizer que o equilíbrio é determinado 
pelas circunstâncias sob as quais ele é alcançado” (p.95; 
destaque nosso). Processos selecionistas e causas eficientes, 
em cada caso, substituem “ações propositais” (teleológicas). 
Conforme Barba (2003), “a descoberta dos processos físicos 
que promovem a mudança de cor fornece uma explicação 
não finalista do comportamento das crisálidas. Identificando 
o processo físico, podemos dispensar quaisquer propósi- 
tos que expliquem teleologicamente a mudança de cor das 
crisálidas” (p.101). 

• Mach, com nosso agradecimento a Barba (p. 102-3) pela pre- 
cisa tradução, nos oferece uma explicação interessante sobre 
a "naturalização” de preferências explicativas distintas para 
os campos da Física e da Biologia, que transcenderam o 
momento histórico da “era das teorias” e se repetem, ainda 
hoje, nas escolhas contemporâneas de muitos acadêmicos: 

Quando qualquer processo que é completamente deter- 
minado pelas circunstâncias do momento e que permanece 
limitado a si mesmo sem consequências adicionais ocorre 
em um corpo inorgânico, ou até mesmo orgânico, nós difi- 
cilmente falamos de um propósito, como, por exemplo, 
quando uma sensação de luz ou uma contração muscular 
é excitada por um estímulo. Mas quando um sapo faminto 
apanha uma mosca, mastiga-a e ingere-a, nós naturalmente 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 1 5 


adotamos a noção de ação propositiva. A propositividade 
somente entra quando as funções orgânicas são decompos- 
tas - resolvidas - uma na outra, quando elas são vistas como 
interconectadas, como não limitadas ao imediato, como pro- 
cedendo por meio de desvios. Na esfera do orgânico, uma 
parte muito mais ampla do processo-mundo é manifestada; 
nós estamos conscientes da influência de um meio espacial e 
temporal mais amplo. Por isso é que o orgânico é mais difícil 
de compreender. A compreensão real somente é alcançada 
quando, e somente quando, tivermos tido êxito na decom- 
posição do complexo em suas partes imediatamente conec- 
tadas. Dessa maneira, a característica peculiar do orgânico 
deve ser considerada somente como indícios provisórios. 
(Mach, 1886, p.97). 

Então, e finalmente, na concepção de Mach parafraseada 
por Barba, "quando os fatores que determinam um processo 
manifestam-se todos a um tempo (estão todos presentes ao 
tempo em que o fenômeno ocorre), não precisamos invocar 
explicações finais ou propósitos. É o que ocorre quando temos 
um reflexo simples. Mas quando vemos o sapo abocanhar a 
mosca, temos de invocar o conceito de propósito. As circuns- 
tâncias que determinam o comportamento do sapo não estão 
presentes ao tempo da ação. Há ‘lacunas’ nos eventos que a 
antecedem e determinam. Somente obtemos uma compreen- 
são real do fenômeno quando essas lacunas são eliminadas, 
ou quando, em outras palavras, decompomos o complexo - 
processo orgânico - em suas partes imediatamente conectadas 
[...] note-se, portanto, que uma ‘compreensão real’ do fenô- 
meno somente é obtida quando se identificam os elementos 
imediatamente conectados” (p.103). 

Na mesma linha do que se esclareceu a partir do texto de 
Micheletto (2000), Barba avalia como crucial o encaminha- 
mento de Mach a uma esquiva em relação à causalidade teleo- 
lógica e à substituição de “causas” por “relações funcionais”. 


1 1 6 KESTER CARRARA 


Um trecho importante de seu livro seminal (1886) trata a 
adoção do conceito de função como contributo para uma boa 
lógica da explicação científica. Afirma Mach: 

A velha concepção tradicional de causalidade é de algo 
perfeitamente rígido: uma dose do efeito segue a uma dose 
da causa. Um tipo de concepção primitiva e farmacêutica do 
universo é expressa nessa visão, como na doutrina dos qua- 
tro elementos. A própria palavra “causa” deixa isso claro. 
As conexões da natureza raramente são tão simples que em 
qualquer caso dado nós possamos apontar uma única causa 
e um único efeito. Eu, portanto, há muito propus substituir 
a concepção de causa pela concepção matemática de função 
- isto é, pela concepção da dependência dos fenômenos 
uns dos outros, ou, mais precisamente, pela dependên- 
cia das características dos fenômenos uns dos outros. Essa 
concepção é capaz de qualquer extensão ou limitação que se 
deseje, de acordo com o que é exigido pelos fatos investiga- 
dos. (p.89; destaque nosso) 

• Em resumo, aduz Barba: “Uma concepção funcional de cau- 
salidade implica que: a ideia de ‘causa’ dá lugar à noção de 
‘variável independente’; a ideia de ‘efeito’ dá lugar à noção de 
‘variável dependente’; a ideia de relação causal é substituída 
pelo conceito de ‘função’” (p.108). Esse texto sinaliza com 
clareza a maneira como se translada do empiriocriticismo 
machiano ao Behaviorismo skinneriano uma alternativa (à 
causalidade mecânica) de descrição de relações funcionais que 
se traduz em delineamentos experimentais típicos e em pro- 
cedimentos de análise comportamental conceituai abrigados 
pela sistemática de trabalho pragmático da Análise do Com- 
portamento. 

• Como explica Barba, o analista manipula variáveis ambientais 
e observa os efeitos da manipulação sobre o comportamento: 
“o que ocorre no interior do organismo não é considerado 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 1 7 


nessa análise (Skinner, 1969). Isso não implica, contudo, que 
os eventos interiores não existam. Skinner [...] admite que o 
organismo não é vazio. Eventos ocorrem dentro dele. Quando 
um organismo aprende, sua constituição sofre modifica- 
ções. Atividades neurais estão envolvidas em todos os com- 
portamentos (Skinner, 1988). 2 O condicionamento operante 
representa, sob esse aspecto, um ‘processo fisiológico’ (Skin- 
ner, 1982, p.47). Esses eventos apresentam dimensões físicas 
idênticas às que caracterizam quaisquer outros eventos (Skin- 
ner, 1982)” (p.130; destaque nosso). 

Do exposto, depreende-se que comportamento não é um con- 
ceito que possa ser caracterizado tão facilmente quando se formula 
uma pergunta como: “o que é comportamento?”. Em contrapo- 
sição, adquire mais sentido quando se pergunta: “como se dá ou 
como se estabelece ou em que condições dadas se pode falar em 
comportamento?”. Isso faz pensar que comportamento não é, e 
nada é, senão um conceito apenas possível no âmbito das relações, 
embora ele não seja as próprias relações. 


2 Ver Catania; Harnad (1988). 


4 

O FRASCO DE AMÓNIA E A 
COMPLEXIDADE RELACIONAL 


É icônica a exemplificação machiana do frasco de amónia sobre 
a questão dos pareamentos entre sensações mais "básicas” e as que 
se seguem a estas - o que talvez tenha passado ao "primeiro” Skin- 
ner alguma inspiração, amparada depois em Pavlov, sobre parte 
da explicação do comportamento respondente. Na concepção do 
próprio Mach (1905): 

No início da vida psíquica, só conservamos lembrança clara e 
nítida de sensações que provocaram uma reação forte. Logo, de 
forma indireta, outras sensações podem permanecer na memória. 
Ex.: só a presença do frasco de amónia já me lembra seu odor. Só 
a apresentação do frasco já torna relevante a sensação experien- 
ciada. [...] O conjunto se sensações vividas/experienciadas ante- 
riormente, que são conservadas pelo ato de lembrar, podem vir a 
atuar em novas sensações, (p.32) 

Na dimensão das práticas culturais, de ampla complexidade 
relacional, mas que não foge ao princípio fundamental de seleção 
pelas consequências, as contingências como descritores de relações 
de dependência entre variáveis e, especialmente, entre comporta- 
mento e ambiente, estão visivelmente presentes. Acrescenta-se às 


1 20 KESTER CARRARA 


práticas culturais o componente do entrelaçamento entre compor- 
tamentos e contingências. O que configura a condição essencial 
que atende o critério para ocorrência da consequência positiva não 
é mais o comportamento individual em si mesmo, mas este de tal 
modo articulado - em termos temporais, topográficos, funcionais 
em relação ao ambiente - ao comportamento de outras pessoas. 
Apenas essa configuração de comportamentos, a prática cultural, 
assegura consequências. 

Estamos interessados sobretudo no comportamento social, que 
na definição de Skinner é aquele que é mediado por outra pessoa 
ou que reflete um compartilhamento, por duas ou mais pessoas, de 
uma mesma parcela do ambiente. 

Nessa dimensão, quando não é mais o indivíduo, mas o grupo 
que, comportando -se de modo articulado, provê pelo seu entrela- 
çamento de ações e contingências as consequências que asseguram 
a sobrevivência do indivíduo, do grupo como tal e das práticas ori- 
ginárias de reforçamento positivo, o que é alcançado é a preservação 
da "cultura”, no sentido do conjunto típico de atividades de uma 
comunidade. 

Todavia, tal como acontece com os comportamentos individuais, 
as práticas culturais, além de poderem ser preservadas ou mantidas 
pelo grupo que se comporta articuladamente para produzir con- 
sequências positivas, podem ser abandonadas ou substituídas por 
outras mais eficientes. O primeiro caso, de abandono das práticas, 
constitui a situação limite da ineficiência do entrelaçamento vi- 
gente. Ilustrando com um exemplo simples: ou o entrelaçamento 
proporciona plantar um milhão de pés de laranja para apenas mil 
consumidores, ou resulta em conseguir cuidar de dez pés para uma 
negociação que requer mil pés, ou, ainda, se enfraquece porque o 
mercado consumidor externo desenvolve uma política de protecio- 
nismo agrícola que impede a exportação. O que costuma ocorrer, 
nesses casos, é uma migração para algum outro tipo de prática que 
gere mais consequências mantenedoras da sobrevivência do grupo, 
do indivíduo e, indiretamente, da espécie. 

Nosso objetivo particular, apesar da pertinência dos dois ex- 
tremos, prioriza a possibilidade de rearranjo de contingências. Ou 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 2 1 


seja, a partir do conhecimento concreto do nexo existente entre 
práticas atuais e consequências - sendo tais consequências insufi- 
cientes para manter as práticas, ou deletérias para o grupo -, poder 
planejar novo arranjo das relações de dependência entre contex- 
to antecedente, comportamento e suas consequências. Trata-se, 
portanto, de um âmbito de mudanças que ultrapassa a dimensão 
respondente, assume lógica operante e efetiva-se nos arranjos com- 
plexos das práticas culturais que refletem a interdependência entre 
as ações individuais que compõem aquilo que apenas o grupo de tal 
modo “configurado” consegue fazer. 

Evidentemente, o norte ético a ser eleito é fundamental para que 
os novos arranjos sejam, a um só tempo, benéficos para o grupo 
e respeitem o ambiente geral, que ultrapassa os interesses desse 
grupo e alcança os demais membros da mesma espécie. Esse é o 
planejamento complexo que se requer para as mudanças nas práti- 
cas culturais que precisam ser realizadas quando se pretende uma 
direção encaminhada ao bem coletivo que vise oportunidades e 
condições iguais para todos. 

É importante salientar que é perfeitamente possível lidar com 
a dimensão complexa de tais práticas sem a criação de novos con- 
ceitos na Análise do Comportamento e no Behaviorismo Radical 
(veja-se, por exemplo, a unidade conceituai de metacontingência, 
concebida como imprescindível em função do argumento de que se 
estará lidando, quando o foco forem as práticas culturais, com outro 
nível de análise, o nível “especial” da cultura). Em contrapartida, 
o arranjo “especial” de contingências, no âmbito cultural, não de- 
monstra qualquer diferença de natureza, pelo fato de que aí está 
envolvido o comportamento de mais de uma pessoa, entrelaçada- 
mente. A lógica funcional é a mesma. O que se requer de especial 
é a descrição criteriosa e completa das interdependências entre 
comportamentos e consequências compartilhadas pelo coletivo. De 
todo modo, não se trata mais da mesma lógica do comportamento 
respondente, não se trata mais do sentido original empregado por 
Mach, mas é possível dizer, no sentido relacional, que ainda aí, no 
cultural, transita algum evanescente cheiro de amónia. 


5 

Principia comportamentalis 


Pelo que se examinou até aqui, a Análise do Comportamento 
constitui uma forma sui generis de abordar atividades humanas que 
implicam “trocas” com o ambiente. Grande parte de suas caracte- 
rísticas - e, por conseguinte, de suas estratégias e procedimentos 
- foi elaborada, testada e consolidada ao longo de quase um século 
de desenvolvimentos teóricos e empíricos, a partir das primeiras 
publicações de B. F. Skinner, nos anos 1930. 

Como é voz corrente entre psicólogos, a ideia de uma "aborda- 
gem” ( approach ) pretende significar uma “forma de aproximação” 
à explicação de fenômenos em determinada área de conhecimen- 
to. Pode-se considerar, nesse sentido, que a Análise do Compor- 
tamento constitui uma abordagem com características bastante 
particulares, sustentadas por um sistema teórico elaborado “na- 
turalmente”, seja em decorrência de pesquisas básicas, seja como 
suporte para novas pesquisas empíricas que refinam o seu corpo 
de conhecimentos. Não se trata, portanto, nem de uma abordagem 
teoricamente preconcebida por Skinner, nem de uma abordagem 
que resultaria, sem teorização correspondente, de pesquisas espúrias 
conduzidas por comportamentalistas sem nenhum nexo teórico. 
Essa característica implica um processo dinâmico de desenvolvi- 
mento e consolidação de dois formatos de asserções: pressupostos e 


1 24 KESTER CARRARA 


princípios. Trata-se de uma nomenclatura arbitrária, mas os pres- 
supostos convencionam -se como precondições assumidas pelos 
analistas do comportamento em relação aos princípios funcionais 
das relações entre comportamento e ambiente. Pressupostos, nesse 
sentido, pertencem ao campo da filosofia de ciência, neste caso 
representada pelo Behaviorismo Radical e admitida como condi- 
cionante ou contextualizante da forma de análise e da interpretação 
mesma dos achados relacionais obtidos em pesquisas empíricas no 
âmbito da Análise do Comportamento. Os princípios, por outro 
lado, pertencem ao campo dessa própria ciência, sendo derivados, 
e, não, antecedentes, dos achados empíricos. 

Nessa direção, essa ciência apenas faz sentido num mundo con- 
cebido como tendo uma existência física - embora nosso interesse 
não seja propriamente substantivo em relação a esse mundo, mas 
relacional, no sentido de identificar e descrever, a partir das intera- 
ções entre um organismo vivo e seu mundo, as relações entre com- 
portamento, o contexto antecedente e as consequências que produz 
no ambiente. Faz sentido, do mesmo modo, que não se possa supor 
uma generalizada ausência causal ou qualquer “caos” causal, pen- 
sando que fenômenos ocorram ao acaso, ou seja, a um probabilismo 
“vazio” - em outras palavras, a alguma probabilidade que não seja 
devida a um arranjo de variáveis tal que tornaria menos ou mais pro- 
vável a ocorrência de um fenômeno qualquer. Isto é, mesmo quando 
não se identificam de modo concreto, devido a dificuldades tecnoló- 
gicas ou conceituais, as variáveis determinantes de um evento (“cau- 
sas”), o entendimento sobre o “acaso” determinante desse evento é 
concebido, inclusive na hipótese de que não seja identificado em- 
piricamente, a um conjunto de variáveis (“causas”) desconhecidas. 

Recorrendo ao corriqueiro exemplo de lançamento de um dado, 
supondo que seja um dado “honesto” em sua estrutura "dura”, a 
probabilidade de qualquer uma das faces ocorrer em um lançamen- 
to é de um sexto. Se considerarmos um dado com um centímetro 
em cada lado, provavelmente não identificaremos, usando nossos 
sentidos naturais, uma série de variáveis associadas ao comporta- 
mento do lançador (nas suas eventuais relações com os resultados 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 25 


alcançados) que, eventualmente, possam interferir efetivamente no 
resultado obtido - seja a força com que o dado é lançado, o direcio- 
namento da jogada, a existência ou não de alterações na superfície 
em alguma parte do local de lançamento, seja a visualização, pelo 
lançador, de onde se encontra a face 6, por exemplo, antes do mo- 
mento do lançamento. Admitindo, diferentemente, um dado com 
um metro em cada lado, nossas variáveis desconhecidas (as que aca- 
bam de ser mencionadas, por exemplo) se revelariam muito claras. 
Um lançador que “queira” ganhar um jogo obtendo a face 6 em um 
lançamento pode usar do artifício de poder visualizar, nesse dado, 
onde se encontra essa face e que “força” deve empregar no lança- 
mento para que ela caia voltada para cima. Há sempre, portanto, 
variáveis que determinam os acontecimentos desse âmbito empíri- 
co assim concebido pelo modo científico admitido pela Análise do 
Comportamento . 

Desse modo, não há algo como "comportamento espúrio”, 
“comportamento indeterminado” ou "comportamento complexo” 
tão complexo a ponto de que as variáveis que o determinam não 
possam, ainda que apenas em tese, ser concebidas como existentes. 
Trata-se, portanto, de um pressuposto ao mesmo tempo simples e 
com frequência mal compreendido na literatura: o determinismo 
pensado tão somente como a lógica segundo a qual todos os aconte- 
cimentos, fatos, eventos da natureza possuem alguma “causa”, no 
sentido de variáveis a eles associadas de tal modo que suas ocorrên- 
cias reais se caracterizem por alguma probabilidade estimada das 
variáveis em jogo. Nessa perspectiva e nesse exemplo, o acaso seria 
nada menos, nada mais, do que um arranjo de "causas” desconhe- 
cidas previamente ao viabilizar -se o transcurso entre o lançamento 
do dado e a finalização da jogada. A identificação gradativa das 
características e funções de cada etapa, e do arranjo particular das 
variáveis aí contidas, é o desafio do fazer ciência. 

Na análise de Abib (1997), Skinner enfatiza de modo diferente o 
determinismo no comportamento reflexo e no operante, ao menos 
nos seus primeiros escritos. Tal determinismo tenderia a absolu- 
to no primeiro caso e, certamente, probabilístico no segundo. O 


1 26 KESTER CARRARA 


comportamento, portanto, é encarado por Skinner como ordenado, 
explicável, previsível e controlável, o que não significa, necessaria- 
mente, que sempre se esteja diante de uma situação explicada, pre- 
vista e controlada, frente às limitações tecnológicas ou à dificuldade 
de acesso comumente encontrada. A questão do determinismo vem 
sempre associada à do livre -arbítrio. Nessa polêmica, as posições 
são bastante conhecidas e, no mínimo, interessantes, como mostra 
Baum (1999): 

Os críticos do determinismo argumentam que a crença no livre - 
- arbítrio é necessária à preservação da democracia e moralidade em 
nossa sociedade. Os behavioristas argumentam que provavelmente 
o oposto é que é verdadeiro - uma abordagem comportamental de 
problemas sociais pode aperfeiçoar a democracia e favorecer o com- 
portamento ético. Quanto à estética, os críticos do livre- arbítrio 
observam que ele é ilógico quando associado à noção de um Deus 
onipotente (como geralmente o é). Quer um ato seja atribuído a 
eventos naturais ou à vontade de Deus, ainda assim ele não pode, 
pela lógica, ser atribuído ao livre-arbítrio do indivíduo. Os defen- 
sores do livre-arbítrio retrucam que, dado que os cientistas nunca 
podem prever em detalhe as ações de um indivíduo, o livre-arbítrio 
permanece possível, ainda que seja um mistério. Os behavioris- 
tas respondem que é precisamente sua natureza misteriosa que o 
torna inaceitável, porque levanta o mesmo problema que outras 
ciências tiveram que superar: como uma causa não natural pode 
levar a eventos naturais? Os behavioristas dão a mesma resposta 
que as outras ciências deram: os eventos naturais provêm somente 
de outros eventos naturais, (p.34) 

Como se pode observar, a harmonização entre princípios e pres- 
supostos é um teste de funcionalidade do sistema. À medida que as 
replicações encontram dados que corroboram a coerência do víncu- 
lo entre uma ciência que se baseia na busca de relações funcionais 
e sua filosofia, que pauta pressupostos de uma realidade materia- 
lista-monista, de uma "organização” determinista-probabilista 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 27 


e de uma base explicativa fundada nas relações funcionais entre 
comportamento, seu contexto antecedente e seu contexto conse- 
quente, acabam consolidados procedimentos de análise que assegu- 
ram instrumentalidade para descrever, controlar e, eventualmente, 
mudar as relações nesse cenário. 

Ao adotar essas suposições iniciais, o Behaviorismo Radical 
mostra-se como alternativa que aceita, basicamente, a configura- 
ção epistemológica e metodológica das ciências naturais. Crê que 
o comportamento humano é mais um - embora possa ser o mais 
complexo - dos fenômenos típicos da natureza em geral e que é 
passível, ao menos potencialmente, de observação empírica que 
permita a elaboração de situações controladas de pesquisa que im- 
pliquem testes para avaliar os achados conduzidos prioritariamente 
de acordo com o modelo do delineamento de sujeito único. Adota a 
comparação de dados intrassujeito, cotejando os resultados obtidos 
para o mesmo participante da pesquisa sob condições de proce- 
dimento diferentes (combinações diversas do design de pesquisa 
mediante o uso de medidas prévias - linha de base - e intervenção). 
Adota, com prioridade, a replicação sistemática, e não a generali- 
zação de resultados de pesquisa, em função da utilização de amos- 
tragem “representativa” a partir de determinada população, como 
forma de teste de validade genérica dos achados e como garantia de 
preenchimento do critério de refutabilidade, nos moldes popperia- 
nos. Secundariza, em tese, a adoção da estratégia de comparação 
intersuj eitos, mediante cotejamento de médias de grupos de par- 
ticipantes amostrados - há na literatura, no entanto, numerosos 
estudos em Análise do Comportamento que não fazem uso de deli- 
neamento de sujeito único, inclusive no Journal of Applied Behavior 
Analysis e outros periódicos importantes. 

Argumenta- se, contra os estudos com grupos, que as medidas 
de tendência central não são capazes de representar fielmente o 
comportamento individual. Trata-se apenas de uma qualificação 
para a média do grupo, depois comparada com a média de outro 
grupo, mas não estariam aí representados concretamente os perfis 
de todos os componentes dele. Um exemplo metafórico do ponto 


1 28 KESTER CARRARA 


de vista temático, mas concreto do ponto de vista numérico: de uma 
classe de trinta alunos, dez alcançam nota 10 na avaliação geral, dez 
conseguem 5 e os dez restantes obtêm zero; a média dessas trinta 
notas é 5, de modo que, se tomássemos a classe como instância da 
qual aferíssemos os resultados de desempenho acadêmico, diríamos 
que ela estaria “aprovada”, já que sua média é 5; todavia, se obser- 
vássemos o desempenho individual, encontraríamos interpretação 
diferente, já que há dez alunos excelentes (notas 10) e há alunos 
que, em tese, "nada sabem” sobre o conteúdo, já que obtiveram 
avaliação zero. Por esse prisma, "as médias são mentirosas” e, por- 
tanto, justifica-se plenamente evitar a comparação de médias dos 
grupos submetidos a diferentes tratamentos experimentais. 

Aduz- se o argumento de que o indivíduo mais parecido com 
o indivíduo X é X. Com isso, as medidas antes e depois de algum 
procedimento são preferidas nos estudos em Análise do Compor- 
tamento, embora várias outras estratégias sejam possíveis. Skinner 
adotou essa estratégia também pelo fato de considerá-la "econômi- 
ca”, no sentido herdado de Mach. Note-se, todavia, que o critério 
determinante para que uma pesquisa seja categorizada como de 
Análise do Comportamento não é propriamente o fato de ser uti- 
lizado um sujeito único ou grupos de sujeitos comparados. O fator 
determinante do pertencimento da pesquisa à Análise do Compor- 
tamento é a lógica analítica empregada. E a lógica central da pesqui- 
sa em Análise do Comportamento é a interpretação dos dados em 
termos de seleção pelas consequências, com a finalidade de estabe- 
lecimento de relações funcionais entre comportamento e ambiente. 

Com essas precauções, evidentemente polêmicas, o Behavioris- 
mo Radical constrói seu modo sui generis de fazer ciência, buscando 
aproximação com as ciências naturais. Encontra grandes barreiras 
quando passa a tratar, diferentemente do Behaviorismo Metodoló- 
gico, da questão dos eventos privados. Assume-os como passíveis 
de estudo, embora o acesso direto a eles, na maioria das vezes, fique 
restrito à primeira pessoa (nesse aspecto, apenas a João é possível 
sentir a dor de dentes pela qual está passando). Daí com frequência 
dizer-se que Skinner restaura a introspecção, e tal asserção é con- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 29 


fundida como uma volta às condições instrumentais de coleta de 
dados anteriores a Watson. 

Na verdade, o que Skinner faz não é restabelecer o “olhar para 
dentro de si mesmo’’ que resultava em retratar a personalidade, a 
mente, a consciência ou a cognição. O que ele propõe é que parte do 
que relatamos sobre o que estaria ocorrendo em termos de nossos 
comportamentos encobertos (e, em geral, eventos privados) pode 
ser (de modo probabilístico, uma vez mais) aferido mediante com- 
paração com parâmetros derivados das práticas culturais observadas 
no cotidiano humano. Defende que não se pode confundir a dicoto- 
mia público-privado com outra, objetivo-subjetivo, uma vez que 
aquilo que ocorre sob a pele é tão físico, embora nem sempre possa 
assim parecer, quanto o que ocorre em termos de comportamento 
aberto. Não há diferença de natureza, há diferença quanto ao acesso. 
Evidentemente, existem muitos dados de pesquisa esclarecendo 
as diferenças entre dizer (o que se está sentindo ou tencionando 
fazer) e o próprio fazer, de modo que a restauração da instrospecção 
anunciada por Skinner deve ser compreendida com relativização. 

Não apenas por essas características de seu Behaviorismo, Skin- 
ner se vê às voltas com duras críticas, sobretudo pela sua apro- 
ximação ao modelo das ciências naturais, em particular aquelas 
vinculadas à pecha de reducionismo, supersimplificação de fenô- 
menos e exacerbado controle de situações de pesquisa - artificiali- 
zação dos cenários originais do comportamento, representada pela 
criação e pelo uso da câmara experimental conhecida popularmente 
como “caixa de Skinner”. Nesse particular, se por um lado Skinner 
justifica a criação desse equipamento por conta da maior possibi- 
lidade de controle de variáveis estranhas que poderiam mascarar 
resultados das variáveis independentes estudadas experimental - 
mente, por outro, a crítica verticaliza a posição segundo a qual nada 
resta ao animal para fazer nesse ambiente controlado, com pouco 
espaço e variabilidade de estímulos bastante limitada, senão pres- 
sionar a barra e acompanhar as consequências dessa ação. 

Apesar das possíveis e pertinentes razões da crítica, parece certo 
que uma contribuição relevante resulta do esforço para ampliar a 


1 30 KESTER CARRARA 


precisão da análise e a confiabilidade na identificação e no controle 
das variáveis determinantes do comportamento. Evidentemente, 
desenvolver, no início de seu programa de pesquisas, inúmeros ex- 
perimentos com outros animais, sobretudo pombos e ratos albinos, 
em momento algum implicou conceber igualdade, seja na escala 
filogenética, seja no cenário ontogênico, entre uma espécie e outra. 
Não se podem condicionar ratos ou homens, a não ser pombos, a 
voar. Do mesmo modo, não se pode estudar a economia comporta- 
mental em seres humanos, cujas ações são mediadas a maior parte 
do tempo pelo comportamento verbal, usando o mesmo instrumen- 
tal empregado para um estudo com pássaros. O que Skinner alcan- 
ça, especialmente no âmbito do operante, é demonstrar um único 
fio condutor da composição de repertórios de comportamento em 
todos os seres vivos: a seleção pelas consequências, sobejamente 
demonstrada em milhares de experimentos, em todas as espécies. 
Em outro trabalho, afirmamos (Carrara, 2003): 

Skinner mantém uma espécie de evolucionismo ontológico, 
onde o Behaviorismo Radical concebe o ser humano como um 
organismo que se comporta e, ao se comportar, produz consequên- 
cias, atua e muda o ambiente. As transformações que neste provoca 
também o modificam, dando ao homem uma possibilidade imensa 
de intervenção no seu destino e na busca dos objetivos que almeja. 
O controle pelas consequências pode ser identificado no cotidiano 
e encontra exemplificação diversificada na literatura: nos banhos 
públicos da velha Roma, onde por alguns cêntimos qualquer pessoa 
podia desfrutar dos prazeres dessa atividade comum, a procura era 
intensa; e eles pareciam mesmo reforçadores, uma vez que Cícero 
dizia que o som do gongo ( discus ), que diariamente anunciava a 
abertura dos banhos ao público, era “mais doce aos ouvidos que a 
voz dos filósofos na escola” . (p . 5 5 ) 

Algumas dimensões especiais vinculadas à epistemologia ado- 
tada pelo Behaviorismo Radical são responsáveis por uma caracte- 
rização complementar do núcleo filosófico-científico (seleção pelas 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 3 1 


consequências) paradigmático e irrenunciável para o comportamen- 
talismo. Preliminarmente, considera-se lícito compreender a ideia 
de epistemologia amparada por dois sentidos essenciais: em um, 
significa o estudo da origem do conhecimento em geral; no outro, 
o estudo dos princípios sobre os quais se fundam os critérios de 
verificação e de verdade e o valor dos sistemas científicos. Fala-se, 
portanto, numa epistemologia genética (como em Piaget) quando 
se buscam explicações para a maneira como se origina e se desen- 
volve, no ser humano, o ato de conhecer. Fala-se em epistemologia 
do conhecimento, epistemologia da Psicologia, epistemologia do 
Behaviorismo quando o interesse é a análise dos pressupostos a 
partir dos quais se valida (ou não) o conhecimento científico, seja 
no âmbito genérico, seja em áreas ou ciências específicas. Como já 
apontamos (Carrara, 2003): 

Nesse sentido, a epistemologia propõe-se a responder a questões 
tais como: o que é conhecimento científico? Em que consiste, pro- 
priamente, o trabalho do cientista? O que faz o cientista quando faz 
ciência, senão interpretar, descrever, explicar, prever? O cientista 
faz conjeturas que espelham fielmente aspectos factuais da natu- 
reza? Quando o cientista explica, o que ele explica dos fatos: fun- 
ção, gênese, essência, fim? Qual é o status lógico das leis científicas? 
Em que sentido se fala em causalidade nas ciências empíricas? Sob 
quais critérios pode-se falar que uma teoria é melhor que outra? O 
que queremos dizer quando afirmamos que as ciências empíricas 
são objetivas? Certamente, as indagações são muito maiores que 
as respostas já consagradas e, mais ainda, parecem todas corolários 
de uma pergunta central sobre o que seja o próprio conhecimento 
científico, (p.49) 

Essas indagações - e outros questionamentos delas decorren- 
tes - começaram a produzir efeito a partir do final do século XVII, 
quando a exaltação cega das ciências foi gradativamente substituída 
por um ceticismo crescente e uma crítica aguda a modelos entre 
si discrepantes de busca do conhecimento científico. Em outras 


1 32 KESTER CARRARA 


palavras, a filosofia de ciência subjacente a cada enfoque teórico 
passou a ser objeto de avaliação crítica cada vez mais contundente, 
o que valeu não apenas para as ciências duras, mas, de resto, para 
as pré -paradigmáticas, como foi o caso da Psicologia. Como vimos, 
no que respeita à Física e às ciências experimentais em geral, a tra- 
jetória transcorre entre uma visão estática e mecanicista e outra 
dinâmica, probabilista e relativista das leis da natureza, o que por 
vezes se rotula de dicotomia newtoniana-machiana. Rapidamente 
os conceitos abstratos envolvendo espaço e tempo absolutos aca- 
bam perdendo seu valor. A linearidade nas explicações científicas 
é gradativamente substituída pelo interesse nas relações funcionais 
e na priorização dos procedimentos descritivos, característicos das 
formulações de Ernst Mach, cuja epistemologia rejeita por comple- 
to a metafísica e insiste no caráter histórico da filosofia da ciência. 

No tempo do Círculo de Viena, a filosofia da ciência, em geral, 
desenvolveu algumas tendências e movimentos predominantes que 
podem ser agrupados em três arranjos filosóficos ou conceituais 
entre si avizinhados: o neopositivismo, a interpretação metafísica 
e o racionalismo científico. Nomes como Wittgenstein, Carnap, 
Russell, Schlick representaram o neopositivismo ou o positivismo 
lógico, interessado em dividir as ciências em dois grandes ramos: 
as lógico -matemáticas e as experimentais. As primeiras se funda- 
riam na construção e validação formal de proposições analíticas, 
destituídas de conteúdo factual; as demais, ao contrário, seriam 
empiricamente “verificáveis”, na acepção do positivismo lógico 
carnapiano, por exemplo, ou “falseáveis”, como veremos adiante, 
quando da elaboração do critério de distinção entre o que cons- 
tituía ou não asserções científicas, por Karl Popper. Ou seja, são 
“científicas” as asserções em relação às quais é possível elaborar 
uma situação de teste, de modo que elas possam, em princípio, ser 
demonstradas falsas; não o sendo, permaneceriam validadas, mas 
não necessariamente verdadeiras, enquanto fosse esse o seu estado, 
assim como os seus enunciados. 

De todo modo, para Popper, jamais se "provaria”, no mundo 
empírico-probabilístico, o caráter de "verdade” de uma asserção. 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 33 


Esse modelo de ciência é atravessado por um racionalismo formal 
que rejeita um caminho direto para o empirismo e sugere que o con- 
trole das asserções científicas deve ser obtido de maneira indireta, 
com uma análise lógica tal como a popperiana sobre falsificabili- 
dade de enunciados em relação aos acontecimentos da natureza. O 
critério popperiano estabelece que uma teoria pode ser considera- 
da científica unicamente se satisfaz duas condições essenciais: ser 
falsificável e não ter sido ainda demonstrada falsa de fato. Assim, 
para Popper, o critério de demarcação entre teorias empíricas e não 
empíricas não é a verificabilidade, mas a falsificabilidade, de modo 
que a confirmação completa jamais pode ser obtida, enquanto a fal- 
sificação pode dar-se mediante apenas um caso contrário (é icônico 
o exemplo de Popper sobre cisnes, contrário à confirmabilidade e à 
indução: o fato de encontrarmos mil cisnes brancos não nos autori- 
za a concluir que todos os cisnes são brancos; de fato, basta encon- 
trar um deles com outra coloração, e a crença baseada no número 
expressivo se esboroa). 

Como já assinalamos (Carrara, 2003): 

Do que se expôs, todavia, depreende-se que a discussão episte- 
mológica é a questão mais central, o miolo da validação de teorias. 
Não é diferente na Psicologia: tudo o mais (técnicas, métodos, prá- 
ticas) daí decorre. Ou seja, a filosofia de ciência subjacente, adotada 
como pressuposto de um determinado enfoque ou corrente, acaba 
se transformando, em suma, no conjunto primeiro de premissas 
sobre as quais se instalam todos os procedimentos práticos. No 
caso da Análise Experimental do Comportamento ou da Análise 
Aplicada do Comportamento, os pressupostos essenciais são os 
ditados pelo Behaviorismo Radical, sua filosofia de ciência. Não 
parece possível escrever sobre epistemologia sem, de algum modo, 
haver algum comprometimento com uma visão fragmentada, por 
vezes algo enviesada e distorcida de ciência. Não parece plausível 
escrever sobre características epistemológicas sem alguma conta- 
minação propriamente epistemológica. Portanto, ao tentar fazer 
uma análise das proposições básicas do Behaviorismo Radical, é 


1 34 KESTER CARRARA 


certo tratar-se de lidar com vieses e com uma série de condições 

assumidas a priori. (p.52) 

A lógica da seleção pelas consequências talvez esteja presente na 
maioria dos principais pressupostos (dez ou doze), com duas res- 
salvas: estes por vezes não se apresentam, em termos conceituais, 
de modo mutuamente excludente, ou seja, é possível encontrar 
características de um pressuposto necessariamente incorporadas a 
parte dos argumentos de um segundo pressuposto; ainda que te- 
nhamos em momento anterior procurado fazer uma distinção entre 
pressupostos da filosofia de ciência behaviorista radical e princípios 
da Análise do Comportamento, é possível a incorporação, por ser 
tão usual e arraigada ao jargão comportamentalista, dos segundos 
aos primeiros, sem mesmo considerar que os segundos derivam 
dos resultados empiricamente controlados obtidos e os primeiros 
constituem propriamente as condições a priori adotadas para a in- 
terpretação dos dados que geram princípios. Um exame, mesmo 
que breve, dessas características epistemológicas essenciais talvez 
ajude a esclarecer algumas questões relevantes. 

Uma primeira observação importante diz respeito à própria 
designação "radical”. Muitas vezes, inclusive na literatura co- 
nhecida, esse termo é usado significando certa intransigência do 
Behaviorismo com relação a qualquer outra corrente ou ponto de 
vista dele divergente. Recuperando os escritos de Skinner, tudo 
indica, todavia, que o termo sinaliza dois interesses específicos da 
abordagem: de um lado, sugere a negação da existência de qual- 
quer evento, fenômeno ou variável que escape, no limite, a algum 
referente físico que não tenha existência identificável no espaço e 
no tempo (mente, consciência, cognição, nas acepções comuns em 
que são usadas essas palavras, por exemplo) e que seja empregado 
como causa de qualquer comportamento; de outro lado, aponta o 
nexo com a ideia de raiz, ou seja, de que o comportamento é a via 
priorizada de acesso à compreensão da natureza humana (para uma 
compreensão detalhada dos fundamentos e das características his- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 35 


tóricas do uso de “radical” associado ao Behaviorismo, ver Carrara; 
Strapasson, 2014). 

Há, além disso, certa confusão na literatura quando, por vezes, 
sugere-se que o Behaviorismo Radical, ao apontar como caracte- 
rística a ideia de comportamento enquanto expressão inequívoca 
da natureza humana, estaria buscando uma sinonimização com a 
física social comtiana e mesmo durkheimiana. Estas, de modo si- 
milar, propunham um naturalismo positivista que acatava supostas 
“verdades sociais” da natureza humana, como uma “indispensável 
concentração de riquezas entre os chefes industriais” ou o fato já 
citado de que “os proletários reconhecerão, sob o impulso femini- 
no, as vantagens da submissão a uma digna responsabilidade”. Não 
caracteriza pressuposto do Behaviorismo a existência de qualquer 
situação social imutável, sem dúvida. Seria exatamente um pensa- 
mento oposto à própria natureza do objeto de estudo da Análise do 
Comportamento: as interações entre organismo e ambiente. 

Em relação a esse aspecto, o Behaviorismo, ao contrário do que 
co mumente se encontra na literatura crítica, é uma abordagem in- 
terativa. O que frequentemente se lê é que o Behaviorismo Radical 
considera o ser humano passivo, sujeito aos caprichos da natureza. 
Trata-se da tese do ambientalismo extremado, pela qual o homem 
ficaria à mercê das ocorrências do ambiente, a ele adaptando -se e 
por ele sendo modelado passivamente. O Behaviorismo não cede 
nem a essa corrente, nem, inversamente, à tese do ser humano ativo, 
cuja intencionalidade e cujos objetivos motivam o comportamento. 
Seu pressuposto, nesse sentido, é de interatividade, representada 
pelo paradigma da contingência de três termos, em que necessa- 
riamente o comportamento é afetado pelo contexto antecedente e 
pelas consequências que produz no ambiente. 

Como escreve Skinner já nas primeiras linhas de O comportamen- 
to verbal (1957): “os homens agem sobre o mundo, modificam-no 
e, por sua vez, são modificados pelas consequências de sua ação”. 
Portanto, a Análise do Comportamento e o Behaviorismo Radical 
não consideram o homem um ser passivo. Ele não é apenas parte do 
cenário, mas ator que tem papel decisivo na cena e interage com os 


1 36 KESTER CARRARA 


eventos físicos, químicos, biológicos e sociais 3 presentes nesse ce- 
nário. Trata-se, portanto, de uma ciência que busca haver-se, mais 
do que com o próprio comportamento, com suas características 
funcionais, com o comportar-se dentro de determinado contexto. 

Se não um pressuposto, ao menos outro traço característico 
do Behaviorismo Radical é sua consideração sobre a continuidade 
entre as espécies. Há uma aposta na evolução filogenética e, em 
consequência, na evolução das espécies. Evidentemente, é enorme a 
distância entre o homem e as demais espécies, no que se refere àqui- 
lo de que ele é capaz, em termos de variabilidade e complexidade do 
comportamento, o que sinaliza uma diferença qualitativa, propria- 
mente. Tal diferença, ao assumir ares qualitativos, dá margem a que 
pensemos no homem como absolutamente diferente e, por vezes, 
superior, tanto que o encontramos comumente referido numa rela- 
ção de contraposição aos outros animais "inferiores”. Nesse senti- 
do, necessitaríamos de uma ciência específica para estudá-lo. 

Atualmente, o volume de pesquisas com seres humanos é tão 
amplo quanto com outros animais, mas nem por isso os resultados 
têm mostrado conflitos conceituais, no que diz respeito a princípios 
comportamentais “para” humanos, com o que frequentemente 
se encontrou em outras espécies. Como em outras ciências, além 
disso, empecilhos de natureza ética são evitados, mediante a ex- 
perimentação com outras espécies, antes que seja feita com seres 
humanos (embora outros obstáculos sejam criados, no contexto da 
legislação sobre pesquisa com animais). 

Um aspecto a que Skinner opõe -se diretamente diz respeito ao 
conceito de validação e precisão de princípios e resultados de inves- 


3 Note-se que, embora os termos “físico”, “químico”, “biológico” e “social” 
apareçam aqui como vulgarmente ocorrem, sugerindo abrangência e com- 
plexidade imensuráveis à natureza das ações humanas, cada qual possui uma 
especificidade conceituai que não discutiremos neste livro. Por exemplo, argu- 
mentos são comumente encontrados no sentido da redução de todos os demais, 
inclusive o “social”, ao “físico”. E evidente que muitas implicações decorrem 
desse tipo de exercício reflexivo, questão da qual não nos ocuparemos com a 
verticalidade que tal questão comportaria. 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 37 


tigações científicas baseadas no consenso, ou seja, a partir do acordo 
entre observadores. Busca evitar a possibilidade de que o cunho 
corporativo característico de outros empreendimentos esteja pre- 
sente no fazer científico. Assim, prefere a validação de conceitos e 
princípios pela via de sua funcionalidade efetiva, refletindo uma in- 
fluência pragmatista clara: a avaliação da pertinência prática de pro- 
cedimentos, em contrapartida ao consenso fortemente influenciado 
pela lógica do operacionismo e pela filosofia do empirismo lógico. 

Nessa perspectiva, sob os auspícios de Charles Peirce e William 
James, o pragmatismo influenciou John Dewey e, depois, filósofos 
como Willard Van Orman Quine, Hilary Putnan e Richard Rorty. 
Na sua forma clássica, o pragmatismo do successfull working , 4 ver- 
tido para a interpretação epistemológica ou gnoseológica da ciên- 
cia, pretende que a verdade de uma proposição seja medida pela 
sua correspondência com os resultados experimentais e pelas suas 
consequências práticas. O pragmatismo de natureza ético -política 
tem sido alvo de constantes ataques, em especial por se julgar que 
excluiria o recurso a reflexões teóricas ou valorações baseadas nos 
princípios do livre -arbítrio. O cuidado que se deve ter, naturalmen- 
te, é no sentido de cuidar para que tal pragmatismo não se trans- 
forme em utilitarismo fácil a serviço de qualquer empreitada, daí 
a necessidade de também estudar de modo consistente as variáveis 
que controlam o comportamento do próprio cientista. 

Para os nossos propósitos neste livro, importa, para além de saber 
que há “coisas” no mundo do comportamento (estruturalmente fí- 
sicas ou conceituais), que o fundamento para sua compreensão re- 
pousa em conhecer como os acontecimentos corporais se relacionam 
com o ambiente, ou seja, qual o nexo entre contexto antecedente, 
comportamento e suas consequências ambientais. O que há de prag- 
mático nisso reside apenas na identificação da funcionalidade de 


4 Successfull working, embora ideia central da filosofia pragmatista, constitui 
condição importante para Skinner como critério de avaliação da aceitabilidade 
de resultados de pesquisa e aplicação. Nesse sentido, implica um “trabalho 
bem sucedido” em função do efetivo funcionamento de suas consequências, 
sejam teóricas ou aplicadas. 


1 38 KESTER CARRARA 


cada variante dentre respostas possíveis, classes de respostas, com- 
portamentos individuais, práticas culturais. A descrição criteriosa 
de tal funcionalidade é que proporciona a possibilidade de manter 
ou rearranjar as contingências constituintes do entorno humano. 

E igualmente importante considerar outra característica do 
Behaviorismo skinneriano: a prevalência (não unânime) do mo- 
nismo fisicalista. Skinner sempre rejeitou qualquer dualismo, 
entendendo que do ambiente ao comportamento, das variáveis 
antecedentes à variável dependente, todos os fatos se passam em 
apenas uma espécie material de mundo, de natureza física. Esse 
preceito, evidentemente, evita a inserção de causas intermediárias, 
como o fazem algumas vertentes cognitivistas. Tal afirmativa não 
significa dizer que Skinner opta pelo paradigma da caixa preta, ou 
seja, que vá ao limite extremo e inconcebível de excluir o cérebro 
ou tudo que acontece nele, e em outras partes do corpo, num episó- 
dio de observação das relações entre um organismo e seu contexto 
ambiental. O que ocorre é que Skinner considera possível a cons- 
trução de um enfoque consistente mediante a observação dessas 
duas “pontas”, duas extremidades do fenômeno, sem descartar os 
grandes esforços da Biologia para compreender, ao longo dos seus 
avanços tecnológicos, o que se passa em termos neurológicos e fi- 
siológicos dentro do organismo, sobretudo no cérebro. 

Do monismo fisicalista decorre um compromisso epistemoló- 
gico de Skinner com a rejeição a alguns tipos de teorias. Aliás, essa 
sua decisão provocou críticas diversas na literatura, que taxaram- 
-no de “ateórico” e “antiteórico”, como se fosse avesso a qualquer 
tipo de conjectura em ciência, por conta de ater-se demasiadamente 
aos dados experimentais. No seu artigo de 1950, ele tenta desfazer 
esse engano, mostrando que, embora seja verdadeira a priorização 
dos dados experimentais em relação às conjecturas, destas não se 
pode prescindir em hipótese alguma, mesmo porque cada ida ao 
laboratório é precedida ou investida de um conjunto de conceitos, 
ideias, hipóteses informais. Na verdade, são duas as respostas dadas 
por Skinner à questão: "teorias são necessárias?” (Carrara, 1994): 
1) sim, quando se trata da expressão de relações uniformes, com a 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 39 


representação de dados reduzida a um número mínimo de termos; 
2) não, quando se pretende a explicação de um fenômeno com apelo 
a ações que ocorrem em outro lugar, em outro nível de observação, 
e que sejam medidas conforme outras dimensões que não aquelas 
derivadas da própria situação e do comportamento envolvidos. O 
próprio Skinner explicita, em entrevista a Evans (1968): 

Eu tenho sido chamado de antiteórico, provavelmente por causa 
do artigo que escrevi, intitulado Are theories of learning necessary? 
[São necessárias as teorias da aprendizagem?], no qual tentei defi- 
nir cuidadosamente o que eu entendia por teoria. Eu a defini com 
ênfase na explicação do comportamento em termos de fatores de 
outra dimensão, tais como a mente ou o sistema nervoso. Teorias 
desse tipo eu não acredito serem essenciais ou trazerem ajuda. Ao 
contrário, são perigosas, causam vários tipos de problema. Mas eu 
vejo a elaboração de uma teoria geral do comportamento, com a 
reunião de um grande número de fatos, como uma coisa possível 
no futuro. Essa espécie de teoria eu estou muito interessado em 
promover e me considero, nesse sentido, um teorizador. (p.88) 

Skinner, todavia, não previu quantos desencontros seu artigo e 
suas declarações, apesar de sua clareza, ainda provocariam. A ideia 
de que ele rejeitava a teorização, por parte da maioria dos não ana- 
listas, foi tomada ao “pé da letra”, de modo a se julgar pretensiosa 
sua abordagem que, em tese, sugeria uma “física do pensar”. Tam- 
bém foi interpretado incorretamente por alguns analistas do com- 
portamento, no sentido de que a pesquisa é o que vale (sobretudo 
a pesquisa básica), pouco interessando ou contribuindo de modo 
limitado qualquer trabalho de investigação teórica. Entretanto, 
essa posição, pela qual quem faz avançar o conhecimento científico 
é apenas o pesquisador, não o filósofo da ciência ou o epistemólo- 
go, acabou completamente desacreditada, uma vez que em desa- 
cordo frontal com a própria concepção do Behaviorismo Radical 
enquanto filosofia de ciência da Análise Experimental do Compor- 
tamento. Ou seja, alguns pressupostos são sempre necessários, em 


1 40 KESTER CARRARA 


qualquer fazer científico, uma vez que é sobre eles que se organiza 
um sistema compreensível de dados dos fenômenos da natureza. 

Há, dentre os pressupostos do Behaviorismo Radical, outra ca- 
racterística fundamental, que é uma visível rejeição ao mentalismo. 
Skinner sempre manifestou que entendia as explicações mentalistas 
como referentes a outro estofo, que não o físico, a partir do qual 
ou no qual se insere o comportamento (cf. Skinner, 1950; Carra- 
ra, 1994). Sendo monista fisicalista, rejeita a ideia de que eventos 
mentais “causem” eventos comportamentais. Com isso, Skinner 
quer dirigir a atenção para os perigos de as explicações mentalistas 
refletirem uma explicação que acaba remetendo ao conceito de 
homem autônomo, pois, para explicar o comportamento, apela-se a 
uma espécie de homúnculo dentro do próprio homem, o que remete 
a uma cadeia retroativa interminável de causas intermediárias: um 
homúnculo “b” para explicar o primeiro e assim por diante. 

Há, portanto, uma rejeição ao conceito de mente, especialmente 
quando esta não remete a cérebro. Invariavelmente reporta-se a um 
evento não natural, uma espécie de ficção explanatória que autoriza 
sugerir outros verbetes “causais”, como “ego”, “livre- arbítrio”, 
“cognição”, “vontade”, “desejo”. Skinner não rejeita esses termos 
em si, portanto, mas seu uso como eventos causais ou iniciadores do 
comportamento, e pensa que são controlados pelos mesmos tipos 
de variáveis que controlam qualquer comportamento, público ou 
privado. É clássico o exemplo do traço de agressividade: ao se per- 
guntar: “por que essa pessoa é agressiva?”, a resposta pronta é algo 
como: “porque se comporta agressivamente”; em contrapartida, 
se a pergunta se inverte: "por que tal pessoa se comporta agres- 
sivamente?”, invariavelmente a resposta é: "porque é agressiva”. 
Guardadas as devidas proporções, é essa circularidade que acaba 
acontecendo quando se apela a constructos hipotéticos de outra na- 
tureza que não a natureza dos eventos cuja causa deve ser explicada 
(comportamento) . 

Mesmo a técnica introspeccionista rudimentar, muito antes das 
relevantes contribuições do cognitivismo, exemplifica essa circula- 
ridade. Nem todas as variantes cognitivistas procedem do mesmo 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 141 


modo, mas, na acepção mais ingênua desse modelo de investigação, 
a causalidade é conjecturada a partir de três instâncias: a recep- 
ção de impressões do mundo por um indivíduo passivo; a fixação 
dessas impressões em sua mente ou outro constructo ou estrutura 
cognitiva ou mental, constituindo sua consciência; a consciência 
como agente responsável ou que constitui o local onde ocorrem os 
processos responsáveis pelas nossas ações, explicando suas causas. 

A superação do obstáculo da postulação de eventos mentais 
a intermediar as relações entre comportamento e ambiente está a 
caminho por outra via, para além das argumentações lógicas. Evi- 
dentemente, muitos anos e muita pesquisa ainda serão necessários 
para que a investigação dos mecanismos neuronais de seleção pelas 
consequências seja tecnologicamente passível de descrição, mas 
exemplos interessantes já são apresentados na literatura. Como ex- 
plicita Galvão (1999), a Análise Experimental do Comportamento 
dispõe de vários dados que se contrapõem a concepções teóricas 
como a da localização da memória em proteínas e corpos celulares, 
substituindo-as pela ideia de redes neuronais (de mais visível fun- 
cionalidade, portanto), em que as sinapses assumem papel central. 

Nesse sentido, a abordagem biocomportamental, para o autor, 
tem representado uma sinalização da evolução das teorias cientí- 
ficas, o que implica, sistematicamente, uma superação de dicoto- 
mias. Não é consensual a avaliação do avanço científico nessa área. 
Para Catania (1999): “a neurociência tem dado apenas uma atenção 
limitada aos mecanismos de seleção ontogenética” (p.378). Entre- 
tanto, retomando, no caso citado por Galvão, a “teoria do reforço”, 
baseada na díade operante-respondente, as relações entre Análise 
Experimental do Comportamento e processos neurofisiológicos 
são revistas com êxito pela abordagem biocomportamental, fun- 
dada no princípio unificado do reforçamento, proposto a partir da 
“interpretação de evidências experimentais bioquímicas, anatô- 
micas e fisiológicas de que o reforçamento envolve o aumento da 
eficácia sináptica e a formação de redes neurais correspondentes 
ao fortalecimento das relações ambiente-comportamento” (p.49). 


1 42 KESTER CARRARA 


Algumas confusões conceituais se estabelecem amiúde no 
campo epistemológico. Uma delas é a já mencionada ideia de que 
o Behaviorismo Radical prescinde dos eventos privados. De certo 
modo, essa é uma característica do Behaviorismo Metodológico, 
embora talvez seja raro encontrar na atualidade, senão metaforica- 
mente, um declarado behaviorista metodológico. Skinner frisa, em 
vários momentos, que não se deve entender que haja qualquer des- 
cuido ou desinteresse pela questão dos eventos privados. Reitera 
que público e privado não equivalem necessariamente a observável 
e não observável, nem a objetivo e subjetivo, muito menos a real 
e fictício. A distinção entre público e privado é uma distinção de 
fronteiras, não de natureza. Nesse sentido, todos os eventos com- 
portamentais e o contexto a eles articulado são de natureza física. 
Skinner mantém, por outro lado, uma visão molar do comporta- 
mento, em contraposição a uma visão molecular. Isso significa que 
é preciso compreender o comportamento como um todo, o que 
necessariamente inclui: “no seu contexto”. 

É apenas instrumental o uso explicativo de uma resposta que 
passa a ter a sua probabilidade de ocorrência controlada pelas con- 
sequências que produz. Na verdade, a Análise Experimental do 
Comportamento estará sempre tratando de classes de respostas e 
de um conjunto de variáveis entrelaçadas que é responsável pela 
ocorrência de comportamentos. Apenas de maneira simbólica ou 
didática é possível falar em uma resposta particular diante de um 
estímulo discriminativo, produzindo uma consequência específica. 
O comportamento está sempre organizado numa rede de relações, 
num encadeamento infinito, do qual se faz um corte toda vez que se 
pretende esmiuçar uma explicação da lógica funcional. 

Mesmo alguns behavioristas às vezes se enganam com a ideia de 
ambiente fragmentário, por vezes lidando com consequências mini- 
mizadas, esquecendo que nosso objetivo final é trabalhar com um 
ambiente integral, um contexto complexo que abrigue a conjugação 
de variáveis interdependentes, embora instrumentalmente necessi- 
temos trabalhar com uma análise que selecione episódios interativos 
entre organismo e ambiente. Como explica Skinner, o comporta- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 43 


mento (e, no mesmo sentido, sua extensão, as práticas culturais) não 
é uma “coisa”, mas um fluxo contínuo e evanescente de parte das 
atividades do organismo. Seria impraticável observá-lo com preci- 
são descritiva e ao mesmo tempo com precisão do seu “movimento”, 
enquanto fluxo contínuo. Metaforicamente, estaríamos próximos, 
no âmbito de uma microesfera explicativa, do que ocorre com as 
partículas elementares na Física e que dificulta a observação, a um 
só tempo, de tais partículas qua partículas e enquanto ondas. Daí a 
adoção da análise funcional de uma unidade que permite mensura- 
ção - respostas nas suas alterações e nas modificações que produzem 
no ambiente - para, na sequência, tornar-se possível nosso trabalho 
de síntese, reunindo recorrentes episódios e caminhando em direção 
a uma compreensão contextualizada dos efeitos produzidos e rece- 
bidos pelo comportamento num cenário específico. Assim, a partir 
da pesquisa empírica, se constroem os princípios comportamentais 
mencionados, em contraposição aos pressupostos. 

Com Chiesa (1994), o sistema explicativo do Behaviorismo 
Radical focaliza “as relações entre a pessoa (ou outros organismos) 
se comportando, as condições do ambiente onde o comportamento 
ocorre e as suas consequências: o comportamento em seu contexto” 
(p.189). Nesse Behaviorismo, as pessoas seriam compreendidas 
como todos indivisíveis, atuando no ambiente e com ele, mudando 
e sendo mudadas pelo contexto e pelas consequências do seu com- 
portamento. Mais especialmente compatível com nosso argumento 
central neste livro: 

Os dados a serem explicados, o objeto de estudo da ciência do 
comportamento de Skinner, não são músculos crispados ou pres- 
sões à barra; são as relações entre o comportamento e o mundo no 
qual os organismos estão engajados - o comportamento e o con- 
texto no qual ele ocorre. (Chiesa, 1994, p.133; destaque nosso) 

A ideia de contexto, embora tenha mais recentemente sido re- 
metida à obra de Pepper (1942), personifica- se no Behaviorismo 
Radical via Skinner, na sua concepção de ambiente, com especial 


1 44 KESTER CARRARA 


atenção para as múltiplas variáveis que compõem o ambiente an- 
tecedente. Ela está inexoravelmente articulada com a concepção de 
causalidade (como vimos, representada pelo conceito de relações 
funcionais). 

A literatura tem revelado inúmeros equívocos conceituais. Um 
deles, retomado tanto por Chiesa quanto por Morris, refere-se à 
metáfora do pensamento mecanicista. Ao entender, erroneamente, 
que o Behaviorismo skinneriano é uma “psicologia estímulo-res- 
posta”, de paradigma E-R, a crítica tem associado essa concepção 
a uma visão mecanicista de homem, pela qual se faria uma inter- 
pretação equivocada de causalidade, isto é, o Behaviorismo Radical 
defenderia que a cada alteração de uma “peça” da “máquina” cor- 
responderia uma mudança no seu funcionamento geral. Da mesma 
maneira, o suposto “conserto” da peça quebrada corresponderia a 
uma volta à normalidade. Nada mais equivocado. O paradigma do 
Behaviorismo Radical não é E-R, mas ...R-Er, e nele as respostas 
ocorrem num contexto composto por estímulos discriminativos, 
operações estabelecedoras ou quaisquer outros arranjos das múlti- 
plas configurações de condições antecedentes possíveis. R corres- 
ponde à resposta sob análise, e Er, a um evento consequente, nesse 
exemplo específico, um estímulo reforçador condicionado. Nesse 
paradigma, diante de um contexto ambiental especificado (... na 
fórmula) as respostas são seguidas de acontecimentos cujo efeito 
é genérico para uma classe de respostas, mediante um processo de 
seleção pelas consequências. 

Note-se que é essa a análise que leva à busca de compatibilidade 
do comportamentalismo com o instrumento conceituai do contex- 
tualismo, no âmbito das metáforas cosmogônicas de S. C. Pepper 
(1942). O Behaviorismo Radical, portanto, faz uso de pressupostos 
e notabiliza -se por características complementares peculiares, que 
alimentam e são alimentadas pela Análise Experimental do Com- 
portamento, sua ciência básica. 

Nesse cenário de pressupostos, características e princípios, este 
livro não desconsidera a existência de uma série de polêmicas que 
configuram o entorno behaviorista, assim como não pode deixar de 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 45 


enfrentar diretamente a questão espinhosa da neutralidade científi- 
ca. O mito da neutralidade tem sido objeto de inúmeras discussões. 
De um lado, há argumentos em favor da ideia de que a ciência é 
necessariamente neutra; de outro, aqueles que defendem um com- 
prometimento inequívoco e intransponível da figura humana idios- 
sincrática do cientista na sua relação com a interpretação dos seus 
dados de pesquisa. 

Um problema que avança e extrapola a própria interpretação 
“pura” ou “impura” dos dados diz respeito ao compromisso ético- 
-social do cientista. O problema dessa discussão, via de regra, pa- 
rece estar na maneira genérica como é tratada: a ciência é ou não 
comprometida socialmente? Entretanto, a questão precisa ser es- 
miuçada, em função de sua complexidade. Preliminarmente, é im- 
portante examinar em separado o resultado tecnológico, o produto 
da pesquisa científica e o comportamento do cientista, ainda que 
sejam indissociáveis. Se tomado sem levar em conta a conduta do 
pesquisador, o produto científico, enquanto objeto, parece não 
estar necessariamente comprometido com finalidades sociais, po- 
líticas ou ideológicas. No entanto, como os produtos da ciência só 
fazem sentido se vinculados à sua significação no âmbito social, é 
imprescindível levar em consideração o comportamento de quem 
investiga, de modo que todo o fazer científico, bem como o pró- 
prio resultado desse fazer, guarda comprometimento irrenunciável 
com valores ético -morais. Não há ciência neutra nem quando se 
tenta examinar, sem sucesso, objetos, constructos e explicações, 
independentemente de sua “história fabril”. 

Para vincular a questão dos pressupostos teóricos e as questões 
éticas, basta ponderar sobre a questão da teorização, já abordada 
neste texto e que envolvia a dicotomia teoria-antiteoria na concep- 
ção skinneriana. Fora de qualquer dúvida, não há como deixar de 
“teorizar” em ciência, ao minimizar tal ideia de teorização no sen- 
tido de que o cientista está, a todo instante, agindo sob a influência 
de várias cogitações. Embora ele deva sempre conduzir-se com 
absoluta isenção ética e metodológica, claro está que, desde o mo- 
mento em que elabora o delineamento de pesquisa (ou certamente 


1 46 KESTER CARRARA 


antes, quando estuda a literatura de determinada área de interesse), 
está desenvolvendo, adotando e fazendo implicar no seu estudo, 
na sua investigação científica, nos seus procedimentos, direta ou 
indiretamente, certa influência teórica, conjectural, prática, ética, 
estética, moral. Enfim, de algum modo qualificada, adjetivada. De 
maneira que um lidar completamente asséptico, insípido e inodoro 
é acompanhado de uma probabilidade pragmática de ocorrência 
próxima de um zero absoluto. 

Entretanto, o papel do cientista, embora ciente desses limites, é 
o de aproximar-se do conhecimento "isento”, embora saiba que é 
completamente inviável. Desenvolve métodos, estratégias e proce- 
dimentos os mais perspicazes para reduzir o mascaramento de seus 
dados por variáveis estranhas não controladas. Nessa intrigante e 
incongruente jornada, nem a saída extrema e ingênua de acreditar 
possível a busca de uma ciência pura e livre de influências, nem a 
ideia do que o cientista pode fazer para minimizar tal influência pa- 
recem constituir a alternativa definitiva a ser eleita e o que o melhor 
fazer científico recomendaria. De todo modo, o mundo da ciência 
está repleto de histórias de casos das quais emergiu a distorção de 
resultados em direção à “crença” do pesquisador, ou em favor de 
interesses de qualquer outra ordem. 

Nada acontece de diferente com a Psicologia, nem com a Análi- 
se do Comportamento e com o Behaviorismo Radical. E certo que 
seu foco de contribuição deve ser o mais abrangente possível, per- 
manecendo a serviço de todas as pessoas, de todas as idades, credos, 
condições econômicas, etnias e classes sociais. No entanto, essa 
isenção e esse descomprometimento da ciência do comportamento 
com qualquer grupo em particular enfrentam uma questão parado- 
xal: ao assim proceder, de acordo com ilusórios cânones de esquiva 
a conflitos de interesse, nada mais estará fazendo do que, de manei- 
ra contraditória, colocar-se a serviço da minoria privilegiada pelas 
melhores condições de acesso aos bens sociais, com frequência con- 
dicionados ao status socioeconômico da população. Tem sido à elite 
economicamente privilegiada que, de modo cumulativo, ocupa as 
principais cadeiras do poder político, que primeiro chegam os mais 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 47 


recentes achados científicos. Quem deseja trabalhar comprometido 
com metas como bem-estar geral, igualdade e justiça social não 
pode ignorar tal constatação, como não pode deixar de haver -se 
com a questão crucial das finalidades da ciência. Conforme já men- 
cionamos em outros escritos (Carrara, 2005): 

Há que se redirecionar metas científicas, acrescentando à ciên- 
cia do por quê? e do como? Uma ciência do para quê? e para quem? 
Isto é, embora seja fortemente controversa a tese da ciência social - 
mente comprometida, o fato de se tentar fazer uma ciência neutra 
não passaria de - contraditoriamente - torná-la instrumento pro- 
vavelmente a serviço das classes dominantes. Mais precisamente, 
o que se espera, no mínimo, não da ciência, mas preliminarmente 
do seu produtor, o cientista, não é compromisso classista-corpo- 
rativista, mas compromisso com a ideia de que a ciência só pode 
estar a serviço da equidade interpessoal. Se há algum compromisso 
admissível e desejável do cientista, este se refere ao seu vínculo 
ético em relação à procura de uma sociedade equânime e iguali- 
tária. Compromisso, nessa direção, não deve ser confundido com 
comprometimento. Aquele contextualiza e socializa o locus da des- 
coberta. Este discrimina, circunstancia e individualiza o privilégio 
do dominar o saber, (p.298) 

Evidentemente, na história da Análise do Comportamento já 
ocorreram distorções que mesclaram dimensões éticas e de proce- 
dimento. Como já afirmamos (Carrara, 2003): 

[...] Sobretudo por essas razões é que o Behaviorismo tem sido con- 
fundido (e confunde-se ele próprio) com um paradigma intrinseca- 
mente incapaz de servir aos objetivos da transformação social: na 
verdade, tal interpretação se deduz do modus operandi com que os 
derivativos behavioristas têm sido empregados. Confundir docili- 
dade e obediência em sala de aula com progresso e desenvolvimento 
acadêmico (cf. Winnett & Winkler, 1972), confundir instalação 
de comportamentos que obedecem às regras institucionais em um 


1 48 KESTER CARRARA 


hospital psiquiátrico com comportamentos que se incompatibili- 
zem com os sintomáticos dentro de um quadro sindrômico geral 
(cf. Ayllon & Azrin, 1968) e reduzir metas de desenvolvimento 
educacional a objetivos instrucionais desvinculados do contexto 
político e socioeconômico (cf. Popham, 1976; Popham & Baker, 
1976) podem ser amostras de áreas diferentes que apontam situa- 
ções clássicas de procura de uma eficiência descontextualizada do 
social. Infelizmente, o exemplário poderia ser mais amplo, embora 
existam valiosas tentativas que levam em conta o contexto mais 
abrangente do comportamento, (p.301) 

Uma Psicologia científica, portanto, diante de um quadro de 
desigualdade social indiscutível hoje prevalente em grande parte do 
planeta, não pode mais omitir-se dos compromissos sociais men- 
cionados por conta de um duvidoso ideal de neutralidade que retira 
das mãos do profissional pesquisador a responsabilidade com re- 
lação a proporcionar melhores condições de vida para a sociedade 
como um todo. Não se sugere que o cientista, em vista disso, deva 
apenas investigar aspectos da realidade para os quais sua pesquisa 
necessariamente tenha que trazer contribuições imediatas de solu- 
ção. Mesmo o estudo de relações entre variáveis cujo benefício prá- 
tico não seja iminente pode sinalizar com novas alternativas para o 
bem comum no longo prazo. Tendo escolhido qualquer problema 
de pesquisa, mesmo que à primeira vista apenas relevante cienti- 
ficamente, e não socialmente, trata-se de o pesquisador manter o 
compromisso de contribuir, após a obtenção dos resultados, para 
disponibilizar às agências legítimas de representação política da po- 
pulação o conhecimento novo e que potencialmente possa ser usado 
em favor da consolidação da justiça social. 

Essa postura exige o segundo ângulo de análise, o qual rejeita a 
concepção de neutralidade, que tem representado um constructo 
ficcional alinhado com o ideal de uma ciência acima de quaisquer 
outros empreendimentos mundanos, mais do que um traço compa- 
tível com o importante e intransferível papel dessa mesma ciência, 
ao lado da educação, da economia, da política (no melhor sentido 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 49 


que esses termos possam ter) para a busca das melhores condições 
possíveis de vida para a população. Parece perfeitamente viável 
fazer avançar um empreendimento científico sem “cientificismo” 
autofágico a partir da Análise do Comportamento e de um Beha- 
viorismo Radical comprometido com a disponibilização de ins- 
trumentos conceituais e práticas teóricas que permitam também, 
sobretudo por parte das populações desprotegidas e fragilizadas, o 
acesso a condições mais dignas de existência. 

É evidente que condições de tal natureza implicam uma série de 
ações que não se tipificaram historicamente apenas pela mediação 
da Psicologia. Além da atuação desta, são necessárias ações no âm- 
bito da política econômica, da política educacional, da ética política, 
das políticas públicas. No entanto, atentar para tais condições que 
compõem o contexto mais amplo no qual ocorre o comportamento, 
de modo cada vez mais sistemático e competente, parece constituir 
tarefa e desafio valioso e relevante. É nesse sentido, de um compro- 
misso em assegurar o acesso mais direto e mais fácil dessa parcela da 
população ao uso de conhecimento consistentemente construído, 
que parece possível, sem ilusórias facilidades, vislumbrar a oportu- 
nidade de que a pesquisa na área aplicada se amplie cada vez mais 
para a compreensão e a mudança das condições de vida das pessoas 
que atualmente vivem dentro de contextos sociais altamente dele- 
térios, sob variados aspectos. 

Isto posto, cabe questionar, a partir de algum detalhamento de 
um incipiente behaviorismo contextualista humanista, quais contri- 
buições pode oferecer para um encaminhamento das teses teóricas 
behavioristas na direção já especificada. Desde 1986, com o primei- 
ro e emblemático texto de Glenn (ver também 1989, 2004) sobre 
o conceito de metacontingências como ferramenta de análise das 
relações sociais, em tese propostas na novela utópica Walden Two 
(1948), uma ênfase extraordinária passou a ser dada às pesquisas 
relacionadas a práticas culturais. Isso resultou na consolidação, nos 
dias atuais, de um ramo especial da Análise do Comportamento, a 
Análise Comportamental da Cultura, viés pelo qual este livro sugere 
novas reflexões do Behaviorismo Radical e sobre ele, além de suas 


1 50 KESTER CARRARA 


possíveis contribuições à construção de uma sociedade mais justa e 
igualitária. 

Como já apontamos (Carrara, 2003), um primeiro conjunto 
de considerações, em continuação ao exame das proposições con- 
textualistas, pode fornecer um ângulo melhor de compreensão do 
tema. Avaliar em que medida a Análise do Comportamento pode 
ou não ser chamada ou adjetivada como contextualista depende de 
como são concebidas as unidades teóricas utilizadas como instru- 
mento de análise. Duas dessas unidades conceituais estão contidas 
na ideia de contexto e circunstância. Conforme já mencionamos 
(Carrara; Gonzalez, 1996): 

A raiz latina de contexto remete, naturalmente, à representação 
de conjunto, de todo, de totalidade, de ligação entre partes. A eti- 
mologia de circunstância aponta para o caráter do particular, do 
único, da condição específica. Naturalmente, porque se trata aqui 
de uma análise epistemológica e não filológica, é suficiente para 
ficar claro que a ideia de contexto, na vertente psicológica, estará 
representando um conjunto de condições (quer sejam internas ou 
externas ao organismo, quer sejam condições físicas, químicas, 
biológicas ou sociais) sob as quais o comportamento acontece. Em 
contrapartida, a ideia de circunstância se fará acompanhar da repre- 
sentação de uma única condição, num sistema de vínculo linear 
em que se desconsidera a implicação de que o próprio modo de 
interligação entre condições influi no comportamento sob análise. 
Em outras palavras, a ideia de contexto, de todo, de conjunto de 
condições, indica um modo causal mais amplo e complexo do que a 
simples soma de circunstâncias isoladas, (p.207) 

De fato, a contar pelos exemplos referidos, parte dos analistas 
do comportamento parece ter inadvertidamente contribuído para 
que pechas como as de positivista, mecanicista, reducionista ou 
atomista recaíssem sobre qualquer projeto que ousasse ampliar a 
objetividade científica em Psicologia. Isso se deu através da reifica- 
ção de aparentes procedimentos assépticos de pesquisa e pela apa- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 5 1 


rente simplificação redutiva das condições sob as quais ocorrem os 
fenômenos comportamentais nas diversas situações do cotidiano. 

As utopias são muitas ao longo da história. Walden (Thoureau, 
1854), Waldenll (Skinner, 1948) e Walden III (Ardila, 1979)foram 
algumas delas, todas muito polêmicas, como, de resto, qualquer 
utopia. Como aponta Baum (1999): 

A maior objeção é aquela de que um planejamento cultural 
conduzirá à ditadura. As ditaduras, porém, dependem de práticas 
de coerção ou exploração, relações essas que são inerentemente 
estáveis. Uma sociedade em experimentação que vise à felicidade 
das pessoas dificilmente poderá ser ditatorial, porque as pessoas 
só ficam felizes quando seu comportamento é positivamente refor- 
çado e quando estão livres de relações coercitivas e exploradoras. 
(p.284) 

No presente caso, o que fundamentalmente move os incipien- 
tes (e insipientes) escritos aqui apresentados é a possibilidade de 
que o aprimoramento das descobertas behavioristas radicais possa 
constituir, com eficiência, contribuição para o planejamento e a via- 
bilização de uma sociedade mais igualitária, com distribuição mais 
justa de renda e de oportunidades, com um procedimento ético 
mantido por contingências funcionais e efetivamente aplicáveis, 
com uma convivência não predatória entre membros da sociedade 
e desta com o ambiente em geral. Embora essa seja uma aspira- 
ção genérica e que depende de todos os demais setores da ciência, 
certamente há um papel relevante para o comportamentalismo de 
modo geral, talvez representado por uma espécie de Behaviorismo 
Radical contextualista humanista, que desempenhe um papel novo 
e relevante para a construção da verdadeira cidadania. 

Em última análise, e em alguma medida, parece que o comporta- 
mento do cientista - caso ele seja um digno exemplar de sua espécie, 
que avança no conteúdo de suas análises, nas preocupações éticas, 
na busca do altruísmo e no contentamento com uma vida simples 
conforme se desenvolve seu período de vida ontogênico - é tempera- 


1 52 KESTER CARRARA 


do por alguma perspectiva de reforço de longo prazo, representada, 
talvez, por alguma consequência que reflita uma mescla de inúme- 
ras outras variáveis que fizeram parte de sua experiência anterior. 
Não há um compromisso com o fato de que suas conjecturas se con- 
cretizem tal como pensadas ou planejadas, mas há uma aposta na 
probabilidade de ocorrência de outros comportamentos, por parte 
de novos pesquisadores, dispostos e interessados em levar a ciência 
a missões mais ousadas e comprometidas com algum bom conceito 
(ainda a ser definitivamente formulado) de felicidade humana. 

Como esclarecemos, uma Análise Comportamental da Cultura 
parece constituir- se como uma via, em franco desenvolvimento, 
como se pode constatar na literatura científica, para o planejamento 
de práticas culturais sustentáveis, que garantam de maneira efe- 
tiva a possibilidade de convivermos de modo parcimonioso com 
o ambiente físico e social de que ainda dispomos. As estratégias 
de pesquisa e intervenção, as pendências ético-morais inerentes 
aos delineamentos e a análise conjuntural para tais ações têm ca- 
minhado, nos últimos vinte anos, para uma reconhecida consoli- 
dação na literatura da área. Os interessados em fazer avançar essa 
possibilidade dispõem de leituras importantes, dentre as quais 
sugerem-se as que se seguem, que tratam de distintos aspectos 
vinculantes da Análise Comportamental a questões socioculturais: 
Holland (1978), Biglan (1988), Hayes (1988), Morris (1988), Gue- 
rin (1992), Moroz (1993), Morris (1993), Andery (1993), Carva- 
lho Neto (2001), Zufiff (2002), Ortega e Romero (2004), Dittrich 
(2004), Todorov e Moreira (2004), Malott (2004), Melo (2004), 
Sandaker (2006), Castro (2007), Gusso e Kubo (2007), Carrara 
(2008), Dittrich (2008), Botomé (2010), Escobar (2012), Melo e 
De Rose (2012), Lopes, Laurenti e Abib (2012), Leugi (2012), 
Todorov (2013). 

Adicionalmente, a seleção pelas consequências percorre toda 
a literatura da Análise do Comportamento, como um princípio 
paradigmático já corroborado por milhares de resultados empíricos 
com as mais variadas espécies de organismos. Não é, portanto, nem 
o modelo de delineamento de sujeito único (n = 1), nem o controle 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 53 


de variáveis estranhas nas situações experimentais, nem qualquer 
outra circunstância particular que constitui o fundamento central 
e primeiro da Análise do Comportamento, e sim o princípio da se- 
leção pelas consequências. De modo que a identificação, descrição, 
compreensão, explicação das atividades dos organismos vivos e da 
espécie humana, em particular, não se dão pela procura de “coi- 
sas”, entidades abstratas, estruturas biológicas ou conceituais que 
possam “causar” ou explicar tais atividades, mas apenas pela iden- 
tificação de interações entre organismo e ambiente, devidamente 
descritas em termos de suas relações. Efetivamente, a Análise do 
Comportamento não é uma ciência das coisas, mas uma ciência 
das relações. E essa é a possibilidade única da ciência (incluindo a 
Psicologia) para compreender o mundo. Concretamente, há coisas. 
Mas, para compreendê-las, é imprescindível descrevê-las nas suas 
relações e pelas suas relações. 


6 

SUSTENTABILIDADE 
E ALTRUÍSMO CONDICIONAL 


O próximo passo, depois de avaliar como viáveis as contribuições 
da Análise do Comportamento para a construção de uma sociedade 
apoiada na máxima da justiça social, é avaliar o estado atual do de- 
senvolvimento científico da área, as dificuldades ético-ideológicas 
próprias do planejamento cultural e os obstáculos tecnológicos já 
detectados em pesquisas empíricas e formulações teóricas. Um dos 
primeiros desafios para o planejamento cultural consiste na dimen- 
são ética implicada na escolha dos objetivos do próprio delineamen- 
to. Como explicitamos (Carrara et al., 2013): 

A exortação skinneriana ao planejamento cultural remete ao 
inevitável enfrentamento de duas questões de grande importân- 
cia. Tais questões talvez pudessem ser orientadas pelas perguntas 
Como? e Para quê? Ou seja, como? é questão que deve implicar 
o desenvolvimento e teste de técnicas e estratégias supostamente 
úteis nos delineamentos. E para quê? constitui decisão que implica 
preocupação com a finalidade para a qual se volta um determinado 
plano. Mais especificamente, a primeira pergunta orienta a dimen- 
são tecnológica e a segunda orienta a dimensão ético -moral dos 
delineamentos culturais. Ambas são tão cruciais quanto inevitáveis 


1 56 KESTER CARRARA 


para o analista do comportamento interessado em atuar no âmbito 

dos comportamentos sociais complexos, (p. 102) 

Há uma pertinente convicção filosófica de que não é logicamente 
possível falar em justificação racional de valores. No entanto, alguns 
deles mostram-se com frequência tão necessários para a garantia 
da sobrevivência por meio da igualdade entre os organismos que 
parecem mesmo derivados de uma justificação (no sentido de consa- 
gração coletiva) racional. Transparência, respeito, igualdade seriam 
em geral aceitos como determinados previamente, ainda que alguém 
pudesse justificar, pela sua história, a desigualdade, a dissimulação, 
a desconsideração para com o outro. Sempre há algum risco em 
admitir previamente valores “consagrados socialmente” (cf. contin- 
gências tecnológicas versus cerimoniais), porque eles perdem pouco 
a pouco a visibilidade das consequências que os mantêm ou que são 
por eles mantidas. Em contrapartida, há uma ampliação da possibi- 
lidade de que se encontre consenso social que assegure sua manuten- 
ção. É um dilema a mais para o psicólogo (neste caso, o analista do 
comportamento) interessado no planejamento de práticas culturais. 

Entrementes, é de esperar que a escolha dos objetivos decorra, 
de preferência, de demanda social. Ou seja, dada a existência de 
uma solicitação de planejamento de contingências para mudan- 
ça de práticas culturais, caberia ao analista a tarefa de analisar a 
sua legitimidade enquanto demanda ética. Mas não se trata de um 
“julgamento” ético-moral a ser feito pelo analista, em função de 
sua história de justificação de valores. Seu viés seria apenas mais 
um a interferir, distorcendo as finalidades do planejamento. Por 
outro lado, há a necessidade de avaliar se a demanda (que é uma 
petição originária de alguém ou de algum segmento social) é, de 
fato, legitimada por algum critério (unanimidade, consenso, vota- 
ção majoritária) ou se consiste em demanda enviesada ou dirigida 
(situações em que segmentos político-ideológicos requerem, por 
interesses particulares, em contraposição a interesses públicos, o 
desenvolvimento do projeto de intervenção em práticas culturais). 
Para além da legitimidade, mas ainda associada a ela, o analista não 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 57 


escapa à avaliação da demanda, de maneira vinculada à legalidade 
ou não legalidade do objetivo e dos procedimentos associados, uma 
vez que o planejamento cultural se destina a algum território re- 
gido por regras formalmente instituídas enquanto leis. Em outras 
palavras, as finalidades dos projetos de intervenção em práticas 
culturais estão, no caso brasileiro, à mercê da legislação da área da 
Saúde, do Código de Ética do Psicólogo e da Constituição brasileira 
e sua legislação complementar e regulamentadora. De todo modo, 
trata-se de mais um campo de trabalho em que a atuação do psicó- 
logo se torna presente e, tal como todas as demais atividades pro- 
fissionais, avaliar as condições ético-morais do trabalho prestado é 
requisito fundamental para garantir a integridade e o bem-estar dos 
eventuais beneficiários do planejamento, do mesmo modo que para 
proteger terceiros (outras comunidades ou culturas) em relação a 
eventuais subprodutos do atendimento à demanda referida. 

O que queremos apresentar aqui, efetivamente, constitui um 
problema e um desafio inerente à programação de contingências no 
âmbito dos delineamentos culturais, desafio esse do qual o analista 
não deve e não tem como se esquivar e para o qual, por vezes, o 
desfecho pode não ser nada simples. Não há soluções prontas para 
o aspecto da prescrição. Apenas a própria situação e a natureza da 
demanda podem informar, por si, o melhor encaminhamento da 
questão do para quê. 

Em relação à dimensão tecnológica, os delineamentos ainda 
padecem pelo menos de duas limitações: o fato de que, filogene- 
ticamente, nossa história selecionou uma sensibilidade ampliada 
para as consequências imediatas ao comportamento, em compa- 
ração com as consequências de longo prazo; o fato de que, quando 
planejamos novas práticas culturais, costumamos nos valer de con- 
sequências que foram reforçadoras em situações similares, ou seja, 
propomos para o futuro reforçadores que supostamente manteriam 
as novas práticas, por já terem sido efetivos em situações anteriores. 

Em relação à primeira limitação, um planejamento que tenha 
como meta, por exemplo, a conservação da água para sua preserva- 
ção enquanto recurso natural imprescindível à vida, não se instala fa- 


1 58 KESTER CARRARA 


cilmente no repertório das pessoas. O comportamento de conservar 
implicará, em tese, num futuro longínquo, que o indivíduo - e, pro- 
vavelmente, o grupo a que pertence - que hoje usa com parcimônia 
esse recurso terá melhores chances de sobrevivência, ou porque terá 
perenemente água disponível, ou porque seus descendentes terão 
“um mundo melhor”. Ou seja, as consequências de longo prazo fun- 
cionam de maneira limitada, sendo necessário associar a elas conse- 
quências de curto prazo que garantam efeito durante o procedimento 
de instalação ou consolidação das práticas culturais escolhidas. 

Em relação à segunda limitação, é possível que os eventos hoje 
considerados reforçadores deixem de sê-lo dentro de poucos anos. 
Não faz muito tempo, seria impensável planejar qualquer prática 
cultural que viesse a ser mantida pelos reforçadores oriundos dos 
comportamentos de “curtir” e “compartilhar”, hoje tão frequentes 
nas redes sociais da internet. Embora prognósticos sejam possíveis, 
parece pouco seguro supor reforçadores para um futuro distante 
pelo fato de terem sido funcionais recentemente. Por essa razão, um 
procedimento de “modulação” dos reforçadores precisa ser previsto 
para o delineamento, isto é, uma mudança no tipo de consequências 
utilizadas, ao longo do tempo, in vivo. 

Por fim, outro aspecto à parte está relacionado à sensibiliza- 
ção da sociedade para com o que foi designado por Skinner como 
“o bem dos outros”. O fato de que nos movemos em função de 
consequências torna improvável a possibilidade de comportamen- 
tos altruístas “desinteressados”. Como resultado, o engajamento 
da sociedade em compromissos que apenas em tese se tornarão 
um sucesso, ou a fuga de situações que, também em tese, poderão 
ser um desastre num futuro distante, se apresentam como pouco 
prováveis. Em outras palavras, os trabalhos de sensibilização, de 
“conscientização”, embora tenham algum efeito apenas pelo "saber 
que” - por exemplo, saber que, se não economizarmos água, te- 
remos em trinta anos uma exaustão desse recurso e nossos des- 
cendentes poderão sofrer muito com essa situação — , são bastante 
limitados. No entanto, parece inevitável e necessário, como parte 
do planejamento cultural, ensinar altruísmo (altruísmo “interessa- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 59 


do”), estabelecendo uma programação de contingências que instale 
e mantenha, de maneira seletiva, repertórios comportamentais de 
proteção ao semelhante, de cuidados de conservação e preservação 
ambiental, de sensibilização preventiva com o estado do planeta 
para as próximas gerações. 

O altruísmo possível parece apenas aquele consequencia- 
do positivamente. Mesmo os mais magnânimos filantropos não 
procedem às suas doações ipsis litteris por conta de seu “amor à 
humanidade”. Há contingências, em geral associadas ao reconhe- 
cimento social, que mantêm seus comportamentos. É possível, 
portanto, ensinar altruísmo, no sentido de estabelecer programas 
de contingências nos quais as pessoas são recompensadas por ações 
que visem o “bem dos outros”, em especial os “outros do futuro”. 

Indissociável da questão do altruísmo está a da sustentabilidade. 
Via de regra, se pensa na sustentabilidade como a preservação am- 
biental que garanta recursos, sobretudo os naturais, para uma vida 
saudável para os nossos descendentes. No entanto, estamos diante 
de um projeto que subentende o desafio de ir além da preservação 
física do ambiente. Trata-se de buscar uma sustentabilidade com- 
portamental, ou seja, da instalação de repertórios de convivência 
social que respeite direitos, que considere o semelhante em termos 
de suas particularidades e diferenças, que inclua todas as pessoas 
na equalização de condições de acesso ao trabalho, ao lazer, aos 
cuidados com a saúde e aos direitos gerais da verdadeira cidadania. 

Para além da sustentabilidade estrutural, o planejamento de prá- 
ticas culturais não implica apenas preservar eventos, acontecimen- 
tos, ocorrências que afetam a dimensão ontológica do mundo. Ou 
seja, sustentabilidade ambiental não é apenas conservar “coisas” 
para continuarem servindo aos entes do futuro, é aquilo de que pre- 
cisamos. Sustentabilidade em práticas, comportamentos, padrões 
de relações funcionais demarcadas na interação dos indivíduos entre 
si e com o ambiente. Isso é o que garante a sobrevivência das prá- 
ticas culturais e da própria espécie. Diferentemente do assistencia- 
lismo, a organização não casual, mas planejada, de contingências 
mantenedoras do altruísmo, se é parte do problema dos delineado- 
res culturais, também é parte da solução por estes procurada. 


7 

Uma 

HIPERULTRAMEGAMAXIMETACONTINGÊNCIA 
COMO UNIDADE CONCEITUAL: 

ALGO SOBRE LaPLACE, MaCH E OCKHAM 


Vimos que o Behaviorismo Radical (filosofia de uma ciência) 
e a Análise do Comportamento (ciência) ensejam a formulação de 
leis empíricas que descrevam relações funcionais entre contexto 
ambiental, comportamento e consequências por este produzidas. 
Essa a síntese dos desígnios e dos fazeres essenciais da aproximação 
comportamentalista à explicação das ações dos organismos vivos 
no cenário do operante skinneriano. Adicionando a esse contexto 
o condicionamento respondente, teríamos o que Skinner e seus se- 
guidores configurariam como uma explicação consistente de todo e 
qualquer episódio comportamental. 

Se tais asserções fazem sentido, talvez possamos dirigir nossa 
atenção especificamente ao comportamento operante e, mais par- 
ticularmente, ao que Skinner chamou de nível ontogenético e nível 
cultural de variação e seleção. Para além da evolução das espécies, 
na dimensão filogenética, o nível ontogenético diz respeito à ins- 
talação, manutenção e mudança de padrões comportamentais que 
ocorrem, de maneira estrita, durante o período de vida de um orga- 
nismo. Skinner se refere aos comportamentos operantes instalados 
mediante seu proposto paradigma de contingência de três termos. 
O primeiro diz respeito ao contexto ambiental que antecede o com- 
portamento, do qual fazem parte, por exemplo, estímulos discri- 


1 62 KESTER CARRARA 


minativos e operações estabelecedoras. O segundo termo refere-se 
ao próprio comportamento, especialmente concebido para fins de 
mensuração e manipulação empírica, como respostas examinadas 
enquanto classes funcionais, já que as consequências, ao incidirem 
especificamente sobre uma resposta, acabam por afetar, de maneira 
inexorável, uma classe delas. Finalmente, o terceiro termo também 
diz respeito ao ambiente, porém, mais precisamente, às mudanças 
nele ocorridas em decorrência do comportamento, as quais sobre 
ele retroagem, controlando sua probabilidade de ocorrência. 

O paradigma da contingência de três termos (e não de contin- 
gência tríplice: onde estará a terceira?) não se restringe a algum tipo 
especial de comportamento. Por exemplo, não se destina, funcio- 
nalmente, apenas a comportamentos discretos que ocorrem sem 
mediação de outros organismos, em particular, de humanos, ou 
seja, aos comportamentos não sociais. A ideia de paradigma corres- 
ponde, nesse caso, à unidade conceituai (mínima, básica, essencial) 
que instrumentaliza a descrição das contingências, no sentido de 
descritores de relações entre comportamento e ambiente presentes 
em dada situação. Nesse sentido, não importa a complexidade da 
situação ou do seu conjunto, associada a um comportamento e suas 
consequências. A unidade conceituai de contingências se constitui 
sempre como descritora do particular arranjo entre esses três termos. 

Na hipótese de uma relação discreta, individual, simples, exem- 
plificada por um indivíduo girando a chave em uma porta, a qual 
em seguida se abre e permite a ele vislumbrar a paisagem de um jar- 
dim ou ver a figura de um saudoso amigo que agora o visita, a noção 
de contingência se aplica à identificação e descrição de relações 
entre organismo e ambiente, no caso, entre o girar da chave na porta 
(um comportamento) e as consequências possíveis (que podem 
ser numerosas) advindas desse comportamento. Já no nível cul- 
tural, será indubitavelmente necessária a adoção de outra unidade 
conceituai, como substitutiva à contingência, para que se proceda à 
análise relacional (funcional) em situações mais complexas? 

Consideremos, arbitrariamente, que por complexidade enten- 
demos um arranjo de contingências que implique: padrões com- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 63 


portamentais caracterizados como dependentes ou minimamente 
articulados com comportamentos de outros indivíduos (compor- 
tamento social, na definição skinneriana); consequências refor- 
çadoras só possíveis na hipótese de haver tal entrelaçamento de 
comportamentos com determinada “configuração” de “ação gru- 
pai”. Em tais circunstâncias, surgirá a necessidade de adotar uma 
unidade de análise nova e especial para descrever as relações aí 
evidenciadas? 

Nessa direção, uma iniciativa relevante foi proposta nos anos de 
1980 porS. S. Glenn. Em um texto de 1986, a autora apresentou sua 
formulação 1 de unidade conceituai que utilizou como instrumento 
de análise da obra Walden Two, de Skinner (1948), a ferramenta que 
cunhou como metacontingência. Glenn escreve: 

Muitos anos atrás, tentando descrever alguns elementos de 
nossa própria aproximação de Walden Two, no Centro para Estudos 
Comportamentais, trabalhei para estabelecer a distinção entre dois 
tipos de contingências que pareciam estar operando ali: 1) relações 
de contingência entre uma classe de respostas com uma conse- 
quência comum - contingências de reforçamento - e 2) relações 
de contingência entre uma classe de operantes e uma consequência 
cultural comum. Chamei esse segundo tipo de relações contingen- 
tes de metacontingências. (p.2) 

Diversos foram os ajustes feitos pela autora e colaboradores, nos 
anos subsequentes, em relação à ideia central do conceito, com a 
inclusão da caracterização da presença de consequências de longo 
prazo e seu entrelaçamento como aspectos inerentes ao conceito. 
Além disso, a proposição dos conceitos subsidiários de produto 
agregado e sistema receptor completou a importante contribuição de 
um instrumental amparado em boa lógica para a análise de práticas 


1 O conceito de metacontingência foi apresentado pela primeira vez pela autora 
em conferência ministrada na edição de 1985 da reunião anual da Association 
of Behavior Analysis em Columbia, Ohio. 


1 64 KESTER CARRARA 


culturais. O modelo se desenvolveu, e foram levados a cabo vários 
desdobramentos importantes, de início teóricos e, mais recente- 
mente, mediante testes de funcionalidade conceituai com análogos 
experimentais. A rediscussão glenniana do aparato instrumental 
skinneriano muito tem contribuído para fazer avançar as reflexões e 
aplicações na área da Análise Comportamental da Cultura. 

A nosso ver, o conceito de metacontingência não é um subs- 
tituto para contingência, no sentido de que daria conta de parte 
das relações comportamento-ambiente que ocorram em outra di- 
mensão fenomênica (nos termos de Skinner, 1950). Também não 
é uma unidade conceituai que se ocupe de um fenômeno diferente 
do comportamento individual, porque comportamento é sempre 
individual. O grupo, na acepção literal do termo, não se comporta, 
porque não é de forma alguma, propriamente, no sentido de man- 
ter relações com o ambiente e ser consequenciado, um organismo 
biológico. Entretanto, metacontingência é um instrumento concei- 
tuai importante, se tomado em consideração como um termo que 
designa um arranjo de contingências particularmente complexo no 
qual o comportamento dos indivíduos que formam o grupo preci- 
sa de um padrão frequencial, topográfico (uma configuração, em 
geral), de tal modo constituído que preencha os requisitos a que o 
coletivo está sujeito, de modo a produzir consequências ambientais 
que, a um só tempo, contribuam para a sobrevivência do indivíduo 
participante, do grupo enquanto conjunto de pessoas e da própria 
cultura que viabiliza tais consequências. 

A metacontingência, nesses termos, é uma designação do que 
constitui uma forma tal de arranjo de contingências que permita 
consequências comuns aos componentes do grupo. Trata-se de um 
termo que sintetiza as variáveis presentes nesse arranjo típico e a mo- 
dulação aí implicada de consequências que afetam todos do grupo. 

Considerando, além disso, a ideia de três “níveis” de variação 
e seleção propostos por Skinner, é de notar que não se trata de ins- 
tâncias em que processos para além ou para aquém do selecionis- 
mo contrastem. De modos operacionalmente distintos, nessas três 
instâncias está presente o corte selecionista: na dimensão filogené- 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 65 


tica, mediante “ajustes” anatomofisiológico-comportamentais que 
decorrem de um transcurso longínquo de interações das espécies 
com o ambiente, sendo o resultado desse processo transmitido 
geneticamente às gerações subsequentes; na dimensão ontogené- 
tica, mediante interações particulares entre organismos e ambiente 
durante o transcurso da existência individual do organismo, mas 
sem transmissão observável de mudanças corporais que se conser- 
vem em repertórios comportamentais considerados como “reser- 
vatórios” experienciais de cada indivíduo; na dimensão cultural, 
mediante a transmissão dessa experiência ontogenética por meio 
de alterações no ambiente produzidas na trajetória ontogenética do 
indivíduo, constituindo o que designamos de transmissão cultural 
(por vezes, herança cultural), fato para o qual contribui sobejamen- 
te o comportamento verbal, no caso dos humanos. 

Nos sentidos apresentados, não há que se estabelecer distin- 
ções de natureza entre os processos selecionistas ocorridos em cada 
“nível” enunciado por Skinner. As diferenças fundamentais estão 
nos processos de geração e transmissão de caracteres, comporta- 
mentos e práticas culturais. Tais processos corroboram a ideia cen- 
tral apresentada neste livro, de que a Análise do Comportamento 
é uma ciência que busca a explicação de ações no âmbito defini- 
tivamente relacional, para além, ou de maneira distinta, de uma 
explicação estrutural. 

Nesse cenário, invariavelmente estaremos interessados no com- 
portamento dos indivíduos. Ocorre que estes, em grande número de 
oportunidades, não apresentam comportamentos que possam ser 
meticulosamente separados, senão diretamente de consequências, 
de um ambiente comum a vários organismos, ainda que nem tudo 
que façamos se mostre imediatamente articulado com o comporta- 
mento de outros organismos. Essa individualidade relacional (entre 
organismo e partes específicas do ambiente que nos diz respeito 
pessoalmente) por vezes está ligada à nossa economia biológica 
(mastigar, engolir, salivar); por vezes, aos nossos cuidados com 
necessidades individuais (escovar os dentes, lavar as mãos, pentear - 
-se, atividades que prescindem da participação direta de outrem, 


1 66 KESTER CARRARA 


lembrando que crianças e pessoas dependentes de ajuda excetuam 
essa condição); por vezes, quando estamos envolvidos com com- 
portamentos privados (refletir, devanear, interpretar o sentido de 
uma frase num texto). E evidente que todos esses comportamentos 
possuem uma referência cultural, no sentido de que, por exemplo, 
escovar os dentes não apenas responde à consequência de mantê- 
-los saudáveis, como, de resto, responde a uma demanda social 
que valoriza o bom hálito como precondição para o diálogo entre as 
pessoas. No entanto, não há evidência, em muitos casos, de que as 
“configurações” das consequências para tais comportamentos im- 
pliquem, no sentido skinneriano, a mediação por outro indivíduo, 
definição primeira do que seja comportamento “social” sob o olhar 
comportamentalista. 

Em última análise, estão dadas as condições que distinguem o 
papel das consequências no comportamento dos indivíduos qua 
indivíduos do papel dos indivíduos enquanto membros da instân- 
cia grupai, embora elas sejam sempre individuais, uma vez que, 
estritamente, não há que falar em comportamento “do grupo”. Na 
nossa compreensão, ambos os tipos de arranjos comportamentais 
respondem à lógica de seleção pelas consequências. Para ambos é 
possível manter a unidade mínima, paradigmática, para identifica- 
ção de relações entre comportamento e ambiente: a contingência de 
três termos. 

Nesse contexto, uma vez que o termo “metacontingência”, mais 
do que um substituto para “contingência”, é um descritor de um 
arranjo especial desta no âmbito das práticas culturais (implicando 
consequências particulares e compartilhadas pelo grupo), pare- 
ce possível considerá-lo como um coletivo de comportamentos 
individuais arranjados sob uma configuração especial que demanda 
entrelaçamento. 

Assim, diante dessa hipótese, poderíamos fazer avançar a pos- 
sibilidade de utilizar terminologias cada vez mais abrangentes e 
complexas que expressem as relações que denominamos de práti- 
cas culturais. Considerando, por exemplo, a noção de agências de 
controle, tão bem descrita por Skinner (1953), seria possível pensar 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 67 


que, nesse caso, o comportamento de muitas pessoas (controladores 
e controlados) poderia ser analisado sob uma ótica macrodimen- 
sionada, que considerasse as relações entre um ente chamado de 
agência (institucional) e outro chamado de população (como co- 
letivo dos controlados). Nessa hipótese, ao se levar em conta que 
as relações interindividuais se reproduzem nos pequenos grupos e 
também nas relações entre Estado e grandes grupos, entre instân- 
cias governantes e população de um município, Estado ou nação, 
seria apropriado mantermos um distanciamento cada vez maior em 
relação ao organismo individual e suas consequências e, nessa pers- 
pectiva, passarmos a descrever relações interinstitucionais, talvez 
aproximando também esse aspecto da Análise do Comportamento 
às proposições sobre estrutura, infraestrutura e superestrutura do 
materialismo de Marvin Harris (1989)? 

Ainda na mesma direção conjectural, poderíamos avançar para 
uma generalização, no sentido de que arranjos mais complexos 
de comportamentos, nas suas relações com o ambiente, exigiriam 
instâncias ou níveis de análise superiores, na direção de que, embo- 
ra compostas não de novos elementos, mas apenas de configurações 
mais sofisticadas, sugeririam, ainda assim, algo de outra natureza. 
Posta a reflexão, se poderia conjecturar se de fato precisaríamos, 
quanto mais complexas fossem as situações de entrelaçamento que 
encontrássemos, de novas e revistas unidades de análise. 

Deparamos, com frequência, com a crítica de que a Análise 
do Comportamento é reducionista, ao dirigir o olhar analítico às 
unidades mínimas representadas por estímulos e respostas. Já ex- 
plicitamos as dimensões alcançadas ou limitadas no contexto do 
argumento do reducionismo (Carrara, 2005). Em busca de maior 
precisão analítica, olhar para relações específicas de unidades re- 
lacionais mínimas (por exemplo, uma resposta e sua consequência 
mantenedora) não implica, necessariamente, abandonar a absoluta 
e pertinente necessidade de ter como objetivo último e finalmente 
analisar milhões de respostas no âmbito de suas classes ou no cená- 
rio de redes de relações. Essa a finalidade de uma análise completa 
e as perspectivas de sua síntese. Embora seja desnecessário reiterar 


1 68 KESTER CARRARA 


esse argumento, ele leva à questão que até aqui foi levantada: pre- 
cisaremos, a cada nova instância (cada vez mais complexa) de rela- 
ções entre organismos e seu ambiente, de nova unidade de análise? 
A resposta de Skinner (1953) é negativa. Senão, vejamos: 

É sempre o indivíduo que se comporta, e que se comporta com 
o mesmo corpo, e de acordo com os mesmos processos usados em 
uma situação não social. [...] O comportamento do indivíduo 
explica o fenômeno do grupo. [...] Preocupamo-nos aqui sim- 
plesmente com a extensão em que uma análise do comportamento 
do indivíduo, que já recebeu substancial validação sob as condições 
favoráveis de uma ciência natural, pode contribuir para o entendi- 
mento dos fenômenos sociais. Aplicar nossa análise aos fenômenos 
do grupo é um modo excelente de testar sua adequação, e se for- 
mos capazes de explicar o comportamento de pessoas em grupos 
sem usar nenhum termo novo ou sem pressupor nenhum 
novo processo ou princípio, teremos demonstrado uma promis- 
sora simplicidade nos dados. [...] O comportamento social surge 
porque um organismo é importante para outro como parte de seu 
ambiente, (p. 171-2; destaques nossos) 

Externa ao comportamentalismo, uma crítica corrente, indire- 
tamente associada à questão aqui tratada, diz respeito à inviabilida- 
de metodológica da Análise do Comportamento como aproximação 
fiel aos assim designados “fenômenos sociais”. 2 O Behaviorismo 
Radical, ao fazer análise mediante a contingência de três termos 
(ou qualquer outra unidade de análise, mesmo a metacontingência 
ou a macrocontingência), estaria se aproximando da metodologia 
das ciências naturais e, com isso, ao atuar mediante a lógica indu- 


2 As aspas justificam-se pelo fato de que Skinner define comportamento “social” 
mediante a descrição da existência de mediação entre o comportamento de um 
e de outros organismos. Não o faz por assumir uma qualidade inerente ou 
intrínseca à natureza dos organismos vivos (especialmente dos humanos), 
no sentido de que estes carreguem consigo alguma forma de “sociabilidade” 
natural da espécie. 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 69 


tivista, generalizaria para situações complexas (que se constitui- 
riam de natureza distinta) os resultados encontrados nas situações 
empíricas mínimas examinadas em suas pesquisas? Ocorre que tal 
análise seria realmente incompleta ao se servir dos dados da mi- 
crorrealidade para uma análise da realidade social mais ampla. Mas 
há aqui uma confusão conceituai: especialmente uma boa Análise 
Comportamental da Cultura, ao adotar uma composição de com- 
portamentos das pessoas em grupo como objeto de análise, não está 
procedendo mediante mera generalização dos resultados empíricos 
das relações do indivíduo com seu ambiente para a condição de 
relações entrelaçadas presentes na dimensão social. 

As reflexões apresentadas restituem a Skinner a pertinência de 
seu esclarecimento (1953, p. 171-2) de que nenhum conceito novo 
(e, concomitantemente, nenhum método “especial”) é necessário 
para a compreensão dos fenômenos sociais complexos, sejam eles 
os das relações diretas entre grupos de indivíduos, sejam aqueles 
permeados pelas instituições. Sem pretensão adicional, mas com 
caráter meramente metafórico e ilustrativo, é de considerar que não 
parece possível nem necessário encontrar uma unidade conceituai 
explicativa do que quer que seja uma “realidade social maior”, algo 
que justifique o equívoco metodológico segundo o qual olhar para 
o “todo” (ou a realidade social complexa) é a maneira de compreen- 
dê-la concretamente. Tal realidade não é uma “coisa em si”, assim 
como as partes que a comporiam. Compreendê-la não implica, na- 
turalmente, “separá-la em pedaços que depois se juntam”. Todavia, 
descrever em pormenores não objetos, coisas ou estruturas físicas 
ou conceituais, mas as relações fundamentais entre variáveis que 
a compõem, contribui concretamente para a compreensão de uma 
variedade de fenômenos da natureza em geral, dos mais simples, 
talvez, aos mais complexos. 

Ainda na dimensão metafórica, poderíamos nos iludir com a 
possibilidade de que alguma espécie de demônio de Laplace, in- 
corporando-se ao cotidiano do pesquisador e tendo experimentado 
ele próprio todo tipo de relação entre variáveis, pudesse, dada a sua 
vasta experiência, compreender e explicar quaisquer fenômenos 


170 KESTER CARRARA 


sociais complexos a partir de tal exame globalizado. Não concre- 
tizada a missão dessa forma, talvez referido pesquisador cotejasse 
sua empreitada para encontrar um método "geral” de compreensão 
“ampla” da realidade com a afirmação de Ernst Mach de que “a 
natureza é simples”, no sentido de que o melhor que podemos fazer 
é buscar as estratégias mais econômicas, do ponto de vista de evitar 
circunlóquios avessos ao fazer científico, confortavelmente apoia- 
das na sua máxima segundo a qual “descrever é explicar”. 

Os dilemas sobre o aspecto estratégico que mais bem conduz a 
uma boa decisão sobre como podemos nos aproximar de maneira 
adequada da descrição das relações funcionais complexas implica- 
das nas práticas culturais não parecem conduzir convincentemente 
a nenhum dos extremos, sejam eles reducionistas ou generalistas. 
Se aqueles criticados pela primeira pecha são ineficientes quando 
estacionam no âmbito das descrições das unidades mínimas de 
análise, não as transferindo para as redes de relações em que acon- 
tecem, aqueles que são criticados pela pretensão da viabilidade de 
um olhar generalista que avança para além do conhecimento seguro 
das bases funcionais dos fenômenos também revelam limitações 
fundadas no desconhecimento das funcionalidades específicas das 
variáveis componentes dos fenômenos complexos. 

No contexto de uma análise parcimoniosa das vantagens e des- 
vantagens da criação ou não de novas unidades conceituais para cada 
ponto do continuum de complexidades da Análise Comportamental 
da Cultura, se por um lado não resulta consistente contentar-se 
com uma análise que simplesmente reproduza as relações discretas 
do Rattus novergicus albinus nos estritos limites de uma câmara ex- 
perimental, por outro não ultrapassaria a navalha de Ockam a ideia 
de uma “hiperultramegamaximetacontingência” ou outra unida- 
de conceituai que pudesse aplicar- se às nossas (por vezes as mais 
legítimas) aspirações de planejamento cultural de uma sociedade 
completamente apoiada na noção de justiça social? 

Serão sempre bem-vindas as reflexões construtivas sobre a 
questão da unidade de análise, mas parece que o melhor conselho 
sobre a trajetória que devemos trilhar - e que, por ora, parece a 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 7 1 


única - é aquele do caminho agreste, porém contínuo e propositivo 
de delineamentos culturais para os temas mais próximos de nosso 
cotidiano. Dando voz a Glenn (1986): 

Para aqueles de nós que encaram Walden Two como a Terra Pro - 
metida e o local onde estamos como em um Egito, precisamos lem- 
brar que existe um caminho agreste entre os dois. A inclinação para 
partirmos e começarmos algo novo, em algum novo lugar, onde 
poderemos construir uma nova sociedade, nunca se concretiza; 
levamos conosco nossos velhos comportamentos e eles proveem 
contingências para o comportamento dos outros, em nosso novo 
ambiente. Podemos, portanto, começar aqui mesmo, no Egito, e 
lidar com a menor área possível, aquela com a qual temos contato 
contínuo e direto — nosso ambiente doméstico, nosso ambiente 
de trabalho, nossos projetos de lazer. Para nos ajudar em nossa 
rota através do caminho selvagem, sugiro que primeiro olhemos 
de perto para o nosso próprio comportamento. Somos capazes de 
separar os reforçadores tecnológicos dos reforçadores cerimoniais e 
virar as costas a estes últimos? O que podemos fazer para criar um 
ambiente de trabalho para os outros que os coloque em contato com 
reforçadores tecnológicos e minimize os efeitos de contingências 
cerimoniais? Ousamos dar afeição livremente e não a acumular 
para usá-la em troca de acesso ao controle cerimonial? Existe algum 
modo de organizarmos um sistema, mesmo que pequeno, no qual o 
comportamento de todos seja igualmente valorizado, no qual todos 
contribuam para o bem-estar do grupo, partilhando igualmente os 
produtos dos esforços do grupo? Em qualquer grau que consigamos 
atingir tais objetivos, estaremos progredindo pelo caminho agreste. 
Nós, os pouco afortunados, não faremos juntos a viagem, mas em 
nossos locais e momentos diferentes. Mas, graças aos modernos 
meios de comunicação, é possível nos beneficiarmos com o que 
outros aprendem ao fazer a viagem. Talvez sejamos capazes de 
utilizar os momentos em que nossos caminhos se cruzarem, para 
relembrarmos uns aos outros para o que exatamente estamos traba- 
lhando. E nós precisamos começar. O tempo é curto. (p. 8) 


8 

Descendência e delineamentos 
culturais: que futuro será o futuro 
de Pedro, Isabela e Miguel? 


Caso faça sentido que a vida harmônica entre indivíduos e seu 
ambiente exige parcimônia com o uso de recursos naturais, exige 
compatibilidade numérica entre organismos vivos e condições am- 
bientais disponíveis, exige simplicidade nas interações com o meio 
e contraindica repertórios predatórios em todas as dimensões, pare- 
ce plausível que algum planejamento possa gerar mudanças inten- 
cionalmente desejadas e vantajosas para a vida humana, no sentido 
da preservação da espécie. A pertinência do planejamento adquire 
grande visibilidade quando nos reportamos à história da civilização 
humana e deparamos com exemplos excepcionalmente graves de 
ocupações equivocadas e práticas culturais deletérias empreendidas 
pelos homens, tal como relatadas por Diamond (2005). É útil acom- 
panhar o exemplo histórico da Ilha de Páscoa. Sem planejamento, 
à mercê de uma disposição de contingências casual, o tempo e os 
dispêndios oneram a vida dos organismos vivos e do ambiente. 

Como vimos, o planejamento cultural instrumentaliza a pre- 
venção e, ao projetar a preservação de recursos, viabiliza condições 
melhores de vida para as gerações futuras. Ao permanecer na espe- 
rança e na espera de que algum magnânimo, honesto, transparente 
e competente gestor público apareça (ironicamente, por meio de 
uma “mutação” altamente improvável?) em algum território do 


174 KESTER CARRARA 


planeta, indiretamente concordamos e nos submetemos a uma ver- 
são personalista e idiossincrática de explicação do comportamento, 
que aguarda o desabrochar natural de qualidades eventualmente 
surgidas como uma índole imanente de algum iluminado. Toda- 
via, não se trata de conjecturar sobre um planejamento qualquer, 
uma vez que este também poderia ser tão contaminado por vieses 
inerentes à própria origem e escolha dos objetivos e estratégias de 
planejamento. “Ouvir” a demanda, no sentido que já explicitamos, 
parece constituir-se no primeiro de uma série de passos gradativos 
em relação a projetos múltiplos de planejamento de práticas cul- 
turais em muitos segmentos da vida (saúde, economia, segurança, 
transparência política, habitação, saneamento básico etc.) carentes 
de políticas (comportamentais) públicas devidamente orientadas 
pela lógica aqui configurada, com uma base descritiva das relações 
funcionais entre comportamento (ou práticas culturais) e ambiente 
( “físico - químico - biológico - social’ ’ ) . 

Para responder à pergunta sobre qual será o futuro de Pedro, 
Isabela e Miguel , 1 também é necessário, com Skinner, que nos ocu- 
pemos da pergunta: “Quis custodiet ipsos custodes?” [para os pro- 
pósitos deste livro, uma tradução possível seria: Quem controlará 
os controladores?]. Responder a essa pergunta apenas indicando 
nomes “cotados” para as funções de dirigentes parece estratégia 
equivocada. O que precisamos não é encontrar algum iluminado 
(ou alguns, ou muitos, para as várias funções públicas, os vários 
territórios, os vários países, as várias culturas) que se ocupe, como 
verdadeiro estadista (preocupado, de fato e essencialmente, com o 
Estado), de “cuidar” e “orientar”, para evitar que excessos sejam 
cometidos. Também não precisamos de motes equivocados e alie- 
nantes, típicos de uma visão despótica como aquela norteada por 
um lema como “ordem e progresso”. Do mesmo modo, a história 
tem mostrado todos os problemas inerentes aos períodos de do- 
mínio político marcado por segmentos sociais ou por dogmáticas 


1 Meus netos, aos quais, pelas óbvias razões do conteúdo, também dedico este 
texto. 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 7 5 


seitas religiosas. Os efeitos desses tipos de respostas à nossa per- 
gunta sobre “quem” controlará o “controlador” continuam pro- 
blemáticos, em primeiro lugar, porque não se trata de identificar 
“quem”, mas de que maneira, sob quais condições queremos que 
seja controlado o controlador; em segundo lugar, não se trata ne- 
cessariamente de uma solução dada numa relação do controlador 
no singular (um indivíduo, um grupo, uma seita, um segmento 
vinculado à questão “quem”) e dos controlados no plural. Como 
já sugerido, são preferíveis os procedimentos de planejamento que 
distribuam entre muitas pessoas ou instâncias (universidades, ór- 
gãos de comunicação, organizações não governamentais, colegiados 
independentes e outras formas de organização) o contracontrole. 

Esse tipo de objetivo, ao primeiro olhar, soa certamente como 
utopia pueril, no sentido de irrealizável. No entanto, trata-se de 
planejamento nos moldes do convite que nos faz Glenn em seu 
Metacontingencies in Walden Two [Metacontingências em Walden 
Dois] (1986), no sentido de que nos envolvamos gradativamente 
com as mudanças de “fácil” consenso em nosso cotidiano. Para 
tanto, a autora sugere que abramos portas e janelas do nosso dia a 
dia, façamos um contato analítico com nosso ambiente próximo e 
consideremos a possibilidade de planejar novas práticas culturais 
construtivas, solidárias, cooperativas - e, acrescentamos, altruístas. 

O “poder”, entendido como a detenção da instrumentalidade 
do controle da vida social, carece de redistribuição, tal como a renda 
e as oportunidades de acesso aos bens materiais. Planejar, nessa 
direção, implica responder à questão formulada sobre quem con- 
trolará o controlador com a proposição, viabilização e consolidação 
de práticas de contracontrole, amparadas em tecnologia comporta- 
mental e boa ética, distribuídas entre a população que se decepciona 
diariamente com mais de setenta por cento do noticiário dedicado 
a situações de violência, insegurança, má-formação ético-moral, 
corrupção e outros “sintomas” de sociedades sem planejamento. 

A Análise Comportamental da Cultura dispõe, atualmente, 
de um corpo de conhecimentos que, embora não esteja comple- 
to (como provavelmente nunca estará “pronto” o conhecimento 


176 KESTER CARRARA 


em qualquer disciplina), é bastante consistente, a ponto de fazer 
avançar estudos e alternativas práticas de intervenção apoiadas em 
uma cultura de paz e justiça social. Embora sempre bem-vindos os 
debates ideológicos sobre quais seriam as melhores opções para a 
instrumentalização de mudanças sociais na contemporaneidade, 
a necessidade dessas mudanças parece tão emergencial a ponto 
de, mais do que em qualquer postura hegemônica, se avançar em 
diferentes alternativas (com soluções concretas) para algumas das 
evidentes mazelas dos dias atuais. Não nos ilude uma esperança de 
soluções ideais, perfeitas ou definitivas. Em contrapartida, anima- 
mos a possibilidade de que, pensando a explicação dos fenômenos 
comportamentais (ou “psicológicos”) do ponto de vista das relações 
funcionais entre organismo e ambiente, seja viável o planejamento 
de novos comportamentos, novas ações, novas práticas culturais, 
novos ambientes vitais de que, acreditamos, necessitam Pedro, 
Isabela, Miguel e seus pares. 

Conceber “cultivares” como modelos paradigmáticos de for- 
mação ético-moral, seu desenvolvimento representado por cida- 
dãos transparentes, éticos e preocupados com o futuro coletivo, 
parece constituir missão de toda a Psicologia, para o que a Análise 
Comportamental da Cultura pode oferecer contribuições. Parece 
que a felicidade nem sempre está ligada a números do índice de 
desenvolvimento humano (IDH), embora estes sejam relevantes. 
Não se trata de assegurar heranças monetárias ou bens acumulados, 
embora ao norte capitalista, desafortunadamente, importe tanto 
que o acúmulo de economias determine a sobrevivência majoritária 
de algumas elites sociais. 

O legado maior que se pode assegurar via delineamentos cultu- 
rais parece estar na dimensão transversal dos objetivos ético-mo- 
rais que um bom processo educacional busque oferecer. Ensinar 
comportamentos pró-sociais, educar para uma convivência har- 
moniosa e não predatória com o ambiente, ensinar cedo a simples 
ética do compartilhar, do cooperar, do respeitar diferenças, do agir 
de maneira transparente, muito provavelmente permite evitar a 
violência, dispor de mais e melhores recursos naturais, conviver 


UMA CIÊNCIA SOBRE "COISA" ALGUMA 1 77 


respeitosamente, ser transparente, não corromper e não admitir ser 
corrompido. A Psicologia hoje tem uma tarefa muito diferente da 
que se concebia classicamente como pertinente ao seu escopo. Ao 
menos na acepção da abordagem comportamentalista, para além da 
atuação clínica, organizacional e educacional, seu espaço de atuação 
está em qualquer lugar, instância ou processo em que se identifique 
a existência de comportamento e práticas culturais: na economia, 
na saúde, na segurança, no planejamento ambiental, na forma- 
ção de dirigentes públicos, nas relações exteriores, no processo de 
planejamento de políticas públicas. 

Não anima esses argumentos uma visão marcada por ilusões 
ingênuas. Não se propõe uma visão relacional entre os fenôme- 
nos sob qualquer ardilosa crença de que as mazelas terrenas sejam 
passíveis de soluções simplistas, apoiadas num otimismo alienado. 
As soluções dos problemas complexos exigem planejamento igual- 
mente complexo, no sentido de que muitas variáveis entrelaçadas 
afetam as relações sociais e, por conseguinte, cada um dos fenôme- 
nos culturais a que nos referimos. No entanto, embora seja provável 
que as soluções se mostrem efetivamente complexas, elas não são 
necessariamente “complicadas” quando se enseja a possibilidade 
de começar pelas mudanças mais simples, do cotidiano do trânsito, 
do cotidiano ecológico, das ações ambientalmente sustentáveis, da 
cordialidade, da gentileza, do “bom dia!” e do “muito obrigado!”. 

Embora seja aqui expresso um otimismo contido, trata-se de 
otimismo. E esse otimismo parece inerente ao perfil de uma Análise 
Comportamental da Cultura comprometida com a construção de 
uma sociedade justa, igualitária e aberta a soluções alternativas con- 
cretas para uma vida coletiva de melhor qualidade. Nada diferente 
pode ensejar a atuação do analista comportamental no delineamen- 
to de práticas culturais. De fato, “coisa” alguma. 


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discovery of contingencies. European Journal of Behavior Analysis, 
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SKINNER, B. F. The concept of the reflex in the description of beha- 
vior. Journal of General Psychology, v.5, p. 427-58, 1931). 

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diretamente em publicação, com cerca de 60 páginas, em constante 
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Sobre o autor 


Kester Carrara. É bolsista de produtividade do CNPq, editor 
geral para Língua Portuguesa do periódico Acta Comportamen- 
talia, professor adjunto III do Departamento de Psicologia da 
Faculdade de Ciências da Unesp, campus de Bauru, São Paulo. 
Possui mestrado pela PUC-SP (1981), doutorado pela Unesp 
(1996) e livre -docência por essa mesma universidade (2003). 
Foi também professor de cursos de graduação e dos progra- 
mas de pós-graduação em Educação e Filosofia da Faculdade 
de Filosofia e Ciências, campus de Marília, da Unesp. Publicou 
diversos artigos em periódicos arbitrados, capítulos de livros e 
livros, sendo referenciado com frequência seu Behaviorismo Ra- 
dical: crítica e metacrítica, pela Editora Unesp. Tem orientado 
vários trabalhos de iniciação científica, mestrado, doutorado e 
pós-doutorado nas áreas de Educação e Psicologia. É pesquisa- 
dor e docente-orientador, atualmente, no Programa de Pós-gra- 
duação em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem, 
nota Capes 4, na Unesp-Bauru, programa do qual foi o primei- 
ro coordenador, entre 2005 e 2007. Participou, ao longo de sua 
carreira acadêmica, como docente universitário, desde 1974, e 
continua participando sistematicamente de projetos de pesquisa 
na área de Psicologia, especialmente sob o enfoque da Análise 


1 90 KESTER CARRARA 


do Comportamento. Atualmente, sua atuação prioriza História, 
Teorias e Sistemas em Psicologia, Epistemologia do Behavioris- 
mo Radical e Análise Comportamental da Cultura. Na dimen- 
são de gestão acadêmica, foi membro de diversos conselhos e 
comissões e várias vezes chefe de departamento de ensino. Foi 
diretor geral da Faculdade de Filosofia e Ciências, campus da 
Unesp de Marília, entre 2000 e 2003. Em 17 de agosto de 2015 
recebeu o Certificado de Acreditação Honorária e Vitalícia da 
Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comporta- 
mental, por "contribuições ao desenvolvimento da Análise do 
Comportamento na pesquisa, ensino, aplicação e divulgação da 
área no Brasil” (Certificado n 3 021/201 5). 


SOBRE O LIVRO 
Formato: 14 x 21 cm 
Mancha: 23,7 x 42,5 paicas 
Tipologia: Horley Old Style 10,5/14 


EQUIPE DE REALIZAÇÃO 
Coordenação Geral 
Maria Luiza Favret 


CULTURA 

ACADÊMICA^ 

ê d i t o à a